O Discípulo Amado

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

Quem percorre as palpitantes páginas do Evangelho não demora muito para comprovar com quanto acerto o profeta Simeão predisse o futuro dAquele que trazia em seus braços: “Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição. Assim se descobrirão os pensamentos escondidos nos corações de muitos” (Lc 2, 34-35). De fato, a cada passagem vemo-Lo objeto do mais sincero amor e das mais declaradas antipatias; não se encontra diante dEle quem assuma uma posição de neutralidade.

Assim, ao inexprimível enlevo que conduziu os reis magos a Belém, seguiu-se a fúria ardilosa de Herodes. As entusiasmadas manifestações das multidões perante os prodígios do Homem-Deus eram simultâneas aos pérfidos conciliábulos do Sinédrio, e as mostras de gratidão e reconhecimento dadas por Maria Madalena foram acompanhadas pela inveja de Simão fariseu e a avareza de Judas Iscariotes. Essas posições bem delineadas continuarão a ser assumidas pela humanidade, ao longo da História, diante da figura adorável do Verbo Encarnado e assim será até o grande dia em que Ele vier no esplendor de Sua glória julgar os vivos e os mortos.

Entretanto, não foi por falta de amor de Jesus que muitos O rejeitaram. As sagradas narrativas da Escritura demonstram a que extremo Jesus levou a bondade e misericórdia pelas almas que se abriram à Sua pregação. E dentre as figuras que emergem no Evangelho, uma há que se destaca como o depositário das divinas afeições e prodigalidades de Jesus: é João Evangelista, o apóstolo virgem, o Discípulo Amado.

Jesus conclama os primeiros apóstolos

João foi o mais jovem dos apóstolos e teria por volta de vinte anos quando encontrou Jesus, após ter sido discípulo de João Batista. A juventude transcorria-lhe serena entre as práticas do ofício de pescador e o culto ao Deus de Israel. Seu coração preservado das inebriantes mentiras do pecado e dotado das puras inclinações inerentes à inocência fizera dele o objeto da divina predileção de Jesus.

O convite deu-se num dia de laboriosa atividade pesqueira na região de Cafarnaum. Após ter inaugurado o Colégio Apostólico chamando Pedro e André, Jesus “viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca juntamente com seu pai Zebedeu, consertando as suas redes. E chamou-os. Eles, deixando imediatamente a barca e o pai, seguiram-No” (Mt 4, 21-22).

Tem-se todos os elementos para crer que São João Evangelista fora um menino com vigorosos traços contemplativos, os quais foram a causa de sua imediata consonância com o Salvador. O mesmo Deus que o chamava naquele dia havia preparado sua alma, desde os primeiros lampejos do uso da razão, para esse supremo encontro.

Ao lado do Mestre

O Discípulo Amado gozou do convívio com Jesus durante toda a Sua vida pública, viu o alvorecer da História da Salvação desenrolar-se diante de seus olhos e abeberou-se dos ensinamentos do Mestre na mais excelente das fontes: a Sua Pessoa sagrada. Ó feliz apóstolo, que teve a alma modelada pela presença redentora de Cristo! Eis o exemplo mais puro das santas veredas do discipulado!

Na sequência das portentosas manifestações de Jesus, vemos São João constantemente a Seu lado, servindo-O muito de perto. Ele maravilhou-se com o primeiro milagre em Caná, sentiu seus braços arquearem-se sob o peso dos cestos repletos de pães que o Mestre havia multiplicado por compaixão da multidão faminta; viu os aleijados e leprosos lançarem longe suas amarras em meio a cânticos de ação de graças e esquecerem-se num só momento anos inteiros de atrozes sofrimentos. Seus olhos encontravam-se com os de Jesus após tudo isso e sua alma grata reconhecia interiormente estar diante do Messias, o Esperado das Nações.

Nos momentos de oração, quando o Salvador se retirava para o alto das montanhas, ele O admirava nos divinos colóquios com o Pai, e adentrava a indizível atmosfera de bênçãos que envolvia aquelas supremas conversações. Era-lhe impossível não amar um tão grande Deus feito homem e, sobretudo, recusar as manifestações do amor inesgotável que Jesus lhe devotava.

Lembremo-nos aqui de seu caráter veemente que lhe mereceu, com seu irmão Tiago, o cognome de Boanerghes, que significa “os filhos do trovão” (Mc 3, 17). Sem deixar de se manifestar ardoroso, ia-se acrescentando à sua personalidade aquela doçura que é propriamente o sinal indelével de um seguidor de Cristo. Como veremos, esta suavidade de espírito marcou-o profundamente, porque Jesus havia-lhe reservado, ademais, a mais benfazeja das companhias.

Quinze anos de celestial convívio com Maria

Tendo acompanhado Jesus no Monte da Transfiguração e no Horto das Oliveiras, foi durante a agonia do Senhor que as garras da tibieza vieram arranhar-lhe a fidelidade. De fraquezas indesculpáveis como a de não acompanhar Jesus por uma hora sequer em meio a Suas mortais tristezas e fugir por medo dos soldados dos pontífices e fariseus, originou-se um perdão restaurador. A vergonha de tê-Lo abandonado afligiu sua alma, antes que a todos os outros, e seu espírito contrito, no qual soprava a graça do arrependimento, o armou de santa coragem e o conduziu aos pés da Cruz.

No doloroso momento em que se consumava o deicídio, Jesus teve ainda duas alegrias: a de levar Consigo, para o Reino dos Céus, o Bom Ladrão e ver voltar com humildade o filho que, horas antes, pousara a cabeça sobre Seu peito e ouvira o pulsar do Coração abrasado de amor pelos homens.

A João, que livrava naquele momento o Colégio Apostólico da completa deserção e representava toda a humanidade, foi concedido o maior dos tesouros: “Jesus, vendo Sua mãe e, junto dEla, o discípulo que amava, disse a Sua mãe: ‘Mulher, eis o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’, E, desde aquela hora, o discípulo recebeu-a na sua casa” (Jo 19, 26-27).

