Se conhecesses o dom de Deus

Ir Nágela Shayenne da Silva Pinheiro, EP

Certa vez, o grande pintor e escultor Michelangelo esculpiu uma estátua que representava Moisés. A imagem era de tamanho e espessura naturais e o olhar, idêntico ao do modelo. Tão real parecia que, ao contemplá-la, não se conteve e bradou: “Parla! Perché non parli?” (Fala! Por que não falas?) Ele foi capaz de fazer uma escultura perfeita, mas nela não conseguiu injetar a vida. [1]

Valendo-nos da metáfora acima, poderíamos dizer que todo homem, ao nascer, é uma estátua de Deus, pois não passa de mera criatura dotada de vida racional. Entretanto, “Deus, por sua infinita bondade, ordenou o homem a um fim sobrenatural, isto é, a participar dos bens divinos que sobrepujam totalmente a inteligência da mente humana, pois, em verdade, ‘nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem provou o que Deus preparou para os que O amam.” (1 Cor 2, 9) (Dz 1789).

Este fim sobrenatural dado por Deus àqueles que Ele criou como “sua imagem e semelhança” (Gn 1, 26) é a participação do homem na sua vida divina.

Infinitamente superior a este escultor, é Deus que deseja comunicar sua própria vida aos homens, criados livremente por Ele, para fazê-los, no seu Filho único, filhos adotivos (cf. CCE 54).

Mas, infelizmente o homem não permaneceu fiel às exigências impostas por sua elevação gratuita à ordem sobrenatural. Nosso primeiro pai, Adão, constituído “em santidade e justiça” (Dz 788), possuía a ciência infusa e o dom da integridade, pelo qual nenhum sofrimento o afetaria e passaria desta vida à eternidade sem passar pela morte. Ademais, tinha em altíssimo grau as virtudes e os dons do Espírito Santo.

Contudo, o varão predileto recebeu de Eva o fruto proibido e o comeu. Estava consumado o pecado original. No mesmo instante, foi ele despojado de todos os privilégios paradisíacos e abriu-se uma era de pobreza, de cativeiro, de cegueira e de opressão para todos os seus descendentes. Fecharam-se as portas do Céu para a humanidade, restando apenas dois destinos: limbo ou inferno.[2]ida

Todavia, séculos depois:

Deus enviou o seu anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. O Anjo disse-lhe: “Eis que conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus”. Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois eu não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: ‘O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Então, disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1, 26-28.31.34-35.37)

Neste mesmo instante, o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo, encarnou-Se nas puríssimas entranhas desta Virgem Santíssima, sem deixar de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A divina justiça exigia uma reparação; por isso, tendo Se encarnado, quis Ele assumir sobre Si os crimes e misérias de toda a humanidade. Iniciou-se, deste modo, a redenção do gênero humano.[3]

A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14) para que todos pudessem ter vida, e não uma vida meramente natural, mas sim a sobrenatural, a graça. Deus quis nos divinizar, conforme afirma São Tomás.[4]

Explica Monsenhor João Clá Dias que isso se dá não à maneira de um reboco em uma parede, que não a modifica no seu interior, mas como se alguém injetasse ouro nos tijolos, a ponto de se poder dizer “parede de ouro”. Esta figura, segundo o referido autor, é pobre para exprimir o que se passa em uma alma quando lhe é infundida a vida divina.[5]

E é através da instituição dos Sacramentos feita pelo Divino Redentor que o homem pode usufruir dos benefícios que Deus lhe reservou desde toda a eternidade.

Atualmente postos em uma crise de decadência moral e dos costumes, os cristãos desconhecem os sacramentos – batismo, crisma, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio –, julgando muitas vezes serem práticas familiares, ou até mesmo supersticiosas, não compreendendo os benefícios, as graças que por meio deles são dispensadas e os auxílios que eles proporcionam para os combates espirituais que todo batizado trava ao longo de sua vida.

Vive-se em um  mundo ávido de paz exterior, mas que não orienta e direciona as almas para um píncaro de perfeição que traria consigo a solução de muitos problemas.

 [1] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Eternidade feliz. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. I. p. 111.

[2] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Jesus prega em Nazaré. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano C. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. VI. p. 43.

[3] Cf. SÃO PIO X. Catecismo Maior. Goiás: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2005, p. 325.

[4] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 112, a.1.

[5]Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O Batismo que conquistou nosso Batismo. In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. p. 169.

A luz resplandece nas trevas

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Há certas horas da noite em que as trevas parecem estender seu reinado por toda a parte. As alegrias e vivacidades do dia são substituídas por uma densa obscuridade, pervadida de silêncio e carregada com o pesado fardo da incerteza e do perigo. Perante ela poder-se-ia perguntar: terá triunfado definitivamente a escuridão sobre a luz?

A resposta, porém, está na espera… Em determinado momento, uma tênue réstia de luz quebra o negrume da noite e uma claridade suave começa a desvendar as belezas da criação. É a aurora que chega, anunciando o dia!

Não obstante, existem trevas muito mais densas e terríveis do que as da noite: são as do pecado, que passaram a dominar o mundo depois da culpa original. E para vencê-las foi preciso também esperar, durante séculos!… Até que “a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1, 5).

Quando tudo parecia imerso nas sombras da morte, nasce “a verdadeira luz” (Jo 1, 9), Deus feito Homem, o Cordeiro Imaculado posto nas palhas de um Presépio, para redimir o gênero humano e vencer as trevas do pecado.

“Na mais feliz noite da História, os atributos de Deus se tornaram menos impenetráveis para nós. Jesus, além de externar a grandeza de sua onipotência, elevando o homem à divinização pela graça, pôde dizer-Se impecável: ‘Quem de vós Me acusará de pecado?’ (Jo 8, 46). […] Essas dádivas todas começaram seu curso na Gruta de Belém, trazidas pelo Menino Deus, coberto não só pelo estrelado manto da noite, como também por um véu de mistério”.1

E que mistério!… Mesmo depois de consumada a Redenção, quis Ele deixar sua luz a refulgir por todos os tempos na Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ela é a dispensadora das graças, pelos Sacramentos, e transforma as almas mais gélidas e obscuras em autênticos faróis de santidade. É ela que matiza o céu da História, ora com as luzes da inocência, ora com a brilhante púrpura do sofrimento, ora com o lilás das almas penitentes.

Que nela fulgure sempre a luz de Cristo, e que Maria Santíssima, Mãe da Igreja, ao trazer ao mundo a aurora da salvação, obtenha a graça de que sua ação se estenda pelos quatro cantos da Terra, conquistando todos os povos para seu Divino Filho, que veio como “luz para iluminar as nações” (Lc 2, 32).

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Eternidade feliz. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa – Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2013, v.I, p.120.

Revista Arautos do Evangelho – Dezembro 2014

Necessidade do sacrifício

Ir Mirna Gama Máximo, EP

O senhor Deus expulsou-o (Adão) do Jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra de onde tinha sido tirado. E expulsou-o; e colocou ao oriente do Jardim do Éden querubins armados de uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3,23-24).

O homem, depois de ter pecado e ter sido expulso do Paraíso, onde vivia em estado de graça, perdeu aquela pureza e inocência primevas e adquiriu uma infinita dívida diante de Deus. Sabia que merecera a morte como castigo de sua culpa e viu-se na contingência de reparar seu pecado, para que, purificado, se reconciliasse com o Criador e fosse salvo. Por este motivo, passou a oferecer-Lhe algo que de certa forma compensasse sua dívida, como por exemplo, a vida de um animal.

A ofensa feita a Deus exige uma reparação. Como honrar Deus de ora em diante, sem efetuar inicialmente alguma espécie de reparação, que apague a injúria? Já que incorremos em seus justos castigos, como não nos apressarmos em afastá-los, prioritariamente por alguma espécie de satisfação, antes de implorar seus favores? Esta é a necessidade que visa, ou procura atender, o sacrifício expiatório.1

Eis o que significava a maioria dos sacrifícios do Antigo Testamento.2 Royo Marín assim define:

O sacrifício é o ato mais importante do culto externo e público, o mais solene e excelente com que se pode honrar a Deus. […] Em sentido estrito, se define: a oblação externa de uma coisa sensível com certa mutação ou destruição da mesma […] para testemunhar seu supremo domínio e nossa completa sujeição a Ele.3

Vemos, assim, que o homem sentia uma grande necessidade de oferecer sacrifícios. E São Tomás 4 aponta três motivos para tal. Primeiramente para remir o pecado, que afasta o homem de Deus. Em segundo lugar, para que o homem possa conservar-se no estado de graça, sempre unido a Deus, no que consiste sua paz e salvação. Finalmente, para que o espírito do homem esteja perfeitamente unido a Deus, como acontecerá na glória.

sacrificio_caim_abelOs sacrifícios não eram feitos somente em função dos pecados, mas eram também uma forma de louvar a Deus e honrá-Lo. Assim, os sacrifícios podiam ser: lautréticos, de simples adoração a Deus; impetratórios, para pedir benefícios; satisfatórios, em reparação dos pecados; e eucarísticos, em ação de graças pelos benefícios recebidos.5 Portanto, não só os pecadores deveriam oferecê-lo, mas também os justos.

Para esses sacrifícios, deveriam os homens, oferecer o que possuíam de melhor, o que tinha maior valor e perfeição. Assim sendo, queimavam frutos e imolavam animais, tais como cordeiros e pombas, entre outros tipos de oferecimento.

Ora, o Salmo diz: “Vós não Vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu Vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis. Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar” (Sl 50, 18-19). Qual seria, então, a razão da importância e a necessidade de oferecer sacrifícios?

De fato, de nada adiantam as práticas meramente exteriores se não houver sinceridade de coração. O homem não é puro espírito, mas sim, um composto de corpo e alma. Portanto, suas disposições interiores devem ser exteriorizadas de alguma forma.

