Uma decisão, uma vitória

Ir. Juliana Montanari

Cheiro de pólvora, cadáveres por todo o terreno. Um dos capelães do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial conta que, numa trincheira, doze soldados discutiam qual seria a decisão a tomar. A maioria optava por se render, pois a tática adotada até então, de avançar de trincheira em trincheira até o campo do adversário, trouxera um resultado desolador: de trinta soldados, agora sobrava apenas uma dúzia. No entanto, para alcançarem o território alemão faltavam somente cinco trincheiras. Os mais entusiasmados, porém poucos, queriam enfrentar os tiros das metralhadoras, mesmo sabendo que provavelmente não chegariam vivos. Ante a possibilidade de serem encontrados pelos inimigos e mortos na trincheira, preferiam morrer em campo aberto. Depois de rápida discussão, um curto silêncio se fez, à espera da decisão do mais velho, pois o comandante da tropa já havia perecido:

No entanto, o  decano, aterrorizado por ver a morte tão perto e a grande responsabilidade pela vida daqueles soldados, sentou-se sem saber o que fazer e disse:

– Escolham um comandante entre vocês, pois não tenho coragem de assumir tal decisão.

Surpreendidos com a resposta, todos voltaram-se para trás e viram um soldado que até aquele momento não havia dado sua opinião. Calado e de joelhos, rezava o rosário. Quem era ele? Um seminarista, que, por lei, estava servindo o exército francês. Admirados, perguntaram sua idade.

– Vinte e dois anos –  respondeu.

Os demais entreolharam-se e concluíram ser ele o mais novo. Por unanimidade, os soldados declararam:

– A partir de agora, serás o nosso comandante. Estamos às ordens!

Levantando-se, o jovem soldado gritou:

–  Avante! Se for da vontade de Deus, morramos como corajosos!

A decisão foi imediatamente cumprida. Todos se lançaram no campo a correr, com os fuzis às costas, até a trincheira seguinte. Colocando as mochilas no peito como escudo, chegaram com alguns ferimentos à barricada, mas salvos. Apenas um ficou para trás: era o mais velho que, por falta de proteção, morreu com um tiro no peito e dois na cabeça…

Lembremo-nos que todos  os nossos atos serão julgados por Deus. Como comentou nosso fundador Mons. João Clá Dias em muitas ocasiões, pode ser que, em determinado momento, a Providência exija de nossa parte um passo decisivo. O que faremos nessa hora? O que dizer àqueles que, talvez, dependerão de nossa atitude ou de nossa palavra? Não façamos como o pobre decano desta história que não recorreu ao auxílio do Céu. Mas, cheios de confiança, unamos nossas ações às de Nossa Senhora e peçamos que Ela atue em nós. Assim, muito mais que salvar a própria vida, como fizeram esses soldados, estaremos conquistando a pátria celeste!

Considerai os lírios do campo…

Ana Ximena del Rosario Fernández Granados

Qualquer um dos seres criados, ao ser mencionado pelos divinos lábios do Salvador, passou a desfrutar de uma especial distinção e grandeza.

Quem ousaria dizer que houve, em toda a história, orador mais hábil e envolvente que Nosso Senhor Jesus Cristo? Isto, sem mencionar o aspecto da graça, que foge a qualquer termo possível de comparação.

Nos três anos de sua vida pública, Ele procurou, em Suas parábolas, usar figuras comuns e acessíveis às pessoas de então. Entre Seus ouvintes, misturavam-se fariseus, romanos, pescadores e camponeses. Pessoas cosmopolitas como os habitantes de Jerusalém, ou acanhados e simples, como os galileus do norte de Israel. Ricos comerciantes, ou paupérrimos pedintes das portas do Templo.

Falando a um público tão heterogêneo, como atingir a todos? Para se fazer entender, ora usava, o Divino Mestre, exemplos de ofícios como o de pescador, lavrador e soldado; ora recorria aos pequenos problemas comerciais ou domésticos, mencionando juros, dívidas e falências, questões sempre familiares a toda gente.

Também empregava as figuras dos animais: a águia, a pomba, a serpente e até a trivial galinha entraram em cena nas parábolas evangélicas. E por fim, o reino vegetal se apresentou, nas palavras do Salvador: a figueira estéril foi condenada, as uvas e as vinhas apareceram diversas vezes, e a expressão “pelos frutos conhecereis a árvore” (cf. Mt 12, 33) tornou-se tão corrente que até ateus a empregam hoje.

E são justamente as simples plantas que oferecem um dos mais belos e poéticos trechos das Escrituras, no sexto capítulo de São Mateus:

“Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles” (Mt 6, 28-30 Lc 12, 27-31).

Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?

São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6, 33)

Qualquer um dos seres criados, ao ser mencionado pelos divinos lábios do Salvador, passou a desfrutar de uma especial distinção e grandeza. As raposas eram diferente até Ele ter dito: “As raposas têm suas tocas … mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8, 20). Depois disso, passaram a ser outras.

Também as flores em geral — e os lírios em particular — ficaram engrandecidos pela menção que lhes fez Nosso Senhor. Depois daquele dia, num campo da Judéia, ficará difícil a uma pessoa de fé contemplar a beleza das flores sem se lembrar do Reino de Deus.

“Como foi do agrado do Senhor, assim foi feito”

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

“Se alguém me ama, observará minha palavra” (Jo 14, 23) e “Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor” (Jo 15, 10) são frases que expressam bem a caridade. Então, aqueles que amam a Deus e guardam seus mandamentos são sempre premiados nesta terra e nada de mal lhes acontece? “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito.” (Jo 15, 7).