É isto tudo quanto sabemos pela Revelação acerca do período bendito que a Santíssima Virgem permaneceu ainda nesta Terra. A mais sólida tradição no-lo aponta como tendo sido de quinze anos, aproximadamente. Ela esteve em Jerusalém até a dispersão dos apóstolos e depois na Ásia Menor, a região onde São João exerceu sua missão evangelizadora. É em Éfeso que o peregrino encontrará a “Casa de Maria”, uma singela construção venerada desde tempos imemoriais como a derradeira moradia da Rainha dos Céus. Se àqueles tijolos fosse dada a faculdade de falar, quantas maravilhas eles teriam a nos dizer…

Uma réplica definitiva

O Discípulo Amado já havia exercido longos anos de atividades apostólicas quando surgiu, em meio aos cristãos de seu rebanho, a heresia gnóstica. Esta foi a mais terrível inimiga da divindade de Cristo, pela qual cristãos dissimulados afirmavam ser mais importante e louvável o conhecimento adquirido que a santidade de vida. A virtude era — diziam — uma aspiração para os menos capacitados, um anelo desprezível para quem já atingiu os elevados páramos da inteligência. Como conseqüência dessa nefasta influência, ficava subentendido que cada um poderia levar a vida moral pecaminosa que quisesse, desde que evoluísse na compreensão da pura doutrina. Sobretudo, negavam a Pessoa divina de Jesus, interpretando num plano natural toda a transcendência da Revelação.

Foi de tal maneira sagaz e sorrateira a ação dos gnósticos, que para discernir o teor de sua maldade e a gravidade de seus efeitos, era preciso ter convivido longamente com aquele Deus feito homem que ressuscitou-Se a Si mesmo e a Quem os mares e o céu obedeciam.

Num período em que todos os demais apóstolos já haviam selado sua entrega a Cristo com o próprio sangue, o único dos doze que ainda pelejava era também o único que tinha autoridade para replicar: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida – porque a vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou – o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” (1 Jo 1, 1-3)

É esta peculiar circunstância histórica que torna os escritos de São João — seu Evangelho, as três Epístolas e o Apocalipse, redigidos na última década do primeiro século — a rocha firme sobre a concepção da Pessoa de Cristo destinada a fulgurar por todo o sempre.

A primazia do amor

Compreender São João Evangelista é no fundo compenetrar-se que “Deus é amor” (1 Jo 4, 8). A caridade pregada por ele é a mais perfeita fonte de santidade, a mais segura garantia contra o pecado e a mais excelente marca da filiação divina. Quando lemos no Apocalipse a admoestação feita à igreja de Éfeso: “Mas tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor” (Ap 2, 4), enchemo-nos de confusão, porque quiçá mais que para ela, essa palavra valha para nós. A humanidade, que se verga sob a dura tirania da escravidão ao pecado, esqueceu-se da insuperável felicidade da inocência batismal. No momento em que o amor materno da Santíssima Virgem nos obtiver aquela graça de compunção que restaurou a fidelidade de São João, nós também acorreremos aos pés da Cruz e gozaremos outra vez do “primeiro amor” e da sublime intimidade com o Coração de Cristo.

Revista Arautos do Evangelho – dez 2007

Considerai os lírios do campo…

Ana Ximena del Rosario Fernández Granados

Qualquer um dos seres criados, ao ser mencionado pelos divinos lábios do Salvador, passou a desfrutar de uma especial distinção e grandeza.

Quem ousaria dizer que houve, em toda a história, orador mais hábil e envolvente que Nosso Senhor Jesus Cristo? Isto, sem mencionar o aspecto da graça, que foge a qualquer termo possível de comparação.

Nos três anos de sua vida pública, Ele procurou, em Suas parábolas, usar figuras comuns e acessíveis às pessoas de então. Entre Seus ouvintes, misturavam-se fariseus, romanos, pescadores e camponeses. Pessoas cosmopolitas como os habitantes de Jerusalém, ou acanhados e simples, como os galileus do norte de Israel. Ricos comerciantes, ou paupérrimos pedintes das portas do Templo.

Falando a um público tão heterogêneo, como atingir a todos? Para se fazer entender, ora usava, o Divino Mestre, exemplos de ofícios como o de pescador, lavrador e soldado; ora recorria aos pequenos problemas comerciais ou domésticos, mencionando juros, dívidas e falências, questões sempre familiares a toda gente.

Também empregava as figuras dos animais: a águia, a pomba, a serpente e até a trivial galinha entraram em cena nas parábolas evangélicas. E por fim, o reino vegetal se apresentou, nas palavras do Salvador: a figueira estéril foi condenada, as uvas e as vinhas apareceram diversas vezes, e a expressão “pelos frutos conhecereis a árvore” (cf. Mt 12, 33) tornou-se tão corrente que até ateus a empregam hoje.

E são justamente as simples plantas que oferecem um dos mais belos e poéticos trechos das Escrituras, no sexto capítulo de São Mateus:

“Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles” (Mt 6, 28-30 Lc 12, 27-31).

Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?

São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6, 33)

Qualquer um dos seres criados, ao ser mencionado pelos divinos lábios do Salvador, passou a desfrutar de uma especial distinção e grandeza. As raposas eram diferente até Ele ter dito: “As raposas têm suas tocas … mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8, 20). Depois disso, passaram a ser outras.

Também as flores em geral — e os lírios em particular — ficaram engrandecidos pela menção que lhes fez Nosso Senhor. Depois daquele dia, num campo da Judéia, ficará difícil a uma pessoa de fé contemplar a beleza das flores sem se lembrar do Reino de Deus.

Isaías, o Príncipe dos Profetas

IsaiasMadre Mariana Morazzani Arráiz,EP

Oito séculos antes, ele anunciou com tantos pormenores a vinda do Messias, que um comentarista chega a afirmar: “Isaías escreveu antecipadamente o Evangelho.

Grandiosa é a cena da visão que teve Isaías, no ano 740 antes de Cristo. Deus está sentado num elevado trono, no Templo; junto d’Ele, os Serafins cantam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama sua glória!” A este brado, as portas estremecem em seus gonzos e o recinto enche-se de fumaça.

