O Todo-Poderoso fez-se todo-debilidade

Ir. Clara Isabel Morazzani, EP

O Império Romano havia atingido um auge de progresso, mas também se afundara num abismo de decadência moral. E o mundo civilizado não encontrava solução para seus problemas. Um frágil Menino veio trazer a luz à terra.

Muito se tem falado da grandeza e do esplendor da antiga Roma… e não sem razão. Basta fazer uma rápida visita à Cidade Eterna, percorrer os foros, admirar as gigantescas ruínas das Termas de Caracalla, contemplar por alguns momentos o Coliseu ou parar diante do famoso Pantheon, cujas proporções arquitetônicas deixam extasiados os especialistas modernos, para dar-se conta dos inúmeros dons de inteligência e organização com os quais foi aquinhoado o povo romano. Soube ele fazer uso de suas capacidades naturais. Unindo ao espírito empreendedor uma rara subtileza, impôs-se às outras nações, quase todas afundadas na completa barbárie, e instalou uma civilização a seu modo: floresceram o cultivo dos campos e a criação de rebanhos, surgiram as construções sólidas, as cidades populosas, as estradas seguras. A pax romana estendeu-se por toda parte, até os extremos limites do Império. Olhando para o caminho percorrido, os romanos podiam sentir uma compreensível ufania por ter atingido um auge de cultura, riqueza e poder.

O egoísmo era a lei que regia as ações do homem

Contudo, a realidade desse quadro — pintado por alguns entusiastas como Sêneca, Plinio e Plutarco — aparece-nos bem diferente ao considerarmos, em seus detalhes, a decadência social e moral do mundo romano de então. Por debaixo de todos aqueles esplendores latejava uma profunda miséria. Roma tornara-se, não a rainha, mas a tirana da humanidade. Em toda parte acentuava-se o contraste entre a riqueza e a indigência, bem como o domínio despótico do forte sobre o fraco. O egoísmo era a lei que regia as ações do homem.

Por outro lado, uma imensa corrupção dos costumes se alastrava por todo o território dos césares. A existência dos cidadãos livres decorria numa ociosidade propícia a todos os vícios, na procura desordenada do luxo e dos prazeres. As crônicas da época nos descrevem algumas das diversões que tanto atraíam as turbas: orgias, corridas, lutas de gladiadores, comédias. O que mais agradava àquele povo embrutecido era ver correr o sangue humano; com freqüência, ele se mostrava exigente com os imperadores, se o espetáculo não era suficientemente sanguinário para causar-lhe o delírio.

Para compreender o estado de degradação e imoralidade em que soçobrava a sociedade antiga, basta lembrar a epístola de São Paulo aos romanos, na qual o Apóstolo recrimina os escândalos e abusos aos quais eles chegaram, por não terem procurado chegar a Deus através das criaturas.

Todos buscavam a felicidade onde ela não podia ser encontrada

Esta situação criava na Ásia, na África e na Europa uma atmosfera irrespirável. Tudo quanto os homens haviam desejado e conquistado deixava-lhes na alma um terrível vazio e até um pavoroso tormento. Nada conseguia acalmar seus apetites desregrados; corriam atrás da felicidade, mas buscavam-na onde ela não se encontrava e ao julgar havê-la achado, constatavam que ela não podia saciá-los. Todos sentiam pairar uma grande crise que ameaçava terminar numa ruína inevitável. Assim, o quadro das nações aparecia mergulhado em densas trevas e a História estava, por assim dizer, parada na muda expectativa de uma solução para tantos problemas.

Não faltavam, entretanto, almas boas que manifestavam sua inconformidade ante todos esses desvarios e conservavam uma vaga reminiscência da promessa, transmitida por Adão e Eva ao saírem do Paraíso, da chegada de um Salvador.

De onde poderia vir esse Esperado das nações? Acaso seria um sábio ou um potentado? Ou um príncipe, um general dotado de poder e força extraordinárias, capaz de dominar sobre toda a humanidade? Todos os olhos estavam ansiosamente à procura de alguém do qual pudesse vir o socorro…

O reino da graça, da bondade e da misericórdia

E eis que Deus, confundindo a sabedoria e a ciência deste mundo, mostrou-Se aos homens da forma como estes menos podiam imaginar: um bebê tenro, frágil, comunicativo, deitado sobre as palhas de uma manjedoura, sorrindo!

