Viver de amor

Raphaela Nogueira Thomás

Quando se ama, o amor como que governa a vontade, e esta se inclina ao objeto amado. Assim, toda ação do homem, indiferentemente considerada, é impulsionada pelo amor. O agir, coordenado simplesmente pelo sabor da ação, não existe. É necessário ressaltar que Santo Agostinho define que há dois amores; ou seja, ou há o amor a Deus – e às demais criaturas em função deste – ou há o amor a si, até o esquecimento de Deus. 1

Em se tratando da natureza humana, a capacidade que esta possui de amar é limitada e, pelo mesmo, estará sempre procurando o bem existente em algo, para nele repousar. Ora, não dedicando esse amor ao que realmente deveria ser o objeto dele, acaba-se por desenfrear-se nas mais absurdas e caóticas ações, procurando o que, de si, não pode trazer tranqüilidade de alma.

Há, entretanto, almas que, ricas em generosidade, entendem o fundamento do verdadeiro amor como querendo devotá-lo só e exclusivamente ao serviço de Deus, resolvendo por consagrar-se inteiramente a Ele. Um dos níveis, por assim dizer, desta consagração é o estado de virgindade, em que a alma quer de tal forma se entregar, que oferece a Deus o holocausto de seu próprio ser, nas sendas puras e intactas da via religiosa.

O Pe. Royo Marín assim correlaciona a virgindade ao amor: “Jamais alguém é casto senão por amor; e a virgindade não é aceitável nem expansiva senão ao serviço do amor”. 2

Por outro lado, o amor a Deus se concretiza no amor ao próximo e no serviço aos outros; isto é, faz com que, literalmente, vivamos por amor. É o que Santa Teresinha propriamente personificou em sua Pequena Via e, de modo particular, em um de seus poemas “Vivre d’Amour”:

Viver de amor é banir todo o temor!
Toda lembrança das faltas do passado.
De meus pecados não vejo na minha alma nenhuma marca,
Pois num instante o amor tudo apagou.
Chama divina, ó doce fornalha,
Em teu seio eu fixo minha habitação;
E em tuas labaredas canto à vontade:
Eu vivo de amor!
3

Nisso se centra retamente a virgindade e, longe de diminuir o amor aos demais, dilata-o ao infinito, com inteiro desinteresse e caridade fraterna. E da mesma forma que consideramos pura uma água saída do mais profundo das entranhas da Terra, também é puro o amor que, saído do mais profundo do coração humano, se eleva a Deus e de lá, em veio límpido e cristalino, desce, como do alto de uma montanha, sobre todas as criaturas.

1SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. A cidade de Deus, L. XIV, c.28 1998, p.298
2ROYO MARÍN, Antonio. La vida Religiosa. 2.ed. Madrid: BAC, 1965.
3TERESA DE LISIEUX apud PLINIO CORREA DE OLIVEIRA Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.111. jun. 2007.

A excelência da obediência na vida religiosa

obediênciaFlávia Cristina de Oliveira

A palavra obediência, proveniente do latim, ob audire, significa estar pronto para ouvir ou escutar. Por conseguinte, a obediência constitui um elo pelo qual o inferior une sua vontade à do superior para ouvir suas ordens de forma atenta e submissa. E conforme define São Tomás “a obediência torna a vontade do homem disposta a fazer a vontade de outro, a saber, daquele que manda”.1

A obediência é uma virtude moral e encontra-se em total dependência com a virtude cardeal da justiça, posto que dela deriva através da observância. Esta última, com efeito, tem por objeto próprio dar a cada um o que lhe corresponde.2

Deus constituiu o Universo de forma hierárquica, de maneira que os seres de naturezas inferiores fossem governados pelos superiores, embora pertençam a naturezas diversas; o mesmo ocorre com os seres dentro de um comum gênero: de animal para animal, de homem para homem, de anjo para anjo.

