Deus nunca abandona o seu povo

Fahima Spielmann

Diz uma intrigante máxima: “se as paredes falassem…”. Entretanto, testemunhas mais eloquentes que as paredes são as constelações do céu que há milênios assistem ao obrar de Deus na História. História esta, definida não somente pelo ‘sim’ de homens-chaves, que trazem consigo a consignação de rumos decisivos, como também pelo ‘não’ que fecha atrás de si desígnios providenciais.

Na Idade Média, o fruto de um ‘sim’ que marcou os céus da História foi o movimento reformador de Cluny que se ergueu do silêncio contemplativo dos claustros beneditinos.

Enquanto tudo na ordem civil pareceria desabar; invasões bárbaras de um lado, guerras tolas de outro, analogamente a barca de Pedro parecia submergir neste pavoroso drama. Vergonhosas tramas eram armadas para disputar a dignidade pontifícia, onde a simonia (compra ou venda de realidades espirituais) e o nicolaísmo ( relaxamento de costumes dos clérigos) tentavam afundar a Esposa Mística de Cristo.

Havia neste tempo muitos mosteiros, em sua maioria herança espiritual de São Bento, pai do monaquismo ocidental, espalhados pelo mundo cristão, onde os monges, antes atletas da santidade, imbuídos de disciplina, agora afundavam em matéria de costume, provocando inúmeros desentendimentos entre si; cada um com seu próprio e nefasto relaxamento.

Não podendo mais tardar a intervenção da Providência, surge Cluny como sopro do Espírito Santo. Bernon, zeloso abade beneditino, diante dessas catástrofes, sem cambalear entre o sossego da condescendência e as possíveis inimizades, lançou-se na luta para o restabelecimento da antiga severidade da Ordem de São Bento em seu mosteiro, despertando, assim, a disciplina adormecida nas almas daqueles infelizes relapsos.

Com a doação de um castelo que este santo e intrépido abade recebeu, iniciou-se aí, em 910, o mosteiro de Cluniacun, inicialmente com doze monges sob o cajado de São Bernon. Pouco a pouco o espírito de Cluny tomaria conta da Europa. Após a direção de São Bernon sucederam outros santos superiores, como Santo Odon (927-942), Santo Aymard (942-948) São Maïeul (948-994) e depois Santo Odilon (994-1049). Já nesta época, trinta e sete mosteiros em toda a Europa já tinham aderido à reforma cluniacense.

Em seguida, com São Hugo, segundo seu carisma, foi concluída a construção de uma magnífica abadia. Aquelas paredes cantavam luxo e austeridade.

Não só a reforma monacal e a do Papado foram obras de Cluny, mas também o impulso dado às artes, à literatura e à cultura em geral para toda a civilização medieval. O papa emérito Bento XVI assim descreveu: “Os monges cluniacenses se dedicaram com amor e grande cuidado à celebração das Horas litúrgicas, ao canto dos Salmos, a procissões tão devotas quanto solenes e, sobretudo, à celebração da Santa Missa. Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais, como, por exemplo, no começo de novembro, a comemoração dos fiéis defuntos,[…] incrementaram o culto a Nossa Senhora”.1

A vida de Cluny era a perfeita observância da regra beneditina com todas as suas exigências. O ora et labora de São Bento foi como nunca vivido em busca do cumprimento do preceito divino: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).Considerando que tudo o que se poderia dar a Deus era “fraco” e insuficiente, conciliou-se, de forma magnífica, a pompa e a austeridade, resultando disto a sacralização da ordem temporal; não só nas construções, mas, sobretudo, no modo de ser dos monges. “A obra de Cluny visou sacralizar o mundo temporal, elevando-o a uma dignidade muito semelhante à da Igreja”.2

Depois de tal fulgor, será que novamente Deus repousará em sono profundo e deixará o mundo afundar, helás, em um pior sufrágio que o anterior?

Não! Uma vez que a Igreja de Deus sempre está em contínuo progresso, Cluny serviu apenas de gérmen para o que se desdobrará no futuro. Lembremo-nos das esperançosas palavras de Nossa Senhora em Fátima: « Por fim, meu Imaculado Coração triunfará ››.

O que é o Coração de Maria? Plinio Correa de Oliveira explica: “É um órgão do seu corpo imaculado, mas que simboliza a mentalidade de Nossa Senhora. E quando Ela afirma que seu Coração triunfará, quer dizer que sua mentalidade triunfará. O triunfo da mentalidade da Mãe de Deus significa que virá uma época, na qual, muito mais do que na nossa, os santos vão dirigir a humanidade. Nossa Senhora governá-la-á através de seus santos; porque eles vão influenciar os Reis, os Papas, os grandes e pequenos desta Terra, e levar a todos para Deus. Será o Reino de Maria”.3

Esperemos confiantes tão desejada época, rezando, servindo e lutando pela causa da Santíssima Virgem em todos os momentos de nossa vida.