Jó- Catedral PamplonaDetenhamo-nos no relato da vida de um personagem que figurou na História muitos séculos antes de Cristo, e que por assim dizer, foi objeto da justiça de Deus: “Havia, na terra de Hus, um homem chamado Jó, íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal” (Jó 1,1). Diz São Gregório Magno1, que “afastar-se totalmente do mal é começar a não mais pecar por amor a Deus”. Jó era, na linguagem da própria Sagradas Escrituras, justo aos olhos de Deus, a ponto de ser honrado por Ele com o elogio: “Não há ninguém igual a ele na terra” (Jó 1, 8). Se seguíssemos o caminho natural da lógica, deduziríamos que esta alma santa foi cumulada de benefícios divinos merecidamente, como canta o próprio salmista: “Oh, como Deus é bom para os corações retos, e o Senhor para com aqueles que tem o coração puro!” (Si 72) Mas, prossigamos com a narração:

Ora, um dia (…) um mensageiro veio dizer a Jó: Os bois lavravam e as jumentas pastavam (…). De repente, apareceram os sabeus e levaram tudo; e passaram à espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. Estando ele ainda a falar, veio um outro e disse: O fogo de Deus caiu do céu; queimou, consumiu as ovelhas e os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. (…) Ainda este estava falando e eis que entrou outro, e disse: Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho, quando um furacão se levantou de repente do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. (…) Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça. (…) Sua mulher disse-lhe: Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre! (Jó 1, 13-16.18-19; 2,7-9)

Entretanto, muito longe de maldizer a Deus, a reação deste justo varão é bem outra: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor! Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade?” (Jó 1, 21; 2, 10) E a versão Vulgata acrescenta: “como foi do agrado do Senhor, assim foi feito”. Jó, neste então, era, no dizer de São Paulo2 aos Coríntios, um vaso de barro que “sofre no exterior as rupturas das úlceras. Por dentro, porém, continua íntegro o tesouro3”. Este justo perdera não só o que mais amava, mas perdera tudo; só lhe restara a esposa, que longe de encorajá-lo, o incitava contra Deus. Sua resposta pode ser considerada não só um ato de integridade, mais de heroicidade. Jó não disse: o Senhor me deu, o diabo tirou, como foi do agrado do demônio assim foi feito4; mas atribuiu a Deus a deserção de seus bens, à maneira do Homem-Deus que sofrendo a paixão por culpa dos judeus declarou a Pilatos: “Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado” (Jo 19, 11).

Não seria plausível que Jó se revoltasse interiormente contra Deus? Sendo ele fiel à tradição de Abraão, conservador da Fé e das virtudes dos patriarcas5, era justo que recebesse tantos males d’Aquele Deus, que segundo São João (1 Jo 4, 8), é amor? Analisando com vagar as Sagradas Escrituras, vemos que não é raro este “proceder” da Divina Providência. É o que relata o Salmista: “Então foi em vão que conservei o coração puro e na inocência lavei as minhas mãos? (…) me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens” (Sl 72).

Como se justifica este aparente paradoxo? O Professor Plinio Correa de Oliveira6 explica: “Deus permite ao demônio atormentar e tentar por todas as formas os justos, com o intuito de pôr à prova sua fidelidade”.

Não raro, ao considerarmos a trajetória de certos ímpios, vemo-los a correr, desimpedidos, na estrada do mundo, enquanto o homem que procura trilhar as vias da retidão caminha passo a passo, em meio a dificuldades de toda espécie. Por quê? Porque as sendas da perdição são espaçosas e lisas; as de Nosso Senhor são estreitas e penosas, e seu fim é o Calvário7.

A Teologia Católica afirma que por um claro princípio de justiça, Deus permite que os santos sofram na terra e os maus tenham certo sucesso; posto que não existe nem mal, nem bem absolutos, todos praticamos atos bons e ruins que devem ser premiados ou penalizados; uma vez que Deus já tem, desde o início dos tempos, a pré-ciência do destino de cada um dos mortais e, por tanto, do prêmio ou do castigo eterno de cada um, é justo que recompense aqui na terra os atos bons dos que irão se condenar e penalize as imperfeições dos justos8. O mesmo Salmista (Sl 72) compreende este mistério e ratifica:

“Reflito para compreender este problema, mui penosa me pareceu esta tarefa, até o momento em que entrei no vosso santuário e em que me dei conta da sorte que os espera. Sim, vós os colocais num terreno escorregadio, à ruína vós os conduzis. Como de um sonho ao se despertar, Senhor, levantando vos, desprezais a sombra deles. Quando eu me exasperava e se me atormentava o coração, eu ignorava, não entendia, como um animal qualquer. Vossos desígnios me conduzirão, e, por fim, na glória me acolhereis. Se vos possuo, nada mais me atrai na terra. Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus”.

Entretanto, a Jó este mistério permanece incompreensível: “Mostra-me por que razão me tratas assim. Encontras prazer em oprimir, em renegar a obra de tuas mãos, em favorecer os planos dos maus? (Jó 10, 2-3) E mesmo desconhecendo as razões de seu suplício, bendiz à Deus e proclama sua justiça com valentia diante de seus antigos amigos que dia e noite o incitam a que injurie o nome de Deus: “Ouvi-me, pois, homens sensatos: longe de Deus a injustiça! Longe do Todo-poderoso a iniquidade! Ele trata o homem conforme seus atos, dá a cada um o que merece. É claro! Deus não é injusto, e o Todo-poderoso não falseia o direito” (Jó 34, 10-12).

Se é verdade que “consideradas as coisas sob certo ângulo, o valor de uma criatura humana se mede por sua capacidade de aceitar com coragem e resignação as dores que a Providência permite em seu caminho9”, Jó foi um homem de um valor inestimável. Quem diante de tanto sofrimento, depois de ter perdido família, criados, fortuna, e sendo cumpridor das leis do Todo-Poderoso não se julgaria alvo de grande injustiça? Mas, em virtude desta heróica aceitação incondicional, Deus, agora sim, premeia a Jó por sua fé verdadeira e sua virtude inquebrantável, que não consistia apenas em uma cordial gratidão pelos grandes bens recebidos, mas que era fiel e estava fundada unicamente no Criador, independente de confortos passageiros. “O Senhor abençoou os últimos tempos de Jó mais do que os primeiros” (Jó 42, 12). Jó recebeu tudo o que tinha antes, e em dobro.

