Você conhece Lucius Amarus?

Ir Cecilia Maria Almeida, EP

Quem de nós, acompanhando as notícias e contemplando o cenário político-social do Brasil e do mundo, no terá ouvido algumas (ou muitas!) vezes as palavras “fraude”, “propina”, “operação lava-jato”. “impeachment”… O que pensar disso, senão que vivemos num mundo de LARÁPIOS?

LARÁPIO… Para os jovens leitores que não sabem o significado desta palavra aqui está a simples definição segundo o dicionário da Língua Portuguesa: indivíduo que furta; ladrão.

Mas qual será a origem deste termo tão incisivo?

A palavra LARÁPIO tem origem interessante: havia em Roma um juiz que vendia sentenças. O juiz se chamava Lucius Amarus Rúfilus Apius. Quando proferia suas sentenças assinava: L.A.R. Apius. Daí surgiu o termo LARÁPIO.

Mas será que LARÁPIOS são apenas aqueles que violam o 7º mandamento da Lei de Deus no tocante aos bens alheios? Pode em nosso meio existir também LARÁPIOS? Não seremos nós também um deles? Vejamos o que nos diz nosso Fundador Mons. João Clá Dias a respeito:

“Humildade é aquela virtude que nos faz ter uma visão clara, equilibrada a respeito do que somos, temos, podemos. Não é uma visão diminuída a respeito de si próprio, é uma visão equilibrada. E, portanto, não é uma exacerbação do juízo que se faz a respeito de si mesmo. Isto é fruto da virtude da temperança. Quem tem humildade e mansidão é pequenino, este é pequenino.

E os que são mansos e humildes recebem estas coisas que os sábios e os entendidos não recebem, porque os “sábios”, entre aspas!, os “entendidos “, entre aspas!, são aqueles que se julgam muito mais capazes do que na realidade. São aqueles que atribuem a si o que pertence a Deus e, portanto, são uns ladrões,  ladrões de Deus. São “teolarápios “, roubam a Deus. Essa é a realidade. E esse é todo o orgulhoso. É um ladrão de Deus, cleptomaníaco de Deus, “teoclepto”, aí está. 1

O início do ano é um tempo propício para um sério exame de consciência. E se percebermos em nós algo do tal Lucius Rufus, não percamos a confiança, pois Mons. João Clá Dias ademais de nos alertar nos dá o remédio para a cura deste mal:

O que é preciso é tomar essa posição de filho da Igreja e de Nossa Senhora, não reservando nada para si, restituindo tudo, reportando tudo, servindo desinteressadamente até o último ponto, depois dizendo:

‘“Eu sei que eu não sou apenas um servo inútil, mas que eu sou um servo infiel, que eu não fiz tudo quanto deveria fazer. Mas ao menos essa tristeza de não ter chegado até o limite, Nossa Senhora preencha com sua misericórdia e com minhas lágrimas, de maneira a chegar até o limite’. Esse é o programa da fidelidade. […] Pedir a Nossa Senhora que nos comunique uma centelha da alma d’Ela, através de São Luís Grignion, um pouco do espírito de Elias, do espírito de São Luís Grignion, de maneira tal que queiramos ser isso como ideal de nossa vida: o servo bom e fiel que foi filho em toda linha e que restituiu tudo aquilo que tinha de restituir.

Essa posição é o suco da pequena via — tenho certeza disso — do filho amoroso, desinteressado, abrasadamente amoroso. Este é o tal amor que move as criaturas, é a mola do universo. […]2

Como alcançar esta graça da restituição, a qual consiste essencialmente em atribuir a Deus os dons d’Ele recebidos? Nossa Senhora é a garantia. Deixemo-La agir na alma e ” Ela nos ensinará a glorificar ao Senhor por ter contemplado o nosso nada e, como resultado, nosso espírito exultará de paz e alegria (cf. Lc 1, 47).”3

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia. Mairiporã, 2008.

2 Id. Conversa, 1970

3 Id. O precursor e a restituição. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IV, n. 37, jan. 2005, p. 11.

O Orgulho de São Francisco?

Ir. Maria José Vicmary Feliz Gómez

Avisado da vinda de São Francisco, todo o povo o esperava, desde muito cedo, às portas da cidade. Muitos tinham ido, ainda na escuridão da noite, na esperança de obter os melhores lugares e, assim, ficar mais próximo do santo na sua passagem. Alguns rezavam o terço, outros faziam as mais diversas promessas, desejosos de receber a graça de algum convívio…

– Quem sabe ele olha em nossa direção? – exclamavam com entusiasmo alguns dos presentes.

– Ou melhor! Quem sabe conseguimos algum cumprimento? – comentavam outros.

De repente, entre aplausos, exclamações e grande alegria, São Francisco entrou no povoado. Aqueles que se encontravam mais perto aproximaram-se dele para oscular- lhe o hábito, as mãos e os pés, sem encontrar da parte do santo nenhuma resistência. Porém, o frade que o acompanhava julgou que, aceitando tais honras, São Francisco pecava contra a virtude da humildade. Foi tão forte a tentação que, finalmente, confessou seus pensamentos ao santo.