Levando isto em consideração, conclui-se que esta obediência que o inferior deve prestar ao superior é de direito natural, pois está inteiramente de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, conforme nos propõe o Doutor Angélico:

“Como as ações das coisas naturais procedem das forças naturais, assim também as operações humanas procedem da vontade humana. Foi conveniente que, nas coisas naturais, as superiores movessem as inferiores à sua própria ação pela excelência do poder natural que Deus lhes concedeu. Portanto, nas coisas humanas, é necessário que as superiores movam por sua vontade as inferiores por força da autoridade concedida por Deus. Ora, mover pela razão e pela vontade é mandar. Por isso, como pela ordem natural instituída por Deus, nas coisas naturais, as inferiores são necessariamente submetidas à moção das superiores, assim também nas humanas, pela ordem do direito natural e do divino, as inferiores são obrigadas a obedecer às superiores”.3

Esta autoridade exercida por aqueles que são superiores é conferida por Deus. Pois, como afirma São Paulo, “não há autoridade que não venha de Deus” (Rm 13, 1). Por isso, toda autoridade legítima é merecedora de respeito e veneração.

Este foi o procedimento de Deus para com os homens desde o Antigo Testamento, enviando ao povo eleito, guias, “[…] patriarcas, homens de virtude excelsa e personalidade robusta, de Fé inquebrantável como Abraão, de pertinácia infatigável como Isaac”,4 e insignes profetas, como Elias, Moisés e tantos outros.

Isto se sublimou em alto grau no Novo Testamento. O Divino Mestre formou os seus Apóstolos nesta escola, e estes, transmitiram para toda a Igreja nascente: “Por amor ao Senhor, sede submissos a toda autoridade humana, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, como enviados por ele, para castigo dos malfeitores e para favorecer as pessoas honestas” (1 Pd 2, 13-14).

A submissão

Como vimos, a prática da obediência é necessária a todos os homens, pois ela está de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, mas com o pecado original esta necessidade tornou-se mais viva na existência do homem. Em qualquer estado em que se encontre, ele se deparará nesta ou naquela circunstância às quais deverá obedecer. Se analisarmos a vida de um homem, veremos continuamente presente a obediência, a começar pela infância, quando terá ele de submeter-se aos pais, logo depois ao entrar para o colégio deverá obediência a seus professores; e, por fim, ao atingir a maturidade e optar por uma profissão será necessário impor-se dentro de certa disciplina a fim de alcançar determinado objetivo, ou então, se esta pessoa é chamada a uma vocação religiosa mais acentuada ainda será esta exigência, pois ela estará sujeita a um superior.

Será um mero acaso esta prática da obediência que vem inserida em todos os campos da vida humana?

Bem sabemos que isso não se trata de uma casualidade, mas de um meio de nos educarmos, pois uma vida de obediência bem levada põe em ordem a nossa vontade que se tornou tão corrompida pelo pecado original e, sobretudo, nos ensina qual deve ser nossa disposição de alma em face de nosso Redentor. Eis como exclama Santa Teresa: “ó virtude de obedecer que tudo podes!”,5 e São Francisco de Sales: “bem-aventurados os obedientes, porque Deus nunca permitirá que se extraviem!”.6

O sublime estado religioso

E se esta disposição de alma é exigida a qualquer cristão, podemos imaginar quanto mais daquele que por um desígnio especial de Deus é chamado a uma vocação religiosa, o que supõe sempre “um grande mistério de predileção para uma determinada alma […] e um abismo de amor seletivo por parte de Deus”,7 segundo as palavras do teólogo Padre Antonio Royo Marin. Devido a este extremado amor, cabe ao religioso uma única resposta que consiste numa dedicação total, sem condições.

Este estado de perfeição centra-se fundamentalmente na virtude da religião, em levá-la até as suas últimas consequências, nesta vida. “Nela nada há – na prática nada deve haver – que não seja total e essencialmente religioso.”8 Daí deriva este termo para aqueles que ingressam por esta via de entrega a Deus. Vejamos como nos explica São Tomás:

“O que convém em comum a muitos, atribui-se por antonomásia àquele a que convém por excelência. Assim, o nome de fortaleza vindica-o para si aquela virtude que nos faz conservar a firmeza de alma em face dos maiores perigos; […]. Ora, a religião, como estabelecemos, é uma virtude, pela qual nos dedicamos ao serviço e ao culto de Deus. Donde o se chamarem por antonomásia religiosos os que totalmente se consagram ao serviço divino, quase oferecendo-se em holocausto a Deus. Por isso diz Gregório: “Há pessoas que nada reservam para si, mas imolam os sentidos, a língua, a vida e a substância que receberam, ao Senhor onipotente”.9

O voto

Este oferecimento feito pelos religiosos baseia-se, sobretudo, na prática dos conselhos evangélicos, mediante os votos de pobreza, castidade e obediência (CIC 487); por meio destes, os religiosos têm a possibilidade de consagrar toda a sua vida a Deus e atingir mais facilmente a perfeição da caridade.

