As três ofertas

 Ir Patricia Rivas, EP

3º ano de Ciências Religiosas

Conta-se, nas crônicas da Ordem dos Menores, que, certa vez, Nosso Senhor apareceu a São Francisco de Assis, pedindo-lhe três ofertas. Ao que o santo respondeu: “Não tenho nada para oferecer, porque já me entreguei todo a Vós, e tudo o que me pertence vos pertence. O único que tenho é esta túnica e esta corda, que também são vossas”.

Nosso Senhor insistiu, dizendo-lhe que colocasse a mão no peito e tirasse daí uma oferta. São Francisco obedeceu, e tirou de seu peito uma moeda de ouro tão brilhante como nunca vira antes. Entregou-a a Nosso Senhor, que lhe ordenou repetir o gesto, e, pela segunda vez, o Santo encontrou uma moeda. Faltava apenas a terceira oferta. Nosso Senhor mandou o monge fazer o mesmo pela terceira vez e, assim, completaram-se  as três ofertas pedidas.

Nosso Senhor então lhe explicou que as três moedas simbolizavam a dourada obediência, a preciosa pobreza e a formosa castidade. São Francisco então declarou que em nada lhe remordia a consciência pelo fato de guardar tais moedas no peito…

No dia de nosso Juízo, quando formos cobrados por Deus, poderemos dizer como este grande Santo que tudo o que temos guardado conosco em nada nos remorde a consciência?

 

O Orgulho de São Francisco?

Ir. Maria José Vicmary Feliz Gómez

Avisado da vinda de São Francisco, todo o povo o esperava, desde muito cedo, às portas da cidade. Muitos tinham ido, ainda na escuridão da noite, na esperança de obter os melhores lugares e, assim, ficar mais próximo do santo na sua passagem. Alguns rezavam o terço, outros faziam as mais diversas promessas, desejosos de receber a graça de algum convívio…

– Quem sabe ele olha em nossa direção? – exclamavam com entusiasmo alguns dos presentes.

– Ou melhor! Quem sabe conseguimos algum cumprimento? – comentavam outros.

De repente, entre aplausos, exclamações e grande alegria, São Francisco entrou no povoado. Aqueles que se encontravam mais perto aproximaram-se dele para oscular- lhe o hábito, as mãos e os pés, sem encontrar da parte do santo nenhuma resistência. Porém, o frade que o acompanhava julgou que, aceitando tais honras, São Francisco pecava contra a virtude da humildade. Foi tão forte a tentação que, finalmente, confessou seus pensamentos ao santo.

– Estas pessoas, meu irmão, nenhuma coisa fazem à altura da honra que deveriam render – respondeu-lhe São Francisco.

Ao ouvir essa resposta, o frade ficou ainda mais escandalizado, pois não entendeu as palavras do santo. Então, vendo sua perplexidade, São Francisco disse-lhe:

– Meu irmão, esta honra que me vedes aceitar, não a atribuo a mim, senão que a transfiro a Deus, pois d’Ele é, e eu fico no mais profundo do meu nada. Eles lucram com isto, pois reconhecem e honram a Deus na sua criatura.

Que Nossa Senhora nos conceda a graça de nunca perder a oportunidade de glorificar a Deus através dos modelos de virtude que a Divina Providência coloca diante de nossos olhos, para que, assim, de enlevo em enlevo, galguemos a montanha da admiração e nos transformemos naqueles mesmos que admiramos.

O segundo Fundador

Irmã Luciana Niday Kawahira, EP

São Francisco e São Boaventura,

São Francisco e São Boaventura,

Ao entardecer do dia, enquanto o Sol deitava seus últimos raios no horizonte, um frade franciscano escrevia no recolhimento de sua cela. Habituado tanto a travar disputas na Universidade quanto a apresentar-se voluntariamente para lavar pratos e panelas, ou a partir cheio de zelo para pregar, naquele momento encontrava-se ele escrevendo a vida de seu Fundador, a pedido de seus irmãos de vocação.