“Faltaria algo para oferecer a Deus se Ele fosse homenageado somente em espírito. […] A vida do espírito se apaga se não for traduzida para uma linguagem feita para nossos sentidos”.6 Assim também se exprime o Doutor Angélico: “Todo aquele que oferece um sacrifício deve dele participar, porque o sacrifício que se oferece exteriormente é sinal do sacrifício interior, pelo qual a própria pessoa se entrega a Deus”.7

O sacrifício na vida do homem

Ao deitarmos um rápido olhar sobre a História, vemos como todos os povos das mais diversas religiões e épocas ofereceram sacrifícios. Porém, quantos deles provocaram a ira e o desgosto de Deus, pois eram dirigidos a deuses inexistentes, sendo, na realidade, ocasião das piores idolatrias e de práticas abomináveis! Os babilônios e os persas, por exemplo, ofereciam sacrifícios humanos. Os príncipes fenícios imolavam o filho predileto para abrandar a cólera dos deuses. Os sacerdotes astecas, no México, exigiam vinte mil vítimas humanas por ano, das quais arrancavam o coração ainda palpitante, para o apertarem sobre os lábios do ídolo.8 Eram religiões falsas e vãs, que, assim, também invalidavam seus sacrifícios.

O povo eleito também ofereceu sacrifícios. O que dizer sobre seus sacrifícios? Instruído pelo próprio Deus, os israelitas apresentavam, de maneira distinta, os sacrifícios de louvor, de agradecimento, de reparação, de acordo com quem iria oferecê-lo: sacerdote, chefe ou homem do povo (cf. Lv 1-7). Esses sacrifícios eram agradáveis a Deus, como provam algumas passagens da Escritura, entre as quais a seguinte:

Depois do dilúvio que Deus mandou à Terra por castigo de seus pecados, Noé saiu da arca e levantou um altar, e ofereceu em holocausto. “O Senhor respirou um agradável odor” e prometeu não mais amaldiçoar a Terra, como tinha feito (cf. Gn 8, 20-21).

Porém, eram sacrifícios imperfeitos e defeituosos; não podiam apagar os pecados nem conferir a graça. Como a imolação de um animal irracional poderia reparar as ofensas contra Deus, que é infinito, puro e perfeito? Como devia ser terrível ter a alma manchada por causa dos pecados, a consciência inquieta por ter ofendido ao Deus-Justiça, Senhor dos exércitos, e, pior ainda, passar a vida inteira fazendo penitência e oferecendo sacrifícios sem ter a certeza de estar perdoado!

Mas Deus não abandonou o seu povo nas mãos da morte. “Esses sacrifícios foram apenas o grito de ignorância da humanidade que clamava por um perfeito sacrifício de expiação e reconciliação”.9 Por sua misericórdia e bondade infinitas, Ele mesmo Se tornaria sacrifício para redimir a humanidade perdida. Nem os frutos, nem os animais, nem mesmo o homem, culpado do pecado, seriam capazes de restabelecer a nossa amizade com o Senhor. Só Deus, Infinito e Santo, pode apagar a ofensa feita contra Si mesmo. Foi assim que, na plenitude dos tempos, o Verbo Se fez carne para resgatar, pela sua própria morte, os que estavam condenados à morte.

Todos os sacrifícios oferecidos até então foram meras pré-figuras deste supremo e perfeitíssimo sacrifício!

1 AA.VV. Eucharistia. Encyclopédie populaire sur l’Eucharistie. Paris: Bloud et Gay, 1947, p. 154. (tradução da autora).
2 PARSCH, Pius. Para entender a Missa. 2. ed. Rio de Janeiro: Mosteiro São Bento, 1938, v. III, p. 14.
3 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para Seglares. 2. ed. Madrid: BAC, 1961, v. I, p. 286.
4 TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. III, q. 22, a.2.
5 Cf. ROYO MARÍN. Teología Moral para seglares. Op. cit. p. 286.
6 AA.VV. Op. cit. p. 153.
7 TOMÁS DE AQUINO, Santo. S. Th. III, q.82, a. 4.
8 FIGUEIREDO, Pedro Paulo de. Adoração a Deus: o sacrifício. Arautos do Evangelho. São Paulo, n.11, nov. 2002. p. 17.
9 PARSCH, Pius. Op. cit. p.11

Que venha o Reino de Cristo e o Reino de Maria!

Caroline Fugiyama Nunes

Das profundas trevas do pecado, entregue à mercê de sua própria concupiscência e paixões desenfreadas, parecia estar a humanidade regida pelo “príncipe” das trevas, ou seja, o demônio. Após longos séculos de gemidos, à espera de um Libertador, Deus enviou ao mundo seu Filho Primogênito em resgate desta humanidade extraviada de seu único Senhor e Deus.

Analisando o agir de Deus no decorrer da História, pode surgir em nosso espírito a seguinte questão: por que teria Deus permitido que houvesse na obra da criação o pecado? Não teria sido melhor criar um mundo onde este não existisse, e no qual todos fossem, portanto, santíssimos e perfeitos? Teria Deus errado ao criar este mundo?

Quão infeliz e errado estaria quem assim pensasse! Partindo do princípio de que tudo o que Deus faz é perfeito, tendo ele criado um mundo onde houve o pecado, era o que havia de melhor e mais santo.

Nossa_Senhora Joao_cla_diasAfirmam os teólogos que se não tivesse havido o pecado de nossos primeiros pais, o Verbo Eterno não teria tomado nossa mesma carne. E concluem que, embora o pecado tenha sido um mal, significou uma grande vantagem para o homem. Por isso, a Liturgia canta no Sábado Santo: “O felix culpa, quae talem ac tantum meruit habere Redemptorem!” — “Ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande Redentor!”. 1 Quer dizer, sem a culpa original não teríamos a felicidade de possuir o próprio Deus Encarnado como nosso Salvador.

Devemos, então, reconhecer que a Encarnação do Verbo é a o episódio culminante da História da humanidade, que a dividiu em dois: um antes e um depois.

Quiçá, sem a Encarnação e a Redenção não teríamos provas tão palpáveis do extremo e ilimitado amor de Deus por nós. Maior prova de amor do que esta jamais houve e nem haverá. Tal magnífica obra de bondade e misericórdia não teria seu esplendor e não se poria tão em manifesto aos homens, como o foi tendo havido o pecado. E, sobretudo, não teríamos uma Mãe e Advogada agindo em nosso favor ― pecadores que somos ―, como medianeira entre Deus e os homens, Maria Santíssima.

Segundo Garrigou-Lagrange: “a encarnação do Verbo fortifica, assim, grandemente, a nossa fé, nossa esperança, nossa caridade, nos dá o exemplo de todas as virtudes e, sobretudo, é o princípio, na santíssima alma de Jesus, de um ato de amor redentor, que agrada mais a Deus do que todos os pecados podem desagradar-lhe. […]. Verdadeiramente, podemos, com uma profunda gratidão, dizer como São Paulo: “Deus que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos pelos nossos delitos, nos deu vida por Cristo, por cuja graça haveis sido salvos”. 2

Portanto, mais do que uma mera reparação, a Encarnação e a Redenção foram por onde o verdadeiro Reino de Deus foi triunfalmente trazido à face da Terra: “eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17, 21).

E este Reino se mantém entre nós pela presença de seu Corpo Místico, do qual todos os batizados fazem parte como membros vivos: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. “Ela reluz tudo quanto há n’Ele, quando visto na sua autenticidade […]. Ver a Santa Igreja Católica é ver Nosso Senhor Jesus Cristo” 3. É nela que estão entesourados os benefícios da Redenção; é por sua influência “que nascem todas as condições para uma sociedade virtuosa” 4 fazer cumprir nesta Terra o pedido de todos os cristãos há dois mil anos: “seja feita a vossa vontade, assim da Terra como no Céu” (Mt 6, 10).

Entretanto, se por culpa dos próprios homens que se deixam levar por suas “leis contraditórias” este pedido ainda não se realizou em sua perfeição nesta Terra, o mistério de amor da Redenção nos leva a crer que dia virá em que seus frutos atingirão a plenitude e a graça fará aquilo que a natureza por si mesma não é capaz: “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20). E se Cristo quis vir ao mundo para trazer a salvação e a graça por meio de Maria Santíssima, é também por Ela que Ele quer reinar nos corações dos homens.

Adveniat Regnum Christi, adveniat Regnum Mariae!

1 LITURGIA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR. Vigília Pascal. In: MISSAL ROMANO. Trad. portuguesa da 2a. ed. típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2004. p. 275.

2 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros. Trad. José Antonio Millán. Madrid: Rialp, 1977. p. 170.

3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O Patriarcado e o Sagrado Coração de Jesus: Conferência. São Paulo, 11 jan. 1986. (Arquivo IFTE).

4 Loc. cit.

Ele veio para todos…

Ir. Clara María Morazzani, EP

Sábios e iletrados, ricos e pobres, reis e pastores têm seu lugar de dileção aos pés do Menino Jesus.

Quem se aproxima, em espírito, da manjedoura na Gruta de Belém, encontra um Menino tenro, mas cheio de vida e de luz. Contemplando-O com os olhos da fé, fica-se abismado ao considerar que ali está o próprio Deus feito homem. Sim, esse mesmo Menino mais tarde estará curando leprosos, devolvendo a vista a cegos, fazendo andar paralíticos, ressuscitando mortos ou acalmando tempestades. No final de sua vida, Ele será desprezado pelas multidões, injuriado, flagelado e pregado numa cruz. Mas ressuscitará ao terceiro dia de forma gloriosa, subirá aos céus e se sentará à direita do Pai como rei triunfante supremo. É assim que Ele deverá vir, pela segunda vez, no dia do Juízo Final, para julgar os vivos e os mortos.

Veio para os pobres…

Em sua primeira vinda, quis Jesus manifestar-Se aos homens revestido de nossa fraqueza, como débil e indefesa criança, padecendo fome, sede, frio e em tudo se assemelhando à nossa humana condição.

