Amor: Fruto da Caridade

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

Todo ser busca, com afinco, o bem e deste encontro decorre a alegria. Mas, qual bem pode nos trazer alegria a ponto de saciar todo desejo e não dar margem a nenhum tipo de decepção? São Tomás esclarece que, muito além de ser uma simples paixão, a alegria é o fruto mais arrebatador do amor a Deus, pois “o amor é o primeiro movimento da potência apetitiva do qual resulta o desejo e a alegria.1

Segundo Pe. Royo Marín, O.P.2, para que um objeto seja a causa de alegria e felicidade perfeita para o homem, ele deve resumir em si quatro condições essenciais: ser o bem supremo que não compita com outro maior; excluir toda e qualquer mescla de mal; saciar por completo todas as aspirações do coração humano; e, por último, ser estável, ou seja, que uma vez obtido não possa ser perdido. Segundo este moralista, tais requisitos não são cumpridos por nenhum dos seres criados, sejam eles dinheiro, fama, glória, beleza, etc.; essa tese é confirmada taxativamente pela Santa Mãe Igreja (CCE 1723): “a verdadeira alegria não está nas riquezas ou no bem-estar, nem na glória humana ou no poder, nem em qualquer obra humana por mais útil que seja, como as ciências, a técnica e as artes, nem em outra criatura qualquer, mas apenas em Deus, fonte de todo o bem e de todo amor“.

O Pe. Royo Marín dá as razões: as riquezas, por exemplo, além de fomentarem progressivamente o desejo de mais fortunas, não excluem certos infortúnios como enfermidades e mortes, e podem ser perdidas por qualquer eventualidade. Similarmente, as honras, a fama e o poder são instáveis, pois cessam após a morte. Quem, por exemplo, se lembra hoje das personalidades que encheram os jornais de há um século? Ademais, saúde, beleza, força, enfim, dentre todos os bens corpóreos, nenhum deles são bens supremos, pois o corpo é a parte inferior do homem, além do que também findam com a morte. Neste sentido, Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias dá um interessante depoimento:

Eu conheci pessoas riquíssimas em minha vida. Viajando de lá para acolá, conheci reis de petróleo, conheci magnatas de grandes fortunas: deprimidos, cheios de tiques nervosos, […] porque a qualquer momento podia ser que acontecesse isto, acontecesse aquilo, que perdesse isso, perdesse aquilo. Eles não se davam conta que iriam perder tudo na hora da morte, porque […] passariam para a eternidade sem levar nada.3

Tampouco a ciência preenche as condições necessárias para ser a razão da alegria humana, pois esta pode ser perdida pelas doenças mentais, além de não saciar o homem, a ponto de o próprio Sócrates afirmar: “Só sei que nada sei”.

Por fim, o Pe. Royo Marín ousa dizer que nem sequer na virtude – no sentido estrito da palavra – pode consistir o gozo perfeito, posto que não pode ser completa nesta Terra, nem é estável já que pode-se perdê-la pelo ímpeto das paixões.

Definitivamente: o único que pode nos fazer felizes é Deus. É como aconselha Tomás Kempis em sua obra “Imitação de Cristo”: “Tende por vã toda consolação que venha da criatura. A alma que ama a Deus despreza tudo abaixo de Deus. Só Deus, eterno e imenso, preenche tudo, Consolação da alma e verdadeira Alegria do coração4”.

E realça L. Desiato que “não adianta procurá-la [a felicidade] dando uma volta pelo mundo, ela está dentro de nós, no sorriso de uma Presença”5 ; e é, também, o que reconhece o Bispo de Hipona: “quando busco a Vós, Deus, busco a vida bem-aventurada6” .

Quando nós colocamos um amor meramente humano, quando nós colocamos a esperança meramente humana, quando nos aferramos a qualquer coisa puramente natural, aí vem a decepção. Por quê? Porque quando nós entregamos o nosso coração, nós estamos à procura de um infinito, de um Ser absoluto, de Deus. E muitas vezes nós, por equívoco, acabamos colocando nossa esperança em algo que não é Deus, e isso não nos traz o saciar deste anseio que eu levo dentro da minha alma, que é o anseio de Deus. O único ser que apaga este fogo, este anseio de felicidade que é de felicidade infinita – eu quero esta felicidade infinita porque eu fui criado para ela –, o único ser [que a sacia] é Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo, é a Religião, é ter a graça de Deus.7

Para vermos como a alegria verdadeira só se encontra no âmbito sobrenatural, tomemos a figura de Napoleão Bonaparte.

[Ele foi] um homem que fez uma carreira brilhante, galgou imediatamente, em pouco tempo, o posto de imperador da Europa. Era cultuado por todos, aplaudido por todos… […] ele teve uma vida de triunfos magníficos. Pois bem, Napoleão Bonaparte quando perguntaram a ele qual foi o dia mais alegre, mais feliz da vida dele, ele disse que foi o dia da Primeira Comunhão.8

O que permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele(I Jo 4, 16)

Contudo, a alegria é produzida pela obtenção de um bem presente, pois, de outro modo, seria apenas um desejo; e o Catecismo da Igreja Católica (CCE1718) afirma que este, por assim dizer “instinto natural”, Deus o pôs na alma humana a fim de atrair-nos a Ele. Mas, sendo Deus infinito, como poderia o homem obter a Deus? Esta resposta, a dá, de forma magistral, o Doutor Angélico:

[A caridade] produz no homem a perfeita alegria. Com efeito, ninguém tem verdadeiro gáudio se não vive na caridade. Porque qualquer um que deseje algo, não goza nem se alegra nem descansa enquanto não o obtém. E nas coisas temporais ocorre que se apetece o que não se tem, e o que se possui se despreza e produz tédio; mas não é assim nas coisas espirituais. Pelo contrário, quem ama a Deus o possui, e por isso o ânimo de quem O ama e O deseja n’Ele descansa.9

Portanto, só a caridade nos dá a possibilidade de possuir a Deus, pois como afirma São João: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (I Jo 4, 16). A caridade dilata o nosso coração para que, já nesta Terra, possamos abarcar um pouco mais do que nossa capacidade humana conseguiria, a infinitude do Criador.

Acrescenta ainda Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias:

O modo de participarmos de Nosso Senhor Jesus Cristo e permanecermos n’Ele e na alegria d’Ele, é […] estar participando daquilo que Ele é. O que Ele é? Ele é a Alegria. Ouçam como soa mal: “Deus é a depressão. Deus é o desânimo. Deus é a tristeza”. Alguém dirá: “Você é um louco. Fora daí!” Porque se há algo que eu não posso dizer é isso. Mas eu posso dizer: “Deus é a Alegria!” E Ele, portanto, quer transferir a nós essa alegria. Como recebemos essa alegria? É permanecendo no amor d’Ele, é permanecendo n’Ele, é obedecendo as leis morais que Ele pôs.10

