Uma devoção antiga e sempre nova ( cont )

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Um Papa recente consagrado a Maria

Esta forma de devoção a Maria não seria, contudo, um tanto acrônica e pouco adequada para os dias atuais?

Não é o que pensa um dos Papas mais recentes, que exerceu seu longo pontificado sob um lema indubitavelmente mariano: Totus tuus. Na Encíclica Redemptoris Mater, São João Paulo II ensina: “a espiritualidade mariana, assim como a devoção correspondente, tem uma riquíssima fonte na experiência histórica das pessoas e das diversas comunidades cristãs que vivem no seio dos vários povos e nações sobre toda a face da Terra. A este propósito, é-me grato recordar, dentre as muitas testemunhas e mestres de tal espiritualidade, a figura de São Luís Maria Grignion de Montfort, o qual propõe aos cristãos a consagração a Cristo pelas mãos de Maria, como meio eficaz para viverem fielmente os compromissos batismais. E registro ainda aqui, de bom grado, que também nos nossos dias não faltam novas manifestações desta espiritualidade e devoção”.

Por ocasião de sua visita ao Santuário de Jasna Gora, em 1979, o mesmo Papa João Paulo II explica melhor em que consiste esta consagração. Referindo-se ao “ato de total servidão à Mãe de Deus” promovido pelo Primaz da Polônia em 1966, explicou ele: “O ato fala de ‘servidão’ e esconde em si um paradoxo semelhante às palavras do Evangelho, segundo as quais é necessário perder a própria vida para a encontrar (cf. Mt 10, 39). O amor constitui, de fato, a consumação da liberdade, mas, ao mesmo tempo, ‘o pertencer’ – isto é, o não ser livre – faz parte da sua essência. Mas este ‘não ser livre’ no amor não é entendido como escravidão, mas sim como afirmação de liberdade e como consumação dela. O ato de consagração na escravidão indica, portanto, singular dependência e confiança sem limites. Neste sentido a escravidão (a não liberdade) exprime a plenitude da liberdade, do mesmo modo que o Evangelho fala da necessidade de perder a vida para a encontrar na sua plenitude”.

 São João Paulo II nos convida, assim, parafraseando São Paulo (cf. Rm 8, 21), a participar da gloriosa liberdade dos escravos de Maria.

Escravidão que liberta, liberdade que escraviza

Um ano depois da visita do pranteado Pontífice a Jasna Gora, num artigo escrito para o jornal Folha de São Paulo, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sintetizava tal paradoxo com estas palavras: “Há uma escravidão que liberta, e há uma liberdade que escraviza”.

Denunciava ele a radical inversão de valores na mentalidade do homem moderno “alforriado” da obrigação de cumprir os Mandamentos de Deus e da Igreja: “Para uns é livre quem, com a razão obnubilada e a vontade quebrada, impelido pela loucura dos sentidos, tem a faculdade de deslizar voluptuosamente no tobogã dos maus costumes. E é ‘escravo’ aquele que serve à própria razão, vence com força de vontade as próprias paixões, obedece às leis divinas e humanas, e põe em prática a ordem”.

Ora, prossegue ele, para aqueles que à Santíssima Virgem se consagram livremente como “escravos de amor”, Ela obtém “as graças de Deus que elevem as inteligências deles até a compreensão lucidíssima dos mais altos temas da Fé, que deem às vontades deles uma força angélica para subir livremente até esses ideais, e para vencer todos os obstáculos interiores e exteriores que a eles indebitamente se oponham. […] Para todos os fiéis, a ‘escravidão de amor’ é, pois, essa angélica e suma liberdade com que Nossa Senhora os espera no umbral do século XXI: sorridente, atraente, convidando-os para o Reino d’Ela, segundo sua promessa em Fátima: ‘Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará'”.

 A sagrada escravidão a Maria : Síntese do culto mariano

Além do culto de veneração, de amor, de gratidão, de invocação e de imitação, deve-se à Virgem Santíssima, como Rainha de todo o universo, um culto de escravidão. Este último ato de culto mariano sintetiza admiravelmente todos os outros dos quais temos tratado.

