Um sonho feito realidade

Ir. Elizabeth Veronica MacDonald, EP

A Basílica e Santuário Nacional de Nossa Senhora das Vitórias, nos Estados Unidos, é inegavelmente uma obra arquitetônica de grande categoria. Sua imponente fachada está revestida de mármore branco americano e seu interior é embelezado com 46 tipos de mármores vindos da Itália. A grande cúpula de 24 metros de diâmetro era, na época de sua construção, a segunda maior do país, superada apenas pela do Capitólio de Washington.

Suntuoso templo à Rainha do Céu

Rico em predicados artísticos, esse santuário representa uma calorosa expressão de amor à Santíssima Virgem e desperta a piedade em todos quantos cruzam o seu limiar. O pórtico principal recebe o peregrino com uma bela imagem de Nossa Senhora das Vitórias, anúncio da que, sob um baldaquino de colunas helicoidais de mármore vermelho espanhol, preside o altar-mor. Esculpida numa peça de mármore de quase três metros de altura, essa bela cópia da célebre imagem francesa foi pessoalmente abençoada pelo Papa Pio XI antes de ser enviada para a América.

Uma série de harmônicos detalhes deixa entrever as nobres disposições de alma do idealizador desse recinto sagrado: o Venerável Nelson H. Baker, conhecido e querido naquele pequeno recanto do Estado de Nova York como o pai dos pobres.

Foi do padre Baker a ideia de colocar imagens de Anjos — os fiéis executores da vontade da Rainha do Céu — em todos os pontos da igreja. Calcula-se que haja entre 1.500 e 2.500, no total. Devido ao seu empenho pessoal, os 200 esplêndidos vitrais retratam episódios da vida de Nossa Senhora. Ademais, querendo uma matéria ainda não tocada por mãos humanas para montar no transepto sul uma réplica da gruta de Lourdes, conseguiu uma rocha vulcânica do Monte Vesúvio.

Como foi possível, na terceira década do século passado, erguer numa pequena cidade industrial essa imponente igreja designada como um dos maiores santuários da América do Norte no decreto papal de elevação a basílica menor? O que levou o abnegado sacerdote e paladino dos pobres a erguer tão suntuoso templo à Rainha do Céu?

“Consagrarei minha vida ao vosso serviço”

Corria o ano 1874, quando Baker, então seminarista, encontrava-se em peregrinação no Velho Continente.

Ao entrar na Basílica de Notre-Dame-des-Victoires, em Paris, despertou-lhe a atenção a vivaz manifestação de piedade das pessoas ao seu redor; arrebatado pela imponderável atmosfera sobrenatural que ali reinava, caiu de joelhos diante de uma imagem de Nossa Senhora e tomou uma resolução: “Doravante, consagrarei minha vida inteira ao vosso serviço; devotarei todos os meus pensamentos e ações ao vosso nome; difundirei na América a devoção a Nossa Senhora das Vitórias”.1

Senso empresarial e filial confiança

Ao regressar à sua terra natal, Nova York, os bons propósitos formulados na longínqua França foram postos à prova. A primeira incumbência que recebeu após sua ordenação sacerdotal, em 1876, foi a de assistente do pároco de Limestone Hill, atual Lackawanna. A paróquia contava com uma igreja e dois grandes institutos: um para meninos órfãos, outro para indigentes, ambos atolados em dívidas.

Tendo sido nomeado, em 1882, pároco e superintendente dessas duas instituições, lançou-se decididamente à tarefa de dar-lhes uma sólida situação financeira, utilizando nesse empreendimento seu aguçado senso empresarial e sua filial confiança em Nossa Senhora. Conseguiu listas de nomes e endereços de senhoras católicas de todo o país, às quais enviou milhares de cartas, todas manuscritas, solicitando ajuda para o sustento das crianças sob os seus cuidados. Convidava-as a ingressar na Associação de Nossa Senhora das Vitórias, por ele fundada, dando um pequeno contributo anual.

