As três ofertas

 Ir Patricia Rivas, EP

3º ano de Ciências Religiosas

Conta-se, nas crônicas da Ordem dos Menores, que, certa vez, Nosso Senhor apareceu a São Francisco de Assis, pedindo-lhe três ofertas. Ao que o santo respondeu: “Não tenho nada para oferecer, porque já me entreguei todo a Vós, e tudo o que me pertence vos pertence. O único que tenho é esta túnica e esta corda, que também são vossas”.

Nosso Senhor insistiu, dizendo-lhe que colocasse a mão no peito e tirasse daí uma oferta. São Francisco obedeceu, e tirou de seu peito uma moeda de ouro tão brilhante como nunca vira antes. Entregou-a a Nosso Senhor, que lhe ordenou repetir o gesto, e, pela segunda vez, o Santo encontrou uma moeda. Faltava apenas a terceira oferta. Nosso Senhor mandou o monge fazer o mesmo pela terceira vez e, assim, completaram-se  as três ofertas pedidas.

Nosso Senhor então lhe explicou que as três moedas simbolizavam a dourada obediência, a preciosa pobreza e a formosa castidade. São Francisco então declarou que em nada lhe remordia a consciência pelo fato de guardar tais moedas no peito…

No dia de nosso Juízo, quando formos cobrados por Deus, poderemos dizer como este grande Santo que tudo o que temos guardado conosco em nada nos remorde a consciência?

 

A Vida Consagrada: um caminho para a santidade

Ir. Maria Cecília Lins Brandão Veas

O círculo e o losango são as mais perfeitas figuras geométricas segundo o conceito de São Tomás de Aquino, pois representam o movimento do efeito que retorna à sua causa. Assim, a forma mais excelente de glorificação a Deus é o homem, criado à sua imagem e semelhança, entregar-se por completo a Ele, o fim último e causa de sua existência. Esta disposição de espírito é efetuada com maior dimensão de frutos pela profissão de votos próprios aos religiosos. Estes, chamados a trilharem mais eficazmente o caminho de Nosso Senhor Jesus Cristo na prática assídua da castidade, pobreza e obediência, servem de esteios para a Santa Igreja e baluartes que anunciam a vida eterna. (cân. 573) Para melhor compreensão, exporemos brevemente alguns pontos constitutivos dos estatutos da Sociedade de Vida Apostólica Regina Virginum.

As atividades diárias iniciam com o cântico do Credo, seguido da exposição do Santíssimo Sacramento e da Liturgia das Horas recitada em conjunto, após a qual há um período de recolhimento onde pode-se cumprir os demais atos de piedade a saber: a comunhão sacramental, meia hora de adoração ao Santíssimo, o Rosário completo, leituras espirituais, a renovação da Consagração a Nossa Senhora, entre outros. (cân. 663) Tendo ordenado a vida interior, que prima sobre as coisas palpáveis e tangíveis, a religiosa estará apta para os deveres de seu estado, conforme ponderava Plinio Corrêa de Oliveira: “ O homem recolhido no pensamento é contínuo na ação”.

A prática da castidade, pobreza e obediência

Conta a tradição, que certo monge anacoreta debatia-se fortemente contra a tentação de abandonar a castidade unindo-se a uma mulher que com frequência lhe induzia ao pecado. Prescindindo dos auxílios sobrenaturais, cedeu à solicitação pecaminosa. Ao cair em si, dando-se conta do triste estado em que se encontrava, percebeu que a mulher era o próprio demônio que ria e zombava de sua fraqueza. Envergonhado de seu estado, entrou em desespero e entregou-se definitivamente aos prazeres mundanos.

Triste situação, porém não longe de nosso alcance. As concupiscências e desejos desenfreados constantemente nos solicitam ao pecado. Ora, se é verdade que padecemos da fomis peccati e das tentações do demônio, não podemos expor-nos ao perigo. Por este motivo, nas casas em que residem as religiosas, tem-se por norma vigente a clausura onde a consagrada mantém-se alheia ao mundanismo, pois a continência perfeita no celibato provém de um coração puro de apegos carnais às criaturas e de um desejo sempre mais sublime de se unir a Cristo.