– Estas pessoas, meu irmão, nenhuma coisa fazem à altura da honra que deveriam render – respondeu-lhe São Francisco.

Ao ouvir essa resposta, o frade ficou ainda mais escandalizado, pois não entendeu as palavras do santo. Então, vendo sua perplexidade, São Francisco disse-lhe:

– Meu irmão, esta honra que me vedes aceitar, não a atribuo a mim, senão que a transfiro a Deus, pois d’Ele é, e eu fico no mais profundo do meu nada. Eles lucram com isto, pois reconhecem e honram a Deus na sua criatura.

Que Nossa Senhora nos conceda a graça de nunca perder a oportunidade de glorificar a Deus através dos modelos de virtude que a Divina Providência coloca diante de nossos olhos, para que, assim, de enlevo em enlevo, galguemos a montanha da admiração e nos transformemos naqueles mesmos que admiramos.

O que importa é glorificar

Ir Ariane da Silva Santos, EP

“Não a nós, ó Senhor, não a nós, ao vosso nome, porém, toda a glória” (Sl 113, 9), canta o Salmista, sintetizando, em poucas palavras, o desejo que anima o coração dos justos. Nenhum outro sinal é tão revelador da santidade de alguém quanto esse infatigável anseio de direcionar a Deus os louvores recebidos, e de procurar a máxima glória d’Ele em todas as coisas.

Com efeito, se até mesmo os seres inanimados glorificam a Deus pelo fato de existirem — “os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 18, 3) — muito mais deveriam glorificá-lo os homens, criados à sua imagem e semelhança, e “realmente filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 17) pelo Batismo ! Contudo, enquanto as outras criaturas invariavelmente louvam a Deus, os homens nem sempre querem cumprir com essa obrigação, por causa do orgulho. E muitas vezes trocam “a sua glória pela estátua de um touro que come feno”… (Sl 105, 20).

São João Batista é um modelo exímio da prática da restituição, virtude que resume em si a humildade, a gratidão e o desejo de servir a Deus. Sua vida não foi senão um desdobramento de fidelidades, restituindo em grau supremo tudo aquilo que recebeu de Deus, desde o primeiro contato com Ele através da voz de Maria, ainda no claustro materno. Comentam alguns teólogos que, nesse momento, pela excelência arrebatadora da voz de Nossa Senhora, a vida divina foi transmitida a São João Batista. O fato de ele ter saltado no ventre de Santa Isabel significa que lhe foi apagada a mancha do pecado original, como se ele tivesse sido batizado.[1] A partir de então, inúmeras outras graças lhe foram sendo concedidas em função dessa graça primeira, como comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

Vê-se que Nossa Senhora comunicou aí, misteriosamente, o espírito d’Ela a São João Batista. E tudo quanto ele fez na vida dele era uma decorrência dessa graça inicial, e que pelos rogos d’Ela foi constantemente intensificada, até chegar ao auge, quando ele morreu. E aí nós podemos ver São João Batista enquanto asceta austero, enquanto pregador do Cordeiro de Deus que viria e, depois, como herói que enfrenta Herodes e morre como mártir sublime de grandeza e de serenidade.1

Foi ele um “um facho ardente de amor a Deus”, que só viveu para a realização de sua missão, tendo somente “Deus diante dos olhos”.2

Não buscava os vestidos preciosos do mundo quem havia desprezado o próprio mundo; nem esperava uma comida opulenta quem pisoteava as delícias do mundo. Que necessidade tinha dos preciosos trajes do mundo a quem estava revestido com a veste da justiça? Que alimentos delicados da terra poderia desejar quem se banqueteava com as palavras divinas, aquele para quem o verdadeiro alimento era a lei de Cristo?3

E, de correspondência em correspondência, de entrega em entrega, quis diminuir para que crescesse a glória d’Aquele a quem os céus e a terra não puderam conter.

Com toda certeza, São João Batista diminuiu em vida, mas cresceu para a eternidade e para todas as eras vindouras, tornando-se o arquétipo de humildade cuja luz brilha diante dos homens e os leva a glorificar a Deus! (cf. Mt 5, 16)

Aprendamos com ele a estar constantemente indicando aos outros a verdadeira Luz, para, no final de nossa vida, proclamarmos com todas as fimbrias de nossa alma:

Eu sou vosso, Senhor, nem devo pertencer senão a Vós; a minha alma é vossa, e não deve viver senão para Vós; a minha vontade é vossa, e não deve amar a ninguém senão por vosso amor; o meu amor é vosso, e não deve visar senão a Vós. Devo amar-vos como meu primeiro princípio, porque vim de Vós; devo amar-vos como meu fim supremo e meu repouso, porque fui criado para Vós; devo amar-vos mais do que ao meu ser, porque este ser subsiste por Vós; devo amar-vos mais do que a mim próprio, porque vos pertenço e resido em Vós.4

