Lições das aves do céu 

Ir Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP

Desafios, riscos e esforços estão constantemente presentes na vida desta Terra. E não só para os homens, como também para os animais. Para fazer face a tais obstáculos, a Divina Providência os beneficiou com admiráveis instintos, que podem trazer valiosas lições para nós. Por isso, já dizia o santo Jó: “Pergunta, pois, aos animais, e eles te ensinarão; às aves do céu, e elas te instruirão” (12, 7).

É o que acontece ao contemplarmos os majestosos “Vs” que, com a proximidade do inverno, cortam o azul do céu com seu vigoroso avanço. Eles são desenhados por bandos de aves migratórias, buscando um clima mais propício nas regiões setentrionais do globo. Durante a longa viagem elas mantêm esta característica disposição, na qual um dos pássaros vai à frente dos demais, bem no vértice da farpa.

Além de ser bela, esta disciplinada formação obedece a um princípio de sabedoria do Criador: cada bater de asas do líder do bando cria um vácuo que é aproveitado pelos que vêm logo atrás, fazendo-lhes economizar uma boa dose de esforço. O mesmo acontece, sucessivamente, com todos os outros integrantes. Deste modo, o empenho de quem está à frente serve de benefício para os que lhe seguem. A fim de melhor enfrentar os ventos, as correntes de ar e as agruras do deslocamento, numerosas aves se revezam nesta tarefa. Assim, depois de certo tempo mantendo tão fundamental posição, quem liderou o bando refaz suas forças ocupando um lugar diferente em que o esforço é bem menor.

Não é difícil compreender a lição que estas aves do céu nos têm a dar, sobretudo se recordamos que estamos em constante “migração” por este vale de lágrimas, que é a Terra.

Se de fato amamos a Deus, para Ele rumaremos com confiança e alegria, sem nos deixar abater pelas vicissitudes do caminho, e desejaremos igual felicidade para nossos semelhantes. Isto significa, com frequência, tomar a iniciativa de encorajá-los, conforme o ensinamento do Apóstolo: “Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não relaxarmos. Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens, mas particularmente aos irmãos na Fé” (Gal 6, 9-10).

Sem dúvida, quando as tempestades da tribulação desabam sobre alguém, uma palavra ou gesto de conforto pode aliviar o peso de seu infortúnio. Mais importante, porém, é estarmos preparados para enfrentar os escolhos e perigos da longa viagem e, quando necessário, nos adiantarmos com galhardia para abrir caminho, permitindo que os outros avancem mais decididamente rumo à Pátria Eterna.

Se formos generosos nesta tarefa, não temendo as dificuldades e os sofrimentos de quem é chamado a liderar, o nosso “bando” avançará sem experimentar as amarguras do egoísmo, a exemplo de Maria Santíssima que até nas terríveis horas da Paixão foi guia e sustentáculo da Igreja nascente.

Com o auxílio desta Mãe, que é a Fortaleza dos fracos, estaremos sempre animados e animando, e, quando atingirmos nosso destino final, receberemos a recompensa daqueles que, tendo “introduzido muitos nos caminhos da justiça, luzirão como as estrelas, com um perpétuo resplendor” (Dn 12, 3).

 Revista Arautos do Evangelho Jan. 2017

O Orgulho de São Francisco?

Ir. Maria José Vicmary Feliz Gómez

Avisado da vinda de São Francisco, todo o povo o esperava, desde muito cedo, às portas da cidade. Muitos tinham ido, ainda na escuridão da noite, na esperança de obter os melhores lugares e, assim, ficar mais próximo do santo na sua passagem. Alguns rezavam o terço, outros faziam as mais diversas promessas, desejosos de receber a graça de algum convívio…

– Quem sabe ele olha em nossa direção? – exclamavam com entusiasmo alguns dos presentes.

– Ou melhor! Quem sabe conseguimos algum cumprimento? – comentavam outros.

De repente, entre aplausos, exclamações e grande alegria, São Francisco entrou no povoado. Aqueles que se encontravam mais perto aproximaram-se dele para oscular- lhe o hábito, as mãos e os pés, sem encontrar da parte do santo nenhuma resistência. Porém, o frade que o acompanhava julgou que, aceitando tais honras, São Francisco pecava contra a virtude da humildade. Foi tão forte a tentação que, finalmente, confessou seus pensamentos ao santo.

– Estas pessoas, meu irmão, nenhuma coisa fazem à altura da honra que deveriam render – respondeu-lhe São Francisco.

Ao ouvir essa resposta, o frade ficou ainda mais escandalizado, pois não entendeu as palavras do santo. Então, vendo sua perplexidade, São Francisco disse-lhe:

– Meu irmão, esta honra que me vedes aceitar, não a atribuo a mim, senão que a transfiro a Deus, pois d’Ele é, e eu fico no mais profundo do meu nada. Eles lucram com isto, pois reconhecem e honram a Deus na sua criatura.

Que Nossa Senhora nos conceda a graça de nunca perder a oportunidade de glorificar a Deus através dos modelos de virtude que a Divina Providência coloca diante de nossos olhos, para que, assim, de enlevo em enlevo, galguemos a montanha da admiração e nos transformemos naqueles mesmos que admiramos.

À Vossa proteção recorremos…

Ir Mariella Antunes

Numa madrugada fria, do rigoroso inferno da longínqua Rússia, enquanto subia a encosta da montanha principal da região do Tykrapshol, o trem Marie se desviou de sua rota normal e atrasou o horário de sua chegada, deixando muitos em grande aflição. O que poderia ter acontecido?