Despojando-se de toda Sua Glória, quis o Verbo Eterno tornar-se réu de nossas culpas, assumindo a forma humana para nos redimir. Se assim procedeu o Criador, porque não renunciaríamos nós aos bens terrenos, infinitamente inferiores à glória de ser Deus? (cân. 600) Assim, para pôr em prática esta sobriedade, insinuam as normas, que as religiosas nada possuam sem que antes tenha sido previamente autorizado pela superiora, e que nada tenham de supérfluo.

Assinalava São Luís Maria Grignion de Monfort que “para esvaziar-nos de nós mesmos é necessário, todos os dias, morrer a nós mesmos: é preciso renunciar às operações das potências de nossa alma e dos sentidos do corpo; ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-se das coisas deste mundo como se não nos servíssemos delas”. Desse modo, uma vez desprendidas dos bens tangíveis, as consagradas estarão aptas à prática da obediência, que consiste na renúncia do que no homem há de mais íntimo: a vontade própria. (cân. 601)

Na hierarquia da criação, há homens que foram constituídos para governarem os demais, e na voz destes, reconhece-se mais facilmente a vontade de Deus. Por este motivo, as religiosas estão ao dispor do beneplácito do Superior. Se forem enviadas às missões, lá estarão; à contemplação, lá contemplarão; às atividades, lá trabalharão, utilizando sempre o dizer de Samuel: Praesto Sum!

A vida consagrada na Sociedade Regina Virginum

regina_viginumFahima Akram Salah Spielmann

O sino soa, mais uma vez, no silêncio dos corredores de um mosteiro da Sociedade de Vida Apostólica de Direito Pontifício Regina Virginum. Um ruído corriqueiro e banal para o mundo moderno, mas ali, para as religiosas, reveste de grandeza, convidando cerca de sessenta almas “anônimas” – que sentem em si o chamado para o heroísmo – para um ato da comunidade: a recitação do Rosário.

Num mundo onde a grande maioria dos homens é sôfrega de liberdade, qual seria a razão de tantas jovens renegarem sua vontade própria, e com alegria sujeitarem-se, em obediência a uma regra, a um simples badalar de sino?

A resposta encontra-se no apelo para a santidade (VS 17-19). Todos os batizados são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Contudo, os religiosos vão mais além e consagraram a própria vida ao Senhor, no espírito e na prática dos conselhos evangélicos: obediência, pobreza e castidade. 1

Segundo o atual Código de Direito Canônico, a principal característica de quem aderiu a vida consagrada é uma entrega total nas mãos do Superior, mediante votos perpétuos ou temporários, implicando a “separação do mundo que é própria da índole e finalidade de cada instituto” (Cân 607 §3).

_ND35796“Cesse a vontade própria, e já não haverá inferno” dizia São Bernardo. Segundo as normas da Sociedade Regina Virginum, é “regulamentado o alcance da obediência2, e determinado os graus de obrigação com o cerimonial correspondente”. A este respeito comenta Mons. João S. Clá Dias, o seu Fundador: “o voto de obediência, que assim está bem designado, não estaria mal se se chamasse ‘voto de liberdade’, pois é nesse voto que o membro da instituição se vê livre dos erros e faltas que poderia cometer caso seguisse o impulso de seus instintos”.

Quanto à prática do conselho evangélico da pobreza, o próprio Cristo ordenou-a aos seus seguidores: “Qualquer um de vós, que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Conforme o Magistério da Igreja, “o preceito do desprendimento das riquezas é obrigatório para se entrar no Reino dos céus” (CEC 2544).