Ali, no fundo de um estábulo, na humilde cidade de Belém, está reclinada a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, feita Menino para Se colocar à nossa altura e à nossa disposição. Ele não vem convocar soldados, nem impor jugos, nem exigir tributos; não Se manifesta sob os fulgores da justiça punitiva que se revelara no Antigo Testamento. Pelo contrário, esse Deus todopoderoso faz-se todo-debilidade, a marca da realeza repousa agora sobre os De um frágil Menino surge a Igreja Católica, a ombros de um encantador mais bela e sólida instituição da História Recém-Nascido que abre graciosamente os braços e parece dizer, por entre seus infantis vagidos, o que mais tarde anunciará a todas as gerações: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13). Sim, é um reino que Ele vem implantar, mas este será o reino da graça, da bondade e da misericórdia.

Oh! que a humanidade inteira, cansada e sobrecarregada pelo peso de seus pecados, venha prostrarse diante desse esplêndido presépio no qual se encontra não só o feno dos animais, mas também o alimento dos Anjos! Que o homem velho se despoje das ações das trevas e corra para adorar, enternecido, a Divina Criança que lhe traz a luz!

No meio da noite escura e fria, um mundo novo começa a surgir em torno da sagrada gruta onde vela José abismado em profundo respeito, ora Maria em maternal contemplação e dorme o Menino em paz celestial…

Brilho fugaz da luz celestial

Fahima Spielmann

A Providência criou nesta Terra de exílio uma porção de coisas fugazes ótimas — que deixariam de ser ótimas se não fossem fugazes —, para nos dar uma tinta do Céu.

“Gemendo e chorando neste vale de lágrimas” — eis nossa condição, tão bem expressa na Salve Rainha, oração que poderia ser qualificada como a prece da esperança em alcançar a bem-aventurança do Céu, anseio de todo ser humano sob o jugo das labutas e sofrimentos (cf. Gn 3, 17-19).

Junto a esse desejo de obter a verdadeira felicidade, dir-se-ia haver também na alma do homem algo como que saudades de um Céu por ele ainda desconhecido. E tais sentimentos o auxiliam a coibir suas más inclinações, pois ao recordar o prêmio eterno a que seus atos concorrem, refreiam-se os desvarios de sua natureza decaída.

Conhecendo, desde toda a eternidade, esse insaciável anseio, excogitou Deus, em sua sabedoria e bondade, dar ao homem criaturas que lhe recordassem a fugacidade desta vida e a perenidade da outra, estimulando-o a praticar o bem, na esperança de ver finalmente satisfeitas suas mais altas aspirações.

Uma destas criaturas é o simpático beija-flor. Rasgando os ares com seu bico semelhante a uma lança, fende ele os céus disposto a tudo enfrentar para alcançar sua meta, à primeira vista muito pequena: a corola de uma flor. Esta delicada ave nos ensina, assim, a nos contentarmos com o “pouco” que encontramos nesta vida, enquanto Deus nos prepara para o “muito” que nos dará na futura.

Devemos possuir o jubiloso equilíbrio que tanto transparece no beija-flor. Distante de qualquer depressão ou frenesi, sai ele de flor em flor, aparentemente tomado pela alegria de estar cumprindo a finalidade para a qual foi criado.

Aspecto peculiar a este regozijo é sua agilidade. Nesta vivacidade, ele “fica parecido a uma joia preciosa que Deus criou para o homem poder olhar e nunca segurar, e ter o encanto da coisa fugidia que passa, a qual, neste vale de lágrimas, é para nós uma esperança do Céu. Quer dizer, ele foi feito para ser fugaz. A Providência criou nesta Terra de exílio uma porção de coisas fugazes ótimas — que deixariam de ser ótimas se não fossem fugazes —, para nos dar uma tinta do Céu. […] Deus teve pena de nós e nos mandou um vaga-lume do Céu para a Terra, para acender e apagar, fazendo-nos entender algo do Céu”. 1

Se o beija-flor fosse passível de felicidade, desbordaria de contentamento ao ver-se realizando, com suas reações variadas e saltitantes, o fim para o qual foi criado: ser para o homem um brilho fugaz da luz celestial.

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Uma joia dotada de asas. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XV. N.174 (Set., 2012); p.34.

