O primeiro apóstolo dos últimos tempos (cont)

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Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Em 1693 dirigiu-se a Paris, a fim de preparar-se para o sacerdócio. Deixava para trás a terra natal e a família, e quis percorrer a pé os mais de 300 km que o separavam da capital francesa. Este será invariavelmente seu modo de viajar, seja em peregrinação, seja em missão.

Já nesse remoto século XVII, Paris exercia sobre seus visitantes fascinante atração. Ao entrar na cidade, o primeiro sacrifício feito por Luís foi o da mortificação da curiosidade: estabeleceu um pacto com seus olhos, negando-lhes o lícito prazer de contemplar as incomparáveis obras de arte parisienses. Assim, quando partiu, dez anos depois, nada havia visto que satisfizesse seus sentidos.

Começou os estudos no seminário do padre Claude de la Barmondière, destinado a receber jovens pouco afortunados. Com a morte deste religioso, Montfort se transferiu para o Colégio Montaigu, dirigido pelo padre Boucher. A alimentação ali era muito deficiente e suas penitências tão austeras que lhe abalaram a saúde e o levaram ao hospital. Todos acreditavam que morreria, tão grave era seu estado, mas ele nunca duvidou da cura, pois sentia não haver chegado sua hora. E, de fato, logo se restabeleceu.

Quis a Divina Providência obter-lhe os meios para terminar os estudos no Pequeno Seminário de Saint-Sulpice. O diretor daquela instituição, conhecedor da fama de santidade do seminarista, “encarou como uma grande graça de Deus a entrada deste jovem eclesiástico na sua casa. Para prestar a Deus ações de graças, mandou rezar o Te Deum”.9 Entretanto, tratava-o com muito rigor, para pôr à prova suas virtudes; começou então para nosso Santo uma via de humilhações, que se prolongou ao longo de toda a sua vida.

Por fim, sacerdote!

Executava com a maior perfeição possível as funções que lhe eram designadas, quer nos serviços mais humildes ou nos estudos, quer na ornamentação da igreja do seminário ou como cerimoniário litúrgico, no serviço do altar.

Suas primeiras missões remontam a esta época. Algumas eram feitas internamente, para aumentar a devoção de seus confrades; outras consistiam em aulas de catecismo ou pregações, para pessoas de fora do seminário. “Possuía um raro talento para tocar os corações”: às crianças falava de Deus, da bondade de Maria, dos Sacramentos que precisavam receber; aos adultos pedia que santificassem seu labor com as mentes postas no Céu.

Esforçava-se por comunicar a prática da escravidão de amor a Nossa Senhora a seus condiscípulos e estabeleceu no seminário uma associação dos escravos de Maria. Todavia, não faltaram opositores que o taxaram de exagerado. Aconselhado pelo padre Louis Tronson, superior de Saint-Sulpice, passou a designar esses devotos como “escravos de Jesus em Maria”,11 e vai ser esta expressão que mais tarde ficará consignada no seu Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem.

“À medida que a aurora do sacerdócio despontava no horizonte, Luís Maria sentia mais do que nunca a necessidade de separar-se da Terra a fim de se recolher completamente em Deus”.12 Foi ordenado em 5 de junho de 1700, dia de Pentecostes, e quis celebrar sua primeira Missa na capela de Maria Santíssima, situada atrás do coro da Igreja de Saint-Sulpice, tantas vezes ornada por ele durante os anos passados no seminário. Blain, seu amigo e biógrafo, resumiu em quatro palavras suas impressões sobre aquele espetáculo sobrenatural: era “um anjo no altar”.

De Nantes a Poitiers

O espírito sacerdotal do padre Luís Maria sentia insaciável sede de almas e as missões em terras distantes o atraíam sobremaneira. Perguntava-se: “Que fazemos nós aqui […] enquanto há tantas almas que perecem no Japão e na Índia, por falta de pregadores e catequistas?”.