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 11 set. 1967. (Arquivo IFTE).
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 17 nov. 1972.
3 CROMACIO DE AQUILEYA. Comentarios al Evangelio de San Mateo, apud LA BIBLIA COMENTADA POR LOS PADRES DE LA IGLESIA. Madrid: Ciudad Nueva, 2004, p. 84: “No buscaba los vestidos preciosos del mundo quien había despreciado el mismo mundo; ni aguardaba una comida opulenta quien pisoteaba las delicias del mundo?¿Que necesidad tenía de los preciosos trajes del mundo quien estaba ataviado con la vestidura de la justicia? ¿O que alimentos delicados de la tierra podía desear quien se apacentaba con las palabras divinas, aquel para quien el verdadero alimento era la ley de Cristo?” (Tradução da autora)
4 SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. 3 ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1958.

Humildade: o que é?

Ir. Ariane da Silva Santos, EP

Imaginemos uma bela catedral, cujos alicerces estão fundados em rocha sólida. No topo de sua cúpula, há uma pedra angular que sustenta toda a construção. Por um efeito extraordinário qualquer, com o passar do tempo, tanto a rocha que está sob os fundamentos quanto a pedra angular se transformam em dois lindos topázios… Tal é a humildade no conjunto das virtudes: ela é o fundamento e a pedra angular da vida espiritual. Ao contrário do que se poderia julgar, não é ela uma pedra bruta, mas sim o mais precioso esteio da santidade, “a melhor garantia da graça e das demais virtudes”, 1 a joia de grande valor com a qual se compra o Reino dos Céus!

Sim, pois, conforme ensina São Tiago em sua epístola, “Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). Uma vez que a graça é necessária para salvar-se, concluímos facilmente que a humildade é conditio sine qua non para obter a eterna bem-aventurança.

Mas, o que vem a ser propriamente a humildade? É a virtude que nos leva a reconhecer que a única coisa que possuímos são nossas faltas, e se algo de bom fizemos, foi por iniciativa e inspiração divina: “É Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar” (Fl 2, 13). Ela “nos inclina a coibir o desordenado desejo da própria excelência, dando-nos o conhecimento acertado de nossa pequenez e miséria principalmente em relação a Deus”. 2

A humildade nada tem de hipocrisia. Ela é “luz, conhecimento, verdade; não fingimento nem negação das boas qualidades que se recebeu de Deus. Por isso dizia admiravelmente Santa Teresa que a humildade é andar na verdade”, 3 aponta o Pe. Royo Marin. Enfim, é a humildade como uma tocha acesa que incessantemente deita seus fulgores sobre as almas, como observa Afonso Maria de Ligório: “os orgulhosos [estão] às escuras, pois mal conhecem o seu nada; a humildade é a luz que dissipa essas horríveis trevas”. 4

Quem se humilhar será exaltado

No Evangelho, encontramos narrada a célebre parábola do fariseu e do publicano. Ambos sobem ao Templo para rezar. O fariseu, inflado de orgulho, aproxima-se do altar e começa a dizer: “Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens, ladrões, injustos, e adúlteros; nem como o publicano que está ali” (Lc 18, 11). O publicano, no entanto, permanecendo à distância, batia no peito, nem sequer ousava erguer os olhos aos céus, e depositava a esperança de seu coração em Deus. 5 Bem podemos imaginar que o fariseu, no fundo de sua consciência, injuriava o publicano. Este, porém, reconhecia suas faltas e certamente rezava por aqueles que o perseguiam…

O publicano não estava preocupado com o que diriam a seu respeito, muito pelo contrário: ocultamente batia no peito, pedindo perdão a Deus, consciente de que tinha andado mal. É esta uma das características da humildade, como afirma São Tomás: “A humildade reprime o apetite, para que ele não busque grandezas além da reta razão”. 6 E mais adiante: “É próprio, pois, da humildade, como norma e diretriz do apetite, conhecer as próprias deficiências”. 7

Nosso Senhor conclui a parábola dizendo que o publicano voltou para sua casa justificado. Ainda que aos olhos dos outros ele continuasse sendo um cobrador de impostos, ladrão e até mesmo corrupto, aos olhos de Deus estava livre de qualquer mancha. Quanto ao fariseu… “Pobre fariseu! Não se dava conta dos males que despencavam sobre ele, pelo fato de procurar a glória onde não existia”. 8

Assim, por mais pecador que alguém seja e que tudo pareça estar perdido, olhar para o Céu e reconhecer-se miserável é o grande passo que atrai o beneplácito de Deus, pois “o Senhor ama o seu povo, e dá aos humildes a honra da vitória” (Sl 149, 4).