O escravo fiel à sua Rainha, se realmente o é, antes de tudo A venera, reconhecendo sua excelência única. Em segundo lugar, A ama e faz o que agrade a Ela, evitando tudo o que A moleste. Está pleno de gratidão em relação a Ela pelos grandes favores que lhe tem concedido. Está pleno de confiança em sua Rainha, pois sabe que Ela conhece, pode e quer socorrê-lo em tudo o que necessite. O servo fiel à sua Rainha, por último, se de fato o é, trata de imitá-La já que A reconhece como seu modelo ideal.

Eis, portanto, como o ato de escravidão sintetiza todos os outros atos de singular culto que devemos a Maria Santíssima, Mãe de Deus, Mãe dos homens, Corredentora do gênero humano, dispensadora de todas as graças divinas, modelo insuperável de nossa vida.

15 SÃO JOÃO PAULO II. Redemptoris Mater, n.48.

16 SÃO JOÃO PAULO II. Homilia e Ato de Consagração a Nossa Senhora, no Santuário Mariano de Jasna Gora, 4/6/1979.

17 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Obedecer para ser livre. In: Folha de São Paulo. São Paulo. Ano LIX. N.18.798 (20 set. 1980); p.3.

18 Idem, ibidem

19 Idem, ibidem.

Uma devoção antiga e sempre nova

Ir. Lucilia Lins Brandão Veas, EP

Um dos temas mais atraentes dentro da piedade católica é, sem dúvida, Nossa Senhora. Qual devoto seu, ao falar d‘Ela, não sente uma inefável experiência de seu amor? Quem a Ela recorreu e deixou de ser atendido?

A devoção à Santíssima Virgem aflorou nos corações dos fiéis desde os primórdios da Igreja. Já nos albores do Cristianismo, era Ela objeto de grande veneração, de atos de amor e de confiança, como o comprovam os mais antigos ícones e ternos cânticos da Igreja primitiva. Aliás, pode-se afirmar que a devoção à Mãe de Deus foi transmitida pelos próprios Apóstolos, pois não parece concebível que tenha havido um istmo de silêncio entre eles e os primeiros Padres da Igreja, os quais não deixam de mencioná-La em seus escritos.

Considerada por eles “o venerando tesouro de todo o orbe”,1 Nossa Senhora constituiu para os cristãos uma imagem perfeita de Nosso Senhor Jesus Cristo e um canal seguro para se chegar a Ele. Como põe em realce Mons. João Scognamiglio Clá Dias, “ambos, Mãe e Filho, inseparáveis, são a arquetipia da criação, a causa exemplar e final em função da qual todos os outros homens foram predestinados”.

Cada vez que alguém A louva, Ela glorifica Jesus

Analisemos por este prisma a narração de São Lucas no início de seu Evangelho.

Ao ser visitada pelo Arcanjo São Gabriel, proclama a Virgem Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em Mim segundo a tua palavra” (1, 38). E Santa Isabel, ao ouvir pouco depois a saudação de sua prima, exclama: “Bendita és Tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a Mãe de meu Senhor? […] Bem-aventurada és Tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor Te foram ditas!” (1, 42-43.45).

 A Virgem Maria é, desta forma, proclamada “bendita” e “bem-aventurada” porque creu, proclamou-Se escrava do Senhor e tornou-Se a Mãe do Messias, restituindo imediatamente a Deus o louvor recebido: “Minha alma glorifica o Senhor, […] porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, Me proclamarão bem-aventurada todas as gerações” (1, 46.48).

E é sempre assim: cada vez que alguém A louva, Ela glorifica, ato contínuo, seu Divino Filho. Venerá-La é, portanto, um ótimo meio de glorificar Jesus, como sempre ensinou o Magistério da Igreja e foi reafirmado pelo Concílio Vaticano II: “de modo nenhum [a devoção a Nossa Senhora] impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece”.

Origem da escravidão a Nossa Senhora

Fica patente, então, que a prática da escravidão a Nossa Senhora teve seu ponto de partida no mais sublime acontecimento da História: a Encarnação do Verbo, quando o próprio Deus Se fez Homem, submetendo-Se a Ela (cf. Lc 2, 51). E ao ouvirmos o Apóstolo atestar que Cristo “aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens” (Fl 2, 7), compreendemos que Ele quis que isto se desse n’Ela, deixando-nos seu divino exemplo e convidando-nos a imitá-Lo.