Ora, Deus é amor e é alegria; logo, para se ter alegria é preciso ter amor a Ele.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. II-II, q. 28, a. 4.
2 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para seglares. Madrid: BAC, 1961, v. I, p. 26.
3 CLÁ DIAS, Joã o Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
4 KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. L. II, c. 5: “Totum vanum existima, quidquid consolationis occurrit de aliqua creatura. Amans Deum anima, sub Deo despicit universa. Solus Deus æternus et immensus, implens omnia, solatium animæ et vera cordis lætitia” (Tradução da autora).
5 DESIATO, L. Storia dell’eremo. Turim: [s. n.], 1990, p. 72: “Non serve cercala in giro per il mondo, essa è dentro di noi, nel sorriso di una Presenza” (Tradução da autora). Esta afirmação é fundamentada por Leão XIII: Deus se encontra presente em todas as coisas e está nelas: por potência, enquanto estão sujeitas ao seu poder; por presença, enquanto todas estão descobertas e patentes aos seus olhos; por essência, porque se encontra em todas como causa de seu ser (S. Th. I, q. 8, a. 3). Mas na criatura racional, Deus se encontra de outra maneira; ou seja, enquanto é conhecido e amado, uma vez que é próprio da natureza amar o bem, desejá-lo e buscá-lo. Finalmente, Deus, por meio da sua graça, está na alma do justo de uma forma mais íntima e inefável, como em seu templo; e disso se segue aquele amor mútuo pelo qual a alma está intimamente presente em Deus, e está nele mais do que pode suceder entre os amigos mais queridos, goza dele com a mais regalada doçura. LEÃO XIII, Encícica Divinum illud manus, n. 10: “Dios se halla presente a todas las cosas y que está en ellas: por potencia, en cuanto se hallan sujetas a su potestad; por presencia, en cuanto todas están abiertas y patentes a sus ojos; por esencia, porque en todas se halla como causa de su ser (S. Th. I, q.8, a.3.). Mas en la criatura racional se encuentra Dios ya de otra manera; esto es, en cuanto es conocido y amado, ya que según naturaleza es amar el bien, desearlo y buscarlo. Finalmente, Dios, por medio de su gracia, está en el alma del justo en forma más íntima e inefable, como en su templo; y de ello se sigue aquel mutuo amor por el que el alma está íntimamente presente a Dios, y está en él más de lo que pueda suceder entre los amigos más queridos, y goza de él con la más regalada dulzura” (Tradução da autora).
6 SANTO AGOSTINHO. Confessionum L.X, c. 20, n. 26: ML 32, 791: “Cum enim te Deum quæro, vitam beatam quæro” (Tradução da autora).
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 14 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
Id. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
8 ANDRIA, Pedro de. Los mandamientos comentados por Santo Tomas de Aquino. 2. ed. Mexico: Tradición, 1981, p. 12: “[La caridad] produce en el hombre la perfecta alegría. En efecto, nadie posee en verdad el gozo si no vive en la caridad. Porque cualquiera que desea algo, no goza ni se alegra ni descansa mientras no lo obtenga. Y en las cosas temporales ocurre que se apetece lo que no se tiene, y lo que se posee se desprecia y produce tedio; pero no es así en las cosas espirituales. Por el contrario, quien ama a Dios lo posee, y por lo mismo el ánimo de quien lo ama y lo desea en El descansa” (Tradução da autora).
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da quinta-feira da IV semana do Tempo Pascal. Caieiras, 6 maio 2010. (Arquivo IFTE).

Santificador e guia da Igreja Católica

Elen Coelho

Inquietava-se a Santa Carmelita de Lisieux ao sentir que sua alma aspirava a outras vocações que transpunham os claustros de seu Carmelo. Almejava por todas as vocações: queria morrer em um campo de batalha em defesa da fé como um guerreiro ou um Zuavo Pontifício, ardia em desejo de derramar todo o seu sangue sofrendo os piores tormentos como um mártir dos primeiros tempos do cristianismo, desejava ser sacerdote para poder consagrar e distribuir o Santíssimo Corpo de seu divino Esposo, queria sair por toda a terra para apregoar as glórias de seu Bem-amado como os apóstolos, os profetas e os doutores.

Confessara então, que todos esses seus desejos lhe eram um verdadeiro martírio até que procurando uma resposta aos seus anseios, abriu as Cartas de São Paulo e encontrou um trecho no qual diz o Apostolo que nem todos podem ser tudo ao mesmo tempo: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos”( 1 Cor 12, 29-31).

A resposta lhe pareceu clara, porém não satisfizera seus objetivos. Perseverou na leitura e deparou-se com outro versículo onde explicava o Apóstolo que todas as vocações não são nada sem o amor. Desta forma, compreendera afinal sua vocação e em um transporte de entusiasmo exclamou: “Ó Jesus, meu amor, minha vocação encontrei-a afinal: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja […]. No coração da Igreja, minha Mãe, serei o amor… Assim, serei tudo… O meu sonho se realizará”.1

O que ardentemente procurava Santa Teresinha do Menino Jesus era algo que pudesse unificar e realizar todas as aspirações de sua alma identificando-se em todos os carismas que compõe o Corpo Místico de Cristo.

Contudo, essa busca nos põe diante de outro panorama, se uma alma ante seus díspares anseios pode harmonizá-los ao abrir-se à caridade, muito mais todos os carismas existentes dentro da Santa Igreja encontram sua unificação Naquele que é designado dentro da Trindade como o Amor.

Deus Pai ao se contemplar em sua natureza e divindade, imediatamente gera outra Pessoa Divina: o Filho, que é o Seu Pensamento o Seu Verbo. E o Pai e o Filho ao se contemplaram mutuamente e se verem inteiramente idênticos, “o Pai ama o Filho, e O quer por inteiro e é um amor infinito, é um amor tão forte, tão forte, que encontra um eco no Filho, […] não tem o que pôr nem tirar, a tal ponto que é um amor só. Esse amor o que é? Tão forte que é uma Pessoa.2 É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade que, pelo amor, faz com que a união entre os membros da Esposa Mística de Cristo seja parecida com a que se desenrola no convívio Trinitário, sendo Ele a Alma da Igreja.3

Pois, assim como no princípio Deus criou um boneco de barro e inspirou-lhes nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente, (Gn 2, 7) também, quis Deus que a Sua nascente Igreja recebesse, no dia de Pentecostes, uma alma que lhe desse plena vida e ação. “Pentecostes constituiu, sem dúvida, o último ato de fundação da Igreja […] Do mesmo modo que Deus modelou o corpo do homem e, logo após lhe insuflou o espírito, Cristo formou o Corpo de sua Igreja com estrutura apostólica e, em seguida, lhe infundiu em Pentecostes o Espírito Santo em pessoa”.4

Por conseguinte, pode-se claramente afirmar: “A alma da Igreja é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Defensor prometido e enviado, que a santifica e enriquece pela ação de Sua graça e Seus dons, impedindo que Ela venha a sucumbir, ou até mesmo enlanguescer sob os reiterados ataques de seus adversários.”5

Toda a diversidade de membros que existe dentro da Santa Igreja encontra sua unificação pela ação do Espírito Santo: os que estão dentro da hierarquia eclesiástica, os religiosos e os leigos. Portanto, dentro da Igreja estão inteiramente consonantes os carismas: os franciscanos com sua específica doçura e humildade, o ardor e a lógica dos Jesuítas e a ousadia e a clareza de um Dominicano, e assim por diante.

Desse modo, o Divino Paráclito atende ao desejo do Salvador: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17, 21-22).

Também é função do Espírito Santo acompanhar cada fiel conferindo-lhe graças para sua perseverança e todos os auxílios para alcançar a glória eterna. Esse auxílio foi prometido por Nosso Senhor e o vemos registrado nas Sagradas Páginas do Evangelho e nas Epístolas Paulinas: “É anunciado como o Advogado que ajudará aos discípulos (Jo 14,16) habitando em seu interior como em um templo (I Cor 3,16) e unindo-os em um mesmo corpo (ICor 12,13). Ele os ensinará o anunciado por Jesus (Jo 14,26), os guiando- a verdade completa (Jo 15,13). Ele será seu defensor ante os tribunais (Mt 10,20), quem os fortalecerá no testemunho (I Cor 12,3). […] Ele fará dos cristãos moradas de Deus (Ef 2,21). E o auxílio dos cristãos em suas fraquezas (Rm 8,26) e é quem suscita no interior dos corações essa exclamação: ‘Abbá, oh Pai!’”6

Tudo o que existe na Barca de Pedro é movido e governado pelo Paráclito. Ele acompanha a cada passo. A esse respeito, teceu um belo comentário o prof. Plinio Correa de Oliveira: “Ao ver as coisas da Igreja, sentia eu uma impressão curiosa. Mais do que uma instituição, Ela me parecia uma alma imensa que se expressa através de mil aspectos, que possui movimentos, grandezas, santidades e perfeições, como se fosse uma só grande alma que se exprimiu através de todas os templos católicos do mundo, todas as liturgias, todas as imagens, todos os sons de órgão e de todos os dobrares de sinos. Essa “alma” chorou com os Réquiens, se alegrou com os bimbalhares da Páscoa e das noites de Natal; ela chora e se alegra comigo.[…] Depois vim a saber que “aquilo” que eu percebera era o Espírito Santo, a alma da Igreja”.7

Desta forma, concluímos que, mediante a assistência do Espírito Santo, a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana pode levar a cabo com toda a perfeição sua missão santificadora, o Evangelho pode ser pregado por todos os povos, os papas podem, com toda segurança, transmitir seus ensinamentos. Surgem, então, novos carismas para fazer resplandecer mais uma faceta da Esposa de Cristo e o incessante florescimento de novas almas santas tornando-A assim “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível.” (Ef 5, 27)

1SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. História de uma alma. 24. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 214.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Curso de Formação: Palestra. São Paulo, 17 set. 2002. (Arquivo IFTE).As matérias extraídas de exposições verbais — designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” — foram adaptadas para a linguagem escrita.
3ROYO MARIN, Antonio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2010.
4SAYES, José Antônio. La Iglesia de Cristo: Curso de Eclesiologia. 2. ed. Madrid: Palabra,2003 .p. 14 1-142.
5MORAZZANI ARRÁIZ, Clara Isabel. E renovareis a face da terrra… In: Arautos do Evangelho. São Paulo,n.77, maio. 2008. p.23.
6 CASERO LASANTA, Pedro Jesús, El Espírito Santo Alma de la Iglesia; Jubileu año 2000 . Salamanca: San Esteban, 2000.p.72-73. (Tradução da autora)
7CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Espírito Santo, alma da Igreja. In: Dr. Plinio. São Paulo: n.74, maio. 2004. p.4.