Na Sociedade Regina Virginum, a regra, ou ordo, “incentiva o desprendimento dos bens materiais, dispondo deles com a prévia autorização da superiora”, havendo um cerimonial específico para a distribuição de bens.3

A Castidade4, também chamada virtude angélica, “é a maneira eminente de se dedicar mais facilmente a Deus com coração indiviso” (CEC 2349).

Aos membros desta sociedade, ela é estimulada, ao mesmo tempo em que é proporcionada a fuga das ocasiões próximas. Por exemplo, temos em nossos meios a prática da sábia norma de antigas regras de quase todos os mosteiros posteriores ao século V, onde se vedava a possibilidade de sair sozinha, inclusive em missão, além de outras normas como a proibição do acesso a algumas comunicações sociais, como a internet, sem a autorização expressa da Superiora, e o relacionamento com pessoas do outro gênero sem a licença da mesma”.

Além de praticar os conselhos evangélicos, as religiosas cumprem as normas que estão sob o carisma do fundador, conforme o cânon 576 12. “O fundador representa para o religioso uma imagem divina, um modelo que, na sua vida e em seu ensinamento, reproduz a Cristo de maneira adaptada a seus filhos”, segundo as sábias palavras do Padre Gilmont.5

Nos pilares da espiritualidade da Sociedade Regina Virginum encontramos “uma concisa expressão: a devoção a Jesus Eucarístico e a Maria Santíssima, e a fidelidade ao Papa”.

“Pela recepção frequente ou diária da Santíssima Eucaristia, aumenta-se a união com Cristo; alimenta-se abundantemente a vida espiritual; a alma se enriquece com as virtudes e, a quem a recebe, é dado um penhor mais seguro da felicidade eterna” (EM 37), além das comunhões diárias, há a adoração ao Santíssimo Sacramento que é exposto habitualmente nas casas dessa Sociedade.6

_ND35929Cônscias de que por suas próprias forças não conseguem alcançar a santidade, as jovens religiosas, com assídua frequência ao Sacramento da Penitência, rezam, quotidianamente, além da Liturgia das Horas e de diversas orações, os vinte mistérios do Rosário. Voltando-se para Maria Santíssima, “a primeira e perfeita consagrada, carregada por aquele Deus que Ela leva nos braços; Virgem, pobre e obediente, toda dedicada a nós, porque é toda de Deus” 7, com a Sua materna ajuda renovam, diária e constantemente, o seu “Praesto sum”, “eis me aqui”, para comunicar aos outros a dádiva do seu carisma (cf. 1 Cor 14, 12) e testemunhar em primeiro lugar o maior carisma, que é a caridade (cf. 1 Cor 13)8.

1 Cân 573, § 1: “A vida consagrada pela profissão dos conselhos evangélicos é uma forma estável de viver, pela qual os fiéis, seguindo mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, consagram-se totalmente a Deus sumamente amado, para assim, dedicados por título novo e especial a sua honra, à construção da Igreja e à salvação do mundo, alcançarem a perfeição da caridade no serviço do Reino de Deus e, transformados em sinal preclaro na Igreja, prenunciarem a glória celeste”.
2 Cân 601: “0 conselho evangélico da obediência, assumido com espírito de fé e amor no seguimento de Cristo obediente até à morte, obriga a submissão da vontade aos legítimos Superiores, que fazem as vezes de Deus quando ordenam de acordo com as próprias instituições”.
3 Ordo de Costumes. Arautos do Evangelho. 2001, p.56.
4 Cân 599: “0 conselho evangélico da castidade, assumido por causa do Reino dos céus e que é sinal do mundo futuro e fonte de maior fecundidade num coração indiviso, implica a obrigação da continência perfeita no celibato”.
5 GILMONT. Jean François. Paternité et Médiation du Fondateur d’Odre. Toulousse:1964. p. 416-4 17.
6 Cân. 663 §2: “Os membros quanto possível, participem todos os dias do sacrificio eucarístico, recebam o santíssimo Corpo de Cristo e adorem o próprio Senhor presente no Sacramento”.
7. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2010.
8. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2009.