1 ROYO MARÍN. Teología de la salvación. Op. cit. p. 115.
2 ROYO MARÍN, Antonio. Teologia de la perfección cristiana. 11. ed. Madrid, BAC, 2006, p. 612: “nos inclina a cohibir el desordenado apetito de la propia excelencia, dándonos el justo conocimiento de nuestra pequeñez y miseria principalmente con relación a Dios”. (Tradução da autora)
3 Ibid. p. 613: “La humildad es luz, conocimiento, verdad; no gazmoñería ni negación de las buenas cualidades que se hayan recibido de Dios. Por eso decía admirablemente Santa Teresa que la humildad es andar en verdad”. (Tradução da autora)
4 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A selva. Porto: Fonseca, 1928, p. 91.
5 Cf. CLÁ DIAS. João Scognamiglio. O pedido de perdão deve ser nosso frontispício de todas as nossas orações. Homilia. São Paulo, 21 mar. 2009 (Arquivo IFTE).
6 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 161,a.1,ad 3.
7 Ibid. a. 2.
8 CLÁ DIAS. Quando é inútil rezar? In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. v. VI, p. 429.

Paz, humildade, mansidão

Emelly Tainara Schnorr

Do outro lado da imensidão do Oceano, numa das mais quentes áreas da Andaluzia, encontra-se o antigo palácio dos Condes de Palma. Sua construção, em estilo mudéjar, chama a atenção pela antiguidade e história, mas, sobretudo, por acolher uma realidade muito mais alta e sublime: a comunidade das Carmelitas Descalças de Écija, conhecidas como as “Teresas” em homenagem à grande Madre Fundadora.

Ao cruzar o átrio do prédio, as primeiras impressões começam a invadir nossa alma e nos convidam a levantar as vistas para panoramas superiores, que se contrapõem às preocupações terrenas. Já no claustro, arcos rústicos e firmes parecem simbolizar a solidez dos princípios que regem o cotidiano entre aquelas paredes. Cruzes frias, duras e nuas, penduradas em seus muros, lembram a quem ali mora o supremo sacrifício de Cristo; enquanto na capela, o suave e perseverante bruxulear da lamparina convida com insistência a nos unirmos ao Doce Jesus, verdadeiramente presente no tabernáculo em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, sob as espécies eucarísticas.

As salas e as celas do mosteiro são marcadas pela simplicidade, visando facilitar a oração e a meditação, tão necessárias a nós e agradáveis a Deus. E o conjunto do prédio encontra-se envolvido por uma atmosfera sobrenatural que enche a alma de doce e pacífico refrigério.

Chamam a atenção, de fato, a calma e serenidade que pairam naquele ambiente monacal, dominado por um silêncio apenas cortado pelo chilrear dos pássaros ou pelos passos de uma carmelita que se desloca discreta, atendendo ao toque do sino e parece viver em constante diálogo com os Anjos e com Deus.

Tal silêncio envolve e apazigua o espírito, convidando a esquecer o que ocorre fora daquele ambiente recolhido e bendito. Com palavras mudas e imponderáveis, mas quão eloquentes, ele parece dizer:

— Meu filho, pare e contemple quanta coisa há de belo neste mundo sagrado que não são as preocupações do dia a dia, que não é o terra a terra, que não é o agir-agir. Em cada um de nós existe um mundo interior no qual Deus toma contato com a nossa alma. É o mundo do sobrenatural, que de um modo misterioso filtra até nós e se torna sensível ao nosso espírito. 1

Tomados por essa atmosfera, nos deparamos com uma placa afixada em lugar bem visível que adverte: “A mansidão, a humildade e a paz são os fundamentos da vida interior”. Ora, quão bem resume esta frase o segredo da vida monástica! Se nos encantamos com a robustez e a sobriedade dos arcos do claustro ou com a luminosidade tamisada da capela, se nos sentimos atraídos pelo bimbalhar do sino ou se somos afagados pelas bênçãos que exalam de todo o ambiente, a razão disto está na vida interior das pessoas que ali habitam. A construção nada é se as almas não estão em graça, pois são elas “quais pedras vivas” (I Pd 2, 5), que fazem deste lugar um edifício espiritual.

Estarão, contudo, os fundamentos da vida interior reservados apenas àqueles a quem Deus pede a renúncia ao esplendor e à glória do mundo para brilhar somente para Ele nas clausuras, entregando-se à contemplação? É evidente que não! Dos divinos lábios de nosso Salvador brotou um ensinamento, no qual está consignado o meio grandioso, e ao mesmo tempo simples, de todo e qualquer batizado alcançar a mansidão, a humildade e, em consequência, obter a paz: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mt 11, 29).

1Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 13 set. 1972.