Junto ao presépio, encontraremos os pastores. Homens rudes e humildes, ocupados apenas na guarda noturna de seus rebanhos, viram-se, de repente, circundados por uma claridade divina que os encheu de grande temor. Mas logo, animados pelas tranquilizadoras palavras do anjo, correram para aquela feliz gruta onde, com grande reverência, aproximaram-se para adorar o Menino envolto em pobres panos e reclinado sobre míseras palhas.

… e para os ricos

Erroneamente, porém, poderia alguém pensar ter Ele vindo só para os simples pastores e as pessoas menos abastadas. Para desfazer essa ideia por demais simplificada e unilateral, bastaria permanecer mais alguns dias junto ao Menino e ser surpreendido por um séquito real cheio de cores, pompa e majestade.

De onde procedia aquela longa, misteriosa e rica caravana, composta de guerreiros fortes e audazes, de pajens vestidos de seda, avançando ao som de trombetas e ao rufar compassado dos tambores? O que significava essa “inundação de camelos e dromedários” (Is 60, 6) carregados de riquezas, previstos com tanta antecedência pelo profeta Isaías? Quem seriam esses três soberanos à procura do “Rei dos judeus que acabava de nascer”? (Mt 2, 2).

Chamavam-se Melquior, Gaspar e Baltazar e, segundo a tradição, representavam as três raças da família humana. O Evangelho nos conta serem eles provenientes do longínquo e enigmático Oriente, tendo viajado até a Judeia guiados por uma estrela.

E aqui nos aparece o primeiro traço do extraordinário chamado que lhes foi feito. Aos pastores se manifesta visivelmente um anjo de luz, revelando por palavras a grande alegria do nascimento do Salvador. Àqueles reis, porém, essa mesma notícia é comunicada pelo aparecimento de uma maravilhosa estrela acompanhada de uma voz interior a tocar suas almas. Assim no-lo explica São Tomás, citando o grande Papa Leão: “Além da imagem que estimulou o olhar corporal, o raio ainda mais luminoso da verdade instruiu até o fundo os seus corações no que concernia à iluminação da fé” 1.

Fé levada até o heroísmo

Bem se poderia aplicar neste caso o famoso ditado francês: noblesse oblige (a nobreza impõe obrigações). Daqueles Magos, até então mergulhados nas trevas do paganismo, a Providência exigiu um heroísmo de fé que não foi pedido aos pastores, herdeiros das promessas messiânicas do povo eleito. Quanto drama havia naquela viagem! Alertados pelo súbito fulgor de uma estrela, os Reis Magos abandonam sem hesitação a calma e o conforto de seus palácios para lançar-se em longa viagem cheia de fadigas e perigos, através de desertos e montanhas…

E tanto esforço, para quê? Para ir prostrar-se em adoração diante de um menino recém-nascido! A extrema pobreza na qual Se lhes apresentou Aquele a quem buscavam com santo afã, em nada abalou a sobrenatural certeza vincada em seus corações, de ser Ele o Rei dos reis. Afirma o Doutor Angélico: “Deve-se dizer como Crisóstomo diz: ‘Se os Magos tivessem vindo procurar um rei terrestre, teriam ficado decepcionados, por terem enfrentado sem motivo as dificuldades de um caminho tão longo’. E assim, nem O teriam adorado, nem Lhe teriam oferecido presentes. ‘Mas, porque procuravam o Rei do Céu, mesmo não vendo n’Ele nada da majestade real, O adoraram satisfeitos unicamente com o testemunho da estrela’. Viram um homem e nele reconheceram Deus. E ofereceram presentes adequados à dignidade de Cristo: ‘Ouro, como a um grande rei; incenso, utilizado nos sacrifícios divinos, como a Deus; e mirra, com a qual são embalsamados os corpos dos mortos, indicando que iria morrer pela salvação de todos’” 2.

Deste modo, os três Reis nos ensinaram quais os presentes mais agradáveis ao Menino-Deus, por ocasião da festa da Epifania: o ouro fino e puro das boas obras, praticadas com desinteresse e pureza de intenção; o incenso perfumado das orações feitas com sincera piedade e devoção; e a mirra dos sofrimentos e sacrifícios suportados ao longo de nossa vida com verdadeiro amor e alegre resignação.

Jesus está à espera de todos nós

Apresentemos, então, com os Magos, nossas modestas ofertas aos pés do berço onde dorme sereno o pequeno Rei vindo para nos redimir. Ele está à espera de todos nós, de todos os homens de boa vontade que queiram seguir seus passos. Esta é a lição que nos deu já no começo de sua existência terrena: “A salvação que Cristo iria trazer concernia a todo tipo de homens, pois, como diz a Carta aos Colossenses: ‘Em Cristo não há mais homem e mulher, grego e judeu, escravo e homem livre’, e assim quanto às outras diferenças. E para que isto estivesse prefigurado no próprio nascimento de Cristo, Ele se manifestou a homens de todas as condições. Pois, como diz Agostinho: ‘Os pastores eram israelitas, os magos pagãos; aqueles estavam perto, estes longe; uns e outros se encontraram na pedra angular’. Havia ainda entre eles outro tipo de diversidade: Os magos eram sábios e poderosos, os pastores, ignorantes e de condição humilde” 3.

E São Leão Magno exclama: “Que todos os povos representados pelos três Magos adorem o Criador do universo; e Deus não seja conhecido apenas na Judéia mas no mundo inteiro, a fim de que por toda parte ‘o seu nome seja grande em Israel!’ (Sl 75, 2)”4.

Se contemplarmos Jesus com olhar admirativo e cheio de fé, veremos que esse é o Menino dos contrários harmônicos. Ele veio para todos: pobres humildes, reis majestosos. Ele está à disposição de toda e qualquer classe social, de toda e qualquer cultura, de toda e qualquer raça. Ele veio para salvar a todos.

1) Suma Teológica III, q. 36, a. 5.
2 ) Idem, III, q. 36, a. 8.
3 ) Idem, III, q. 36, a. 3.
4 ) São Leão Magno, Sermo 3 in Epiphania Domini.

Os homens são filhos de Deus?

Ir. Juliane Campos, EP

Na ordem puramente natural, Deus Criador nos comunica, através de nossos pais, o ser e a natureza específica do homem, mas não seu próprio ser e sua natureza divina. O homem foi criado à imagem de Deus, segundo o Gênesis: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn 1,27), mas não lhe foi dada a natureza divina no momento da criação. É uma simples criatura saída das mãos de Deus, ainda que muito perfeita; inferior apenas aos anjos.

Conforme explica o padre Royo Marín, “toda verdadeira filiação ― seja de que ordem for ― consiste em receber, por via de geração natural, a vida e a natureza específica do próprio pai. Não há outro procedimento possível para estabelecer a relação pai-filho ― falando propriamente e em sentido estrito ― que a via de causalidade geradora”.1

É a graça que dá ao ser humano a condição de filho de Deus. Desde o princípio Deus elevou o homem à ordem sobrenatural, constituindo-o fundamentalmente pela graça e justiça original, sem que jamais haja existido para o homem um estado de simples natureza. Desde o primeiro instante de sua existência, nosso primeiro pai, Adão, “recebeu de Deus a santidade e a justiça” (D 788) , ou seja, foi criado no estado de graça santificante. Eis o que expressa o Concílio Vaticano I: “Deus, por sua infinita bondade, ‘ordenou o homem a um fim sobrenatural’, isto é, a participar dos bens divinos que sobrepujam totalmente a inteligência da mente humana, pois, em verdade, ‘nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem provou o que Deus preparou para os que O amam’ (1 Cor 2,9; Can. 2 e 3)” (D 1786) .

De maneira clara e simples pode-se dizer, então, que a graça é, pois, um dom divino, que Deus infunde na alma humana, dando-lhe uma participação na Sua própria natureza divina, fazendo o homem semelhante a Ele em sua própria divindade. O que quer dizer, tornando-o filho, por esta participação em Sua própria natureza. Divinizando a cada um, com d minúsculo.

Um exemplo muito elucidativo, baseado em São Boaventura e apresentado em uma conferência pelo Mons. João Clá Dias, faz compreender bem o que seria a natureza em estado puro ou tomada pela graça: seria o de uma catedral, cheia de vitrais, mas à meia-noite e sem nenhuma iluminação. Tudo escuro. Entra-se às apalpadelas e vão se acostumando as vistas. Consegue-se divisar um pequeno ponto de luz vermelha bruxuleando ao fundo, e é a pequena lamparina do Santíssimo, única e tênue iluminação visível. Passa-se o tempo, começa a amanhecer o dia e a iluminar-se os vitrais.

Chega uma certa hora em que o sol bate forte nos vitrais e aquela luz toda se estende pelo chão com cores e mais cores. É uma feeria que eleva a alma e fica-se extasiado por ver os magníficos vitrais iluminados pelo sol. O que é o vitral à meia-noite? É a alma humana sem a graça. O vitral banhado pelo sol é a alma banhada pela graça. É o vitral que, sem ser luz, passa a iluminar, pela luz do sol que ele incorpora. Assim é a alma humana que, sem ser Deus, incorpora a vida divina em si mesma e vê as coisas, as compreende de dentro da vida de Deus, pela graça“.2

Mas o homem, infelizmente, não ficou fiel às exigências que lhe foram impostas por esta elevação gratuita à ordem sobrenatural. O homem transgrediu o mandamento de Deus e pecou. Esclarece Royo Marín que “pelo pecado original, nossos primeiros pais perderam, para si e para todos os seus descendentes, o imenso tesouro sobrenatural que haviam recebido de Deus, e que teriam herdado todos os seus filhos, se não o perdessem irremediavelmente pelo pecado”. 3

Todas as graças, virtudes e dons que havia recebido de Deus ficaram perdidos. A filiação divina ficou maculada, pois não pode um filho de Deus, no sentido mais exato do termo, desobedecer às leis prescritas por Ele mesmo. Ficou manchada toda a criação humana.

O Concílio de Trento definiu assim esta doutrina:

Se alguém não acredita que o primeiro homem, Adão, ao transgredir o mandamento de Deus no Paraíso, perdeu imediatamente a santidade e justiça em que havia sido constituído (…), seja anátema (D 788).

