A paz que o mundo ignora

Ir. Lucía Ordóñez Cebolla, EP

Encontrava-se um cartuxo, certa vez, cavando no exterior do seu convento quando, inesperadamente, deparou-se com um vulto. Era o corpo de um monge ali enterrado fazia muito tempo, mas que se conservava incorrupto, como se estivesse vivo, a ponto de haver jorrado sangue fresco dele quando o irmão bateu-lhe com sua pá. Cheio de emoção, o religioso correu para comunicar o milagre ao padre superior, o qual, sem perder a serenidade, lhe disse: “Voltai a fechar a cova”.

Tal episódio, que chegou até nós conservando o anonimato de seus protagonistas, bem poderia ter-se dado na Cartuxa onde faleceu seu santo fundador – o Êremo de Santa Maria da Torre, na Calábria -, pois faz parte da regra serem enterrados sem mais caixão do que seu próprio hábito e sem mais epitáfio do que uma cruz.

Esta ordem religiosa, fundada por São Bruno em 15 de agosto de 1084, atravessou os séculos sem sofrer mudança nos seus estatutos: “numquam reformata quia numquam deformata – nunca foi reformada, porque nunca foi deformada”.2 Até hoje, seus conventos brilham por uma mesma forma de vida contemplativa, na qual a austeridade da penitência, o silêncio, o trabalho manual e a oração comunitária se fundem, transformando a vida dos seus integrantes num holocausto de agradável perfume que se evola até Deus.

O local onde São Bruno viveu seus últimos anos encontra-se numa região montanhosa, regada por rios e pequenos lagos. Em certas estações do ano, a neblina e o frio realçam e enaltecem o envolvente mistério do lugar. Dificilmente se encontram no mundo paragens como esta, onde a vontade de voltar o espírito a Deus em oração desponte de maneira tão intensa e profunda. Nos seus jardins há, sem dúvida, uma discreta ação do Espírito Santo, convidando-nos a elevar a mente rumo às montanhas eternas.

Entretanto, longe de destacar-se do resto da Igreja militante, a Cartuxa da Serra de São Bruno, embebida sobremaneira do carisma de seu fundador, rege a vida da cidadezinha que a circunda, visto que, embora radical no seu afastamento do mundo, a ordem impregna com sua sacralidade os que por ela se deixam influenciar.

– É a primeira vez que estais vindo? – perguntou-nos um ­montanhês da região – Pois voltareis, porque São Bruno atrai, ele vos puxa!

E assim foi. Apenas alguns minutos de passeio pelos bosques que circundam o mosteiro bastaram para descobrir quanto pode falar o silêncio sem precisar de palavras e quanto a solidão leva a conviver com o próprio Deus. Neste ambiente pervadido de graças, até o rigor do trabalho e da penitência se dulcifica no contato com o mundo sobrenatural, incomparavelmente superior àquele que apalpamos.

Depois de haver conhecido esta Cartuxa, pudemos compreender melhor as palavras proferidas pelo Divino Mestre: “Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10, 42)… As almas que se deixam arrebatar pela contemplação “são a mola oculta, o motor que dá impulso, nesta Terra, a tudo ­quanto diz respeito à glória de Deus, ao Reino de seu Filho e ao cumprimento perfeito da vontade divina”.

Uma lápide do museu da Certosa di Santo Stefano, pertencente ao mesmo complexo religioso, resume tudo o que ali se experimenta, numa belíssima frase de São Bruno: “Aqui, pela fadiga do combate, Deus dá aos seus atletas a desejada recompensa, isto é, a paz que o mundo ignora e a alegria no Espírito Santo”.

Revista Arautos do Evangelho, Março 2016

Do mar estrela…

Maria Clara Joice Silvino

2º Ano Ciências Religiosas

Uma terrível tempestade assalta o pequeno barco que navega em meio à escuridão da noite. Parece que a embarcação irá soçobrar devido as enormes ondas e o navegador já não consegue mais controlar o timão, que gira descontroladamente de um lado para o outro.

Mas uma certeza enche de confiança o experiente navegante: as estrelas continuam a cintilar no céu, e quando as nuvens se dispersarem, a estrela da manhã indicará o norte.

O mar é este mundo e nós somos os navegantes. Neste mar, os ventos das contradições são furiosos; bravas as ondas do sucesso; repentinos os assaltos dos piratas que querem roubar os nossos méritos; muitos são os que naufragam. Como é possível chegar ao porto da bem- aventurança? A resposta nos dá São Bernardo: “Olha a estrela, invoca Maria”[1].

“Nossa Senhora – comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira – é chamada, muito a propósito, de Estrela luminosíssima. Incontáveis astros reluzem no firmamento, porém Ela é o mais resplandecente de todos: ou seja, Maria é a mais luminosa das criaturas.”

“E por que é simbolizada pela estrela? Porque é durante a noite que cintilam as estrelas, e esta vida é para o católico uma noite, um vale de lágrimas, uma época de provação, de perigo e de apreensões. Na eternidade teremos o dia brilhante, porém na vida terrena teremos o escuro da madrugada. E nesta noite existe uma estrela que nos guia, que é a consolação de quem caminha nas trevas, olhando para o céu: Maria Santíssima, a mais fulgurante de todas as estrelas!”[2]

Sob a luz luminosíssima desta estrela não pereceremos. Porém, Maria não é só a estrela que nos guia, mas também o porto seguro que nos abriga nas tempestades desta vida. Olhando para esta estrela, não nos desviaremos; refugiando-nos neste porto de bonança, não naufragaremos nas tormentas, até chegarmos um dia à eterna bem-aventurança, onde receberemos a recompensa demasiadamente grande: contemplar para todo o sempre a luz desta estrela inextinguível.

[1] BERNARDO. Obras Completas. Madri: BAC, 1953. Vol. I. p. 205.

[2] Cfr. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência em 24/8/1965. In: CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. São Paulo: Ipsis, 2010, v1, p.47.

A realidade que só a fé alcança

Ir. María del Pilar Perezcanto Sagone,EP

Dificilmente paramos para refletir a respeito de um dom precioso que Deus nos deu: os cinco sentidos. Como seria a nossa vida, o nosso dia-a-dia, se eles nos faltassem? Como poderíamos nos relacionar com o mundo que nos rodeia? Que atividades seríamos capazes de executar? Como adquiríamos conhecimentos?

Imaginemos alguém assistindo a uma peça de teatro. Enquanto recebe notícia da música mediante os sons que lhe chegam aos ouvidos, seus olhos veem o que acontece no palco, a movimentação dos atores, o desenrolar das cenas, etc. Portanto, a audição e a visão estão ativas. Suponhamos, ainda, tratar-se de um teatro frequentado por pessoas de elevado status social e que se respira o suave aroma dos perfumes que usam: é a participação do olfato. E, finalmente, consideremos o nosso espectador sentado em uma cadeira confortável saboreando um delicioso chocolate francês: tato e paladar. Podemos concluir, então, que essa pessoa é influenciada pela realidade exterior através dos cinco sentidos. 1

São Tomás afirma que nada existe na inteligência humana que não tenha passado antes pelos sentidos – “Omnis nostra cognitio incipit para sensu” . 2 Ou seja, os sentidos têm um papel importante na vida e no desenvolvimento intelectual de todo ser humano. Como diz o Doutor Angélico, nem mesmo os anjos têm poder para introduzir algo no imaginário que os sentidos não tenham percebido anteriormente: “O Anjo age sobre a imaginação, não certamente imprimindo nela alguma forma imaginária que de nenhum modo tenha antes sido recebida pelos sentidos, pois o Anjo não pode fazer que um cego imagine as cores “.3

O próprio Deus se vale dos sentidos para fazer-nos conhecer o que deseja, pois “Deus provê a tudo de acordo com a natureza de cada um. Ora, é natural ao homem elevar-se ao inteligível pelo sensível, porque nosso conhecimento se origina a partir dos sentidos”. 4 Inclusive as verdades reveladas penetram em nossa alma através dos sentidos, principalmente através da audição, como afirma o Apóstolo: ” A fé provém da pregação e a pregação se exerce em razão da palavra de Cristo”. (Rm 10:17)

Podem enganar-nos nossos sentidos?

Entretanto existe uma realidade muito mais importante do que aquela que nossos sentidos conseguem captar: a realidade sobrenatural.

Tudo o que acontece na transesfera e que os seres humanos são incapazes de perceber – as influências dos Anjos e demônios sobre as almas, as graças que são derramadas sobre os homens, a própria presença de Deus em todas as partes, etc. – tem uma importância única no desenvolvimento da história. Ocorre que muitas vezes esquecemos dessa realidade pensando que somente o que vemos, ouvimos, olfatamos, apalpamos e degustamos é o que realmente existe. Oh ilusão! É sob esse ponto de vista que podemos afirmar que os nossos sentidos nos enganam, pois nos mostram apenas a realidade material, escondendo-nos as verdades que a nossa fé nos revela.

Exemplo eloquente encontra-se em um cântico intitulado “Adoro te devote” composta pelo Doutor Angélico, referindo-se a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia:

Visus, tactus, gustus in te fallitur,
sed auditu solo tuto creditur:
credo quidquid dixit Dei Filius
nil hoc verbo veritatis verius.

A vista, o tato, o paladar em Vós falham:
mas só pelo o que ouço , acredito firmemente.
Creio em tudo o que disse o Filho de Deus;
nada há mais verdadeiro que esta palavra da Verdade. 5

Vemos, assim, que, no caso do “Pão dos Anjos”, somente nossos ouvidos concordam com a realidade quando ouvimos as palavras do sacerdote que fala — in persona Christi —ao realizar a Consagração: “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu Sangue”. No entanto, os outros sentidos falham, pois não nos mostram o grande mistério que se esconde por detrás das Sagradas Espécies.

Visão naturalista: a verdadeira visão?

Há muitas pessoas que dizem: “É absurdo acreditar naquilo que os nossos sentidos não podem perceber, pois, quem pode comprovar que existe verdadeiramente?” Consequentemente, tais pessoas abandonam a fé católica, recusando-se a reconhecer que o fato de que seus sentidos externos são incapazes de contemplar tais verdades, não significa, de forma alguma, que elas realmente não existam.

