A realidade que só a fé alcança

Ir. María del Pilar Perezcanto Sagone,EP

Dificilmente paramos para refletir a respeito de um dom precioso que Deus nos deu: os cinco sentidos. Como seria a nossa vida, o nosso dia-a-dia, se eles nos faltassem? Como poderíamos nos relacionar com o mundo que nos rodeia? Que atividades seríamos capazes de executar? Como adquiríamos conhecimentos?

Imaginemos alguém assistindo a uma peça de teatro. Enquanto recebe notícia da música mediante os sons que lhe chegam aos ouvidos, seus olhos veem o que acontece no palco, a movimentação dos atores, o desenrolar das cenas, etc. Portanto, a audição e a visão estão ativas. Suponhamos, ainda, tratar-se de um teatro frequentado por pessoas de elevado status social e que se respira o suave aroma dos perfumes que usam: é a participação do olfato. E, finalmente, consideremos o nosso espectador sentado em uma cadeira confortável saboreando um delicioso chocolate francês: tato e paladar. Podemos concluir, então, que essa pessoa é influenciada pela realidade exterior através dos cinco sentidos. 1

São Tomás afirma que nada existe na inteligência humana que não tenha passado antes pelos sentidos – “Omnis nostra cognitio incipit para sensu” . 2 Ou seja, os sentidos têm um papel importante na vida e no desenvolvimento intelectual de todo ser humano. Como diz o Doutor Angélico, nem mesmo os anjos têm poder para introduzir algo no imaginário que os sentidos não tenham percebido anteriormente: “O Anjo age sobre a imaginação, não certamente imprimindo nela alguma forma imaginária que de nenhum modo tenha antes sido recebida pelos sentidos, pois o Anjo não pode fazer que um cego imagine as cores “.3

O próprio Deus se vale dos sentidos para fazer-nos conhecer o que deseja, pois “Deus provê a tudo de acordo com a natureza de cada um. Ora, é natural ao homem elevar-se ao inteligível pelo sensível, porque nosso conhecimento se origina a partir dos sentidos”. 4 Inclusive as verdades reveladas penetram em nossa alma através dos sentidos, principalmente através da audição, como afirma o Apóstolo: ” A fé provém da pregação e a pregação se exerce em razão da palavra de Cristo”. (Rm 10:17)

Podem enganar-nos nossos sentidos?

Entretanto existe uma realidade muito mais importante do que aquela que nossos sentidos conseguem captar: a realidade sobrenatural.

Tudo o que acontece na transesfera e que os seres humanos são incapazes de perceber – as influências dos Anjos e demônios sobre as almas, as graças que são derramadas sobre os homens, a própria presença de Deus em todas as partes, etc. – tem uma importância única no desenvolvimento da história. Ocorre que muitas vezes esquecemos dessa realidade pensando que somente o que vemos, ouvimos, olfatamos, apalpamos e degustamos é o que realmente existe. Oh ilusão! É sob esse ponto de vista que podemos afirmar que os nossos sentidos nos enganam, pois nos mostram apenas a realidade material, escondendo-nos as verdades que a nossa fé nos revela.

Exemplo eloquente encontra-se em um cântico intitulado “Adoro te devote” composta pelo Doutor Angélico, referindo-se a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia:

Visus, tactus, gustus in te fallitur,
sed auditu solo tuto creditur:
credo quidquid dixit Dei Filius
nil hoc verbo veritatis verius.

A vista, o tato, o paladar em Vós falham:
mas só pelo o que ouço , acredito firmemente.
Creio em tudo o que disse o Filho de Deus;
nada há mais verdadeiro que esta palavra da Verdade. 5

Vemos, assim, que, no caso do “Pão dos Anjos”, somente nossos ouvidos concordam com a realidade quando ouvimos as palavras do sacerdote que fala — in persona Christi —ao realizar a Consagração: “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu Sangue”. No entanto, os outros sentidos falham, pois não nos mostram o grande mistério que se esconde por detrás das Sagradas Espécies.

Visão naturalista: a verdadeira visão?