Ele grita: “Ai de mim! Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e, entretanto, meus olhos viram o Senhor dos exércitos!” Um dos serafins, porém, aplica-lhe na boca uma brasa viva, dizendo: “Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada”.

Nesse instante, ouve ele a voz do Senhor que pergunta: — Quem enviarei Eu? E quem irá por nós?

— Eis-me aqui, enviai-me — prontificou-se ele.

Deus o enviou, e ele transmitiu com fidelidade a palavra do Altíssimo para o povo eleito e todas as nações da terra.

“Apóstolo” e “Evangelista”

Quase nada relata a Escritura Sagrada sobre a vida de Isaías. Sabe-se apenas que era de nobre família, casou-se e teve, pelo menos, dois filhos aos quais deu nomes carregados de mistério e simbolismo: Sear-Iasub (Um-resto-voltará) e Maher-Shalat-Hash-Baz (Pronto-saque-próxima-pilhagem).

Entretanto, suas palavras e seu nome ressoam em incontáveis passagens do Novo Testamento. Tudo quanto dizem os outros profetas sobre o Reino universal de Deus, a ser instaurado pelo Messias, está de alguma forma contido no livro de Isaías, e com tanta clareza e amplitude que São Cirilo não hesita em dar-lhe o qualificativo de “apóstolo”, e São Jerônimo de “evangelista”.

Profeta messiânico por excelência

De todos os profetas — são 17 os que deixaram obra escrita — nenhum fez o relato completo da vinda do Redentor. Cada um deu sua contribuição parcial para a formação do grandioso conjunto. Seus oráculos se fizeram ouvir sobretudo sob os reis de Judá e na época do Cativeiro de Babilônia, mas a obra só ficou concluída com Malaquias, o derradeiro dos profetas. E quando no deserto o Precursor indicou aos judeus “o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo” (Jo 1,29), ficou dita a última palavra: estava presente o Simbolizado, Jesus de Nazaré; as expressões simbólicas não mais tinham razão de ser.

Entretanto, quem mais contribuiu para a construção desse magnífico edifício profético foi Isaías, a ponto de poder ele ser considerado o profeta messiânico por excelência.

Tudo quanto havia de bom na humanidade clamava a Deus, implorando a vinda do Redentor. Isaías exprime, em forma de oração, esse ardente desejo: “Derramai das alturas, ó Céus, o vosso orvalho, e as nuvens façam chover o Justo; abra-se a terra e brote a felicidade e ao mesmo tempo faça germinar a justiça” (45, 8).

E é ele ainda quem declara que Jesus será da estirpe de Davi, cujo pai era Jessé: “Um ramo novo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor (…) o rebento de Jessé, posto como estandarte para os povos, será procurado pelas nações e gloriosa será sua morada” (11, 1-10).

Narração antecipada do Evangelho

Quando o Arcanjo Gabriel saudou a Virgem Maria na humilde casa de Nazaré, cumpriu-se uma das mais importantes profecias de Isaías: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco” (7, 14).

Em termos poéticos, anuncia ele, com oito séculos de antecedência, a entrada do Messias neste mundo: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz” (9, 1). Previsão cujo cumprimento São João comprova em seu Evangelho, empregando os mesmos vocábulos: “A luz resplandece nas trevas (…) a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” (Jo 1, 5 e 9).

São Lucas relata como o próprio Jesus confirma que em sua Pessoa Divina se cumpriam os oráculos desse grande profeta:

“Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor’. E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir” (Lc 4, 16-21 – Is 61, 1-2).

Não menos categóricas são suas previsões a respeito da Paixão e Morte do Salvador: “Ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades (…) como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador, Ele não abriu a boca. Por um iníquo julgamento foi arrebatado. (…) ao morrer, achava-se entre malfeitores” (53, 5-9).

Ao ler tudo isso, não se pode deixar de concordar com a afirmação de um comentarista: “Isaías escreveu antecipadamente o Evangelho”.

Aspecto importante das profecias

Entretanto, as profecias não se limitam à vinda do Filho de Deus, sua Paixão, Morte e Ressurreição. Elas abrangem também a fundação e a expansão de sua Igreja, construída sobre a rocha inabalável.

No próprio dia de Pentecostes, a Igreja de tal forma brilhou diante de numerosos judeus, que foram batizadas três mil pessoas só nessa ocasião.

Deve ela, entretanto, resplandecer muito mais, na terra inteira. São bem ilustrativos, a este respeito, os dois trechos abaixo, de Isaías:

“No fim dos tempos, acontecerá que a montanha da casa do Senhor estará colocada no cume das montanhas. Todos as nações acorrerão para ela, e virão numerosos povos, dizendo: Vinde, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacó; ele nos ensinará seus caminhos, e nós trilharemos as suas veredas” (2, 1-3).

O profeta se vale da realidade conhecida (o monte do Templo, em Jerusalém), como símbolo para exprimir aquilo que lhe é revelado: na era messiânica, a montanha da casa do Senhor (a Igreja Católica) estará estabelecida “no cume das montanhas”, isto é, colocada em posição de ser vista e reconhecida por todas as nações da terra. Pelo esplendor de sua luz, ela atrairá a si todos os povos e lhes ensinará o caminho da salvação.

Mais adiante, novo oráculo mostra o imenso amor de Deus pela sua Igreja, a qual Ele recobrirá dos mais preciosos ornamentos da santidade, simbolizados da seguinte forma: “Eis que eu alinharei tuas pedras e te edificarei em pedras de jaspe, sobre alicerces de safira. Farei tuas portas de cristal, e de pedras preciosas todo o teu recinto. Todos os teus filhos serão instruídos pelo Senhor” (54, 11-13).

De que modo, e quando, se cumprirão por inteiro essas profecias? Não se referem elas ao triunfo do Imaculado Coração anunciado por Nossa Senhora em Fátima?

O holocausto: a supremacia do amor

Fahima Akram Salah Spielmann

Corazon de Jesus Ig San Leonardo1

“Vendo Jesus que chegara Sua hora de passar deste mundo ao Pai, tendo amado aos seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Profundo mistério nos narra o Teólogo em seu Evangelho. Como pode um Deus que é infinito “amar até o fim” criaturas finitas, entre as quais muitas Lhe seriam ingratas e desejariam Seu aniquilamento?

