Pulchrum, o que é?

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Muitas vezes se relaciona beleza com imagem. Mas estas são distinguíveis, apesar de não separáveis totalmente: há conceitos belos e imagens feias. Pode-se dizer belamente a verdade, mas esta só termina de convencer quando é mostrada e não apenas dita. Também se pode fazer belamente o bem e dizê-lo, mas no fazer já o está mostrado iconicamente. Porque é consistente e real o ser no qual o homem crê e seu princípio também é pessoal. 1

E apesar da filosofia moderna kantiana haver reduzido a beleza a um elemento puramente subjetivo, enquanto propriedade do ser, o pulchrum está intimamente ligado aos atributos transcendentais: ao verdadeiro, porque agrada aquilo que é conhecido pelo intelecto, e ao bem porque o objeto do belo satisfaz o apetite sensível. Porém, hoje em dia nota-se que, infelizmente, tornou-se natural ao homem não mais degustar o pulchrum do verum como, por exemplo, um pensamento lógico de um São Tomás, que emite uma beleza que não é literária, senão que é a beleza inerente à ideia ou à verdade que ele põe em evidência, é a beleza do pensamento puro, do conteúdo relacionado à ideia. A beleza da ideia verdadeira é um esplendor que reflete o lado espiritual do homem, como um cristal que, absorvendo a luz, cria a ilusão de que a luz que mora nele o faz um foco de luz. Portanto, o ponto terminal do verum em plenitude, nessa consideração, é o pulchrum. Mas o belo é, também, um tipo de amor que não pode ser destacado do bonum como elemento deste amor. E é por isso que o pulchrum não é senão o splendor veritatis e o splendor bonitatis. 2

Este seria um título autônomo do amor que faz ver a bondade e a verdade das coisas, ou seja, o pulchrum dá uma facilidade especial para amar. Quando se diz que Deus repousou contemplando as suas obras, eram estas mesmas voltando-se para Ele, num ato de religião, cuja beleza é a do efeito que se volta à sua causa. Esse modo de ver o pulchrum é algo que penetra no homem ― libertando-o de seu egoísmo ―, ao qual ele se rende amorosamente, deliciosamente, como num êxtase. Sai de si mesmo, de sua pequenez e se entrega à grandeza e plenitude, como um filho que readquire seu pai, encontrando-o no Absoluto. É uma contemplação estética das mais altas, pois depois de fazer toda espécie de analogias da coisa e chegar à sua beleza, a contempla em Deus, como a Beleza em si. É uma emoção estética que termina substancialmente num ato de caráter religioso e metafísico, ainda que inconsciente. É um profundo pensamento, que através dos esplendores naturais ali contemplados, se chega ao conhecimento do amor de Deus, a uma experiência transcendental do Absoluto. 3

Deus, portanto, se manifesta como uma “fornalha”, luminosa e incandescente, como luz iluminadora, que é o Belo, e como calor vivificante, que é o Bem. Ele é simples e sua luminosidade e incandescência se identificam. “O Bem e o Belo se fundem na indivisibilidade. Então, o prazer de ver a Beleza e as alegrias que saciam de possuir o Bem se compenetram; a inteligência e o amor se liquefazem na unidade do êxtase”.4 Contemplando o Belo, o homem torna-se bom, assim como se torna belo amando o Bem.

1) LLACH ACI, María Josefina. Otra mediación: la belleza, otro lenguaje: la imagen. Em: Revista Teología. Buenos Aires. No. 92 (Abr., 2007); p. 66.
2) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Coletânea de conferências sobre o Pulchrum. São Paulo: s.n., 1966-1984. s.p.
3) Ibid., s.p.
4) DE BRUYNE, Edgar. L’Esthétique du Moyen Âge. Louvain: L’Institute Supérieur de Philosophie, 1947. p. 123.

“Pulchrum”: o encontro com a transcendência absoluta em nossos dias. Revista Lumen Veritatis. n. 14. Jan-Mar 2011

A criação: um dedo a apontar para o céu

Fahima Akram Salah Spielmann

Na criação, Deus muitas vezes se faz “pequeno” para que assim possamos alcançá-Lo, e compreendermos o verdadeiro sentido que as coisas possuem. Pois, entre todas as criaturas terrenas, o homem é o único capaz de pensar e, através do raciocínio, chegar a compreender a transcendência dos seres criados, o verdadeiro sentido que possuem. A esse respeito, já nos cursos filosóficos aprendemos como todo efeito possui uma causa, do mesmo modo remonta a algo superior de seu criador.

Para ajudar o homo viator a não se perder nesse caminho, Deus inscreveu em seu coração um desejo do sublime, o que constitui uma das mais altas dignidades do homem, como nos afirma a Gaudium et Spes1: “o aspecto mais sublime da dignidade humana está nessa vocação do homem à comunhão com Deus. Esse convite que Deus dirige ao homem, de dialogar com Ele, já começa com a existência humana” (GS 19).

Sendo assim, já no estado de inocência original, o homem, tendo suas potências submetidas à razão superior, com um simples olhar de apreensão subiria à causa e ao fim do criado, uma vez que existe na alma humana, por causa de sua natureza material e ao mesmo tempo espiritual, a necessidade de participar do invisível através do visível2.

Contudo, sabendo Deus da imensa dificuldade que teríamos em alcançar o sobrenatural, após o pecado original, deu-nos sensivelmente como que “elevadores”, que nos fizessem chegar até Ele, fim último de tudo. E esse ascensor é a criação que, como um dedo, nos aponta para Deus.

