Os nossos maiores benfeitores

Ir Clotilde Neuburger, EP

No primeiro dia da criação, Deus fez a luz. Certamente este trecho não se refere à luz material, pois esta seria criada no quarto dia. Do que se trata, então? Como ensina São Tomás de Aquino, esta seria uma outra “luz” imensamente superior: a formação da criatura espiritual, os Anjos.

Apesar de muito se ouvir falar deles, nem todos têm um exato conhecimento da finalidade para qual eles foram criados. E, com relação a nós, humanos, em que nos ajudam e favorecem?

Todas as criaturas de Deus, sejam Anjos, homens, animais ou seres inanimados, têm relação entre si, porém, mais especialmente os Anjos para com os homens. Na verdade, ao criá-los, Deus não teve em vista somente a Sua glória extrínseca. Em Sua infinita Providência, outorgou-lhes todo o governo sobre estes mesmos homens, para ajudá-los neste vale de lágrimas e guiá-los em seu percurso rumo à eternidade.

Tanto é assim que, segundo afirma Santo Agostinho, não podemos considerar duas sociedades separadas, uma dos Anjos e outra dos homens, pois se assim fosse, estes nada teriam a ver com aqueles, e vice-versa.

Anjos e homens formam uma só sociedade, que se entrelaça e se inter-relaciona. Mons João Clá Dias comenta que “os Anjos são muito mais exemplos para os homens do que os próprios homens são exemplos para outros homens.”

Mas nesta nossa relação com os Anjos, quais são os benefícios que eles nos trazem? Os teólogos costumam reduzi-los a doze:

  1. Repreendem nossas faltas.

Muitas vezes, quando sentimos uma dor de consciência por termos feito algo de errado, é um anjo que nos está admoestando.

  1. Ajudam a nos livrar do pecado.
  2. Afastam os obstáculos que atrapalham nosso progresso espiritual.

Eles nos amparam e nos dão forças para evitar certas ocasiões e más companhias que impedem nosso progresso.

  1. Fazem-nos evitar as tentações.
  2. Instruem-nos.

Eles iluminam nossa inteligência e fortalecem nossa vontade para praticarmos o bem e a virtude, afastando-nos do caminho do mal.

  1. Revelam-nos, ocasionalmente, segredos.

Por exemplo: Podemos sentir, dentro de nós, uma inspiração para rezarmos por alguém que está passando por dificuldades. É o Anjo revelando-nos que aquela pessoa está necessitando de orações.

  1. Consolam-nos.

Às vezes estamos em uma situação de grande provação e, de repente, sentimos dentro da alma uma consolação. São os Anjos.

  1. Fortalecem-nos.
  2. Guiam-nos à Pátria Celeste.
  3. Expulsam e vencem nossos inimigos.

Os Anjos, quando se aproximam de nós, fazem com que os demônios fujam espavoridos.

  1. Suavizam as tentações.
  2. Rezam por nós e apoiam as nossas orações.

Inúmeras vezes fazemos uma oração sem grande valor e obtemos um resultado enorme. Não nos enganemos! São os Anjos que se uniram às nossas orações, dando-lhes força.

Assim, chegamos à seguinte conclusão: o fato de termos recebido de Deus um Anjo da Guarda pessoal é um presente incomparável. Devemos ter para com ele uma amizade pessoal, que nos faça um só com ele. Nunca nos deixemos iludir, pensando estar sozinhos ou nos imaginando capazes de praticar qualquer ato bom, sem o auxílio da graça e dos Anjos.

bem-feitores

Uma só valeu

Marcela Rodrigues

1º ano de Ciências Religiosas

Em um pequeno povoado, havia uma modesta senhora que morava a certa distância da igreja. Resolveu, um dia, fazer uma promessa de assistir a um grande número de Missas durante um ano a fim de alcançar uma graça que há tempo desejava.

Começou a pagar a promessa. Assim que tocava o sino para o Santo Sacrifício, interrompia imediatamente seus afazeres e se dirigia com toda prontidão à igreja. Para ter a segurança de que estava cumprindo com perfeição sua promessa, a cada Missa que assistia, colocava um papelzinho dentro de uma caixa e a fechava com todo cuidado.

Passado um ano, não tinha a menor dúvida de haver cumprido plenamente o que prometera e ter alcançado muitos méritos. Para garantir que Deus lhe atenderia, abriu a caixa na qual havia colocado os papéis das Missas às quais assistira durante o ano. Qual não foi sua surpresa quando encontrou só um papel, dos muitos que havia depositado!