No entanto, tinha Deus outros planos para seu missionário naquele momento. Designado para exercer o ministério na comunidade de eclesiásticos Saint-Clément, em Nantes, na qual se pregavam retiros anuais e conferências dominicais para o clero da região, dirigiu-se para onde o mandava a obediência. Seu coração, porém, se dividia entre o desejo da vida oculta e recolhida e o apelo às missões populares, que tanto o atraíam.

Uma feliz experiência missionária em Grandchamps, nos arredores de Nantes, foi decisiva para tornar patentes seus dotes como evangelizador. Algum tempo depois, o Bispo de Poitiers o chamou para trabalhar no hospital desta cidade, pois uma curta permanência sua anterior por lá deixara tal rastro sobrenatural, que os pobres internos o solicitavam para capelão. Foi também nesta cidade que conheceu Catherine Brunet e Maria Luísa Trichet, com quem fundaria mais tarde, em Saint-Laurent-sur-Sèvre, as Filhas da Sabedoria.

Bênção papal: missionário apostólico

A ação missionária de São Luís Grignion acabou por despertar ciúmes, intrigas e até perseguições por parte dos que o deveriam defender, obrigando-o a regressar a Paris. Iniciava-se, assim, um longo caminho de dor que haveria de continuar nas subsequentes missões por ele empreendidas. A autenticidade de suas palavras e de seu exemplo despertavam tantas incompreensões e calúnias que o missionário decidiu peregrinar a Roma, a pé, a fim de procurar junto ao Papa uma luz que desse o rumo de sua vida. “Tanta dificuldade em fazer o bem em França e tanta oposição de todos os lados”15 o levaram a pensar se não seria mesmo o caso de exercer seu ministério num outro país.

Recebido com extrema bondade por Clemente XI, este o encorajou a continuar exercendo seu trabalho missionário na própria França. E para “lhe conferir mais autoridade, deu ao padre Montfort o título de Missionário apostólico”. 16 A pedido do Santo, concedeu o Pontífice indulgência plenária a todos os que osculassem seu Crucifixo de marfim, na hora da morte, “pronunciando os nomes de Jesus e Maria com contrição dos seus pecados”.

Fortalecido pela bênção papal e com o Crucifixo afixado no alto do cajado que o acompanhava nas missões, Grignion voltou às terras gaulesas e, impertérrito, sem nada temer das perseguições ou contrariedades, continuou semeando por toda parte o amor à Sabedoria Eterna e a Nossa Senhora, e a excelência do Santo Rosário. Converteu populações inteiras, mudou costumes licenciosos no campo, nas cidades e aldeias, levantou Calvários, restaurou capelas e combateu o espírito jansenista, tão disseminado na época.

No entanto, foi pouco compreendido por muitos eclesiásticos seus contemporâneos e viu desencadear-se sobre si uma onda de interdições. Prosseguia sua missão, sem desanimar, sendo acolhido pelos Bispos das Dioceses de Luçon e La Rochelle, na Vandeia, região que reagirá, no fim daquele século, à impiedade difundida pela Revolução Francesa, sem dúvida como fruto de sua semeadura.

Olhar posto no futuro…

Seria um erro, contudo, considerar São Luís Grignion apenas como um excelente missionário na França do século XVIII. Com o olhar posto no futuro, sua fogosa alma tinha por meta estender o Reino de Cristo, por meio de Maria, e para isto servia-se de uma forma de evangelização que hoje não poderia ser mais atual: “ir de paróquia em paróquia, catequizar os pequeninos, converter os pecadores, pregar o amor a Jesus, a devoção à Santíssima Virgem e reclamar, em voz alta, uma Companhia de missionários a fim de abalar o mundo através do seu apostolado”.

Num élan profético, previu ele a vinda de missionários que, por seu inteiro abandono nas mãos da Virgem Maria, satisfariam os mais íntimos anseios do Coração de seu Divino Filho: “Deus quer que sua Santíssima Mãe seja agora mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi”.19 Não obstante, se perguntava: “Quem serão estes servidores, escravos e filhos de Maria?”.20 Serão eles, afirmava, “os verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, aos quais o Senhor das virtudes dará a palavra e a força para operar maravilhas”. Antevia que seriam inteiramente abrasados pelo fogo do amor divino: “sacerdotes livres de vossa liberdade, desapegados de tudo, sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem irmãs, sem parentes segundo a carne, sem amigos segundo o mundo, sem bens, sem obstáculos, sem cuidados, e até mesmo sem vontade própria”.