Aguia4Assim, por exemplo, ao vermos uma águia que sem nenhum temor bate suas asas, desafiando os ventos, e que, de repente, em um só lance agarra sua presa e a arrasa; com um olhar mais profundo podemos ver nisso uma analogia com a beleza de uma alma lutando por um ideal, sem deixar se abater pelos ventos contrários da dificuldade que sopram, continua o seu percurso, voando até alcançar sua meta. Personificando, chegamos a Deus, fonte e raiz de toda virtude.

De modo mais sublime podemos dizer da água, elemento tão banal aos nossos olhos, que, entretanto, teve como primeira causa de sua criação o Batismo 3 , regeneração espiritual que sem sua matéria não produziria o que opera.

Entre outros inumeráveis exemplos citemos no próprio ser humano a necessidade da alimentação que, como nos ensina Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, foi imposta com vistas ao Sacramento da Eucaristia. Na mente divina primeiro estava o Pão da Vida e, por este motivo, foi criado no corpo humano o aparelho digestivo4.

Portanto, podemos concluir que com tudo o que existe sensivelmente pode-se fazer uma analogia com o sobrenatural; e como todo o criado, de modo direto ou indireto, ao ser formulado por Deus visava a união com Ele. E foi assim que agiu o Divino Pedagogo, ao fazer o corpo humano, para que este servisse de “metáfora” para o verdadeiro organismo, que é o Corpo Místico de Cristo.

O Corpo Místico de Cristo é a matriz primeira, o analogado primário, a arquetipia do corpo humano. E o Corpo Místico de Cristo, portanto, tem leis e maravilhas muito mais elevadas, muito mais ricas, muito mais profundas e mais amplas que o próprio corpo humano5.

O corpo humano, figura do Corpo Místico de Cristo

Inspirado pelo Espírito Santo, com o intuito de exprimir tal união, o Apóstolo usou várias imagens, tais como edifício, templo, família de Deus (Ef 2, 19-22), esposa de Cristo (Ef 5, 22-23), corpo de Cristo (Ef 1, 23; 2, 16; 3, 6; 4, 4. 12. 16; 5, 23), complemento de Cristo (Ef 1, 23), e em todas elas encontramos a singular expressão da necessidade de união com Cristo Jesus, de modo a viver por Ele, com Ele e n’Ele.

Igreja Tabor ArautosApesar de possuírem semelhantes significados, a que mais se destaca é a do corpo de Cristo, talvez por conter todas e melhor exprimi-las, como aludiu Pio XII em 1943, na sua encíclica Mystici Corporis.

Ao contrário dos outros, o termo “corpo de Cristo” parece ser da criação de São Paulo, referindo-se a ele várias vezes.

Discutem entre si os exegetas qual teria sido a origem deste termo usado pelo Apóstolo. Dizem alguns, o mais provável, que a ideia de Igreja Corpo de Cristo proceda do termo “esposa, corpo do marido”, muito corrente no Antigo Testamento, expressando, sob a figura de matrimônio, o vínculo de Deus com o povo da Aliança (Cf. Is 62, 4-5; Jer 3, 20; Ez 16, 8-29; Os 2, 19-22), portanto muito própria para transpor a imagem de Cristo e sua Igreja. A passagem mais explícita sobre essa apropriação encontramos em Efésios: “o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a Cabeça de seu Corpo, do qual Ele é o Salvador” (Ef 5, 23).

Os leitores, para os quais se dirigiam estas palavras, entendiam-nas muito bem, pois o marido era a cabeça e a esposa, submissa a ele, era o corpo, da mesma forma como a Igreja a Cristo. Esse enlace entre os esposos servia de preparação para compreenderem o amor de Cristo pela Igreja (Ef 5, 33), que levado até as últimas consequências entregou-se inteiramente a Ela (Ef 5, 25).

Inspirou Deus ao apóstolo São Paulo a figura do corpo para simbolizar a união entre Cristo e a Igreja, à maneira da cabeça com o resto do corpo, por diversas razões.

Diz a Lumen Gentium que de sobremaneira quis Deus escolher esta figura, por projetar a intimidade de Cristo com a Igreja, e neste sentido cada cristão deve almejar o máximo de união, fazendo tudo por Ele, com Ele e n’Ele (LG 7).

Para melhor compreendermos essa profunda analogia, cabe a teologia ceder lugar à anatomia.

Ensina a medicina que o corpo, enquanto tal, só pode existir na junção de seus membros, os quais só desempenharão sua função em ligação com a cabeça, lugar mais complexo do corpo, onde residem os principais comandos nervosos e a quase totalidade dos órgãos dos sentidos, além das partes iniciais do aparelho digestivo e respiratório.

Desse modo, por ordem da cabeça, encontramos a suprarrenal enviando um hormônio chamado cortisol, que em dose exata regula o organismo para que ele desperte. Ou então, em meio à concentração do trabalho, sem precisar de uma contínua atenção nossa, o coração continua a pulsar. Paralelamente, o pulmão prossegue sua respiração sem nenhum lapso.

Toda essa ordenação do organismo é realizada pala hipófise, pequena glândula situada no cérebro6.

Com esta pequena amostra, vemos a íntima e essencial junção, dentro do organismo, e a primazia da cabeça em relação aos outros membros, os quais não seriam o que são sem a cabeça; que por sua vez não seria o que é sem os membros; e, com tal união, basta uma agulha perfurar o último dos artelhos, que em três segundos o cérebro receberá informações do ocorrido e com prontidão responderá em socorro, enviando o necessário para o restabelecimento.

Além disso, tudo é animado pela alma, a tal ponto que na separação desta do corpo se produz a morte.

Na ordem sobrenatural, “a comparação da Igreja com o corpo projeta uma luz sobre os laços íntimos entre a Igreja e Cristo. Ela não é somente congregada em torno d’Ele; é unificada n’Ele e em seu Corpo” (CCE 789).