O amor a Deus, ato principal da caridade

São VicenteEmelly Tainara Schnorr

A excelência da caridade sobre as outras virtudes consiste, e de maneira especial, na razão do objeto material primário ao qual se relaciona, ou seja, o próprio Deus, com o Qual nos unimos.1 Além disso, seu objeto se estende por dois aspectos – a nós mesmos e ao próximo –, mas sempre em função de Deus:

O objeto material sobre o que recai a caridade o constitui primariamente a Deus, e secundariamente a nós mesmos e todas as criaturas racionais que chegaram ou podem chegar à eterna bem-aventurança, e ainda, em certo modo, todas as criaturas, enquanto são ordenáveis à glória de Deus”.2

Em sua dimensão fundamental – o amor a Deus em Si mesmo –, a caridade é definida por São Tomás como uma “amizade do homem para com Deus”:

“[…] Já que há uma certa comunhão do homem com Deus, pelo fato que Ele nos torna participantes da bem-aventurança, é preciso que uma certa amizade se funde sobre esta comunhão. […] O amor fundado sobre esta comunhão é a caridade. É, pois, evidente que a caridade é uma amizade do homem para com Deus”.3

Acrescenta ainda o Doutor Angélico que, para se ter uma amizade verdadeira, é preciso que o amor seja recíproco:

“Segundo Aristóteles, não é qualquer amor que se realiza a noção de amizade, mas somente o amor de benevolência, pelo qual queremos bem a quem amamos. […] Entretanto, a benevolência não é suficiente para se constituir uma amizade, é preciso que haja reciprocidade de amor”.4

Essa reciprocidade de amor é um ponto dominante no dinamismo da caridade. Desde antes da existência do mundo, o amor de Deus foi derramado sobre nós com abundância – “na vontade, no amor e no coração d’Ele, eu estive sendo amado por Ele desde toda a eternidade”.5

Além de nos criar, Deus está constantemente nos sustentando no ser; faz-nos participar de sua própria natureza e nos cumula de favores e graças. Ademais, Ele arde em anseios pela nossa salvação, para, no Céu, gozarmos eternamente de seu convívio numa felicidade eterna: “Nós estaremos cheios de alegria quando entrarmos no Céu, mas Deus também estará contentíssimo por ver que, afinal, o plano eterno d’Ele a meu respeito se realizou. E a alegria d’Ele será maior do que a nossa, porque Ele nos ama, Ele nos quer!”.6

Como retribuir a Deus essa infinitude de amor e dileção manifestado por nós? Diz um adágio: “Amor com amor se paga”. Portanto, Ele somente procura a nossa correspondência de amor; o que Ele mais deseja é que também O amemos.

“O amor é o único entre todas as tendências, sentidos e afeições da alma, com o qual a criatura pode responder a seu Autor, não com plena igualdade, mas sim de uma maneira muito semelhante. […] Pois quando Deus ama, não deseja outra coisa senão que Lhe amemos; porque não ama para outra coisa senão para ser amado, sabendo que basta o amor para que sejam felizes os que se amam”.7

E é este amor o ato principal da caridade, o qual apresenta duas formas características: o amor afetivo e o amor efetivo. Entre ambos, o mais importante e fundamental é o amor afetivo, pois se trata do exercício direto e imediato da virtude da caridade considerada em si mesma, consistindo no próprio amor a Deus, tal como brota da vontade informada pelo hábito infuso da divina caridade.8

É um amor cheio de complacência e afeto, produzindo descanso e um gozo fruitivo na vontade. Isto se passa, porque, dado que o amor é um movimento da vontade em procurar o bem, quando o encontra, enche-se de gáudio e emoção. Ora, Deus é o Supremo Bem, em cuja contemplação a alma “sente frêmitos e ímpetos de alegria sem igual pelo prazer que tem de olhar os tesouros das perfeições do rei de seu santo amor”.9

Tomada por esse amor, a alma suspira em desejos de estar com o Amado e de atingir uma plena e definitiva união com Ele. Entretanto, dificilmente neste vale de lágrimas ela poderá saciar este anseio, esperando, por esta razão, a vida eterna.

“O coração, pois, que neste mundo não pode nem cantar nem ouvir os louvores divinos a seu gosto, entra em desejos sem igual de ser liberto dos laços desta vida para ir à outra onde se louva tão perfeitamente o bem-amado celeste, e, havendo-se esses desejos apoderado do coração, tornam-se tão poderosos e prementes no peito dos amantes sagrados, que, banindo quaisquer outros desejos, põem em desgosto todas as coisas terrenas, e tornam a alma toda desfalecida e doente de amor; e mesmo essa paixão progride às vezes tanto, que, se Deus o permitir, morre-se dela”.10

Entretanto, é salutar ter bem presente que o amor não se traduz somente nas alegrias e consolos espirituais internos que dele dimanam, mas exige que tenha uma comprovação manifestada em obras, pois, do contrário, correria o risco de ser um amor romântico, baseado puramente em sentimentos. A sua perfeição só se completa com a outra forma de amor, que é o efetivo.

“O amor verdadeiro não vai unido necessariamente a essas doçuras e consolações sensíveis, ainda pode ajudar-se delas quando aparecem espontaneamente como um presente de Deus. A pedra de toque do verdadeiro amor consiste no exercício das virtudes: “O amor – diz São Gregório – tem que comprová-lo com as obras”.11

N S JesusAssim, o amor efetivo apresenta dois corolários: o cumprimento da lei divina e a perfeita conformidade da nossa vontade com a de Deus.12

Esta conformidade de nossa vontade com a de Deus, deve ser inteira e amorosa. Exemplo disso foi o piedoso Jó que, tendo sido provado ao máximo, perdendo todos os seus bens, familiares e amigos, conformou-se com a vontade de Deus, dizendo: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor! Como foi do agrado do Senhor, assim aconteceu” (Jo 1, 21).

Quanto à lei divina, ela deve ser praticada por puro amor, ou seja, necessita ser cumprida para agradar a Deus e não pelo interesse que poderia proporcionar a recompensa eterna; poderia não haver Céu nem inferno, mas a alma continuaria amando e temendo a Deus.