Desolada, foi procurar um virtuoso sacerdote e lhe expôs o seu caso. Este, dotado de muita sabedoria, perguntou-lhe qual era a disposição de alma com que assistia à Missa. Ela, com toda veracidade, respondeu que no caminho para a igreja ia pensando no que tinha que fazer e nos trabalhos domésticos. E, pior ainda, durante a celebração eucarística ficava pensando em bagatelas e outras coisas, menos no valor daquele sublime ato que estava se passando.

O sacerdote, com muita bondade, disse à pobre senhora que certamente o seu Anjo da Guarda havia tirado os papéis e deixado somente um, pois só a uma Missa ela havia assistido com devoção…

Nós, que temos a graça de assistir diariamente ao Santo Sacrifício, qual é o valor que lhe damos? Será que verdadeiramente assistimos a muitas Missas ou, “só uma” nos valerá…

Reunião com os Anjos?

Ir Bruna Almeida Piva

Conta-se que, no século XVIII, ingressou na Ordem dos dominicanos um jovem muito fervoroso, que nos fulgores das graças primaveris era constantemente assistido por seu superior. Qualquer função que devesse desempenhar, ou qualquer dificuldade que encontrasse, estava ali seu encarregado para auxiliá-lo ou ensinar-lhe os pontos da regra.

Certa vez, porém, o superior entrou em retiro, ficando o pobre noviço obrigado a passar um longo período sem a ajuda de seu protetor.

Passados alguns dias, as graças iniciais que costumavam inundá-lo começaram a rarear, as provações e tentações comuns da vida religiosa passaram a visitá-lo com mais frequência. Atordoado e inexperiente em meio ao desconhecido mundo espiritual, pensava haver perdido a vocação, ter sido abandonado pela Providência, ou mesmo ter cometido algum pecado grave… No entanto, pedir auxílio ao encarregado ser-lhe-ia impossível até o término do retiro.

O que fazer? Como resolver tamanho impasse?

Os dias foram correndo, e chegou um momento em que o noviço já não aguentava mais: decidiu pedir um conselho ao superior. Acabado o último ato em conjunto do dia, o cântico da Salve Rainha, dirigiu-se rapidamente à cela do religioso e bateu à porta, um tanto aflito. O superior porém, sem sequer abrir a porta respondeu:

– Agora não! Estou ocupado!

Um encarregado ocupado, durante um recolhimento? O que estaria acontecendo? Teria o jovem se enganado, atribuindo ao seu protetor virtudes que na verdade não possuía? Sua necessidade de um apoio espiritual, porém, era muito grande; optou por insistir mais uma vez:não desistiria facilmente, viu-se obrigado a atendê-lo. Abriu um pouquinho a porta e, por uma fresta, perguntou-lhe o que desejava.

– Perdão, mas… preciso da ajuda do senhor! Estou passando por uma dificuldade assim…

– Não se preocupe – interrompeu-o o superior – Quero que veja uma coisa.

Abriu, então, por inteiro a porta da sua cela e o noviço não pôde acreditar no que estava vendo: inúmeros Anjos ao redor da mesa onde trabalhava o superior. Este, notando a perplexidade do jovem, explicou-lhe:

Anjos_arautos— Estes são os Anjos da guarda de todos os meus subalternos. Eles me comunicam as provações e necessidades espirituais de cada um para que eu tome alguma providência, lhes escreva uma carta ou os chame para uma conversa e, assim, os ajude no que for preciso. E não por acaso, está também aqui no meio deles, o seu Anjo da guarda que acaba de narrar-me as dificuldades que lhe atormentam…

Diante de tão grande santidade de seu superior e de um tão sublime milagre, dissipou-se na alma do noviço toda e qualquer sombra da provação que lhe afligia, e ele pode, assim, seguir sua vocação religiosa, rezando aos santos Anjos da guarda sempre que as dificuldades e dúvidas se lhe apresentavam.

Vemos nesse belo fato a importância da devoção aos nossos celestes Protetores que não hesitam em nos auxiliar sempre, especialmente quando invocamos sua ajuda.

À Vossa proteção recorremos…

Ir Mariella Antunes

Numa madrugada fria, do rigoroso inferno da longínqua Rússia, enquanto subia a encosta da montanha principal da região do Tykrapshol, o trem Marie se desviou de sua rota normal e atrasou o horário de sua chegada, deixando muitos em grande aflição. O que poderia ter acontecido?

– Eu acredito e posso dar o meu testemunho. Foi um milagre! Um milagre! –  exclamava o motorista do trem ao ser interrogado pelos seus superiores.

Qual o motivo que o fez parar no meio do percurso? Todos estavam surpresos e queriam saber o que tinha ocorrido, mas o motorista não parava de repetir a frase acima.