Há muitas pessoas que dizem: “É absurdo acreditar naquilo que os nossos sentidos não podem perceber, pois, quem pode comprovar que existe verdadeiramente?” Consequentemente, tais pessoas abandonam a fé católica, recusando-se a reconhecer que o fato de que seus sentidos externos são incapazes de contemplar tais verdades, não significa, de forma alguma, que elas realmente não existam.

Uma metáfora utilizada por Monsenhor João Clá Dias 6 ilustra eloquentemente o que foi dito: “Vamos supor que estamos viajando em um carro e contemplando um belo panorama. De repente, ao passar por um charco, os vidros do veículo se cobrem de lama e, consequentemente, deixamos de contemplar o panorama. Seria coerente afirmar que o panorama desapareceu somente porque os nossos olhos deixaram de vê-lo? A resposta negativa é evidente. O mesmo acontece no que diz respeito à existência de Deus e das realidades sobrenaturais: elas não deixam de existir simplesmente porque nós, pobres mortais, não somos capazes de contemplar.

Alguém poderia objetar: Se Deus realmente existe, por que não permite que O vejamos? São Teófilo de Antioquia responde:

“Deus é experimentado por aqueles que podem vê-Lo, desde que os olhos de sua alma estejam abertos. Todos têm olhos, mas alguns os têm obscurecidos e não percebem a luz do sol; e não é porque os cegos não vêem que a luz do sol deixa de brilhar, mas os cegos devem buscar a causa em si mesmos e em seus olhos”. 7

Afirma o próprio São Tomás, referindo-se ao conhecimento que podemos ter de Deus: “o que é cognoscível em si mesmo não é cognoscível por um intelecto por exceder em inteligibilidade o intelecto”.8 E acrescenta o seguinte exemplo: “O sol, ainda que seja ao máximo visível, não pode ser visto pelos morcegos em razão do excesso de luz”.9

Mons. João Clá Dias 10 explica, citando o Doutor Angélico, que Deus é “sumamente visível”, no entanto, assim como os morcegos são incapazes de ver a luz do sol porque eles não têm olhos, nós não podemos ver a Deus, porque nosso olhar não tem essa faculdade. “Ele é para todos universalmente incompreensível”, — declara São Dionisio —, ” e não pode ser conhecido pelos sentidos” . 11

Tomás de Kempis nos adverte a esse respeito: “Procura desapegar teu coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis: pois aqueles que satisfazem seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus”.12

Qual deve ser, então, o papel dos sentidos, em relação à fé? Monsenhor João responde: “Face à fé os sentidos têm que entregar-se, têm que render-se, nós temos a obrigação de dobrar os joelhos, de juntar as mãos e dizer: eu aceito” . 13

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O senso comum e a procura do absoluto. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VII, n. 71, feb. 2004, p.27.
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A fidelidade ao primeiro olhar. São Paulo, 2007. (Arquivo IFTE).
3 Id. S. Th. I, q.111, a.3, ad.2.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q.1, a.9.
5 ARAUTOS DO EVANGELHO. Liber cantualis. São Paulo: Salesiana, 2011, p.74.
6 CLÁ DIAS. João Scognamiglio. Estamos em Deus e a Ele devemos nos abandonar!: Homilía. São Paulo: 14 ago. 2006. (Arquivo IFTE).
7 SAN TEÓFILO DE ANTIOQUÍA. In: COMISIÓN EPISCOPAL DE PASTORAL LITÚRGICA DE MÉXICO Y CONFERENCIA EPISCOPAL DE COLOMBIA. Liturgia de las horas. 20. ed. Barcelona: Desclée De Brouwer, 2005, v. II, p.217.
8 SANTO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q.12, a.1.
9 Loc. cit.
10 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Da série sobre a Fé II. Conferencia. São Paulo, 18 nov. 2006. (Arquivo IFTE)
11 SAN DIONISIO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op.cit. ad. 1.
12 KEMPIS, Tomás. Imitación de Cristo. Sevilla: Apostolado mariano. [s.d.], p.5.
13 CLÁ DIAS. Da série sobre a Fé II. Op.cit.

A Encarnação: uma necessidade?