Vindo de longe, ali chegou um dominicano — cognominado o Doutor Angélico — que resolvera visitar seu amigo. Entretanto, deteve-se junto à porta, sem coragem de interrompê-lo. Com uma admiração própria às almas virtuosas, sussurrou ao ouvido de quem o acompanhava: “Retiremo-nos e deixemos um Santo escrever a vida de outro Santo”. 1

Tal foi um dos memoráveis encontros entre estas duas grandes figuras do século XIII, que brilharam não só por sua ciência teológica, mas, sobretudo, pela grandeza de alma: São Tomás de Aquino e São Boaventura, de cujas virtudes heroicas, forjadas na escola de São Francisco de Assis, contemplaremos alguns traços a seguir.

Entre o Céu e a Terra

Por volta do ano de 1221, o casal João da Fidanza e Maria Ritelli foi obsequiado pela Providência com um filho. Introduziram-no logo no seio da Igreja Católica, pelas águas regeneradoras do Batismo, e deram-lhe o mesmo nome do pai. Vivia em Bagnoregio, antiga cidade dos Estados Pontifícios, localizada no alto de uma colina. Continue lendo

Pobreza para os homens, riqueza para Deus

Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Eis uma das maravilhas a serem admiradas em Assis: extremos opostos que não entram em conflito, mas se equilibram de forma prodigiosa.

Ao percorrermos o Velho Continente, não raro encontramos lugares intensamente marcados pelas virtudes das pessoas que ali viveram. Há neles um perfume imponderável de santidade que confere ao ambiente certa unção, um ar de sobrenatural que se irradia até mesmo pela natureza. Paradigma disso é Assis, ligada de modo indelével a seu filho mais ilustre: São Francisco.

Ainda hoje o local convida a imaginar o Poverello passeando pelos aprazíveis campos dos arredores, encantando-se com as belezas naturais e, a partir delas, compondo seu Cântico das Criaturas, no total despego dos bens deste mundo: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!” (Mt 5, 3).

Como ponto auge desta cidade-relicário, no alto da Collis Paradisi, a Colina do Paraíso, se eleva a imponente basílica que abriga sua sepultura e reflete o espírito deste varão de sóbrio aspecto, inflamado de zelo pela Sagrada Eucaristia.

Tal como sua alma, o prédio é austero em sua exterioridade, mas esplendoroso por dentro. Em meio à euforia das cores e das luzes que entram tamisadas por magníficos vitrais, seus arcos góticos e sua majestade apontam para o alto, levando o visitante que ali tem a graça de estar a uma atitude de enlevo e adoração “Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro”, e que deve receber “louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos” (Ap 5, 13).

As paredes do templo, repletas de encantadores afrescos, registram inúmeros fatos da vida daquele que, apesar de não se haver considerado merecedor da dignidade sacerdotal, exortava ao amor e à veneração ao Sacramento do Altar. Pregando a pobreza para os homens, São Francisco desejava para o culto toda riqueza e grandiosidade.

Tem-se a impressão de que o esplendor do templo atende aos rogos do Santo Fundador a seus filhos espirituais: “supliqueis aos clérigos que sobre todas as coisas honrem o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo […]. Os cálices, os corporais, os ornamentos do altar, tudo quanto pertence ao Sacrifício, tenham como coisas preciosas. E se, nalguma parte, o Santíssimo Corpo do Senhor estiver com muita pobreza abandonado, que eles, como manda a Igreja, O coloquem em lugar precioso e bem guardado”. 1

“Eis uma das maravilhas a serem admiradas em Assis: extremos opostos que nascem dos troncos benditos da Igreja, que não entram em conflito, mas se equilibram de forma prodigiosa, manifestando, pelos fulgores da alma de um Santo, algumas das infinitas perfeições do Criador”. 2

1 SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Primeira Carta aos Custódios, n.2-4. In: Escritos. Braga: Franciscana, 2001, p.100-101.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Cintilações da alma franciscana. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano III. N.31 (Out., 2000); p.34.

Revista Arautos do Evangelho n.142 out 2013

Pobreza e elevação de espírito

Ir. Angela Maria Tomé, EP

Espécime de um gênero quase esquecido nestes tempos de omnipresença da informática, a carta manuscrita é um dos documentos mais reveladores da personalidade humana. Por ela pode-se descortinar com segurança o interior de quem escreve. A caligrafia e a linguagem, mas também o papel, o tipo de caneta, a cor da tinta e inúmeros outros detalhes escolhidos sem maior atenção são elementos que indicam as filigranas do pensamento de alguém.