Que “milagre”seria esse? E que “testemunho” ele poderia dar?

Ao seguir pelos trilhos, em uma considerada velocidade, o maquinista, Jorge Krash, viu diante do trem uma grande sombra que ofuscava o farol esquerdo, parecendo fazer sinal para diminuir a velocidade e parar a máquina. O senhor Krash julgou que estava tendo alguma falsa impressão e que as altas horas da noite estavam influenciando e despertando sua imaginação. Prosseguiu o percurso como se nada tivesse acontecido.

Minutos depois, a mesma sombra apareceu novamente, fazendo sinais ainda mais rápidos. Isso se repetiu por mais três vezes. Não podendo mais conter-se, viu que não poderia ser apenas imaginação e começou a diminuir a marcha até o trem parar. Todos os passageiros, assustados com a repentina parada, correram às janelas para ver o que tinha se passado. Para sua surpresa constatou que a “grande sombra” era produzida pelas frágeis asas de uma borboleta…

Depois de certificar-se que era só isso que estava acontecendo, o motorista subiu novamente no vagão para recomeçar o caminho. Enquanto acionava os botões de partida, um dos passageiros deu um forte grito:

— Alto! Não avance, se não morremos todos!

Esse passageiro pôde de sua janela avistar uma grande pedra que havia se despregado da montanha e obstruía a passagem pelos trilhos. Nesse momento, todos compreenderam que aquela repentina parada tinha sido uma intervenção da Divina Providência. Se o trem tivesse continuado com a velocidade anterior, teria batido fortemente contra a pedra, ocasionando um grave acidente, uma explosão e, consequentemente, a morte de todos os passageiros.

O senhor Krash, convicto da proteção de seu anjo da guarda, o qual sempre invocava antes de suas viagens, confirmou que o motivo que o fizera parar, tinha sido a sombra de uma borboleta posta ali para salvá-los.

Essa é uma bela história que, embora  ilustrada, pode explicar vários fatos do nosso dia-a-dia

Muitas vezes, quando algum pressentimento ou uma forte tentação perturbam o nosso interior, logo concluímos: “coisa do demônio!”. Entretanto, quando temos uma boa inspiração, praticamos uma bela ação ou sentimos uma forte inclinação a praticar a virtude, julgamos que isso decorre de nós mesmos e nos esquecemos dos grandes guardiães que Deus nos concedeu com a missão de nos guiar desde o momento da nossa concepção até a Vida Eterna. Na Epístola aos Hebreus, encontramos que todos os anjos são espíritos a serviço de Deus, o qual lhes confia missões em favor dos herdeiros da salvação eterna (cf. Hb 1,14).

Ao longo da História, podemos comprovar como a Divina Providência quer a salvação de cada um dos homens e como Ela age para comunicar e realizar seu plano para humanidade. Por isso, Deus utiliza-se de criaturas como instrumento e envia seus Anjos que, como mensageiros celestes, executam Sua vontade e se relacionam com os homens. Como diz São João da Cruz: “Os anjos, além de levar a Deus notícias de nós, trazem os auxílios divinos para nossas almas e as apascentam como bons pastores […] amparando-nos e defendendo-nos dos lobos, os demônios”.1

Os seres angélicos são puros espíritos dotados de personalidade, de inteligência e de vontade, de poder superior aos dos homens e que servem a Deus de um modo mais próximo e estável. O Catecismo nos ensina que “Jesus anuncia em termos graves que ‘enviará seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente’ (Mt 13, 4 1-42) de punição dos condenados, a qual é eterna e durará para sempre” (CCE 1034). Sendo essas criaturas mais perfeitas – o espiritual é maior do que o material – a Providência criou esses serem em maior quantidade que os homens e que toda e qualquer criatura material: “Milhares de milhares O serviam e centenas de milhares assistiam ante seu trono” (Dn 7,10).

Assim, os Anjos, mais especialmente o nosso Anjo da Guarda, estão sempre ao nosso lado e, como que, nos olham do Céu aguardando que busquemos o auxílio deles e os convoquemos para estarem entre nós. Saibamos, pois, recorrer a esses intercessores celestes nesta grande batalha do homem que é a face da Terra, até chegarmos um dia, pela misericórdia Divina e a intercessão de Maria Santíssima com sua Corte Angélica, à Vida Eterna.

1 SÃO JOÃO DA CRUZ. In: Revista Arautos do Evangelho, n. 58, p. 35.

Um verdadeiro amigo

Ir. Rita de Kássia C. D. da Silva, EP

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Quem neste mundo não gostaria de ter um amigo que estivesse diariamente ao seu lado, pronto para atendê-lo a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer situação, mesmo nos perigos e, concomitantemente, o alegrasse, fortalecesse e estimulasse nas horas de provação e dificuldade?