CAROLINE FUGIYAMA NUNES

Como nos ensina a teologia, tudo o que Deus faz é perfeito. Mas, para entendermos com profundidade o seu agir durante a História, nos é necessário, sobretudo, por sermos criaturas racionais, alguns pressupostos que tornam mais fácil perceber a sabedoria e poder de Deus no decorrer dela. Por isso, para compreendermos acerca do mistério da Encarnação, apresentamos algumas razões dadas sabiamente pela Doutrina Católica, para assim amarmos esta importante e magnífica obra de Deus entre os homens.

Deus, por seu supremo poder, poderia perdoar o pecado do homem por um simples desejo seu, sem exigir nenhuma reparação, pois é o ofendido e não tem sobre si nenhum superior a quem deva dar conta de seus atos. Sendo o supremo Juiz, pode fazê-lo com misericórdia sem contradizer a justiça, pois aquela seria o complemento e plenitude desta. É o que ensina o Doutor Angélico:

Se tivesse querido libertar o homem do pecado sem satisfação, não teria procedido em contra da justiça. Não pode perdoar a culpa ou a pena, respeitando a justiça, aquele juiz que está obrigado a castigar a culpa cometida contra outro, seja contra outro nome, seja contra a comunidade inteira ou contra um governante superior. Mas Deus não possui superior algum, senão que Ele mesmo é o bem supremo e comum de todo o universo. E por isso, se perdoa um pecado que tem razão de culpa porque se comete contra Ele, a ninguém faz injúria, como o homem que perdoa uma ofensa contra ele, sem que seja feita a satisfação, obra misericordiosamente, e não injustamente. E, por este motivo, Davi, quando pedia misericórdia, dizia no Sal 50, 6: Somente contra ti pequei, como se dissesse: Podes perdoar-me sem injustiça”.1

Portanto, quando Deus atua com misericórdia, não contradiz sua justiça, senão que faz algo que está por cima da justiça, por isso se diz: “A misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2, 13). Analisada sob este ponto, conclui-se que não haveria nenhuma necessidade da encarnação, uma vez que pode ser reparada por um simples ato de misericórdia. Ela foi realizada pela suprema vontade de Deus.

Conveniência da Encarnação

Ora, quando nossos primeiros pais pecaram, abriu-se entre os homens e Deus um abismo infinito, sendo impossível, por parte do homem, uma reparação de justiça estrita. Poderia Deus exigir do homem uma reparação de justiça imperfeita, ou seja, mostrando-lhe o que devia oferecer-lhe em reparação. Tampouco, nada disso satisfaria e estaria a altura da dívida. Deste modo, para salvar, em sentido de justiça estrita, esta distância infinita entre nós e Deus e pagar completamente a dívida, foi conveniente que o Homem-Deus se encarnasse.2 A encarnação do Verbo, portanto, considerada em si mesma, foi convenientíssima. Entretanto, há também outras duas razões principais, segundo Royo Marín: pela natureza mesma de Deus, pois sendo o Sumo Bem Lhe convém comunicar-se em sumo grau. Isso só poderia realizar encarnando-se e assumindo uma natureza humana.3 A segunda razão é para que Deus, realizando a encarnação, manifestasse seus atributos divinos:

a) A INFINITA BONDADE DE DEUS, que não desprezou a debilidade de nossa pobre natureza.

b) SUA INFINITA MISERICÓRDIA, já que pôde remediar nossa miséria sem necessidade de tomá-la sobre si.

c) SUA INFINITA JUSTIÇA, que exigiu até a última gota de sangue de Cristo para o resgate da humanidade pecadora.

d) SUA INFINITA SABEDORIA, que soube encontrar uma solução admirável ao difícil problema de concordar a misericórdia com a justiça.

e) SEU INFINITO PODER, já que é impossível realizar uma obra maior que a encarnação do Verbo, que juntou em uma só pessoa o finito com o infinito, que distanciam entre si infinitamente.