Discutem os estudiosos se a História do justo Jó é realmente verossímil ou se é apenas um conto que tem como objetivo ensinar-nos a aceitar os sofrimentos recebidos de Deus. Independente de ser veraz ou não, é certo que este justo varão é um exemplo de virtude para todos os manchados da culpa original, que carregamos o peso das atribulações. É certo também que lembrando a vida de muitos santos e pessoas que se esforçaram por fazer o bem sobre a terra apesar de terem trilhado um caminho espinhoso, estas nem sempre receberam, à primeira vista, o dobro como o recebeu Jó. Entretanto, gozam, certamente, de sua recompensa eterna na beatitude celeste, sem terem de se arrepender por alguma vez terem suspirado ou chorado nos momentos em que deveriam alegrar-se por receberem de Deus uma ocasião para merecer uma recompensa mais abundante.

Tudo isso nos faz ver que seja qual for o modo como vivamos deveríamos receber sempre toda adversidade com alegria. Contrariedade e dificuldades parecem cheias de doçura para aqueles que amam.

1Moralia. Lib. 1, e. 26, 37: PL 75, 544. Tradução da autora.
2 Cf. 2 Cr 4,7.
3 SÃO GREGÓRIO MAGNO. Moralia. Lib. 3, c. 9, 15: PL 75, 606. Tradução da autora.
4 SANTO AGOSTINHO apud LEHONEY, Vital. El santo abandono. Disponível em: http://www.abandono.com/Abandono/ Lehoney/Lehoney2o2.htm. Acesso em 16 set. 2004.
5 Cf HOLZAMMER, Juan B.; SCHUSTER, Ignacio. Historia biblica. Barcelona: Litúrgica española, 1984, y. I, p. 759.
6 A Igreja é o centro da História. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 59, fey. 2003, P. 24.
7 Id. O partito de Jesuseo partido do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 118, jan. 2008, p. 14.
8 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. 1, q. 21, a. 4, ad. 3. E também: Id. S. Th, I, q. 14, a.13.
9 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Excelências do Sagrado Coração de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 51,jun. 2002, p. 23.

A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta

martiresCaroline Fugiyama Nunes

Ao analisarmos a história do cristianismo, constatamos que, durante séculos, os cristãos sofreram perseguições atrozes por parte de imperadores, foram levados a tribunais onde, com ufania, proclamavam a crença em um único Deus verdadeiro e, em Jesus Cristo, Homem-Deus, Redentor do gênero humano, sendo por isso torturados e condenados à morte.

O objetivo dessa ousadia era espalhar a semente do Evangelho por todo mundo, convertendo-o de bárbaros homens que eram em homens de Fé, exemplos de santidade. Ora, essa enorme e difícil tarefa, humanamente impossível, realizou-se através do oferecimento da vida de um grande número de mártires. “Por mais que seja refinada — escreve Tertuliano –, vossa crueldade não serve de nada: ainda mais, para nossa comunidade constitui um convite. Depois de cada um de vossos golpes de machado, nós nos tornamos mais numerosos: o sangue dos cristãos é semente eficaz!” , “semen est sanguis christianorum” ( Apologético 50, 13).

Entre as histórias destes heróis, as que causam mais admiração são as dos Santos Apóstolos.

Sabemos que entre os que Nosso Senhor havia escolhido para serem seus discípulos, Pedro se destacava por possuir uma alma muito manifestativa e impetuosa. E estas suas características peculiares levaram-no, muitas vezes, a afirmar verdades que nenhum outro Apóstolo jamais se atreveria a dizer. Entretanto, cheio de fé, fervoroso e até imprudente, São Pedro passava facilmente do maior fervor ao temor mais declarado. No início da Paixão de seu Divino Mestre, por exemplo, ele O negou três vezes.

Contudo, depois da Ressurreição, antes mesmo de subir aos Céus, estando Jesus com seus discípulos à beira do mar de Tiberíades, perguntou a Pedro se este O amava. Quer dizer, Ele queria provar se Pedro era capaz de padecer tormentos, inclusive entregar sua vida, se fosse preciso, em função desse amor que ele acabava de declarar. E o Divino Mestre concluiu dizendo: “Em verdade te digo: quando eras jovem, amarravas teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos e outro te amarrará e te levará para onde não queres ir” (Jo 21, 18). E São João comenta em seu evangelho que estas palavras significavam a morte com que Pedro ia dar glória a Deus (Cf. Jo 21, 19).

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E assim se fez. Durante a perseguição do Imperador Nero, Pedro foi preso e levado para o Cárcere Mamertino, em Roma. Um ano depois, o Príncipe dos Apóstolos, condenado à morte, foi conduzido à Colina Vaticana e, conforme seu pedido, foi crucificado de cabeça para baixo, pois não se achava digno de morrer da mesma forma que seu amado Mestre.

Conta uma lenda que antes de ser crucificado, Pedro, não medindo as consequências de seus atos, fugiu. A certa altura do caminho, deparou-se com Nosso Senhor que vinha em direção contrária. Expressivo e arrojado como era, Pedro perguntou: “Domine, quo vades?” (Senhor onde vais?); o Divino Mestre respondeu que estava voltando para ser crucificado no lugar dele. Estas palavras soaram de tal maneira na alma de Pedro que, mais uma vez arrependido e envergonhado, voltou e foi martirizado.

“A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta”, afirma São Tiago (Tg 2, 17). Entretanto, a caridade também não se resume em meras palavras. O amor a Deus para ser perfeito, tem que se traduzir em obras, acima de tudo, numa inteira disposição de alma para enfrentar qualquer situação, padecer qualquer tormento e se for preciso entregar a própria vida.

Resgate da metafísica e volta da transcendência: saudades do Absoluto?

Cristo Rey val_4Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Ainda que não queira, o homem não deixou de ser homem e continua tendo, no fundo de seu ser racional, aquela noção simpliciter, naturalmente incerta, de sua causa e fundamento: um Ser Absoluto. É um conhecimento que pode ser comparado ao de uma pessoa que sabe que alguém vem, mas não conhece a este que vem. E a questão do homem de hoje é que não lhe é manifesta, pela inteligência, a percepção de que alguém está vindo. Porém, a ideia deste Absoluto ― Deus, que não é objeto só da inteligência, senão que de outras dimensões do ser humano, não a excluindo, mas envolvendo a numa forma distinta de especulação1 ―, permanece latente em seu ser. É a “brasa que ainda fumega” na mente desordenada do homem hodierno. E quando este se desperta para buscar e conhecer o fundamento último para toda sua experiência real e possível, e quer ir atrás e mais além de qualquer dessas experiências, torna a ser um metafísico.