Logo no início da História da Igreja encontramos documentos que exaltam a santidade da Mãe de Deus, mencionam seu papel de Medianeira, dão-Lhe o tratamento de Senhora e, pouco mais tarde, o título de Rainha da criação.4 Em manifestações de veneração como estas vê-se, em gérmen, os fundamentos da devoção a Ela que culmina na consagração como escravo de amor.

Santo Efrém de Nísibe foi o primeiro Padre da Igreja de que se tem notícia a proclamar-se servo de Maria.5 Muitos outros o seguiram nesta luminosa trilha da consagração de amor. Objetos dos séculos V e VI encontrados em diversos lugares do Império Bizantino – anéis, correntes, moedas, entre outros – possuem inscrições nas quais a pessoa que o portava se denomina “Servo da Mãe de Deus”.

No século VII, vemos Santo Ildefonso de Toledo declarar: “Se sou vosso servo, é porque vosso Filho é meu Senhor. Vós sois minha Soberana, porque sois a Escrava de meu Senhor. Sou servo da Serva de meu Senhor, porque Vós, minha Soberana, sois a Mãe de meu Senhor”.

E ainda: “Para demonstrar que estou a serviço do Senhor, dou como prova o domínio que sua Mãe exerce sobre mim, porque servir à sua Escrava é servir a Ele. […] Com que entusiasmo desejo ser servo desta Soberana! Com que fidelidade quero submeter-me a seu jugo! Com que perfeição tento ser dócil a seus mandatos! Com que ardor procuro não subtrair-me a seu domínio! Com que avidez desejo estar sempre no número de seus verdadeiros servos! Seja-me, pois, concedido servi-La por dever e, servindo-A, merecer seus favores e poder ser sempre seu irrepreensível servo”.

Na Irlanda, entre os séculos IX e XII, há notícias de que tão grande era a honra de designar-se servo de Maria, que este título tornou-se nome próprio, usado inclusive por membros da família real.9 Um só, de Oriente a Ocidente, era o pulsar do coração dos católicos em relação à Mãe de Deus: tornar-se seu escravo, eis uma das mais sublimes e inefáveis honras.

A voz da graça, que inspirava tanto ilustres varões quanto a gente simples a se consagrarem à Virgem Maria como escravos, não poderia deixar de tocar vários dos Sucessores de Pedro. No início do século VIII, encontramos o Papa João VII a proclamar-se servo de Maria; vários outros, posteriormente, assim se denominaram, entre eles: Nicolau IV, Pio II, Paulo V, Alexandre VIII, Clemente IX, Inocêncio XI.

Uma ordem religiosa de servos

Significativa foi também a aprovação pontifícia da Ordem dos Servos de Maria – os servitas -, fundada em 1233. Como testemunham os anais desta instituição, seu nome foi inspirado pela Santíssima Virgem ao povo: “Desde o início da nossa ordem, isto é, quando nossos ilustres primeiros pais se reuniram em comunidade para dar-lhe início, logo passaram a ser popularmente chamados pelo nome de ‘frades Servos da Bem-Aventurada Virgem Maria’, sem que eles soubessem de onde e de quem viera tal nome. Daí se deduz que, no princípio, de nenhum outro eles receberam esse nome a não ser de Nossa Senhora mesma, a Bem-Aventurada Virgem Maria, mediante a voz do povo, o qual, inspirado por Deus, aprovava e aclamava tal nome que não fora inventado por mente humana”.

O documento continua: “Como Nossa Senhora não quisera que a origem da ordem fosse propriamente atribuída a algum homem, da mesma forma era justo que o nome da ordem dos seus frades não fosse escolhido e dado por outro, a não ser por Ela mesma e seu Filho. Foi, pois, vontade de Nossa Senhora que esse nome por Ela escolhido se tornasse comum na boca do povo”.