Querendo Deus manifestar seus divinos atributos, quer tornar-nos manifesto todo o seu amor por nós e toda sua benquerença de maneira ilimitada.4

“O Verbo se fez carne para que, assim, conhecêssemos o amor de Deus: “Nisto manifestou-se o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho Único ao mundo para que vivamos por Ele” (1 Jo 4, 9). “Pois Deus amou tanto ao mundo, que deu seu Filho Único, a fim de que todo o que crer nele não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (Jo 3, 16). O Verbo se fez carne para ser nosso modelo de santidade ﴾CCE 458 – 459﴿”.

Ele quis mostrar como é este modelo, Ele quis trazer-nos um tipo humano novo. Manifestou-Se como a suprema figura de santidade. Por isso Ele próprio afirmou: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”, e depois, “Eu e o Pai somos um, quem vê a mim vê ao Pai”. Portanto, olhando, imitando a Ele, vemos a perfeição e a santidade do Pai. Foi de fato, conveniente que Ele Se encarnasse: para podermos ter, por assim dizer, um padrão de santidade a imitar.

Manifestação de poder e bondade pela misericórdia

São Tomás e outros tomistas também afirmam que o motivo da Encarnação foi, sobretudo, um motivo de misericórdia, para salvar a humanidade caída. Ele Se encarnou com o objetivo de se dar aos pecadores. Encontramos numerosas testemunhas que dão base a esta opinião. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo diz a São Lucas: “O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Também nos afirma São João: “Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 17). E acrescenta em sua primeira epístola: “Ele nos amou e enviou seu Filho, como propiciação de nossos pecados” (1 Jo 4, 10).

Por outra parte, o próprio nome de Jesus significa a sua missão entre nós: a de Salvador. Nosso Senhor veio como Salvador e Redentor, mais do que Rei e Profeta, se bem que seja os dois. Mas, dentro do plano do pecado, Ele veio, sobretudo, com as características de Salvador e Redentor. Fora do plano do pecado viria como Rei, Profeta, etc. Ele veio a nós enquanto vítima expiatória por nossos pecados.5

São João Crisóstomo diz belamente que, “a Encarnação não tem outra causa que esta: Deus nos viu caídos na abjeção, oprimidos pela tirania da morte e teve misericórdia”.6 Foi por causa do pecado que nós tivemos um Redentor, pois a misericórdia inclina o superior ao inferior. Ele se inclina a nós, para nos levantarmos até Ele.

Com isso, o Verbo feito carne pôde oferecer em reparação ao Pai, um ato de amor de um valor sem limites. “Assim, a misericórdia divina, longe de subordinar o Verbo encarnado a nós, é a mais alta manifestação do Poder de Deus e de sua Bondade. Canta a glória de Deus mais que todas as estrelas do firmamento”.7 A Redenção trouxe esta manifestação.

Reparação e salvação

A Encarnação era, assim, a fonte de graças mais fecunda para salvar-nos, tal como era necessário para que a reparação perfeita da ofensa fosse feita a Deus. Nenhuma intervenção divina poderia salvar-nos melhor do mal. Pela Encarnação fomos arrancados do mal e impulsionados ao bem.

Que confiança nos inspiraria o mistério da encarnação, se nos esforçássemos por estudá-lo de maneira mais profunda!…

Considerando a Encarnação por parte de Deus, que se inclina a dar-se o mais possível a nós, deve precisamente nascer em nossas almas uma confiança ilimitada não só no auxílio da graça, mas em sua própria fonte, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Resta-nos, enfim, considerarmos a exaltação de nossa natureza pela Redenção e estar sempre conscientes disso, com a obrigação de desprezar o rebaixamento de si mesmo pelo pecado. Como diz São Pedro: “temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo” (2 Pd 1, 4).