Com efeito, Deus, em sua infinita bondade e misericórdia para com o gênero humano, destinou para cada homem um anjo da guarda, que, constantemente, vela por cada um individualmente. Sim, é ele nosso companheiro nesta vida e na eternidade. Entretanto, ele é um “amigo” discreto que, apesar de não se revelar, admoesta, ensina, ajuda, acode e inspira de muitas maneiras: ora, por um sopro, ora por um conselho, ora por algum fenômeno natural. Basta que estejamos atentos a suas inspirações.

Mas, como são os anjos? Os anjos são espíritos puros, inteligentes, cheios da graça divina desde o início de sua existência, na aurora da primeira manhã da criação. Distribuídos e ordenados por Deus em nove coros – Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos – constituem o exército da celeste Jerusalém e receberam a tríplice missão: de perpétuos adoradores da Santíssima Trindade, executores dos divinos desígnios e protetores do gênero humano. 1 Pertencem ao sexto plano da criação, sendo por isso superiores aos homens. Quando foram criados, Deus infundiu-lhes o conceito das coisas universais, sem o qual eles não seriam capazes de conhecer as coisas particulares. Para “ver” algum objeto, o anjo aplica sua inteligência, conferindo com aquele conceito universal que já existe em seu intelecto. Os anjos têm o seu ser por participação no Ser divino. Eles não existem desde sempre, mas em determinado momento receberam a existência, tendo sido criados do nada.2

Os anjos estão organizados em uma hierarquia escalonada verticalmente, diferentemente dos homens, na qual uns dependem dos outros. Cada anjo é uma espécie única; por isso, quanto mais elevado é o anjo, superiores são os conceitos infundidos por Deus. Contudo, isso não causa tristeza ao que é inferior, porque as capacidades, apetência e glória de cada um são plenamente satisfeitas pelo próprio Criador quando entram na Visão Beatífica. Não há sentimento de infelicidade, pois os superiores são motivo de admiração dos inferiores.3

Ensina a teologia que todo criança, no momento do nascimento, recebe de Deus um Anjo da Guarda que vela por ela desde os primeiros momentos da vida até a morte. “Desde o inicio até a morte, a vida humana é cercada por sua proteção e por sua intercessão” e São Basílio completa que “cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à Vida” (CEC 336).

Todavia, a nossa vida na terra bem pode ser definida como uma luta, pois viemos a este mundo para enfrentar uma existência tisnada pelo pecado e repleta de dificuldades. Só receberemos o prêmio da bem-aventurança eterna se soubermos corresponder às graças recebidas.4 Não há como escapar. A prova é posta no caminho de todos os seres inteligentes até mesmo os anjos. Contudo, como passar pela prova sem ser ‘reprovado’? Porque além das concupiscências, há ainda o demônio que constantemente nos atormenta com suas farsas, procurando perder as almas. Como defender-se?

Assim como na grande batalha havida no Céu, São Miguel levantou o brado de guerra — “Quem como Deus?” — e dispersou do Céu a Lúcifer e todos seus sequazes, assim também cada anjo da guarda afugenta satanás e impede que sejamos arrastados. Embora de forma invisível, ele está real e verdadeiramente presente ao nosso lado, sendo o nosso guardião nas horas de tentação ou perigos e aquele que leva as orações ao trono de Deus, como uma trombeta que amplia o som de nossas preces, purifica-as, tornando-as mais belas e agradáveis a Deus.5 Porém, ele é discreto e quer nossa colaboração e atenção à suas inspirações.

Não são raros os casos em que os anjos aparecem para livrar seus protegidos de grandes riscos ou confortar nas aflições. Conta-se que São Policarpo, discípulo de São João Evangelista, viajava para a cidade de Esmirna, da qual era bispo, juntamente com um companheiro. No caminho, foi preciso que parassem numa hospedaria a fim de descansarem da viagem. Entretanto, no silêncio da noite, o bispo é despertado por uma misteriosa voz que dizia que a casa ia desmoronar. São Policarpo, sem titubear, levantou-se rapidamente, acordou seu companheiro que não muito convencido, recusou-se a sair. Nesse momento, apareceu o santo anjo da guarda de São Policarpo ordenando que saíssem imediatamente daquele lugar. Obedeceram, e logo que os dois se encontraram fora, desabou a casa num grande estrondo!