Se alguém afirma que a prevaricação de Adão só prejudicou a ele, e não à sua descendência; ou que a santidade e justiça recebida de Deus, perdida por ele, perdeu-a só para si, e não também para todos nós; ou ainda que, manchado ele pelo pecado da desobediência, transmitiu ao gênero humano somente a morte e as penas do corpo, mas não o pecado, que é a morte da alma, seja anátema, pois contradiz o Apóstolo que declara: ‘Por um só homem entrou o pecado no mundo, e, pelo pecado, a morte, porquanto todos pecaram’”. (Rom 5,12) (D 789)

O Pecado Original trouxe conseqüências desastrosas para a humanidade. O homem ficou com sua natureza desordenada, com suas paixões desenfreadas, com um egoísmo desmedido e ficou capaz de cometer muitos outros atos maus, ou seja, outros pecados pessoais.

Define-se, pois, o pecado, segundo a Suma Teológica:

O pecado, segundo foi dito, é o ato humano mau. Um ato é humano desde que seja voluntário, ou de modo elícito, como o querer e o escolher; ou de maneira imperada, como os atos exteriores da palavra ou da ação. Um ato humano é mau porque lhe falta a devida medida. Toda medida de uma coisa se toma por comparação a uma regra, da qual, se ela se afasta, será sem medida. Para a vontade humana há duas regras. Uma, bem próxima e homogênea, que é a própria razão humana. A outra, que serve de regra suprema, é a lei eterna, de certo modo a razão de Deus. Eis porque Agostinho afirmou duas coisas na definição de pecado. Uma diz respeito à substância do ato humano, e é por assim dizer o material no pecado, ao dizer: ‘dito, feito, desejado’. A outra refere-se à razão de mal, e é por assim dizer o formal no pecado ao dizer: ‘contra a lei eterna’.4

O pecado é, portanto, a violação consciente e voluntária da lei da razão, da consciência e da lei de Deus.

Perdida a vida divina sobrenatural com o pecado, o homem ficou reduzido às suas próprias forças, que de si mesmas jamais poderiam reparar a catástrofe produzida pelo pecado original ou por seus pecados pessoais, pelo abismo infinito que existe entre Deus e o homem. Era impossível cobrir esta distância pelas potências humanas, tão debilitadas pelas consequências do pecado.

Assim como a graça foi dada gratuitamente por Deus, também a reparação do pecado o foi. Diz o Apóstolo Paulo, revelando o grande mistério de nossa redenção e reconciliação com o Criador:

Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos por nossos delitos, deu-nos a vida por Cristo – gratuitamente fomos salvos – e nos ressuscitou e deu-nos assento nos céus em Cristo Jesus, a fim de mostrar nos séculos vindouros a excelsa riqueza de sua graça por sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois gratuitamente fostes salvos pela fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus (Ef 2,4-8).

Desse modo, Cristo passou a ser, depois do pecado, a única fonte da vida sobrenatural, portanto da graça. Esclarece ainda Royo Marín que “Não se concedeu, nem se concederá jamais ao gênero humano uma só graça sobrenatural a não ser por Cristo ou em atenção a Ele, pois de ‘sua plenitude recebemos, todos, graça sobre graça’ (Jo 1,16). O mesmo Cristo manifestou expressamente, com inefável amor e misericórdia, que viera ao mundo ‘para que os homens tenham vida, e a tenham em abundância’(Jo 10,10)”.5

Com a redenção, o homem não só pôde seguir sendo filho de Deus, através do batismo, recuperando a graça perdida com o pecado, mas tornou-se ainda mais semelhante a Ele na irmandade com Jesus Cristo encarnado.

1ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Salvación. 4. ed. Madrid : B.A.C., 1997. p. 3
2CLÁ DIAS, João S. Conferência. São Paulo, 25 nov. 1996.
3ROYO MARÍN, António. Op. cit. p. 10
4SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.Th. I-II, q.71, a.6
5ROYO MARÍN, António. Op. cit. p. 11.

Que os Céus façam chover o Justo!

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Se, ao longo dos séculos passados, a Redenção deu origem a tantas e tão grandes maravilhas, que novos esplendores de virtude, de santidade e de heroísmo não temos direito a esperar no futuro?

Haverá algo mais corriqueiro do que a chuva? Por vezes ouvimos soprar o vento, vemos amontoarem-se densas nuvens no horizonte e derramar-se a tempestade com violência, em meio ao fulgor dos relâmpagos e aos ribombos dos trovões, agitando os mares e fazendo transbordar os rios. Em outras ocasiões, a terra se cobre de névoa úmida e a água cai fina e contínua, ao longo dos dias e das semanas. Em muitas regiões do nosso planeta, conforme a estação do ano, ela é um episódio diário, ao qual poucos prestam atenção. Quando falta assunto numa roda de conversa, as pessoas falam de “chuva e bom tempo”, ou seja, de algo sem importância nem transcendência.

Entretanto, talvez somente aqueles que já experimentaram longas temporadas de seca — quando a terra sedenta se abre em sulcos e a vegetação perde o viço e se estiola — saibam dar à chuva o devido valor e reconhecer os benefícios incomparáveis que ela aporta para a vida na Terra. Mesmo apresentando-se sob tão variados aspectos, ela sempre conserva sua característica de fecundar e dar vitalidade.

Símbolo das bênçãos de Deus

Como a finalidade de todas as figuras da natureza criadas por Deus é refletir algo de sua essência infinita ou de sua ação, a da chuva é a de ser símbolo da abundância e eficácia das suas bênçãos.

Encontramos nas Sagradas Escrituras inúmeras referências que demonstram o quanto ela era considerada um indicativo da benevolência divina, entre os antigos, e sua ausência um sinal de castigo. No Salmo 83 lemos: “Felizes os que habitam em vossa casa, Senhor: aí eles Vos louvam para sempre. Quando atravessam o vale árido, eles o transformam em fontes, e a chuva do outono vem cobri-los de bênçãos” (5.7); e no Eclesiástico: “A misericórdia divina no tempo da tribulação é bela; é como a nuvem que esparge a chuva na época da seca” (35, 26).

Se a chuva representa a liberalidade dos dons divinos que se derramam sobre os homens, a terra estéril e ressequida assemelha-se à alma privada do frescor da graça, incapaz de praticar qualquer ato de virtude e, portanto, de conquistar méritos sobrenaturais.

Um mundo com necessidade de renovação

Houve, na História, uma longa “época de seca”, de quatro mil anos, em que a “água da misericórdia divina” era rara. Com efeito, após a queda de nossos primeiros pais e sua expulsão do Paraíso, a humanidade passou a se desenvolver sobre a Terra em meio ao trabalho, ao sofrimento e às dificuldades inerentes à sua natureza manchada pelo pecado.

Aos poucos, arrastados pela desordem de suas paixões, os homens “extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. […] Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador” (Rm 1, 21.25), fabricando para si divindades segundo os seus caprichos, que se acomodassem a seus instintos desregrados.

Por conseguinte, “da universalidade do erro saíram todos os crimes, como por uma germinação natural: idolatria, superstição, magia, apoteose de vícios incensados como divindades, injustiças, depravação da carne, crueldades abomináveis. E todos esses crimes produzindo-se, não como acidentes reprováveis na vida dos indivíduos, das famílias e das sociedades, mas como hábitos intimamente arraigados nas nações, desenvolvendo-se à vontade sob o tríplice patrocínio das leis, da opinião e da religião”.1

Este estado de coisas causava imensa frustração nas almas, e o universo pagão sentia necessidade de uma renovação. Ainda que afundados em suas crenças supersticiosas, os homens conservavam a lembrança da palavra divina dirigida a Adão e Eva: viria um Salvador para pôr fim aos males do mundo, o qual regeneraria a humanidade e apontaria os rumos do futuro.

À espera do orvalho restaurador

Em Israel, nação que Deus tornara depositária da Fé e das promessas messiânicas, o Senhor, pelos lábios dos profetas, anunciara de mil modos e sob inúmeras figuras as características do Redentor, suas ações, sua missão, sua grandeza. Tal esperança era objeto dos anelos dos patriarcas e dos justos que, ao longo dos séculos, mantinham o olhar fixo no porvir e suplicavam ao Todo-Poderoso a abreviação dos tempos.

O gemido daquele punhado de almas piedosas bem poderia ser sintetizado na passagem do profeta Isaías, tão repetida ao longo do período litúrgico do Advento: “Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover a justiça; abra-se a terra e brote a salvação e ao mesmo tempo faça germinar a justiça! Sou eu, o Senhor, que a criei” (45, 8).

As versões mais antigas da Bíblia, seguindo a Vulgata, consideravam este trecho como um dos oráculos mais claros a respeito do nome de Jesus, já que as palavras “justiça” e “salvação” eram traduzidas por “Justo” e “Salvador”, isto é, “Jesus”. Ambas as variantes estão de pleno acordo, pois, ao descer do Céu, o Salvador inaugurou uma era de justiça e santidade.

Sim, o Justo, o Messias esperado veio, de fato, não com grande pompa e aparato, como muitos imaginavam, mas revestido de um Corpo padecente como o nosso, a fim de irrigar com o batismo de seu Sangue o grande deserto deste mundo. Nem as almas mais áridas, nem os corações mais endurecidos são capazes de resistir à eficácia deste orvalho restaurador.

Abundância das bênçãos derramadas pelo Salvador

Ao considerarmos os 2000 anos da Era Cristã, constatamos o quanto a palavra e o exemplo do Homem-Deus, transmitidos pelos Apóstolos, tornou a terra boa e fecunda. O ardor dos mártires, a pureza das virgens e a sabedoria dos doutores são expressões variadas dessa única “justiça derramada das alturas”, assim como o heroísmo sublime dos religiosos, o zelo dos missionários e o amor desinteressado daqueles que se dedicam ao bem do próximo.