1 BENTO XVI. Catequese 11 de novembro de 2009
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestras. São Paulo, 12.fev.76. In: Aula de Teologia Espiritual.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. São Raimundo de Peñafort, símbolo de uma época. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.166, jan. 2012. p.15.

Mudança de mentalidade do homem

Cristo Rey Sainte Chapelle-ParisIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

A teoria de Kant* arruinou toda e qualquer fé em verdades gerais e transcendentes, pois estas passaram a existir só para quem as forjasse para si mesmo. “O seu subjetivismo fazia a experiência religiosa perder-se numa bruma de boas intenções e de crenças afinal irracionais 1 . Tudo isso introduziu uma desordem no pensar do homem, sobretudo ao expulsar Deus de seu ser, deificando-se a si próprio, e tornando-se legislador universal.

Ora, em sua parte animal, o homem tem paixões e tendências que às vezes o levam a reagir de forma irracional. De si mesmas as paixões humanas são neutras, mas não é raro que se tornem avassaladoras 2 . E por ter uma razão lógica, ao encontrar argumentos que lhe permitam justificar-se, subjetivamente, em suas transgressões morais ― em virtude destas paixões e más tendências, já sem freios, haverem se tornado dominantes ―, se introduz a desordem também na sociedade, que entra em lenta e profunda crise. Aberta a porta do subjetivismo e perdido o referencial do Ser Absoluto, o homem foi perdendo a noção da experiência transcendental, mais além de si mesmo.

O problema passa a ser mais antropológico-ético que ontológico-metafísico.

Com efeito ― como Paul Bourget pôs em evidência em sua célebre obra ‘Le Démon du Midi’ ―’cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu’ (Op. Cit., v.II, Paris: Librarie Plon, 1914. p. 375). Assim, inspiradas pelo desregramento das tendências profundas, doutrinas novas eclodem. Elas procuram por vezes, de início, um ‘modus vivendi’ com as antigas, e se exprimem de maneira a manter com estas em simulacro de harmonia que habitualmente não tarda em se romper em luta declarada 3 .

Não se trata aqui de fazer uma análise histórico-sociológica das mudanças ocorridas na sociedade, no mundo e no homem ocidental, desde então. Mas sim de fazer uma reflexão sobre o quanto as novas doutrinas abalaram o homem em seu próprio ser, mudando-lhe a mentalidade, o que se refletiu em seu comportamento ético e em seu senso moral.

Já Descartes havia substituído a busca da “ordem da razão” pela “ordem das coisas”, aparecendo o homem científico. A ciência passou a ser vista como autógena 4 e apareceu como a mais deslumbrante e assombrosa das estrelas da cultura, considerada como um bem em si mesma, atividade produtora de novas ideias 5 . O racionalismo científico determinava que só o que se explicasse pelo método científico era verdadeiro. Fascinado pela ciência, o homem elevou-a até ocupar o lugar do sagrado. Mas não era um simples conflito entre a ciência e a fé. Por trás de tudo aquilo latejava um empenho de proclamar a salvação da humanidade por si mesma, e o advento de uma sociedade iluminada unicamente pela razão humana 6 .

Até onde penetraram essas novas hermenêuticas? Não se pode imaginar um declínio total e imediato. Mas é impossível negar que a influência que exerceram foi considerável. Sendo limitado o número de intelectuais, no limiar do século XVIII as ideias avançadas de racionalismo e libertinagem alcançavam apenas homens de letras, nobres ou grandes burgueses ávidos de bel esprit. E apesar de tantas transformações e crises, aqueles que se tardaram a separar a Razão da Fé ― ou seja, sobretudo os que se mantinham cristãos ―, apoiados nos alicerces da Fé e de tradições antigas e sólidas, se mantiveram ainda mais arrazoados e menos abalados em seu próprio ser 7 .

Isso porque quando a Razão se separou da Fé, não só proclamou-se independente desta, mas lhe declarou guerra e começaram os grandes dramas da sociedade 8 . Morta a metafísica da causalidade, com Kant ― e separada a Razão da Fé ―, já Hegel tinha uma concepção de religião como “um momento lógico, natural da evolução do Espírito Absoluto e, contra qualquer subordinação da religião à filosofia”. E em fins do século XVIII, entrando pelo XIX, “por obra de Marx, Engels, Comte, Nietzsche e Freud, irrompe a desmistificação da religião, a qual encontra amplos consensos e muitíssimos defensores num momento em que impera o positivismo e o materialismo” 9 .

Por isso, diz João Paulo II 10 que não é exagerado afirmar que boa parte do pensamento filosófico moderno se desenvolveu afastando-se progressivamente da Fé Cristã. E a partir do subjetivismo e da perda do referencial Absoluto bem como com seu relativismo moral, a filosofia deu origem a uma mentalidade difusa, chegando a um pensamento niilista, onde não se deve assumir qualquer compromisso, porque tudo é fugaz e provisório.