“A encarnação do Verbo fortifica, assim, grandemente, a nossa fé, nossa esperança, nossa caridade, nos dá o exemplo de todas as virtudes e, sobretudo, é o princípio, na santíssima alma de Jesus, de um ato de amor redentor, que agrada mais a Deus que o que todos os pecados podem desagradar-lhe. […]. Verdadeiramente, podemos, com uma profunda gratidão, dizer como São Paulo: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos pelos nossos delitos, nos deu vida por Cristo, por cuja graça haveis sido salvos”. Essa graça é o gérmen da glória; roguemos para perseverar nela e por ela, para que verdadeiramente seja em nós a vida eterna começada”.8

1“Ille enim iudex non potest, salva iustitia, culpam sine poena dimittere, qui habet punire culpam in alium commissam, puta vel in alium hominem, vel in totam rempublicam, sive in superiorem principem. Sed Deus non habet aliquem superiorem, sed ipse supremum et commune bonum totius universi. et ideo, si dimittat peccatum, quod habet rationem culpae, ex eo quod contra ipsum committitur, nulli facit iniuriam; sicut quicumque homo remittit offensam in se commissam absque satisfactione, misericorditer et non iniuste agit. et ideo David, misericordiam petens, dicebat (ps.L, 6): Tibi soli peccavi: quase dicat: Potes sine iniustitia mihi dimittere” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III, q. 46, a. 2. ad 3. Tradução de Alexandre Correia).
2Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Op. cit. p. 30.
3Ibid. p. 25-26.
4“a) LA INFINITA BONDAD DE DIOS, que no despreció la debilidad de nuestra pobre naturaleza humana. b) SU INFINITA MISERICORDIA, ya que pudo remediar nuestra miseria sin necesidad de tomarla sobre sí. c) SU INFINITA JUSTICIA, que exigió hasta la última gota de la sangre de Cristo para el rescate de la humanidad pecadora. d) SU INFINITA SABIDURÍA, que supo encontrar una solución admirable al difícil problema de concordar la misericordia con la justicia. e) SU INFINITO PODER, ya que es imposible realizar una obra mayor que la encarnación del Verbo, que juntó en una sola persona lo finito con lo infinito, que distan entre sí infinitamente” (Ibid. p. 26. Tradução da autora).
5GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros. Trad. José Antonio Millán. Madrid: Rialp, 1977. p. 174.
6SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O Filho de Deus se fez Homem: Curso de Formação. São Paulo: 21 ago. 2002. (Arquivo IFTE).
7“Así, la misericordia divina, lejos de subordinar el Verbo encarnado a nosotros, es la más alta manifestación del Poder de Dios y de su Bondad. Canta la gloria de Dios más que todas las estrellas del firmamento” (GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Op. cit. p. 179).
8“La encarnación del Verbo fortifica, así, grandemente, nuestra fe, nuestra esperanza, nuestra caridad, nos da el ejemplo de todas las virtudes y, sobre todo, es el principio, en la santísima alma de Jesús, de un acto de amor redentor que agrada más a Dios que lo que todos los pecados pueden desagradarle. […] Verdaderamente, podemos, con una profunda gratitud, decir como San Pablo: ‘Pero Dios, que es rico en misericordia, por el gran amor con que nos amó, y estando nosotros muertes por nuestros delitos, nos dio vida por Cristo, por cuya gracia habéis sido salvados’. Esta gracia es el germen de la gloria; roguemos para perseverar en ella y por ella, para verdaderamente sea en nosotros la vida eterna comenzada” (Ibid. p. 170).

O amor a Deus, ato principal da caridade

São VicenteEmelly Tainara Schnorr

A excelência da caridade sobre as outras virtudes consiste, e de maneira especial, na razão do objeto material primário ao qual se relaciona, ou seja, o próprio Deus, com o Qual nos unimos.1 Além disso, seu objeto se estende por dois aspectos – a nós mesmos e ao próximo –, mas sempre em função de Deus:

O objeto material sobre o que recai a caridade o constitui primariamente a Deus, e secundariamente a nós mesmos e todas as criaturas racionais que chegaram ou podem chegar à eterna bem-aventurança, e ainda, em certo modo, todas as criaturas, enquanto são ordenáveis à glória de Deus”.2

Em sua dimensão fundamental – o amor a Deus em Si mesmo –, a caridade é definida por São Tomás como uma “amizade do homem para com Deus”:

“[…] Já que há uma certa comunhão do homem com Deus, pelo fato que Ele nos torna participantes da bem-aventurança, é preciso que uma certa amizade se funde sobre esta comunhão. […] O amor fundado sobre esta comunhão é a caridade. É, pois, evidente que a caridade é uma amizade do homem para com Deus”.3