Que tal pensamento contribua para aumentar nossa devoção aos santos anjos, esses gloriosos intercessores celestes, dos quais muitas vezes nos esquecemos, e estejamos convictos de que, em qualquer necessidade e tribulação, ali está ele para interceder por nós e levar-nos ao termo final de nossa missão.

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I. q. 108, a. 5.
2 Idem.. I, q. 50, a. 2, ad. 3.
3 GOYARD, Pe. Louis. Os anjos falam? In: Revista Arautos do Evangelho. Ano IX. n.106. São Paulo: Abril. Out 2010, p. 33.
4 Op. Cit SÃO TOMÁS DE AQUINO. I, q. 64, a.2.
5 Cf. SOARES CORREA, Carlos Alberto. O maravilhoso mundo dos anjos. In: Arautos do Evangelho. Ano II, n. 14. São Paulo: Gráfica. Fey. 2003. p. 34-37.

Grigio, o protetor de Dom Bosco

Ir. Angelis Ferreira, EP

Passou para a História um cão singular que salvou a vida de São João Bosco em diversas ocasiões. Seria mesmo um simples animal?

Por incrível que possa parecer, São João Bosco teve muitos inimigos, recebeu inúmeras ameaças e sofreu vários atentados. Sacerdote exemplar em tudo, nunca andou armado. A Providência Divina o defendeu sempre nos momentos de perigo.

De que modo?

Entre outros, servindo-se de um misterioso cão, de grande porte, focinho longo e orelhas tesas, parecido com um lobo. Por causa de sua cor cinza, recebeu o nome de Grigio, “Cinzento” em italiano.

“Vou morrer! Vou morrer!”

Numa noite de 1852, voltando sozinho para casa, o Santo percebeu que um bandido o seguia a poucos passos de distância, pronto a agredi-lo. Dom Bosco pôs-se a correr, mas, pouco adiante, deparou-se numa esquina com o resto do bando que lhe barrava o caminho. Parou de improviso e fincou o cotovelo no peito do primeiro agressor, que caiu por terra gritando: “Vou morrer! Vou morrer!”

O bom êxito da manobra salvara-o de um perseguidor, mas os outros avançaram ameaçadores. Nesse instante surgiu o cão providencial. Saltava de um lado para outro, dando latidos aterradores com tamanha fúria que os malfeitores tiveram de pedir a São João Bosco para acalmá-lo e mantê-lo junto de si, enquanto eles tratavam de fugir.

Um cão capaz de “prever o futuro”

Em outra ocasião, seu protetor o impediu de sair de casa.

Era noite, e Dom Bosco precisava sair. Mama Margarita procurou dissuadi-lo, mas ele a tranquilizou, pegou o chapéu e já ia saindo, acompanhado por alguns rapazes. No portão, encontraram o Grigio estendido no chão.

— Oh, o Grigio, tanto melhor, estaremos bem acompanhados! Levanta-te e vem conosco, disse o Santo.

Porém o cão, em vez de obedecer, rosnou e não se mexeu. Um dos rapazes o fustigou com o pé para ver se conseguia levantá-lo, mas ele arreganhou os dentes ameaçadoramente.

Mama Margarida disse então ao filho:

— Não quiseste ouvir-me, ouve agora o cão: não saias a esta hora!

Para satisfazer o desejo da mãe, Dom Bosco retornou à casa. Pouco depois, apareceu correndo um vizinho para preveni-lo de que não saísse naquele momento, pois quatro indivíduos armados rondavam pelos arredores, decididos a matá-lo.

O fato foi confirmado mais tarde por pessoas dignas de fé. Esse cão capaz de “prever o futuro” e agir em consequência era mesmo um simples animal irracional? O Fundador dos Salesianos não responde a esta pergunta. Mas ele fez a seus discípulos uma interessante narração, que transcrevemos abaixo com suas próprias palavras.

Relato de Dom Bosco

O Grigio foi assunto de muitas conversas e hipóteses várias. Muitos de vós o vistes e até acariciastes. Deixando de lado as histórias peregrinas que dele se contam, vou expor a pura verdade.

Por causa dos frequentes atentados de que eu era alvo, fui aconselhado a não andar sozinho ao ir à cidade de Turim ou de lá voltar.

Numa tarde escura, regressava para casa, com certo medo, quando vejo ao meu lado um enorme cão, que à primeira vista me assustou; como, porém, fazia-me festa como se eu fosse seu dono, travamos de imediato boas relações, e ele me acompanhou até o Oratório.

O que aconteceu naquela tarde repetiu-se muitas vezes, de modo que posso dizer que o Grigio me prestou importantes serviços. Vou relatar alguns.