Liberdade e disciplina

Ir. Flávia Cristina de Oliveira, EP

Sob influência das ideias da Revolução Francesa, cujo lema era: liberdade, igualdade e fraternidade, a humanidade passou a buscar desnorteadamente uma liberdade desenfreada e mal concebida, com a ilusão de que encontraria a felicidade. Segundo esse princípio, “a liberdade e a igualdade produziam a fraternidade, desde que os homens fossem inteiramente livres de fazer tudo quanto quisessem, fossem totalmente iguais – não houvesse nenhum superior nem inferior –, eles se sentiriam completamente irmãos. Então, a fraternidade seria uma flor nascida dessa dupla semente da liberdade e da igualdade”.1Assim sendo, o indivíduo inteiramente livre seria aquele que fizesse tudo o que há de mais deleitável, sem que ninguém o impedisse.

Vejamos alguns exemplos. Um menino que naturalmente, pela tenra idade, gosta muito de brincar. E para se distrair toma, por hábito, reunir-se com seus companheiros para lutar com espadinhas feitas de taquara, e com as mesmas fingem furar um o olho do outro. A mãe do menino, logo que vê tal brincadeira, toma providências para que ela não se repita e inclusive ameaça de punição àquele que for apanhado em tal brincadeira.

Agora perguntamos: A mãe, tendo esta atitude, agiu tiranicamente impedindo que as crianças fizessem aquilo que a elas parecia muito agradável e suprimiu-lhes a liberdade?

A resposta no-la dá Plinio Correa de Oliveira: “Numa idade extremamente jovem, a criança faz coisas que não são racionais, ela é vítima da tirania da falta de maturidade. Para defendê-la contra essa tirania, os pais obrigam-na a fazer uma coisa ou outra”, e desta forma protegem a liberdade da criança. “É uma proibição na aparência; de fato é uma garantia da liberdade”.2

O mesmo se aplica, por exemplo, em um acontecimento muito frequente nas grandes cidades: o suicídio. Há pessoas que param sobre uma ponte ou viaduto e ficam analisando; em determinado momento sobrevêm-lhes a tentação de se lançar do alto da mesma para se livrar dos problemas da vida, de uma crise ou qualquer outra coisa do gênero. Muitas vezes, a pessoa, levada por um desespero, acaba se atirando mesmo. Para evitar tais ocorrências, existem policiais cuja função é segurar o indivíduo que tenta se suicidar. O fato de a pessoa se lançar da ponte não é um ato de liberdade, mas uma debilidade, uma fraqueza da natureza humana que, face às dificuldades da vida, não tem força para enfrentá-las. Por isso o policial que impede uma pessoa de suicidar-se garante-lhe a liberdade, pois lhe assegura a vida.

Sustenta Dr. Plinio: “proibir uma pessoa de fazer uma coisa que é contra o bom senso, contra a razão, é uma defesa da liberdade”.3 Assim, é errôneo o princípio de liberdade cujo objetivo consiste em afirmar que a liberdade é uma possibilidade dada ao homem pela qual ele pode optar pelo bem ou pelo mal, e que, portanto, o próprio pecado é um ato de liberdade. Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo afirma “todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8, 34).

A este respeito esclarece o Pe. Royo Marín:

É grande erro, com efeito, crer que a faculdade ou poder de pecar pertença à essência da liberdade. Pelo contrário, essa defectibilidade da liberdade humana que lhe põe nas mãos o triste privilégio de poder pecar, é um grande defeito e imperfeição da mesma liberdade, que afeta unicamente às criaturas defectíveis […]. A faculdade de poder pecar não é liberdade, mas sim depravação, libertinagem e, em definitivo, triste e vergonhosa escravidão.4

Onde se encontra então esta liberdade extremamente procurada? A liberdade consiste em que o homem siga aquele primeiro impulso que o incita invariavelmente para o bem5. De acordo com o ensinamento de Leão XIII, em sua encíclica Libertas praestantissimum:

Tal é a lei natural, a mais eminente de todas, escrita e gravada no coração de cada ser humano, pois a própria razão humana ordena fazer o bem e proíbe pecar. Mas esta prescrição da razão humana só pode ter força de lei porque é voz e intérprete de uma razão mais elevada, à qual se devem submeter nosso espírito e nossa liberdade (D 3247).

Imaginemos uma gaivota que, após ter levantado voo sobre o mar, aproxima-se das águas para capturar o peixe; mas uma vez apanhado sua presa, tenta voar novamente, mas não consegue, pois foi enredada por um pescador. Imediatamente vem-nos a ideia de que a liberdade da gaivota ficou impedida. Neste caso houve uma real coerção da liberdade, pois é próprio à gaivota alimentar-se dos peixes e levantar voo, sendo este o seu primeiro impulso natural e ordenado para o qual Deus a criou.