São Luís Maria Grignion de Montfort não foi senão o precursor desses apóstolos dos últimos tempos. Modelo vivo dos ardorosos missionários que prognosticava, manteve a certeza inabalável de que, quando se conhecesse e se praticasse tudo quanto ele ensinava, chegariam indefectivelmente os tempos que previa: “Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariæ”23 — Para vir o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria. Reino este que, em germe, já habitava em sua alma, tornando-o o primeiro apóstolo dos últimos tempos.

9 BLAIN, op. cit., p.77.

10 GRANDET, Joseph. La vie de Messire Louis-Marie Grignion de Montfort, prêtre, missionnaire apostolique, composée par un prêtre du clergé, apud LE CROM, op. cit., p.93.

11 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n.244. In: OEuvres Complètes. Paris: Du Seuil, 1966, p.651.

12 LE CROM, op. cit., p.97.

13 BLAIN, op. cit., p.99.

14 LE CROM, op. cit., p.102.

15 BLAIN, op. cit., p.174.

16 LE CROM, op. cit., p.184.

17 Idem, ibidem.

18 Idem, p.107.

19 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, op. cit, n.55, p.520.

20 Idem, n.56, p.520.

21 Idem, n.58, p.521.

22 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Prière Embrasée, n.7. In: OEuvres Complètes, op. cit., p.678.

23 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, op. cit, n.217, p.635.

O primeiro apóstolo dos últimos tempos

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Corria o ano de 1716. A missão em Saint-Laurent-sur-Sèvre — que seria a última! — começara em princípios de abril. Consumido pelo trabalho, o dedicado pregador foi acometido por uma pleurisia aguda, mas não cancelou o sermão prometido para a tarde da visita do Bispo de La Rochelle, Dom Étienne de Champflour, em 22 de abril, no qual falou sobre a doçura de Jesus. Contudo, teve de ser levado do púlpito quase agonizante…

Passados alguns dias, pressentindo a morte que já previra para aquele ano, ele pediu que, quando o pusessem no ataúde, lhe fossem mantidas no pescoço, nos braços e nos pés as cadeias que usava como sinal de escravidão de amor à Santíssima Virgem. Em 27 de abril, o enfermo ditou seu testamento e legou sua obra missionária ao padre René Mulot. Continue lendo

Audiência na corte celeste

Ir.Lays Gonçalves de Sousa, EP

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“Os céus proclamam a glória do Senhor e o firmamento as obras de suas mãos!” (Sl 18,2) Ao contemplar uma noite de céu estrelado, um belo nascer do sol, o colorido da natureza, ou ainda, o vai e vem elegante das ondas do mar, facilmente o pensamento humano voa ao Criador de tantas maravilhas.

Que terá Deus criado de mais excelente? Poderíamos imaginar um astro esplêndido, desconhecido pelos homens e, quiçá, pelos Anjos. Qual seria a intensidade de seu brilho? De uma luminosidade superior a milhões de sóis e constelações inteiras, seria um astro que só despontaria no firmamento a cada mil séculos, sendo reservado apenas para a contemplação e gozo do Soberano Criador. Se Deus permitisse vermos a beleza posta nesta criatura mítica, certamente não haveria um só homem na face da Terra que não se encantaria com sua formosura.

Pois bem, este astro luminoso não é outro senão Maria Santíssima, apreciada com veemência no Cântico dos Cânticos: “Quem é esta que surge como aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?” (Ct 6,10).

Medianeira e Distribuidora Universal de todas as graças

Para compreendermos melhor o papel de Nossa Senhora, é preciso salientar sua posição enquanto Medianeira.