– Eu acredito e posso dar o meu testemunho. Foi um milagre! Um milagre! –  exclamava o motorista do trem ao ser interrogado pelos seus superiores.

Qual o motivo que o fez parar no meio do percurso? Todos estavam surpresos e queriam saber o que tinha ocorrido, mas o motorista não parava de repetir a frase acima.

Que “milagre”seria esse? E que “testemunho” ele poderia dar?

Ao seguir pelos trilhos, em uma considerada velocidade, o maquinista, Jorge Krash, viu diante do trem uma grande sombra que ofuscava o farol esquerdo, parecendo fazer sinal para diminuir a velocidade e parar a máquina. O senhor Krash julgou que estava tendo alguma falsa impressão e que as altas horas da noite estavam influenciando e despertando sua imaginação. Prosseguiu o percurso como se nada tivesse acontecido.

Minutos depois, a mesma sombra apareceu novamente, fazendo sinais ainda mais rápidos. Isso se repetiu por mais três vezes. Não podendo mais conter-se, viu que não poderia ser apenas imaginação e começou a diminuir a marcha até o trem parar. Todos os passageiros, assustados com a repentina parada, correram às janelas para ver o que tinha se passado. Para sua surpresa constatou que a “grande sombra” era produzida pelas frágeis asas de uma borboleta…

Depois de certificar-se que era só isso que estava acontecendo, o motorista subiu novamente no vagão para recomeçar o caminho. Enquanto acionava os botões de partida, um dos passageiros deu um forte grito:

— Alto! Não avance, se não morremos todos!

Esse passageiro pôde de sua janela avistar uma grande pedra que havia se despregado da montanha e obstruía a passagem pelos trilhos. Nesse momento, todos compreenderam que aquela repentina parada tinha sido uma intervenção da Divina Providência. Se o trem tivesse continuado com a velocidade anterior, teria batido fortemente contra a pedra, ocasionando um grave acidente, uma explosão e, consequentemente, a morte de todos os passageiros.

O senhor Krash, convicto da proteção de seu anjo da guarda, o qual sempre invocava antes de suas viagens, confirmou que o motivo que o fizera parar, tinha sido a sombra de uma borboleta posta ali para salvá-los.

Essa é uma bela história que, embora  ilustrada, pode explicar vários fatos do nosso dia-a-dia

Muitas vezes, quando algum pressentimento ou uma forte tentação perturbam o nosso interior, logo concluímos: “coisa do demônio!”. Entretanto, quando temos uma boa inspiração, praticamos uma bela ação ou sentimos uma forte inclinação a praticar a virtude, julgamos que isso decorre de nós mesmos e nos esquecemos dos grandes guardiães que Deus nos concedeu com a missão de nos guiar desde o momento da nossa concepção até a Vida Eterna. Na Epístola aos Hebreus, encontramos que todos os anjos são espíritos a serviço de Deus, o qual lhes confia missões em favor dos herdeiros da salvação eterna (cf. Hb 1,14).

Ao longo da História, podemos comprovar como a Divina Providência quer a salvação de cada um dos homens e como Ela age para comunicar e realizar seu plano para humanidade. Por isso, Deus utiliza-se de criaturas como instrumento e envia seus Anjos que, como mensageiros celestes, executam Sua vontade e se relacionam com os homens. Como diz São João da Cruz: “Os anjos, além de levar a Deus notícias de nós, trazem os auxílios divinos para nossas almas e as apascentam como bons pastores […] amparando-nos e defendendo-nos dos lobos, os demônios”.1

Os seres angélicos são puros espíritos dotados de personalidade, de inteligência e de vontade, de poder superior aos dos homens e que servem a Deus de um modo mais próximo e estável. O Catecismo nos ensina que “Jesus anuncia em termos graves que ‘enviará seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente’ (Mt 13, 4 1-42) de punição dos condenados, a qual é eterna e durará para sempre” (CCE 1034). Sendo essas criaturas mais perfeitas – o espiritual é maior do que o material – a Providência criou esses serem em maior quantidade que os homens e que toda e qualquer criatura material: “Milhares de milhares O serviam e centenas de milhares assistiam ante seu trono” (Dn 7,10).

Assim, os Anjos, mais especialmente o nosso Anjo da Guarda, estão sempre ao nosso lado e, como que, nos olham do Céu aguardando que busquemos o auxílio deles e os convoquemos para estarem entre nós. Saibamos, pois, recorrer a esses intercessores celestes nesta grande batalha do homem que é a face da Terra, até chegarmos um dia, pela misericórdia Divina e a intercessão de Maria Santíssima com sua Corte Angélica, à Vida Eterna.

1 SÃO JOÃO DA CRUZ. In: Revista Arautos do Evangelho, n. 58, p. 35.

Até o deserto floresce!…

Fahima Spielmann

Se a alma confiar em Deus e perseverar, as areias se transformarão em formosas flores. E quanto mais longa tiver sido a aridez, tanto maior será a fecundidade.

Infecundidade, fastio, desolação, abandono, aridez, perigo… Interrompamos aqui esta lista de enfadonhos substantivos para qualificar uma obra tão emblemática saída das mãos de Deus: o deserto.

Talvez o leitor esteja se perguntando como pode ser possível encontrar alguma simpatia ou atração em tanto calor e areia. Para desvendar esta incógnita, comecemos por recordar que a criação não é fruto do acaso e se deitarmos um olhar menos superficial sobre o mundo em torno de nós, veremos que todas as coisas remetem a uma realidade mais alta.