Fazendo um paralelo com a gaivota constatamos o que ocorre com o homem. A alma humana tem uma série de primeiros movimentos bons que o inclinam à prática da virtude e, portanto, ao cumprimento da vontade de Deus, assim como a gaivota, por um impulso animal, anseia por voar. De maneira que:

A dignidade do homem exige que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão […] O homem atinge essa dignidade quando, libertando-se das escravidões das paixões, tende para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes (VS 42).

Assim sendo, “o homem verdadeiramente livre não é aquele que faz tudo quanto lhe passa pela cabeça, inclusive o mal, mas é o homem que aceita o seu primeiro impulso bom, o segue sempre e não admite embaraços que venham tolher este impulso”.6

Além de seguir este impulso, ele precisa enfrentar uma luta árdua, pois está dito: militia est vitam homines super terram (Jó 7, 1), a vida do homem sobre a Terra é uma constante luta contra as más tendências e obstáculos que procuram afastá-lo deste ideal. Por isso, Deus nos deu uma lei e conforme ponderou o Papa João Paulo II: “Modelada por Deus, a liberdade do homem não só não é negada pela obediência à lei divina, mas apenas mediante essa obediência, ela permanece na verdade e é conforme à dignidade do homem […]” (VS, 42).

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. O verdadeiro conceito de liberdade. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 163, out. 2011. p. 10. Este autor será, daqui em diante, referido apenas como Dr. Plinio, no texto.
2 Ibid. p.11.
3 Loc. cit.
4 “Es un gran error, en efecto, creer que la facultad o poder de pecar pertenezca a la esencia de la libertad. Al contrario, esa defectibilidad de la libertad humana que le pone en las manos el triste privilegio de poder pecar, es un gran defecto e imperfección de la misma libertad, sino depravación, libertinaje y, en definitiva, triste y vergonzosa esclavitud” (ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961. p. 167. Tradução da autora).
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A liberdade e a virtude. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei. n. 163, out.  2011. p. 22.
6 Ibid. p. 23.

   

Uma grande alegria

Natal4Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz,EP

Assim como os pastores encontraram aquele adorável Menino reclinado sobre as palhas do presépio, nós também podemos reencontrá-Lo “reclinado” nos Tabernáculos de todo o mundo.
Era noite. Os pastores que apascentavam seus rebanhos tinham acabado de ouvir o anúncio da Boa Nova que o Anjo lhes fizera, e disseram entre si: “Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou” (Lc 2, 15). Partiram então “com grande pressa” (Lc 2, 16) para a gruta, a fim de adorar o Verbo feito carne e servir de testemunhas do grande acontecimento para as épocas futuras.

Docilidade à voz do Anjo

Ao compreenderem o significado da notícia — a chegada do Messias — os pastores haviam sido tomados de um misto de temor reverencial e de consolação, mas não duvidaram sequer um segundo. Bastou a mensagem transmitida pelo celeste embaixador para robustecê-los na fé e confirmar suas esperanças.

Sem dúvida, a luminosa aparição do Anjo veio acompanhada de uma graça especial que os fazia pressentir a grandeza do acontecimento anunciado. Flexíveis à voz do sobrenatural, não manifestaram reservas, não opuseram objeções; pelo contrário, deixaram tudo, abandonando com presteza até mesmo os rebanhos confiados à sua guarda e se dirigiram sem demora em busca do “Recém-nascido, envolto em faixas e posto numa manjedoura” (Lc 2, 12).

Ali, como os Apóstolos que, anos mais tarde, seriam chamados de bem-aventurados pelo Divino Mestre, também eles poderiam ter ouvido dos lábios do Salvador: “Felizes os vossos olhos porque vêem! Ditosos os vossos ouvidos porque ouvem!” (Mt 13, 16).

A humildade dos pastores atraiu o olhar de Deus

Aqueles rudes camponeses foram objeto dessa predileção, por parte da Bondade Divina, muito mais por serem pobres de espírito do que por sua modesta condição social. A virtude da humildade, que os tornava aptos para compreender os mistérios de Deus, sem opor ceticismos arrogantes, atraiu sobre eles os olhares do Altíssimo, da mesma forma como Maria Santíssima, por Sua insuperável despretensão, foi escolhida para ser Mãe do Redentor.