O fato de atribuir o nome de Servos de Maria a um conjunto de varões, que edificavam por seu novo modo de vida, demonstra bem quanto o povo tinha em boa conta tal predicado e comprova que o fazer-se servo de Nossa Senhora, consagrando-Lhe a própria vida, era um costume já bastante difundido naquela época, muito compreensível para almas imbuídas de fé.

Harmonia entre doutrina e piedade popular

Ao longo dos tempos foi aumentando o número de pessoas convidadas pela graça a se consagrarem a Nossa Senhora na qualidade de escravos de amor, sem que a teologia tivesse especial preocupação em explicitar a doutrina a Ela referente. Isto é normal, uma vez que tudo indica que as realidades concernentes a Maria foram antes confiadas ao coração amante e simples do povo cristão, mais que ao raciocínio da teologia especulativa. É o que diz um conceituado estudioso na matéria: há certas coisas muito mais perceptivas ao abrasado amor de filho do que ao frio entendimento de um sábio.

Quando, porém, a ortodoxia desta devoção começou a ser posta em dúvida, não faltaram sábios com coração de filhos que a souberam demonstrar com método, clareza e sólidos embasamentos doutrinários. Entre estes podemos citar São Bernardo, Santo Alberto Magno, São Boaventura, Ricardo de São Lourenço e, sobretudo, São Luís Maria Grignion de Montfort. Apoiando-se no privilégio da maternidade divina concedido a Nossa Senhora, na sua plenitude de graças, no amor a Ela dispensado pela Santíssima Trindade e nas honras prestadas pelo Filho de Deus à sua Mãe terrena, demonstraram eles a legitimidade teológica do ato de consagração como escravo de amor a Maria.

Em 1595, uma concepcionista espanhola, madre Inês Batista de São Paulo, fundou em Alcalá de Henares a Confraria dos Escravos da Mãe de Deus, primeira associação formada com o objetivo explícito de incentivar e praticar a escravidão mariana, que, naquele então, se difundia por todo o continente europeu. E coube ao Cardeal Bérulle, fundador da Sociedade do Oratório, a glória de introduzi-la na França.

O padre Olier, fundador do Seminário e Sociedade de São Sulpício, de Paris, propagou-a ainda mais, impregnando com seu perfume a escola francesa de espiritualidade, na qual se formaria São Luís Grignion de Montfort. Este Santo, com seu Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, vincou definitivamente a consagração como escravo de amor a Jesus por Maria: “quanto mais uma alma se consagrar a Maria, mais consagrada estará a Jesus Cristo. Eis porque a perfeita consagração a Jesus Cristo nada mais é que uma perfeita consagração à Santíssima Virgem”.

Muitos há, todavia, que se assustam com a palavra escravo e argumentam que nos primeiros séculos se usava a expressão servo de Maria – servus Mariæ, em latim – para significar esta entrega total, inteira, fiel e cheia de confiança do próprio ser a Nossa Senhora. Ora, ambos os termos podem ser usados indistintamente, pois a palavra latina servus14 tem o mesmo sentido que a palavra escravo, usada com muito mais frequência a partir de São Luís Grignion.

Continua no próximo post.

1 SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA. Homilia IV: MG 77, 991.

2 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Predestinada desde toda a eternidade. In: O inédito sobre os Evangelhos.

Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2013, v.VII, p.16.

3 CONCÍLIO VATICANO II. Lumen gentium, n.60.

4 Inúmeros são os documentos antigos que se referem a Maria Santíssima sob estes títulos e privilégios. Para mencionar apenas alguns, citamos: cf. SÃO SONFRÔNIO DE JERUSALÉM. In SS. Deiparæ Annuntiationem. Oratio II, c.XXI: MG 87, 3242; HESÍQUIO DE JERUSALÉM. In Præsentatione Domini et Salvatoris nostri Iesu Christi. Sermo I: MG 93, 1470; SÃO GERMANO DE CONSTANTINOPLA. In Præsentatione SS. Deiparæ. Sermo I, c.IX-X: MG 98, 302-303; In Annuntiationem SS Deiparæ: MG 98, 322; SÃO METÓDIO DE OLIMPOS. Sermo de Simeone et Anna quo die Dominico in templo occurrerunt, ac de Sancta Deipara, c.V: MG 18, 359.