Donde a importância do primeiro mandamento, que, no Decálogo, ocupa um lugar proeminente sobre os outros nove, devendo, por isso, ser praticado com um zelo maior. Do contrário, os demais sofreriam um abalo, ocasionando sérias consequências tanto no desenvolvimento pessoal, quanto no social. Mons. João Clá confirma o acima dito:

“[…] O Primeiro Mandamento é o mais importante de todos, e é ele que nos dá a possibilidade de compreender bem todos os outros. A prática do Primeiro Mandamento da Lei de Deus é fundamental, e essa prática nós temos que realizar desde o momento em que acordamos até o momento em que vamos dormir, constantemente devemos estar com o nosso pensamento, nossa preocupação e nosso amor colocado nas coisas de Deus”.13

1 Cf. ROYO MARIN, Antonio. Teología de la perfección cristiana. Op. cit. p. 126.
2“El objeto material sobre que recae la caridad lo constituye primariamente Dios, y secundariamente nosotros mismos y todas las criaturas racionales que han llegado o pueden llegar a la eterna bienaventuranza, y aun, en cierto modo, todas las criaturas, en cuanto son ordenables a la gloria de Dios” (Ibid. p. 511. Tradução da autora).
3 “[…] Sit aliqua communicatio hominis ad Deum secundum quod nobis suam beatitudinem communicat, super hac communicatione oportet aliquam amicitiam fundari. […] Amor autem hac communicatione fundatus est caritas. Unde manifestum est quod caritas amicitia quaedam est hominis ad Deum” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 23, a. 1).
4 “Secundum Philosophum, in VIII Ethic., non quilibet amor habet rationem amicitiae, sed amor qui est cum benevolentia: quando scilicet sic amamus aliquem ut ei bonum velimus. […] Sed nec benevolentia sufficit ad rationem amicitiae sed requiritur quaedam mutua amatio: quia amicus est amico amicus. Talis autem mutual benevolentia fundatur super aliqua communicatione” (Loc. cit).
5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 4ª feira, da XIV Semana do Tempo Comum. Caieiras, 9 jul. 2008. (Arquivo IFTE).
6 Loc. cit.
7 “Solus est amor ex omnibus animae motibus, sensibus atque affectibus, in quo potest creatura, etsi non ex aequo, respondere Auctori, vel de simili mutuam rependere vicem. […] Nam cum amat Deus, non aliud vult, quam amari: quippe non ad aliud amat, nisi ut ametur, sciens ipso amore beatos, qui si amaverint” (SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Sermones sobre el Cantar de los Cantares. In: Obras completas. Madrid: BAC, 1987. Vol. V. p. 1030).
8 Cf. ROYO MARIN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 219-220; 231.
9 SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 248.
10 Ibid. p. 274.
11 “El amor verdadero no va unido necesariamente a esas dulzuras e consolaciones sensibles, aunque puede ayudarse de ellas cuando se presentan espontáneamente como un regalo de Dios. La piedra de toque del verdadero amor consiste en el ejercicio de las virtudes: ‘El amor – dice San Gregorio – hay que probarlo con las obras’” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 232. Tradução da autora).
12 Cf. Ibid. p. 233-242.
13 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da 4ª feira, da III Semana da Quaresma. Caieiras, 12 mar. 2008. (Arquivo IFTE).

O amor ao próximo: manifestação do amor a Deus

Jesus ensinandoEmelly Tainara Schnorr

O amor ao próximo é uma das mais belas manifestações do amor a Deus, através do qual, a lei atinge a sua plenitude, segundo ensina São Paulo: “Porque toda Lei se encerra num só preceito: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5, 14). Também foi do agrado do Divino Redentor deixá-lo para nós como elemento para a prática da virtude. Assim Ele determina:

“O próximo, eis o meio que vos dei para praticardes e manifestardes a virtude que existe em vós. Como nada podeis fazer de útil para mim, deveis ser de utilidade ao homem. Esta é a prova de que estou presente em vós pela graça: se auxiliais os outros com orações numerosas e humildes, se desejais minha glória e a salvação dos homens. Quem se apaixona por Mim, jamais cessa de trabalhar pelos outros, de modo geral ou particular, com maior ou menor empenho, segundo as disposições do beneficiado e do benfeitor”.1

Pendor natural para o amor mútuo

Se analisarmos sob um prisma meramente natural, há na natureza humana um pendor para o amor mútuo, desejoso de prestar auxílio e socorro aos demais, quando necessário, embora, muitas vezes, careça de algum relacionamento específico, mesmo até de conhecimento. Isso pela única razão de semelhança de espécies, que causa no homem uma grande alegria.2 Confirma o Eclesiástico: “Todo ser vivo ama o seu semelhante, assim todo homem ama o seu próximo. Toda carne se une a outra carne de sua espécie, e todo homem se associa ao seu semelhante” (13, 19-20).

Entretanto, devido ao pecado original, é impossível ao homem praticar a virtude estavelmente, sem o auxílio da graça. Desta maneira, se tão só nos limitarmos ao campo natural, a prática do amor ao próximo encontrará dificuldades ao deparar-se com egoísmos, invejas, rivalidades e interesses próprios, tanto de si mesmo como dos outros.3

O amor sobrenatural ao próximo

A virtude sobrenatural da caridade é a que proporciona as forças suficientes para superar todos esses obstáculos e misérias humanas, resultando num amor puro pelos demais:

“A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 4-7).

Se lançarmos um olhar sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, em diversas passagens do Evangelho, encontraremos n’Ele o modelo perfeitíssimo de caridade, dirigindo-se a Deus como Senhor e Pai, a Quem obedece e faz a vontade. Um tocante exemplo dá-se na Ceia derradeira, onde o Salvador faz uma oração ao Pai celeste, expressando o seu forte amor por Ele (Cf. Jo 17). Sua total aceitação em fazer a vontade do Pai está em sua súplica no Getsêmani: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39). E no momento da Ressurreição, ainda diz: “Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17).

Ora, este amor que Ele devotava ao Pai também se estendia aos pecadores, os quais eram também os seus próximos: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13). Jesus Cristo, portanto, assumindo todas as contingências de um corpo padecente, estava disposto a percorrer todas as cidades, aldeias e povoados em busca das almas que necessitavam de sua ajuda, beneficiando-as ao máximo. Não obstante entregou sua própria vida, de uma maneira ignominiosa, tendo como único objetivo nos resgatar e obter a nossa salvação eterna.

“Esse amor em Nosso Senhor Jesus Cristo é sobre todas as coisas. Porque Nosso Senhor Jesus Cristo amou o Pai e amou-nos até a morte de Cruz. Ele se entregou à morte, Ele se entregou à flagelação, Ele se entregou à Via Crucis, Ele se entregou à crucifixão por amor ao Pai e por amor a nós. Então, esta caridade, este amor não está à procura de nenhuma recompensa, de nada, é sobre todas as coisas e disposto a abandonar tudo!”4

Ademais, o Divino Redentor não se importou com todas as ingratidões e traições – sobretudo da parte dos mais íntimos – presentes ao longo de toda a sua vida pública. O que fizeram os Apóstolos no momento auge da Paixão? Fugiram (Cf. Mt 26, 56). Do mesmo modo, com que ingratidão São Pedro, São Tiago e São João responderam a Jesus na hora da agonia, no Horto das Oliveiras, por todo o bem que lhes havia feito? Com um sono profundo (Cf. Mt 26, 40), justo na hora em que Ele mais precisava de um apoio. Contudo, a atitude do Salvador foi a de aumentar ainda mais o seu amor por todos, a ponto de, no alto da Cruz, rogar a Deus que tivesse misericórdia de seus algozes: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

“Que todos sejam um”

E é a esta perfeição de amor ao próximo que Nosso Senhor nos convida, determinando o nível que a caridade deve atingir: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21). Portanto, Ele deseja que em nós haja um amor e uma união análogos ao que há na Santíssima Trindade.

Desta forma, compreendemos que o amor ao próximo deve ser primeiramente coroado pelo amor a Deus, colocando-O no centro de todo e qualquer ato fraterno:

“Assim como a água verdadeiramente pura não é aquela que nasce nos vales sombrios, mas aquela que, saída do mais profundo das entranhas da terra, se eleva até o cume dos montes, de onde brota em veios cristalinos, assim também a verdadeira caridade não é o sentimento que tem sua origem nas afeições naturais, transitórias e caprichosas dos homens uns pelos outros, mas sim o amor que, saído do mais profundo do coração humano, se eleva a Deus, e de lá, em veio límpido e cristalino, desce, como do alto de uma montanha, sobre todas as criaturas.”5

Pela mesma razão, ainda podemos afirmar que quem não tem amor ao próximo, não possui verdadeiro amor a Deus, e quem não ama a Este não tem real amor àquele, pois ambos são indissociáveis entre si: “É impossível separar o amor sobrenatural ao próximo do amor de Deus, porque quem ama verdadeiramente a Deus, não pode deixar de amar o que Deus ama, e é sabido quanto Deus ama a todos os homens, a quem criou para o céu e a quem remiu com o preço de seu sangue”.6 São João, em uma de suas epístolas, também foi muito categórico ao asseverar esta verdade: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 20-21).