Analisando a história da civilização ocidental ― para restringir o campo de observação ―, é fato evidente e objetivo que os homens ambicionaram tal conhecimento por mais de vinte e cinco séculos. E ainda quando, supostamente, demonstraram que não o deveriam procurar mais e se comprometeram a não voltar a fazê-lo, se encontram buscando-o novamente2, numa acepção autenticamente tomista, que considerava o conhecimento de Deus como a sabedoria por excelência (S.T. I, q.1, a.6): “merece o título de sábio aquele cujas especulações versam acerca da causa suprema do Universo, quer dizer, de Deus”3. É um resgate da metafísica ou um “tomismo”, meio subconsciente, que começa a reviver nas mentes, antes mesmo que na filosofia, o que ocorreu em meados do século antepassado.

A modernidade saturou o homem de razão, que passou a sentir falta da Fé e da moral. Havendo-se fartado de ideologias materialistas, racionais e subjetivas, em que o Absoluto é um “Acaso” que forja circunstâncias para esmagar o destino que supostamente escolheu com liberdade, através de fatos fortuitos e imprevisíveis4, o homem começa a ter nostalgia da transcendência que lhe proporcionava a Fé. Porém, quem se estabelece firme na Fé, não vê inconveniente em compreender racionalmente o que crê5, e sua nostalgia é desta união. Este é o eixo do pensamento tomista, que distingue a Fé e a Razão, unindo-as harmonicamente.
Maritain6 reconhece que a modernidade, amando a inteligência e tendo abusado dela, só poderia agora ser curada por ela; porém não por ela sozinha. E sendo São Tomás o santo da inteligência, mas que conduz toda a Razão à luz da Fé ― “luz que ilumina racionalmente o homem que vem do mundo e luz que ilumina sobrenaturalmente o homem regenerado na fé”, com sua filosofia de existências e não de essências, que vem das intuições naturais da experiência sensível e da inteligência ―, coloca esta mesma Fé em relações vitais e orgânicas com o mundo da afetividade, instintividade e emoção, bem como o da vontade ou do suprarracional, numa concepção humanista cristã que respeita verdadeiramente a grandeza original do homem, descendo às raízes do ser humano, num ascenso metafísico ao Ser Absoluto: a via metafísica por excelência7.

Na realidade, ao afirmar que o conhecimento natural de Deus se faz a partir do mundo sensível, em que os efeitos remontam à causa ― “Deus naturali cognitione cognoscitur per phantasmata effectus sui” ― São Tomás reconhece que a causalidade é débil, pois um efeito finito é desproporcionado a uma Causa infinita, mas encontra sua força na analogia, a única ponte por onde se pode passar do mundo a Deus8. Ao contrário, como foi visto, rompendo esta linha de pensamento que vinha desde os gregos, passando por São Tomás e chegando até Descartes ou Newton, que reconheciam o princípio supremo de inteligibilidade da natureza como sendo Deus, Kant afirma, em seu criticismo, que uma vez que Deus não é objeto apreendido nas formas apriorísticas da sensibilidade ― espaço e tempo ―, não é possível referir-Lhe senão como categoria de causalidade, pois não é objeto do conhecimento humano. E o homem estabeleceu sua existência apenas pelas exigências da razão prática9.

Ora, abandonar tal questão por considerá-la imprópria na ordem dos conhecimentos positivos é cortar a raiz da especulação referente à natureza e existência de Deus, produzindo uma postura radicalmente nova do homem com relação à verdade, que é a do princípio de imanência, oposto à transcendência10. Portanto, segundo Gilson, a questão se decide entre Kant e São Tomás, pois todas as demais posições que o seguiram são somente “hospedarias ou paradas no caminho que leva ao agnosticismo religioso total ou à teologia natural da metafísica cristã”11.

Mas a humanidade, de modo geral, mantém o establishment em que se fixou desde os tempos modernos, pois o avanço das tecno-ciências ― as telecomunicações, a medicina, a biotecnologia e tantos ramos da ciência ―, sobretudo nos séculos XIX e XX, trouxe-lhe um enorme progresso que a deixou inebriada.

No entanto, entrados já uma década no século XXI, vemos como o progresso em mãos inescrupulosas pode transformar-se em algo terrível: o mal. Se ao progresso técnico-científico não corresponde um progresso ético-religioso do homem, não é verdadeiro progresso, mas uma ameaça para o próprio homem e para o mundo12. E é a mesma ciência, cheia de ares de confiança em si, que se encontra vulnerável, uma vez que tantos cientistas, longe de encontrar resposta para tudo, estão dispostos a admitir que sua visão do Universo está longe de ser completa e que provavelmente nunca o seja13, e se voltam para o transcendente.

“A ciência e a tecnologia encontram sua justificação no serviço que devem render ao homem e à humanidade, e a ciência racional deve estar unida com uma série de esferas do conhecimento amplamente aberto aos valores espirituais”14. O velho sonho moderno de substituir a filosofia e a teologia pela ciência fracassou. Contudo, permanece uma inquietude transcendental no homem, que é intrínseca a seu próprio ser, e nem sequer a ciência a pode tirar, pois a Razão está criada para a verdade e a Fé assalta a inteligência, porque expõe tal verdade15.

Com a razão saturada, o homem começa a dar-se conta de todos esses fracassos, e sente uma insegurança crescente diante da ameaça das forças da própria natureza, que parece disposta a desencadear-se para arrastar consigo seu incauto explorador, bem como percebe que o caminho que se havia aberto a seus olhos como sendo o da suprema liberdade, tornou-se, ao contrário, o de sua última alienação16. A inquietude em busca da verdade se reaviva, e como afirma Edith Stein: “quem procura a verdade procura a Deus, ainda que não o saiba”17.