Uma metáfora utilizada por Monsenhor João Clá Dias 6 ilustra eloquentemente o que foi dito: “Vamos supor que estamos viajando em um carro e contemplando um belo panorama. De repente, ao passar por um charco, os vidros do veículo se cobrem de lama e, consequentemente, deixamos de contemplar o panorama. Seria coerente afirmar que o panorama desapareceu somente porque os nossos olhos deixaram de vê-lo? A resposta negativa é evidente. O mesmo acontece no que diz respeito à existência de Deus e das realidades sobrenaturais: elas não deixam de existir simplesmente porque nós, pobres mortais, não somos capazes de contemplar.

Alguém poderia objetar: Se Deus realmente existe, por que não permite que O vejamos? São Teófilo de Antioquia responde:

“Deus é experimentado por aqueles que podem vê-Lo, desde que os olhos de sua alma estejam abertos. Todos têm olhos, mas alguns os têm obscurecidos e não percebem a luz do sol; e não é porque os cegos não vêem que a luz do sol deixa de brilhar, mas os cegos devem buscar a causa em si mesmos e em seus olhos”. 7

Afirma o próprio São Tomás, referindo-se ao conhecimento que podemos ter de Deus: “o que é cognoscível em si mesmo não é cognoscível por um intelecto por exceder em inteligibilidade o intelecto”.8 E acrescenta o seguinte exemplo: “O sol, ainda que seja ao máximo visível, não pode ser visto pelos morcegos em razão do excesso de luz”.9

Mons. João Clá Dias 10 explica, citando o Doutor Angélico, que Deus é “sumamente visível”, no entanto, assim como os morcegos são incapazes de ver a luz do sol porque eles não têm olhos, nós não podemos ver a Deus, porque nosso olhar não tem essa faculdade. “Ele é para todos universalmente incompreensível”, — declara São Dionisio —, ” e não pode ser conhecido pelos sentidos” . 11

Tomás de Kempis nos adverte a esse respeito: “Procura desapegar teu coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis: pois aqueles que satisfazem seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus”.12

Qual deve ser, então, o papel dos sentidos, em relação à fé? Monsenhor João responde: “Face à fé os sentidos têm que entregar-se, têm que render-se, nós temos a obrigação de dobrar os joelhos, de juntar as mãos e dizer: eu aceito” . 13

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O senso comum e a procura do absoluto. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano VII, n. 71, feb. 2004, p.27.
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A fidelidade ao primeiro olhar. São Paulo, 2007. (Arquivo IFTE).
3 Id. S. Th. I, q.111, a.3, ad.2.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q.1, a.9.
5 ARAUTOS DO EVANGELHO. Liber cantualis. São Paulo: Salesiana, 2011, p.74.
6 CLÁ DIAS. João Scognamiglio. Estamos em Deus e a Ele devemos nos abandonar!: Homilía. São Paulo: 14 ago. 2006. (Arquivo IFTE).
7 SAN TEÓFILO DE ANTIOQUÍA. In: COMISIÓN EPISCOPAL DE PASTORAL LITÚRGICA DE MÉXICO Y CONFERENCIA EPISCOPAL DE COLOMBIA. Liturgia de las horas. 20. ed. Barcelona: Desclée De Brouwer, 2005, v. II, p.217.
8 SANTO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q.12, a.1.
9 Loc. cit.
10 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Da série sobre a Fé II. Conferencia. São Paulo, 18 nov. 2006. (Arquivo IFTE)
11 SAN DIONISIO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op.cit. ad. 1.
12 KEMPIS, Tomás. Imitación de Cristo. Sevilla: Apostolado mariano. [s.d.], p.5.
13 CLÁ DIAS. Da série sobre a Fé II. Op.cit.

Grande dama, grande freira, grande santa

Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

Dotada de grande personalidade, sublimada pelas mais altas ações da graça, a matriarca da Ordem Carmelitana está entre as almas tão unidas a Deus que, por assim dizer, personificam a grandeza.

Ao raiar do dia, um belo espetáculo se contempla do alto da Serra da Cantareira, a poucos quilômetros da cidade de São Paulo. As trevas cedem espaço ao diáfano azul da abóbada celeste e as nuvens, que em vão tentam cobri-la, gradualmente se tornam cor de fogo. Em instantes o vermelho se transforma em dourado e, no horizonte, lento e majestoso desponta o Sol, pintando com tons vivos a natureza. Diante de tão grandioso panorama, quase por instinto o espectador se sente tomado de admiração e impulsionado a pensar na magnificência de seu Autor.

Ora, se o esplendor de algo material é capaz de reportar de tal forma ao Criador, com maior razão uma alma divinizada pela graça, mais valiosa do que o bem natural de todo o Universo!1 Na verdade, pessoas há tão unidas a Deus que, por assim dizer, personificam a grandeza, pois nelas resplandece a luz da vida divina presente em alto grau no seu interior.

Uma destas almas se destacou no século XVI. “Possuía inteligência vasta e privilegiada, ao mesmo tempo matizada e forte, talhada para altos voos. Além disso, [era] dotada de uma vontade firme e sensibilidade controlada por inteiro. […] Era, em última análise, a grandeza da personalidade humana num de seus exemplares mais privilegiados na ordem da natureza, refulgindo com sublimidades da graça e dando uma ideia completa do que seria o tipo perfeito da religiosa matriarca”.2

Com tal perfeição e fidelidade realizou os planos traçados por Deus para ela, que a grandeza se incorporou ao seu nome: Santa Teresa, a Grande.

Enfermidade e convite para a contemplação

Nasceu Teresa de Cepeda y Ahumada em 28 de março de 1515, em Gotarrendura, província de Ávila, no seio de uma numerosa família da pequena nobreza castelhana. Desde menina se interessava por histórias da vida dos santos, e quando soube dos feitos dos primeiros mártires, pensou ser esta via uma linha reta para o Céu. Decidiu, então, fugir com o irmãozinho Rodrigo para o país dos mouros, a fim de ali entregarem suas vidas em defesa da Fé. Já estavam bem distantes das muralhas da cidade quando um tio conseguiu localizá-los e os regressou ao lar.

Havendo perdido a mãe com apenas 14 anos, Teresa entregou-se nas mãos de Nossa Senhora, tomando-A por única Mãe. Aos vinte anos, ingressou no Mosteiro Carmelita da Encarnação, de Ávila — a princípio contra a vontade do pai —, onde emitiu os votos um ano depois.

Ali viviam quase 200 religiosas sob a regra mitigada do Monte Carmelo.3 Irmã Teresa recebeu uma espaçosa cela, junto com a liberdade de atender visitas a qualquer hora e ir à cidade por qualquer motivo. Era costume passarem as freiras horas conversando no locutório, convertido em uma espécie de centro de reuniões sociais.

Sem embargo, a cruz, elemento essencial da grandeza, não tardou a se apresentar àquela alma escolhida. Pouco depois da profissão religiosa, sua saúde se debilitara de tal modo que o pai, Alonso de Cepeda, obteve permissão para levá-la ao povoado de Becedas, onde morava uma senhora cujos tratamentos médicos possuíam fama de eficazes. Na viagem, Teresa conheceu a oração mental através do livro Terceiro Alfabeto Espiritual, do padre Francisco de Osuna, sentindo-se convidada à vida de contemplação.

Os tratamentos, entretanto, não produziram o resultado esperado: “No fim de dois meses, à força de remédios, minha vida se acabava”.4 De regresso à casa paterna, uma contração muscular fortíssima deixou-a sem sentidos por quase quatro dias. Tê-la-iam enterrado se o pai não tivesse se oposto. Ao despertar, seu estado era lamentável: “fiquei encolhida, como que enovelada. Parecia morta, incapaz de mover braços, pés, mãos e cabeça”.5

Mesmo nessas condições, Teresa desejava retornar logo ao convento. Sua alma, como a de Jó (cf. 2, 10), encontrava-se em excelentes disposições: “Estava muito conformada com a vontade de Deus, ainda mesmo que me deixasse sempre naquele estado. Se desejava sarar, era unicamente para ter solidão, como antes, e fazer oração”.6

Após três anos de paralisia, suas orações a São José lhe obtiveram a cura e, a partir daquele momento, a devoção ao Santo Patriarca se tornou primordial em sua vida.

Luta interior e paz de alma

Com a saúde um tanto débil, Teresa retomou a vida comunitária, na Encarnação. Contudo, ali ficava dissipada, descuidando-se da oração interior na qual tanto progredira durante sua enfermidade. Aquele mosteiro havia perdido o primeiro fervor da vocação e se afastado do espírito carmelita. No locutório, aberto as senhoras da sociedade, conversava-se com frequência sobre frivolidades e vaidades mundanas, e tudo isso acabou tendo uma influência negativa sobre a vida espiritual da Santa.

Passado algum tempo, a conselho do Frei Vicente Varrón, sacerdote dominicano, retomou o hábito de rezar mentalmente, embora isso lhe significasse, no início, travar uma verdadeira luta contra si mesma: “na verdade, para não ir à oração, era tão insuportável a violência que o demônio me fazia — ou o meu mau costume — e tal a tristeza que me dava ao entrar no oratório, que para me vencer precisava valer-me de todo o meu ânimo, que, dizem, não é pequeno. Com efeito, tem-se visto que Deus me deu coragem superior a das mulheres, mas a tenho empregado mal. Por fim, ajudava-me o Senhor”.7

Certo dia, rezando em seu oratório, ao perceber como suas conversas fúteis haviam aumentado as dores de Cristo, sentiu tão vivamente pesar por suas faltas, que se jogou aos pés de uma imagem de Nosso Senhor chagado prometendo não se levantar dali enquanto Ele não a fortalecesse para não ofendê-Lo mais. “Porfié y valióme 8 — Insisti e Ele me valeu”, diria mais tarde, contando o episódio.

“Minha alma” — conta ela no Livro da Vida, sua autobiografia — “recebeu grandes forças da divina Majestade, que deve ter ouvido meus clamores, compadecendo-se de tantas lágrimas. Começou a crescer em mim o gosto de estar mais tempo com o Senhor”.9 E acrescenta: “Quando interiormente me figurava estar junto de Cristo, […] ocorria-me de repente tal sentimento da presença de Deus, que de modo algum podia duvidar que o Senhor estivesse dentro de mim, e eu, toda mergulhada n’Ele”.10

Deus a faz passar pelo cadinho das provações

Crescia na intimidade com Deus a Santa carmelita por meio desta prática da oração, quando as tentações começaram a aparecer. Queria o Altíssimo fazê-la passar pelo cadinho das provações. Mas, se a investida das ondas encapeladas engrandece com seus golpes o rochedo que se eleva altaneiro à beira do mar, também os vagalhões da provação, quando enfrentados com confiança e ufania, fazem as grandes almas crescerem ainda mais.