Uma vez que o holocausto significa entregar a Deus todos os bens e não reservar nada para si, nestes três votos estão contidas as três espécies de bens que o homem possui, a saber: os bens materiais que são entregues a Deus pelo voto de pobreza; o bem do próprio corpo que é consagrado a Deus pelo voto de castidade e por fim os bens da alma, que são oferecidos a Deus pelo voto de obediência. Este último constitui o mais excelente, pois se trata de oferecer a Deus a própria vontade.

Obediência religiosa excede os demais votos

Por isso o voto de obediência torna-se o principal dentre os outros, pois ele de si já contém os demais.

Uma razão mais nos dá o Doutor Angélico acerca da importância deste voto: afirma ser ele o mais essencial ao estado religioso, pois a obediência se refere propriamente aos atos relacionados ao fim da vida religiosa, e é justamente esta proximidade com o fim que lhe dá maior excelência. Desta forma, ninguém poderá pretender ser religioso se não tem o voto de obediência, ainda que tenha feito os votos de pobreza e castidade.10

A respeito desta temática, Plinio Correa de Oliveira comenta:

“Como é belo ser virgem, mais belo ainda é ser monge!” [afirma Santo Agostinho]. […] como o monge renuncia à sua própria vontade para, dentro de um convento e dentro de uma clausura, fazer a vontade de Deus, ele fica elevado a um estado que é mais belo que o próprio estado de virgindade. De maneira que alguém que tivesse a virgindade no século, mas não fosse monge, este não teria a alma tão bela quanto alguém que fosse um bom monge, embora antes tivesse tido a desgraça de perder a virgindade. Quer dizer, existe neste ato de conformidade, neste ato de obediência, por onde a gente se enclausura, por onde a gente faz inteiramente a vontade de Nossa Senhora, e vive de acordo com um regulamento que a vocação suscitou em nós, neste ato pelo qual a gente renuncia a fazer seus caprichos, a estar correndo de um lado para o outro, toma uma diretriz dentro da vida, consagra toda a sua vida a servir Nossa Senhora. Existe nisso uma beleza tal, que é mais bela do que a própria beleza da virgindade”.11

E [São Tomas de Aquino] diz: “A virgindade prepara o homem para cogitar as coisas de Deus; a vida monacal é mais bela do que isso, por que já é a própria cogitação das coisas de Deus”.

A renúncia da própria vontade

Nosso Senhor Jesus Cristo declara: “ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna” (Lc 18, 29-30). Ora esta promessa de Nosso Senhor se realiza irrevogavelmente desde que haja uma sincera renúncia, conforme Ele afirma: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34). Esta disposição de alma consolida-se, sobretudo, na obediência.

À primeira vista, esta vida de obediência pode parecer algo impossível, pois, ao orgulho e ao desejo de ser senhor de suas vontades acrescenta-se mais um fator: “o maligno, sabendo que o caminho que leva mais depressa à suma perfeição é a obediência, põe muitos dissabores e dificuldades disfarçados de bem; […] parece sobremodo difícil (…) o contentar-nos com coisas que em tudo contradizem a nossa vontade, de acordo com o nosso natural.”12

Para certas pessoas, a própria vida de clausura é uma espécie de cárcere, onde é obrigada a cumprir uma porção de regras. Porém, a realidade é muito diferente, trata-se de um laço que nos une mais estreitamente a Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, pois nesta via de obediência “Deus fala não mais como Senhor que manda, senão um Pai que manifesta seu desejo. Esta obediência não é mais a atitude de quem serve sob a pena de não cobrar seu salário e perder seu pão, mas é a atitude do filho que extrai de seu amor as energias necessárias para fazer de boa vontade o que seu pai deseja”.13 E como nos ensina Santa Teresa:

“O amor, contudo, tem tamanha força, se for perfeito, que desprezamos nosso próprio contentamento para contentar aquele a quem amamos. […] Por maiores que sejam os sofrimentos, logo se tornam suaves quando sabemos que, com eles, agradamos a Deus. Quem chegou a esse ponto ama desse modo as perseguições, as desonras e as ofensas. […] O que pretendo explicar é o motivo de a obediência ser o caminho ou meio mais rápido para chegar a esse estado tão prazeroso. Como de maneira alguma somos senhores da nossa vontade, para empregá-la pura e simplesmente em Deus, enquanto não a tivermos submetido à razão, a obediência é a via régia para essa sujeição”.14