Pungente é ver que sendo Cristo o Fundador da Igreja poderia designar-se sob outras imagens; mas preferiu a do Corpo, para nos atestar algo já contido no início da Revelação: “ossos de meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2, 23). Ou seja, a Igreja, Esposa de Cristo à semelhança da criação de Eva, floresceu do costado de Nosso Senhor Jesus Cristo padecente na Cruz, donde com toda propriedade podia Cristo designar-se de seu Esposo (Mc 2, 19) e Cabeça (Ef 4, 15-16) de sua Igreja.

1 “La más alta razón de la dignidad humana consiste en la vocación del hombre a la comunión con Dios. Ya desde su nacimiento, el hombre está invitado al diálogo con Dios” (Para todas as referêcias da Gaudium et Spes, será usada a edição Epiconsa; Paulinas. Tradução da autora).
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III, q. 61, a. 1.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. As criaturas nos oferecem o que não podem dar! Só Deus é o rochedo! : Homilia. São Paulo, 4 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
As matérias extraídas de exposições verbais – designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” – foram adaptadas para a linguagem escrita, sem revisão do autor.
4 Id. A manifestação do amor de Deus às criaturas: Conversa. Lisboa, 26 mar. 2008. (Arquivo IFTE).
5 Id. A humanidade de Jesus Cristo: Conferência. São Paulo, 12 set. 2007. (Arquivo IFTE).
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é una, Santa, Católica e Apostólica: Conferência. São Paulo, 1 ago. 2002 (Arquivo IFTE).

Dignidad humana en el mundo contemporáneo

Irmã Martha Lucía Ovalle Pinzón,EP

Continuación del post anterior

El significado de dignidad, en la concepción de la Época Moderna, fue reformulado: la dignidad del hombre deriva de su naturaleza humana pero esta se desvincula progresivamente de cualquier origen divino.

Hernán Mora comenta: “Como en la Época Pre-Moderna se hace un elogio de las capacidades humanas pero, esta vez, deduciendo de éstas mismas la dignidad del hombre, sin acudir a ningún parentesco religioso”1.

Debido a esta separación del hombre y Dios, surge el debate secular en el que la persona misma o terceros deciden el momento de terminar con la existencia en casos “especiales”. Se podría pensar que se le da a la vida un valor mensurable si se compara con otra. En este sentido, defendiendo la eutanasia, Iribarren2, en un artículo de la revista Derecho a morir dignamente, se refiere al pensamiento de Kant, afirmando que la dignidad del ser humano consiste en ser considerado como un fin en sí mismo. Ésta idea de dignidad, para él, va íntimamente unida al deseo de libertad y autonomía del ser humano y, por lo tanto, al desarrollo de aquellos valores que pertenecen a lo más íntimo del hombre.

De un sistema de homogeneidad de valores hemos pasado a otro en el que la pluralidad y la lucha por la misma han ocupado el primer lugar, con la disculpa de respetar la opinión de los demás, pues todos tenemos la razón en algo. Como ejemplo de un concepto de respeto, valorando la dignidad humana, el Doctor Mejía afirma: “El respeto comporta no el distanciamiento de las otras personas por temor a ofenderlas o hacerles daño, sino el asumir la dignidad propia que esa persona posee independientemente de su edad, sexo, condición social, raza o cultura”3.

doentesEl ser humano no dejará de ser digno por muy pobre, viejo o enfermo que se encuentre. Siempre será hombre y siempre será digno. Cada vida es única por tener su origen y raíz en la bondad de Dios, ya que por voluntad propia quiso infundirla en múltiples seres de la tierra. El mismo Mejía añade que: “el hombre actual teniendo a sus pies los atributos de Dios en la tecnología, el desarrollo de las ciencias y el florecimiento de una civilización opulenta, es capaz de enfrentar a Dios y de querer manipularlo”4. Pretende igualarse al punto de querer ser como Él, decidiendo así en diferentes realidades temporales que no le competen, como el momento de dar término a una vida humana.

En cuanto a la dignidad humana, la fundación para el Derecho a Morir Dignamente pone el concepto en el debate de cuál es su verdadera escala de medición, llegando a la conclusión de que cada cual tiene la suya, ya que cada ser dependiendo de las circunstancias construye y reconstruye sus bases morales, éticas y religiosas, conduciendo a un evidente relativismo. En contraposición a esta postura, se resalta el hecho de que todos los seres humanos tienen la capacidad de diferenciar entre el bien y el mal; “es una manifestación de lo que llamamos ley natural, es decir, la ley que Dios fija a través de la naturaleza y de la razón (…) esta es universal, la reconocieron y reconocen los griegos, romanos, los hindúes, judíos o musulmanes”5. En España los adversarios de la eutanasia sostienen el siguiente argumento frente a lo planteado por Derecho a morir dignamente: “Cualquiera que sea la situación física o psíquica en la que se encuentre la persona, ésta conserva su dignidad, la cual no es susceptible de grados: no podemos ni perderla ni ganarla, incrementarla o disminuirla, ni está sujeta a la calidad de vida, por lo que no varía por la enfermedad o el sufrimiento, la malformación o la demencia”6.

A causa de un relativismo en las ideas y costumbres que se extienden por el mundo actual, el hombre ha encontrado el punto exacto de no culpabilidad de los actos, tan solo se ampara en la múltiple posibilidad de verdades que pueden existir en el universo que representa la mente de cada ser humano y las circunstancias en que este se inscribe, llegando finalmente al relativismo ético que a su vez afirma que “no hay verdades absolutas, ni bien o mal que no sean relativos7”. En contraposición Santo Tomás afirma: “Toda ley puesta por los hombres tiene razón de ley cuando deriva de la ley natural. Por el contrario, si contradicen en cualquier cosa la ley natural no será ley sino corrupción de la ley8”. Al respecto, el Papa Benedicto XVI 9 afirma que cuando están en juego las exigencias fundamentales de la dignidad de la persona, de su vida y los derechos primordiales, ninguna ley hecha por los hombres puede trastocar la norma escrita por el Creador; así la ley natural es la garantía de la persona para vivir libre, respetada y protegida de toda manipulación ideológica.