O conceito de mediador esteve presente na História desde tempos longínquos. De fato, a função dos Patriarcas e sacerdotes no Antigo Testamento era servir de elo entre o Criador e as criaturas. Atesta a própria Escritura a necessidade imprescindível de um defensor: Moisés intercedeu, no Sinai, pelo povo eleito (cf. Ex. 32, 7- 14); José, junto ao Faraó, em defesa de seus irmãos (cf. Gn. 47,1-2); Ester, em favor de seu povo, conseguindo tudo o que desejava (cf. Est. 7, 3).

Nas palavras de São Tomás, “é ofício próprio do mediador unir aqueles entre os quais se interpôs; pois os extremos se unem no meio”. 1

Com outros termos, explica Mons. João:

Pode ser que um inferior, chamado a se unir a um superior, eleja um mediador, para que o aproxime mais do superior. E esse mediador irá agir, irá fazer gestões, no sentido de que o inferior aspire mais pelo superior, e o superior se abra mais ao inferior. 2

Sabemos pelos escritos de São Paulo que “há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo homem, que se entregou como resgate por todos” (ITm 2, 5-6). O sacrifício oferecido pelo Salvador reconciliou-nos com o Padre Eterno trazendo-nos, assim, a graça e a justiça, sem a qual ninguém poderia ser salvo. Entretanto, tal afirmação não impede a consideração de medianeiros secundários entre Deus e os homens, subordinados à mediação principal e perfeita, ou seja, a de Cristo.

Entre o Padre Eterno e a criação, existe o Homem-Deus: inteiramente Deus, como as outras Pessoas da Santíssima Trindade; tão homem quanto cada um dos descendentes de Adão. Resta, contudo, um tal abismo separando Nosso Senhor Jesus Cristo das demais criaturas, que a pergunta se impõe: na ordem das coisas não deveria haver outro ser que, ao menos de algum modo, preenchesse esse hiato? 3

Quem seria capaz de, apenas com um sorriso afável, conquistar a benevolência do Altíssimo, entregando-lhe míseras orações e comprando-nos os favores desejados? “Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável”. 4

A criatura chamada a completar esse vácuo no conjunto da criação, a criatura excelsa, infinitamente inferior a Deus, mas ao mesmo tempo insondavelmente superior a todos os Anjos e a todos os homens de todas as épocas – é precisamente Nossa Senhora. […] Nossa Senhora é o grampo de ouro que une Nosso Senhor Jesus Cristo a toda criação, da qual Ela é o ápice e a suprema beleza. 5

São Bernardo compara a Santíssima Virgem a uma escada, pois, assim como não se sobe ao segundo degrau sem antes passar pelo primeiro, da mesma forma não podemos chegar a Jesus Cristo senão por Maria: “Filhinhos, esta é a escada dos pecadores, esta é a minha maior confiança, esta é toda a razão de minha esperança”. 6

Todos os benefícios que recebemos nos chegam pela intercessão de Maria! A razão é simples: “Porque Deus assim o quer. Tal é a vontade d’Aquele que dispôs que tudo tivéssemos por Maria”. 7

O famoso taumaturgo do século XX, Padre Pio de Pietrelcina, deixou-nos também um exemplo de ardoroso devoto de Nossa Senhora. Depois de Deus, dizia ele, era Ela “a grande veneração de sua vida”. 8 Com o enérgico temperamento que o caracterizava, afirmava continuamente: “Há pessoas tão tolas que pensam poder passar a vida sem o auxílio de Nossa Senhora”. 9

A fim de exortar os fiéis à devoção a Maria, contava uma saborosa historieta, a qual ilustra o quanto Ela ultrapassa as misérias humanas e é capaz de “povoar de santos os tronos vazios, que os Anjos apóstatas abandonaram e perderam por orgulho”.10 Eis suas pitorescas palavras:

Certo dia, Cristo passeava com São Pedro pelo Paraíso. Subitamente Ele notou a presença de vários indivíduos que Lhe pareciam totalmente deslocados naquele cenário.
– Olhe! – disse a São Pedro – Como estas pessoas conseguiram entrar?
– Não é minha culpa! – respondeu São Pedro – O Senhor deve perguntar a sua Mãe. Toda vez que Ela percebe que eu viro as costas, abre o portão e deixa todo mundo entrar! 11

A Mediação de Maria, como vimos, exerce grande influência sobre os homens. Ela conhece todas nossas necessidades, e incontáveis vezes Se adianta aos nossos pedidos. Quem seria capaz de expressar com palavras ou captar com a mente quão agradável é a Deus a oração de sua Mãe?