A este respeito encontramos o testemunho de grandes santos. Por exemplo, Santa Joana de Chantal exclamava: “Com vossa divina graça resolvo, Senhor, seguir em tudo vossas ordens e vossos desejos sem buscar jamais minha própria vontade”15 ; ou então, num exemplo ainda mais próximo de nós, Santa Teresinha do Menino Jesus, em uma carta que dirige à sua superiora: “Ó minha Madre, de quantas inquietações nos livramos fazendo voto de obediência! Como são felizes as simples religiosas! Já que a vontade dos superiores constitui sua única bússola, estão sempre seguras de se encontrarem no caminho reto”.16 Santa Teresinha alcançou a obediência perfeita e seguiu as vias de uma sujeição completa à vontade de Deus; sem se preocupar em fazer grandes mortificações físicas, se limitou apenas em cumprir as prescrições de sua Regra, pois tinha pela obediência um enorme apreço e chegou a escrever: “A Obediência é minha forte couraça e o escudo do meu coração”.17

Os frutos desta perfeita renúncia

É de muita valia ressaltar também alguns fatores que concorrem para a excelência da obediência na vida religiosa, segundo ensina Valuy.

a)No obséquio que se faz a Deus:

“Não se trata mais das riquezas da terra, como no voto de pobreza; nem das satisfações corporais, como a castidade; senão que consagra a Deus o que o homem tem de mais nobre, de mais precioso e de mais íntimo: sua própria liberdade”18; […] “já que é dom supremo do amor entregar não só o que se possui- coisa bem precária- mas o que se é”.19

b)Nos traços de semelhança que nos faz ter com Nosso Senhor Jesus Cristo:

O religioso pode afirmar com Ele, o Obediente por excelência: “não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,30). E dizer também a respeito de si: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,34); desta maneira ele se assemelha Àquele que é o modelo da mais sublime obediência.

c)Na dignidade e perfeição que comunica à vontade:

“A conformidade mais real, mais íntima, mais profunda, é a que existe entre duas vontades”20, assevera Tanquerey, e é propriamente esta afinidade que Deus quer estabelecer com os homens; este Seu desejo se satisfaz especialmente com aqueles que entregam a Ele sua vontade, pelo voto de obediência. E conforme atesta Santa Teresa, o nosso intelecto e a nossa vontade se enobrecem quando, esquecendo-se de si, tratam com Deus.21 Logo, “[…] pelo voto de obediência o religioso une seu entendimento e sua vontade ao entendimento e à vontade de Deus; faz-se um mesmo espírito com Deus e pode, com razão, lisonjear-se de pensar e de querer como Deus, de fazer o que Deus quer, como quer e porque quer”.22

d)Na influência que exerce sobre todas as virtudes:

“Se desejais enriquecer-vos pronta e facilmente de todas as demais virtudes, não abandoneis jamais o salutar exercício da obediência”23 , assegura Santa Maria Madalena de Pazzi. E continua Valuy: “Ela as planta, as rega e as faz frutificar; conserva-as, sustenta sintetiza e supre. Dá-lhes forma e mérito, valor e vida”.24

e)No sinal de predestinação que nela se encontra:

“Não sendo outra coisa o pecado, senão uma desobediência à lei divina, o que consagra a sua vida à obediência se coloca em certa impossibilidade de pecar; e, se o único obstáculo para a salvação está no pecado, ele toma o caminho mais seguro, curto e fácil para alcançar a salvação eterna. Que abundância de graças durante a vida, que consolos na hora da morte, que glória e que destino não concede Deus na eternidade, ao religioso que por seu amor sacrificou tudo e até a sua própria pessoa!”25

Desta maneira, o religioso ao passar desta vida para a eternidade, poderá com toda alegria exclamar:

“Senhor, eu também estive crucificado convosco, como Vós e por Vós. Meus pés e minhas mãos, minha língua e todos os meus sentidos, minha inteligência, minha liberdade, minha vontade, meu ser todo inteiro foi crucificado, […]. A obediência foi meus cravos e minha cruz. E agora, Senhor, posto que Vos segui até o Calvário, mandai-me entrar convosco na glória”.26

Por fim, cabe-nos reconhecer a grandeza desta virtude, para nos empenharmos em praticá-la e nela nos refugiarmos. A obediência nos dá uma felicidade insubstituível posto que ela nos faz renunciar o que há de mais precioso para nós: a nossa própria vontade.27

O fato de existir almas que amam e desejam praticar a virtude da obediência é uma proclamação da autêntica liberdade dos verdadeiros filhos da luz no meio das trevas desse mundo que se gloria da libertinagem das paixões e da total independência a qualquer forma de hierarquia e autoridade.