Pertencendo o amor a uma potência apetitiva, este se relaciona com o objeto amado por meio de um movimento que busca a bondade ou conformidade do apetite com o objeto conveniente. Onde seu intento próprio é o bem ou a complacência do amante no amado, donde surge certa conaturalidade entre estes, podendo ser afirmado que “o bem é a causa própria do amor” (S.T. l-Il, q27, al). Assim, a vontade, que governa todas as demais faculdades do espírito humano, é governada por seu amor (SALES, 1946).

Entretanto, o amor requer uma captação do bem amado, pois o bem não é a causa do apetite senão enquanto apreendido. Desta forma, ninguém ama o que não conhece (S.T. l-Il, q. 27, a.1).

Com efeito, ao se deparar com algo semelhante a si próprio ou com seu ideal, o apetite tende a desejar o bem como a si mesmo (S.T. l-Il, q. 27, a.1).

Donde desses três fatores: bondade, conhecimento e semelhança, nasce o amor, o qual impregna todo os movimentos da vontade, pois todos agem por um fim e este, por sua vez, sempre é selado por um amor (S.T. I-li, q.28, a.6).

Logo, a vontade tem uma conveniência estreita com o bem. Esta conveniência, a seu lado, produz a complacência que a vontade sente quando adverte a presença do bem, movendo e impelindo a vontade em direção a este. E neste movimento a vontade, movida e inclinada à união, busca todos os meios que requer para chegar a ela. A verdadeira essência do amor consiste no movimento e vôo do coração, que segue imediatamente a complacência e termina na união. “Em outras palavras, a complacência é o despertar do coração, e o amor é a ação” (SALES, 1996, p.9).

Portanto, a conveniência do amante com o amado é a primeira fonte de amor e consiste na correspondência, a qual não é outra coisa que a mútua relação que torna as coisas aptas para unir-se e comunicar alguma perfeição.

Tendo sido comprovado que o primeiro ato da faculdade apetitiva é o amor, podemos concluir que, possuindo Deus vontade, conseqüentemente n’Ele não há somente amor, mas é necessário afirmar que substancialmente “Deus é amor” (Jo 4, 16). 0 Amor de Deus é tão eloqüente que gera a Sua Palavra, donde desse amor tão íntimo e intenso entre Eles procede o Espírito de Amor. Desse circuito inflamante, que de si é difusivo, o Pai nos fala na alma por meio do Verbo e nós entendemos pelo sopro do Espírito Santo, que nos convida a unirmo-nos a Ele.

Entretanto, o modo de Deus amar se desenvolve de forma diferente do nosso, pois, Deus “cria e infunde bondade nas criaturas” (S.T. I, q. 20, a. 2), amando-as gratuitamente. Assim sendo, tudo o que existe possui alguma bondade infundida por Deus. Por conseguinte, quanto maior for esta analogia com Seu Autor, mais amada será (GARRIGOU-LAGRANGE, 1977). Por este motivo, exclama o Livro da Sabedoria: “Amas tudo o que existe e não desprezas nada do que fizestes, porque se tivesses odiado alguma coisa não a terias criado. Da mesma forma, como poderia alguma coisa subsistir se não a tivesses querido?” (Sab 11, 24-25).

Sendo Deus infinito, Ele distribui o Seu amor às criaturas das mais variadas formas, infundindo maior perfeição em algumas que serão, por sua vez, mais amadas. Entretanto, em relação ao ato de vontade, o amor de Deus é o mesmo para todas as criaturas, O que difere neste amor é o bem que se quer para as criaturas (ROYO MARIN, 1963).

Por este motivo, podemos afirmar que Cristo foi realmente o “Bem-amado” (Mt 3, 17) de Deus Pai. Ser mais perfeito que Nosso Senhor Jesus Cristo seria impossível. Daí o Pai colocar n’Ele todo o Seu comprazer (Lc 3, 22), desejando-Lhe a perfeição do amor: o holocausto. Um ato de amor que Lhe agrada mais do que desagradam todos os pecados juntos (ROYO MARIN, 1963).

O holocausto, que é a sublimação do amor, somente é possível quando o amante se impulsiona a dar, dar de si, dar-se por inteiro (CORREA DE OLIVEIRA, 27-05-67). Entrega esta tão perfeita que “a pessoa se dá toda, ela já não é unida com aquilo a que se deu, mas ela é um com o que se deu. Não é união, mas é unidade” (CORREA DE OLIVEIRA, 27-05-67). Do mesmo modo afirma São Tomás: “o amor é uma força que junta e unifica” (ROYO MARIN, 1963, p. 172).

Isso explica o Evangelho de São João, que nos diz que Deus “tendo amado os Seus, amou-os até o fim”. Ou seja, chegando à forma mais perfeita de amor, que é o holocausto, Nosso Senhor não se conteve e quis amá-los “até o fim”, querendo não unicamente Se entregar, senão formar uma unidade com os seus; não somente Se encarnando e morrendo, mas dando até a última gota de Seu Sangue (Jo 19,34). Ademais, quis perpetuar Seu convívio até o fim do mundo por meio da Eucaristia. Daí “os seus” referir-se não somente aos Apóstolos ou ao redil de Israel, mas também aos gentios (Jo 10,16) e a cada um de nós.

Com razão, São Tomás acentua que a morte de Nosso Senhor foi prova do amor divino, pois o Filho não só quis obedecer ao Pai, mas voluntariamente desejou Se entregar, donde a Redenção foi a maior epifania do amor de Deus. Assim sendo, “devemos fazer tudo por amor” (S.T. I-II, q.1 14, a.4).

Vemos em outra passagem, sobre o mesmo trecho, Nosso Senhor dizendo que desejou ardentemente comer essa Páscoa (Lc 22, 15). Ou seja, desde toda a eternidade o Filho esperava, com santa ânsia de se sacrificar, até o momento em que Ele, podendo dizer ao Pai “Eis que venho fazer com prazer a Vossa vontade, ó Senhor” (Hb 10, 5), se dirige “apressadamente” (Jo 12,3) ao local do Supremo Holocausto. Essa pressa, que nos narra o Evangelho, é sinal característico de quem já se entregou, pois quem ama não tem obstáculos e “senões” (CLA DIAS, Lumen Maris, 31-05-10), o único problema que se põe é realizar o quanto antes seu amor.