Escolhido pelo Criador como cenário de peregrinação do povo judeu por quarenta anos, o deserto bem pode simbolizar uma situação pela qual todos devem passar, por desígnio da Providência, tendo em vista o próprio crescimento espiritual: a provação ou a aridez. Em quaisquer desses estados, a alma tem a impressão de serem infrutíferos todos os seus esforços; o avançar na virtude, que antes parecia ter asas, aos poucos vai se tornando mais lento; o caminhar se transforma num arrastar-se que parece sem proveito ou efeito algum. No panorama, nenhuma nuvem condescende em fazer-lhe sombra para protegê-la do sol causticante. Todas as lutas e obstáculos a enfrentar, que antes a entusiasmavam, agora se lhe afiguram como algo pesado e até insuportável! E quando desponta nesse deserto espiritual alguma expectativa de alívio, como um verdejante oásis na imensidão inóspita, ela logo se esvai, deixando na alma a sensação de encontrar-se em meio a uma tempestade, não de areia, mas de confusão interior.

Por mais absurda que possa parecer a afirmação, este é um dos mais belos momentos da vida de alguém! Pois se a alma confiar em Deus e perseverar, as areias se transformarão em formosas flores. E quanto mais longa tiver sido a aridez, tanto maior será a fecundidade quando aprouver à Divina Providência irrigar a alma, pois “as grandes esperas são exatamente o prelúdio dos grandes dons de Deus”.1

Isto se verifica em desertos como o do Atacama, no Chile, o de Sonora, na América do Norte, ou o do Kalahari, no Sul da África. Estéreis durante quase todo o ano, as raríssimas chuvas com as quais são beneficiados fazem desabrochar neles numerosas flores de singular beleza, cujas sementes jaziam sob o solo durante meses ou anos. Imagem da alma que, em meio às agruras da vida, oferece a Deus suas dificuldades, prossegue seu combate confiando contra todas as aparências, persevera com firmeza verdadeiramente cristã e se renova ao receber algumas gotas de graça.

Entretanto, as graças cairão em torrentes se para tal concorrer um simples querer d’Aquela que a piedade católica chama de Maria fons. Ela, mais do que uma fonte encontrada por um sedento no deserto, é a Medianeira do manancial das graças, Cristo Jesus, e deseja nos conceder a água viva por Ele prometida à samaritana: “O que beber da água que Eu lhe der jamais terá sede. A água que Eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna” (Jo 4, 14).

Saibamos recorrer a Ela em nossos momentos de aridez, sem jamais perder a esperança de que no areal das debilidades de nossa alma sempre poderão vicejar novos frutos de virtude. Ao longo de nosso peregrinar terreno rumo ao Jardim celeste, nunca nos esqueçamos desta consoladora verdade: pela intercessão de Maria, não só a boa semente produz cem por um em nossa seara, mas até o deserto floresce!…

1CORRÊA DE OLIVEIRA. Plinio. Conferência. São Paulo, 23 mar. 1970.

Deus nunca abandona o seu povo

Fahima Spielmann

Diz uma intrigante máxima: “se as paredes falassem…”. Entretanto, testemunhas mais eloquentes que as paredes são as constelações do céu que há milênios assistem ao obrar de Deus na História. História esta, definida não somente pelo ‘sim’ de homens-chaves, que trazem consigo a consignação de rumos decisivos, como também pelo ‘não’ que fecha atrás de si desígnios providenciais.

Na Idade Média, o fruto de um ‘sim’ que marcou os céus da História foi o movimento reformador de Cluny que se ergueu do silêncio contemplativo dos claustros beneditinos.

Enquanto tudo na ordem civil pareceria desabar; invasões bárbaras de um lado, guerras tolas de outro, analogamente a barca de Pedro parecia submergir neste pavoroso drama. Vergonhosas tramas eram armadas para disputar a dignidade pontifícia, onde a simonia (compra ou venda de realidades espirituais) e o nicolaísmo ( relaxamento de costumes dos clérigos) tentavam afundar a Esposa Mística de Cristo.

Havia neste tempo muitos mosteiros, em sua maioria herança espiritual de São Bento, pai do monaquismo ocidental, espalhados pelo mundo cristão, onde os monges, antes atletas da santidade, imbuídos de disciplina, agora afundavam em matéria de costume, provocando inúmeros desentendimentos entre si; cada um com seu próprio e nefasto relaxamento.

Não podendo mais tardar a intervenção da Providência, surge Cluny como sopro do Espírito Santo. Bernon, zeloso abade beneditino, diante dessas catástrofes, sem cambalear entre o sossego da condescendência e as possíveis inimizades, lançou-se na luta para o restabelecimento da antiga severidade da Ordem de São Bento em seu mosteiro, despertando, assim, a disciplina adormecida nas almas daqueles infelizes relapsos.

Com a doação de um castelo que este santo e intrépido abade recebeu, iniciou-se aí, em 910, o mosteiro de Cluniacun, inicialmente com doze monges sob o cajado de São Bernon. Pouco a pouco o espírito de Cluny tomaria conta da Europa. Após a direção de São Bernon sucederam outros santos superiores, como Santo Odon (927-942), Santo Aymard (942-948) São Maïeul (948-994) e depois Santo Odilon (994-1049). Já nesta época, trinta e sete mosteiros em toda a Europa já tinham aderido à reforma cluniacense.

