O QUE É MAIS IMPORTANTE?

Ir. Letícia Gonçalves de Sousa, EP

Depois do pecado original, a natureza humana tornou-se mais tendente a buscar sua felicidade nas coisas materiais vinculadas facilmente aos sentidos do que naquelas ligadas ao espiritual. Quiçá seja este o motivo pelo qual o Divino Mestre perfumou as páginas do Evangelho com ensinamentos a respeito da grandeza do Reino do Céu a fim de que, encantados pela beleza deste, os homens perdessem o desejo de gozar desta terra passageira e corrompida.

Nosso Senhor também Se utilizou das parábolas do Reino para falar do caráter militante da Igreja: “quando é semeado, é a menor de todas as sementes. Mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc 4, 31-32).

Assim sendo, facilmente podemos responder à seguinte pergunta: o que mantém viva, influente e em contínua expansão a Esposa Mística de Cristo? É a estirpe de almas que, escutando as divinas palavras de Nosso Senhor, avançam para fazer com que um dia venha a nós o reino do Pai. A maior arma de apostolado destes apóstolos não é outra senão a vida interior.

São Carlos Borromeu tem um sábio conselho neste sentido: “Não descuides de tua própria alma; se descuidares de tua alma, não poderás dar aos outros o que deves dar”.[1] Este é o segredo do desenvolvimento e da força dessa árvore sagrada, que um dia foi um grão de mostarda. Sua seiva é o auxílio da graça divina, e não a força humana. Portanto, se realizamos boas obras, “não devemos nos pôr a pergunta se os homens reconhecerão nossas realizações e nossas grandezas. Importa sabermos que Deus nos assiste, perscrutando no fundo das almas o amor com que O servimos”.[2]

Podemos dar muita glória a Deus em nossas ações de cada dia, desde que tenhamos as vistas postas no sobrenatural e, não apenas no concreto, sendo perfeitos “como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). “Assim fez Cristo Jesus durante Sua vida pública: ocupadíssima, intensíssima, entretanto, sempre impregnada de oração e contemplação”.[3] Sigamos, pois, os seus passos.

[1] CARLOS BORROMEU, Santo. Sermão. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v. IV, p. 1436.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santidade, o ideal de todo homem. In: Dr. Plinio.  São Paulo, Ano IV, n. 44, nov. 2001, p.10.

[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O amor imperfeito de Maria e a preocupação naturalista de Marta. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano IX, n. 103, jul. 2010, p. 15.

O Papa, sol da Igreja

São Pedro3Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

Em certa ocasião, vi no jardim de um palácio, um relógio de sol. Pareceu-me algo bem curioso. Aproximei-me para analisá-lo e comprovei que ele marcava a hora certa: nove e meia. Entre os variados e utilíssimos benefícios que nos proporciona a luz do astro rei, há um ao qual muitos não dão a devida importância, e, entretanto, ele é indispensável: o de indicar com exatidão a hora certa para toda a humanidade.

Houve época em que os homens se guiavam durante o dia pelo sol, e à noite pelas estrelas. Se assim não fosse, como poderiam saber se eram nove horas da manhã ou três da tarde? Podemos imaginar as divergências de opiniões que daí decorreriam, pois cada qual quereria adaptar o horário segundo suas próprias conveniências…

Assim, para presidir o tempo, Deus criou o curso solar, o qual segue com pontualidade imutável as leis estabelecidas pelo Supremo Artífice.

O sol, símbolo da Virgem Maria

Este pensamento leva-nos a considerações mais elevadas: ao ordenar o universo, o Criador fê-lo de forma hierarquizada, de tal modo que os seres inferiores simbolizam os superiores, tornando assim mais fácil às criaturas racionais — anjos e homens — subir até Ele.

Por isso, entre os louvores dirigidos à Santíssima Virgem no Pequeno Ofício da Imaculada Conceição, canta a Igreja: “E a representou maravilhosamente em todas as suas obras”. O sol é nomeado inúmeras vezes no Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria como figura do nascimento do Salvador ou da beleza de Nossa Senhora: “Nascerá como o sol o Salvador do mundo e descerá ao seio da Virgem como a chuva sobre a relva”, “Ó Virgem prudentíssima, para onde ides como a aurora extremamente rutilante? Filha de Sião, toda formosa e suave sois, bela como a lua, eleita como o sol”, “Vossa maternidade, ó Virgem Mãe de Deus, anunciou a alegria a todo o universo: de Vós nasceu o Sol de Justiça, Cristo Deus nosso”, “Vossas vestes são alvas como a neve, e vosso semblante fulgura como o sol.”