Hernán Mora9 hace una referencia al pensamiento de Juan Pablo II, que por su parte afirma que la dignidad del ser humano no es un fundamento materialista, ni biológico; ésta se inicia al aceptar que tanto hombre como mujer son seres creados a imagen y semejanza de Dios; en esa realidad que es ontológica se cifra la dignidad humana.

En medio de esta bella concepción de dignidad, el uso de la libertad se manifiesta en la elección concreta incluso de su último fin – Dios –, el cual, aunque ya sea determinado por la naturaleza, el hombre con su capacidad de raciocinio, puede o no aceptarlo; de esta forma marca la distancia que separa al hombre de las formas y las existencias inferiores y funda el clarísimo indicio de la condición personal del ser humano dentro del mundo, el cual determina su realidad y en consecuencia su dignidad. Siendo esta capacidad exclusiva para el hombre, “la vida humana es el fundamento de todos los bienes, la fuente y condición necesaria de toda actividad y convivencia social”10.

Con relación a la eutanasia, en nombre de la dignidad como fundamento filosófico que apela a la libertad y a la autodeterminación, un peticionante puede pedir la muerte de acuerdo a las condiciones que éste considera indignas para sí: estado terminal, alteraciones neurológicas severas, entre otros.

Para G. Herranz11 hay dos nociones de dignidad, que definen la posición desde las dos orillas de la discusión; los que están en contra y a favor de la eutanasia. En una se proclama la dignidad impalpable de toda la vida humana, incluso a la hora de la muerte. Se puede decir que esta dignidad se extiende hasta después del trance de la misma, pues el cadáver, aunque ya sin vida, fue hombre y nos recuerda la dignidad de la persona que existió. Es por esto que se tiene la costumbre de homenajear de alguna forma, según cada creencia, a aquel que dejó una huella histórica en el existir. Retomando la opinión de Herranz, todas las vidas humanas, en toda la duración, tienen una dignidad intrínseca, objetiva, en la misma dimensión. Quienes están a favor de la eutanasia afirman que la vida es un don, que tiene una reconocida dignidad, pero que ésta es desigual en todos los seres humanos, y que en cada uno puede sufrir variaciones con el pasar del tiempo, pudiendo aminorarse hasta llegar a desaparecer. Esto depende de la calidad de la vida, pues, si se viera afectada de manera crítica, la persona humana deja de ser digna, pues su vida ya no es vida.

En el ámbito de la bioética – que es literalmente la ética de la vida –, el respeto de la vida puede considerarse como su principio y su fin último, ya que desde Hipócrates la defensa de la misma ha sido la razón de ser de aquel que ejerce la medicina: “juro… que no daré a nadie un veneno, aunque me lo pida, ni tomaré iniciativa de cualquier sugerencia en este sentido (…)”12. La razón de ser de este imperativo es comprensible si se tiene en cuenta que para una persona la vida es el valor fundamental y depende de éste que se lleven a cabo todos los demás.

Sobre el valor de la vida el Doctor Andorno afirma que:

(…) la vida física es el valor supremo de la persona. Su cuerpo es parte constitutiva de su ser-en-el-mundo. Es gracias a su cuerpo que ella vive en el espacio y en el tiempo. Por ello, ella tiene el deber de conservarlo, es decir, de cuidar su salud y al mismo tiempo de respetar el de los demás. El respeto de la vida es, en efecto, el primer imperativo ético del hombre para consigo mismo y con los demás13.

La vida, el acto de existir, le brinda al ser humano la posibilidad de hacer uso de sus potencialidades y tomar decisiones; he aquí el uso de la libertad. Dicha existencia, aunque está determinada por factores intrínsecos y extrínsecos, debe en todos los casos buscar la supervivencia y el bienestar dentro de las posibilidades, hablando en un plano natural – sin olvidar el plano sobrenatural.

Es por esto que optar por una posición a favor de acabar con la vida puede ser un acto inhumano e indigno.

1 PELÈ, Antonio. Una aproximación al concepto de dignidad humana. [En línea]. [Consulta: 13 Jul., 2009].
2 IRIBARREN, Sebastián. Dios mío ¿por qué me has abandonado? En: Revista Derecho a Morir Dignamente. Madrid. No. 49 MEJÍA, Op. Cit., p. 32.
3 Ibid., p. 26.
4 MARTINEZ SAEZ, Santiago. Relativismo ético. En: Persona y Bioética. Chía. Vol. 12, No. 1. (Ene. – Jun., 2008); p. 33.
5 LAFRANCONI, María Lucía. Dignidad, eutanasia y derechos humanos. [En línea]. [Consulta: 18 May., 2009].
6 MARTÍNEZ SAEZ, Op. Cit., p. 33.
7 SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma de Teología. I-II, c. 95, a. 2.
8 BENEDICTO XVI. El progreso depende del respeto a la ley moral. En: Revista Heraldos del Evangelio. Bogotá. No. 52. (Nov., 2007); p. 45.
9 MORA CALVO, Op Cit., p. 90.
10 JUAN PABLO II. Declaración “Iura et Bona”, sobre la eutanasia. En: El don de la vida. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1996. p. 401.
11 HERRANZ, Gonzalo. La metamorfosis del activismo pro eutanasia. En: Persona y Bioética. Chía. Vol. 8, No. 22. (May. – Ago., 2004); Citado por SERRANO RUIZ-CALDERÓN, José M. La eutanasia y su regulación. En: TOMÁS Y GARRIDO, Gloria María y POSTIGO SOLANO, María Elena. Bioética personalista: ciencia y controversias. Madrid: Internacionales Universitarias, 2007. p. 404.
12 HIPÓCRATES. Juramento [En línea]. [Consulta: 22 May., 2009].
13 ANDORNO, Roberto. Bioética y dignidad de la persona. Madrid: Tecnos, 1998. p. 37.