Acrescenta ainda o Doutor Angélico que, para se ter uma amizade verdadeira, é preciso que o amor seja recíproco:

“Segundo Aristóteles, não é qualquer amor que se realiza a noção de amizade, mas somente o amor de benevolência, pelo qual queremos bem a quem amamos. […] Entretanto, a benevolência não é suficiente para se constituir uma amizade, é preciso que haja reciprocidade de amor”.4

Essa reciprocidade de amor é um ponto dominante no dinamismo da caridade. Desde antes da existência do mundo, o amor de Deus foi derramado sobre nós com abundância – “na vontade, no amor e no coração d’Ele, eu estive sendo amado por Ele desde toda a eternidade”.5

Além de nos criar, Deus está constantemente nos sustentando no ser; faz-nos participar de sua própria natureza e nos cumula de favores e graças. Ademais, Ele arde em anseios pela nossa salvação, para, no Céu, gozarmos eternamente de seu convívio numa felicidade eterna: “Nós estaremos cheios de alegria quando entrarmos no Céu, mas Deus também estará contentíssimo por ver que, afinal, o plano eterno d’Ele a meu respeito se realizou. E a alegria d’Ele será maior do que a nossa, porque Ele nos ama, Ele nos quer!”.6

Como retribuir a Deus essa infinitude de amor e dileção manifestado por nós? Diz um adágio: “Amor com amor se paga”. Portanto, Ele somente procura a nossa correspondência de amor; o que Ele mais deseja é que também O amemos.

“O amor é o único entre todas as tendências, sentidos e afeições da alma, com o qual a criatura pode responder a seu Autor, não com plena igualdade, mas sim de uma maneira muito semelhante. […] Pois quando Deus ama, não deseja outra coisa senão que Lhe amemos; porque não ama para outra coisa senão para ser amado, sabendo que basta o amor para que sejam felizes os que se amam”.7

E é este amor o ato principal da caridade, o qual apresenta duas formas características: o amor afetivo e o amor efetivo. Entre ambos, o mais importante e fundamental é o amor afetivo, pois se trata do exercício direto e imediato da virtude da caridade considerada em si mesma, consistindo no próprio amor a Deus, tal como brota da vontade informada pelo hábito infuso da divina caridade.8

É um amor cheio de complacência e afeto, produzindo descanso e um gozo fruitivo na vontade. Isto se passa, porque, dado que o amor é um movimento da vontade em procurar o bem, quando o encontra, enche-se de gáudio e emoção. Ora, Deus é o Supremo Bem, em cuja contemplação a alma “sente frêmitos e ímpetos de alegria sem igual pelo prazer que tem de olhar os tesouros das perfeições do rei de seu santo amor”.9

Tomada por esse amor, a alma suspira em desejos de estar com o Amado e de atingir uma plena e definitiva união com Ele. Entretanto, dificilmente neste vale de lágrimas ela poderá saciar este anseio, esperando, por esta razão, a vida eterna.

“O coração, pois, que neste mundo não pode nem cantar nem ouvir os louvores divinos a seu gosto, entra em desejos sem igual de ser liberto dos laços desta vida para ir à outra onde se louva tão perfeitamente o bem-amado celeste, e, havendo-se esses desejos apoderado do coração, tornam-se tão poderosos e prementes no peito dos amantes sagrados, que, banindo quaisquer outros desejos, põem em desgosto todas as coisas terrenas, e tornam a alma toda desfalecida e doente de amor; e mesmo essa paixão progride às vezes tanto, que, se Deus o permitir, morre-se dela”.10

Entretanto, é salutar ter bem presente que o amor não se traduz somente nas alegrias e consolos espirituais internos que dele dimanam, mas exige que tenha uma comprovação manifestada em obras, pois, do contrário, correria o risco de ser um amor romântico, baseado puramente em sentimentos. A sua perfeição só se completa com a outra forma de amor, que é o efetivo.