Dessa imensa coorte de Santos, com os quais a Igreja, Corpo Místico de Cristo, sempre se enriquece, defluem outros tantos desdobramentos magníficos, enquanto reflexos da perfeição das almas. Vemos, então, a ereção das catedrais, o requinte da Liturgia e dos paramentos, a policromia dos vitrais, a definição dos dogmas, o desabrochar das ordens religiosas, a criação das universidades, dos hospitais e dos mosteiros… e, até mesmo a cortesia no trato, a elegância nos trajes e maneiras, ou o bom gosto nas artes culinárias.

Provavelmente aqueles muitos profetas e reis que ansiaram por ver os dias do Redentor (cf. Lc 10, 24) não puderam sequer imaginar a abundância de bênçãos que seria derramada sobre seus descendentes na Fé. Contudo, com suas reiteradas preces contribuíram para preparar os caminhos do Messias e apressar a hora bendita de sua chegada.

Tempo de preparação para a vinda do Salvador

Ao longo das quatro semanas que antecedem o Natal, a Igreja, desde séculos remotos, propõe aos fiéis uma adequada preparação para a grande solenidade do nascimento de Jesus, procurando movê-los à conversão — como o recordam os paramentos roxos —, a purificar as almas de suas misérias, caprichos e mazelas.

O costume de observar tal período de penitência teve início no Ocidente e, mais tarde, penetrou nas igrejas orientais. Sabe-se que na França, no século V, jejuava-se três vezes por semana desde a festa de São Martinho (11 de novembro) até o Natal, e os Bispos entregavam-se com assiduidade à pregação. Mais tarde, a prática do jejum tornou-se obrigatória, não só na França, como também na Inglaterra, Alemanha, Itália e Espanha. Com o tempo, porém, estes jejuns foram sendo mitigados e o Advento ficou reduzido a quatro semanas apenas, como perdura até nossos dias.2

Esta preparação, no entanto, não visa apenas rememorar a milenar expectativa da humanidade pela chegada do Salvador, mas, isto sim, reviver o espírito de alegria e de esperança que distinguiu os justos do Antigo Testamento, na perspectiva de seu aparecimento.

Se na sua primeira vinda Cristo veio como chuva suave, espalhando-se por toda a extensão da Terra, a fim de chamar os homens e comunicar-lhes sua graça — “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10) —, sabemos que Ele voltará um dia com grande esplendor e glória para julgar os vivos e os mortos, como professamos no Credo e Ele mesmo anunciou: “Como o relâmpago parte do Oriente e ilumina até o Ocidente, assim será a volta do Filho do Homem. […] Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os Anjos com Ele, sentar-Se-á no seu trono glorioso” (Mt 24, 27; 25, 31).

Aceitemos o doce convite do Menino Jesus

No Advento contemplamos ainda a vinda intermediária de Cristo, que se realiza sem cessar de modo místico e misterioso em todas as épocas, como ensinaram muitos teólogos, em especial o grande São Bernardo: “Conhecemos, pois, três adventos seus: aos homens, nos homens, contra os homens. […] Mas, visto que o primeiro e o terceiro, por serem manifestos, são bastante conhecidos, acerca do segundo, que é oculto e espiritual, escuta o próprio Senhor que diz: ‘Se alguém Me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos nossa morada’ (Jo 14, 23). Bem-aventurado aquele no qual fazes tua morada, Senhor Jesus. Bem-aventurado aquele no qual a sabedoria edifica sua casa, elevando sete colunas. Bem-aventurada a alma que é receptáculo da sabedoria. Quem é esta? A alma do justo”.3

O mundo de hoje está imerso numa grande “desertização espiritual”, no qual “é o vazio que se espalhou”,4 como afirmou o Papa Bento XVI na abertura do Ano da Fé. Com efeito, à semelhança da situação na qual se encontravam antes de o Filho de Deus descer das alturas, os homens hodiernos acham-se afundados no pecado e facilmente se voltam para os ídolos, não mais aqueles de ouro, prata, pedra ou madeira, mas para as divindades de nossos dias, quiçá mais numerosas do que as da Antiguidade pagã.

Faz-se necessário, portanto, mais do que nunca, que os homens dilatem suas almas para esta vinda cotidiana de Cristo, que se realiza por meio da graça. Estejamos vigilantes e aceitemos tão doce convite, permitindo ao Justo que tome inteira conta e posse de nosso interior, e nele estabeleça sua morada.

Se a Redenção trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo em sua primeira vinda deu origem a tantas e tão grandes maravilhas, o que não teríamos direito de esperar se a humanidade abrisse suas portas neste Natal para o Menino Jesus que misticamente nos visita? Que esplendores, que frutos de virtude, de santidade e de heroísmo não poderiam assim germinar?

1 MONSABRÉ, OP, Jacques-Marie-Louis. Dimanches et Fêtes de l’Avent. 3.ed. Paris: P. Lethielleux, 1902, p.102-103.
2 Cf. GUÉRANGER, OSB, Prosper. L’année liturgique. L’Avent. 20.ed. Tours: Alfred Mame et Fils, 1920, p.1-8.
3 SÃO BERNARDO. Sermones de Tiempo. En el Adviento del Señor. Sermón III. In: Obras Completas. Madrid: BAC, 1953, v.I, p.169.
4 BENTO XVI. Homilia na Missa solene de abertura do Ano da Fé, de 11/10/2012.
5 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Prière embrasée, n.20. In: Œuvres complètes. Paris: Du Seuil, 1966, p.683.

A dor, mistério do amor

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Era o Templo restaurado por Herodes. Embora “feito de belas pedras e recamado de ricos donativos” (Lc 21, 5), bem longe estava de possuir o esplendor e a magnificência do anterior, erigido segundo a capacidade e a sabedoria de Salomão.

Naquele dia, um casal, levando o mais belo de todos os meninos, atravessou os umbrais do recinto sagrado, com o intuito de cumprir as prescrições da Lei a respeito dos primogênitos. Na aparência, aquela cena nada tinha de extraordinário: com muita frequência as famílias israelitas, vindas das mais variadas cidades, chegavam a Jerusalém, trazendo seus filhos para apresenta-los ao Senhor e oferecer o sacrifício prescrito pela Lei: um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lc 2-24). Quase sempre as mães preferiam associar esta cerimônia àquela da sua própria purificação, à qual estavam obrigadas pelas rígidas normas do Levítico.

Entretanto, nessa ocasião, o ritual da apresentação revestia-se de dimensões verdadeiramente divinas e fora previsto com séculos de antecedência pelo profeta Ageu: “Encherei de minha glória este templo — diz o Senhor do universo. A prata e o ouro me pertencem — oráculo do Senhor do universo. O esplendor futuro deste templo será maior que o primeiro — oráculo do Senhor do universo. Neste lugar Eu darei a paz — diz o Senhor do universo” (Ag 2, 7b-10). E por Malaquias: “Logo chegará a seu templo o Dominador, que vós procurais, e o Anjo da Aliança, que vós desejais” (Ml 3, 1b).

Com efeito, aquela arrebatadora criança, conduzida nos braços de sua Mãe para submeter-Se humildemente aos preceitos da Lei mosaica, era o próprio Dominador, o Filho Unigênito de Deus, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei (cf. Gl 4, 5).

Dia de gáudio e de glória aquele em que, por fim, as profecias atingiam sua realização e o Divino Menino começava a ser reconhecido pelos que “em Jerusalém esperavam a redenção” (Lc 2, 38).

“Uma espada transpassará a Tua alma”

Entrando no templo, Maria e José depararam-se com um ancião de venerável aspecto, que para lá se dirigira, cheio de esperança, sob a inspiração do Espírito Santo (cf. Lc 2, 27). Ao ver o Menino Jesus, Simeão, que poderia ser denominado o varão-esperança, logo começou a bendizer a Deus e a profetizar a respeito dEle, deixando admirados Seu pai e Sua mãe (cf. Lc 2, 33). Também Ana, a profetisa, que se encontrava no Templo, pôs-se a falar sobre Ele, tornando-se uma das primeiras anunciadoras da missão redentora de Jesus. Maria e José ouviam todas essas palavras, e Seus corações enchiam-se de gozo ao constatarem que o inefável mistério do qual ambos eram depositários, Deus Se dignara comunicá-lo também a outras almas, manifestando-lhes a presença de Cristo no mundo.

Simeão tomou o Menino nos braços e, após ter sido pago o imposto, entregou-O à Sua Mãe, dizendo-Lhe: “Uma espada transpassará a Tua alma” (Lc 2, 35).

Que contraste impressionante! Ali estava o casal princeps, duas criaturas escolhidas por Deus para servir de arquetipia à humanidade: Maria e José. Nesses momentos de consolação, nos quais a Luz descida do Céu para revelar-Se às nações começava a deitar seus primeiros raios, abria-se já, de maneira oficial, a “via dolorosa” que o Senhor apontava à Sua Santa Mãe. A alegria de Maria — de possuir um Filho que é Deus e de pertencer a um Deus que é Seu Filho — naquele instante transformou-se em tristeza. Auge de alegria e auge de tristeza conjugaram-se no coração da Virgem: quanta perplexidade nessa ocasião em que tudo deveria falar de júbilo e, entretanto… “uma espada transpassará a Tua alma”!

Pelo pecado, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana

Por que quis Deus unir a dor à alegria num verdadeiro paradoxo, inevitável na vida humana? Todos nós, pelas inclinações da natureza, sempre propensa a buscar a felicidade e a fugir de qualquer sofrimento, somos incapazes de compreender essa maravilha, se não for por um especial auxílio da graça. Fora da filosofia cristã iluminada pela fé, o problema da dor tem sido sempre algo difícil de resolver. Enquanto alguns a concebem como um mal a ser evitado a todo custo, outros, passando ao extremo oposto, consideram-na imprescindível e chegam a fazer dela um prazer malsão e amargo, única saída para sua falta de esperança.

A Igreja, ao contrário, sempre tratou desse assunto de forma equilibrada. Em virtude do pecado original, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana, e o homem deve utilizar-se dele para o serviço de Deus, transformando-o numa fonte de méritos e até de glória.