Em seguida, com São Hugo, segundo seu carisma, foi concluída a construção de uma magnífica abadia. Aquelas paredes cantavam luxo e austeridade.

Não só a reforma monacal e a do Papado foram obras de Cluny, mas também o impulso dado às artes, à literatura e à cultura em geral para toda a civilização medieval. O papa emérito Bento XVI assim descreveu: “Os monges cluniacenses se dedicaram com amor e grande cuidado à celebração das Horas litúrgicas, ao canto dos Salmos, a procissões tão devotas quanto solenes e, sobretudo, à celebração da Santa Missa. Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais, como, por exemplo, no começo de novembro, a comemoração dos fiéis defuntos,[…] incrementaram o culto a Nossa Senhora”.1

A vida de Cluny era a perfeita observância da regra beneditina com todas as suas exigências. O ora et labora de São Bento foi como nunca vivido em busca do cumprimento do preceito divino: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).Considerando que tudo o que se poderia dar a Deus era “fraco” e insuficiente, conciliou-se, de forma magnífica, a pompa e a austeridade, resultando disto a sacralização da ordem temporal; não só nas construções, mas, sobretudo, no modo de ser dos monges. “A obra de Cluny visou sacralizar o mundo temporal, elevando-o a uma dignidade muito semelhante à da Igreja”.2

Depois de tal fulgor, será que novamente Deus repousará em sono profundo e deixará o mundo afundar, helás, em um pior sufrágio que o anterior?

Não! Uma vez que a Igreja de Deus sempre está em contínuo progresso, Cluny serviu apenas de gérmen para o que se desdobrará no futuro. Lembremo-nos das esperançosas palavras de Nossa Senhora em Fátima: « Por fim, meu Imaculado Coração triunfará ››.

O que é o Coração de Maria? Plinio Correa de Oliveira explica: “É um órgão do seu corpo imaculado, mas que simboliza a mentalidade de Nossa Senhora. E quando Ela afirma que seu Coração triunfará, quer dizer que sua mentalidade triunfará. O triunfo da mentalidade da Mãe de Deus significa que virá uma época, na qual, muito mais do que na nossa, os santos vão dirigir a humanidade. Nossa Senhora governá-la-á através de seus santos; porque eles vão influenciar os Reis, os Papas, os grandes e pequenos desta Terra, e levar a todos para Deus. Será o Reino de Maria”.3

Esperemos confiantes tão desejada época, rezando, servindo e lutando pela causa da Santíssima Virgem em todos os momentos de nossa vida.

1 BENTO XVI. Catequese 11 de novembro de 2009
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestras. São Paulo, 12.fev.76. In: Aula de Teologia Espiritual.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. São Raimundo de Peñafort, símbolo de uma época. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.166, jan. 2012. p.15.

Confiar e abandonar-se nas mãos Deus

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Fahima Akram Salah Spielmann

A existência de Deus é a primeira entre todas as verdades nas quais os fiéis devem acreditar: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”, rezamos no início do Credo. Essa verdade de Fé pode ser comprovada todas as vezes que contemplamos a ordem e as leis que regem a natureza e o universo. Ninguém é tão insensato para imaginar que toda essa harmonia é fruto do mero acaso.

Conforme nos ensina o Catecismo “Deus criou o universo livremente, com sabedoria e amor. O mundo não é o produto duma necessidade, dum destino cego ou do acaso” (Catecismo, 54). Assim, “tudo o que Deus criou Ele o governa e cuida pela sua Providência”, afirma o Concílio Vaticano I. Mas, em que consiste a Providência Divina?

A criação não saiu totalmente acabada das mãos de Deus. Foi criada in statu viae, ou seja, em estado de caminhada para uma perfeição maior a ser atingida. A disposição pela qual Deus conduz a sua criação em ordem a essa perfeição chama-se Providência Divina (cf. Catecismo, 302).

Embora a Providência dirija todas as criaturas para o fim que lhe convém pelos meios adotados a esse fim, Ela se ocupa mais especialmente da criatura humana, a quem redimiu pelo Preciosissímo Sangue de seu Filho. “Entregai todas as vossas solicitudes ao Senhor, pois ele cuida de vós” (1P 5,7).

Nosso Senhor Jesus Cristo pede-nos um abandono filial à Providência do Pai Celeste, que cuida das menores necessidades dos seus filhos: “Não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? Que havemos de beber? […] Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 31-33).

E por mais que o homem se levante contra essas mãos que o tiraram do nada, a Providência Divina nunca o abandona, como vemos de modo paradigmático no Livro da Sabedoria (Sb 14,1-6), a exemplo de um homem que quer navegar movido pela cobiça e se lança ao mar em um navio feito de madeira de péssima qualidade, e só não perece porque a Providência abre caminho no mar e conduz o timão. Assim Ela faz conosco, dirigindo-nos com fortaleza e suavidade, porque respeita a natureza e as inclinações de cada um dos seres, sem os violentar, operando no fundo da sua substância como se agissem sozinhos.

Contudo, muitas vezes o Divino Governo se manifesta por caminhos inescrutáveis, sobretudo em certas sendas, que talvez por seu esplendor, são obscuras aos nossos olhos. Deus pode na sua onipotente Providência tirar um bem das consequências dum mal (mesmo moral), causado pelas criaturas. É a história de José que foi vendido como escravo pelos irmãos: “Não, não fostes vós — disse José a seus irmãos — que me fizestes vir para aqui. Foi Deus. […] Premeditastes contra mim o mal: o desígnio de Deus aproveitou-o para o bem […] e um povo numeroso foi salvo” (Gn, 45, 8; 50, 20).