Assim, biógrafos e hagiógrafos se debruçam com empenho sobre esses preciosos documentos que lhes manifestam, com riqueza de detalhes, traços da alma das personagens por eles analisadas.
Correspondência entre duas santas

Nesta perspectiva, revela-se de especial interesse a leitura e contemplação das cartas de Santa Clara de Assis, humilde e obediente filha espiritual de São Francisco.

No ano de 1234 recebeu ela uma consoladora notícia, que logo se espalhou pela Europa: uma jovem de sangue real, a princesa Inês, filha do Rei da Boêmia, havia decidido abandonar as riquezas e comodidades próprias de sua elevada categoria e tomar o hábito entre as filhas de Santa Clara.

Como a ordem ainda não possuía nenhum mosteiro em Praga foi preciso enviar para ali um grupo de religiosas formadas diretamente pela fundadora, a fim de erigi-lo. E foi preciso também um volumoso carteio, por meio do qual a santa procurava transmitir à nobre discípula, mais do que as simples constituições, o espírito da seráfica Ordem.

Escritas sob influência de uma grande graça mística

As cartas enviadas por Santa Clara para sua filha espiritual dão testemunho de um relacionamento celestial e, por sua elevação, parecem ter sido escritas sob a influência de alguma grande graça mística… ou quiçá fosse essa a clave habitual em que vivia a santa. A maneira nobre, poética, elegante, sobretudo admirativa e caridosa, com a qual Santa Clara se dirige à sua discípula, mostra bem a retidão de sua alma e o trato cheio de respeito e ternura por suas subordinadas. E a linguagem revela, ao lado de um despretensioso despojamento, um espírito cultivado, habituado à consideração das verdades eternas.

Sua autora as redigiu no estilo cerimonioso daqueles felizes tempos em que, segundo a expressão cunhada por Leão XIII, “a filosofia do Evangelho governava os Estados”. Estilo revelador de uma mentalidade que via em cada ser humano um reflexo único das qualidades divinas. Levam-nos essas cartas a considerar não só a dignidade principesca da futura Santa Inês de Praga, mas sobretudo as insignes virtudes que a tornavam merecedora dos elogios de sua fundadora.

Linguagem pervadida de humildade e pureza

Julgue o leitor por si mesmo a beleza das palavras de Santa Clara, nas quais transparece não apenas sua humildade, mas também sua alma admirativa e poética. E diga depois se, ao lê-las, não sentiu o perfume da santidade desses antigos tempos.

Assim inicia ela sua primeira missiva: “À venerável e santa virgem, Dona Inês, filha do excelentíssimo e ilustríssimo rei da Boêmia, Clara, indigna ancila de Jesus Cristo e serva inútil das Damas enclausuradas do mosteiro de São Damião, sua súdita e serva se recomenda inteiramente com especial respeito e lhe deseja que obtenha a glória da felicidade eterna”.

A linguagem, pervadida de humildade e pureza, respeita a condição principesca da destinatária e ao mesmo tempo a faz voltar os olhos para os títulos eternos que deve almejar.

Encerra a carta com um pedido: “Suplico-vos ainda no Senhor, tanto quanto posso, de incluir em vossas santíssimas orações esta vossa inútil serva e as outras irmãs deste mosteiro, que tanto vos veneram, para podermos, com esse auxílio, merecer a misericórdia de Jesus Cristo e convosco nos rejubilarmos na eterna contemplação. Saudações no Senhor. Rezai por mim”.

Convívio epistolar que preludia o convívio no Céu

Dois anos depois, escreve-lhe novamente e assim se exprime: “À filha do Rei dos reis, à serva do Senhor dos senhores, à digníssima esposa de Jesus Cristo e por isso nobilíssima rainha Dona Inês, Clara, indigna e inútil servidora das Damas Pobres, envia saudações e votos de que viva sempre na perfeita pobreza”.