A respeito do modo de como os homens, tanto os bons quanto os maus, suportam as tribulações, assim escreve Santo Agostinho: “Embora justos e pecadores sofram um mesmo tormento, o resultado não é o mesmo. O mesmo fogo faz resplendecer o ouro, purificando-o, e a palha lançar fumaça; o mesmo trilho serve para limpar os grãos e quebrar as arestas… Assim também, uma mesma adversidade purifica e aperfeiçoa os bons, e destrói e aniquila os maus. Por conseguinte, numa mesma calamidade, os pecadores se revoltam e blasfemam contra Deus, enquanto os justos O glorificam e pedem misericórdia; a grande diferença de sentimentos não está na qualidade do mal que uns e outros padecem, mas na das pessoas que o sofrem. Sacudidos de um mesmo modo, o lodo exala um mau cheiro insuportável, e o bálsamo precioso um suavíssimo odor”.1

Cristo quis assumir a nossa carne em estado padecente

Para conhecermos a fundo todo o valor que se desprende da dor quando santamente aceita, bastanos observar que esta foi a via escolhida pela Providência para o próprio Homem-Deus e Sua Mãe Santíssima. Ao nos aproximarmos de um altar em qualquer igreja da terra, sempre o encontraremos presidido por um Crucifixo; e, aos pés dessa Cruz, indissociável do Filho, imaginamos uma Mãe que chora: Stabat Mater dolorosa, juxta crucem lacrimosa

Reza a teologia que, para resgatar o gênero humano, teria bastado Nosso Senhor Jesus Cristo oferecer a Deus Pai um simples gesto, uma curta palavra, ou até mesmo um piscar de olhos, por serem de valor infinito todos os Seus atos.2 Portanto, uma única gota de sangue derramada durante a Circuncisão seria suficiente para consumar a obra da Redenção.3

Entretanto, decretou o Padre Eterno que Ele sofresse a Paixão e Morte de Cruz, pois não poderia permitir que a Seu Verbo — “efusão da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus, imagem de Sua bondade” (Sb 7, 26) — fosse negada uma glória em plenitude e esplendor. Foi por ilimitado amor ao Seu Unigênito que Deus permitiu as ignomínias da Flagelação, as humilhações do Ecce Homo, a exaustão da Via-Sacra e os tormentos da Crucifixão. O Filho, que por Sua natureza divina não era capaz de sofrer, quis assumir nossa carne em estado padecente, e não em corpo glorioso, como correspondia à Sua alma, a qual se encontrava na visão beatífica desde o primeiro instante da Encarnação.

Agindo desse modo, Deus não visou apenas operar a Redenção da forma mais esplêndida, mas quis propor aos homens de todos os tempos o Modelo perfeito a ser seguido. Assim se expressa a respeito deste tema o piedoso Pe. André Hamon: “Quando Deus, em Seus eternos decretos, decidiu a Encarnação do Verbo, propôs-Se apresentar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo Encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imitáveis, pois seriam a ação de um homem; e uma regra segura, já que seriam a ação de um Deus”.4

O mistério profundíssimo da Cruz

Ora, ao contemplarmos o Homem-Deus, deparamo-nos com esse profundo mistério: Ele, o Onipotente, o Senhor da Glória, a quem os Anjos adoram sem cessar, “fez-Se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15), e sofreu as contingências da condição humana como fome, sede, sono, e fadiga. Para a mentalidade do homem moderno — pervadida pela ideia de um triunfalismo mal compreendido, da qual desapareceu quase completamente o verdadeiro sentido da dor —, a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo cravado na Cruz, clamando ao Pai a magnitude de Seu abandono, aparece como a de um fracassado. “Em verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós O reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53, 4).

Entretanto, devemos procurar discernir a sublime lição contida no Sacrifício do Calvário, cuja renovação incruenta se opera diariamente em todos os altares do mundo. Em seu poema O Triunfo da Cruz, assim canta São Luís Maria Grignion de Montfort: “É a Cruz, sobre a terra mistério profundíssimo, que não se conhece sem muitas luzes. Para compreendê-lo é necessário um espírito elevado. Entretanto, é preciso entendê-lo para que nos possamos salvar. […] A Cruz é necessária. É preciso sofrer sempre: ou subir ao Calvário ou perecer eternamente. E Santo Agostinho exclama que somos réprobos se Deus não nos castiga e nos prova”.5

Deus quis submeter o homem à prova

A vida no Paraíso Terrestre era isenta de qualquer incômodo. O homem estava mergulhado na felicidade: os vegetais se encontravam à sua disposição, os animais o serviam, não havia doenças nem cansaço, e, por um especial favor do Criador, a ameaça da morte não o atingia. Também sua alma vivia em paz, pois, graças ao dom da integridade, a carne e o espírito não entravam em conflito, e todas as paixões se ordenavam à luz da Fé.

Não obstante, em meio àquela agradável existência cheia de delícias, Deus quis que houvesse uma prova e, em consequência, uma pequena dor: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Era conveniente que Deus, seriedade infinita, exigisse do homem um tributo de sua submissão, por meio do qual este demonstrasse a autenticidade dos louvores e das honras que prestava a seu Criador. A aceitação desta prova era uma renúncia magnífica e uma homenagem ímpar, que partia da humanidade logo em seu nascedouro e se elevava até o trono de Deus.

O pecado e suas consequências

Ora, Adão e Eva sucumbiram à tentação. Talvez lhes tenha sobrevindo a ideia, não explícita, de que não deveria existir a mais leve dor na ordem da criação, e perante a prova que Deus lhes impunha tomaram uma atitude de revolta interior, induzidos a roubar a própria honra de Deus.

Os nossos primeiros pais pecaram. E a queda trouxe o castigo, em sentença proferida pelo próprio Deus: “Multiplicarei teus sofrimentos […] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3, 16-17).

O pecado produziu uma revolução nessa harmonia interior e exterior na qual antes viviam: o homem encontrou-se de repente cercado de mil perigos da natureza, os animais se lhe tornaram hostis, a terra produziu espinhos e abrolhos, e ele viu-se obrigado a comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 18-19). Sua alma tornou-se vítima das más inclinações, sujeita ao erro e à rebeldia dos instintos contra os ditames da razão. E a História passou a registrar a peregrinação árdua e dolorosa de uma humanidade em guerra constante contra si mesma, conforme diz o Livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1).

A culpa de nossos primeiros pais atraiu sobre eles, e sobre sua posteridade, a maldição e a perda da amizade de Deus, reparável somente por meio do Batismo e da graça. Mas atingiu também a ordem do universo, da qual Adão fora feito rei: “Deste-lhe poder sobre as obras de Vossas mãos, Vós lhe submetestes todo o universo” (Sl 8, 7).

Afirma São Paulo: “A criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia” (Rm 8, 20-22).

Um Deus abraçado à Cruz

Apesar de ter maculado a Criação, o pecado não conseguiu frustrar os planos de Deus, como era intuito do demônio. Pelo contrário, determinou Ele, em Seus insondáveis desígnios de misericórdia, estabelecer uma ordem do universo ainda mais bela e esplendorosa, nascida da Encarnação e do sacrifício de seu Filho Unigênito.

Na harmonia dessa nova ordem, haveria de ser preponderante o papel da dor. Tendo sido mal correspondida a prova no Paraíso, a vida da graça, trazida pela Redenção, não poderia conceber-se sem sofrimento, de modo que os “degredados filhos de Eva” reparassem a falta de seus pais.

Era preciso que os homens adorassem um Deus abraçado à Cruz, o Vir dolorum previsto por Isaías, cravado sobre o madeiro do opróbrio e da ignomínia, e tivessem diante do Homem-Deus moribundo todas as ternuras e venerações de que o coração humano é capaz.

Ele desceu a esta terra de exílio, atravessando as brumas do pecado sem Se deixar tocar por ele, e, tomando sobre Si as nossas fraquezas, com elas subiu ao Gólgota para ali consumar Seu holocausto e restituir aos homens a paz e a felicidade que haviam perdido.

É bem verdade que, ao longo dos três anos de vida pública, teve Ele um período brilhante aos olhos do mundo, durante o qual as multidões iam à sua procura, sôfregas de ouvir Seus ensinamentos e beneficiar-se de Seus milagres. Quando de Sua entrada solene em Jerusalém, a multidão cantava “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21, 9). Houve, inclusive, aqueles que quiseram proclamá-Lo rei (cf. Jo 6, 15). Mas, em meio a todos os êxitos, a pior das dores incrustava-se em Seu Coração, delineando Sua missão de Servo Sofredor e deitando uma sombra sobre o futuro que O esperava: era a brutal falta de correspondência daqueles que mais O deveriam reconhecer. “Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam” (Jo 1, 11).

Se, em Sua trajetória terrena, Nosso Senhor tivesse recebido sempre todas as glorificações do Tabor e do Domingo de Ramos, algo da Sua benquerença pelos homens e da Sua disposição de entregar a vida por eles teria deixado de refulgir aos nossos olhos, e não compreenderíamos suficientemente o mistério de amor que se discerne na Cruz e no Santo Sepulcro. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Somos chamados a colaborar na obra da Redenção

Ora, movido por Seu ilimitado amor aos homens, Jesus quis também a participação deles na Sua dor. Ele não necessita de concurso humano algum para redimir-nos, uma vez que o Preciosíssimo Sangue derramado na Paixão bastaria para apagar os pecados de infinitas criaturas, mas deseja associar-nos a Seus sofrimentos e assim fazer-nos partícipes de Seus méritos e de Sua glória. É este o simbolismo da água que o sacerdote mistura ao vinho, na preparação do cálice para o Santo Sacrifício. Nossas dores, de si, valem menos até do que umas poucas gotas de água, pois, o mais das vezes, estão contaminadas por imperfeições e misérias; mas unidas ao “vinho que engendra virgens”, podem aquelas tornar-se uma “mesma e única bebida de salvação”.6

São Paulo mostrou ter penetrado a fundo nesse mistério, quando escreveu em sua epístola aos Colossenses: “ Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24).