1 “obedientiam reddit promptam hominis voluntatem ad implendam voluntatem alterius, scilicet praecipientis” (Ibid. II-II, q. 104, a 2 ad. 3).
2 ROYO MARÍN, Antonio. La vida religiosa. 2. ed. Madrid: BAC, 1965. p. 325.
3 “Respondeo dicendum quod sicut actiones rerum naturalium procedunt ex potentiis naturalibus, ita etiam operationes humanae procedunt ex humana voluntate. Oportuit autemin rebús naturalibus ut superiora moverent inferiora ad suas actiones, per excellentiam naturalis virtutes collatae divinitus. Unde etiam oportet in rebús humanis quod superiores moveant inferiores per suam voluntatem, ex vi auctoritatia divinitus ordinatae. Movere autem per rationem te voluntatem est praecipere. Et ideo, sicut ex ipso ordine naturali divinitus instituto inferiora in rebús naturalibus necesse habent subdi motioni superiorum, ita etiam in rebús humanis, ex ordine iuris naturalis et divini, tenentur inferiores suis superioribus obedire” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 104, a.1).
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Imagem Sacra pode expressar muito mais do que a palavra. Op. cit. p.10
5 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 115.
6 “Bienaventurados los obedientes, porque Dios nunca permitirá que se extravíen” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 153. Tradução da autora).
7 “[…] un gran misterio de predilección hacia una determinada alma […] un abismo de amor selectivo por parte de Dios” (ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 145.Tradução da autora).
8 “Nada hay- en la práctica nada debe haber- en ella que no sea total y esencialmente religioso” (Ibid. p. 135. Tradução da autora).
9 “Id quod communiter multis convenit, antonomastice attribuitur ei cui per excellentiam convenit: sicut nomen fortitudinis vindicat sibi illa virtus quae circa difficillima firmitatem animi servat;[…]. Religio autem, ut supra habitum est, est quaedam virtus, per quam aliquis ad Dei servitium et cultum aliquid exhibet. Et ideo antonomastice religiosi dicuntur illi qui se totaliter mancipant divino servitio, quasi holocaustum Deo offerentes. Unde Gregorius dicti, super Ezech. (Homil. XX): Sunt quidam qui nihil sibimetipsis reservant; sed sensum, linguam, vitam atque substantiam, quam perceperunt omnipotenti Domino immolant” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 186, a.1).
10 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.186, a. 8.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Este êremo é a obra-prima de Nossa Senhora: Palestra. São Paulo, 13 set. 1971. (Arquivo IFTE).
12 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 616.
13 “[…] nos fala Dios, no ya como Señor que manda, sino como Padre que manifiesta un deseo. Esta obediencia no es ya el acto del que sirve bajo pena de no cobrar su salario y perder su pan, sino el acto del hijo que saca de su amor energías para hacer lo que su padre desea de su buena voluntad” (MAUCOURANT, F. Op. cit. p. 61. Tradução da autora).
14 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. Op. cit. p. .
15 “Con vuestra divina gracia resuelvo, Señor, seguir en todo as vuestras ordenes y vuestros deseos sin buscar jamás mi proprio gusto” (MAUCOURANT, F. Op. Cit. p.56. Tradução da autora).
16 SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Caminhando para Deus. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1997. p. 254.
17 Ibid. p. 257.
18 “no es ya la fortuna de la tierra, como la pobreza; ni las satisfacciones corporales, como la castidad; sino que consagra a Dios lo que tiene el hombre de más noble, de más precioso y de más intimo: su misma libertad” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op. cit. p. 333. Tradução da autora).
19 “ya que es don supremo del amor entregar no sólo lo que se posee -cosa bien minguada-, sino lo que uno es” (VALUY, Tratado breve del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 331. Tradução da autora).
20 TANQUEREY, Adolfe. Compêndio de Teologia ascética e mística. 6. ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 238.
21 SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 449.
22 “[…] por el voto de obediencia une el religioso su entendimiento y su voluntad al entendimiento y voluntad de Dios; se hace un mismo espíritu con Dios y puede, con razón, lisonjearse de pensar y de querer como Dios quiere, como lo quiere y porque quiere” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 334. Tradução da autora).
23 “Si deseáis enriqueceros pronta y fácilmente de todas las virtudes, no abandonéis jamás el salutable ejercicio de la obediencia” (SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI apud MAUCOURANT, F. Op. cit. p.141. Tradução da autora).
24 “Ella las planta, las riega y las hace fructificar; las conserva, las sostiene, las compendia y las suple; les da forma y mérito, precio y vida” (Id. Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 334).
25 “No siendo otra cosa el pecado que una desobediencia a la ley divina, el que consagra su vida a la obediencia se pone en cierta imposibilidad de pecar; y, por cuanto el único obstáculo para salvación está en el pecado, toma el más seguro, el más corto y el más fácil camino para la salvación. ¡Qué abundancia de gracias durante la vida, qué consuelos en la hora de la muerte, qué gloria y que dicha no concede Dios en eternidad al religioso que por su amor lo ha sacrificado todo, y se ha sacrificado a si mismo!” (Loc. Cit. Tradução da autora).
26 “yo también, Señor, he estado crucificado con Vos, como Vos e por Vos. Mis pies y mis manos, mi lengua, todos mis sentidos, mi inteligencia, mi libertad, mi voluntad, mi ser todo entero ha sido crucificado, […]. La obediencia ha sido mis clavos y mi cruz. Y ahora, Señor, puesto que os he seguido al Calvario, mandadme entrar con Vos en la gloria” (Loc. Cit. Tradução da autora).
27 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Obedecer sempre e com alegria: Homilia. São Paulo, 18 jan. 2010. (Arquivo IFTE).