“Como naquela época verificavam-se nas mulheres grandes ilusões e enganos do demônio, comecei a temer, pois era tão grande a felicidade e doçura, muitas vezes sem o poder evitar”.11 Falaram-lhe, então, do padre Gaspar Daza — quem mais tarde muito a ajudou e apoiou na reforma carmelitana — como o homem que poderia ajudá-la a discernir a origem dessa alegria. Era ele um teólogo de fama, “espelho de virtude para toda a cidade, como pessoa enviada por Deus para a salvação e aproveitamento de muitas almas”.12 Conheceu-o por meio de Francisco Salcedo, santo e virtuoso fidalgo, em algo aparentado com ela.

O teólogo analisou seu caso e mandou-lhe dizer que o convívio que dizia ter com Deus na oração mental não passava de imaginação e obra do maligno. Ademais, a fama da religiosa carmelita se havia espalhado pela cidade e, em pouco tempo, muitos eram da opinião de estar a beata da Encarnação endemoniada. Teresa mantinha no fundo da alma “a convicção de que [aquilo] era obra de Deus, sobretudo quando estava em oração”, pois nessas ocasiões sempre se sentia “melhor e mais forte”.13 Não obstante, seu coração se inquietava: “Grande é, não há dúvida, a aflição que se passa. Torna-se necessário usar de prudência, especialmente tratando-se de mulheres. É muita a sua fraqueza, e poderia causar grande mal dizer-lhes, positivamente, que estão sob a ação do demônio”.14

Aconselhada pelo próprio padre Daza, buscou apoio nos jesuítas, aos quais tomou por confessores, pois compreendiam bem a linguagem da via espiritual que lhe havia sido traçado pela Providência. Alentaram-na nesse terrível período os conselhos de São Francisco de Borja e, mais adiante, do franciscano São Pedro de Alcântara.

Cristo parecia andar sempre a seu lado

“Já não quero que fales com os homens, senão com os Anjos”,15 foram as palavras ouvidas por Teresa no primeiro êxtase que lhe concedeu a graça divina. “Desde aquele dia, fiquei tão animada a deixar tudo por Deus, como se naquele exato momento — que não me parece ter sido mais — Ele tivesse querido transformar a sua serva”.16 A par das provações, agora Cristo continuava a falar-lhe com frequência e parecia andar sempre a seu lado: “Não havia ocasião em que me recolhesse um pouco, ou não estivesse muito distraída, que não O sentisse junto de mim”.17

Não era raro, nessas intimidades com Jesus, sentir na alma o fogo do amor divino. Mais de uma vez chegou a ter seu coração transverberado por um Anjo, deixando-lhe as marcas físicas de uma perfuração: “Aprouve o Senhor favorecer-me algumas vezes com esta visão. Via um Anjo perto de mim […]. Via-lhe nas mãos um comprido dardo de ouro. Na ponta de ferro julguei haver um pouco de fogo. Parecia algumas vezes metê-lo pelo meu coração adentro, de modo que chegava às entranhas. Ao tirá-lo tinha eu a impressão de que as levava consigo, deixando-me toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que me fazia dar os gemidos de que falei. Essa dor imensa produz tão excessiva suavidade, que não se deseja o seu fim, nem a alma se contenta com menos do que com Deus”.18

Não é tempo de tratar com Deus assuntos de pouca importância…

Depois de uma visão do inferno, por volta de 1560, se desvendou em sua alma a grande missão que lhe estava reservada. Ao conhecer os assombrosos tormentos dos precitos, sentiu ela imensa compaixão por ver o grande número de almas que se condenavam. Penalizava-a sobremaneira a situação da Santa Igreja, pois lhe chegavam notícias dos danos causados naquela época pelas seitas que começavam a se disseminar pela Europa. Via com amargura quanta gente se afastava de Deus e quão poucos eram os seus amigos.

Passou a se perguntar, então, o que poderia fazer para ser útil à Igreja nessa terrível encruzilhada: “convenci-me de que a primeira coisa era seguir o que Sua Majestade tivera em vista quando me chamou à vida religiosa, e guardar minha Regra com a maior perfeição possível”.19 E aconselhava às suas irmãs de vocação: “ocupadas todas em orações pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse ao nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizera tanto bem”.20

A partir desta resolução, sua vida foi marcada por um crescente amor à sua Ordem Religiosa, não pensando em seu proveito espiritual, mas em servir ao Corpo Místico de Cristo, por cuja causa seu coração consumia-se de zelo. “Olhai, Deus meu, para os meus desejos e para as lágrimas com que Vos faço esta súplica! […] Lastimai tantas almas que se perdem e favorecei a vossa Igreja! Não permitais semelhantes danos na Cristandade, Senhor!”.21

Via, sobretudo, a necessidade de reformar o Carmelo e sentia o apelo da Providência para realizar essa missão. Desejava comunidades que não fossem meros refúgios de almas contemplativas, preocupadas em fruir e gozar do convívio divino, mas verdadeiras tochas de amor ocupadas em reparar o mal que era feito à Igreja. “O mundo está pegando fogo. Querem, por assim dizer, de novo sentenciar a Cristo, levantam-lhe mil testemunhos falsos. Pretendem lançar por terra a sua Igreja. […] Não, irmãs, não é tempo de tratar com Deus assuntos de pouca importância!”.22

Fundação de São José e início da Reforma do Carmelo

Esse desejo de fundar casas religiosas de estrita observância à Regra carmelitana primitiva logo foi confirmado e encorajado por Nosso Senhor. “Um dia, depois da comunhão, Sua Majestade me mandou expressamente que trabalhasse nessa empresa com todas as minhas forças. Fez grandes promessas de que não se deixaria de fundar o mosteiro, no qual Ele seria muito bem servido. Disse-me que devia ser dedicado a São José. Este glorioso Santo nos guardaria a uma porta, Nossa Senhora à outra, e Cristo andaria conosco. A nova casa se tornaria uma estrela da qual se irradiaria grande esplendor. […] Disse-me ainda que refletisse no que seria o mundo se não houvesse religiosos”.23

Não recebeu, todavia, o mesmo apoio da parte de seus superiores, de suas irmãs de hábito e da sociedade de Ávila… Foi só com muita prudência e o apoio de vários homens de Deus — entre eles São Pedro de Alcântara, São Luís Beltrão, o Bispo de Ávila, o padre Gaspar Daza, entre outros — que pôde superar as oposições levantadas e levar a cabo as reformas necessárias.

Ajudada por alguns amigos adquiriu, na própria cidade de Ávila, uma minúscula casa em precárias condições destinada a ser o novo mosteiro. Abraçado o empreendimento, começaram as provas: uma parede que estava sendo refeita caiu sobre seu sobrinho pequeno; seu cunhado, que dirigia os trabalhos, ficou enfermo; a bula papal aprovando aquela fundação chegou incompleta de Roma… E quando, no momento decisivo, amanheceu desabada mais uma parede da casa, construída com os últimos ducados que a irmã Teresa conseguira, a tentação de desânimo ameaçou a todos. Ela, porém, olhando para os destroços, disse: “Se caiu, tornemos a levantar”.24

Por fim, com as autorizações necessárias, em 24 de agosto de 1562, celebrou-se a primeira Missa no Mosteiro de São José, de Ávila, o primogênito dentre os Carmelos reformados. Na mais estrita pobreza e clausura, Teresa pôs-se a formar suas freiras, mostrando-lhes a força da vida comunitária bem levada, na obediência e na alegria. Lembrava-lhes sempre o principal motivo pelo qual haviam consagrado suas vidas: “Se para isto tivermos valimento junto de Deus, enclausuradas, pelejemos por Ele. Darei por muito bem empregados os sofrimentos pelos quais passei para fazer este cantinho, onde desejava que se guardasse com a perfeição primitiva a Regra de nossa Imperatriz e Senhora”.25

A grande Teresa, ontem e hoje

Esse modo radical de viver logo atraiu muitas novas vocações. Quando Santa Teresa entrou na eternidade, em 1582, deixou fundados mais de 20 mosteiros do ramo reformado, femininos e masculinos. No entanto, como sempre acontece com aqueles muito chamados, a árvore por ela plantada continuou, após sua morte, dando inestimáveis frutos para a Igreja nos cinco continentes.

Passados 450 anos da fundação do primeiro desses mosteiros, o Papa Bento XVI achou conveniente lembrar a conjuntura na qual viveu a Santa mística e o quanto aquela situação nos parece familiar. Para o Santo Padre, a reflexão da santa carmelita permanece atualíssima, luminosa e interpeladora. “Também hoje, como no século XVI, e entre rápidas transformações, é preciso que a oração confiante seja a alma do apostolado, para que ressoe com clareza evidente e dinamismo pujante a mensagem redentora de Jesus Cristo. É urgente que a Palavra de vida vibre nas almas de forma harmoniosa, com notas sonoras e atraentes. […] Seguindo os passos de Teresa de Jesus, permiti-me dizer a quantos têm o futuro à sua frente: aspirai também vós a ser totalmente de Jesus, só de Jesus e sempre de Jesus. Não tenhais medo de o dizer a Nosso Senhor, como ela fez: ‘Sou vossa, para Vós nasci; o que quereis fazer de mim?’ (Poesia 2)”.26

Atendendo ao apelo divino, soube Santa Teresa identificar com galhardia os objetivos de sua vida com os de Deus, passando para a História como “uma grande dama, uma grande mulher, uma grande freira e grande santa”. 27Por isso, canta com propriedade o introito da Missa em seu louvor: “Deu-lhe o Senhor sabedoria e prudência em abundância, e a grandeza do coração como as areias das praias do mar”.28