Esta passagem é assim comentada por Tanquerey: “Certamente, esta Paixão é, não somente completa, mas abundante e superabundante. No entanto, como Jesus é a cabeça de um corpo místico, do qual todos nós somos os membros, a Paixão deste Cristo místico se completa cada dia em seus membros sofredores, e ela não estará terminada senão quando o último dos eleitos tiver sofrido sua parte das dores de Cristo. […] Então a dor terá um sentido, então seremos verdadeiramente os colaboradores do Divino Salvador na obra da salvação das almas”.7

Crisol onde Deus lança as almas muito amadas

Levando isto em consideração, o papel da dor na vida humana adquire uma perspectiva tão elevada que torna inteiramente fora de propósito qualquer queixa ou inconformidade de nossa parte em relação às cruzes que Deus tenha por bem nos enviar.

Na aceitação inteira da vontade divina encontramos o melhor meio de restituir ao Criador a glória que Lhe foi negada pela primitiva desobediência, manifestando-Lhe, por um ato de conformidade com Seus desígnios, nosso tributo de amor e de reparação à Sua Majestade ofendida.

Ao mesmo tempo, se encetarmos as veredas da dor com ânimo resoluto, é-nos oferecida a ocasião de alcançar preciosos benefícios para o progresso de nossa vida sobrenatural. Dada a tendência natural do homem para o egoísmo, facilmente ele se esquece de Deus quando a felicidade e o sucesso parecem seguir seus empreendimentos. A adversidade é, pois, um poderoso auxílio para purificar a alma do apego excessivo às criaturas, obrigando-a a considerar a inanidade dos bens passageiros e voltar-se só para Deus, único Bem do qual tudo se pode esperar.

Tais disposições perante o sofrimento conferem um caráter respeitável àquele sobre o qual este se abate, tornando-o digno de admiração.

Nos dias de hoje, o sentido cristão da palavra “admirável” vai-se perdendo, dando lugar a conceitos deturpados, segundo os quais o homem, para alcançar a plena realização de sua personalidade, deve ser bem sucedido na vida, correr de vitória em vitória, sem jamais ser incomodado por qualquer revés ou dificuldade; só assim se tornará merecedor do aplauso e da aceitação dos demais. A experiência histórica, porém, nos revela o contrário: os homens sofredores, que ao longo de sua existência tiveram de enfrentar perigos, angústias, incompreensões e até mesmo aparentes catástrofes, mas, fortalecidos pela graça divina, acabaram vencendo, esses sim são verdadeiramente dignos da aprovação dos demais homens e do beneplácito de Deus.

A dor é, pois, o crisol onde a Providência lança as almas muito amadas, sobre as quais repousa uma especial predileção de Sua parte, para delas recolher apenas a prata finíssima, livre de qualquer impureza. O Livro do Eclesiástico deita uma luz sobre essa atraente temática: “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2, 1-5).

Duas atitudes perante a tragédia

Recebida com resignação, ou com sobrenatural entusiasmo, a dor enaltece o homem e o convida a uma doação generosa de si mesmo, da qual, na prosperidade, talvez ele não se julgasse capaz. Assim, pode haver circunstâncias infelizes que, de modo inesperado, reduzam à derrota alguém anteriormente coroado de êxito. Colocado diante de sua própria tragédia, ele poderá chorar, lamentando seu fracasso, e afundar-se no abatimento e na revolta contra Deus; ou então ele se erguerá com uma grandeza de alma triunfal, compreendendo a beleza de seu infortúnio, já que este o aproxima mais da Divina Vítima do Calvário.

Em palavras dirigidas aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, assim se exprimia o hoje Papa Emérito Bento XVI: “Jesus sofre e morre na Cruz por amor. Deste modo, considerando bem, deu sentido ao nosso sofrimento, um sentido que muitos homens e mulheres de todas as épocas compreenderam e fizeram seu, experimentando uma profunda serenidade também na amargura de árduas provas físicas e morais”.8

No instante em que o homem se abraça à Cruz e a toma como um presente da munificência divina, manifesta-se todo o poder sublime e ao mesmo tempo misterioso do holocausto. Sua dor torna-se fecunda e profícua, mais eficaz na ordem da Comunhão dos Santos e na realização dos desígnios de Deus do que seus esforços naturais ou suas demais obras apostólicas. Oferecido o sacrifício, algo na alma germina, nasce e gera frutos, elevando-se diante de Deus como oblação grata e imaculada, e dando ao homem uma alegria e uma paz interior que todas as riquezas e glórias do mundo jamais poderão proporcionar-lhe.

Nos dias cheios dos imponderáveis sérios e graves da Semana Santa, acheguemo-nos aos pés da Cruz onde pende o Salvador, abandonado por quase todos — sobretudo neste século em que tantos e tantos homens só procuram o prazer e bem-estar pessoal — e coloquemos nas mãos da Mater Dolorosa, cuja alma foi transpassada pelo gládio da dor, toda a nossa entrega e disposição de padecer por Cristo e por Sua Igreja. As lágrimas de Maria purificarão nossa oferta das eventuais misérias das quais possa estar manchada e a tornarão útil para a edificação de Seu Reino e o triunfo de Seu Imaculado Coração.

1 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. l. 1, c. 8.
2 Cf. ROYO MARÍN, OP, Fr. Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 324.
3 Cf. DENZINGER, H.. HÜNEMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007, p. 328, n. 1.025.
4 HAMON, M. André-Jean-Marie. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933, v I, p. 55-56.
5 MONTFORT, São Luís Maria de. Carta-circular aos amigos da Cruz. Cântico “O Triunfo da Cruz”. Trad. Maria Helena Montezuma Pohle. Rio de Janeiro: Santa Maria, 1954, p. 67-68.
6 Cf. CANTALAMESSA, OFMCap, Raniero. Obediencia. Trad. Ricardo M. Lázaro Barceló. 3. ed. Valencia: Edicep, 2002, p. 71. TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai-Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X. Ângelus, 01/02/2009.
7 TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai- Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X.
8 Ângelus, 01/02/2009.

A Encarnação: uma necessidade?

CAROLINE FUGIYAMA NUNES

Como nos ensina a teologia, tudo o que Deus faz é perfeito. Mas, para entendermos com profundidade o seu agir durante a História, nos é necessário, sobretudo, por sermos criaturas racionais, alguns pressupostos que tornam mais fácil perceber a sabedoria e poder de Deus no decorrer dela. Por isso, para compreendermos acerca do mistério da Encarnação, apresentamos algumas razões dadas sabiamente pela Doutrina Católica, para assim amarmos esta importante e magnífica obra de Deus entre os homens.

Deus, por seu supremo poder, poderia perdoar o pecado do homem por um simples desejo seu, sem exigir nenhuma reparação, pois é o ofendido e não tem sobre si nenhum superior a quem deva dar conta de seus atos. Sendo o supremo Juiz, pode fazê-lo com misericórdia sem contradizer a justiça, pois aquela seria o complemento e plenitude desta. É o que ensina o Doutor Angélico:

Se tivesse querido libertar o homem do pecado sem satisfação, não teria procedido em contra da justiça. Não pode perdoar a culpa ou a pena, respeitando a justiça, aquele juiz que está obrigado a castigar a culpa cometida contra outro, seja contra outro nome, seja contra a comunidade inteira ou contra um governante superior. Mas Deus não possui superior algum, senão que Ele mesmo é o bem supremo e comum de todo o universo. E por isso, se perdoa um pecado que tem razão de culpa porque se comete contra Ele, a ninguém faz injúria, como o homem que perdoa uma ofensa contra ele, sem que seja feita a satisfação, obra misericordiosamente, e não injustamente. E, por este motivo, Davi, quando pedia misericórdia, dizia no Sal 50, 6: Somente contra ti pequei, como se dissesse: Podes perdoar-me sem injustiça”.1

Portanto, quando Deus atua com misericórdia, não contradiz sua justiça, senão que faz algo que está por cima da justiça, por isso se diz: “A misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2, 13). Analisada sob este ponto, conclui-se que não haveria nenhuma necessidade da encarnação, uma vez que pode ser reparada por um simples ato de misericórdia. Ela foi realizada pela suprema vontade de Deus.

Conveniência da Encarnação

Ora, quando nossos primeiros pais pecaram, abriu-se entre os homens e Deus um abismo infinito, sendo impossível, por parte do homem, uma reparação de justiça estrita. Poderia Deus exigir do homem uma reparação de justiça imperfeita, ou seja, mostrando-lhe o que devia oferecer-lhe em reparação. Tampouco, nada disso satisfaria e estaria a altura da dívida. Deste modo, para salvar, em sentido de justiça estrita, esta distância infinita entre nós e Deus e pagar completamente a dívida, foi conveniente que o Homem-Deus se encarnasse.2 A encarnação do Verbo, portanto, considerada em si mesma, foi convenientíssima. Entretanto, há também outras duas razões principais, segundo Royo Marín: pela natureza mesma de Deus, pois sendo o Sumo Bem Lhe convém comunicar-se em sumo grau. Isso só poderia realizar encarnando-se e assumindo uma natureza humana.3 A segunda razão é para que Deus, realizando a encarnação, manifestasse seus atributos divinos:

a) A INFINITA BONDADE DE DEUS, que não desprezou a debilidade de nossa pobre natureza.

b) SUA INFINITA MISERICÓRDIA, já que pôde remediar nossa miséria sem necessidade de tomá-la sobre si.

c) SUA INFINITA JUSTIÇA, que exigiu até a última gota de sangue de Cristo para o resgate da humanidade pecadora.

d) SUA INFINITA SABEDORIA, que soube encontrar uma solução admirável ao difícil problema de concordar a misericórdia com a justiça.

e) SEU INFINITO PODER, já que é impossível realizar uma obra maior que a encarnação do Verbo, que juntou em uma só pessoa o finito com o infinito, que distanciam entre si infinitamente.