Mais ainda, “o amor que Nosso Senhor nos tem é humano e divino, inesgotável e cheio de matizes” (CLA DIAS, Homilia, 6-05-10). E Ele nos pede algo em reciprocidade: que permaneçamos n’Ele (Jo 15, 9), quer dizer, além do amor, Ele nos quer infundir a bondade que só Ele pode conferir, tornando-nos mais semelhantes a Ele. Não deseja somente um amor mútuo, mas anseia por um unum com a criatura amada, que se torna mais perfeito na medida em que se desdobra em holocausto (CORRÊA DE OLIVEIRA, 1976), a exemplo do amor que Ele nos tem.

Por este motivo, na mesma ceia Nosso Senhor exorta os Apóstolos,repetindo insistentemente por doze vezes, a permanecerem em Seu amor (Jo 15,4).

O amor, sendo ato da vontade, embora esta seja espiritual, vacila muitas vezes, misturando-se ao sensível (SALES, 1996), porém, mais do que um amor humano, que tende à união de coração — como se vê nas Sagradas Escrituras, por exemplo, quando Jônatas amou a Davi como sua própria alma (lSm 18, 1) —, o amor unitivo de Deus é eficaz e cheio de benevolência, sempre estável em relação à vontade, deseja cada vez mais a união com as almas. Assim entendemos melhor apassagem de Jeremias (31,1): “com amor eterno te amei, por isso te tenho atraído a Mim, com a Minha misericórdia”.

Por estes motivos, peçamos este élan em relação à misericórdia divina, por meio d’Aquela que é via veritas do amor divino, onde mais amor e união com Deus seria impossível, que sempre nos mantenha unidos e amantes a Deus, para assim termos a certeza de um dia podermos estar totalmente ligados a esse vínculo de amor.

Os olhares que marcaram a história

Cristo_Flagelado

Deus ao criar o homem quis depositar nele um resumo de todo o universo. A fisionomia humana é a que mais apresenta esta pluralidade de aspectos, sendo a visão o mais nobre sentido. O olhar é a alma da fisionomia, de maneira que as demais expressões do rosto e até o timbre de voz são apenas um reflexo do olhar.

O olho humano não capta somente as realidades externas, mas apanha sobretudo as internas, como afirma o Professor Plinio Corrêa de Oliveira (1987,s.p.) “ Os olhos mais e melhor fotografam o íntimo dos homens que seu exterior. O Olhar fala tanto! É tão compreensível o olho humano! Ele, entretanto, participa da ‘beatitudo incomprehensibilitatis’ quando, não sabemos dizer como, em uma fisionomia percebemos uma certa reação”.

Como terá sido o olhar do próprio Verbo Encarnado que sendo verdadeiramente homem é também verdadeiramente Deus? “Deus cujo olhar sonda os rins e os corações” (Sl 7,10). Embora não seja possível conceber este olhar em toda a sua magnanimidade e extensão, é nos dado, ao menos, penetrar e vislumbrar certos aspectos do olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo no qual estão contidas todas as perfeições existentes na Ordem do Universo.

OLHAR-DE-JESUS_A

Em Seu nascimento, quando Ele abriu os olhos para este mundo e pôde constatar com seus olhos carnais as suas criaturas e mais, especialmente, Aquela na qual Ele mesmo encerrou uma síntese de todas as maravilhas do universo.” Os olhos do Menino se abriram e encontraram o olhar de Nossa Senhora, viram a face esplendorosa da Mãe, discerniram sua alma e seu Imaculado Coração. E então, podemos supor, o Divino Infante sorriu” ¹. O que imaginar desta primeira troca de olhares em que os dois se fitaram e, por assim dizer, se perderam um no olhar do outro?

Neste primeiro entreolhar, iniciou-se o eterno e incessante co-relacionamento entre Mãe e Filho.
A partir de então, Nossa Senhora acompanhou o olhar de seu Divino Filho nas mais variadas circunstâncias e pôde penetrar cada vez mais neste Sacrossanto olhar, sumamente ordenado e todo feito de gradualidades. Olhar este que: “[
…]quando fulgura é como um sol. Quando não, mostra-se sempre de um certo modo, semelhante ao que representa o barítono para a música vocal: nem muito alto nem muito baixo. Não é um olhar que sai de si para penetrar nos outros, a não ser raramente. Antes convida a que se entre nele, para entabular elevados colóquios conosco. Olhar muito sereno, aveludado[…] . No fundo, porém, revelando uma sabedoria, retidão, firmeza e força que nos enchem ao mesmo tempo de encanto e confiança. […], e os estados de alma d’ Ele correspondem a todas as belezas do mundo. […] (De maneira que) no conjunto dos olhares d’ Ele a ordem do Universo se reflete inteiramente.[…] numa palavra, o pulchrum e o significado interno de tudo quanto existe, estão contidos no olhar de Nosso Senhor”.²
Menino Jesus e Nossa Senhora
Estando Nossa Senhora no momento auge de sua contemplação, depara-se com uma terrível prova após trinta anos de vida oculta, “Nosso Senhor, então, aproxima-se d´ela e, com veneração e carinho mais intensos, envolvendo-a com o olhar diz-Lhe: ‘ Minha Mãe chegou o momento, o meu caminho para a pregação, para a bondade, para maravilhar os homens e para ser crucificado por eles! Mãe, adeus!’ “³. Ele se retira e Ela permanece sozinha, os anjos começam a cantar para consolá-La, mas todas as maravilhas não valem um olhar do Filho d´Ela.

Ao iniciar essa nova etapa na vida de Nosso Senhor, encontramos uma série de olhares, que passaram para a História por meio dos Evangelhos.