Resgate da metafísica e volta da transcendência: saudades do Absoluto?

Cristo Rey val_4Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Ainda que não queira, o homem não deixou de ser homem e continua tendo, no fundo de seu ser racional, aquela noção simpliciter, naturalmente incerta, de sua causa e fundamento: um Ser Absoluto. É um conhecimento que pode ser comparado ao de uma pessoa que sabe que alguém vem, mas não conhece a este que vem. E a questão do homem de hoje é que não lhe é manifesta, pela inteligência, a percepção de que alguém está vindo. Porém, a ideia deste Absoluto ― Deus, que não é objeto só da inteligência, senão que de outras dimensões do ser humano, não a excluindo, mas envolvendo a numa forma distinta de especulação1 ―, permanece latente em seu ser. É a “brasa que ainda fumega” na mente desordenada do homem hodierno. E quando este se desperta para buscar e conhecer o fundamento último para toda sua experiência real e possível, e quer ir atrás e mais além de qualquer dessas experiências, torna a ser um metafísico.

Analisando a história da civilização ocidental ― para restringir o campo de observação ―, é fato evidente e objetivo que os homens ambicionaram tal conhecimento por mais de vinte e cinco séculos. E ainda quando, supostamente, demonstraram que não o deveriam procurar mais e se comprometeram a não voltar a fazê-lo, se encontram buscando-o novamente2, numa acepção autenticamente tomista, que considerava o conhecimento de Deus como a sabedoria por excelência (S.T. I, q.1, a.6): “merece o título de sábio aquele cujas especulações versam acerca da causa suprema do Universo, quer dizer, de Deus”3. É um resgate da metafísica ou um “tomismo”, meio subconsciente, que começa a reviver nas mentes, antes mesmo que na filosofia, o que ocorreu em meados do século antepassado.

A modernidade saturou o homem de razão, que passou a sentir falta da Fé e da moral. Havendo-se fartado de ideologias materialistas, racionais e subjetivas, em que o Absoluto é um “Acaso” que forja circunstâncias para esmagar o destino que supostamente escolheu com liberdade, através de fatos fortuitos e imprevisíveis4, o homem começa a ter nostalgia da transcendência que lhe proporcionava a Fé. Porém, quem se estabelece firme na Fé, não vê inconveniente em compreender racionalmente o que crê5, e sua nostalgia é desta união. Este é o eixo do pensamento tomista, que distingue a Fé e a Razão, unindo-as harmonicamente.
Maritain6 reconhece que a modernidade, amando a inteligência e tendo abusado dela, só poderia agora ser curada por ela; porém não por ela sozinha. E sendo São Tomás o santo da inteligência, mas que conduz toda a Razão à luz da Fé ― “luz que ilumina racionalmente o homem que vem do mundo e luz que ilumina sobrenaturalmente o homem regenerado na fé”, com sua filosofia de existências e não de essências, que vem das intuições naturais da experiência sensível e da inteligência ―, coloca esta mesma Fé em relações vitais e orgânicas com o mundo da afetividade, instintividade e emoção, bem como o da vontade ou do suprarracional, numa concepção humanista cristã que respeita verdadeiramente a grandeza original do homem, descendo às raízes do ser humano, num ascenso metafísico ao Ser Absoluto: a via metafísica por excelência7.

Na realidade, ao afirmar que o conhecimento natural de Deus se faz a partir do mundo sensível, em que os efeitos remontam à causa ― “Deus naturali cognitione cognoscitur per phantasmata effectus sui” ― São Tomás reconhece que a causalidade é débil, pois um efeito finito é desproporcionado a uma Causa infinita, mas encontra sua força na analogia, a única ponte por onde se pode passar do mundo a Deus8. Ao contrário, como foi visto, rompendo esta linha de pensamento que vinha desde os gregos, passando por São Tomás e chegando até Descartes ou Newton, que reconheciam o princípio supremo de inteligibilidade da natureza como sendo Deus, Kant afirma, em seu criticismo, que uma vez que Deus não é objeto apreendido nas formas apriorísticas da sensibilidade ― espaço e tempo ―, não é possível referir-Lhe senão como categoria de causalidade, pois não é objeto do conhecimento humano. E o homem estabeleceu sua existência apenas pelas exigências da razão prática9.

Ora, abandonar tal questão por considerá-la imprópria na ordem dos conhecimentos positivos é cortar a raiz da especulação referente à natureza e existência de Deus, produzindo uma postura radicalmente nova do homem com relação à verdade, que é a do princípio de imanência, oposto à transcendência10. Portanto, segundo Gilson, a questão se decide entre Kant e São Tomás, pois todas as demais posições que o seguiram são somente “hospedarias ou paradas no caminho que leva ao agnosticismo religioso total ou à teologia natural da metafísica cristã”11.

Mas a humanidade, de modo geral, mantém o establishment em que se fixou desde os tempos modernos, pois o avanço das tecno-ciências ― as telecomunicações, a medicina, a biotecnologia e tantos ramos da ciência ―, sobretudo nos séculos XIX e XX, trouxe-lhe um enorme progresso que a deixou inebriada.