Essa inquietude vem do instinto do infinito, da busca do Absoluto inerente à alma humana, conforme analisado no início deste artigo. E aquilo que é natural intrinsecamente, quando se rompe por um fator externo, cedo ou tarde tende a voltar com mais força do que antes, como tão bem o explicitam os franceses: Chassez le naturel, il revient au galop! ― Rompei o que é natural e ele voltará a galope!

A nostalgia de Deus habita no coração do homem. É como um espinho cravado em sua carne… Santo Agostinho começa suas Confissões com um brado que talvez sintetize todo o seu livro e muito reflete o homem hodierno, confundido em meio ao caos de sua mente, com tantas filosofias e pensamentos contraditórios ― ele mesmo quase sem pensamento, com a perda da integridade de seu lumen rationis ―, saturado de razão, deixando-se arrastar pelos acontecimentos, mas sentindo em seu ser a angústia de explicar-se a si mesmo e transcender: “Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-Vos. Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós”18.

1 1 ZUBIRI, Xavier. Introducción al problema de Dios. Em: Naturaleza, Historia, Dios. Madrid: Alianza, 1987. p.408.
2GILSON, Étienne. La unidad de la experiencia filosófica. Citado por: GONZÁLEZ, Ángel Luis. Ser y participación: estudio sobre la cuarta vía de Tomás de Aquino. 3a. ed. Pamplona: Eunsa, 2001. p.16.
3GILSON, Étienne. Dios y la filosofía. Buenos Aires: Emecé, 1945. p.92-95.
4CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O valor de uma renúncia: artigo publicado em ‘O Legionário’, no. 97, 08/05/1932, p.4. Em: Opera Omnia: Reedição de escritos, pronunciamentos e obras. São Paulo: Retornarei, 2008. p.364-365.
5GILSON, Étienne. A filosofia da Idade Média. 2a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.291-292.
6MARITAIN, De Bergson a Thomas d’Aquin, Op. Cit., p.107-111.
7GONZÁLEZ, Op. Cit., p.226.
8MANSER, G. M. La esencia del tomismo. Madrid: Selecciones Gráficas, 1953. p.535-536.
9GILSON, Dios y la filosofía, Op. Cit., p.123-127.
10FABRO, Cornelio. Santo Tomás frente al desafío del pensamiento moderno. Em: FABRO, Cornelio e outros. Tomás de Aquino, también hoy. 2a. ed. Pamplona: Eunsa, 1990. p.16.
11GILSON, Dios y la filosofía, Op. Cit., p.128.
12BENTO XVI. Spe Salvi. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 73 (Jan., 2008); p. 8.
13JOHNSON, George. Ahora la ciencia piensa en Dios. [Em linha]. Em: Clarín. Buenos Aires. No.161 (Ago., 1998). [Consulta: 26 Dez., 2008].
14JOÃO PAULO II. Discurso a los representantes de la ciencia, de la cultura y de los altos estudios en la Universidad de las Naciones Unidas. No.12 [Em linha]. [Consulta: 10 Dez., 2008].
15RATZINGER, Joseph. Dios y el mundo: creer y vivir en nuestra época. Buenos Aires: Sudamericana, 2005. p.40.
16ABRO, Santo Tomás frente al desafío del pensamiento moderno, Op. Cit., p.17-18.
17AGUILÓ, Alfonso. É razoável crer? São Paulo: Quadrante, 2006. p.8.
18SANTO AGOSTINHO. Confissões. L.I, c.1.

Confiar e abandonar-se nas mãos Deus

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Fahima Akram Salah Spielmann

A existência de Deus é a primeira entre todas as verdades nas quais os fiéis devem acreditar: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”, rezamos no início do Credo. Essa verdade de Fé pode ser comprovada todas as vezes que contemplamos a ordem e as leis que regem a natureza e o universo. Ninguém é tão insensato para imaginar que toda essa harmonia é fruto do mero acaso.

Conforme nos ensina o Catecismo “Deus criou o universo livremente, com sabedoria e amor. O mundo não é o produto duma necessidade, dum destino cego ou do acaso” (Catecismo, 54). Assim, “tudo o que Deus criou Ele o governa e cuida pela sua Providência”, afirma o Concílio Vaticano I. Mas, em que consiste a Providência Divina?

A criação não saiu totalmente acabada das mãos de Deus. Foi criada in statu viae, ou seja, em estado de caminhada para uma perfeição maior a ser atingida. A disposição pela qual Deus conduz a sua criação em ordem a essa perfeição chama-se Providência Divina (cf. Catecismo, 302).

Embora a Providência dirija todas as criaturas para o fim que lhe convém pelos meios adotados a esse fim, Ela se ocupa mais especialmente da criatura humana, a quem redimiu pelo Preciosissímo Sangue de seu Filho. “Entregai todas as vossas solicitudes ao Senhor, pois ele cuida de vós” (1P 5,7).

Nosso Senhor Jesus Cristo pede-nos um abandono filial à Providência do Pai Celeste, que cuida das menores necessidades dos seus filhos: “Não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? Que havemos de beber? […] Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 31-33).

E por mais que o homem se levante contra essas mãos que o tiraram do nada, a Providência Divina nunca o abandona, como vemos de modo paradigmático no Livro da Sabedoria (Sb 14,1-6), a exemplo de um homem que quer navegar movido pela cobiça e se lança ao mar em um navio feito de madeira de péssima qualidade, e só não perece porque a Providência abre caminho no mar e conduz o timão. Assim Ela faz conosco, dirigindo-nos com fortaleza e suavidade, porque respeita a natureza e as inclinações de cada um dos seres, sem os violentar, operando no fundo da sua substância como se agissem sozinhos.

Contudo, muitas vezes o Divino Governo se manifesta por caminhos inescrutáveis, sobretudo em certas sendas, que talvez por seu esplendor, são obscuras aos nossos olhos. Deus pode na sua onipotente Providência tirar um bem das consequências dum mal (mesmo moral), causado pelas criaturas. É a história de José que foi vendido como escravo pelos irmãos: “Não, não fostes vós — disse José a seus irmãos — que me fizestes vir para aqui. Foi Deus. […] Premeditastes contra mim o mal: o desígnio de Deus aproveitou-o para o bem […] e um povo numeroso foi salvo” (Gn, 45, 8; 50, 20).