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.113, a.9, ad 2.
2 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santa Teresa de Jesus. Alma de rara grandeza. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano IX. N.103 (Out., 2006); p.24.
3 A regra carmelitana fora abrandada pela Bula de Mitigação promulgada por Eugênio IV, em 1432 (Cf. SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. São Paulo: Paulinas, 1983, p.267, nota 2).
4 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. C.V, n.7.
5 Idem, c.VI, n.1.
6 Idem, n.2.
7 Idem, c.VIII, n.7.
8 EFRÉN DE LA MADRE DE DIOS, OCD; STEGGINK, OCarm, Otger. Tiempo y vida de Santa Teresa. Madrid: BAC, 1968, p.99.
9 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. C.IX, n.9.
10 Idem, c.X, n.1.
11 Idem, c.XXIII, n.2.
12 Idem, c.XXXII, n.18.
13 Idem, c. XXIII, n.2.
14 Idem, n.13.
15 Idem, c.XXIV, n.6.
16 Idem, n.7.
17 Idem, c.XXVII, n.2.
18 Idem, c.XXIX, n.13.
19 Idem, c.XXXII, n.9.
20 SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de Perfeição. C.I, n.2.
21 Idem, c.III, n.9.
22 Idem, c.I, n.5.
23 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. C.XXXII, n.11.
24 EFRÉN; STEGGINK, op. cit., p.147.
25 SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de Perfeição. C.III, n.5.
26 BENTO XVI. Mensagem ao Bispo de Ávila por ocasião da celebração do 450º aniversário de fundação do Mosteiro Carmelita de Ávila e da Reforma da Regra carmelitana, de 16/7/2012, n.3-5.
27 CORRÊA DE OLIVEIRA, op. cit., p.24.
28 MISSÆ VOTIVÆ FESTA DE S. TERESIA DE ÁVILA. Ant. ad introitum. In: PROPRIUM MISSARUM Fratrum Discalceatorum Ordinis B. Mae Mariæ Virginis de Monte Carmelo. Editio Typica. Roma: Curiam Generalem OCD, 1973, p.52.

Revista Arautos do Evangelho n. 130. outubro 2012

Riqueza de aspectos da Celebração Eucarística

Irmã Monica Erin MacDonald, EP

Chamado à transcendência por meio da beleza

As celebrações litúrgicas, em especial a da Eucaristia, constituem o cerne da experiência do transcendente. Elas englobam elementos humanos e divinos em uma síntese de beleza que nos eleva a Deus.

Algo curioso ocorre quando refletimos sobre os episódios da vida de Nosso Senhor relatados nos Evangelhos. À medida que a narração se desdobra, eles começam a germinar em nosso espírito e acabamos por perceber experimentalmente como tudo quanto Cristo fez na Terra, há dois milênios, transcende a fronteira do tempo.

Com efeito, o Verbo Encarnado não pregava apenas para as multidões que se comprimiam em torno d’Ele nas aldeias da Judeia. As verdades sobrenaturais contidas nos seus adoráveis ensinamentos apresentam-se atualmente a nós muito mais claras do que o foram para os seus coetâneos. Assim acontece, por exemplo, quando lemos na Sagrada Escritura: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10) ou “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28, 20).

Ora, é um dos elementos essenciais da divina didática de Jesus servir-Se das realidades visíveis para nos elevar às invisíveis. Apontando para os lírios do campo, Ele incitou os cristãos de todas as eras a refletir sobre a providência amorosa de Deus. Sentou-Se junto a um poço e falou de água viva… Partiu o pão e aludiu ao alimento da alma…

Essa reversibilidade entre a esfera temporal e a espiritual faz parte da vida cotidiana da Igreja. É nela que os ritos do culto divino, especialmente a Celebração Eucarística, encontram seu sentido e fundamento.

Harmoniosa sucessão de palavras e signos

Analisemos, nessa perspectiva, o que sucede ao entrarmos numa igreja para participar da Santa Missa.

Logo na entrada, mergulhamos a mão na água benta, fazemos o Sinal da Cruz e dobramos o joelho, voltados para o tabernáculo. A seguir, acomodamo-nos num banco enquanto o órgão inunda com seus melodiosos acordes o recinto sagrado e uma luz suave flui através dos vitrais.

Em certo momento, ao toque de um pequeno sino, tem início a celebração. Um cortejo se dirige ao presbitério, precedido pela cruz acompanhada de duas velas acesas, um turíbulo e uma naveta. No fim, avançam solenes os diáconos e o sacerdote, revestidos de paramentos que reforçam o significado da cerimônia que vai se realizar, sobem os degraus do presbitério e, chegando ao altar, inclinam-se para osculá-lo.

E assim, na harmoniosa sucessão de palavras e signos ditada pelas sagradas rubricas, a Celebração Eucarística se desenvolve até o momento ápice da Consagração. Então, atuando em nome do único e verdadeiro Sacerdote, o celebrante pronuncia sobre o pão e o vinho a fórmula ensinada por Cristo e, em seguida, levanta alto o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, tão presente ali como quando caminhou pelas estradas da Galileia ou derramou seu Sangue no Calvário.

Os símbolos como ponte entre o espiritual e o corporal

O uso de signos materiais na Liturgia permite criar uma sólida ponte entre o corporal e o espiritual, o visível e o invisível, o humano e o divino.

O nosso espírito, ensina São Tomás, “para se unir com Deus, necessita ser conduzido pelas coisas sensíveis, porque ‘as coisas invisíveis de Deus são conhecidas por intermédio das criaturas’ (Rm 1, 20)”.1 E, no mesmo sentido, o Pseudo-Dionísio afirma: “Os seres celestes, devido à sua natureza intelectual, veem a Deus diretamente. Nós, pelo contrário, nos elevamos até onde podemos na contemplação do divino por meio de imagens sensíveis”.2

Logo, conclui o Doutor Angélico, “o culto divino precisa usar de coisas corpóreas para que, por elas, que são como sinais, a mente humana desperte para atos espirituais, mediante os quais nos unimos com Deus”.3

Elas não são um fim, mas sim um meio para tornar acessível o que é transcendente e convidar os fiéis a uma atitude de admiração, entrega e gratidão. É por isso que se tem afirmado ser a partir do homo simbolicus que se visualiza o homo religiosus.4

Riqueza de aspectos da Celebração Eucarística

Mas a linguagem simbólica, ao alimentar com largueza o intelecto por meio de todos os sentidos, principalmente da vista e do ouvido, não só põe o homem em contato com o Absoluto, mas faz isso de modo atraente. Porque, ensina o Papa Bento XVI, “a Liturgia, por sua natureza, possui uma tal variedade de níveis de comunicação, que lhe permitem cativar o ser humano na sua totalidade”.5

Ora, sendo a celebração litúrgica do Sacramento da Eucaristia ponto alto do culto cristão, os ritos que a compõem são síntese e ápice da expressão religiosa nos seus mais diversos aspectos. A conjugação de todos eles produz uma experiência ao mesmo tempo artística e mística que nos convida a considerar o desenvolvimento da Santa Missa em sua dupla dimensão estética e transcendente.

Cristo como centro da Liturgia

Uma primeira reflexão nos leva a considerar mais de perto o centro em torno do qual se articulam esse conjunto de palavras, silêncios, gestos e símbolos que compõem uma Celebração Eucarística. Qual é sua essência? O que eles representam?

A resposta no-la dá o Catecismo ao afirmar: “Pela Liturgia, Cristo, nosso Redentor e Sumo Sacerdote, continua em sua Igreja, com ela e por ela, a obra da nossa Redenção”.6

Afirma o Concílio Vaticano II: “Com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo — cabeça e membros — presta a Deus o culto público integral. Portanto, qualquer celebração litúrgica é, por ser obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, acção sagrada por excelência, cuja eficácia, com o mesmo título e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja”.7

Uma comunidade reunida para um banquete

Ora, “além de ser obra de Cristo, a Liturgia é também uma ação de sua Igreja. Ela realiza e manifesta a Igreja como sinal visível da comunhão entre Deus e os homens por meio de Cristo. Empenha os fiéis na vida nova da comunidade, implica uma participação consciente, ativa e frutuosa de todos”.8

Nesse sentido podemos afirmar ser a Celebração Eucarística uma oração social. O homem precisa do apoio dos seus semelhantes, e a reunião e interação de uma comunidade de fiéis é, em si mesma, um sinal sensível da relação invisível existente entre eles como um corpo místico.

Cristo está presente na comunidade em virtude de sua promessa: “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, então estarei no meio deles” (Mt 18, 20). A verdadeira unidade, pois, só é atingida com relação a um princípio mais elevado: “Somente […] quando o homem tem um relacionamento correto com Deus é que todos os seus outros relacionamentos — com seus semelhantes e sua conduta com o restante da criação — podem estar em boa ordem”.9

A união que tem lugar entre Deus e a alma no Sacrifício Eucarístico é espiritual, mas também física, já que o homem é um composto de corpo e alma. O sacrifício é expresso por sinais tangíveis, como uma refeição. A própria estrutura da Eucaristia emerge de sua instituição por Cristo na Última Ceia, com sua ordem: “Fazei isto em memória de Mim” (Lc 22, 19).

Compartilhar uma refeição fortalece a unidade e harmonia entre os participantes. Com efeito, a palavra latina convivium significa refeição, banquete. A Celebração Eucarística é por excelência o sacrum convivium, no qual os fiéis compartem o Corpo e Sangue de Cristo, tornando-se um n’Ele.

E qual o simbolismo do lugar, elementos e gestos usados na Liturgia? Leia no próximo post.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.81, a.7, resp.
2 DIONÍSIO AREOPAGITA. De ecclesiastica hierarchia .c.1, 2.
3 SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., II-II, q.81, a.7, resp.
4 Cf. RIES, Julien. Tratado de antropología de lo sagrado. Madrid: Trotta, 2005, p.9-14.
5 BENTO XVI. Sacramentum caritatis, n.40.
6 CIC 1069.
7 CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum concilium, n.7.
8 CIC 1071.
9 RATZINGER, Joseph. The Spirit of the Liturgy. San Francisco: Ignatius, 2000, p.21. ”.

O cetro da misericórdia

Emelly Tainara Schnorr

Tempo houve em que, conforme narram as Sagradas Escrituras, o povo judeu recebeu a ameaça de ser exterminado pelo Rei Assuero. Nesse momento crucial da sua história, entrou em cena a rainha Ester intercedendo junto ao monarca pelos seus e obtendo-lhes a salvação (cf. Est 3 – 7). Recordemos como isso se deu.