É admirável o modo sutil como Santa Clara ressalta à filha do rei da Boêmia sua condição de filha do Rei dos reis, título mais elevado que qualquer outro. E como, chamando-a de “nobilíssima rainha”, recorda-lhe sua união com Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A ideia de manifestar-lhe “saudações e votos de que viva sempre na perfeita pobreza” faz resplandecer aos olhos de sua filha espiritual, entre tantas outras virtudes, a do desapego dos bens terrenos e total despretensão de espírito. Essa carta prossegue toda repassada de angelicais conselhos para que as irmãs perseverem na prática da santa pobreza constitutiva de seu carisma.

“Lembra-te de tua mãe pobrezinha”

Outros dois anos haviam decorrido quando Santa Inês recebeu da fundadora mais uma carta, em cujo início se lê: “À senhora veneradíssima em Cristo, irmã digna de amor mais que todas as criaturas mortais, Inês, irmã do ilustre rei da Boêmia, mas agora sobretudo irmã e esposa do supremo Rei dos Céus, Clara, humílima e indigna ancila de Cristo, e servidora das Damas Pobres, almeja salutar alegria no Autor da salvação e tudo quanto de melhor ela possa desejar”.

Finalmente, em 1253, poucos meses antes de falecer, Santa Clara assim se dirige à sua filha espiritual: “Àquela que é a metade de sua alma e santuário de um singular e cordialíssimo amor, à ilustre rainha, esposa do Cordeiro e Rei eterno, a Dona Inês, sua queridíssima mãe e filha entre todas preferida, Clara, indigna serva de Cristo e inútil servidora das servas do Senhor residentes no mosteiro de São Damião, em Assis, envia saudações e votos de que possa entoar, em companhia das outras santas virgens, o cântico novo diante do trono de Deus e do Cordeiro, e acompanhar o Cordeiro por todos os lugares aonde Ele vá”.

Pressentindo o fim de sua existência, assim se exprime Santa Clara a Santa Inês: “Lembra-te de tua mãe pobrezinha, sabendo bem que conservo de ti uma cara recordação indelevelmente impressa em meu coração, pois para mim és de todas a mais querida. Que mais poderia ainda dizer-te? É melhor renunciar à palavra humana, incapaz de manifestar meu afeto; somente a alma, com sua linguagem silenciosa, conseguiria fazer-te senti-lo”.

* * *

A leitura dessas cartas enche-nos de consolação e leva-nos a desejar uma convivência semelhante entre todos os nossos irmãos na Fé. E esse relacionamento transbordante de caridade fraterna, nesta Terra, já é uma parte de “todo o bem digno de ser desejado”. A diversidade de caracteres e a imaginação humana, assistida pela graça, hão de encontrar expressões de afeto e de amor mútuo entre os irmãos quando seus olhos interiores estiverem voltados para o sobrenatural, como nos dá exemplo a grande Santa Clara. Cada um manifestará a vida de Deus em sua alma e seu divino eco repercutirá entre todos, fortalecendo-os no combate e tornando-os reconhecíveis como discípulos de Jesus.

O convívio entre os santos

Ir. Angela Maria Tomé, EP

Dos incontáveis deuses da Antiguidade, qual deles dava a seus adoradores a honrosa qualificação de “amigo”? Qual estabeleceu o mútuo amor como padrão de relacionamento entre eles?

Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35). Este luminoso ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo tem sido confirmado de várias maneiras ao longo dos dois mil anos da História da Igreja, especialmente através do comportamento dos santos, modelos de vida propostos pela sabedoria da Esposa Mística de Cristo à imitação de todos os fiéis.

O Filho da Virgem Maria operou na Terra tal transformação que é difícil ao homem hodierno fazer ideia de como era o mundo antes d’Ele

Um Deus que Se faz amigo e irmão

Logo de início, chama a atenção, no tocante ao relacionamento humano, o radical contraste entre a doutrina do Divino Mestre, com seu consequente modo de viver, e a mentalidade do mundo antigo.