Já em Seu nascimento Jesus mostrava, assim, Seu amor pelos mais pequeninos, por aqueles que, reconhecendo seu nada ou até mesmo sua falência espiritual, põem toda a sua confiança no poder de Deus.

Há quem possa ver nessa atitude de submissão diante de Deus, tão própria aos santos de todos os tempos, uma desprezível manifestação de ignorância ou insuficiência. Mas essa é a opinião daqueles que o próprio Jesus denominaria como os “sábios e entendidos” (Mt 11, 25) deste mundo e que, por conseguinte, acham-se privados do conhecimento das coisas divinas, por cegarem-se a si mesmos.

A sabedoria verdadeira — esta sim, possuíam-na os pastores —, alcançaraa em altíssimo grau a virginal Senhora que Se inclinava em adoração ante a mísera manjedoura transformada em trono real. Movidos por essa “sabedoria da humildade”, os pastores haviam corrido até o estábulo e contemplavam a Sabedoria em Pessoa, que repousava placidamente sobre as palhas: “Ela apareceu sobre a terra, e habitou entre os homens” (Br 3, 38).

O presépio de Belém e os altares da Igreja

Hoje, de certo modo, se repete a cada dia o mistério de Belém. Dois milênios depois do nascimento de Cristo, as igrejas se encontram multiplicadas pelo mundo, e nos seus Tabernáculos repousa Jesus, verdadeiramente presente, embora oculto sob os véus do Pão Eucarístico, assim como repousou outrora sobre as palhas da manjedoura, envolto nos panos que Maria Santíssima Lhe preparara.

A mesma presteza que admiramos nos pastores deve impelir-nos, também nós, a deixar tudo e correr para o altar, a fim de encontrar o Senhor que desce do Céu. Nos altares da Igreja, obediente à voz do sacerdote, nasce Nosso Senhor Jesus Cristo uma vez mais, fazendo-nos lembrar a maneira como Ele Se apresentou ante os olhares maravilhados da Virgem Mãe, de São José e dos pastores, naquela noite santa.

O Natal não é uma mera recordação histórica

A festa de Natal encerra um significado litúrgico extraordinário: embora o Santo Sacrifício seja oferecido todos os dias nos altares de tantas igrejas espalhadas pelo mundo, ele se reveste de uma unção e densidade simbólicas particulares na noite de 24 para 25 de dezembro.

Não se trata apenas da recordação de fatos históricos envoltos nas brumas do passado, mas de uma realidade mais profunda do que aquela que captamos através dos sentidos. A Liturgia do Natal traz um conjunto de graças vinculadas a esse mistério, as quais se derramam sobre nossos corações quando o celebramos com fervor sincero.

O ano litúrgico — ensinava o Sumo Pontífice Pio XII — que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos. É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem, com o fim de colocar as almas humanas em contato com os Seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor”.1

igreja_arautosA Fé em Nosso Senhor, deitado na manjedoura e presente na Eucaristia

Hoje não vemos, como os pastores, o Divino Menino deitado sobre as palhas, mas contemplamo-Lo, com os olhos da Fé, na Hóstia imaculada que o sacerdote apresenta para a adoração dos fiéis; não ouvimos as vozes dos anjos fazendo ecoar o “Glória!” pelas vastidões dos céus, mas chega até nós o apelo da Igreja, convidando seus filhos: “Venite gentes et adorate!”.

Se grande foi a Fé daqueles homens simples ao acreditarem que, naquele pequenino vindo à terra em tal despojamento, e aquecido tão-só pelo bafo dos animais, ocultava-Se o próprio Deus, a nossa Fé poderá alcançar grau mais elevado se considerarmos esse mesmo Deus escondido na Eucaristia. E poderemos, nós também, ser contados entre os homens que o Senhor chamou de bem-aventurados: “Felizes aqueles que crêem sem ter visto!” (Jo 20, 29).

Jesus, a Beleza suprema, vela-Se em vão aos olhos de quem tem Fé: apesar da infância à qual O reduziu seu amor, seu poder se manifesta nesse dia, e só Ele — quer sob a figura de frágil criança, quer sob as espécies eucarísticas — derrota os infernos e resgata a humanidade da vil escravidão do pecado.