Apesar de crermos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história, muitas vezes, porém, os caminhos da sua Providência são-nos desconhecidos. Só no fim, quando acabar o nosso conhecimento parcial e virmos Deus “face a face” (1 Cor 13, 12), é que nos serão plenamente conhecidos os caminhos pelos quais, mesmo através do mal e do pecado, Deus terá conduzido a criação ao seu fim último. Portanto, cabe ao homem diante das circunstâncias adversas confiar e abandonar-se nas mãos Deus, exercitando algumas virtudes: a penitência, a humildade, adquirida depois da queda; o reconhecimento que se faz mais intenso e mais vivo porque o perdão foi imenso, etc. Lê-se no Livro dos Salmos: “Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá? Aquele que dá lições aos povos não há de punir, ele que ensina ao homem o saber… O Senhor conhece os pensamentos dos homens” (Sl 93, 9-11).

Sendo Deus o Senhor soberano dos seus planos serve-Se, para a realização dos mesmos, do concurso das criaturas. Isto não é um sinal de fraqueza, mas da grandeza e bondade de Deus onipotente. É que Ele não só permite às suas criaturas que existam, mas confere-lhes a dignidade de agirem por si mesmas, de serem causa e princípio umas das outras e de cooperarem, assim, na realização do seu desígnio.

Podemos citar o grande Apóstolo dos Gentios, São Paulo: de perseguidor dos cristãos a pregador de Cristo. De tal maneira, ele se deixou levar pela Providência Divina para realizar os desígnios de Deus que dizia: “Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12,10), ou seja, ele possuía a clara noção de que o governo divino ordena tudo para um bem superior. “O sumo abandono nas mãos de Deus é sentir-se miserável, sentir-se quebrado, sentir-se arrasado e nessa hora dizer: ‘ Ah! Afinal, agora eu posso dizer que sou mais forte do que nunca!” 1
Saibamos compreender que as criaturas nada podem sem o seu Criador e muito menos atingir o seu fim último, sem a ajuda da Divina Providência.

1 CLÁ DIAS, João. Homilia da XI Semana do Tempo Comum. São Paulo: Mairiporã, 23 Jun. 2007. (Arquivo IFTE).

Pobre por amar os pobres, mas rico em santidade

Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

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São José Benedito Cottolengo

“Tereis sempre pobres entre vós” (Mt 26, 11). São José Cottolengo abraçou avidamente essa preciosa herança deixada por Jesus à sua Igreja e a eles dedicou toda a sua existência.

A santidade não provém de um puro esforço feito pelo homem, mas sim de uma singular graça concedida por Deus. Ora, Jesus, Homem-Deus, sendo o Criador e, ao mesmo tempo, o escrínio de todas as graças, pode e quer dispensá-las a todos que delas necessitem e as desejem. O heroísmo na prática das virtudes, como se pode definir a santidade, é, pois, uma graça participativa dessa maravilhosa plenitude que habita em Nosso Senhor e é liberalmente outorgada por Ele. Um desses privilegiados foi José Benedito Cottolengo, suscitado por Deus na conjuntura dos séculos XVIII e XIX.

Atraído pela compaixão de Jesus para com os pequeninos

Sem deixar de ver a Deus na sua totalidade, cada santo põe um acento todo especial na contemplação de algum aspecto pelo qual é particularmente cativado e convidado a ser reflexo. Em concreto, José Cottolengo sentiu-se atraído pela bondade e compaixão de Jesus em relação aos pequeninos, aos pobres e doentes. Compreendeu em profundidade as riquezas de amor do Coração de um Deus por aqueles a quem denominou como os “menores de meus irmãos” (Mt 25, 40).

No alto da Cruz, o Salvador obteve por seu Sangue a filiação divina e a filiação de Maria para toda a humanidade. Por esta dupla dádiva, tornou-Se Ele mesmo nosso verdadeiro irmão. Quanta união, quanto embricamento de afeto há entre os filhos nascidos de uma mesma família! E, entretanto, esses laços de sangue são apenas pálidas imagens do insuperável amor fraterno que Jesus nutre por todos nós! São José Benedito Cottolengo penetrou nesse mistério e procurou manifestá-lo em sua vida, dedicando-se com total desinteresse àqueles que se acham na orfandade natural e espiritual, aliviando-lhes não só as dores corporais mas também as enfermidades de alma.

Primeiros passos na vocação

José Benedito Cottolengo nasceu em Bra, no Piemonte, em maio de 1786. Desde a infância deu provas de sua vocação, sendo encontrado um dia medindo um dos quartos de sua casa com o objetivo de saber quantas camas caberiam ali para receber doentes.

Terminados os estudos, dos quais saiu-se brilhantemente graças à intercessão de São Tomás de Aquino, foi ordenado sacerdote e mais tarde, em 1818, eleito cônego do cabido de Corpus Domini em Turim.

Em 1827 deu início à sua obra, fundando a “Pequena Casa da Divina Providência”, onde acolheu inúmeros enfermos e abandonados. Para o cuidado destes, criou primeiro um instituto de religiosas chamado “Filhas de São Vicente” e, alguns anos depois, outro, denominado “Irmãos de São Vicente de Paulo”.

Confiança cega na Providência

As dificuldades para a realização de seus desígnios não foram pequenas. Muitos outros dotados de uma fé robusta, mas não cega como a sua, teriam desanimado na metade do caminho. Continuamente achava-se sem recursos e acossado por credores incompreensivos exigindo o pagamento das dívidas. Por outro lado, via crescer todo dia o número de seus protegidos que acorriam à “Pequena Casa”, atraídos, não só pelas necessidades de saúde, mas, sobretudo, pela fama de sua bondade sem limites.