Os apóstolos perplexos com as palavras de Nosso Senhor acerca da impossibilidade de um rico entrar no Reino dos Céus questionam Nosso Senhor. São Mateus descreve: […] fixando neles seu olhar, disse-lhes Jesus: O que para os homens é impossível, para Deus é possível” (Mt 19,26). Certamente, este olhar de Jesus foi repleto de bondade e afabilidade com o intuito de consolar os apóstolos e incutir-lhes confiança na onipotência de Deus.

Outro olhar do Salvador que tornou-se especialmente célebre, foi o olhar que Ele deitou sobre São Pedro: “ Voltando-se o Senhor fixou os olhos em Pedro; e Pedro recordou-se das palavras do Senhor quando lhe disse: ’Hoje, antes de o galo cantar, irás negar-me três vezes’” (Lc 22,61). A São Pedro tinham sido entregues as chaves do Reino dos Céus, sobre ele, Jesus prometera edificar a Sua Igreja; ademais, entre os Doze Apóstolos foi ele quem se destacou por seu ardoroso amor pelo Mestre. Entretanto, nesse momento atroz, seu coração se endureceu e ele negou o Homem-Deus. O galo cantou, Jesus passou e o fitou. São Pedro caiu em si “ e, vindo fora, chorou amargamente” (Lc 22, 62), nesse instante, ele se sentiu tomado, por inteiro, por uma graça ímpar que reavivou em sua alma, de modo intenso e esplendoroso, tudo o que tinha conhecido da infinita bondade de Nosso Senhor. E essa lembrança venceu a sua ingratidão, a tal ponto que ele deixou de ser discípulo tíbio e transformou-se numa tocha de admiração” (CORRÊA DE OLIVEIRA, 1999, p.21;2002,p.16).sao pedro

Convém prestar atenção nos efeitos desse olhar, como ressalta Santo Agostinho:
Pedro tinha necessidade do batismo de lágrimas para lavar o pecado de sua negação; mas, como podia obtê-lo se o senhor não o desse? Por isso, disse o Apóstolo Paulo quando advertia o povo sobre como deveria comportar-se com alguns que pensavam de modo diferente: ‘Corrigindo com suavidade os que pensavam diversamente, de modo que Deus lhe conceda a penitência”. Pois a penitência também é um dom de Deus. O coração do soberbo é uma terra dura; não se abranda para a penitência se não chover a graça de Deus (SANTO AGOSTINHO, Sermo 2290,1 apud CLÁ DIAS, 2010, p.2).

Santo Ambrósio (Exposicíon sobre el Ev. De Lucas, 10-88, 1966, p.585, tradução nossa) amplia a análise a respeito dos efeitos do Divino Olhar de Jesus sobre São Pedro que produziu em sua alma tão perfeita compunção: “ Que as lágrimas lavem este pecado que não se atreve a confessar-se de viva voz! O pranto conduz ao perdão e à honra. As lágrimas confessam a culpa sem temor e reconhecem o crime sem o tormento da vergonha, as lágrimas não pedem perdão mas o obtém”. Oh felix culpa! A grande contrição de São Pedro constitui um dos mais belos fatos da história dos Santos.
Entretanto, nem todos quiseram se beneficiar com esses admiráveis olhares de Nosso Senhor durante a Sua Paixão; enquanto os algozes o esbofeteavam tiveram de Lhe vendar os olhos (Cf. Lc 22, 63-64), pois não suportaram o Divino olhar que os fitava. Outra ocasião em que o olhar do Salvador se revestiu de maior expressividade foi no Ecce Homo. Jesus, flagelado e coroado de espinhos, foi apresentado ao povo por Pilatos. Não proferiu nenhuma palavra mas permaneceu em um majestoso silêncio. Poderíamos imaginar como, neste momento, os Seus olhos solicitavam um pouco de amor, um pouco de afeto, um pouco de pena e, para se consumarem as atrocidades humanas contra o Redentor, eles nada receberam…

São Jerônimo (apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, S.T. III q.44, a.3, ad I) comenta um outro aspecto do olhar de Nosso Senhor quando Este expulsa os vendilhões do templo:
Dentre todos os milagres que Cristo fez, este parece-me mais admirável: que um só homem, naquela época ainda desprezível, tenha podido, a golpes de um simples chicote, expulsar tão numerosa multidão. É que de Seus olhos irradiava como que um fogo celestial e em sua face brilhava a majestade da divindade.

A mais bela de todas as cenas da vida do Salvador e o momento culminante da história dos olhares em toda humanidade foi a última troca de olhares de Nosso Senhor antes de expirar. A esse respeito escreveu Monsenhor João Clá Dias (2010,p1):

Penetrada de mistério, afeto e dor, deve ter sido o último olhar recíproco entre Jesus e Maria no Calvário. Mãe e Filho, Criador e a mais excelsa das criaturas, em meio ao mais alto relacionamento humano: um olhar feito de venerável sofrimento e adoração, a se entrecruzar com outro divinamente pervadido de ternura. Ali aos pés da Cruz, terminava a longa história da arquetipia dos olhares criados por Deus. Olhos que se contemplaram pela primeira vez em Belém e que, até o Calvário, não perderam jamais uma só oportunidade para crescerem em compreensão, amor e benquerença.


¹CORRÊA DE OLIVEIRA,2008,p.28. (Arquivo IFTE).
²CORREÂ DE OLIVEIRA, 2004, p18. (Arquivo IFTE).
³CORRÊA DE OLIVEIRA, 1985,sp. (Arquivo IFTE).

A estrela de Belém ainda brilha?

estrela
Bárbara Honório

“Ó sol! Sem ti as coisas não seriam senão o que elas são”, exclamava Rostan. De que valeriam aos homens as proezas dos vôos dos pássaros, os matizes dos coloridos das flores, as tonalidades diversas dos oceanos, a alvura da neve ou a vastidão de um panorama sem o sol? Ele não só ilumina essas belezas criadas, mas está em suas raízes como fonte de vida.

Aterrador seria um mundo que vivesse em uma noite constante: a escuridão é propícia aos vícios, favorece os crimes e desnorteia os homens. Em uma palavra, a ausência permanente de luz reduziria o mundo a um estado de caos terrível e desolador.