Regressei bem escoltado ao Oratório

Em fins de novembro de 1854, numa tarde escura e chuvosa, voltava da cidade, pela rua da Consolata. Em determinado ponto percebi que dois homens caminhavam a pouca distância na minha frente. Aceleravam ou diminuíam o passo, toda vez que eu acelerava ou diminuía o meu. Quando, para não me encontrar com eles, tentava passar para o lado oposto, eles com grande habilidade colocavam-se à minha frente. Quis voltar sobre meus passos, mas não houve tempo: dando dois pulos para trás, lançaram-me um manto sobre o rosto. Um deles conseguiu amordaçar-me com um lenço. Queria gritar, mas já não podia.

Nesse preciso momento apareceu o Grigio. Urrando como um urso, lançou-se com as patas contra o rosto de um, com a boca escancarada contra o outro, de maneira que mais lhes convinha envolver o cão do que a mim.

— Chama o cachorro! — gritaram espantados.

— Chamo, sim, mas deixem os transeuntes em paz.

— Chama logo!

O Grigio continuava a urrar como urso enfurecido. Eles retomaram o caminho, e o Grigio, sempre ao meu lado, acompanhou-me. Regressei ao Oratório bem escoltado por ele.

Nem sequer cheirou a comida

Nas noites em que ninguém me acompanhava, assim que passava as últimas casas via despontar o Grigio de algum lado da rua. Muitas vezes os jovens do Oratório o viram entrar no pátio. Alguns queriam bater nele, outros, atirarem-lhe pedras.

— Não o molestem é o cão de Dom Bosco — disse-lhes José Buzzetti.

Então todos se puseram a acaricia-lo e o seguiram até o refeitório, onde eu estava ceando com alguns clérigos e padres, e com minha mãe. Ante tão inesperada visita, ficaram todos amedrontados.

— Não tenham medo, é o meu Grigio, deixem que ele venha — disse eu.

Dando uma longa volta ao redor da mesa, veio ter comigo, fazendo festa. Eu também o acariciei e ofereci-lhe sopa, pão e carne, mas ele recusou. Mais: nem sequer cheirou a comida.

Continuando então a dar sinais de satisfação, apoiou a cabeça sobre meus joelhos, como se quisesse falar-me ou dar-me boa-noite; em seguida, com grande entusiasmo e alegria, os meninos o acompanharam para fora. Lembro-me que naquela noite havia regressado tarde para casa e um amigo me havia trazido em sua carruagem.

Procuraram-no, mas ninguém o encontrou

A última vez que vi o Grigio foi em 1866, quando ia de Murialdo a Moncucco, à casa de Luís Moglia, meu amigo. O pároco de Buttigliera quis acompanhar-me por bom trecho de caminho, e isso fez com que a noite me surpreendesse no meio da estrada.

— Oh! se tivesse aqui o meu Grigio, que bom seria! — pensei.

Naquele momento o Grigio veio correndo em minha direção, com grandes demonstrações de alegria, e acompanhou-me pelo trecho de caminho que ainda devia percorrer, uns três quilômetros. Chegado à casa do amigo, conversei com toda a família e fomos cear, ficando meu companheiro a descansar num canto da sala. Terminada a refeição, disse o amigo:

— Vamos dar de comer a teu cachorro.

E tomando um pouco de comida, levou-a ao cão, mas não o encontrou, por mais que o procurasse por todos os cantos da sala e da casa. Todos ficaram admirados porque nenhuma porta, nenhuma janela fora aberta, e os cães da casa não deram nenhum alarme. Procuraram o Grigio nos quartos de cima, mas ninguém o encontrou.

Foi essa a última notícia que tive do Cinzento. Jamais soube de seu dono. Sei apenas que esse animal foi para mim uma verdadeira providência nos muitos perigos em que me vi metido.

Revista Arautos do Evangelho n.38 fev. 2005

Uma grande vitória inspirada pelo Anjo da Guarda

Ir. Elisabeth MacDonald, EP

Todo ser humano possui, desde o início de sua vida até o momento de passar para a eternidade, a proteção e intercessão de um anjo designado por Deus para o guiar, proteger e orientar: o Anjo da Guarda. Segundo São Paulo, “Não são todos os anjos espíritos ao serviço de Deus, o qual lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?” (Hb 1,14) E afirma o Catecismo da Igreja Católica que Deus “os fez mensageiros de seu projeto de salvação”.

Desde a mais tenra infância a gaúcha Cecy Cony experimentou a presença sensível de seu anjo da guarda, a quem ela chamava “Novo Amigo”. Esse companheiro fiel a guiou e instruiu, e, por vezes, encorajou a fazer difíceis sacrifícios, como o narrado a seguir.