Dominando a ciência e bastando-se a si mesmo, o homem provocou uma verdadeira revolução na sociedade humana. Deixou de ser visto como o sujeito da história, relegando a tradição e a iniciativa, a herança filosófico-cultural e o gênio criador, caindo em um morboso naturalismo dessacralizador, desfigurando a imagem ontológica do homo Dei 11 . Este novo homem, seguro de ter o domínio da ciência e da técnica, se afastou até de si mesmo como seu próprio fim e passou a ser dominado e controlado por elas, considerando-as como algo e fim último, desligado da consciência das pessoas 12 , degradando-se a si mesmo, perdendo seu senso moral.

A modernidade, chegando ao seu auge na era da pós-modernidade, revela uma questão antropológica complexa e articulada, que se verifica nas reflexões filosóficas dos últimos séculos. Não foi ela um simples fenômeno cultural que mudou as sociedades, mas, na realidade, obriga a uma compreensão mais exata do que ocorreu com o espírito humano 13 . O temperamento da opinião pública passou a ser tão vegetativo, que a vida de pensamento parece eliminada dela. Os mais tremendos acontecimentos não afetam mais o indiferente homem egocêntrico e globalizado, já sem referencial de fim último. Frente a manifestações de degradação moral, a mais completa, apresenta uma atonia radical, pela qual nem o sim é o sim, nem o não é o não, nem o bem é o bem, nem o mal é o mal. Ele a tudo olha com indiferença e apatia, exceto para sua vidinha pessoal 14 .

Aquela luz que a razão projeta sobre todas as coisas ― o lumen rationis ―, dando uma visão integral destas, parece estar se extinguindo do ser humano. O homem foi ficando cada vez menos sensível à contradição, ao ilogismo, mesmo ao disparate ou ao estapafúrdio, significando uma insensibilidade para com a própria razão. Essa evanescença do lumen rationis produz um cambalear geral da humanidade, que passa a ser presa fácil de qualquer força que a queira conduzir. Perdida a luz do Absoluto, que antes lhe iluminava a razão, o homem passa a ter seu lumen rationis cada vez mais esmaecido, “reduzido a uma brasa ou a um farolete de lanterna, que está apenas ― para me exprimir assim ― comburente, mas que não projeta mais, não põe em claridade zonas de uma sala, apenas na sala se percebe que ele está lá. É um lumen rationis coincé, quer dizer, comprimido de vários lados e reduzido ao seu estado inicial” 15 .

Assim, o sonho iniciado nos séculos XVI-XVII ― de que homem se converteria em senhor e possuidor da natureza e do mundo ―, afinal gerou uma nova humanidade autônoma e aparentemente livre, mas que na realidade perdeu o rumo de seu próprio ser, quase incapaz de pensar com clareza e lucidez, que transformou sua liberdade em libertinagem, produzindo um caos nas mentes, perdendo o sentido do humano, ademais do divino.

Sem embargo, como uma brasa que ainda fumega, a luz da razão vai, como que, se despertando. Como um movimento pendular que tende a voltar ao seu badalar equilibrado ― depois de atingir o outro extremo e dele se ter saturado ―, o século XX se iniciou com um resgate da metafísica, pela analítica dos neotomistas, abrindo as portas para um novo diálogo filosófico com a causalidade e uma redescoberta do transcendente.

* ver artigo “morte” da metafísica
1DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos clássicos: (II) a era dos grandes abalos. São Paulo: Quadrante, 2001. p.69.
2CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A maior felicidade. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 55 (Jul., 2006); p.8-9.
3CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 2a. ed. São Paulo: Diário das Leis, 1982. p.23.
4MARITAIN, Jacques. De Bergson a Thomas d’Aquin. New York: Maison Française, 1944. p.208-209.
5BUNGE, Mario. La ciencia, su método y su filosofía. Citado por: URIBE CARVAJAL, Ángel Hernando y OSORIO, Byron. Cultura y espiritualidad. Medellín: UPB, 2008. p.34.
6AGUILÓ, Alfonso. Pode a ciência controlar-se a si mesma? [Em linha]. [Consulta: 25 Mar., 2009].
7DANIEL-ROPS, Op. Cit., p.80-81.
8CASTÉ, Juan Carlos. Fé e razão, fraterna e alcandorada união. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 89 (Mai., 2009); p.20.
9MONDIN, Op. Cit., p.98.
10JOÃO PAULO II. Encíclica Fides et Ratio. No.46.
11RODRÍGUEZ Y RODRÍGUEZ, Victorino. Temas-clave de humanismo cristiano. adrid: Speiro, 1984. p.235.
12ADORNO, Theodor. Educação após Auschwitz. Citado por: DOMINGUES, Ivan. Ética, ciência e tecnologia. Em: Kriterion. Belo Horizonte. Vol. 45, No. 109 (Jan. – Jun., 2004); p.162.
13BENTO XVI. Alargar os horizontes da racionalidade. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 80 (Ago., 2008); p.8.
14CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O lumen rationis em nossos dias. Conferências. São Paulo: s.n., 1975;1983. s.p.
15Ibid., s.p.