Dos incontáveis deuses da Antiguidade, qual deles dava a seus adoradores a honrosa qualificação de “amigo”? Eram, ao contrário, prepotentes e egoístas, sujeitos às mesmas paixões desregradas dos seus seguidores, com os quais tinham um trato rude. Não faltavam sequer aqueles que exigiam sacrifícios humanos. Dessa aberração nem o povo eleito ficou isento, como afirma o Salmista: “Prestaram culto aos seus ídolos, que se tornaram um laço para eles. Imolaram os seus filhos e suas filhas aos demônios. Derramaram o sangue inocente: o sangue de seus filhos e de suas filhas, que aos ídolos de Canaã sacrificaram” (Sl 105, 36-38).

O Filho da Virgem Maria operou na Terra tal transformação que é difícil ao homem hodierno fazer ideia de como era o mundo antes d’Ele. Só Cristo, Deus e Homem verdadeiro, pôde dizer: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15, 15). Deu-nos o sublime exemplo de um Deus cheio de amor por seus adoradores, a ponto de torná-los irmão; dar-lhes sua própria Mãe para ser também Mãe de cada um deles; de sacrificar sua vida, até à efusão da última gota de sangue, para remi-los. Nada mais compreensível, portanto, do que prescrever-lhes como norma de conduta um novo Mandamento: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado” (Jo 13, 34).

Esposa do Espírito Santo e perfeitíssima discípula do Verbo de Deus encarnado, Maria Santíssima cumpriu com toda integridade e brilho esse Mandamento antes mesmo de ele ser formulado pelo Divino Mestre. Embora os Evangelistas tenham sido muito comedidos em narrar fatos de sua vida, sabe-se que a visita a Santa Isabel foi um refulgir do amor de Deus transbordante do seu Imaculado Coração. Pode-se dizer o mesmo de sua intervenção nas bodas de Caná, livrando os noivos de uma constrangedora dificuldade. E quantos outros atos de amor ao próximo terão sido praticados por Ela, na esteira dourada das pegadas de seu Filho? Desses, só na eternidade teremos conhecimento.

São Francisco e o Irmão Bernardo

Felizmente para nossa edificação, é conhecida em detalhes a vida de muitos santos que seguiram os passos do Jesus Cristo Nosso Senhor.

Por exemplo, lê-se nas famosas Fioretti — compilação de “fatinhos” da vida de São Francisco de Assis — que certo dia ele foi à procura de Frei Bernardo, seu primeiro discípulo, com o qual desejava conversar. Chegando ao local onde este costumava orar, chamou-o por três vezes, sem obter resposta. Um pouco abatido, por julgar que o Irmão evitava sua companhia, o Poverello retirou-se. No caminho de volta, o Senhor lhe revelou que Frei Bernardo estava naquele momento num colóquio com Deus, e por isso não o havia ouvido. São Francisco voltou então e pediu-lhe humildemente perdão por haver pensado mal dele.

Contudo, a admiração deste discípulo por seu fundador era tão grande que ele nem queria ouvir o pedido de perdão. Mas São Francisco ordenou-lhe, em nome da santa obediência, que, como penitência por aquele mau pensamento, ele pisasse três vezes sobre seu pescoço e sua boca dizendo: “Aguenta aí, vilão, filho de Pedro Bernardone, de onde te vem tanta soberba, sendo tu a mais vil das criaturas?”.

Agindo da maneira mais delicada possível, Frei Bernardo executou a ordem. Em seguida, pediu a seu fundador que, por caridade, lhe prometesse algo: sempre repreendê-lo e corrigi-lo asperamente por seus defeitos, quando estivessem juntos. Daí em diante São Francisco passou a falar o mínimo possível com ele, pois o tinha em conta de homem muito virtuoso e santo, e por isso julgava-se indigno de corrigi-lo.

Um almoço singular

Outro fato muito edificante deu-se entre São Francisco e Santa Clara. Como se sabe, ela foi atraída à vida religiosa por ele e renunciou a uma situação cômoda no meio das riquezas, para abraçar a vocação franciscana. Apesar de ter frequentes palestras e reuniões com seu pai espiritual, para ficar bem formada no espírito da Ordem, ela manifestava o desejo de, um dia, partilhar com ele uma refeição. Mas o santo, por temor de dar-se a si mesmo esse deleite, sempre recusava. Seus irmãos e discípulos instavam com ele para atender ao pedido da pobre dama, uma vez que ela tinha renunciado a tudo por amor a Deus e era tão santa. São Francisco, muito cordato, acedeu: “Se vos parece que devo concordar, também a mim parece”. Convidou-a então para um almoço em Santa Maria dos Anjos, a igreja onde ela havia feito seus votos e cortado seus cabelos, símbolo de sua entrega total a Deus.