Jovens e velhos, ricos e pobres — a cidade de Jaguarão inteira estava atarefada, preparando a festa do Divino Espírito Santo. Seu estandarte era conduzido em procissão de porta em porta, dando aos moradores oportunidade de beijar a bela imagem da pomba, e oferecer uma contribuição para aumentar o brilho das festividades.

Como é bom viver numa cidade protegida pelo Espírito Santo! E que honra, quando seu estandarte pára diante de minha casa, poder dar-lhe um beijo e oferecer algumas moedas para a festa! — pensava a pequena Cecy Cony, considerando todos esses preparativos.

Insulto a Deus

Porém, suas inocentes e alegres cogitações foram contundidas por uma chocante notícia que pôs em polvorosa todos os habitantes de Jaguarão. No quartel do Exército, localizado no centro da cidade, o coronel comandante mandou um sargento avisar que a procissão devia seguir adiante, pois lá não entraria o estandarte do Espírito Santo.

Esse fato causou uma forte impressão em Cecy. “Como esse coronel pode ser tão ruim assim? Os pobres soldados ficaram privados da oportunidade de receber a bênção do Espírito Santo e dar uma modesta contribuição para a festa. Mas, muito pior do que isso, foi o insulto a Deus!” Acabrunhada com tais pensamentos, e não conseguindo adormecer à noite, ela ficou imaginando um meio de reparar tão grave ofensa.

Inspirada pelo “Novo Amigo”

Todos temos um Anjo da Guarda que está sempre junto de nós, ajudando, guiando e protegendo. Mas Cecy era favorecida por uma graça especial: ela tinha um convívio sensível com o seu Anjo, ouvia, por assim dizer, sua voz e sentia com frequência sua mão protetora! Quando o viu pela primeira vez, aos cinco anos de idade, ela não sabia o que era um Anjo, por isso deu-lhe o nome de “Novo Amigo”.

Estando, assim, tomada de tristeza e sem conseguir adormecer naquela noite, ela sentiu a mão de seu Novo Amigo pousando com doçura sobre sua cabeça, como promessa de ajuda, e enchendo-a de paz. Dormiu, então, serenamente.

No dia seguinte, na hora do café da manhã, sentiu de novo a mão de seu Anjo da Guarda enquanto sua voz lhe sussurrava a ideia de pedir a cada soldado do quartel uma contribuição para a festa, e, em compensação por eles não terem podido beijar o estandarte do Espírito Santo, deixar cada um oscular a medalha que ela trazia ao pescoço.

Começou então uma pequena batalha em sua mente: “Como eu vou parecer esquisita, parando os soldados na rua e pedindo-lhes dinheiro!…”

Como resposta, o Anjo inspirou-lhe outro pensamento: “Mesmo se isso me deixar embaraçada, preciso fazer, para dar alegria ao Espírito Santo. Tenho de começar hoje mesmo, do contrário não sobrará muito tempo para coletar o dinheiro e entregar ao padre antes do dia da festa”.

Impelida pela inspiração do Novo Amigo, Cecy decidiu-se entrar logo em ação. Ela tinha ganhado do pai vinte réis (moeda da época) para comprar um par de sapatinhos brancos. Obteve, então, licença da mãe para ir olhar as vitrines das lojas, a fim de escolher os que mais lhe agradassem. Isso na certa lhe daria oportunidade de encontrar alguns soldados pela rua.

“Senhor soldado, por favor!”

Chegando ao centro da cidade, a menina postou-se numa movimentada esquina. E — olha lá! — um soldado vinha caminhando na sua direção, mas… Seu coração começou a bater mais rápido, ela se sentiu completamente intimidada. Não seria melhor esse soldado desaparecer dali?

Mas seu Novo Amigo, apoiando gentilmente a mão em seu ombro, deu-lhe firmeza e encheu-a de coragem. O soldado estava agora apenas a três passos… — Senhor soldado, por favor!

Pois não, bela menina, às suas ordens! O que deseja?

Animada por essa polidez, Cecy iniciou o pequeno discurso que havia cuidadosamente preparado:

Estou me sentindo muito triste pelo fato de o coronel não ter permitido que o estandarte do Espírito Santo entrasse no quartel. E os coitados dos soldados não puderam saudar o estandarte nem fazer uma oferenda. Por isso estou pedindo a cada um uma pequena contribuição, e vou entregar tudo ao Pároco antes do dia da festa.

Contribuo com muito prazer, menininha. Aqui está minha oferta — respondeu o militar, colocando na palma da mão de Cecy uma moeda de prata.