Apesar de crermos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história, muitas vezes, porém, os caminhos da sua Providência são-nos desconhecidos. Só no fim, quando acabar o nosso conhecimento parcial e virmos Deus “face a face” (1 Cor 13, 12), é que nos serão plenamente conhecidos os caminhos pelos quais, mesmo através do mal e do pecado, Deus terá conduzido a criação ao seu fim último. Portanto, cabe ao homem diante das circunstâncias adversas confiar e abandonar-se nas mãos Deus, exercitando algumas virtudes: a penitência, a humildade, adquirida depois da queda; o reconhecimento que se faz mais intenso e mais vivo porque o perdão foi imenso, etc. Lê-se no Livro dos Salmos: “Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá? Aquele que dá lições aos povos não há de punir, ele que ensina ao homem o saber… O Senhor conhece os pensamentos dos homens” (Sl 93, 9-11).

Sendo Deus o Senhor soberano dos seus planos serve-Se, para a realização dos mesmos, do concurso das criaturas. Isto não é um sinal de fraqueza, mas da grandeza e bondade de Deus onipotente. É que Ele não só permite às suas criaturas que existam, mas confere-lhes a dignidade de agirem por si mesmas, de serem causa e princípio umas das outras e de cooperarem, assim, na realização do seu desígnio.

Podemos citar o grande Apóstolo dos Gentios, São Paulo: de perseguidor dos cristãos a pregador de Cristo. De tal maneira, ele se deixou levar pela Providência Divina para realizar os desígnios de Deus que dizia: “Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12,10), ou seja, ele possuía a clara noção de que o governo divino ordena tudo para um bem superior. “O sumo abandono nas mãos de Deus é sentir-se miserável, sentir-se quebrado, sentir-se arrasado e nessa hora dizer: ‘ Ah! Afinal, agora eu posso dizer que sou mais forte do que nunca!” 1
Saibamos compreender que as criaturas nada podem sem o seu Criador e muito menos atingir o seu fim último, sem a ajuda da Divina Providência.

1 CLÁ DIAS, João. Homilia da XI Semana do Tempo Comum. São Paulo: Mairiporã, 23 Jun. 2007. (Arquivo IFTE).

Fé e razão: arco do conhecimento

agustin_2 copyLuisana Miguelina Estévez

Deus, ao criar o homem à Sua imagem, num ato libérrimo, “deu-lhe alma, dotada de razão e de inteligência, que o tornou superior aos animais restantes, terrestres, nadadores e voadores, destituídos de mente” (SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. L.XII, c.XXIII). E também lhe deu a plena liberdade, infundindo-lhe no coração o desejo de conhecer a Verdade Absoluta, que é Ele, para que conhecendo-O e amando-O possa chegar à verdade plena e perfeita de si mesmo (JOÃO PAULO II. Fides et Ratio).

Ora, o entendimento humano, na luta por alcançar tais verdades, depara-se, pelo caminho, com uma série de dificuldades, produto das sequelas do pecado de Adão; e estas, muitas vezes, levam-no a desistir ou a duvidar, em sua procura, ou até mesmo, em certas ocasiões, a negar aquilo que não quer admitir como verdadeiro.

Disto resulta que muitos dos filósofos antigos, no seu interesse por querer explicar a origem de todas as coisas, caíam, na maioria dos casos, em grandes erros, posto que suas teorias eram unicamente baseadas no que o intelecto humano podia alcançar, sendo que existem verdades que não podem ser demonstradas pela razão humana. Quão equivocados estiveram estes homens “que desejaram a natureza sem a graça [e] a razão sem a fé” (CLÁ DIAS, 1996, s.p.).

O Doutor Angélico (S.C.G., L.I, c.4) ensina que este descobrimento possui uma profundidade tal, que faz com que o entendimento humano, só depois de muito exercício, se encontre em condições para captá-lo pela via racional. Devido a estas dificuldades, o conhecimento pleno de Deus é mais acessível com o apoio da Revelação. Por isso, o apóstolo Paulo menciona e adverte que o cognoscível de Deus se compreende porque Ele mesmo o manifestou (Rm 1, 19).

Desta maneira, se faz mister a Revelação Divina, uma vez que Deus quer que “omnes homines vult salvos fieri et ad agnitionem veritatis venire” ― todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (I Tim 2, 4). E a própria Sagrada Escritura ressalta o papel fundamental da fé nos homens, quando nos diz que “a fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1).

Apesar de tudo isso, não se pode negar o importante papel que desempenha a razão, nem se quer estabelecer um divórcio entre uma e outra, mas o que se quer é acentuar e tonificar a união fraterna que deve existir entre ambas, já que se poderia dizer que constituem duas asas com as quais o espírito humano se eleva para a contemplação da Verdade (JUAN PABLO II, Fides et Ratio). Diz Clá Dias (2010) que a fé é um rationabile obsequium, um reforço da inteligência, já que lhe proporciona o que esta não consegue alcançar. Corrobora tal afirmação João Paulo II (Fides et Ratio, no.42) quando afirma: “a fé requer que seu objetivo seja compreendido com ajuda da razão; por sua vez a razão, no apogeu de sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé lhe apresenta”.

Consequentemente, uma leva a outra pela mão. A fé, que diviniza os atributos humanos, e a razão que, divinizada pela fé, compreende melhor o que por si só não compreenderia.

Esse problema da relação entre Filosofia e Teologia, ciência e fé, razão e Revelação esteve presente já em muitas das indagações dos primeiros Padres da Igreja, nos primeiros tempos do Cristianismo, como nos explica Adriano (2007, p.36): “a questão era saber se com o surgimento da fé […], a razão ainda conservaria qualquer utilidade ou se tornaria um perigo para o crente”. Enquanto uns discutiam sobre a antinomia entre ambas e seu total desacordo, outros defendiam sua completa harmonia, afirmando serem elas “duas forças noéticas que trabalham para o mesmo objetivo: a posse da verdade” (ADRIANO, 2007, p.36).