No entanto, entrados já uma década no século XXI, vemos como o progresso em mãos inescrupulosas pode transformar-se em algo terrível: o mal. Se ao progresso técnico-científico não corresponde um progresso ético-religioso do homem, não é verdadeiro progresso, mas uma ameaça para o próprio homem e para o mundo12. E é a mesma ciência, cheia de ares de confiança em si, que se encontra vulnerável, uma vez que tantos cientistas, longe de encontrar resposta para tudo, estão dispostos a admitir que sua visão do Universo está longe de ser completa e que provavelmente nunca o seja13, e se voltam para o transcendente.

“A ciência e a tecnologia encontram sua justificação no serviço que devem render ao homem e à humanidade, e a ciência racional deve estar unida com uma série de esferas do conhecimento amplamente aberto aos valores espirituais”14. O velho sonho moderno de substituir a filosofia e a teologia pela ciência fracassou. Contudo, permanece uma inquietude transcendental no homem, que é intrínseca a seu próprio ser, e nem sequer a ciência a pode tirar, pois a Razão está criada para a verdade e a Fé assalta a inteligência, porque expõe tal verdade15.

Com a razão saturada, o homem começa a dar-se conta de todos esses fracassos, e sente uma insegurança crescente diante da ameaça das forças da própria natureza, que parece disposta a desencadear-se para arrastar consigo seu incauto explorador, bem como percebe que o caminho que se havia aberto a seus olhos como sendo o da suprema liberdade, tornou-se, ao contrário, o de sua última alienação16. A inquietude em busca da verdade se reaviva, e como afirma Edith Stein: “quem procura a verdade procura a Deus, ainda que não o saiba”17.

Essa inquietude vem do instinto do infinito, da busca do Absoluto inerente à alma humana, conforme analisado no início deste artigo. E aquilo que é natural intrinsecamente, quando se rompe por um fator externo, cedo ou tarde tende a voltar com mais força do que antes, como tão bem o explicitam os franceses: Chassez le naturel, il revient au galop! ― Rompei o que é natural e ele voltará a galope!

A nostalgia de Deus habita no coração do homem. É como um espinho cravado em sua carne… Santo Agostinho começa suas Confissões com um brado que talvez sintetize todo o seu livro e muito reflete o homem hodierno, confundido em meio ao caos de sua mente, com tantas filosofias e pensamentos contraditórios ― ele mesmo quase sem pensamento, com a perda da integridade de seu lumen rationis ―, saturado de razão, deixando-se arrastar pelos acontecimentos, mas sentindo em seu ser a angústia de explicar-se a si mesmo e transcender: “Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-Vos. Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós”18.

1 1 ZUBIRI, Xavier. Introducción al problema de Dios. Em: Naturaleza, Historia, Dios. Madrid: Alianza, 1987. p.408.
2GILSON, Étienne. La unidad de la experiencia filosófica. Citado por: GONZÁLEZ, Ángel Luis. Ser y participación: estudio sobre la cuarta vía de Tomás de Aquino. 3a. ed. Pamplona: Eunsa, 2001. p.16.
3GILSON, Étienne. Dios y la filosofía. Buenos Aires: Emecé, 1945. p.92-95.
4CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O valor de uma renúncia: artigo publicado em ‘O Legionário’, no. 97, 08/05/1932, p.4. Em: Opera Omnia: Reedição de escritos, pronunciamentos e obras. São Paulo: Retornarei, 2008. p.364-365.
5GILSON, Étienne. A filosofia da Idade Média. 2a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.291-292.
6MARITAIN, De Bergson a Thomas d’Aquin, Op. Cit., p.107-111.
7GONZÁLEZ, Op. Cit., p.226.
8MANSER, G. M. La esencia del tomismo. Madrid: Selecciones Gráficas, 1953. p.535-536.
9GILSON, Dios y la filosofía, Op. Cit., p.123-127.
10FABRO, Cornelio. Santo Tomás frente al desafío del pensamiento moderno. Em: FABRO, Cornelio e outros. Tomás de Aquino, también hoy. 2a. ed. Pamplona: Eunsa, 1990. p.16.
11GILSON, Dios y la filosofía, Op. Cit., p.128.
12BENTO XVI. Spe Salvi. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 73 (Jan., 2008); p. 8.
13JOHNSON, George. Ahora la ciencia piensa en Dios. [Em linha]. Em: Clarín. Buenos Aires. No.161 (Ago., 1998). [Consulta: 26 Dez., 2008].
14JOÃO PAULO II. Discurso a los representantes de la ciencia, de la cultura y de los altos estudios en la Universidad de las Naciones Unidas. No.12 [Em linha]. [Consulta: 10 Dez., 2008].
15RATZINGER, Joseph. Dios y el mundo: creer y vivir en nuestra época. Buenos Aires: Sudamericana, 2005. p.40.
16ABRO, Santo Tomás frente al desafío del pensamiento moderno, Op. Cit., p.17-18.
17AGUILÓ, Alfonso. É razoável crer? São Paulo: Quadrante, 2006. p.8.
18SANTO AGOSTINHO. Confissões. L.I, c.1.

Fé e razão: arco do conhecimento

agustin_2 copyLuisana Miguelina Estévez

Deus, ao criar o homem à Sua imagem, num ato libérrimo, “deu-lhe alma, dotada de razão e de inteligência, que o tornou superior aos animais restantes, terrestres, nadadores e voadores, destituídos de mente” (SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. L.XII, c.XXIII). E também lhe deu a plena liberdade, infundindo-lhe no coração o desejo de conhecer a Verdade Absoluta, que é Ele, para que conhecendo-O e amando-O possa chegar à verdade plena e perfeita de si mesmo (JOÃO PAULO II. Fides et Ratio).