E este amor aos irmãos deve ser desinteressado, isento de qualquer egoísmo, sem caprichos e apegos. Ou seja, por obrigação, o zelo fraterno tem de abarcar não só àqueles a quem se estima, mas também aos que se tem antipatias. Procurar, portanto, favorecer a todos e auxiliá-los na prática da virtude e da santidade, visando a sua salvação eterna.

Assim, a nossa atitude em relação aos demais deve ser de atenuar os defeitos alheios, perdoar todas as injúrias que nos são feitas e suprimir de nossas almas nossos próprios defeitos, os quais constituem empecilhos em nosso organismo espiritual, dificultando o bom progresso na prática da caridade fraterna.

“[…] Essa caridade deve ser praticada, eliminando os apegos, os amores estúpidos, humanos e egoístas, os amores-próprios, as ideias erradas que me levam a amar aquilo que não devo, etc. Tudo isto constitui obstáculos que eu preciso eliminar, que eu preciso pulverizar, que eu preciso tornar inteiramente inertes e anulados dentro da minha alma. Porque, sem tirar os obstáculos, esse amor não cresce em mim, os apegos me fazem diminuir nesse amor.”7

Ao progredir nesse amor fraterno, pode-se atingir píncaros inimagináveis, a ponto de operar naquele que o pratica uma disposição tal que, se for preciso, sacrifica a própria vida pelos outros, a exemplo de Nosso Senhor e que nos ensinou: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

1 SANTA CATARINA DE SENA. Op. cit. p. 39.
2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 363-364.
3 Loc. cit.
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do Domingo, da XXX Semana do Tempo Comum. Caieiras, 26 out. 2008. (Arquivo IFTE).
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A verdadeira caridade. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 19, out. 1999. p. 12.
6 GONZALEZ Y GONZALEZ, Emílio. A perfeição cristã. Porto: Figueirinhas, [s.d.]. p 340-341.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do Domingo, da XXX Semana do Tempo Comum. Op. cit.

A caridade segundo São João Crisóstomo

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Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E ainda que eu tivesse […] toda a fé a ponto de transportar montanhas, se não tivesse caridade, não seria nada” (1 Cor 13, 2-3).

Essa magna e excelentíssima virtude, fundamento de toda a vida espiritual, “a mais excelente das virtudes”1, foi vivida e transmitida nas pregações e obras do grande Padre da Igreja Oriental, São João Crisóstomo. Sua existência centrou-se num contínuo viver de amor pela Igreja e pelo próximo.

Natural de Antioquia, nascido por volta do ano 347 numa família cristã, estudou, na escola de Libânio, filosofia e retórica, na qual teve grande êxito, sendo considerado um dos maiores oradores, não somente por sua ilustre cultura, mas, principalmente, por serem suas palavras embebidas de intensa piedade e ardente amor evangélico.2 Compôs várias obras e estas se tornaram de tal maneira apreciadas que o próprio São Tomás de Aquino, Doutor Angélico, desejava lê-las.

Conta-se que em certa ocasião, voltando de Saint Denis juntamente com alguns frades de sua ordem, São Tomás viu de longe a imensa cidade de Paris. Um de seus companheiros comentou como seria de grande proveito para a obra de São Domingos serem possuidores da cidade de Paris. O Doutor Angélico, atônito, perguntou-lhe, então, o que haveriam de fazer com ela. O frade deu-lhe a idéia de vendê-la ao Rei da França e, com o dinheiro, mandar construir mosteiros para que a Ordem pudesse receber mais vocações. Porém, para o espanto do frade, São Tomás respondeu-lhe que preferia antes os comentários de São João Crisóstomo sobre o evangelho de São Mateus, por serem eles de grande valor teológico e de enorme benefício às almas.3

O amor pelas coisas sagradas já se fazia sentir quando São João Crisóstomo era muito jovem, possuindo grande apreço pelas Sagradas Escrituras, aprofundando seus estudos de teologia junto a Diodoro de Tarso, na mesma cidade de Antioquia.

Após algum tempo, quis buscar algo mais excelente para sua vida espiritual. No pleno ardor de sua juventude, marchou rumo aos montes vizinhos. Ali, pôs-se sob orientação de um ancião virtuoso, disposto a imitar sua austeridade de vida.

Durante dois anos, recebeu ensinamentos de seu mestre. Ao cabo desse período de intenso estudo, resolveu isolar-se numa gruta, vivendo um rigoroso ascetismo e dedicando a maior parte do tempo à contemplação e à oração. Entretanto, devido ao rigor de suas penitências, caiu gravemente enfermo, sendo obrigado a voltar à vida comum.4

A sua volta foi, sem dúvida, providencial. Após o regresso, foi ordenado e logo lhe mandaram fazer pregações na principal igreja da cidade. Este foi o período mais fecundo de sua vida, proferindo as homilias mais excelentes que lhe valeram o qualitativo que passou a fazer parte do seu nome: Crisóstomo, isto é, Boca de Ouro.1

Entre suas inúmeras homilias encontra-se uma sobre o amor de Cristo na célebre afirmação de São Paulo: “Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo” (2 Cor 12,10).

Sendo a caridade a virtude teologal por excelência, mestra das demais virtudes como afirma o padre Royo Marín: ela “é a rainha de todas as virtudes, a mais excelente, a forma de todas as demais. Todas as outras virtudes – inclusive a fé a esperança – estão ao serviço dela e tem a missão de defendê-la e robustecê-la”6, asseverava que o Apóstolo “só se alegrava no amor de Cristo, que era para ele o maior de todos os bens; com isto julgava-se o mais feliz dos homens”.7

Como Santa Teresinha que através do “amor misericordioso” satisfez todos os seus anseios:

A caridade deu-me a chave de minha vocação. (…) Compreendi que só o Amor encerra todas as vocações, que o Amor é tudo, que abraça todos os tempos e lugares… Numa palavra, ele é eterno!… Então, no auge da minha alegria delirante, exclamei: Oh, Jesus, meu Amor…Encontrei, enfim, minha vocação; minha vocação é o Amor!… Sim, encontrei meu lugar na Igreja, e este lugar, oh meu Deus, fostes vós que mo destes…No Coração da Igreja, minha Mãe, serei o Amor…8

Aquele cuja alma está interiormente tomada por esse amor, a ponto de desprezar por causa de Deus a si mesmo e tudo o que possui, este é perfeito”.9 Movido assim, São Paulo desprezava seu instinto de sociabilidade para ser amado por Cristo. A ver-se privado desse amor e bem visto pelos homens “preferia ser o último de todos, isto é, ser contado entre os réprobos, do que encontrar-se no meio de homens famosos, mas privados do amor de Cristo”.10

E São João Crisóstomo acrescenta:
Tal é, com efeito, [o amor] que não deixa em nós nenhum desejo do terreno e nos transporta ao outro amor. Aquele que por este amor está possuído, por mais que tenha que renunciar os seus bens, rir-se da glória, ou ainda entregar sua própria vida, tudo faz com suma facilidade11

E é amando que a pessoa chega a praticar atos heróicos de despretensão, como bem afirma o padre Royo Marín 12: “O amor é a alavanca da vida espiritual, o procedimento mais rápido para chegar ao heroísmo”.

Para o Apóstolo, continua São João, “gozar do amor de Cristo era a vida, o mundo, o anjo, o presente, o futuro, o reino, a promessa, enfim, todos os bens. Fora disto nada tinha por triste ou alegre”. Ó mistério do amor!

“Quem poderá explicar o amor de Cristo?… Calem-se os homens, calem-se as criaturas… Calemos a tudo, para que no silêncio ouçamos os sussurros do Amor, do Amor humilde, do Amor paciente, do Amor imenso, infinito que nos oferece Jesus com seus braços abertos na Cruz”.13.