Não pode haver uma separação entre fé e razão, posto que “formam nisto um par de gêmeas peculiares, não podendo nenhuma das duas separar-se totalmente uma da outra e, todavia, cada uma deve conservar sua própria tarefa e identidade” (BENTO XVI, 2008, apud CASTÉ, 2009, p.24), pois o mesmo Deus, que dispôs a Revelação para a salvação do homem, infundiu no espírito deste a luz da razão (PIO IX, Dei filius), para que fazendo uso dela demonstre quão certas são aquelas verdades à que se teve acesso pela fé.

Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura

Irmã Clarissa Ribeiro de Sena, EP

jesuítas

As figuras exponenciais que encontramos no nascedouro das grandes nações brilham, em geral, pelo agressivo e implacável heroísmo, conquistando a celebridade ora em guerras justas, ora em inqualificáveis rapinas. Entretanto, um personagem entrou para a História do Brasil não em um carro de triunfo puxado por prisioneiros e vencidos, nem os hinos de guerra celebraram sua vitória, nem as armaduras foram sua vestimenta. Serviu-lhe de traje a túnica branca de sua inocência; constituía-lhe o cortejo pacífico uma raça que tirara da vida selvagem e defendera contra o cativeiro, e uma nação inteira que ajudara a construir para a maior glória de Deus. Trata-se do Beato José de Anchieta, Apóstolo do Brasil.

Muito se discute a atuação missionária da Igreja durante o período das grandes conquistas, em particular na América. Acusam-na de ter promovido – ou, ao menos, não ter impedido – o genocídio dos indígenas, ter destruído sua religião e aniquilado sua cultura. Entretanto, ressalvadas as falhas e pecados que neste vale de lágrimas acompanham toda obra humana, uma visão imparcial dos fatos nos mostra a prodigiosa obra não só religiosa, mas também civilizadora e social da Igreja junto às populações nativas.No afã de reunir as ovelhas dispersas sob a égide de um só Pastor, a Igreja Católica “não subtrai coisa alguma ao bem temporal de nenhum povo, mas, pelo contrário, fomenta e assume as qualidades, as riquezas, os costumes e o modo de ser dos povos, na medida em que são bons; e assumindo-os, purifica-os, fortalece-os e eleva-os”.

Isto se passa porque, ao levar um povo ao conhecimento do verdadeiro Deus e à prática das virtudes cristãs, a Igreja acrescenta a seus dons naturais os dons sobrenaturais. Assim, não destrói suas qualidades próprias, mas as sublima, posto que “a graça não suprime a natureza, mas a aperfeiçoa”. É o que assinalou Bento XVI em sua viagem ao Brasil:

O que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho.”

Esta obra deve-se, sobretudo, ao labor de dedicados religiosos –– especialmente franciscanos e jesuítas –– que, abandonando a Europa, aventuraram-se pelas terras do Novo Mundo. Segundo expressão do Padre Anchieta, aportavam “os expedicionários em busca de ouro para as arcas do Rei, e o padre em busca de almas para o tesouro do céu”. De onde lhes vinha tal zelo apostólico?

 

Após Sua gloriosa ressurreição, Jesus aparece aos onze discípulos reunidos e lhes outorga um mandato: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi”. Estava assim delineado o caráter missionário da Igreja Católica.

Animados por este espírito, os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549, na armada que trazia o primeiro Governador-geral da Colônia, Tomé de Sousa. Foram designados para esta missão o Padre Manuel da Nóbrega, outros três padres e dois irmãos. Em contraste com a exuberante beleza da terra, os religiosos encontraram um lastimável panorama espiritual: privados de qualquer assistência religiosa, os colonos portugueses haviam caído em um completo desregramento moral; nas aldeias, achavam-se os índios arraigados aos piores vícios –– a antropofagia, a embriaguez e a poligamia. Ainda outros fatores vinham agravar o quadro: a animosidade entre conquistadores e nativos, a cobiça daqueles, e a desconhecida língua destes.

Devido à grandeza da obra por realizar e a escassez de operários, uma nova leva de missionários foi enviada ao Brasil em 1553. É nela que encontramos o Padre Anchieta. Alguns anos antes, ainda estudante na Universidade de Coimbra, a leitura das cartas que São Francisco Xavier escrevia do Oriente determinou seu ingresso na Companhia de Jesus, desejoso de seguir o exemplo do Apóstolo das Índias na dedicação pela glória de Deus e bem dos homens; queria também ser missionário. Tal anseio não deixaria de ser atendido.

Desde os primeiros dias em terras brasileiras, aplicou-se a aprender a língua indígena com tanto proveito que em seis meses já a dominava. Antes do ano de 1556, redigiu sua “Gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, facilitando a aprendizagem do idioma local pelos missionários recém-chegados da Metrópole. Dedicou-se também a escrever, em tupi, obras destinadas à catequese, entre elas: “Diálogos da Fé”, “Instrução para o batismo”, “Instrução para assistência aos índios em perigo de morte” e um “Confessionário”. Pôs, assim, nas mãos dos missionários do Brasil, e também do Paraguai, valiosos instrumentos de apostolado.

Fato pitoresco –– e que revela o desejo de tornar a doutrina católica acessível à compreensão e cultura dos “brasís”, como costumava chamar os nativos –– é que, em um de seus catecismos, o Padre Anchieta enumera, entre as consequências do pecado original na obra da criação, a agressividade das cobras e das onças .

Segundo o método adotado pelos jesuítas, foram-se criando casas e seminários ― localizados estrategicamente entre as vilas portuguesas e as aldeias indígenas ― onde eram instruídas as crianças indígenas e os filhos dos colonos; ao mesmo tempo, formaram-se, em pontos não muito isolados do interior, núcleos destinados aos adultos, onde a catequese se fazia pela prédica, pelo exemplo e pelas pompas do culto; não se olvidava, entretanto, dos aldeamentos mais distantes para onde, sempre que possível, eram enviados missionários. Por toda parte, mas especialmente nas aldeias, poderíamos surpreender o Padre Anchieta rodeado por uma coorte de crianças ou adultos ― brancos, mamelucos e índios ― ávidos por escutá-lo. Isto nas principais capitanias da época, desde a Bahia até São Vicente, passando pela Guanabara e Capitania do Espírito Santo. Nos últimos anos de vida, ninguém conhecia melhor que Anchieta o litoral brasileiro.