“O amor verdadeiro não vai unido necessariamente a essas doçuras e consolações sensíveis, ainda pode ajudar-se delas quando aparecem espontaneamente como um presente de Deus. A pedra de toque do verdadeiro amor consiste no exercício das virtudes: “O amor – diz São Gregório – tem que comprová-lo com as obras”.11

N S JesusAssim, o amor efetivo apresenta dois corolários: o cumprimento da lei divina e a perfeita conformidade da nossa vontade com a de Deus.12

Esta conformidade de nossa vontade com a de Deus, deve ser inteira e amorosa. Exemplo disso foi o piedoso Jó que, tendo sido provado ao máximo, perdendo todos os seus bens, familiares e amigos, conformou-se com a vontade de Deus, dizendo: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor! Como foi do agrado do Senhor, assim aconteceu” (Jo 1, 21).

Quanto à lei divina, ela deve ser praticada por puro amor, ou seja, necessita ser cumprida para agradar a Deus e não pelo interesse que poderia proporcionar a recompensa eterna; poderia não haver Céu nem inferno, mas a alma continuaria amando e temendo a Deus.

Donde a importância do primeiro mandamento, que, no Decálogo, ocupa um lugar proeminente sobre os outros nove, devendo, por isso, ser praticado com um zelo maior. Do contrário, os demais sofreriam um abalo, ocasionando sérias consequências tanto no desenvolvimento pessoal, quanto no social. Mons. João Clá confirma o acima dito:

“[…] O Primeiro Mandamento é o mais importante de todos, e é ele que nos dá a possibilidade de compreender bem todos os outros. A prática do Primeiro Mandamento da Lei de Deus é fundamental, e essa prática nós temos que realizar desde o momento em que acordamos até o momento em que vamos dormir, constantemente devemos estar com o nosso pensamento, nossa preocupação e nosso amor colocado nas coisas de Deus”.13

1 Cf. ROYO MARIN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 126.
2“El objeto material sobre que recae la caridad lo constituye primariamente Dios, y secundariamente nosotros mismos y todas las criaturas racionales que han llegado o pueden llegar a la eterna bienaventuranza, y aun, en cierto modo, todas las criaturas, en cuanto son ordenables a la gloria de Dios” (Ibid. p. 511. Tradução da autora).
3 “[…] Sit aliqua communicatio hominis ad Deum secundum quod nobis suam beatitudinem communicat, super hac communicatione oportet aliquam amicitiam fundari. […] Amor autem hac communicatione fundatus est caritas. Unde manifestum est quod caritas amicitia quaedam est hominis ad Deum” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 23, a. 1).
4 “Secundum Philosophum, in VIII Ethic., non quilibet amor habet rationem amicitiae, sed amor qui est cum benevolentia: quando scilicet sic amamus aliquem ut ei bonum velimus. […] Sed nec benevolentia sufficit ad rationem amicitiae sed requiritur quaedam mutua amatio: quia amicus est amico amicus. Talis autem mutual benevolentia fundatur super aliqua communicatione” (Loc. cit).
5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 4ª feira, da XIV Semana do Tempo Comum. Caieiras, 9 jul. 2008. (Arquivo IFTE).
6 Loc. cit.
7 “Solus est amor ex omnibus animae motibus, sensibus atque affectibus, in quo potest creatura, etsi non ex aequo, respondere Auctori, vel de simili mutuam rependere vicem. […] Nam cum amat Deus, non aliud vult, quam amari: quippe non ad aliud amat, nisi ut ametur, sciens ipso amore beatos, qui si amaverint” (SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Sermones sobre el Cantar de los Cantares. In: Obras completas. Madrid: BAC, 1987. Vol. V. p. 1030).
8 Cf. ROYO MARIN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 219-220; 231.
9 SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 248.
10 Ibid. p. 274.
11 “El amor verdadero no va unido necesariamente a esas dulzuras e consolaciones sensibles, aunque puede ayudarse de ellas cuando se presentan espontáneamente como un regalo de Dios. La piedra de toque del verdadero amor consiste en el ejercicio de las virtudes: ‘El amor – dice San Gregorio – hay que probarlo con las obras’” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 232. Tradução da autora).
12 Cf. Ibid. p. 233-242.
13 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 4ª feira, da III Semana da Quaresma. Caieiras, 12 mar. 2008. (Arquivo IFTE).