A princesa africana

S Teresa JulianaIrmã Lucía Ordoñez Cebolla, EP

“Morreu tendo vivido setenta e dois anos sem mancha de pecado mortal”. Esse magnífico epitáfio resume a vida de uma africana, nobre por seu sangue, mas muito mais pela virtude de sua alma.
Era o ano de 1676, quando os olhos de Tshikaba contemplaram pela primeira vez a luz deste mundo. Nascida na África Ocidental, às margens do Golfo da Guiné, era a última dos quatro filhos de uma família de reis. Bem cedo, demonstrara inteligência incomum e, por isso, comentava-se ser ela quem governaria após a morte de seus pais.

O reino de Tshikaba era pagão e seus habitantes adoravam o Sol. Ansiosos, aguardavam as primeiras luzes do alvorecer para saírem ao encontro do astro-rei com cantos e aclamações rituais. Mas Tshikaba era uma menina diferente das outras. Reflexiva e contemplativa, indagava o sentido de todas as coisas ao seu redor, procurando responder à pergunta que surgia invariavelmente no seu interior: quem comanda e mantém esta natureza tão exuberante e repleta de beleza? Sem ela perceber, a sede insaciável do Absoluto brotava do mais profundo de sua alma inocente.

Angustiada em seu pueril intelecto, foi interrogar seu irmão, o qual apenas soube lhe dizer que a “Estrela da Manhã” era, indiscutivelmente, a grande divindade à qual era preciso adorar. Insatisfeita e cheia de perplexidades, foi interrogar o rei:

— Papai, o astro que cultuamos está no céu como todos os outros. Nada o diferencia, a não ser seu brilho. Alguém o pôs lá; e esse alguém tem de ser muito mais poderoso do que o Sol. É esse Ser misterioso que procuro e desejo conhecer, porque só Ele deve ser adorado!

O pai não teve resposta para dar à menina, inspirada pelo sopro da graça.

Um propósito aos nove anos

Tshikaba gostava de caminhar pelo campo entregando-se às suas meditações. Em um dos seus passeios, sentou-se para descansar um pouco, perto da nascente de um rio. Ao contemplá-la, perguntava-se: “Quem será esse Ser desconhecido que colocou aqui esta fonte?”.

De repente, a menina levantou os olhos e viu, extasiada, ao lado do manancial, uma Senhora de pele alva como a neve, carregando nos braços um belíssimo Menino que, sorrindo, acariciava a cabeça da princesa moreninha. Ali, por fim, o Divino Infante — o verdadeiro Deus tão almejado — lhe revelou Seus segredos e Sua Mãe Santíssima lhe falou a respeito de Sua vida. Que terão dito? Tshikaba preferiu manter silêncio, mas a partir desse encontro sua vida mudou completamente.