O mundo antigo, imerso nas trevas do paganismo, se revolvia em meio a essa confusão. Não lhe faltava a luz material, mas sim a luz sobrenatural da fé. As suas falsas religiões adoravam os vícios como deuses, e suas “pseudocivilizações” exaltavam com naturalidade o crime. “O mundo estava mergulhado numa prolongada e terrível noite em que reinavam a devassidão moral, o egoísmo, a crueldade, a desumanidade e a opressão” (CLA DIAS, 2010a).

Porém, nem todos eram assim. “Havia minorias inconformes com aquela situação e preparadas para receber a pregação evangélica com a avidez de náufragos que encontram a tábua da salvação” (CLÁ DIAS, 2010a). No Oriente, alguns dizem que na Pérsia, outros na Caldéia, três pequenos reis, magos e astrólogos esperavam de modo implícito perceber no firmamento algo grandioso, uma luz nova que anunciasse a renovação da face da Terra. Talvez, tivessem eles conhecimento da profecia feita por Balaão a Balac, rei de Fegor: “ Eu o vejo, mas não é para agora, percebo-o, mas não de perto: um astro sai de Jacó, um cetro levanta-se de Israel ” (Nm 24,17).

Este oráculo, pronunciado durante a longa caminhada dos judeus rumo à terra prometida, realizar-se-ia treze séculos depois numa fria noite de inverno. Vendo a luz do astro, os magos compreenderam num relance a grandeza d’Aquele que é o Sol de Justiça.

O sinal era claro: nascera o rei dos judeus. Onde? A estrela os indicaria. Ora, esta era inteiramente incomum. “Pois, nenhuma estrela”, como nos diz São João Crisóstomo, ”tem a capacidade de guiar, não só movendo-se mas inclusive fazendo sinais”(CRISOSTOMO apud SIMONETTI, 2004 p. , tradução nossa). Ademais, continuava o santo, seu brilho persistia e era visível mesmo durante o dia, propriedade que nenhuma das estrelas possui.

De que natureza era, pois, a estrela? Seria um anjo que assumira a forma de um astro? Seria um cometa? Foram várias as hipóteses levantadas ao longo dos tempos. O Doutor Angélico (S.T. III q.36 a.7) , no entanto, nos apresenta a solução dizendo tratar-se provavelmente de uma estrela nova, criada por Deus para aquela ocasião, posta na atmosfera e dirigida pela vontade divina. Donde afirmar o Papa Leão Magno (SÃO LEÃO MAGNO,apud S.T. III q.36 a.7): “Apareceu aos três magos, na região do Oriente, uma estrela de uma nova claridade, mais refulgente e mais bela do que os outros astros, que atraía os olhos e os corações dos que a olhavam, para que compreendessem imediatamente que não carecia de significação o que parecia tão insólito ”. Por sua vez diz o bispo de Hipona: “Enquanto um Deus pende dos peitos maternos e sofre ser envolvido em panos vis, de repente brilhou no céu uma nova estrela”. Reis Magos

Mas, por que essa luz totalmente sui generis é seguida apenas por três reis? Todos os povos do Oriente devem tê-la avistado, inclusive o povo eleito. Santo Inácio de Antioquia nos testemunha em sua carta aos Efesios o fulgor desta estrela: Um astro brilhou no céu, mais que todos os astros, sua luz era inenarrável e sua novidade suscitou estranheza; todas as demais estrelas por sua vez junto com o sol e a lua formaram coro em torno do astro, ele, no entanto, projetava mais luz que todos os demais “(SANTO INACIO DE ANTIOQUIA. Carta aos efesios,19,2)” Por que, então, apenas três magos, vindos de terras longínquas, empreenderam a viagem sob a sua guia? Os reis possuíam viva a chama interior da fé, a ponto de tendo visto exteriormente no céu a estrela, logo reconhecerem ser a “stellam eius” d’Aquele a quem era devida toda a adoração; de um Rei que era Deus! “Nós vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,).

O povo eleito, até então único receptáculo da Revelação e da Fé, não só tomou com indiferença a estrela, como mais tarde, quando esse “Menino já adulto, deu todas as provas de ser a Bondade, a Misericórdia, de ser o próprio Deus, eles não O aceitaram e mataram-no” (CLÁ DIAS, 2010b). Não se convenceram pela estrela e nem mesmo pelos milagres.

Ora, parou de brilhar a estrela que anunciava o nascimento do Messias? O Evangelho nos diz: “E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou” (Mt 2,9), no entanto, quando saíram da gruta não foi a estrela que lhes indicou o caminho para que se desviassem de Herodes, mas sim foram avisados em sonho. Provavelmente, esta estrela material já cumprira sua missão e deixara de brilhar.

Entretanto, a estrela do Salvador não desapareceu e nunca desaparecerá da História da humanidade. Seu brilho, porém, torna-se por vezes mais intenso, por vezes menos, e, é na época mais sombria que o Pai das Luzes envia a mais rutilante das estrelas. Ela brilha nos santos e mártires, reluz nos profetas e nas virgens, corusca nos fundadores. Esse lumen Christi não se apaga nunca, ele é imortal, como imortal é a Santa Igreja.

Uma entrega cheia de enlevo

Natalia Yarima García Malaver

Múltiplos e apaixonantes exemplos de chamados e conversões encontramos na História da Igreja. Porém, não foi sem razão que uma vocação tão grandiosa como a de ser Apóstolo recebesse a honra de ser designada pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo.

Veremos, pois, como se deu o chamado de São Mateus, o cobrador de impostos, e que estado de espírito, à semelhança deste apóstolo, deve ter aquele que é convocado a instaurar o Reino de Deus sobre a face da Terra.

Sendo os Apóstolos convocados a uma tão alta missão era necessário, de certa maneira, que o chamado que receberam procedesse também de uma categoria superior a qualquer outra, ou seja, que fosse promovido pelo próprio Jesus. Havendo recebido o chamado, era preciso da parte dos Apóstolos uma entrega total e um “sim” categórico para, dignamente, receber tão alto título. Segundo narram os Evangelhos sinópticos, cinco foram os chamados particulares que fez Nosso Senhor, recebendo por parte dos que foram agraciados: Simão, André, Tiago, João e Mateus uma contundente resposta afirmativa.