Querendo Deus manifestar seus divinos atributos, quer tornar-nos manifesto todo o seu amor por nós e toda sua benquerença de maneira ilimitada.4

“O Verbo se fez carne para que, assim, conhecêssemos o amor de Deus: “Nisto manifestou-se o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho Único ao mundo para que vivamos por Ele” (1 Jo 4, 9). “Pois Deus amou tanto ao mundo, que deu seu Filho Único, a fim de que todo o que crer nele não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (Jo 3, 16). O Verbo se fez carne para ser nosso modelo de santidade ﴾CCE 458 – 459﴿”.

Ele quis mostrar como é este modelo, Ele quis trazer-nos um tipo humano novo. Manifestou-Se como a suprema figura de santidade. Por isso Ele próprio afirmou: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”, e depois, “Eu e o Pai somos um, quem vê a mim vê ao Pai”. Portanto, olhando, imitando a Ele, vemos a perfeição e a santidade do Pai. Foi de fato, conveniente que Ele Se encarnasse: para podermos ter, por assim dizer, um padrão de santidade a imitar.

Manifestação de poder e bondade pela misericórdia

São Tomás e outros tomistas também afirmam que o motivo da Encarnação foi, sobretudo, um motivo de misericórdia, para salvar a humanidade caída. Ele Se encarnou com o objetivo de se dar aos pecadores. Encontramos numerosas testemunhas que dão base a esta opinião. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo diz a São Lucas: “O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Também nos afirma São João: “Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 17). E acrescenta em sua primeira epístola: “Ele nos amou e enviou seu Filho, como propiciação de nossos pecados” (1 Jo 4, 10).

Por outra parte, o próprio nome de Jesus significa a sua missão entre nós: a de Salvador. Nosso Senhor veio como Salvador e Redentor, mais do que Rei e Profeta, se bem que seja os dois. Mas, dentro do plano do pecado, Ele veio, sobretudo, com as características de Salvador e Redentor. Fora do plano do pecado viria como Rei, Profeta, etc. Ele veio a nós enquanto vítima expiatória por nossos pecados.5

São João Crisóstomo diz belamente que, “a Encarnação não tem outra causa que esta: Deus nos viu caídos na abjeção, oprimidos pela tirania da morte e teve misericórdia”.6 Foi por causa do pecado que nós tivemos um Redentor, pois a misericórdia inclina o superior ao inferior. Ele se inclina a nós, para nos levantarmos até Ele.

Com isso, o Verbo feito carne pôde oferecer em reparação ao Pai, um ato de amor de um valor sem limites. “Assim, a misericórdia divina, longe de subordinar o Verbo encarnado a nós, é a mais alta manifestação do Poder de Deus e de sua Bondade. Canta a glória de Deus mais que todas as estrelas do firmamento”.7 A Redenção trouxe esta manifestação.

Reparação e salvação

A Encarnação era, assim, a fonte de graças mais fecunda para salvar-nos, tal como era necessário para que a reparação perfeita da ofensa fosse feita a Deus. Nenhuma intervenção divina poderia salvar-nos melhor do mal. Pela Encarnação fomos arrancados do mal e impulsionados ao bem.

Que confiança nos inspiraria o mistério da encarnação, se nos esforçássemos por estudá-lo de maneira mais profunda!…

Considerando a Encarnação por parte de Deus, que se inclina a dar-se o mais possível a nós, deve precisamente nascer em nossas almas uma confiança ilimitada não só no auxílio da graça, mas em sua própria fonte, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Resta-nos, enfim, considerarmos a exaltação de nossa natureza pela Redenção e estar sempre conscientes disso, com a obrigação de desprezar o rebaixamento de si mesmo pelo pecado. Como diz São Pedro: “temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo” (2 Pd 1, 4).

“A encarnação do Verbo fortifica, assim, grandemente, a nossa fé, nossa esperança, nossa caridade, nos dá o exemplo de todas as virtudes e, sobretudo, é o princípio, na santíssima alma de Jesus, de um ato de amor redentor, que agrada mais a Deus que o que todos os pecados podem desagradar-lhe. […]. Verdadeiramente, podemos, com uma profunda gratidão, dizer como São Paulo: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos pelos nossos delitos, nos deu vida por Cristo, por cuja graça haveis sido salvos”. Essa graça é o gérmen da glória; roguemos para perseverar nela e por ela, para que verdadeiramente seja em nós a vida eterna começada”.8

1“Ille enim iudex non potest, salva iustitia, culpam sine poena dimittere, qui habet punire culpam in alium commissam, puta vel in alium hominem, vel in totam rempublicam, sive in superiorem principem. Sed Deus non habet aliquem superiorem, sed ipse supremum et commune bonum totius universi. et ideo, si dimittat peccatum, quod habet rationem culpae, ex eo quod contra ipsum committitur, nulli facit iniuriam; sicut quicumque homo remittit offensam in se commissam absque satisfactione, misericorditer et non iniuste agit. et ideo David, misericordiam petens, dicebat (ps.L, 6): Tibi soli peccavi: quase dicat: Potes sine iniustitia mihi dimittere” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III, q. 46, a. 2. ad 3. Tradução de Alexandre Correia).
2Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Op. cit. p. 30.
3Ibid. p. 25-26.
4“a) LA INFINITA BONDAD DE DIOS, que no despreció la debilidad de nuestra pobre naturaleza humana. b) SU INFINITA MISERICORDIA, ya que pudo remediar nuestra miseria sin necesidad de tomarla sobre sí. c) SU INFINITA JUSTICIA, que exigió hasta la última gota de la sangre de Cristo para el rescate de la humanidad pecadora. d) SU INFINITA SABIDURÍA, que supo encontrar una solución admirable al difícil problema de concordar la misericordia con la justicia. e) SU INFINITO PODER, ya que es imposible realizar una obra mayor que la encarnación del Verbo, que juntó en una sola persona lo finito con lo infinito, que distan entre sí infinitamente” (Ibid. p. 26. Tradução da autora).
5GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros. Trad. José Antonio Millán. Madrid: Rialp, 1977. p. 174.
6SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O Filho de Deus se fez Homem: Curso de Formação. São Paulo: 21 ago. 2002. (Arquivo IFTE).
7“Así, la misericordia divina, lejos de subordinar el Verbo encarnado a nosotros, es la más alta manifestación del Poder de Dios y de su Bondad. Canta la gloria de Dios más que todas las estrellas del firmamento” (GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Op. cit. p. 179).
8“La encarnación del Verbo fortifica, así, grandemente, nuestra fe, nuestra esperanza, nuestra caridad, nos da el ejemplo de todas las virtudes y, sobre todo, es el principio, en la santísima alma de Jesús, de un acto de amor redentor que agrada más a Dios que lo que todos los pecados pueden desagradarle. […] Verdaderamente, podemos, con una profunda gratitud, decir como San Pablo: ‘Pero Dios, que es rico en misericordia, por el gran amor con que nos amó, y estando nosotros muertes por nuestros delitos, nos dio vida por Cristo, por cuya gracia habéis sido salvados’. Esta gracia es el germen de la gloria; roguemos para perseverar en ella y por ella, para verdaderamente sea en nosotros la vida eterna comenzada” (Ibid. p. 170).

Beleza: o eco da voz de Deus

Santo AgostinhoIrmã Carmela Werner Ferreira, EP

Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei! Estavas dentro e eu fora Te procurava. Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas formosas que fizeste. Estavas comigo, contigo eu não estava. As criaturas retinham-se longe de Ti, aquelas que não existiriam se não estivessem em Ti. Chamaste e gritaste e rompeste a minha surdez. Cintilaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume, aspirei-o e anseio por Ti. Provei, tenho fome e tenho sede. Tocaste-me e abrasei-me no desejo de tua paz” (Santo Agostinho, Confissões X).

Quis Deus, em sua sabedoria eterna, estabelecer para as criaturas racionais um estado de prova. Anjos e homens deveriam ser submetidos a uma situação por onde escolhessem a Deus por si próprios antes de O gozarem definitivamente.

Rejeitando a supremacia do ser que os tirara do nada, eles ambicionaram o cetro do universo e atraíram sobre si o rigor da justiça divina. Assim se explica a expulsão de nossos primeiros pais do Paraíso, que de modo bem diverso ao dos anjos, ainda receberam a promessa da redenção. Era preciso que transcorressem os séculos e os milênios a fim de que os “degredados filhos de Eva” compreendessem profundamente as consequências do primeiro pecado e de seus pecados atuais para enfim restituírem ao Senhor a glória e supremacia que Lhe é devida.

Aqui caberia uma indagação. Tendo Deus castigado a humanidade pecadora com os sofrimentos da vida presente, e condicionado sua salvação à fé que viesse a manifestar, não se esperaria d’Ele alguma manifestação que confirmasse seus servos obedientes nas vias que abraçaram?

A resposta de Santo Agostinho, neste trecho de Confissões, é clara. Deus Se comunica com seus filhos de diversas formas, desde o Antigo Testamento, e sobretudo depois da Encarnação. Poderíamos citar as Escrituras, os profetas, os fenômenos da natureza e os prodígios sobrenaturais como manifestações antigas da presença e vontade divinas. Já no regime da graça, temos especialmente os Sacramentos, a tradição, os carismas religiosos e os Papas, que se afiguram como eficazes manifestações da ação divina no mundo e na História.

Entretanto, para os homens de nossa sociedade pós-moderna, profundamente ateia e anticatólica, estas formas significam pouco ou quase nada. Não se interessam pelas ciências sagradas, não reconhecem a missão salvífica da Igreja e nem sequer a divindade de Cristo. Como Deus poderia se comunicar com eles?

Da mesma forma pela qual atuou na alma do Doutor da Graça: a beleza! Através de perfeições eminentemente superiores às humanas — as sobrenaturais — porém, traduzidas em tipos humanos, em cerimônias, em formas litúrgicas e em obras de arte, a humanidade contemporânea pode ouvir os ecos da voz de Deus. Se corresponder a este chamado, ela exclamará qual o Bispo de Hipona: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei!”