Quem conhecesse a atividade incessante dessa obra, acreditaria ser seu fundador um homem inquieto e preocupado, metido nos assuntos materiais, desejoso de tudo vigiar e governar. Nenhum juízo poderia ser tão falso a seu respeito: São José Benedito era um varão essencialmente contemplativo e desapegado das coisas terrenas. A característica preponderante de sua santidade e de sua missão era a inteira confiança na Divina Providência. Poder-se-ia dizer que toda a sua espiritualidade sintetizava-se nesta frase do Evangelho: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33).

Com freqüência costumava dizer aos seus: “Estai certos de que a Divina Providência nunca falta; poderão faltar as famílias, os homens, mas a Providência não nos faltará. Isso é de fé. Portanto, se em alguma ocasião faltar algo, isso só poderá ser atribuído à nossa falta de confiança. É necessário confiar sempre em Deus; e, se Deus responde com sua Divina Providência à confiança ordinária, proverá extraordinariamente a quem extraordinariamente confiar”.

“Por que vos inquietais por tão pouco?”

Uma fé assim levada a grau tão heróico só poderia obter resultados miraculosos, e estes foram abundantes ao longo da existência de nosso santo. Em certa ocasião, a religiosa encarregada da cozinha veio anunciar-lhe:
— Nada resta de farinha na casa… Amanhã não haverá pão para alimentar os indigentes!

— Por que vos inquietais por tão pouco? Bem vedes como a chuva cai às torrentes e é impossível mandar alguém sair neste momento — respondeu ele.

A boa irmã, que não atingira na perfeição aquele santo abandono de seu Fundador, retirou-se muito descontente com a resposta. Alguns instantes depois, Cottolengo entrou no refeitório e — imaginando-se só, sem desconfiar que outra irmã o espiava pelo buraco da fechadura — ajoelhou-se diante da imagem da Santíssima Virgem e orou fervorosamente com os braços em cruz.

Passaram-se apenas alguns minutos e um homem, conduzindo uma carroça, apresentou-se à porta do estabelecimento. Sem querer informar de onde vinha nem por quem fora enviado, declarou ter o encargo de depositar na “Pequena Casa” toda a farinha que trazia em seu veículo. As freiras logo acorreram, alvoroçadas, para contar tudo ao santo cônego. Este acolheu a notícia sem manifestar a menor surpresa e tranqüilamente lhes deu ordem de fazer o pão.

O dinheiro apareceu no bolso

Em outra ocasião, São José Benedito viu-se diante de uma situação ainda mais apertada. Um de seus credores chegou a ameaçá-lo de morte caso não lhe pagasse a dívida naquele mesmo instante. Ele desculpou-se, pediu-lhe para ter um pouco mais de paciência, prometendo fazê-lo tão logo fosse possível. Mas o homem mostrou-se inflexível e, sem mais, tirou de dentro de sua vestimenta uma arma com a qual se dispunha a acabar com a vida do santo. Num gesto maquinal, este levou a mão ao bolso e, para sua grande surpresa, encontrou um rolo contendo exatamente a soma reclamada. Entregou-a logo ao credor e este partiu dali confuso por sua atitude violenta, e impressionado diante do milagre e do exemplo de serena confiança que acabava de presenciar.

Abandono à vontade de Deus

Seu desejo de fazer o bem a todos quantos dele se aproximavam não conhecia restrições nem obstáculos: chegava ao extremo de prodigalizar os cuidados mais humildes aos doentes e de entrar nos jogos dos débeis mentais, com o intuito de distraí-los. Não considerava isto uma humilhação, pois analisava tudo com vistas sobrenaturais, sabendo que o importante não está em fazer grandes obras ou realizar prodígios estupendos, mas sim em ser aos olhos de Deus aquilo que Ele quer de nós. Dessa elevada concepção da vida, que impregnava todos os seus atos, decorria o alegre desprendimento com o qual se abandonava à vontade de Deus, repetindo sempre: “Por que ficais angustiados pelo dia de amanhã? A Providência não pensará nisso, pois já pensastes vós. Não arruineis, portanto a sua obra e deixai-a agir. Embora nos seja permitido pedir um bem temporal determinado, entretanto, quanto ao que a mim se refere, temeria cometer uma falta se pedisse algo nesse sentido”.

Em 1842 faleceu José Benedito Cottolengo. Durante sua permanência neste mundo, os anseios de seu coração e a vida de sua alma estiveram voltados unicamente para a glória de Deus. Por isso deixou atrás de si uma obra monumental de Caridade para com próximo, que hoje está presente em quatro continentes, como prova irrefutável da veracidade da promessa de Jesus Cristo. Ele só procurara o Reino de Deus e sua justiça, Nosso Senhor lhe concedera tudo por acréscimo.

Um lugar de honra lhe está reservado entre os cordeiros da direita naquele dia supremo, quando o justo Juiz dirá: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois Eu estava com fome e Me destes de comer; estava com sede e Me destes de beber; era estrangeiro e Me recebestes em casa; estava nu e Me vestistes; estava doente e cuidastes de Mim; estava n prisão e fostes Me visitar (,..)