Mais tarde, seu irmão Juachipiter lhe disse terem decidido seus pais que seria ela quem os sucederia no governo, ao que a pequena respondeu: “Saiba que não irei me casar com ninguém deste mundo. Eu só quero saber de um Menino branco que conheci!”.

Tshikaba tinha apenas nove anos de idade.

Seqüestrada providencialmente

Algum tempo depois, saiu ela novamente a passear pelo campo. Nesse dia, porém, decidiu fazer outros caminhos, a fim de conhecer novas paisagens. Andando sem rumo, acabou por se perder, e nada do que via lhe era conhecido. Por fim, sentou-se junto a uma árvore, de onde podia avistar o mar.

Contemplando a vastidão do panorama, percebeu não muito longe a silhueta de um barco se aproximando. Era um navio espanhol. Imersa em sua constante preocupação, sentiu, de repente, que alguém a agarrava pelo braço. Um jovem desconhecido, sem dizer palavra alguma, a obrigava a segui-lo. Ela, dócil como toda criança, acompanhou-o, pensando que talvez ele pudesse ajudá-la a resolver o enigma que a atormentava.

O estranho visitante a conduzia cada vez para mais perto da costa. Quando quis perguntar-lhe quais eram suas intenções, não pode fazê-lo: tinha desaparecido. Assustada, olhou para frente e notou que o navio acabava de aportar. Tshikaba queria correr, mas suas pernas não lhe obedeciam. A tripulação, ao vê-la adornada com jóias e braceletes, logo percebeu tratar-se de uma menina com sangue real. E aqueles homens do mar a levaram para a nave, que logo retomou sua rota em direção à Espanha.

A pequena princesa, vendo sua terra natal se distanciar aos poucos, sentiu vontade de jogar-se nas águas, mas a Senhora do manancial apareceu a seu lado, dando-lhe consolo e coragem. Tshikaba tinha sido levada por um desígnio de Deus!

No percurso, ao passar pela cidade de São Tomé, os próprios marinheiros a batizaram, dando-lhe o nome de Teresa. Isto não lhe causou estranheza, pois, já na fonte, a alvíssima Senhora assim a chamara. O batismo era, no fundo, uma confirmação das promessas que Ela lhe fizera.

Assim, terminada a viagem, aos dez anos de idade, Teresa chegava ao porto de Sevilha.

Escalando a sagrada montanha do sofrimento

Da capital andaluza levaram-na a Madri, pois, sendo uma princesa, tinha de ser apresentada primeiramente ao rei. Carlos II acolheu-a com benignidade, e entregou- a aos cuidados do Marquês de Mancera, outrora vice-rei do México, com o encargo de lhe dar formação esmerada, começando por evangelizá-la.

No continente europeu, iniciou-se para Teresa outra etapa de sua vida: a cruz e o sofrimento seriam doravante seus companheiros inseparáveis, como o foram para Nosso Senhor, o Menino branco que a cativara e que ela já adorava como Deus.

Os nobres da casa de Mancera tratavam a pequena africana como a uma verdadeira filha, mas logo isso despertou inveja em toda a criadagem. Não foram poucos os maus-tratos e humilhações que Teresa teve de enfrentar. Mas ela tudo suportava com mansidão e paciência, indo se refugiar aos pés de uma comovedora imagem do Ecce Homo que havia num pequeno oratório do jardim. Ali, o próprio Cristo, chagado e ultrajado, Se encarregava de lhe mostrar as belezas incomparáveis do sofrimento, e ela compreendeu que no contato com a Cruz de Nosso Senhor a alma se purifica, as fraquezas são vencidas e se encontram forças para prosseguir na via da perfeição.

Por essa época, a jovenzinha manifestava forte entusiasmo pela vida religiosa, e revelou seu anseio aos marqueses. Sem colocarem oposição alguma, eles designaram o cavaleiro Diego Gamarra para encontrar um mosteiro no qual Teresa pudesse cumprir sua vocação. Este percorreu inúmeros conventos, porém sempre encontrava dificuldades e reticências para fazer admitir a pequena princesa, vinda de tão longínquas terras. Ela redobrou suas orações e penitências, implorando a Deus que, se realmente Ele a quisesse para Si, derrubasse todos os obstáculos que contra isso se levantavam.