Gozando Ela da eterna bem-aventurança e participando do conhecimento de Deus, discerne no olhar do Altíssimo, como num espelho, as contínuas súplicas e necessidades dos homens, como também o desejo de Deus de socorrê-los por meio d’Ela. No convívio humano, há certas ocasiões em que o olhar profere sentenças mais sublimes que qualquer vocábulo. No céu, não passará o mesmo? O olhar de confiante súplica da Rainha dos Anjos é a perfeitíssima oração que socorre os degradados filhos de Eva, recebendo como agradável reposta o alcandorado e amoroso sorriso do Filho, impetrando, assim, as graças pedidas. 12

“Ah! Se eu pudesse publicar pelo universo esta misericórdia que tivestes comigo; se todo o mundo soubesse que, sem Maria, eu já estaria condenado […]”. Essa belíssima súplica de São Luís bem sintetiza a infinita clemência de Deus ao entregar-nos esta Arca preciosíssima. Ele estabeleceu entre Maria e os homens uma união indissolúvel, capaz de ultrapassar os séculos e percorrer as vastidões do mundo. Haveria algo superior? Com tal vínculo, quem não conquistará a Pátria Celeste? Qual filho não recorreria, através da oração, a essa Medianeira Onipotente?

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.26, q.1, ad 2.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Aula de Cristologia no Centro Universitário Ítalo Brasileiro-Unítalo. São Paulo, 14 nov. 2007. (Apostila).
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio, apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2. ed. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. v. I. p. 79.
4 SÃO BERNARDO, apud SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, [S. d.] n. 85. p. 90.
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. Op. cit. p. 79.
6 SÃO BERNARDO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 40.
7 Ibid. p. 39.
8 MCCAFFERY, John. Padre Pio: Histórias e Memórias. 4.ed. Trad. Rosângelo Paciello Pupo. São Paulo: Loyola, 2004, p. 215.
9 Loc. cit.
10 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit. n.28.p. 34.
11 MCCAFFERY. Op. cit. p. 215.
12 Cf. NEUBERT, apud ROYO MARÍN. La Virgen María. Op. cit. p. 202.
13 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Oração a Jesus. In: Preces. São Paulo: Retornarei, 2005, p. 207.

A CONFIANÇA NA MATERNALIDADE DE MARIA

Raphaela Nogueira Thomaz

“ Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo” (cf. Mt 1, 16). Eis o maior e mais elevado título de Maria: Mãe de Deus. Maternidade esta que, em afeto e desvelo supremos, se estende, como consequência, aos homens.

Com o cunho de seu gênio e hábil maestria em temas marianos, assim ensina São Luís Maria Grignion de Montfort: “A Santíssima Virgem, sendo necessária a Deus, duma necessidade chamada hipotética, devido à sua vontade é muito mais necessária aos homens para chegarem a seu último fim”. 1

De fato, logo no início do cristianismo, os primeiros cristãos aliaram, ao título de Mãe de Deus, invocar Maria enquanto Mãe dos homens.

De modo algum sairá confundido quem a Ela recorre e busca seus ensinamentos maternais. Nos escritos de Veremundo Toth em louvor a Maria, encontramos: “Com sua bondade, Maria cativa, até hoje, inúmeros homens que têm a certeza de que alguém que recorreu à proteção de Maria e implorou sua assistência nunca foi por Ela desamparado. E por que essa confiança ilimitada na Virgem Maria? Porque Ela nos ama, sendo nossa Mãe”. 2

A esse respeito, recordemo-nos das palavras do Divino Mestre:

E qual de vós porventura é o homem que, se seu filho lhe pedir pão lhe dará uma pedra? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que Lho pedirem. (Mt 7, 9-11).