Natal: uma “clareira” alegre e luminosa

Quantas graças de alegria e consolação concedidas por ocasião do Natal! A cada ano, em todas as épocas da Era Cristã, esta festa máxima abre uma “clareira” alegre e luminosa no curso normal, por vezes tão cheio de sofrimentos e angústias, da vida de todos os dias. Dominados pelas preocupações concretas ou pela ilusão deste mundo passageiro, os homens esquecem-se facilmente da eternidade que os espera e olham para esta terra como para seu fim último.

Todos se afanam em busca da felicidade; entretanto, só uma é a verdadeira, e o Divino Menino vem para apontar o único caminho que a ela conduz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). E nessa noite silenciosa, todos param diante da gruta de Belém, gozando, ainda que por alguns instantes, dessa alegria envolvente, trazida pelo Redentor. “Ali, os maus cessam seus furores, ali, repousam os exaustos de forças, ali, os prisioneiros estão tranquilos, já não mais ouvem a voz do exator. Ali, juntos, os pequenos e os grandes se encontram, o escravo ali está livre do jugo do seu senhor” (Jó 3, 17-19).

De onde vem a felicidade que sentimos no Natal?

Prolonguemos esses momentos de alegria vividos aos pés da manjedoura ou em torno do altar. De onde nos vem, ao certo, essa felicidade? Onde a poderemos encontrar?

Encarnando-Se, Deus quis fazer-Se um de nós, para tornar essa felicidade ainda mais acessível, mais atraente, mais encantadora. Ao entrar neste mundo, o Divino Infante abre seus braços num gesto que prenuncia Sua missão salvadora e parece exclamar: “Eis que venho. […] Com prazer faço a vossa vontade” (Sl 39, 8-9), manifestando neste ato Sua perfeita obediência ao Pai, selada no Getsêmani: “Faça-se a vossa vontade e não a minha” (Lc 22, 42).

Assim, na esplendorosa noite de Natal inicia-se o grande mistério da Redenção, em sua dupla perspectiva: é o perdão concedido ao homem réu, manchado pela culpa de Adão e por suas más ações; e também a elevação desse mesmo homem à ordem sobrenatural, convidando-o a participar da Família Divina, pelo dom da graça. Nessa adorável Criança vemos nossa pobre natureza galgar alturas inimagináveis, às quais seria incapaz de subir por suas próprias forças, e entrar na intimidade do Deus inacessível e infinito.

Celebramos a nossa própria deificação

O santo Papa Leão Magno, em seu célebre sermão sobre o Natal, mostrou, com palavras inspiradas, essa alegria universal que nos traz o nascimento de Cristo:

“Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. A causa da alegria é comum a todos, porque Nosso Senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida”.2

No Redentor, reclinado no presépio, vemos nossa humanidade, reconhecemos nEle um Irmão, “em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15); nos pastores, e em todos aqueles que circundam a manjedoura ou o altar, admiramos uma luz, de fulgor até então desconhecido, que brilha, expulsando as trevas da maldição do pecado no qual estavam envoltos. “Oh admirável intercâmbio! O Criador do gênero humano, assumindo corpo e alma, quis nascer de uma Virgem; e, tornando-Se homem sem intervenção do homem, nos doou sua própria divindade!”.3

Celebramos, pois, no Natal, a nossa própria deificação.

É preciso retribuir todo esse amor
Quem não corresponderá com amor ao próprio Amor em Pessoa? Quem, remido, não se ajoelhará em adoração ante a fragilidade de um Redentor que Se faz pequeno para engrandecer os homens? Também nós, resta-nos retribuir esse mesmo amor ao Pequeno Rei que hoje Se nos entrega no mistério do altar.

O amor torna o amante semelhante ao amado, afirma o grande místico São João da Cruz. Para consolidar essa união é necessário, entretanto, que Um desça até o outro pela ternura, ou que o segundo suba até o Primeiro pela veneração. Jesus já desceu até nós pela compaixão, pelo afeto, pela ternura… Subamos até Ele, ou melhor, peçamos, por intercessão de sua Mãe Santíssima, que Ele mesmo nos faça subir.

Bem junto ao altar, entoando com os lábios o “Venite gentes et adorate” da Liturgia, cantemos com o coração nossa entrega sem reservas ao Menino Salvador.

1 Pio XII, Mediator Dei, n. 150. Sermo 1 in Nativitate Domini.
2 Sermo 1 in Nativitate Domini
3Liturgia das Horas. Antífona da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, I Vésperas.