Segundo as leis em vigor naquela época, era proibido o acesso de qualquer pessoa ao átrio interno do palácio real sem ter sido convocada. Quem ali ousasse entrar por própria iniciativa seria imediatamente condenado à pena capital, a não ser que o soberano levantasse seu cetro de ouro em direção ao intruso, como sinal de assentimento. Havia um mês que Ester não era chamada à presença de Assuero, quando Mardoqueu alertou-a sobre a trama do infame Amã. Confiando, porém, no Deus verdadeiro e nas orações feitas pelos seus, a rainha dirigiu-se aos aposentos reais. O anseio por obter a salvação do seu povo vencia em seu espírito o medo da morte. Ao vê-la, o monarca se alegrou e lhe estendeu o temido bastão de comando, cuja ponta ela se apressou a tocar em sinal de submissão. “Que queres rainha Ester?”, perguntou-lhe o soberano. “Ainda que pedisses a metade do meu reino ela te seria concedida” (Est 5, 3). A ameaça fora vencida.

Esta admirável cena da História Sagrada prefigura uma realidade mais elevada e comovente para nós, cristãos. Expulso do Paraíso e tornado inimigo de Deus por causa do pecado, o homem do Antigo Testamento estava subjugado ao domínio do demônio, muito mais cruel e tirânico do que os de Assuero ou Amã. Como podia fazer para entrar novamente no Palácio Celeste e recuperar as boas graças do Criador? Quem ousaria comparecer diante do Rei da Justiça para interceder pela humanidade revoltada contra seu boníssimo Deus e Senhor?

Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus” (Lc 1, 30). As singelas palavras do Anjo Gabriel deixam entrever o inefável amor do Altíssimo para com uma criatura, a mais santa e nobre entre todas. Desde o momento de sua Imaculada Conceição, Deus A inundara de graças e favores. E bastou, por assim dizer, que Ela tocasse a ponta do divino cetro onipotente, advogando pela vinda do Salvador, para ser imediatamente atendida.

A fulgurante virtude da donzela de Nazaré conquistara de tal forma a benevolência do Criador que Ele decidiu tomá-La por Esposa Imaculada e torná-La sua Mãe Virginalíssima. E depositando em suas alvíssimas mãos o cetro que simboliza o domínio sobre todos os homens, tornou-A Rainha de Misericórdia. Pela onipotência suplicante que Deus lhe concedeu, nada pode ser negado a tão bondosa Soberana.

Como uma nova Ester, a Santíssima Virgem achou graça aos olhos do Senhor em favor de todos os homens e conseguiu a metade do seu império divino. Ela detém o cetro da misericórdia, enquanto o seu Filho continua a ser o Rei da justiça. Sim, Maria é o ministro plenipotenciário da misericórdia divina; esse é o seu ministério. Assim como nos Estados os que têm de tratar de uma questão de finanças, de marinha ou de agricultura se dirigem aos ministros respectivos, do mesmo modo é à Mãe de Deus que devem recorrer os que têm necessidade de misericórdia”.1

Nunca nos cansemos, portanto, de recorrer a Ela nos momentos de dificuldade e aflição. Do cetro que Lhe foi entregue por seu Divino Filho emanará sempre a força necessária para enfrentarmos qualquer adversidade da vida, porque, mais ainda do que Rainha e Senhora, Ela é Mãe extremosa de cada um de nós. “Sobretudo nas horas de sofrimento e de tentação, sempre poderemos contar com esse fator de paz fundamental: Nossa Senhora estará comigo, ainda que eu não esteja com Ela. Não me abandonará nunca e me ajudará em todas as circunstâncias. Virá ao meu encontro com a exuberância de sua misericórdia, concedendo-me mais do que Lhe peço e mais do que Lhe retribuo, deixando-me pasmo e desconcertado diante de tudo o que Ela faz por mim”. 2

1 TISSOT, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas. 3.ed. São Paulo: Quadrante, 2003, p.117-118.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 16 jun. 1972.

Fera ou Anjo

Irmã Isabel Cristina Lins Brandão Veas, EP

Encantadoramente vivaz, delicado e distinto em todos os seus gestos, o gato é um verdadeiro bibelô vivo. Mas conserva em seu olhar a terrível e atraente superioridade do mistério.

Apesar de tão irracionais quanto o universo inanimado, os animais realçam aos nossos olhos a grandeza e a sabedoria do Altíssimo, no insondável mistério da vida, a qual enobrece as criaturas a ponto de uma minúscula formiguinha ocupar, na ordem dos seres, posto mais elevado do que um imponente penhasco sobre o qual esteja caminhando.

Mas o mundo animal nos sugere também outras ideias. Enquanto as espécies mais elegantes e atraentes nos reportam logo à Beleza Suprema, diante daquelas disformes e repulsivas “sentimos melhor nossa dignidade natural, compreendemos a fundo a hierarquia que o Senhor pôs no universo e, amando nossa própria superioridade e a santa desigualdade da criação, elevamo-nos também até o Criador”. 1

Ademais, tal é a magnificência da fauna que, observando-a em seus detalhes, veremos como muitas espécies apresentam, em seu modo de ser, analogias com qualidades e defeitos do homem, proporcionando valiosos conhecimentos a quem as analisa. Pode-se aplicar, aqui, as palavras de Jó: “Pergunta, pois, aos animais, e eles te ensinarão, às aves do céu e elas te instruirão. Fala aos répteis da terra, e eles te responderão, e aos peixes do mar, e eles te darão lições” (Jó 12, 7-8).

Vejamos, então, que ensinamentos nos proporciona um animal de extraordinária riqueza de aspectos: o gato.

Difícil de ser definido é o seu comportamento, capaz de atingir extremos opostos. Tomando ares de pouco caso a respeito do que se passa à sua volta, o sutil felino não se desliga em nenhum momento da realidade exterior; deita de vez em quando um olhar vigilante, deixando entrever uma cautela disfarçada pela aparente despreocupação. Cautela tão acesa que ele nunca escorrega dos estreitos muros onde caminha, dando mostras de desconhecer a vertigem. E, se o derrubam, sempre cai de pé. Porém, ao mesmo tempo, por detrás dos olhos perscrutadores desse membro da família dos felídeos, se oculta um tigrezinho disposto a arranhar, morder ou quebrar tudo quanto estiver à sua frente, quando alguém ousa perturbá-lo.

Contudo, quando essa pequena fera é domesticada, sua rudeza natural desaparece e ela se transforma em um animal “encantadoramente vivaz, delicado e distinto em todos os seus gestos, expressivo em suas atitudes, carinhoso, mimoso, em suma, um verdadeiro bibelô vivo. Bibelô, entretanto, que não tem certo ar de bagatela, inseparável em geral até dos bibelôs mais finos. Porque em seu olhar, que tem algo de magnético e insondável, de reservado e enigmático, o gato conserva a terrível e atraente superioridade do mistério”. 2 Amansado pelos cuidados da civilização e acostumado ao convívio das pessoas educadas, o bichano adquire um cunho de graça e vivacidade, e quase parece ter algo de espiritual.

Sob tal aspecto, não será difícil ao homem encontrar nesse felino uma semelhança com sua própria natureza, pois, muito mais do que no gato, há nesta uma dualidade: “O homem, concebido em pecado original, tem em si, por assim dizer, uma fera e um anjo”.3

Com o Batismo, é dado ao homem o elemento indispensável para tornar-se semelhante aos espíritos celestes: a graça. Fiel a ela, o cristão adquire tal similitude com o mundo angélico que o Apóstolo não hesita chamá-lo de “homem espiritual” (I Cor 2, 15). E aqui cessam as analogias entre gato e homem, sob este ponto de vista. A alma santificada em nada se assemelhará a um mimoso felino, porque a graça não produz bibelôs, mas forma heróis, em sua principal e constante batalha contra a “fera” que se encontra dentro de si mesma.

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Não se deve tirar o pão dos filhos para lançá-lo aos cães. Ambientes, Costumes, Civilizações. In: Catolicismo. Campos dos Goytacazes. Ano VII. N.81 (Set., 1957); p.7.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Civilização e Tradição. Ambientes, Costumes, Civilizações. In: Catolicismo. Campos dos Goytacazes. Ano X. N.109 (Jan., 1960); p.7.
3 Idem, ibidem.

O Dom de Conselho em Maria

Ariane Heringer Tavares

Nada mais banal do que o correr das águas num rio; entretanto, nada mais emocionante e grandioso do que o momento em que as sagradas águas do Batismo caem sobre a cabeça do neófito, pois é neste momento que Deus infunde na alma as virtudes teologais e cardeais, que inclinam a vontade à realização de boas obras. Entretanto, devido à imensa fragilidade do homem após o pecado original, as virtudes não são suficientes para fazê-lo viver com toda a perfeição. Por este motivo, Deus concede também os sete dons do Espírito Santo — entendimento, sabedoria, ciência, conselho, fortaleza, piedade e temor de Deus — que são “hábitos sobrenaturais infusos, que agem sobre as virtudes, fortalecendo-as, tornando-as mais robustas e conduzindo-as a seu pleno desenvolvimento”.1

Por meio deles o cristão recebe não um convite sobrenatural comum para praticar o bem ou evitar o mal, como é próprio às virtudes, mas uma moção especial do Espírito Santo que o impele a executar aquilo que o próprio Deus deseja.2 Ou seja, requer da pessoa mais docilidade que atividade.

Como se sabe, cada um dos dons está relacionado de forma especial com a perfeição de alguma virtude: a caridade é aperfeiçoada pelo dom de sabedoria; a fé, pelos dons de ciência e entendimento; a esperança e a temperança, pelo temor; o dom de conselho aperfeiçoa a prudência, o de piedade, a justiça; o dom de fortaleza, a virtude da fortaleza. Ora, como atuam eles numa alma que já possui a plenitude de todas as virtudes, como é o caso de Maria Santíssima, a quem o Arcanjo chama “cheia de graça?” (Lc 1, 28).

Por serem hábitos sobrenaturais, os dons do Espírito Santo seguem proporcionalmente a graça, de maneira que, quanto mais perfeita é uma alma, maior é a atuação dos dons. Portanto:

“Depois de Cristo, a Mãe de Jesus, Mãe de Deus e dos homens, Mãe do Cristo total foi a alma mais dócil ao Espírito Santo. […] Cada um de seus atos conscientes procediam d’Ela e do Espírito Santo e apresentavam a modalidade deiforme das virtudes perfeitas sob o regime dos dons”.3

Existe um dom atribuído de forma especial a Maria, o qual desabrochou em uma das mais belas e recorridas invocações: Mãe do Bom Conselho. Como atua este dom em sua alma?