Como age o Pai em relação aos que a Ele Se voltam, de igual modo, guardadas as devidas proporções, o faz a Rainha dos Céus. Foi justamente para demonstrar o amor que o Padre Eterno nos tem, que Ele quis dar-nos Maria como Mãe. Segundo as palavras de São João Paulo II em sua Encíclica Redemptor Hominis: “ […]esse amor aproxima-se de cada um de nós por meio desta Mãe e, de tal modo, adquire sinais compreensíveis e acessíveis para cada homem”. 3

A necessidade dos filhos e o socorro da Mãe Celeste

Declinaremos a seguir um fato narrado pelo doutor e moralista da Igreja, Santo Afonso Maria de Ligório, 4 em que vemos ilustrada a proteção maternal de Maria aos que A invocam, mesmo quando os réus se encontram em extremos de crimes e devassidão.

Conta-nos ele que, por volta do ano de 1604, em Flandres, dois jovens, descuidando-se dos estudos, começaram a levar uma vida desenfreada, entregando-se a toda espécie de libertinagem. Aconteceu que, certo dia, estando eles numa casa de perdição, ocorreu a um deles, chamado Ricardo retirar-se dali, enquanto o companheiro lá permanecia.

Ao chegar a casa e se aprontar para dormir, Ricardo lembrou-se de não ter ainda recitado umas Ave-Marias, como era seu costume, em honra da Virgem Maria. O sono o impedia a isso e pouco desejo tinha ele de o fazer, mas por fim, acabou concluindo essas orações e adormeceu. De repente, ouviu alguém bater fortemente à porta. Sem que tivesse tempo de se levantar, vê diante de si o companheiro, com a fisionomia horrivelmente desfigurada.

— Ai, pobre de mim! — exclamou aquele infeliz — ao sair daquela casa infame, veio um demônio e me sufocou. O meu corpo ficou no meio da rua, a minha alma está no inferno. Sabes, pois — acrescentou —, que o mesmo castigo te tocava a ti. Mas a bem-aventurada Virgem, pelo teu pequeno obséquio das Ave-Marias te livrou dele. Ditoso de ti, se tu souberes aproveitar deste aviso que a Mãe de Deus te manda por mim. 5

Dito isso, mostrou o condenado as serpentes que o mordiam, escondidas sob a capa, e a visão se desfez. Ricardo caiu em si, tocado pela graça, e enquanto dava glórias à Santíssima Virgem pela misericordiosa intercessão, procurava um meio de mudar de situação e expiar seus graves pecados. Neste momento, soaram os sinos de um mosteiro próximo, chamando os frades ao cântico de matinas, e Roberto entendeu ser aquele o local designado por Deus para sua vida penitente. Dirigiu-se ao superior do convento e após o relato da terrível visão, pediu-lhe acolhida. Para comprovar o fato, dois religiosos foram ao local por ele indicado e encontraram o corpo do infeliz, já escurecido pelo sufocamento.

Santo Afonso conclui o relato dizendo que após terem os franciscanos admitido em sua Ordem o jovem Ricardo, este levou uma vida exemplar entre os monges. Por fim, depois de intensos labores apostólicos nas Índias, foi conduzido em missão ao Japão, onde morreu mártir, por amor a Jesus Cristo.

É este episódio apenas um entre inúmeros, nos quais sempre se verificou o socorro de Nossa Senhora, corroborando nos fiéis uma grande confiança em sua Mãe e Rainha.

Este amparo maternal de Nossa Senhora a cada filho seu se manifesta com um matiz diferente, mas sempre sublime. Nesse sentido, a história de cada homem, quando dócil aos chamamentos da Mãe Celeste, pode ser resumida numa escalada de sublimes comunicações entre Mãe e filho: Maria e cada homem em particular. E quanto mais esta relação se torna íntima e intensa, tanto mais a vida adquire brilho. O ânimo da vida vem quando se toma contato com a maternalidade de Maria e se experimenta suas carícias, porque então as asas para o voo a Deus começam a nascer.

1SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 34.ed. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 42-43.
2 TOTH, Veremundo. Louvores à Virgem Maria: Reflexões sobre a Ladainha de Nossa Senhora. 3.ed. São Paulo: Vozes, 1998, p. 34.
3 JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Redemptor Hominis, n. 22.
4 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Glórias de Maria. 2.ed. Aparecida: Editora Santuário, 1987, p. 189.
5 Ibid.

Audiência especial

Ir Elen Coelho, EP

Voltemos nosso olhar ao passado, ao tempo das catedrais, dos castelos e dos grandes reis. Reportemo-nos a um edifício bem fortificado, erguido no cume de um imponente monte, rodeado de um lindíssimo jardim com fontes e alamedas. Do alto dessa fortaleza um poderoso monarca observa vigilante os seus queridos vassalos que, prestativos e obedientes, trabalham em harmonia para o bom funcionamento do reino.

Dentre esses súditos havia um camponês que tranquilamente lavrava sua terra e que subitamente observou que, por primeira vez naquele ano, a macieira produzira atraentes frutos, tanto pelo tamanho quanto pela cor. O camponês assombrado abandonou o trabalho e se pôs rapidamente a colher os frutos. Mas, qual a razão de tanta pressa? Por acaso, haveria de enviá-los a alguém?

Sem dúvida alguma, ao ver aquelas maçãs, o camponês se lembrou do senhor daquelas terras e resolveu presenteá-lo em retribuição por tudo o que dele havia recebido. Entretanto, o que almejava o camponês, mais do que ofertar aqueles frutos, era prestar um ato de vassalagem com o objetivo de contentar o monarca.

Assim sendo, o homem cuidadosamente colheu as maçãs, colocou-as numa cesta e se dirigiu ao castelo. Ao chegar, explicou ao guarda que vinha trazendo as primícias dos frutos do ano e pedia que fossem apresentadas à rainha para que ela, por sua vez as oferecesse ao rei quando lhe parecesse oportuno.

A rainha, conhecida por sua extrema bondade, entendeu bem a intenção do camponês. Ela própria tomou as maçãs, lavou-as, colocou-as numa bela bandeja de vermeil com incrustações de rubis e esmeraldas. Ordenou, pois, ao mordomo que a trouxesse quando ela estivesse à mesa com sua majestade, a fim de lhe apresentar os frutos. E assim foi feito. Quando chegou o momento do rei se servir das frutas, a própria rainha tomou a bandeja e a apresentou a seu esposo, explicando-lhe qual era a sua proveniência. Aquelas maçãs, ofertadas pelas mãos da rainha, haviam tomado outro colorido e mais intimamente tocado o coração do rei.

O rei, tomando uma das maçãs, observou-a e, satisfeito disse à rainha que este gesto do camponês lhe havia agradado sobremaneira, e que desejava recompensá-lo. A rainha sorriu e constatou que o desejo do camponês havia se realizado.

Não poderia o camponês ter apresentado diretamente ao rei as frutas que havia colhido? Teria necessidade de fazê-las passar pelas mãos da rainha? Absolutamente falando, não. Contudo, quão menos teria agradado ao soberano tê-las recebido diretamente das mãos deste pobre operário!

Pois bem, essa história — baseada em um ensinamento de São Luís Maria Grignion de Montfort 1 — nos mostra quão importante é o papel da mediação em nossa vida: nossas orações e súplicas passam a ter uma audiência especial diante Deus quando sabemos nos servir da Rainha do Céu e da Terra. Ela, por sua cooperação no Sacrifício Redentor de Cristo e por sua maternidade espiritual, mereceu o título de medianeira e distribuidora universal de todas as graças 2.

1 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n.147. 31.ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 142.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. 2.ed .São Paulo: Loyola, 2011, v.II, p. 125.