No dia combinado, lá foi ela, felicíssima, acompanhada de uma irmã. A pobre refeição foi servida, sentando-se à mesa São Francisco, Santa Clara, sua irmã e outro frade. Os demais religiosos da comunidade se aproximaram da mesa para acompanhar a refeição. Tão logo os comensais começaram a falar das coisas de Deus com suavidade, alegria e elevação, eles mesmos e todos quantos assistiam foram tomados pela abundância da graça divina e ficaram extasiados em Deus. Vistos de longe, a casa e o bosque ao lado pareciam estar ardendo em chamas, e muitas pessoas ali acorreram, temendo tratar-se de um incêndio. Nada encontraram, porém, como causa de tanta luz, a não ser um conjunto de santos que, com fisionomias alegres e embevecidas, se entretinham num êxtase comum e com isso glorificavam o Senhor.

* * *

A consideração desses singelos episódios não nos traz alívio e consolação? São manifestações de personalidades inocentes, despretensiosas, tão distantes das preocupações do mundo, que já vivem na atmosfera do Céu.

O sorriso do Divino Infante

Gabriela Victoria Silva Tejada

Tradicionalmente, é costume montar presépios quando os abençoados tempos natalinos se aproximam. Entretanto, qual a origem deles?

Corria o ano de 1223. A neve cobria, como um branco manto, a pequena cidade de Greccio, no centro-sul da Itália. Os sinos anunciavam com alegria a noite de Natal. Todos os habitantes da região, em sua maioria camponeses, se encontravam em torno de São Francisco, que tentava com ardor explicar-lhes o mistério do nascimento do Divino Menino Jesus. Todos escutavam com atenção, entretanto… era patente que não estavam entendendo.

O grande santo procurou, então, um modo mais didático para explicar-lhes. Mandou trazer uma imagem do Menino Jesus, uma manjedoura, palhas, um boi e um burrinho. Os assistentes, muito surpreendidos, saíram rapidamente à procura de todo o pedido. Em pouco tempo, o Santo compôs a cena: no centro, a manjedoura com as palhas; ao fundo, os dois pacíficos animais. Faltava apenas a imagem do Menino Jesus. Com grande devoção, São Francisco tomou-a nos braços para depositá-la na manjedoura.

Milagre! Ante os olhos maravilhados de todos a imagem toma vida e o Menino sorri para São Francisco, que O abraça com terna afeição. De imediato todos se ajoelham numa profunda atitude de adoração.

O Menino Deus sorri uma vezes e abençoa a todos. Poucos instantes depois, havia sobre as palhas uma simples imagem inanimada… Mas, na alma de todos, permaneceu a lembrança viva do Menino Jesus. Ele lhes havia sorrido!

A partir de então, o povo de Greccio armava todos os anos o “presépio de São Francisco”, com a cândida esperança de que o milagre se renovasse. Nunca foram enganadas suas esperanças. Ainda que a imagem não voltasse a tomar vida, a Virgem Maria lhes falava, especialmente, no fundo das almas, derramando sobre eles abundantes graças. Que graças? As graças próprias à liturgia natalina.

Entretanto, apenas os habitantes de Greccio são objeto de tais graças? Não! Em todos os presépios do mundo está presente o Menino Jesus, com Maria sua Mãe, e São José, à espera de que nos aproximemos para, também nós, recebermos um sorriso e uma bênção.

É justo por esse motivo que se espalhou pelo mundo católico o costume de montar presépios no Natal.

Deste modo, caro leitor, o Menino Jesus está nos convidando, à imitação dos habitantes de Greccio, a ajoelhar-nos com verdadeira piedade diante d’Ele no presépio e, por intercessão da Virgem Maria, pedir para todos nós esse sorriso e essa bênção que comunicam a felicidade e a paz.