Ricos e pobres

19 Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho fino e todos os dias se banqueteava esplendidamente. 20 Havia também um mendigo, chamado Lázaro, que, coberto de chagas, estava deitado à sua porta, 21 desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, e até os cães vinham lamber-lhe as chagas. 22 Sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico, e foi sepultado. 23 Quando estava nos tormentos do inferno[…] (Lc 16, 19-23)

Qual será o ensinamento que podemos tirar dessa parábola? Talvez que os ricos, aqueles que possuem muitos bens são todos condenados e os pobres de bens materiais são sempre bem-aventurados. Vejamos o que nos ensina Santo Agostinho:

Meus irmãos, quando digo que Deus não inclina os seus ouvidos para o rico, não deduzais que Ele não atende os que possuem ouro e prata, criados e patrimônios. Se eles nasceram nessas condições e ocupam esse lugar na sociedade, que se lembrem desta palavra do apóstolo Paulo: “Recomendo aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos” (1 Tim. 6, 17).

Aqueles que não são orgulhosos, são pobres diante de Deus, o qual inclina os seus ouvidos para os pobres e os necessitados (Sl 85, 1). Com efeito, eles sabem que a sua esperança não está no ouro ou na prata, nem nas coisas das quais gozam por algum tempo. Basta que as riquezas não os levem à perdição; se elas nada podem para os salvar, que ao menos não lhes sirvam de obstáculo. Quando um homem despreza tudo quanto alimenta o seu orgulho, então é um pobre de Deus; e Deus inclina-se para ele, porque conhece o tormento do seu coração.

Sem dúvida, irmãos, o pobre Lázaro coberto de chagas, que permanecia à porta do rico, foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão; isto lemos, e nisto acreditamos. Quanto ao rico, que se vestia de púrpura e de linho fino e se banqueteava cada dia esplendidamente, foi precipitado nos tormentos do inferno. Terá sido, realmente, o mérito da sua indigência que valeu ao pobre ter sido levado pelos Anjos? E o rico terá sido entregue aos tormentos do inferno por causa da sua opulência? É preciso reconhecer que, ao pobre, foi a humildade que o dignificou e, ao rico, foi o orgulho que o condenou.

(Santo Agostinho, Narrações, Salmo 85, §3 ).

Jesus: exemplo de obediência

Flávia Cristina de Oliveira
Sagrada Familia2

Diz um conhecido provérbio: verba volant, exempla trahunt, isto é, as palavras voam, mas são os exemplos que arrastam e movem a vontade do homem. Desta forma, não basta uma explicação teórica ou um tratado de moral para convencer uma pessoa a praticar certa virtude; o que é preciso, antes de tudo, é tê-la visto gravada não num papel, mas em alguém.

Este foi o procedimento de Nosso Senhor Jesus Cristo ao se encarnar. Não seria convincente que Ele apenas viesse à Terra, ditasse sua doutrina a alguns homens e depois retornasse para o Céu, “era necessário vê-Lo vivo, como modelo daquilo que Ele mesmo havia ensinado”.1 Por isso que, depois do lava-pés Ele ainda disse aos seus discípulos: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15). Desta forma, o Divino Mestre estimulava os seus discípulos a modelarem não só seus atos, mas o coração conforme ao d’Ele.

A esse respeito, Hamon deixou excelente explicação:

Quando Deus, em seus eternos decretos, decidiu a encarnação do Verbo, Ele se propôs mostrar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, Ele lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imutáveis, pois elas seriam a ação de um homem, e elas seriam uma regra segura, já que seria a ação de um Deus.2

Na encarnação, obediência ao Pai

Foi por meio da virtude da obediência que se realizou o sublime mistério da encarnação do Verbo e da redenção da humanidade. O Filho Unigênito de Deus se antecipou em fazer a vontade do Pai. Conforme o próprio Padre Eterno revelara a Santa Catarina de Sena:

A humanidade que eu tanto amava, já não conseguia atingir sua meta, que sou eu. Impelido pela minha grande caridade, tomei nas mãos as chaves da obediência e a entreguei a meu Filho. […] Agora, quero que compreendas como essa grande virtude foi praticada pelo Cordeiro imaculado […]. Qual foi a razão pela qual se mostrou ele tão obediente? Foi seu amor pela minha glória e pela salvação dos homens. […] O Verbo encarnado foi fiel a mim, Pai eterno; por isso correu apaixonado pelo caminho da obediência. […]É no Verbo encarnado, portanto, que encontramos a obediência total. 3

O divino exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo descrito pela pluma dos evangelistas, sob o influxo do Espírito Santo, é posto em realce sob um aspecto essencial de sua missão nesta Terra: Ele se encarnou a fim de cumprir a vontade do Pai, fazendo-se obediente até a morte.

Nesta submissão, Jesus quis mostrar aos homens o quanto amou a obediência, pois sendo consubstancial com o Pai, abandonou esta igualdade para revestir-se de nossa carne, assumindo a condição de escravo (Fl 2, 7). Encontramos nos textos sagrados que “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14), em outra parte da escritura : “e se fez obediente” (Fl 2,8). Por isso, afirma Gay: “Fazer-se carne é sua constituição; se fazer obediente, é sua condição: uma resulta da outra, e esta se apoia sobre aquela; donde vem que ela é essencial e não pode mudar”.4

Imediatamente ao entrar neste mundo, nosso Redentor deu-nos mostra do valor da obediência através de sua humildade. Ele, enquanto Deus e Senhor de todas as coisas, poderia ter criado um palácio suntuoso para nascer em meio às riquezas, contudo preferiu uma simples gruta, numa das cidades mais apagadas de Judá e para berço escolheu uma pobre manjedoura composta de palhas. De sua primeira atitude poderíamos esperar que Ele tivesse manifestado algum desejo. Qual terá sido?