O Papa, fundamento da unidade

Sol VaticanoMas, enquanto regulador do tempo, o sol simboliza o precioso legado deixado por Jesus Cristo antes de subir ao Céu, a realização da promessa feita aos Apóstolos — “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20) —, que faz da Igreja um só rebanho reunido em torno de um só pastor: a autoridade suprema do Papa infalível.

Com efeito, o que seria da Esposa Mística de Cristo se ela não estivesse estruturada em torno de um único detentor da verdade que, quando se pronuncia ex cathedra sobre assuntos de fé e moral, faz ouvir uma palavra absolutamente inerrante? Há muito tempo teria ela desmoronado como casa construída sobre a areia, corroída pelas dissensões e heresias, privada de seus próprios fundamentos.

Se, pois, a Igreja atravessa triunfante e inabalável o curso dos séculos, é porque ela se encontra estabelecida sobre o Apóstolo Pedro como um edifício sobre seus alicerces. E ai de quem não queira se submeter à sua autoridade! Poderíamos compará-lo a um pobre louco que, vendo o sol brilhar ao meio-dia, insistisse em afirmar que é meia-noite. Em nada a fulgurância do sol se veria diminuída…

Cristo instituiu a Igreja como sociedade visível

Ao deixar este mundo e subir aos Céus, Cristo Jesus encerrou de forma gloriosa sua permanência física entre os homens, para sentar-Se à direita do Pai na eternidade. Doravante faria sentir sua presença através do poder sobrenatural e invisível da graça. Porém, assim como o homem é um composto de corpo e alma, no qual espírito e matéria se harmonizam e se completam, tornava-se necessário que a Igreja por Ele fundada não só vivesse do sopro do Espírito Santo, mas estivesse solidamente constituída como sociedade visível e jurídica, na pessoa dos Apóstolos e de seus sucessores.

Para o exercício de tão alta missão, o Redentor, com didática divina, preparou seus discípulos ao longo de três anos de convívio, durante os quais os fez progredir no conhecimento e no amor das verdades eternas, destacando-os das influências mundanas. O ponto culminante dessa ruptura com o mundo parece ter-se dado no momento em que Jesus, após perguntar-lhes quais as opiniões dos judeus a respeito do Filho do Homem, inquiriu: “E vós, quem dizeis que Eu sou? (Mt 16, 15). Certamente criou-se um suspense, todos entreolharam-se hesitantes. Então o fogoso Simão, cedendo à inspiração da graça no fundo de sua alma, lançou-se aos pés do Mestre, exclamando: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!” (Mt 16, 16).

Pedro é o alicerce da Igreja

Desde toda a eternidade o Verbo de Deus conhecia aquela cena. Enquanto Homem, porém, ardia em desejos de constatá-la com seus olhos carnais, e pode-se dizer que, desde o primeiro instante de sua concepção, seu Sagrado Coração pulsava com santa pressa de ouvir aquelas palavras que determinariam o nascimento da mais bela instituição da História. Possivelmente tenha experimentado uma divina emoção ao responder ao Apóstolo: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos Céus. E Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus” (Mt 16, 17-19).

Com esta solene promessa o Salvador acabava de anunciar o fundamento de sua Igreja: a pessoa de Pedro. Ele o revestiria do mesmo poder com o qual o Pai O enviara. “Foi a Pedro que o Senhor falou: a um só, a fim de fundar a unidade em um só”.1

O Primado de Pedro: de Jerusalém a Roma

Após a Ascensão do Senhor e a descida do Espírito Santo, os Apóstolos iniciaram sua pregação na cidade de Jerusalém. A autoridade de Pedro sobre eles foi reconhecida desde o começo, e o Cenáculo passou a ser o berço da Igreja. Os primeiros anos do ministério de Pedro foram particularmente árduos: lemos nos Atos a descrição, palpitante como um livro de aventuras, dos sucessos e reveses apostólicos pelos quais passaram o primeiro Papa e a nascente comunidade cristã. Deixando a sede episcopal de Jerusalém sob o encargo de Tiago o Menor, Pedro transladou-se para Antioquia; em seguida, guiado pelos desígnios de Deus, instalou-se definitivamente em Roma.

A Providência, que tudo dispõe com sabedoria, preparava-lhe os caminhos e iria se servir dos restos do Império decadente como de uma plataforma, para sobre ela construir a Civilização Cristã.

1São Paciano, Bispo de Barcelona, 3ª carta a Semprônio, n. 11.