Cheia de contentamento por esse bom êxito inicial, ela continuou seu trabalho e, no fim de um dia fatigante, viu que havia recolhido trinta réis e alguns centavos. Parecia ser uma imensa quantia! Nenhum soldado havia dado só uma moeda de cobre (um tostão), embora fosse o que ela pedia. Alguns deram até duas de prata.

Nova batalha

De volta à casa, guardou cuidadosamente a pilha de moedas numa gaveta, planejando trocá-las por uma nota de 30 réis e enviá-la ao padre antes da festa. Surgiu porém, outro problema: não existia nota de 30 réis, ela tinha de escolher entre uma de 20 ou uma de 50. Como seria maravilhoso se pudesse enviar uma nota de 50!

Ocorreu-lhe, então, uma generosa ideia. Em vez de comprar o par de sapatos brancos, ela poderia, com os 20 réis que havia recebido de seu pai, completar o que faltava para a nota de 50.

Em resposta a esse pensamento, veio outro que parecia mais razoável: “Não vai ficar bem estar na festa toda vestida de branco e com sapatos pretos… Além disso, o Espírito Santo ficará feliz com o oferecimento feito pelos próprios soldados”.

Assim, acabou julgando ser mais conveniente comprar os sapatos brancos, e estava já enrolando cuidadosamente as moedas num bonito papel de presente, quando sentiu de novo a mão do Anjo sobre o ombro, sugerindo-lhe um ato de generosidade: ela devia oferecer o dinheiro destinado à compra dos belos sapatos brancos, Deus lhe pedia esse sacrifício!

Sem mais hesitações, Cecy foi ver seu pai, disse-lhe que não desejava mais comprar os sapatos novos e perguntou se poderia ficar com o dinheiro. Ele concordou.

Grande vitória, imensa recompensa

Então ela trocou as moedas por uma nota de 50 réis “novinha em folha”, colocou-a num envelope, fechou com cola e escreveu: “Oferecimento de um grupo de soldados para a festa do Divino Espírito Santo”. Depois foi à matriz e deixou o envelope sobre uma mesinha da sacristia, pois nem o padre nem o sacristão estavam lá. E jogou as moedinhas restantes num cofre, antes de sair da igreja.

Aquela batalha estava encerrada, com uma grande vitória!

Na véspera da festa, ela teve a discreta alegria de ler na lista de contribuições: “Um grupo de soldados — 50 réis”. Na cidade, ninguém soube da participação de Cecy nessa oferenda. Ela, porém, se achava imensamente recompensada por saber que Nosso Senhor estava contente com ela, e por sentir sempre a doce presença de seu Novo Amigo.

(Adaptado do capítulo 17 de “Devo narrar minha vida”, sua autobiografia, editada pelo Pe. João Batista Reus, SJ (…). Publicada pela primeira vez em 1949, esta obra foi traduzida para o inglês e o alemão, com os títulos respectivamente de “Under Angel Wings” e “Ich sah meinen Engel”).

Revista Arautos do Evangelho n.45 setembro 2005

Trinta anos de convívio com o Anjo da Guarda

Filha de um capitão do exército, Cecy Cony nasceu em 1900 na cidade de Jaguarão (RS).

Aos 5 anos, viu surgir pela primeira vez a seu lado o seu Anjo da Guarda, para salvá-la de uma situação de grande apuro. A partir de então, este divino protetor, guia e conselheiro permaneceu junto dela de modo sensível durante 30 anos: em todos os momentos ela sentia sua benéfica presença. De 1935 em diante, ele não deixou de estar continuamente junto dela, mas não mais de maneira sensível.

Aos 13 anos Cecy recebeu o apelo de Jesus para a vida religiosa. Mas, por circunstâncias diversas, somente aos 26 entrou como postulante na Congregação das Irmãs Franciscanas, em São Leopoldo (RS). Dois anos depois recebeu o véu de noviça, tomando o nome de Irmã Maria Antônia. Um ato de oferecimento que ela rezava diariamente revela o estado de sua alma: “Meu Jesus, eu me ofereço para ser privada de todas as consolações espirituais e sofrer todas as cruzes que Vos aprouver mandar-me. Disponde de mim segundo a vossa vontade. Quero e espero ser toda vossa. Meu Jesus, eu Vos quero só a Vós e a mais nada”.

Deus não tardou em manifestar que essa oblação tinha sido aceita: caíram sobre ela sofrimentos indizivelmente dolorosos, no corpo e na alma, que ela suportou generosamente.

Em 24 de fevereiro de 1933 fez os votos perpétuos de pobreza, obediência e castidade. Em tudo, Irmã Maria Antônia foi perfeito modelo de boa religiosa.