Suas pregações eram entremeadas de versículos e imagens da Sagrada Escritura; não deixava, contudo, de refletir as circunstâncias locais. Sabia adaptar-se a seus ouvintes e mencionava, por exemplo, com a devida aplicação parenética, quedas de cavalo e picadas de cobra. Outra nota característica de seu apostolado foi a atividade poética e musical, já que boa parte de sua poesias se destinava ao canto, tanto nas funções sagradas como para serem disseminadas entre o povo; compôs também dramas sacros em tupi, para a edificação e entretenimento nas aldeias cristãs. A Eucaristia e a Virgem Maria ― suas duas mais ternas devoções ― eram os principais temas de suas composições, além de histórias bíblicas próprias a instruir os índios nas verdades evangélicas. Desta forma, elevava as almas para os ideais sublimes do cristianismo. Tão prodigioso era o efeito destes cânticos sobre os indígenas, que o Padre Nóbrega assegurava ser possível atrair só com a música todos os índios da América.

Sobre os frutos desta empresa, comenta Bento XVI: “A sabedoria dos povos originários levou-os felizmente a formar uma síntese entre as suas culturas e a fé cristã que os missionários lhes ofereciam. Daqui nasceu a rica e profunda religiosidade popular, em que aparece a alma dos povos latino-americanos”.

Mas se a finalidade que norteava a ação do Padre Anchieta em sua missão era primordialmente religiosa, não deixava de ter imensa repercussão para o progresso social. Segundo palavras de João Paulo II, “em todo este ingente esforço despendido por ele, […] havia uma visão e um espírito: a visão integral do homem resgatado pelo sangue de Cristo; o espírito do missionário que tudo fez para que os seres humanos dos quais se aproxima para ajudar, apoiar e educar, atinjam a plenitude da vida cristã”.

Cada um dos numerosos núcleos formadas pelos jesuítas no litoral e zona contígua tornou-se uma vila, e foi um método seguro e prático de fazer muito suavemente a passagem da vida da taba para a urbana. Entre todos os arraiais que se fundaram, o mais famoso e característico da ação dos missionários nesta parte do continente foi o que se constituiu em Piratininga. Foram atraídos para lá importantes chefes indígenas que, com seus parentes, estabeleceram-se no local escolhido pelos religiosos. Outro fator favorecia a aproximação dos índios destes aldeamentos: perseguidos pelos caçadores de escravos, eles encontravam um refúgio seguro junto aos missionários.

Começaram pela construção de uma capela de taipa, e de casas cobertas de palha e cercadas de ripas; as moradias se alinhavam formando praças e ruas, convenientemente aplainadas. Ergueu-se também o primeiro colégio dos jesuítas no Novo Mundo, inaugurado com uma missa celebrada no dia 25 de janeiro de 1554, festa da conversão de São Paulo, o Apóstolo das Gentes. Desta coincidência proveio o nome do colégio que se acabava de fundar, e, mais tarde, da grande cidade brasileira que ali nascia. O jovem José de Anchieta, contando apenas vinte anos, foi o esteio deste colégio. Sendo o único a possuir a formação necessária, ensinava as “Humanidades” aos estudantes da Companhia, e o catecismo e primeiras letras às crianças indígenas, pois elas recebiam, além da educação religiosa, a conveniente instrução primária.

Os missionários exerceram também um importante papel de mediadores entre colonos e nativos, sanando discórdias e ódios entre as duas raças. Fato característico deu-se nas aldeias de Iperoí, em uma contenda entre os portugueses e a tribo dos Tamoios, aliada aos franceses que procuravam conquistar a baía de Guanabara. Escreve o Padre Anchieta em uma de suas cartas que, vendo a inquietação que se espalhava por toda a capitania, o Padre Manuel da Nóbrega determinou ir em pessoa tratar as pazes com os índios, levando como intérprete o então Irmão José de Anchieta. Entregando-se à Divina Providência, foram “como homens morti destinatos, não tendo mais conta com morte nem vida que quanto for mais glória de Jesus Cristo e proveito das almas, que Ele comprou com sua vida e morte”.

Tendo passado por inúmeros perigos –– sobretudo no período em que Anchieta ficou só, como refém dos tamoios –– conseguem finalmente restabelecer a concórdia. E não só: por sua conduta, o jovem religioso havia conquistado o respeito dos principais das aldeias, e usado de seu cativeiro como ocasião para novas conversões. Foi ali que, nas areias da praia, escreveu seu conhecido poema à Virgem Maria.

Seu apostolado foi muito fecundo. Tantos frutos devem-se não a um físico robusto –– ao contrário, era de saúde débil, o que, ironicamente, determinou sua vinda para a fatigante missão do Brasil –– ou apenas a seu talento e gênio natural, mas a um profundo amor a Deus. É o que ele mesmo relata na carta de 1 de junho de 1560, enviada ao Geral da Companhia, Padre Diogo Laínes:

“Quase sem cessar, andamos visitando várias povoações, assim de índios, como de portugueses, sem fazer caso de calmas, chuvas e grandes enchentes de rios, e muitas vezes de noite por bosques muito escuros socorremos aos enfermos, não sem grande trabalho, seja pela aspereza dos caminhos, como pela incomodidade do tempo. […].” Mas nada é árduo aos que têm por fim somente a glória de Deus e a salvação das almas, pelas quais não duvidarão dar a vida.

Passaram-se os séculos e a sociedade hodierna encontra-se não menos necessitada de santos missionários que a de outrora. Possa o exemplo do Beato José de Anchieta ser um estímulo, nos dias atuais, aos evangelizadores chamados a reconduzir tantos filhos pródigos à casa Paterna, cooperando para que “o desígnio de Deus, que fez de Cristo o princípio de salvação para todo o mundo, se realize totalmente”.

BIBLIOGRAFIA

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