5 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à SantíssimaVirgem, n.152. 15.ed. Petrópolis: Vozes, 1987, p.147.

6 ROSCHINI, OSM, Gabriel María. La Madre de Dios, según la fe y la teología. 2.ed. Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, v.II, p.370.

7 SANTO ILDEFONSO DE TOLEDO. De Virginitate Perpetua S. Mariæ, c.XII: ML 96, 106.

8 Idem, 107-108.

9 Cf. WATERTON, FSA, Edmund. Pietas Mariana Britannica. A History of English Devotion to the Most Blessed Virgin Marye Mother of God. London: St. Joseph’s Catholic Library, 1879, p.20.

10 AUTOR INCERTO. Legenda da origem da Ordem dos Servos da Bem-Aventurada Virgem Maria, c.VII, n.32. In: Ordo Servorum Mariæ: http:// servidimaria.net.

11 Idem, ibidem.

12 Cf. MARÍN-SOLA, Francisco. La evolución homogénea del dogma católico. Madrid: BAC, 1952, p.405.

13 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, op. cit., n.120, p.119.

14 “Servus est res — O servo é coisa”, prescrevia o antigo Direito Romano.

A elevação da mente a Deus!

Ir Lays Gonçalves de Sousa, EP

Santo_Inacio_Antioquia

A multidão esperava delirante o momento do sangrento espetáculo. Vaias e escárnios ressoavam por aquele imenso edifício, o qual se tornaria túmulo e altar de glória de tantos bem-aventurados. Já se podiam contemplar os brutos animais, prontos para irromperem na arena e darem vazão aos instintos de sua voraz natureza. Porém, tais irrisões em nada perturbavam a paz de alma que acompanhava o zeloso pregador de Jesus Cristo, Santo Inácio de Antioquia. Nem o aparente fracasso diante dos homens, nem o rugir das feras famintas poderiam amedrontar ou diminuir os ardores de entusiasmo que inflamavam seu nobre coração. À agitação e ansiedade sucedeu um silêncio e grande suspense na turba pagã. As bestas avançavam velozmente, prontas para devorar o venerável ancião, quando um gesto de mão, de incomparável majestade, as deteve a meio caminho. Que teria sucedido? O homem de Deus desejava, antes de consumar seu holocausto e chegar ao termo de seus anelos, dirigir aos céus uma última e fervorosa oração. Tal era a convicção de ser atendido que estancou mesmo os leões devoradores. Embora almejasse ser triturado como trigo para ser oferecido como hóstia pura, pedia a Deus que atendesse aos rogos dos cristãos em fazer permanecer algo daquele doloroso martírio, a fim de estimular-lhes a fé. Finalmente, com gesto ainda mais decidido, o Santo deu ordem às feras, que em poucos segundos dilaceraram as carnes daquele novo Serafim.

Ao analisar o transcorrer dos séculos, quão belo é constatar a soma incalculável de almas que se destacaram como arquétipos de virtude e heroísmo! Quem não se enche de entusiasmo ao deparar-se com o garbo fogoso dos mártires, as austeridades dos anacoretas, o ímpeto evangelizador dos missionários, a sabedoria irresistível dos Doutores, a simplicidade e pureza das virgens e a astúcia e valentia daqueles que combatem pela Santa Igreja?

Realmente, não podem passar despercebidos varões e damas que ultrapassaram a fragilidade da natureza humana decaída pela culpa original, fazendo de suas vidas o alicerce onde, mais tarde, tantas almas buscariam o apoio para a prática do bem, tornando-se alvo de admiração e espetáculo tanto para os homens como para os Anjos.

“Um braço semelhante ao de Deus, e uma voz troante como a dele” (Jó 40,4): bem podemos aplicar esta passagem da Escritura ao episódio narrado acima. De fato, para submeter a ferocidade de uma natureza desprovida de inteligência e imperar sobre ela quando se deseja, é fundamental possuir uma vontade férrea intimamente unida ao Criador.