O dom de conselho é um hábito sobrenatural que dá à alma a capacidade de julgar pronta e seguramente, por uma espécie de intuição sobrenatural, o que convém fazer, sobretudo nos casos difíceis. O objeto próprio deste dom é a boa direção das ações particulares. É ele que permite ao cristão conciliar a simplicidade com a astúcia, a firmeza com a suavidade.

Em Nossa Senhora, este dom regia até mesmo as mais insignificantes ações. De fato, ao girar, por exemplo, a maçaneta de uma porta, Ela dava mais glória a Deus do que muitos outros santos no momento em que foram martirizados.4 Todos os seus atos se realizavam sob a inspiração do Espírito Santo, da maneira mais conveniente para a glória de Deus e cumprimento de seus divinos desígnios de salvação.5 Por isso, a Ela podem se aplicar, com toda propriedade as palavras da Escritura: “O conselho te guardará e a prudência te preservará” (Pr 2, 11).

Segundo Roschini, o dom de conselho manifestou-se de forma especial em duas ocasiões da vida de Maria Santíssima. Em sua apresentação no Templo, quando discerniu ser da vontade divina firmar, desde a infância, o voto de virgindade, e no momento da Anunciação, em que, antes de manifestar seu consentimento para a Encarnação do Verbo em seio puríssimo, quis conhecer as disposições divinas e só então, ofereceu-se totalmente ao Senhor.6 E acrescenta Alastruey ainda outra passagem do Evangelho:

Este dom de conselho brilhou no mais alto grau nas bodas de Caná; porque, não querendo seu Filho fazer o milagre que Lhe pedia, Ela, sem embargo, adverte solícita aos ministros, dizendo: Fazei o que Ele vos disser (Jo 2, 5); a respeito do que comenta Gardeil: ‘Ela ordena aos servidores que façam tudo o que disser seu Filho, e o milagre se realiza. Seu conselho prevaleceu, porque era no fundo o conselho de um amor inspirado pelo Deus da misericórdia.7

Uma vez que o bem é altamente difusivo, não poderia ser que Maria Santíssima guardasse para Si esta especial dádiva divina. Inúmeras vezes deve ter dado Ela mostras de seu conselho: o que não terá dito em sua visita a Santa Isabel, ou como aconselhou a São João Evangelista a voltar para o Senhor depois de ter fugido no momento da prisão no Horto das Oliveiras, ou ainda, como Ela orientou e sustentou a Igreja após a morte de seu Filho?

Se tantos foram seus conselhos durante a vida nesta Terra, com que profusão não se derramarão agora sobre seus filhos? “Nossa senhora como nossa Mãe […], tem o movimento próprio d’Ela a nos aconselhar. […] Ela nos torna presente que em todas as ocasiões difíceis de nossa vida nós devemos nos voltar para Ela e pedir esse tesouro que é o bom conselho”.8

É feliz, diz Maria, quem ouve meus conselhos e está continuamente junto às portas de minha misericórdia, invocando minha intercessão e socorro”.9 Saibamos, pois, recorrer a este Bom Conselho.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Conduzidos pelo fogo do Espírito Divino. In: Arautos do Evangelho, São Paulo, ano XII, n.137, maio 2013, p. 15.
2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. La Virgen María. Madrid: BAC, 1998, p.306.
3 PHILIPON, Marie-Michel, apud ROYO MARÍN. Op. cit. p.308. (Tradução da autora)
4 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNON DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. ed. 34. Petrópolis: Vozes. n. 222.
5 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Op. cit. p. 319.
6 ROSCHINI, Gabriel, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2011, v. II, p. 230.
7 ALASTRUEY, Gregorio. Tratado de La Virgen Santissima. 3.ed. Madrid: BAC, 1952, p.335. (Tradução da autora)
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Importância e valor do conselho: Conferência. São Paulo, 26 abr. 1971. (Arquivo IFTE). Matéria extraída de exposição verbal adaptada para linguagem escrita.
9 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Obras asceticas de Santo Alfonso Maria de Ligório. Madrid: BAC, 1952, p. 601. (Tradução da autora)

Enviai, ó Senhor, vosso Espírito

Maria Cecília Lins Brandão Veas

Panfletos e noticiários que transmitem últimos acontecimentos os há em abundância. Mas, onde encontrarmos subsídios que nos comuniquem o fim último e a realização suprema da existência dos homens? Assim sendo, pareceu-nos oportuno tecermos, neste artigo, esta realidade oculta, mas sublime, que encerra em si a grandeza dos arcanos de Deus: a conquista do Reino dos Céus, iniciado na Terra com a inabitação da Santíssima Trindade na alma.

Tendo a serpente entrado no Paraíso, penetrou com ela o veneno de morte fatal, que Adão e Eva sorveram como a mais ordinária bebida. Insidioso, o demônio saíra vencedor, não na totalidade, mas em larga medida. E eis que as gerações procedentes, manchadas pela culpa original, lutariam desfalecidas por esta terra de exílio, à espera do Salvador. Durante séculos, a História conheceu um de seus mais lânguidos, desolados e pungentes períodos, nos quais eram constantes as penitências, jejuns e preces que, na economia da graça, se erguiam aos Céus.

No momento determinado, entretanto, a Salvação se dignou vir das alturas. O Filho Unigênito de Deus, encarna-se triunfando vitorioso sobre o príncipe da morte, sublimando a obra de suas mãos. As portas do Céu reabrem-se, e é iniciado o Reino da graça e da benção, para o qual Deus chama a cada alma, renovando o convite feito a Adão: “Meu filho, eu te dei a condição de homem, não queres ser mais? Não queres ser um príncipe na minha criação? Eu te concedo uma participação criada na minha própria vida. Eu habitarei em ti, e tu serás templo no qual Eu viverei. Far-te-ei meu herdeiro”. 1 E no momento em que as águas batismais recaíram sobre nossas cabeças, ingressamos no imenso cortejo de almas ousadas que galgam à Pátria Celeste.

Mas, as consequências do pecado original vociferam em nosso interior: concupiscências, desejos desenfreados, intemperanças, frequentemente tomam-nos por inteiro levando-nos a empregar os esforços, onde lucro algum lograremos obter: o pecado. Por isso, pensaria alguém: “Ser herdeiros do reino Céus? Haverá o que sobrepuje mais profundamente a capacidade humana?” A resposta o Salvador a deu, quando exortou aos seus discípulos: “O que é impossível aos homens é possível a Deus”. (Le 18, 27)

É indubitável o fato de a vida ser dura e repleta de dificuldades. Porém, ai dos que agravam o exílio nesta Terra, fechando as janelas de sua alma que dão para o Céu! O que, pois, deveria estar ao alcance de nossa consideração, senão o imenso amor que Deus manifesta constantemente aos homens? As Três Pessoas Divinas incorrem infalivelmente ao nosso encalço: o Pai adota-nos como filhos, no Batismo; o Filho torna nosso irmão e redime-nos; o Espírito Santo santifica-nos. “É esta a grande obra de amor de Deus ao homem, e é o Espírito Santo o Amor essencial no seio da Trindade Santíssima”. 2

A Graça Santificante infundida em nossas almas no momento do Batismo, misteriosamente eleva-nos à natureza divina, tomando-nos dela partícipes. Ora, “esta realidade criada, que é a Graça Santificante, leva sempre consigo, inseparavelmente, outra realidade absolutamente divina e menada, que não é outra coisa senão o mesmo Deus, uno e trino, que vem inabitar no fundo de nossas almas3. De fato, “aos que chamou, também os justificou”, (Rm 8, 28) unindo-Se intimamente, como Pai e como Amigo.

O que é um bom filho senão a glória do Pai, e o que é um verdadeiro amigo senão aquele que devota fidelidade? Se a meta suprema da inabitação Trinitária é fazer-nos participantes do mistério da vida divina, transformando-nos em Deus 4, por que vivemos indiferentes à essas realidades?

Cada alma constitui uma província de eleição no Reino de Deus. E a fim de levarmos a cabo essa missão, o próprio Espírito Santo auxilia-nos constantemente com o bafejo de seus dons. Neste sentido, canta a Igreja no Veni Sancte Spiritus: Doce Hóspede da Alma. “Quando o Espírito vem e possui totalmente a alma com seus conselhos, instruções e impulsos de amor, nos comunica por meio de nossos pensamentos a voz do Senhor, ilumina nossa inteligência, inflama a vontade”. 5 Eis, pois, a chave de ouro da santidade!

Nada é mais bonito na Terra do que ver diretamente nas almas a santificação delas operada pelo Espírito Santo”. 6 Com as chamas do intenso amor, o Paráclito inculca quais as veredas que a alma deve trilhar para alcançar o píncaro da santidade. Muitos são os carismas, e inúmeras as vocações. Porém, se há algo que não se extingue, indiferente do chamado, é a luta contínua para efetivar a santificação. E tomando o leme de nossas almas, o Espírito Santo como que sopra no interior de nossas almas dizendo: “Você não está lutando por si, você está lutando por Mim, e lutando por Mim, o patrão de sua luta sou Eu” 7.

Assim consignou Nosso Senhor a Santa Catarina de Siena: “O Espírito Santo é o patrão das naves fundadas à luz da santíssima fé, conhecendo por ela, que o mesmo Espirito Santo, será quem as governe”. 8 Como um navegante que se subjuga às ordens do capitão, abandonemo-nos ao sopro do Espírito Santo, para bem chegarmos ao cais da eternidade. Somente assim estaremos devidamente preparados para o grande dia de nosso encontro com Deus.

Não nos esqueçamos, porém, que qualquer falta grave expulsa implacavelmente o Guia de nossas almas. “Não sabeis que sois templos de Deus, e que o Espirito de Deus habita em vós?.” (1Cor 4, 17) Esmeremo-nos, pois, ardentemente em manter em nosso templo o Divino Espírito. Invoquemo-Lo, sobretudo quando as rajadas do infortúnio afligirem nossas almas, para que perscrute o nosso coração derramando a abundância de seus dons, de maneira a transformar-nos por completo.

Dessa necessidade vem a prece que há séculos reza a Santa Igreja: Emitte Sputum tuum, et renovabis faciem terrae.