O Filho de Deus, entrando no mundo, não disse: eu farei isso, eu irei para lá, eu morarei em tal casa, eu seguirei o gênero de vida que me aprouver, eu contentarei todos os meus desejos. Passando do seio da virgem para uma pobre manjedoura, apenas vê a luz deste mundo quando já olha para o céu, entreabre seus bracinhos e diz com amor a seu Pai Divino: “Eis-me aqui, eu venho, ó Deus, para fazer a vossa vontade” (Hb 10, 9).5

Tendo abraçado a inteira obediência a vontade do Pai, Jesus não se negou a obedecer também às prescrições legais da época, uma vez que já no seio da virgem submeteu-se ao decreto de César Augusto. Além disso, Ele, o Supremo Legislador e Pai de Moisés, quis demonstrar sua fidelidade e obediência à lei Mosaica, aceitando a circuncisão e a apresentação no templo, e em outras ocasiões compareceu no templo para comemorar as festas dos judeus. Empreende a viagem para o Egito, a fim de cumprir docilmente a ordem dada pelo anjo. Pouco depois, em Nazaré, quase nada se sabe apenas uma frase de São Lucas que percorrerá a História até o fim dos séculos: “E era-lhes submisso” (Lc 2, 51). Nisso se resume o programa de vida de Nosso Senhor, sob a autoridade de Maria e de José.

Nos três anos de vida pública, Ele não cessou de ensinar a seus discípulos para que, em todas as coisas, eles tivessem uma inteira conformidade com a vontade de Deus. Não se limitou às palavras, mas quis que seus discípulos tivessem isso bem presente até mesmo em suas orações, quando ensinando-lhes a rezar, colocou como principal esta petição: “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu” (Mt 6,10), e para firmar a doutrina deu-lhes o seu exemplo: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai” (Jo 4, 34)6, e em outra ocasião reafirmou: “Pois desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38).7

Obediente até a morte

cruz2Foi o próprio Nosso Senhor quem disse a Santa Teresa: não é obediente quem não está disposto a padecer, e por isso deveriam olhar para os sofrimentos d’Ele pois desta forma a prática da obediência iria lhes facilitar.8 De fato, nos momentos de padecimento, tornou-se mais explicita sua obediência por meio dos sofrimentos, pois a vontade do Pai consistia especialmente nisso. Para cumprir o mandato do Pai em relação aos homens Ele se fez obediente, remediando assim a falta de obediência de Adão, de acordo com o dizer do Apóstolo, em sua carta aos Romanos: “assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos” (Rm 5, 19).

Jesus Cristo quis padecer todos os tormentos possíveis para assim purificar o homem de todas as suas malícias e reparar o pecado de desobediência. Ele assumiu todos os tormentos até o momento supremo do Consummatum est.

Morre só quando “tudo está consumado”, com uma obediência perfeita: Dixit: Consummatum est, et inclinatio capite, et tradidit spiritum (Jo 19, 30). O Consummatum est é a expressão mais adequada de toda a sua vida e obediência: como um eco do Ecce venio da encarnação. 9

“Permanecerei convosco até o fim dos tempos”

Nosso Redentor amou tanto o Pai que após ter padecido no Calvário, fez com que este mesmo sacrifício fosse renovado diariamente entre os homens, através da Celebração Eucaristia, podendo assim permanecer no meio dos homens.

Neste sublime sacramento Jesus Cristo permanece para servir os homens com o banquete de seu Corpo e de seu Sangue; mais uma vez a presença d’Ele se encontra com a marca da obediência. Ele obedece prontamente à voz do sacerdote, seja ele quem for, tendo ou não alguma virtude ou devoção, bastando que pronuncie as palavras da consagração para que o Pão Vivo se faça presente; Ele fica no tabernáculo a espera de que alguma alma venha adorá-Lo ; deixando-Se conduzir por qualquer pessoa. “Qualquer que seja o número dos fiéis que desejam comungar Ele se submete à vontade deles, entra em seus corações para santificá-los, consolá-los, dar-lhes a felicidade do espírito, e, por vezes, para receber o beijo da traição“.10