São João Crisóstomo viveu, também, inteiramente abrasado de amor, e pelo poder da caridade alcançou a mais plena união com Deus, pois “a grandeza de uma vida é medida pelo amor” e é ele que faz heróis e santos.14

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.23, a.6
2 LLORCA B.; VILLOSLADA, R.G; LABOA, J.M. Historia de la Iglesia. Madrid: BAC, 2005.
Teresinha. São Paulo: Paulus, 2002.
3 CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo. Texto griego, version española y notas de Daniel Ruiz Bueno. 2.ed. Madrid: BAC, 2007.
4 COLOMBAS, G. M. El monacato primitivo. 2.ed. Madrid: BAC, 1998.
5 CRISÓSTOMO, S.J. Vida e obras. Disponível em Acesso em 05 out. 2010.
6 ROYO MARÍN, A. Los grandes maestros de la vida espiritual. Madrid: BAC, 2002. p. 369
7 Cf CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo. p. 1208
8 LISIEUX, T.. Obras Completas de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. Tradução das. Monjas do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa.
9 TORREL, J-P. Santo Tomás de Aquino. Tradução de J. Pereira. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2008. p. 424
10 Cf CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo p. 1209
11 Loc.cit. p.115
12 Cf ROYO MARÍN, A. Op. cit p. 368
13 ARNÁIZ BARÓN, R. Obras Completas. 4. ed. Burgos: Monte Carmelo, 2002. p. 869
14 PHILIPON, M. O sentido do eterno. Tradução de Maria Cecília de M. Duprat. São Paulo: Flamboyant, 1964. p. 49

Pode existir uma santa pressa?

angelico29Maria Teresa Matos

No mundo atual, não há quem não tenha tomado contato, visto, e mesmo experimentado a pressa.

Corre-se para não chegar atrasado em um compromisso, corre-se para fazer um negócio e lucrar muito dinheiro, corre-se atrás de bons estudos e da boa fama. Enfim, corre-se a todo o momento e por qualquer motivo. As invenções técnicas e científicas, como automóveis, aviões, celulares e internet concorreram para acelerar, ainda mais, o ritmo de vida.

O homem contemporâneo bem poderia ser qualificado de ‘o homem do corre-corre’, que depois de tanto correr, nada alcançou além de decepções, frustrações e calamidades.

Alguém, deformado pelos conceitos hodiernos, abrindo as páginas do Evangelho, encontraria dificuldades em compreender esta curta, mas intensa frase: “Naqueles dias, Maria levantou-se e dirigiu-se apressadamente às regiões montanhosas da Judéia” (Lc 1, 39).

Qual seria a razão de uma jovem, consagrada ao Templo desde a sua infância e criada nas sublimes delícias da contemplação, lançar-se de tal modo na ação? Ademais, acabara de se dar o acontecimento ápice, não só da vida dela, mas de toda a História: concebera pela ação do Espírito Santo. Ou seja, em suas entranhas puríssimas, o próprio Filho Unigênito de Deus, gerado e não criado, consubstancial ao Pai, para nossa salvação, assumira nossa carne. Aquele a quem os céus não podiam conter, encerrara-se no seio de Maria. Haverá graça mais sublime? Existirá ocasião mais propícia para os mais altos êxtases? Que meditações e contemplações não poderiam derivar desse convívio?! Não seria a hora d’Ela recolher-se e aproveitar os nove meses de intimidade mais completa e absoluta com Seu Filho e Seu Deus?

Entretanto, o Evangelho nos narra ter a Virgem, logo após a Anunciação, levantado e se dirigido apressadamente até a Judéia, empreendendo essa viagem a fim de ajudar sua prima Isabel.

Que pressa era esta que a movia? Algum interesse pessoal? Poderia se cogitar, sem blasfemar, que na alma imaculada de Maria existisse alguma agitação?

Como resposta a essas perguntas, bem poderíamos pôr nos lábios da Virgem as palavras do profeta Elias: “Zelus zelatus sum pro Domino Deo Exercituum” (1Rs 19,14). Sim, o zelo pela causa de Deus a consumia, tomava todo o seu ser e impulsionava-a, se necessário fosse, a correr por toda a Terra para servi-lO e glorificá-lO.

Essa viagem era empreendida por Ela sem abandonar em nenhum instante a clave altíssima de suas contemplações. Maria queria servir sua prima, não por afeição familiar ou mera filantropia, mas por amor a Deus. A virtude da Caridade a levava a ajudar Isabel e o menino João, corporal e espiritualmente, santificando a criança ainda no ventre materno e produzindo em sua prima extraordinárias manifestações de enlevo e admiração pelo Messias ali presente.

Portanto, qual é a diferença entre essa santa pressa de Maria Santíssima na visitação a sua prima santa Isabel e a pressa do mundo moderno?

Hoje corre-se, impaciententemente, por interesse próprio, enquanto Nossa Senhora indicou que os homens devem ser pressurosos na caridade, uns para com os outros, auxiliando com entusiasmo, sem egoismo ou delongas, a que se encontre já nesta Terra o Caminho, a Verdade e a Vida.

A vida consagrada na Sociedade Regina Virginum

regina_viginumFahima Akram Salah Spielmann

O sino soa, mais uma vez, no silêncio dos corredores de um mosteiro da Sociedade de Vida Apostólica de Direito Pontifício Regina Virginum. Um ruído corriqueiro e banal para o mundo moderno, mas ali, para as religiosas, reveste de grandeza, convidando cerca de sessenta almas “anônimas” – que sentem em si o chamado para o heroísmo – para um ato da comunidade: a recitação do Rosário.

Num mundo onde a grande maioria dos homens é sôfrega de liberdade, qual seria a razão de tantas jovens renegarem sua vontade própria, e com alegria sujeitarem-se, em obediência a uma regra, a um simples badalar de sino?

A resposta encontra-se no apelo para a santidade (VS 17-19). Todos os batizados são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Contudo, os religiosos vão mais além e consagraram a própria vida ao Senhor, no espírito e na prática dos conselhos evangélicos: obediência, pobreza e castidade. 1

Segundo o atual Código de Direito Canônico, a principal característica de quem aderiu a vida consagrada é uma entrega total nas mãos do Superior, mediante votos perpétuos ou temporários, implicando a “separação do mundo que é própria da índole e finalidade de cada instituto” (Cân 607 §3).

_ND35796“Cesse a vontade própria, e já não haverá inferno” dizia São Bernardo. Segundo as normas da Sociedade Regina Virginum, é “regulamentado o alcance da obediência2, e determinado os graus de obrigação com o cerimonial correspondente”. A este respeito comenta Mons. João S. Clá Dias, o seu Fundador: “o voto de obediência, que assim está bem designado, não estaria mal se se chamasse ‘voto de liberdade’, pois é nesse voto que o membro da instituição se vê livre dos erros e faltas que poderia cometer caso seguisse o impulso de seus instintos”.

Quanto à prática do conselho evangélico da pobreza, o próprio Cristo ordenou-a aos seus seguidores: “Qualquer um de vós, que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Conforme o Magistério da Igreja, “o preceito do desprendimento das riquezas é obrigatório para se entrar no Reino dos céus” (CEC 2544).

Na Sociedade Regina Virginum, a regra, ou ordo, “incentiva o desprendimento dos bens materiais, dispondo deles com a prévia autorização da superiora”, havendo um cerimonial específico para a distribuição de bens.3

A Castidade4, também chamada virtude angélica, “é a maneira eminente de se dedicar mais facilmente a Deus com coração indiviso” (CEC 2349).

Aos membros desta sociedade, ela é estimulada, ao mesmo tempo em que é proporcionada a fuga das ocasiões próximas. Por exemplo, temos em nossos meios a prática da sábia norma de antigas regras de quase todos os mosteiros posteriores ao século V, onde se vedava a possibilidade de sair sozinha, inclusive em missão, além de outras normas como a proibição do acesso a algumas comunicações sociais, como a internet, sem a autorização expressa da Superiora, e o relacionamento com pessoas do outro gênero sem a licença da mesma”.

Além de praticar os conselhos evangélicos, as religiosas cumprem as normas que estão sob o carisma do fundador, conforme o cânon 576 12. “O fundador representa para o religioso uma imagem divina, um modelo que, na sua vida e em seu ensinamento, reproduz a Cristo de maneira adaptada a seus filhos”, segundo as sábias palavras do Padre Gilmont.5

Nos pilares da espiritualidade da Sociedade Regina Virginum encontramos “uma concisa expressão: a devoção a Jesus Eucarístico e a Maria Santíssima, e a fidelidade ao Papa”.