Finalmente a Providência compadeceu-se de Teresa e Diego Gamarra conseguiu seu ingresso no Convento de Santa Maria Madalena, das Dominicanas da Penitência, em Salamanca; porém, apenas como terciária da ordem e servente da comunidade. Contente, ela abraçou essa humilhação na paz de espírito e na mansidão, conformada em nunca chegar a ser uma autêntica religiosa.

Serviço incondicional

Disposta a tudo, Teresa entrou no mosteiro para servir incondicionalmente às suas irmãs. Mas, em determinado momento, foi tomada por uma terrível provação: será que Deus realmente a queria ali? Não seria melhor voltar para a África e, como rainha, ser propulsora da fé cristã? A madre superiora, pessoa muito virtuosa, logo percebeu o estado espiritual de Teresa. Quando se lhe apresentou a oportunidade, interrogou-a. Vendo a bondade e o carinho da madre, a adolescente abriu-lhe a alma, reafirmando seu mais firme propósito de ser uma verdadeira religiosa.

Oito meses depois, o bispo de Salamanca autorizava Teresa a pronunciar os votos solenes, numa cerimônia que ele mesmo presidiria. Assim, no dia 29 de junho de 1704, aos 28 anos de idade, Teresa Juliana de São Domingos — confirmada para sempre na sua vocação — professava como terciária da Ordem Dominicana.

Acabada a cerimônia, Irmã Teresa caiu de joelhos ante o sacrário, transbordante de contentamento. Em meio às lágrimas de consolação, apareceu-lhe São Domingos de Gusmão, seguido de uma celestial comitiva, convidando-a a fazer os votos em suas próprias mãos! Após esta “profissão celeste”, seu Pai e Fundador a abençoou e desapareceu. As promessas da Senhora do manancial se cumpriam de forma total e completa!

Fazendo frente às bombas, pela devoção a São Vicente

Seria no quotidiano da vida monacal que aquela mítica princesa de um reino distante daria as melhores demonstrações de acrisolada virtude. Encarregaram-na de cuidar dos enfermos com as doenças mais repugnantes e aconselhar os atribulados, o que ela fazia com sobrenatural disposição. Tinha, ademais, o dom místico de discernir, pelo odor, as pessoas impuras, e isto a levava a mortificar seu próprio corpo, implorando a Deus que elas rompessem com o pecado. Era em extremo obediente, e sua vida de perfeição era exigida pelo próprio Céu: cada vez que cometia uma falta, apareciam Maria e Jesus para repreendê-la.

Sua fama de santidade espalhou-se rapidamente pela cidade inteira. Incontáveis salmantinos acudiam ao locutório do convento para expor-lhe seus problemas. Ela a todos recebia cheia de amabilidade, aconselhando a uns, obtendo por suas preces a saúde de outros, e até prevendo perigos ameaçadores.

Certa vez foi protagonista de um fato portentoso. Durante a Guerra de Sucessão, que naquela época sacudia a Espanha, a cidade de Salamanca estava sendo bombardeada. Irmã Teresa apressou-se a pôr numa janela do mosteiro uma estampa de São Vicente Ferrer, do qual era grande devota, para dele obter protecção contra qualquer ataque. E o resultado foi tão feliz que não só preservou seu mosteiro de todo dano, mas também, em breves minutos, espalhou-se a paz na cidade inteira.

Voando rumo à Pátria Celestial

Fazia já algum tempo que Irmã Teresa Juliana de São Domingos padecia de um tumor no joelho, quando, no outono de 1748, sofreu um forte ataque de paralisia. Estava ferida de morte, e a Providência lhe reservara para o período derradeiro a glória das grandes provações. Incertezas, dúvidas, aflições e o abandono dos homens tomaram-na inteiramente. Assim transcorreram seus últimos dias nesta terra, até que em 6 de Dezembro de 1748 recebeu os Sacramentos e entregou sua bela alma ao Redentor.

No dia seguinte, os sinos do convento de Santa Maria Madalena anunciavam o seu falecimento. Contam testemunhas de sua morte que, no momento de partir para a eternidade, sua pele ficou por alguns momentos alva como a neve. Ao mesmo tempo, seu corpo exalava um excepcional perfume.

Assim, a princesa africana — conhecida por todos com o carinhoso nome de La Negrita —, após ter escalado na terra os altos cumes da virtude, era elevada aos píncaros da perfeita união com Deus.

Beati mortui qui in Domino moriuntur. Admirável é a morte dos justos na presença do Senhor!