“Ou seja, antes de tudo, a face dessa nossa “terra” interior, da nossa própria alma, pode ser renovada de um instante para outro, por uma graça do Espírito Santo. Igualmente por uma particular intervenção d’Ele, há de ser regenerada a face do mundo, através do apostolado de autênticos católicos, inspirados pela Sabedoria divina, cheios de força e valor para enfrentar os inimigos da fé, assim como para atrair e fazer o bem a todos que devam pertencer à Santa Igreja”. 9

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Harmonia: Uma criatura de Deus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n. 137, ago. 2009, p. 20.
2 ROYO MARÍN, Antônio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2004, p. 71.
3 Ibid. p. 70.
4 Ibid. p. 76.
5 SAO BERNARDO. Obras Completas, y. IV. BAC: Madrid, 2006, serm. 2, 6.
6 CORREADE OLIVEIRA, Plinio. Nossa Senhora do Rosário, uma festa de glória! In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XV, n. I75, out. 2012, p. 18-19.
7 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Memórias: Palestra. São Paulo, 17 set. 1989. (Arquivo IFTE)
8 SANTA CATALINA DE SIENA. Obras de Catalina de Siena. 3. ed. Madrid: BAC, 2002. p. 406.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Emite Spiritum tuum et creabuntur. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n.134, maio. 2009, p. 4.

Uma saga, um mito, um poema

05 Santa Joana D'Arc01Irmã Carmela W. Ferreira, EP

SANTA JOANA D’ARC

Certas lendas parecem-se tanto com a realidade a ponto de levantar a pergunta: “Será, de fato, simples lenda?” Em sentido contrário, certas narrações históricas revestem-se de tantos aspectos surpreendentes que suscitam uma desconfiança: “Mas isto é mesmo real?”

Um dos mais expressivos exemplos do segundo caso é a vida de Santa Joana d’Arc, uma das maiores epopéias da História. São desconcertantes os traços de sua curta existência. Seriam mesmo inexplicáveis abstraindo-se a graça de Deus, que transformou essa delicada virgem camponesa em guerreira intrépida e fez de seu nome uma saga, um mito, um poema.

Desde muito pequena, preparada para sua grande missão

Quando Joana nasceu, em 1412, a França sangrava dolorosamente havia já 75 anos, nos duros embates da Guerra dos Cem Anos, contra a Inglaterra. O nome de seu vilarejo natal, situado no Ducado de Lorena, soa como um toque de sininho de aldeia: Domrémy.

Filha de camponeses honrados e laboriosos, ali passou ela sua infância, aprendendo o mesmo que as outras meninas de sua idade. “Ela se ocupava, como as demais mocinhas, fazendo os trabalhos de casa e fiando, e, algumas vezes, como eu mesma vi, cuidava dos rebanhos de seu pai” — conta Hauviette, sua amiga.

Entretanto, a nota dominante de sua infância foi sua exemplar piedade. Desde muito pequena, Deus a atraía para a contemplação de panoramas elevados. Destinada a grandes feitos, sua fé deveria ser robusta. Gostava imensamente de frequentar a igreja, e com sumo interesse dava os primeiros passos no aprendizado da doutrina cristã.

Jamais poderia ela imaginar a grande missão para a qual sua alma estava sendo preparada. Ouçamo-la narrar, com encantadora simplicidade, um acontecimento que a marcou profundamente: “Quando eu tinha mais ou menos 13 anos, ouvi a voz de Deus que veio ajudar-me a me governar. Eu ouvi a voz do lado direito, quando ia para a Igreja. Depois que ouvi esta voz três vezes, percebi que era a voz de um anjo. Ela me ensinou a me conduzir bem e a frequentar a igreja”.

Tempos depois, sabendo já que aquela “voz” era de São Miguel Arcanjo, conta: “Ela [a voz] me disse ser necessário que eu, Joana, fosse em socorro do Rei da França”.

Aos 17 anos, parte para a vida de batalhas

A Filha Primogênita da Igreja estava numa situação calamitosa. Em 1337, o Rei Eduardo III da Inglaterra, reivindicando para si o Trono da França, desencadeou a Guerra dos Cem Anos. Enfraquecidos por fatores de ordem moral e religiosa, além de graves discórdias internas, os franceses sofreram reveses sucessivos. Em 1420, foram obrigados a assinar o humilhante Tratado de Troyes, em consequência do qual o Rei da França perdeu o trono em favor do Rei da Inglaterra. Assim, a nação francesa caminhava para um inglório ocaso.

Precisamente nesta trágica circunstância, surge a figura argêntea de Santa Joana d’Arc, a camponesa iletrada, mas instruída nas vias da virtude por três enviados de Deus: o Arcanjo São Miguel, Santa Catarina de Sena e Santa Margarida de Antioquia.

Quando ela completou 17 anos, as “vozes do Céu” lhe indicaram que o momento de agir havia chegado. Saindo da casa paterna, Joana conseguiu convencer o Capitão Roberto de Baudricourt a conduzi-la à presença do “Delfim” (assim era chamado o monarca francês Carlos VII, ainda não coroado Rei), o qual se encontrava em Chinon.

Com a convicção e confiança recebida das vozes celestes, afirmava ela ser a vontade do rei do Céu que Carlos fosse coroado, e que ela era chamada a comandar em nome de Deus os exércitos franceses para expulsar da França as tropas inglesas.

Após vencer muitas dificuldades, a pastora de Domrémy chegou à corte no dia 6 de março de 1429. Nesta ocasião ela se encontraria, por fim, com o monarca que ela própria levaria ao trono. Para testar a autenticidade da missão da qual ela assegurava estar incumbida, e também para divertir-se frivolamente às custas da “ingênua” camponesa, Carlos decidiu disfarçar-se no meio de seus cortesãos, enquanto outro ficaria sentado no trono, vestido com os trajes reais.

Entrou a Santa e foi apresentada ao falso Delfim. Sem dar-lhe maior atenção, ela imediatamente passou a observar todas as fisionomias do recinto, até ver Carlos escondido em um canto. Fixou nele seu puro e penetrante olhar, e fez-lhe uma profunda reverência, dizendo: “Muito nobre senhor Delfim, aqui estou. Fui enviada por Deus para trazer socorro a vós e vosso reino”. O assombro geral logo deu origem a estrondosas aclamações.

Em longa conversa, Santa Joana d’Arc expôs a Carlos VII a missão a ela confiada pela Providência e solicitou que lhe fosse posto à disposição um exército para acorrer logo em defesa de Orléans. Convencido, afinal, pelo que vira e ouvira, Carlos não hesitou em fazer o que a enviada de Deus lhe indicava.

Coroação do Rei: dia de glória e alegria

Santa Joana D' Arc2Desta forma o mundo de então presenciou um fato absolutamente inédito: Joana, a “donzela”, marcha à frente dos exércitos franceses, conduzindo-os para uma batalha decisiva.

A presença dessa virgem resplendente de inocência e de certeza na vitória impunha respeito no acampamento e dava novo alento aos oficiais e soldados. Proibiu terminantemente as bebidas alcoólicas e os jogos. Sobretudo, fez questão de que os soldados pudessem confessar-se e receber a santa Comunhão.

Seus conselhos de guerra jamais falharam, causando admiração aos mais experimentados generais. A tomada de Orléans foi um esplêndido triunfo! Em meio à batalha, lá estava ela segurando seu branco estandarte bordado com a imagem de Nosso Senhor e as palavras Jesus, Maria.

Após a tomada de Orléans, seguiram-se outras grandes vitórias. Graças a Santa Joana d’Arc, renascera na França o ideal de unidade e a esperança de reconquistar o território perdido. O povo não poupava entusiásticas manifestações de gratidão e admiração pela “Donzela”.

Chegou, enfim, o almejado dia em que o Rei da França voltou a ocupar o trono ao qual só ele tinha direito. Em 17 de julho de 1429, Carlos VII foi solenemente coroado, tendo a seu lado Santa Joana d’Arc com seu estandarte. Alguém lhe perguntou o motivo da presença daquele lábaro de guerra numa cerimônia de coroação, e recebeu pronta resposta: “Ele esteve comigo na hora do combate, é natural que esteja também no momento da glória”.

Foi um dia de grande festa. Mais do que nunca, a alegria invadia-lhe a alma. Embora os ingleses não tivessem ainda sido expulsos totalmente, o Reino da França já estava restabelecido!

Uma terrível perplexidade

Em pouco tempo, porém, a essa alegria se sobreporiam as pesadas sombras da ingratidão, das intrigas e da traição.

O Rei, sentindo-se agora poderoso e firme em seu trono, rapidamente se esqueceu da gratidão devida a essa heróica donzela. Pior ainda, Carlos VII, dominado por surda inveja, abandonou-a à própria sorte.

Santa Joana d’Arc sofreria da mesma forma que o Divino Salvador, o qual, depois de ser recebido triunfalmente no Domingo de Ramos, foi crucificado na Sexta-Feira Santa.

Mesmo assim, ela continuou a luta, disposta a não depor armas enquanto houvesse tropas inglesas no território francês. Tentando salvar a cidade de Compiègne, em 1430, ela foi feita prisioneira por soldados da Borgonha (aliada da Inglaterra) e entregue aos ingleses.

Santa Joana D' Arc1Estes levaram-na a um tribunal da Inquisição, formado irregularmente e presidido por um bispo indigno e corrupto, Pierre Cauchon, ao qual foi oferecida alta soma em dinheiro.

Perante o iníquo tribunal, a inocente jovem foi acusada de heresia e bruxaria. Não faltou quem atribuísse suas vitórias a um acordo com os espíritos malignos. Não lhe foi dado um defensor, mas ela, assistida pelo Espírito Santo, defendeu-se com tanta segurança e sabedoria que deixou pasmos tanto os acusadores quanto os juízes.

Esse tribunal, porém, não se reunira para julgar… A sentença condenatória já estava decidida de antemão. A salvadora da França foi condenada à pena de morte na fogueira em praça pública.

Torturada pelas pressões e injustiças das quais era vítima, Joana tinha um sofrimento maior, uma terrível perplexidade: o Rei estava reposto em seu trono, mas os ingleses ocupavam ainda boa parte do território francês; iria ela morrer sem ter cumprido inteiramente sua missão?

O prêmio da confiança e da fidelidade

Na manhã triste e fria do dia 30 de maio de 1431, ela foi queimada viva na cidade de Rouen, aos 19 anos de idade. Amarrada em meio às chamas e olhando para seu crucifixo, ela reafirmou em altos brados a inabalável confiança no cumprimento de sua missão: “As vozes não mentiram! As vozes não mentiram!”