Em Jesus Sacramentado encontra-se um perfeitíssimo modelo de obediência: obedece em tudo, a todos e sempre; não exige condições, nada recusa, não se desculpa, não sabe senão obedecer.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. Ser mestre e modelo para o próximo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 106, jan. 2007. p. 13.
2 “Quand Dieu, dans sés décrets éternels, décida l’incarnation du Verbe, il se proposa de placer sous les yeux des hommes le modèle de la vie nouvelle qui devait les sauver. Comme homme, le Verbe incarné leur montrerait la voie; comme Dieu, il leur garantirait la perfetion du modèle. Ses vertus seraient imitables, puisqu’elles seraient le fait d’un homme, et elles seraient une règle sûre, puisqu’elles seraient le fait d’un Dieu” (HAMON, M. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933. Vol I. p. 55- 56. Tradução da autora).
3 SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Trad. João Alves Basílio. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 358.
4 “être fait chair, c’est sa contitution; être fait obeissant, c’est sa condition: l’une sort de l’autre, et celle-ci s’appuie sur celle-là; d’où vient qu’elle est comme essentielle et ne saurait changer” (GAY, Charles. De la vie et des vertus chrétiennes. Poitiers: H. Oudin Frères, 1878. p. 360. Tradução da autora).
5 “Le Fils de Dieu entrant au monde n’a pas dit: Je farei ceci, j’irai là, j’habiterai telle maison, je suivrai le genre de vie qui me plaira, je contenterai tous mes désirs. Passant du sein de la Vierge dans une pauvre crèche, Il n’est plus tôt à la lumière du monde qu’il regarde vers le ciel, entr’ouvre ses petits bras et dit avec amours à son Père divin: Me voici, je viens, ô Dieu pour faire ce que vous voulez” (BOUCHAGE, F. Pratique des vertus. Paris: Gabriel Beauchesne, 1908. Vol. II. p. 301. Tradução da autora).
6 Cf. RODRÍGUEZ, Alonso. Op. cit. p. 446.
7 A respeito desta última frase de Nosso Senhor, “Eu desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38), é de muita importância fazer uma observação. Para não ocorrer nenhuma dificuldade em compreender como poderia haver alguma diferença de vontades entre a do Pai e a do Verbo encarnado, sendo Ele a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a teologia nos explica: “Cristo en cuanto Verbo tenía ciertamente voluntad divina; y como la voluntad divina de Cristo coincide y se identifica absolutamente con la voluntad del Padre (ya que es un atributo de la divindad, comun a las tres divinas personas) síguese que en esos textos y otros parecidos alude Cristo a su voluntad humana en cuanto distinta de su voluntad divina, que coincide en absoluto con la de su Padre Celestial. […]El argumento para demonstrarlo es muy sencillo. Si en Cristo hay dos naturalezas integras y perfectas – como nos enseña la fe –, hay que concluir que había en el dos voluntades perfectamente distintas, la divina y la humana. De lo contrario habria que decir, o que la voluntad racional no pertenece ala integridad y parfeccion de la naturaleza humana ( lo que seria un disparate mayúsculo), o que la naturaleza humana de Jesucristo no era integra y perfecta (lo que seria herético). No hay subterfugio posible. Luego en Cristo, además de la voluntad racional humana hubo también voluntad sensible o apetite sensitivo, porque lo exige así la perfecta integridad de su naturaleza humana, si bien este apetito inferior estuvo enteramente subordinado y controlado por la voluntad racional” (ROYO MARIN, Antonio. Op. cit. 163).
8 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da Vida. Op. cit. p. 170.
9 “Il ne meurt que lorsqu’il a ‘tout consommé’ par une parfaite obéissance: ‘Dixit: Consummatum est, et inclinatio capite, et tradidit spiritum’ (Jo 18, 30). Le Consummatum est: est l’expressin la plus vraie et la plus adéquate de toute as vie d obeissance; elle fait écho a l’Ecce venio de l’instant de l’incarnation. Ces deux paroles sont dês cris d’obeissant; et toute l’existace terrestre du Chrit Jésus tourne autour de l’axe reposant sur ces deux pôles (MARMION, Columba. Le Christ, idéal du moine. [s.l.]: [s.n], 1947. Vol. II. p. 339. Tradução da autora).
10 Cualquiera que sea él número de fieles que quieren comulgar, Jesús se somete a la voluntad de ellos, entra en su corazón para santificarles, consolarles, darles la felicidad del espirito, y a veces para recibir el beso de la traición.(MAUCOURANT, F. Op. cit. p. 194- 195).

A obediência e humildade de Maria

Ana Rafaela Maragno

Difícil é encontrar, hoje, na sociedade almas submissas à vontade de Deus e conformes aos seus mandamentos.
Que pensar, então, da humanidade, há cerca de dois milénios atrás, submersa nas sombras do paganismo? Os gentios tinham por lei o amor a si e o esquecimento dos outros. Os judeus, embora tivessem a luz das profecias sendo conhecedores do Deus verdadeiro, esfriavam sempre mais na expectação da vinda de seu Redentor e como consequência esqueciam-se da fidelidade a uma vida virtuosa.