Ora, o entendimento humano, na luta por alcançar tais verdades, depara-se, pelo caminho, com uma série de dificuldades, produto das sequelas do pecado de Adão; e estas, muitas vezes, levam-no a desistir ou a duvidar, em sua procura, ou até mesmo, em certas ocasiões, a negar aquilo que não quer admitir como verdadeiro.

Disto resulta que muitos dos filósofos antigos, no seu interesse por querer explicar a origem de todas as coisas, caíam, na maioria dos casos, em grandes erros, posto que suas teorias eram unicamente baseadas no que o intelecto humano podia alcançar, sendo que existem verdades que não podem ser demonstradas pela razão humana. Quão equivocados estiveram estes homens “que desejaram a natureza sem a graça [e] a razão sem a fé” (CLÁ DIAS, 1996, s.p.).

O Doutor Angélico (S.C.G., L.I, c.4) ensina que este descobrimento possui uma profundidade tal, que faz com que o entendimento humano, só depois de muito exercício, se encontre em condições para captá-lo pela via racional. Devido a estas dificuldades, o conhecimento pleno de Deus é mais acessível com o apoio da Revelação. Por isso, o apóstolo Paulo menciona e adverte que o cognoscível de Deus se compreende porque Ele mesmo o manifestou (Rm 1, 19).

Desta maneira, se faz mister a Revelação Divina, uma vez que Deus quer que “omnes homines vult salvos fieri et ad agnitionem veritatis venire” ― todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (I Tim 2, 4). E a própria Sagrada Escritura ressalta o papel fundamental da fé nos homens, quando nos diz que “a fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1).

Apesar de tudo isso, não se pode negar o importante papel que desempenha a razão, nem se quer estabelecer um divórcio entre uma e outra, mas o que se quer é acentuar e tonificar a união fraterna que deve existir entre ambas, já que se poderia dizer que constituem duas asas com as quais o espírito humano se eleva para a contemplação da Verdade (JUAN PABLO II, Fides et Ratio). Diz Clá Dias (2010) que a fé é um rationabile obsequium, um reforço da inteligência, já que lhe proporciona o que esta não consegue alcançar. Corrobora tal afirmação João Paulo II (Fides et Ratio, no.42) quando afirma: “a fé requer que seu objetivo seja compreendido com ajuda da razão; por sua vez a razão, no apogeu de sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé lhe apresenta”.

Consequentemente, uma leva a outra pela mão. A fé, que diviniza os atributos humanos, e a razão que, divinizada pela fé, compreende melhor o que por si só não compreenderia.

Esse problema da relação entre Filosofia e Teologia, ciência e fé, razão e Revelação esteve presente já em muitas das indagações dos primeiros Padres da Igreja, nos primeiros tempos do Cristianismo, como nos explica Adriano (2007, p.36): “a questão era saber se com o surgimento da fé […], a razão ainda conservaria qualquer utilidade ou se tornaria um perigo para o crente”. Enquanto uns discutiam sobre a antinomia entre ambas e seu total desacordo, outros defendiam sua completa harmonia, afirmando serem elas “duas forças noéticas que trabalham para o mesmo objetivo: a posse da verdade” (ADRIANO, 2007, p.36).

Não pode haver uma separação entre fé e razão, posto que “formam nisto um par de gêmeas peculiares, não podendo nenhuma das duas separar-se totalmente uma da outra e, todavia, cada uma deve conservar sua própria tarefa e identidade” (BENTO XVI, 2008, apud CASTÉ, 2009, p.24), pois o mesmo Deus, que dispôs a Revelação para a salvação do homem, infundiu no espírito deste a luz da razão (PIO IX, Dei filius), para que fazendo uso dela demonstre quão certas são aquelas verdades à que se teve acesso pela fé.

Fé e razão

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

Atualmente, muitos são os que acreditam em um divórcio irreconciliável entre as ciências filosóficas e a doutrina da Revelação, e consequentemente, uma dupla verdade: aquela apreendida pelos sentidos ou experimental e a da fé. A estes, entretanto, Pio IX, em sua encíclica Qui pluribus, denomina “incautos e inexperientes”, pois são enganados pelas afirmações ilógicas dos inimigos do nome cristão, que não hesitam em arrogar a si o título de filósofos (D 2775).

Mas, então, em que consiste a verdadeira filosofia? No estudo dos fenômenos? No estudo do homem como simples objeto? A razão humana estaria, desta forma, reduzida a funções meramente práticas e instrumentais? Há um caminho certo para a filosofia?

Se, etimologicamente, o termo filosofia vem do grego e significa amigo da sabedoria ou amigo do conhecimento, poderíamos dizer que filósofo é todo aquele que deseja conhecer; em outras palavras: todo o gênero humano, pois todos nós buscamos o conhecimento desde a infância. Uma criança ainda em seus primeiros meses de vida: se lhe mostram um brinquedo ela não se contenta apenas em vê-lo, mas deseja também pegá-lo, agitá-lo, mordê-lo, etc., pois a avidez pelo saber já se manifesta em seu intelecto. Ao crescer um pouco mais, é chegada a “idade dos porquês”, em que ela se indaga o porquê de tudo o que existe ao seu redor, como por exemplo: por que ao apertar o interruptor a luz se acende? Depois, ela iniciará seus estudos em um colégio, posteriormente em uma universidade, e irá crescendo e adquirindo experiência na “escola da vida”.