Terá ela recebido nesse instante supremo alguma revelação que a tirou da angustiante perplexidade? Ter-lhe-ão “as vozes” falado uma última vez, explicando que, graças ao irresistível impulso por ela dado, em pouco tempo a França estaria livre dos invasores?

Quem saberá dizer? O certo é que em 1453, após a batalha de Castillon, os ingleses foram expulsos do Reino da França.

Em 1456, um inquérito judicial realizado por ordem do Rei teve como resultado a declaração da inocência de Santa Joana d’Arc. Beatificada por São Pio X em 1909, foi ela canonizada por Bento XV em 1920. A Santa Igreja celebra sua festa no dia 30 de maio.

Guardadas as devidas proporções, essa virgem guerreira e mártir bem poderia cantar como a Mãe de Deus:

“Minha alma glorifica o Senhor (…) porque lançou os olhos sobre a baixeza de sua serva, e eis que de hoje em diante me proclamarão bem-aventurada todas as gerações. Porque realizou em mim maravilhas Aquele que é poderoso e cujo nome é santo.”

Nossa Senhora das Maravilhas

Madre Mariana Morazzani Arráiz, EP

“Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que existiu e existirá: um Homem-Deus; e Ela produzirá, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos” (São Luís Grignion de Montfort).

São inumeráveis as maravilhas operadas pela Mãe de Deus ao longo desses vinte séculos de História da Igreja. Com razão, pois, o povo fiel, entre centenas de outros títulos, invoca a Imaculada Esposa do Espírito Santo como Senhora das Maravilhas.

Quando brotou da alma católica essa invocação?

Sabemos que ela já existia pelo menos desde as primeiras décadas da descoberta da América.

Na Catedral de Salvador, Bahia

Quando, em 1552, aportou na Bahia o primeiro Bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, trazia ele uma preciosa imagem de Nossa Senhora das Maravilhas, presente do Rei Dom João III à recém-descoberta Terra de Santa Cruz.

Concluída a construção da Catedral da Sé de Salvador em 1624, seu Bispo, Dom Marcos Teixeira, entronizou na principal capela lateral a imagem de Nossa Senhora das Maravilhas, onde a Mãe de Deus passou a acolher com benevolência todos quantos a Ela vêm pedir auxílio.

Nossa Senhora das Maravilhas BrasilPoucos anos depois de ser entronizada nesta capela, o Menino Jesus que ela traz nos braços foi sacrilegamente furtado, quebrado em vários pedaços, lançado no lixo da cidade, onde foi depois encontrado, faltando uma das perninhas. Uma mulher ao procurar lenha encontrou esta perninha, e não sabendo o que era, lançou-a no fogo. Oh, maravilha! Para admiração da mulher, aquele pedacinho de madeira saltou para fora do fogo, sendo preservado. Deste modo se pôde restaurar o Divino Menino que foi devolvido aos braços da Mãe, com muito grande devoção.

O “estalo” do Padre Antonio Vieira

Por meio dessa imagem, o Senhor tem operado muitos e grandes milagres. Um dos mais conhecidos deu-se com o famoso Padre Antonio Vieira.

Tendo vindo menino para o Brasil, iniciou ele seus estudos no Colégio dos Jesuítas na Bahia. Nos primeiros tempos não passava de estudante medíocre, mal compreendendo as lições, a ponto de pensarem os superiores em dispensá-lo do Colégio.

Em seu grande desejo de ingressar na Companhia de Jesus, certo dia, já quase desesperado com sua dificuldade nos estudos, foi Vieira suplicar auxílio aos pés da Senhora das Maravilhas. No meio da oração, sentiu como um “estalo” em sua cabeça, acompanhado de uma dor muito forte que o prostrou por terra, dando-lhe a impressão de que ia morrer. Ao voltar a si, deu-se conta de que aquelas coisas que antes pareciam inatingíveis e obscuras à sua inteligência, tornaram-se claras. Assim, Vieira percebeu a enorme transformação ocorrida em sua mente.

Ao chegar ao Colégio, pediu que o deixassem participar das disputas com os colegas. Para espanto dos mestres, venceu todos os companheiros com o brilho de seu raciocínio. Daí por diante foi o primeiro e mais distinto aluno em todas as disciplinas, tornando-se um dos maiores oradores sacros e escritores da língua portuguesa.

Devoção na Espanha: o Menino Jesus das Maravilhas

Na Capital espanhola, o nome de Nossa Senhora das Maravilhas tem sua origem em fatos encantadores e poéticos, próprios à Virgem das Virgens.

Passeando pelo jardim de seu convento num dia de 1620, algumas fervorosas freiras carmelitas descobriram uma imagem do Menino Jesus recostada sobre um tufo de flores conhecidas pelo nome de maravilhas.

Cheias de surpresa, não sabiam elas o que mais admirar, se o diminuto tamanho do Menino, de apenas sete centímetros, se sua extrema formosura, ou se as circunstâncias em que foi descoberto. Com grande alegria e devoção, levaram-no para a capela, onde lhe improvisaram um altar ornado com as flores irisadas de amarelo e alaranjado, sobre as quais havia sido encontrado.

E começaram a invocá-lo como o Menino Jesus das Maravilhas.

Nossa Senhora das Maravilhas1Nossa Senhora das Maravilhas, imagem de madeira

Poucos anos depois, chegou a Madri uma antiga imagem da Virgem, cuja origem também está envolta nas brumas da história.

Consta ser ela do século XIII. Em 1585, estava exposta à veneração dos fiéis no povoado de Rodas-viejas, mas em tão deplorável estado de conservação que o Bispo de Salamanca mandou retirá-la da igreja. Alguns paroquianos, entretanto, não se conformaram com essa decisão. E um deles obteve autorização para ficar com a imagem em sua própria residência.

Tinha porém a Santíssima Virgem desígnios admiráveis a respeito dessa sua imagem. Após algumas vicissitudes, foi ela parar em Madri, tornando-se propriedade de Ana Carpia, esposa do escultor Francisco de Albornoz, o qual a restaurou na perfeição.

À residência desse católico casal começaram a afluir, em número cada vez maior, vizinhos e conhecidos para rezar diante dessa imagem, pois correra a notícia de que ali a Mãe de Bondade concedia favores a seus devotos.
Um estupendo milagre tornou-a famosa na cidade inteira. Numa lamentável explosão de ira, um caçador apunhalou brutalmente um jovenzinho das vizinhanças, deixando-o meio morto. A mãe do menino foi correndo prostrar-se diante da imagem, implorando a Nossa Senhora a cura do filho. Pouco depois, ficou ele totalmente são e salvo.

Diante desse prodígio, seguido de muitos outros, o Vigário Geral da Diocese ordenou a Ana Carpia que entregasse a imagem a alguma igreja. Como se vê, a própria Mãe de Deus se ocupou de, por meio de milagres, recuperar para essa sua imagem um trono em algum edifício sagrado.

Para qual igreja levá-la?

No mosteiro das carmelitas

A senhora Carpia decidiu escolher, mediante sorteio, um dos quatro conventos carmelitas então existentes em Madri. A sorte recaiu sobre o mosteiro onde aparecera anos antes o Menino Jesus das Maravilhas.

Assim, em 17 de janeiro de 1627, Ana Carpia e seu esposo fizeram lavrar em cartório o ato de doação da milagrosa imagem às freiras carmelitas. No dia 1º de fevereiro desse ano, foi ela transladada para o mosteiro em solene procissão, assinalada por um significativo fato: durante todo o trajeto, uma branca pomba sobrevoou a imagem e entrou com ela no interior da ermida, onde se deixou colher pelas monjas. Estas a consagraram à Virgem no dia seguinte, 2 de fevereiro, festa da Purificação de Maria, e a retiveram no convento.
As freiras ornavam as mãos sagradas da imagem com as flores chamadas de maravilhas. Em certo momento, uma delas teve a inspirada ideia de colocar sobre essas flores a minúscula imagem do Menino Jesus das Maravilhas, o qual adquiriu especial encanto posto nesse trono floral. Com isto, a Mãe acabou tomando o nome do Filho: Nossa Senhora das Maravilhas.

É esta a origem do belo nome da imagem venerada em Madri.

O manto de Nossa Senhora cura o Rei Felipe IV

Em 1639, atacado por conspiradores, ficou o rei gravemente ferido.

A notícia comoveu toda a corte. Ordenaram-se orações em todos os templos pela saúde do rei, especialmente na ermida da Senhora das Maravilhas.

A rainha Mariana d’Áustria pediu às carmelitas um manto da Virgem para colocá-lo sobre o leito do monarca. Apenas foi colocado, com grande surpresa para todos, o rei perguntou à rainha: “O que pusestes sobre mim, que me encontro inteiramente bem?”

Em gratidão por tão grande favor da Virgem das Maravilhas, o rei mandou construir às suas expensas a atual igreja, inaugurada em 1646. Ademais, criou um patronato presidido pela rainha e vários personagens da corte, com a obrigação de dotar o convento das Maravilhas com uma renda anual. O rei muitas vezes ia fazer exercícios espirituais com as carmelitas, dizendo que “lhe davam alentos para o exercício de seus altos deveres de Estado”.

Prodígios da Virgem das Maravilhas

Além da cura do rei e do menino moribundo, muitos outros fatos extraordinários aconteceram ao longo da história desta imagem.

Em 12 de agosto de 1675 armou-se uma grande tempestade durante o canto da Salve Rainha, entrando na igreja uma fagulha de um raio que causou dano a várias pessoas, entre elas uma menina de três anos que ficou como morta.

Aflito, seu pai a tomou nos braços e a pôs sobre o altar da Virgem, implorando misericórdia. Surpreendentemente, aos poucos, a menina voltou a si como se nada tivesse acontecido.

E em 1689, um pintor que estava trabalhando na abóbada da igreja, caiu sobre as pedras do presbitério, parecendo morto. Ante a invocação da Virgem e a aplicação de uma sua estampa, voltou a si e foi para sua casa andando normalmente.

Invocação mais bela e sugestiva não poderíamos sugerir a nossos leitores. Peçamos a Nossa Senhora que inunde a Terra com as torrentes da graça de que Ela é cheia, fazendo triunfar de maneira fulgurante o seu Imaculado Coração, abrindo para a humanidade, o quanto antes, uma nova era dos esplendores mariais.