Em verdade Eu vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a Mim que o fizestes!” (Mt 25,34-36 e 40)

Cluny: a força suave e irresistível da santidade

Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

Numa época de crises que dominavam a sociedade temporal e ameaçavam derrubar o edifício sagrado da sociedade espiritual, ergueu-se do silêncio contemplativo dos claustros beneditinos um sopro renovador que conquistou a Europa inteira: o movimento reformador de Cluny.
Cluny_-_Monasterio
Século de guerras e rivalidades pessoais

O alvorecer do século X despontava nebuloso e indefinível. As luzes do império carolíngio haviam-se enfraquecido, cedendo lugar a um contínuo vaivém de dissensões e guerras que minavam a estrutura e a ordenação social iniciadas sob o impulso de Carlos Magno. Senhores, barões e príncipes digladiavam-se constantemente entre si, em defesa de seus interesses pessoais ou movidos por alguma obscura rivalidade.

E havia pior: a crise espalhara-se para além das fronteiras temporais, penetrando também no âmbito religioso. Dois males atingiam de modo especial a Igreja nesse século: o tráfico de cargos e dignidades eclesiásticas, conhecido pelo nome de simonia; e o nicolaísmo, palavra pela qual se designava o relaxamento de costumes dos clérigos.

Dentro dos próprios mosteiros a situação revelava-se difícil: estes, em geral, localizavam-se em territórios pertencentes a nobres que os consideravam patrimônio seu, intervindo nos assuntos da comunidade e reservando-se o direito de nomear o abade. Ora, freqüentemente a escolha por eles feita elevava a um cargo de importância homens desprovidos de aptidão e virtude para desempenhá-lo. Pode-se deduzir a decadência da disciplina regular, bem como as catástrofes daí decorrentes. Tais abusos acarretariam mais tarde conseqüências desastrosas, desembocando na célebre Querela das Investiduras.

Um sopro de renovação que cobriu a Europa

A Divina Providência, entretanto, não tardaria em suscitar a solução para esses e outros problemas da época, fazendo surgir de dentro do próprio monaquismo decadente um sopro de renovação que cobriria a Europa inteira.

Em 910, Guilherme o Piedoso, Duque da Aquitânia, atendendo ao pedido de Bernon, abade de Baume, doou uma terra situada em seu feudo de Mâcon, para a fundação de um novo mosteiro. A propriedade, uma pequena aldeia rodeada de bosques, levava um nome destinado a marcar os céus da História: Cluny ou Cluniacum. A abadia estaria isenta de qualquer jurisdição civil e eclesiástica, diretamente ligada à Cátedra de Pedro, tendo como protetores os Apóstolos Pedro e Paulo.

Desde seus primórdios, São Bernon nela implantou uma fervorosa observância beneditina, inculcando em seus seguidores os ideais da vida monástica: oração, pobreza, silêncio. Seu intuito era estabelecer ali um centro de contemplação, separado dos tumultos mundanos, no qual se cumprisse com rigorosa fidelidade a primitiva regra de São Bento e, ao mesmo tempo, fosse capaz de influir sobre a sociedade de maneira a renová-la.

Em pouco tempo Cluny transformou-se num mosteiro modelo para onde afluíam homens de escol que aspiravam à santidade. Os “monges negros” — assim chamados pela cor de seu hábito — adquiriram um prestígio considerável, a ponto de lhes ser confiada a fundação ou reforma de inúmeros mosteiros os quais passavam a ser afiliados à abadia de Cluny.

Na origem do sucesso, a santidade

Entretanto, o grande segredo de seu sucesso e da rápida ascensão com que se projetou pela Cristandade não repousava sobre o privilégio de sua dependência direta da Igreja de Roma, pois já muitos outros monastérios gozavam dessa prerrogativa sem haver obtido os mesmos resultados; também não podia atribuir-se unicamente à exatidão dos monges no cumprimento da estrita regra que viria a ser o ordo cluniacensis. A causa profunda da preeminência de Cluny foi a de ter à sua frente, durante dois séculos, homens excepcionais por sua têmpera, cultura e capacidade organizativa, e, sobretudo, todos animados por um mesmo espírito de perfeição, verdadeiros santos: São Bernon, Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e Santo Hugo. Cada um a seu modo, segundo seus dons pessoais, trabalhou para levar essa grandiosa obra ao píncaro do esplendor.

Foi Santo Odon quem instalou definitivamente a reforma e plasmou as características essenciais do que poderia chamar-se o “carisma cluniacense”. Seu zelo pela glória de Deus movia-o a peregrinar de mosteiro em mosteiro, montado em um jumento, à procura de monges fervorosos que o ajudassem a pôr em marcha seu plano reformador. A fama de santidade deste grande asceta abria os caminhos e derrubava os obstáculos, facilitando o crescimento da nova rede monástica.

São Maïeul seguiu fielmente a linha de seus predecessores, acrescentando, porém, uma nota especial de suavidade e encanto que lhe conquistou a simpatia e admiração dos papas e dos monarcas. Seus contemporâneos descrevem a doçura de seu olhar, a elegância de seus gestos e a eloqüência de seus discursos, de tal modo que parecia ser “o mais belo de todos os mortais”. Pode-se medir o alcance da influência que exercia sobre os religiosos uma personalidade como a sua, continuamente apontando para as pulcritudes divinas.

Seu sucessor, Santo Odilon, diferia em temperamento, mas não em vocação. Seus olhos chamejantes revelavam um caráter vivo e enérgico. Severo para consigo e bondoso para com seus filhos, mereceu o título de “Arcanjo dos monges”. Seu ardor apostólico e os portentosos milagres por ele realizados contribuíram largamente para a expansão da obra cluniacense pelo resto da Europa.