“Pela recepção frequente ou diária da Santíssima Eucaristia, aumenta-se a união com Cristo; alimenta-se abundantemente a vida espiritual; a alma se enriquece com as virtudes e, a quem a recebe, é dado um penhor mais seguro da felicidade eterna” (EM 37), além das comunhões diárias, há a adoração ao Santíssimo Sacramento que é exposto habitualmente nas casas dessa Sociedade.6

_ND35929Cônscias de que por suas próprias forças não conseguem alcançar a santidade, as jovens religiosas, com assídua frequência ao Sacramento da Penitência, rezam, quotidianamente, além da Liturgia das Horas e de diversas orações, os vinte mistérios do Rosário. Voltando-se para Maria Santíssima, “a primeira e perfeita consagrada, carregada por aquele Deus que Ela leva nos braços; Virgem, pobre e obediente, toda dedicada a nós, porque é toda de Deus” 7, com a Sua materna ajuda renovam, diária e constantemente, o seu “Praesto sum”, “eis me aqui”, para comunicar aos outros a dádiva do seu carisma (cf. 1 Cor 14, 12) e testemunhar em primeiro lugar o maior carisma, que é a caridade (cf. 1 Cor 13)8.

1 Cân 573, § 1: “A vida consagrada pela profissão dos conselhos evangélicos é uma forma estável de viver, pela qual os fiéis, seguindo mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, consagram-se totalmente a Deus sumamente amado, para assim, dedicados por título novo e especial a sua honra, à construção da Igreja e à salvação do mundo, alcançarem a perfeição da caridade no serviço do Reino de Deus e, transformados em sinal preclaro na Igreja, prenunciarem a glória celeste”.
2 Cân 601: “0 conselho evangélico da obediência, assumido com espírito de fé e amor no seguimento de Cristo obediente até à morte, obriga a submissão da vontade aos legítimos Superiores, que fazem as vezes de Deus quando ordenam de acordo com as próprias instituições”.
3 Ordo de Costumes. Arautos do Evangelho. 2001, p.56.
4 Cân 599: “0 conselho evangélico da castidade, assumido por causa do Reino dos céus e que é sinal do mundo futuro e fonte de maior fecundidade num coração indiviso, implica a obrigação da continência perfeita no celibato”.
5 GILMONT. Jean François. Paternité et Médiation du Fondateur d’Odre. Toulousse:1964. p. 416-4 17.
6 Cân. 663 §2: “Os membros quanto possível, participem todos os dias do sacrificio eucarístico, recebam o santíssimo Corpo de Cristo e adorem o próprio Senhor presente no Sacramento”.
7. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2010.
8. Papa Bento XVI, homilia, 2 de fevereiro de 2009.

Santa Maria Madalena – porque muito amou…

tangere
Thaliane Neuburger

“Ama et quod vis fac”, ou seja, ama e faze o que quiseres. Frase ousada de Santo Agostinho, porém inteiramente teológica, por ser a caridade a virtude essencial, sem a qual, as demais virtudes carecem de valor 1 . O próprio São Paulo assim inicia seu nobre, distinto e angélico cântico sobre a rainha das virtudes: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!” (1Cor 13, 1-3).

Diversos autores afirmam que a caridade supera em beleza, valor e essência a todas as demais virtudes, inclusive a própria Fé e Esperança pelo fato de Deus constituir-Se no seu objeto primário e principal 2 , e porque estas não ultrapassarão os umbrais da eternidade, enquanto que “a caridade jamais acabará” (1Cor 13, 8).

Segundo São Tomás , o progresso na vida sobrenatural consiste, essencialmente, na perfeição da caridade 3 . Ela é a virtude que nos une diretamente a Deus conforme no-lo demonstra o discípulo amado: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1Jo 4, 16). Disto procede a supremacia do amor: porque as demais virtudes somente preparam e iniciam essa união, mas quem a realiza de modo pleno é a caridade 4 .

Por outro lado, o Apóstolo São Paulo mostra-nos que “o amor de Cristo nos pressiona” (2Cor 5, 14). Mas, no que consiste esse “pressionar”? Vejamos o que nos explica o Revmo. Monsenhor João Clá:

“É um modo de exprimir a força que tem o amor de Nosso Senhor por nós; este amor é transformante, infunde bondade e faz com que sejamos aquilo que jamais seríamos pelos nossos esforços ou natureza; é um amor que faz com que eu dê em relação ao Bem que é Ele, aquilo que eu nunca conseguiria dar por meu esforço. (..) Ele nos confisca [pois] é um amor tão superior, exuberante, rico, transbordante e incomensurável, que uma vez manifestado, torna-se impossível, de nossa parte, não vivermos para Ele” 5 .

Estes foram os efeitos do amor do Divino Mestre em Santa Maria Madalena, “que foi cativada e transformada pela força deste amor, a tal ponto que depois de uma vida de vícios e desvarios, atingiu tão eminente grau de admiração e enlevo por Nosso Senhor Jesus Cristo e, sobretudo, foi tão amada por Ele que obteve a restauração da inocência” 6 .

Voltemo-nos, pois, para sua vida e veremos as grandes maravilhas operadas por Deus naquela alma.

Maria Madalena nasceu de uma família muito digna, talvez a mais rica de Israel. Possuindo, desde pequena, uma aparência privilegiada, sua mãe tinha o costume de colocá-la sentada encima de uma almofada na janela, para que todos pudessem admirar sua beleza e seu bom comportamento. As ruas daquela época eram estreitas e os que por ali transitavam viam-na, conversavam um pouco com ela e, encantados, elogiavam tão extraordinária menina. Elogios estes, que serviram para dar início a um processo que a levaria a cometer os piores pecados, porque, “quando a pessoa não sabe se defender dos elogios e restituí-los a Deus, isso produz na alma um estrago tremendo” 7 , pois, o “orgulho leva à impureza” 8 . Foi justamente o que aconteceu com a jovem Maria Madalena.

Com a perda dos pais, deu-se a divisão da vasta herança. Coube a Lázaro — sendo o primogênito — herdar todas as terras e propriedades que possuíam em Jerusalém, assumindo com isso o encargo social e político da família. Marta, por sua vez, ficou em Betânia e viu-se obrigada a administrar as propriedades do irmão. Restou à Maria — por ser a caçula — o castelo que a família possuía em Mágdala, cidade muito mundana da época, devido à sua localização às margens do Mar da Galiléia.

Chegando a idade das paixões que rejeitam todo freio; quando a presença de toda pessoa honesta e séria resulta-lhe pesada” e sendo Maria Madalena “muito adulada e muito bela, circundada de adoradores, desfrutando ao respirar o incenso agradável dos elogios e sobretudo o perfume embriagante do prazer, fugiu da companhia de sua irmã” 9 , aos quinze anos, para estabelecer-se em Mágdala. No entanto, em pouco tempo, “começou a levar uma vida afastada dos Mandamentos da Lei de Deus, tornando-se, assim, uma pecadora” 10 .

Em certo momento chega a Mágdala rumores de estupefação, admiração e entusiasmo pelo grande profeta: Jesus Nazareno. Muito dada a estar de acordo com as notícias de acontecimentos mais recentes, Maria decidiu reunir uma caravana e ir ao encontro daquele, do qual todos comentavam. Quando chegaram ao lugar onde o Divino Mestre se encontrava, Ele “a viu, a olhou e a curou” 11 , e, sobretudo, infundiu em sua alma graças superabundantes, operando assim sua conversão. Abandonando tudo o que tinha e todos os antigos amigos que a levaram ao pecado, seguiu a Nosso Senhor.

Entretanto, após passar um longo período acompanhando a Jesus juntamente com as outras Santas Mulheres, sentiu um desejo de voltar à Mágdala e à sua antiga vida. A pretexto de buscar algumas coisas, embora Marta e as outras insistissem à que não retornasse, ela decidiu ir e lá chegando retomou a sua vida de pecado.