Esse desejo de conhecer cada vez mais, numa especulação racional contínua, foi a causa ― sobretudo na antiga Grécia ― de alguns começarem a dedicar-se de maneira especial à busca da verdade: são os que receberam o nome de filósofos. Primeiramente, seus estudos procuravam solucionar questões cosmológicas, chegando a conclusões muitas vezes infudadas, como a origem do mundo através do azar, da água, do fogo, ou até dos números. Posteriormente, interessaram-se por problemas antropológicos: o que é felicidade? Ou o que é a alma humana? Mas, tampouco, tiveram grande êxito.

sagrado coraçao

Com a encarnação do Verbo, Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, trouxe ao mundo uma nova doutrina: a Boa Nova do Evangelho. Ele, que é o lumen veritatis, apresentou o caminho desta verdade, que é Ele mesmo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Alguns séculos depois, a Escolástica levou a história da filosofia ao seu ápice, unindo a especulação da razão com a luz da fé.

Os que seguiram este Caminho chegaram com sucesso a muitas respostas para as investigações até então feitas. Pode-se comprovar isso nos Concílios, nas obras dos Padres e dos Doutores da Igreja, bem como nos documentos do Magistério Eclesiástico. Como entende a filosofia cristã, à Luz da Revelação, o aparecimento do homem:

Na sua bondade e com a sua onipotente virtude, não para aumentar a sua beatitude nem para adquirir perfeição, mas para manifestá-las através dos bens que concede às suas criaturas, somente este verdadeiro Deus tem, com a mais livre das decisões, desde o inicio dos tempos, criado do nada uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, isto é, os anjos e o mundo, e depois a criatura humana, como partícipe de ambas, constituída de alma e corpo (PIO IX. Dei Filius, no.9).

Ou qual a fonte da alegria do homem: “Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que Te servem por puro amor: essa alegria és Tu mesmo. E esta é a felicidade: alegrar-nos em Ti, de Ti e por Ti” (SANTO AGOSTINHO. Confissões, L. X, c.22)

Porém, muitos rejeitaram os ensinamentos do Homem-Deus e, por isso, não puderam encontrar-se com a verdade: “não […] alcancei o sentido [da vida], parecendo-me tudo uma piada” (SARTRE, 1986, p.32 apud LLANO CIFUENTES, 2009, p.114). Ou baniram o Criador do Universo, por teorias errôneas, desligadas das verdades de fé: “Assim como o universo teve um começo, nós podemos supor que teve um criador. Mas se o universo está realmente autocontido, não tendo limite ou borda, sem qualquer princípio ou fim, existindo simplesmente, que lugar teria então um criador?” (HAWKING, 1988, p.140-141 apud BANDET, 2009, p.72). Excluindo os ensinamentos do Divino Mestre de suas especulações, eles negam o que para os que possuem a graça batismal é tão evidente, como afirma o Pe. François Bandet (2009, p.77):

O nosso universo está organizado com a precisão de um relojoeiro, e para afirmar que tudo isto não é senão fruto do acaso e do destino, como fazem os darwinistas, seria como dizer que a Torre Eiffel, com os seus milhares de porcas e parafusos, teria sido montada ao acaso. Ridículo…

Seria insensatez crer que a filosofia deva rejeitar o que Deus em sua infinita clemência se dignou manifestar aos homens. Nossa razão e capacidade intelectual não são senão uma participação em Deus. Para esta questão, nos chama a atenção Mons. João Sconamiglio Clá Dias (2009, p.17-18):

Não se pode conceber, portanto, uma vida intelectual em divórcio com a conduta em meio aos afazeres de nossa existência terrena. Quem é batizado e conhecedor da Revelação terá por ideal viver conforme o real divino e religioso, tal qual adverte o apóstolo: “Isto, pois, digo e vos rogo no Senhor: que não andeis mais como os Gentios, que andam na vaidade dos seus pensamentos, os quais têm o entendimento obscurecido, e estão afastados da vida de Deus pela ignorância que há neles, por causa da cegueira de seu coração” (Ef 4, 17-19).

É importante esclarecer que se pode e deve fazer uso das ciências, sem desprezar o que se conhece pela fé, pois “a razão, ao separar-se das questões últimas, se fez […] incompetente para decifrar os enigmas da vida, os enigmas do bem e do mal, da morte e da imortalidade” (RATZINGER, 2005, p.182, tradução nossa). Tanto a luz da fé, quanto a luz da razão, procede da mesma fonte, autora da Revelação e criadora do intelecto humano, de maneira que, os princípios religiosos devem iluminar e guiar o raciocínio, e este proteger e defender a fé cristã; entretanto, sem jamais tentar sobrepor-se a ela, dado que nunca poderá demonstrá-la e compreender todos os seus mistérios. A este respeito, vejamos o que nos aconselha Santo Hilário (De la Trinidad. L.II, c.10 apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.C.G., L.I, c.VIII, tradução nossa):

Comece por acreditar nestas coisas, medite-as e persevere; sem dúvida, jamais chegarás a elas, eu o sei, mas felicito-te por te teres aproximado. Pois, quem busca com fervor o infinito, mesmo se por acaso não chegar ao fim, avança sempre. Todavia, não te intrometas no mistério, nem mergulhes no arcano da verdade sem limites, presumindo compreender a suma da inteligência. Procure entender que há coisas incompreensíveis.

Assim, concluímos que após a vinda de Nosso senhor Jesus Cristo a esta Terra, a humanidade foi lavada por Seu sangue, e o que antes era impossível para a natureza humana, tornou-se possível pela graça. Magnífico exemplo disto se verifica na história da filosofia, pois o que ao homem antigo exigia uma vida inteira de esforço ― muitas vezes em vão ― aos que se voltam para Ele com veneração é concedido por um dom de Deus. Portanto, é necessário que a filosofia tome a fé como seu guia para alcançar a verdade.