Ignoravam estes, porém, que na pequena cidade de Belém, um altamente nobre, humilde e santo casal já adorava um Deus-Bebê que uma Virgem dera à luz e afagava-O em seus braços. Um Homem-Deus que veio fazer a vontade do Pai e que praticou a humildade até mesmo antes de nascer, encerrando-se nove meses no seio de Maria, ocultando seus atributos divinos; sofrendo as repulsas que sua Mãe foi vítima quando não a quiseram receber em Belém; nascendo em uma gruta e posto sobre palhas em uma manjedoura.

Após seu nascimento, o santo casal esperou completarem-se os quarenta dias para a purificação da Mãe e a apresentação do Menino no Templo, conforme ordenava a lei de Moisés. Que necessidade havia de o Autor da Lei e a Mãe da graça observarem os preceitos mosaicos? Entretanto, por um amor à lei que Ele mesmo havia criado e por uma humildade profunda, dirigiram-se ao Templo a fim de a cumprirem.

praesentatioTomaram o caminho de Jerusalém. Foi a primeira passagem de Jesus por aquela cidade, que haveria de percorrer anos mais tarde fazendo o bem a todas as suas criaturas, até o momento de atravessá-la novamente carregando sua cruz às costas para consumar sua obra de amor. Ocultos aos olhos humanos, mas espetáculo para todos os anjos que guiavam os seus caminhos, avistaram as muralhas do Templo. O Divino Menino entraria nele, pela primeira vez, levado nos braços de sua Santíssima Mãe.

A Virgem parou “à porta do tabernáculo, como as outras mães de Israel, que não podiam entrar nele, antes de serem purificadas”. 1 Não haveria necessidade de purificar-se quem é a Rainha das virgens, porém quis praticar esse ato de humildade e se apresentou ao sacerdote.

Neste momento, deu-se o encontro com o velho Simeão que, movido pelo Espírito Santo, dirigiu-se àquele jovem casal que portava a mais preciosa criatura: o Homem-Deus. Simeão O tomou nos braços e “cantou a glória d’Ele, profetizando tudo quanto Ele seria. E Nosso Senhor, frágil criança, na aparência sem entender, compreendia e inspirava aquele cântico…” 2 Ao mesmo tempo, profetizou sobre os sofrimentos da Mãe : “e uma espada transpassará a tua alma”(Lc 2,35).

Ambos vieram ocultados sob o véu da humildade e foram distinguidos e proclamados: o Menino como luz das nações e glória do povo de Israel (cf. Lc 2,32); a Virgem, sendo a Mãe de Deus e Co-redentora. O consentimento de Nossa Senhora em que seu Filho fosse imolado de forma tão cruel e dilacerante pela remissão de nossos pecados, os méritos desse sofrimento indizível da Virgem unidos aos méritos infinitos do martírio de Jesus, tudo isso granjeou-Lhe o título de Co-redentora do gênero humano.

O que mais conhecemos da vida de Maria? As Sagradas Escrituras relatam a preocupação de Nossa Senhora na perda e o encontro do Menino Jesus no templo e o milagre de Jesus nas Bodas de Canã por intercessão dela. Em algumas circunstâncias de sua vida, Maria foi tratada por seu Divino Filho de mulier – mulher – como a uma estrangeira para lhe favorecer a humildade, conquanto em Seu coração, a estimasse e amasse mais do que todos os anjos e homens. Embora Deus–Pai lhe tivesse outorgado o poder de fazer milagres, consentiu que jamais em sua vida Nossa Senhora fizesse algum, ao menos um milagre visível e retumbante.

Entretanto, Maria é Rainha do Universo, dos anjos e dos homens porque é a mais humilde de todas as criaturas; escolheu o último lugar, o mais próximo ao Filho que, embora sendo Deus, se fez “obediente até a morte e morte de cruz”.

Ensina-nos o Divino Mestre: “Todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado” (Lc 14,11). Esse é o prêmio dos humildes: quanto mais se apagam, mais Deus os eleva e os faz fulgurar com brilho cada vez maior.

Ao contrário, os orgulhosos quanto mais correm atrás das glórias mundanas, tanto mais são sepultados no isolamento e no esquecimento, pois “o orgulho é impaciente e malévolo; invejoso, arrogante, ambicioso, busca só os seus próprios interesses, pervadido de irritações e de ressentimentos pelo mal sofrido”, porque o orgulho “nada desculpa, de tudo desconfia, nada espera e nada suporta” (parafraseando São Paulo, I Cor 13, 4 a 7).

Sigamos o exemplo de Maria. Ela é a Rainha da humildade e por uma palavra sua tudo pode obter-nos de seu Filho diletíssimo, a nós miseráveis pecadores que Ela vela com verdadeiro amor de Mãe. Deixemos para trás o orgulho e obedeçamos às leis Deus.

1 AQUINO, Maria Teresa. Aula de Mariologia no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica — IFTE. Caieiras, 20maio2011. (Subsídios).
2CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A Apresentação do Menino Jesus. In: Dr Plinio. São Paulo: Retornarei, n.71, fev. 2004. p. 2.