Mas foi no tempo de Santo Hugo que Cluny alcançou seu apogeu, ao iniciar a construção da imensa basílica de cinco naves e sete torres, a maior de todo o Ocidente naqueles remotos séculos, e cujo altar-mor foi consagrado pelo Papa Urbano II, também ele cluniacense, por ocasião de sua viagem à França em 1095. Hugo de Semur distinguiu-se sobretudo pela virtude da caridade. Conta-se que certa vez dois cavaleiros vieram bater à porta do mosteiro, fazendo apelo ao direito de asilo, que punha ao abrigo da justiça humana qualquer criminoso refugiado em um recinto sagrado. O porteiro reconheceu com horror os assassinos do pai e do irmão do santo abade e correu para referir-lhe a situação. “Deixe-os entrar”, foi a resposta pronunciada com mansidão. E assim os criminosos foram salvos.

Os santos cluniacenses estão na origem de várias festas e memórias que hoje figuram no Calendário Romano. Santo Odilon instituiu em 2 de novembro a comemoração dos fiéis defuntos e promoveu amplamente as preces feitas em sufrágio das almas do Purgatório.

A devoção à Santíssima Virgem recebeu um grande impulso pelo apostolado de Cluny. Santo Hugo determinou que quando não ocorresse uma festa inamovível no sábado, em todos os mosteiros dependentes de Cluny se cantasse nesse dia o Ofício e a Missa de Beata, especialmente compostos em louvor da Mãe de Deus. E Urbano II mandou acrescentar ao Ofício Divino, neste dia da semana, o Pequeno Ofício de Nossa Senhora.

Embaixadores do Céu
0189 Cluny - Clocher de l'Eau Bénite - Tour de l'Horloge
Em Cluny a vida transcorre suave e calma. A Regra é vivida em toda a sua austeridade e simplicidade. O dia divide-se minuciosamente entre oração e trabalho manual, mas este tende a restringir-se cada vez mais, enquanto aumentam as horas dedicadas ao Ofício Divino. A espiritualidade cluniacense considera toda a magnificência, luxo ou beleza como coisas insuficientes para honrar a Deus: sua atividade organiza-se em função de uma perpétua cerimônia na qual os ornamentos do altar e do santuário, a harmonia musical e a disciplina dos ritos prefigurem as glórias da pátria celeste.

Sem esquecer as agruras e sacrifícios deste vale de lágrimas, o cluniacense procura tornar realidade a súplica tantas vezes repetida no Pai-Nosso: “Venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu”. Dessa enlevada visão do universo florescem naturalmente, como de uma fonte de água viva, as artes da pintura e da escultura, requinta-se a maravilha policromada dos vitrais e dá-se mais importância à Liturgia e ao canto gregoriano. Já desde a madrugada, os primeiros raios da aurora filtram- se através das rosáceas, inundando a igreja numa féerie de cores enquanto as vozes dos monges, unidas aos coros dos anjos, ecoam pelas altas abóbadas em louvor ao Pai das misericórdias e Deus de toda consolação.

Da mesma forma como o ambiente onde ele habita assemelha-se ao Paraíso, o monge deve buscar sempre a perfeição, procurando refletir, por meio da prudência de suas palavras e da nobreza de suas atitudes, o próprio Deus que é a Beleza Absoluta. Considerado enquanto indivíduo, o monge é nada e nada possui, mas, na sua coletividade face ao mundo exterior, tem a consciência de ser um embaixador do Céu. Voluntariamente submetido a uma obediência rígida, ele reconhece na voz de seus superiores os desígnios do Senhor e executa-os com humildade, sabendo-se servo inútil. A regra da castidade é observada com rigor, levando em conta que é na prática dessa virtude angélica que o religioso haure a seiva de sua vida espiritual. No silêncio, na contemplação e no cerimonial o monge passa os momentos mais felizes de sua existência, à espera das alegrias que gozará na eternidade.

Assim, sob o olhar sábio e vigilante dos mestres, vai-se formando uma nova milícia cristã, constituída de heróis, mais anjos que homens, cuja estrutura hierarquizada culmina na pessoa venerável do abade.

Pelo exemplo de suas vidas, eles conquistaram a Europa

A obra realizada por Cluny representa na História um papel de capital importância. Sua ascensão fulgurante e sua benéfica influência permitiram-lhe levar por toda parte o fermento evangélico que mais tarde produziu abundantes frutos de santidade. O solo do Velho Continente, calcado outrora pela marcha dos exércitos romanos, sentiu-se então sacudido por uma força irresistível que suscitou na sociedade um fenômeno contagiante, renovando todos os degraus da escala humana. Ela não impôs aos homens o pesado tributo dos césares, mas levou-lhes um convite: “Aceitem o suave jugo de Cristo”. Sem recorrer à violência das armas, os cluniacenses conquistaram o Ocidente pelo exemplo de suas vidas: penetraram nas cortes dos reis, nos palácios dos bispos, nos castelos dos nobres, nas aldeias da plebe… e mais: sobre o sólio de Pedro sentaram-se filhos dessa família espiritual, como o foram São Gregório VII e o Bem-Aventurado Urbano II.

Na raiz das solenes liturgias, das grandiosas catedrais, das harmonias do órgão, do aroma do incenso e de tudo quanto de belo nos legou o passado cristão, vemos em larga medida o trabalho feito por esses homens que só buscavam a Deus e que souberam encontrá-Lo.