Profundamente convencido de que qualquer obra destinada a remediar os males sociais deve ser antes de tudo um trabalho espiritual, ele não se cansava de pregar sobre a eficácia da intercessão de Nossa Senhora. “Maria tem o maior poder e onipotência no Céu: não apenas os Anjos a obedecem, mas até o próprio Deus. Pensa, então, o quanto pode Ela fazer na Terra, sendo tão poderosa no Céu”2 – escreveu certa vez aos seus colaboradores.

O padre Baker foi, portanto, um pioneiro no uso da mala direta para angariar fundos. E com excelentes resultados, pois em poucos anos as instituições caritativas de Limestone Hill encontravam-se livres das dívidas e em plena expansão. Formou-se no local uma verdadeira “cidade da caridade” que perdura até hoje.

Seu sonho se torna realidade

As intensas atividades apostólicas do padre Baker não arrefeceram em seu coração o anseio de edificar uma esplendorosa igreja em homenagem a Nossa Senhora das Vitórias. Muito pelo contrário, esse ardente desejo não fez senão aumentar ao longo das décadas, até começar a realizar-se em 7 de maio de 1921, nas vésperas de seus 80 anos de idade. Nesse dia, ele celebrou a última Missa na pequena e desgastada igreja paroquial, que logo em seguida foi demolida para ceder espaço ao novo edifício.

Com a segurança de quem nada pede para si próprio, dirigiu-se uma vez mais aos seus fiéis colaboradores, incentivando-os a dar cada qual o que podia para erguer um santuário em honra de Nossa Senhora. Donativos pequenos e grandes afluíram de todo o país.

O padre Baker trabalhou intensamente em estreita colaboração com o arquiteto franco-americano Emile Ulrich, que contava com bons contatos na Europa, e em apenas cinco anos seu sonho tornou-se realidade: um magnífico edifício sacro a rivalizar em esplendor com muitos de seus similares europeus, erguia-se no local da antiga paróquia.

Realizara-se também outro dos seus anseios: o preço total da construção foi pago na íntegra antes da consagração do santuário, que se deu em 25 de maio de 1926. E o padre Baker, como de costume, esquivava-se dos elogios por tão notável feito, dizendo com toda simplicidade que a diretora das obras tinha sido Nossa Senhora…

Dois meses após a consagração, o Papa Pio XI elevou a igreja à categoria de basílica menor.

Pelo fruto conhecereis a árvore

Os últimos anos de seu ministério sacerdotal foram para o padre Baker motivo de grande consolo, pois ele pôde constatar a graça divina atuando nas almas através do abençoado ambiente do templo.

A bela basílica exerceu, por exemplo, forte atração sobre numerosos operários do sul do país que, durante a crise econômica de 1930, se dirigiram a Lackawanna em busca de emprego na grande indústria metalúrgica ali existente. Tanto mais que, ao transpor o umbral, eles se deparavam com um bondoso sacerdote nonagenário que se interessava por suas necessidades materiais e espirituais, e levava muitos deles às águas do Batismo.

E até hoje, ao constante fluxo de peregrinos que visitam o santuário onde repousam seus restos mortais, o padre Baker oferece uma “esmola espiritual”: um convite para aproximar-se de Nossa Senhora.

A Basílica e Santuário Nacional de Nossa Senhora das Vitórias ilustra bem o ensinamento do Divino Mestre a propósito do grão de mostarda (cf. Lc 17, 6; Mt 17, 20): desde que haja almas com fé, Nossa Senhora age e agirá, produzindo maravilhas de crescente beleza e ousadia, pois a vitória está sempre com Ela.

1 RUBERTO, René. Father Baker, Folk Hero: Legendary Study of the Life of Nelson H. Baker, apud GRIBBLE, Richard. Father Nelson Baker and the Blessed Virgin Mary: A Lifetime of Devotion. In: Marian Studies. Dayton, OH. N.62 (2011); p.100.

2 BAKER, Nelson H., apud GRIBBLE, op. cit., p.112.

Revista Arautos do Evangelho dez 2015

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