Sem Mim nada podeis fazer

No entanto, devido à tendência natural ao orgulho, somos levados a julgar que o homem possui uma vontade suficientemente vigorosa para, sozinho, galgar o píncaro da santidade. Nada, porém, nos seria possível sem um contínuo auxílio da Providência, pois, como proclamou Nosso Senhor, sem Ele, absolutamente nada de bom podemos fazer (cf. Jo 15, 5). Qual homem nunca sentiu o peso esmagador de suas misérias e infortúnios? Por mais orgulhosos que possamos ser, é impossível não admitir que tenhamos falhado na realização de nossos bons propósitos ou, ainda, de nossas simples obrigações.

Quando meditamos sobre a Santa Ceia e repassamos as palavras de Jesus: ‘Sem Mim nada podeis fazer’ (Jo 15, 5), quiçá não meçamos a extensão desse “nada”, e o sentido estrito em que deve ser entendido. […] Sob o influxo da graça, começa a secar-se o pântano do erro e tornamo-nos capazes de dirigir nossas ações conforme os critérios mais nobres, porque eles passam a nos apetecer mais que as solicitações inferiores. Nasce a força para cumprir os bons propósitos, aquietam-se as paixões, a fomes peccati deixa de ser avassaladora e se estabelece uma harmonia semelhante à que possuía nosso pai Adão no Paraíso. 1

Assim, “se tivermos a graça de praticar um ato bom, devemos imediatamente reportá-lo ao Criador, restituindo-Lhe os méritos, pois estes Lhe pertencem, e não a nós. ‘Quem se gloria, glorie-se no Senhor’ (I Cor 1, 31), adverte-nos o Apóstolo”.2

Constantemente devemos nos dirigir a Nosso Redentor com a mais profunda e sincera humildade, como nos ensina Mons. João Scognamiglio Clá Dias: “Ó meu Jesus, sem Vós nada posso fazer, meus méritos são nulos; minha inteligência, turva; minha vontade, enferma; meus sentimentos, enlouquecidos. […] Em união convosco sou capaz das mais ousadas virtudes, minha alma voa. Vós sois a fonte de todo bem existente em mim”. 3

Referindo-se à nossa incapacidade natural para o exercício ininterrupto da virtude, atesta São Tomás de Aquino:

No estado de corrupção, o homem falha naquilo que lhe é possível pela sua natureza, a tal ponto que ele não pode mais por suas forças naturais realizar totalmente o bem proporcionado à sua natureza. Entretanto, o pecado não corrompeu totalmente a natureza humana a ponto de privá-la de todo o bem que lhe é natural. […] Ele [o homem] parece um enfermo que pode ainda executar sozinho alguns movimentos, mas não pode mover-se perfeitamente como alguém em boa saúde, enquanto não obtiver a cura com a ajuda da medicina.4

Essa medicina, da qual todos necessitam, encontra-se no relacionamento com Deus. Adão gozava no Paraíso de altíssimos colóquios com o Criador, os quais cessaram após a terrível desobediência. Contudo, estaria este relacionamento encerrado para sempre? Teria o Divino Artífice apartado o rosto de Sua obra-prima? Não! Sendo Deus a Suma Bondade, concedeu-nos o unguento sobrenatural e infalível de estarmos constantemente amparados pela sua presença: a oração!

Estando, porém, as obras humanas tisnadas pelo pecado, nossas súplicas possuem desprezível valor. É preciso, portanto, depositá-las numa preciosa bandeja de ouro, a fim de serem oferecidas a Deus. Quem seria capaz de, apenas com um sorriso afável, conquistar a benevolência do Altíssimo entregando-lhe míseras orações e comprando-nos os favores desejados? “Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável”.5 De fato, Ela é o grampo de ouro que une Nosso Senhor Jesus Cristo a toda criação. 6

1 SEQUEIRA, Joshua Alexander. No coração do homem, a inscrição de Deus. Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 109, jan. 2011. p. 22.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O centro deve estar sempre ocupado por Deus. Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 98, fev. 2010, p. 16.
3 Id. Via Sacra. São Paulo: Associação Nossa Senhora de Fátima, 2011, p. 6.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 109, a. 2, resp. (Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola
5 SÃO BERNARDO, apud SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, [S. d.] n. 85. p. 90.
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado.2. ed. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. v. I.p. 79.