Um dia, estando Nosso Senhor a pregar perto de Cafarnaum, dá-se o reencontro. Aquele Divino Olhar recai sobre Maria, mas desta vez, “esse olhar do Salvador e essa palavra penetrante mudaram seu coração mais dolorido que endurecido. Em seguida, ela seguiu a Jesus e não O deixou mais” 12 .
Algum tempo depois, o Divino Mestre é convidado para jantar em casa de um fariseu. Maria Madalena rompendo as praxes da época — as quais proibiam a entrada de mulheres durante os banquetes — foi até Jesus para assim manifestar publicamente seu arrependimento e seu amor por Aquele que a havia transformado. Ali entrando, permaneceu aos pés do Salvador, e lhe ofertou o que de mais precioso possuía: suas lágrimas que, como sinal de penitência, lavaram aqueles Sagrados Pés; em seguida enxugou-Os com seus próprios cabelos; beijou-Os e por último, Os ungiu com o mais precioso perfume. Atos simbólicos de “seu coração que ela se empenhava em lançar todo inteiro no coração do Mestre” 13 . Tal veneração e escravidão mereceu como recompensa do Salvador as seguintes palavras: “seus numerosos pecados estão perdoados, porque ela muito amou” (Lc 7, 47) e “em verdade vos digo: onde quer que for pregado em todo o mundo o Evangelho, será contado para sua memória o que ela fez” (Mc 14, 9).

Estando o Mestre em Betânia, Maria despreocupava-se de todos os assuntos da casa e permanecia aos Seus pés, ouvindo-O e admirando-O. Tinha o pensamento unicamente posto no Salvador, já que guardava um delírio de amor a Ele e não se interessava por outra coisa, a não ser o Mestre, que para ela era tudo 14 . Por esta razão, recebeu esse elogio: “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10,42). Ou seja, desde que a pessoa se ponha a amar, o demônio não consegue tirar nada e “ninguém rouba aquilo que o amor constrói” 15 .

O Senhor concedeu imensos benefícios a Maria Madalena e distinguiu-a com sinais de predileção, infamou-a totalmente de amor por Ele e tornou-se íntimo dela.

Uma das características do enlevo é fazer com que o enlevado saia de si e se fixe em algo que lhe é superior 16 , por isso, Santa Maria Madalena “se une a Ele em todos os estados pelos quais Ele faz passar sua humanidade. Ela se une a Jesus vivendo (…), a Jesus sofrendo (…) a Jesus morrendo e a Jesus morto” 17 , de tal maneira, que acompanhou o Divino Mestre até na hora suprema do “Consummatum est”, quando todos O abandonaram. Mostrando que o enlevo verdadeiro é aquele que está disposto até ao holocausto, se isso for necessário, em favor do Amado.

Quando mataram a Nosso Senhor, ela — em contraposição aos discípulos, os quais “tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus” (Jo 20,19) — ia por todos os cantos, proclamando que haviam cometido um crime infame contra o Mestre, pois Este não tinha feito outra coisa senão o bem. Atraindo para si, o ódio de todo Sinédrio.

Sendo “a que mais fervorosamente amava o Senhor, (…) não podia conter-se de desejo de adorar e perfumar Seu sagrado Corpo” 18 . Por isso, já na madrugada do domingo, quando uma dama não podia estar andando pelas ruas, ainda sem o sol ter nascido, com verdadeiro empressement desejava chegar o quanto antes ao túmulo, para assim venerar o Corpo Daquele que era o objeto absoluto de seu encanto. Estava de tal modo inebriada de amor, que neste ato de “imprudência” nem sequer se preocupava com os guardas, nem com a pesada laje a ser removida.

Chegando ao túmulo, encontrou-o aberto e os soldados não estavam mais lá. Aproximou-se e não viu o Sagrado Corpo do Redentor, julgando que o tivessem roubado. Sua primeira preocupação foi a de informar aos Apóstolos, demonstrando a pureza de seu amor todo feito de sabedoria e amor à hierarquia. Saiu correndo rumo ao Cenáculo. “Com seu ardor sem medida, Madalena contagiou os Apóstolos, e estes, associando-se aos mesmos sentimentos de amor, temor e esperança, partiram cheios de ânimo” 19 . São Pedro e São João entraram na gruta, constataram que de fato o corpo não estava ali e saíram. Ela ficou, pois não possuia outro desejo a não ser o de empregar todos os meios para saber onde colocaram o Divino Corpo de seu Mestre. Estando nesta aflição, aparecem dois Anjos. Estes lhe dirigem a palavra, interrogando-a sobre o porquê de seu pranto. Ela, tomada de zêlo, afirma: “Levaram o meu senhor e não sei onde o puseram” (Jo 20, 13), declarando, com isso, sua posição de escrava e incitando-os, respeitosamente, a dizer onde é que puseram o Corpo ou a indicar onde ele pudesse estar. O amor é cheio de educação, de elegância; o amor, quando é autêntico e puro, leva a um trato elevadíssimo 20 .

Tendo dito isto, ela se volta para trás, e sem dar-se conta vê Nosso Senhor em pé, contudo, não O reconhece. E Nosso Senhor lhe pergunta: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (Jo 20,15). Jesus disse isto para fazer aumentar ainda mais o seu amor, pois este é passível de crescimento, ou de diminuição . E quanto mais a pessoa explicita o amor que tem, mais nele cresce. Por esta razão, era conveniente que Madalena externasse seu entusiasmo e enlevo.

Então, Jesus disse: Maria! (Jo 20, 16). Bastou que o Salvador pronunciasse seu nome para que ela O reconhecesse. Imediatamente, atira-se aos pés de Nosso Senhor. Este, porém, a impede, para que sua Fé e Caridade atingissem um grau mais eminente. Maria obedece de imediato, por se tratar de uma ordem de ‘seu Senhor’.

Quer dizer, ela procurava o Corpo, e o que encontrou? Encontrou o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é, justamente, o fruto do amor. Quando a pessoa deseja com muito amor, devoção, enlevo, e sobretudo, com labaredas de entusiasmo, especialmente quando se trata de algo ligado a Deus, recebe mais do que aquilo que procura. O Criador sempre concede muito mais do que se pede.

Durante as perseguições, Maria Madalena juntamente com seus irmãos foram postos em um barco à deriva que chegou em Marselha no sul da França onde pregou a doutrina de Cristo e converteu um bom número de pessoas.
Morreu em um local solitário nas montanhas de Sainte-Baume, onde vivia em contemplação e penitência.

Concluamos com as palavras cheias de veneração sobre Santa Maria Madalena de São Francisco de Sales : “Ainda que não a honremos como virgem, se levarmos em conta a eminentíssima pureza que guardou depois de sua conversão, deve ser chamada arqui-virgem, porque, uma vez purificada na fogueira do amor sagrado, recebeu tão excelente castidade, e tão perfeita caridade, que depois da Mãe de Deus, ela foi quem mais amou a Jesus Cristo. Amou-O com os serafins, e ao amá-Lo foi mais admirável que eles, pois os serafins obtêm o amor sem dificuldades e conservam, mas esta santa o adquiriu com grandes suores e cuidados e o conservou com temor e solicitude” 21 .

1 Cf. ROYO MARÍN, A. Teología de la perfeccíon cristiana. Madrid: BAC, 2006.
2 Cf. Clá Dias, João. Homilia sobre o enlevo. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 9/5/2010.
3 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II q.184, a.1.
4 Cf. ROYO MARÍN, op. cit., ibidem
5 Clá Dias, João. Homilia sobre Santa Maria Madalena. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 22/07/2008, p.1-2
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Inocência e penitência. In: Dr. Plinio. São Paulo: Agosto, N.17, p.4, 1999.
7 CLÁ DIAS, João , op. cit., p.3
1 CLÁ DIAS, 2006, p.5(Arquivo IFTE)
8 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.328, 1896.
9 CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
10 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
11 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
12 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v.,330, 1896.
13 Cf.CLÁ DIAS, 2006(Arquivo IFTE)
14 CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
15 Cf. CLÁ DIAS, 2010(Arquivo IFTE)
16 MAITRIER, J. Petit sermon pour la féte de Sainte Marie-Madeleine. L’Ami du clergé. Paris: Juillet, n.28, 4v., 433-435, 1892.
17CLÁ DIAS, 2008, p.13(Arquivo IFTE)
18 CLÁ DIAS, 2008, p.15(Arquivo IFTE)
19 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
20 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
21 SALLES, F. Obras Selectas. Madrid: BAC, 1953, 1v, p.432-433