São Marcos (1, 16-20) narra em seu Evangelho:

Passando ao longo do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse-lhes: “Vinde após mim; eu vos farei pescadores de homens”. Eles, no mesmo instante, deixaram as redes e seguiram-no. Poucos passos mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca, consertando as redes. E chamou-os logo. Eles deixaram na barca seu pai Zebedeu com os empregados e O seguiram.

“Além do desapego total dos bens temporais e de um coração elevado à Jerusalém Celeste, Jesus exige do apóstolo a ruptura completa de todos os laços que o vinculavam ao mundo” (CLÁ DIAS, 2010, p.16), referindo-se aqui, principalmente, a laços familiares e sociais, como nos diz o próprio Evangelho visto acima: “Eles deixaram na barca seu pai Zebedeu com os empregados e O seguiram” (Mc 1, 20).

Passando agora para o Evangelho de São Lucas (5, 27-28) e chegando ao ponto do qual trataremos com especial ênfase ― a conversão de São Mateus ―, encontramos: “Depois disso, Jesus saiu e viu sentado ao balcão um coletor de impostos, por nome Levi, e disse-lhe: ‘Segue-me’. Ele se levantou e, deixando tudo, seguiu-O”.É uma atitude que fica como exemplo para todas as almas que recebem um chamado divino.
Assim afirma Mons. João Clá (2010, p.16): Quando Jesus disse: ‘Vem e segue-Me’, deve-se considerar como ‘mundo dos mortos’ tudo quanto ficou para trás e não mais se interessar pelos assuntos que antes lhe preocupavam. E isto de uma forma radical”.

A esse respeito, também ensina o ilustre Padre Royo Marín (1968, p.385):

O desprendimento de todo o criado é uma das condições mais importantes para chegar à santidade. […] De fato, a alma vai se enchendo de Deus na medida e no grau em que vai se esvaziando das criaturas. São João da Cruz é inflexível em exigir um desprendimento total da alma que quer voar para Deus. Se não é assim, é semelhante a uma ave presa por um fio delicado que, por muito fino que seja, a impede de voar.

Por esta razão, explica Mons. João Clá (2005) ― com uma nuance consoladora e cheia de alegria ― que quem toma a iniciativa de dizer “Segue-me” não somos nós, mas o próprio Deus. É Nosso Senhor quem escolhe e não olha para os pecados das pessoas. Ele não veio para eliminar os pecadores. Isso quer dizer que Deus não põe como condição primeira do chamado o não ter pecados; mas, ainda que os tenha, o mais importante é não se ater a eles e entregar-se a Deus radicalmente.

Interessante comentário acerca deste ponto faz São Cirilo (apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea IV, San Lucas, c.V, v.27-32) para demonstrar como ainda tendo defeitos e debilidades, próprias à natureza humana, mereceu tamanha misericórdia:

Levi era, pois, publicano, homem avarento, intemperante em relação às coisas supérfluas, ávido pelas coisas alheias (isto é o ofício dos publicanos); mas, foi arrancado das oficinas da malícia pelo chamado de Cristo: “e disse-lhe: ‘Segue-me’”.

Com esta magnífica frase, na qual Nosso Senhor manifesta claramente sua veemência e bondade para com o pecador, compreendemos que não é por mérito próprio que Deus escolhe seus instrumentos para a salvação das almas, mas, muitas vezes, se vale de quem é mais insignificante e desprezível para operar conversões e milagres. E se a alma é generosa em seu “sim”, será grande aos olhos de Deus,entretanto, seguirá desprezível aos olhos do mundo. É próprio às almas que se abandonam nas mãos de Deus agir conforme diz São Paulo em sua carta aos Gálatas (6, 14): “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”.

São João Crisóstomo (apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea IV, San Lucas, c.V, v.27-32) realça e enobrece o “sim” decisivo de São Mateus:

Pode-se ver o poder de quem chama e a obediência do chamado. Não resistiu, nem sequer vacilou, obedeceu; e não quis nem mesmo voltar para sua casa e contar a sua família o que lhe sucedera, […]; o Senhor honrou o chamado de Levi que o aceitou imediatamente; isto lhe inspirou mais confiança

Esta confiança significa, pois, aquela paz e aquele fascínio das almas que tudo deixam para seguir um ideal, vendo o que têm diante de si e o que, como penhor de uma promessa, possuirão no final de suas vidas, tomando uma resolução firme e sem vacilações.

Compreendamos agora os movimentos de alma que inundaram São Mateus para fazê-lo aceitar o chamado. O que o moveu a dar esse “sim” radical? Ensina-nos, uma vez mais, Royo Marín (1968, p.383, tradução nossa) que “a vontade ― também chamada ‘apetite racional’ ― é a faculdade pela qual buscamos o bem conhecido pelo entendimento. […] O ato próprio da vontade é o amor, ou seja, a união afetiva da vontade com o bem conhecido”. Ora, foi desta submissão da vontade do Apóstolo para com o Bem em essência que se deu a correspondência ideal. Foi, portanto, um ato de admiração cheio de amor.

Esclarece-nos, ainda, a esse respeito, o Santo Doutor Angélico, na Suma Teológica (II-II, q.23, a.7-8), afirmando que a caridade é a raiz e regra de todas as demais virtudes, sem a qual nenhuma é verdadeira virtude.

Que outro nome tem esse amor? Enlevo. “É o amor de Deus que tocou o âmago da alma, o cerne da alma, e que deu uma ideia de quem é Ele. […] Quando a pessoa tem esse enlevo, pode-se dizer: ‘está conhecendo a Deus’” (CLÁ DIAS, 2008, s.p.).

São Mateus conheceu a Deus e, por isso, O seguiu. Ele se acusa a si mesmo de ser publicano, no entanto, foi convocado para a maior das batalhas ― conquistar almas para Cristo ―, a maior das ousadias, com o mais rigoroso desapego e a mais alta audácia que um homem possa ter: seguir Jesus.