O cetro da misericórdia

Emelly Tainara Schnorr

Tempo houve em que, conforme narram as Sagradas Escrituras, o povo judeu recebeu a ameaça de ser exterminado pelo Rei Assuero. Nesse momento crucial da sua história, entrou em cena a rainha Ester intercedendo junto ao monarca pelos seus e obtendo-lhes a salvação (cf. Est 3 – 7). Recordemos como isso se deu.

Segundo as leis em vigor naquela época, era proibido o acesso de qualquer pessoa ao átrio interno do palácio real sem ter sido convocada. Quem ali ousasse entrar por própria iniciativa seria imediatamente condenado à pena capital, a não ser que o soberano levantasse seu cetro de ouro em direção ao intruso, como sinal de assentimento. Havia um mês que Ester não era chamada à presença de Assuero, quando Mardoqueu alertou-a sobre a trama do infame Amã. Confiando, porém, no Deus verdadeiro e nas orações feitas pelos seus, a rainha dirigiu-se aos aposentos reais. O anseio por obter a salvação do seu povo vencia em seu espírito o medo da morte. Ao vê-la, o monarca se alegrou e lhe estendeu o temido bastão de comando, cuja ponta ela se apressou a tocar em sinal de submissão. “Que queres rainha Ester?”, perguntou-lhe o soberano. “Ainda que pedisses a metade do meu reino ela te seria concedida” (Est 5, 3). A ameaça fora vencida.

Esta admirável cena da História Sagrada prefigura uma realidade mais elevada e comovente para nós, cristãos. Expulso do Paraíso e tornado inimigo de Deus por causa do pecado, o homem do Antigo Testamento estava subjugado ao domínio do demônio, muito mais cruel e tirânico do que os de Assuero ou Amã. Como podia fazer para entrar novamente no Palácio Celeste e recuperar as boas graças do Criador? Quem ousaria comparecer diante do Rei da Justiça para interceder pela humanidade revoltada contra seu boníssimo Deus e Senhor?

Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus” (Lc 1, 30). As singelas palavras do Anjo Gabriel deixam entrever o inefável amor do Altíssimo para com uma criatura, a mais santa e nobre entre todas. Desde o momento de sua Imaculada Conceição, Deus A inundara de graças e favores. E bastou, por assim dizer, que Ela tocasse a ponta do divino cetro onipotente, advogando pela vinda do Salvador, para ser imediatamente atendida.

A fulgurante virtude da donzela de Nazaré conquistara de tal forma a benevolência do Criador que Ele decidiu tomá-La por Esposa Imaculada e torná-La sua Mãe Virginalíssima. E depositando em suas alvíssimas mãos o cetro que simboliza o domínio sobre todos os homens, tornou-A Rainha de Misericórdia. Pela onipotência suplicante que Deus lhe concedeu, nada pode ser negado a tão bondosa Soberana.

Como uma nova Ester, a Santíssima Virgem achou graça aos olhos do Senhor em favor de todos os homens e conseguiu a metade do seu império divino. Ela detém o cetro da misericórdia, enquanto o seu Filho continua a ser o Rei da justiça. Sim, Maria é o ministro plenipotenciário da misericórdia divina; esse é o seu ministério. Assim como nos Estados os que têm de tratar de uma questão de finanças, de marinha ou de agricultura se dirigem aos ministros respectivos, do mesmo modo é à Mãe de Deus que devem recorrer os que têm necessidade de misericórdia”.1

Nunca nos cansemos, portanto, de recorrer a Ela nos momentos de dificuldade e aflição. Do cetro que Lhe foi entregue por seu Divino Filho emanará sempre a força necessária para enfrentarmos qualquer adversidade da vida, porque, mais ainda do que Rainha e Senhora, Ela é Mãe extremosa de cada um de nós. “Sobretudo nas horas de sofrimento e de tentação, sempre poderemos contar com esse fator de paz fundamental: Nossa Senhora estará comigo, ainda que eu não esteja com Ela. Não me abandonará nunca e me ajudará em todas as circunstâncias. Virá ao meu encontro com a exuberância de sua misericórdia, concedendo-me mais do que Lhe peço e mais do que Lhe retribuo, deixando-me pasmo e desconcertado diante de tudo o que Ela faz por mim”. 2

1 TISSOT, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas. 3.ed. São Paulo: Quadrante, 2003, p.117-118.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 16 jun. 1972.

Água mole em pedra dura…

Fahima Spielmann

Por muito ousado que seja o pedido feito por nós ao Altíssimo, sempre será possível transpor as “rochas” da justiça divina, alcançando d’Ele misericórdia.

Ao percorrer as primeiras páginas das Sagradas Escrituras, curioso é notar a misteriosa predileção demonstrada por Deus para com as águas. Quando a Terra estava ainda deserta e vazia, e as trevas cobriam o abismo, o Espírito do Altíssimo já pairava sobre elas (cf. Gn 1, 2). E logo após criar o dia e a noite, deu origem aos rios e oceanos, com os quais cobriu a maior parte da superfície terrestre.

Sempre benéfica para o homem, a água se reveste dos mais variados aspectos. É tranquila e poética nos lagos, majestosa e enigmática nas altaneiras ondas do imenso mar, delicada e silenciosa no orvalho, ou abundante e fecunda na chuva. Entretanto, nas torrentes e cachoeiras, o líquido elemento, suave e acariciador das lagoas e do sereno, torna-se capaz de perfurar a rocha, lembrando o famoso adágio: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura!”.

De fato, são as cascatas símbolo daqueles que, sentindo-se fracos como gotas d’água — não raras vezes contaminadas pelo pecado —, perseveram na sua oração até conquistar o impossível. Porque por muito ousado que seja o pedido feito por nós a Deus, sempre será possível transpor as “rochas” da justiça divina, alcançando d’Ele misericórdia. O segredo, segundo São João Crisóstomo, grande Doutor da Igreja, está na persistência: Não há o que não se obtenha pela oração, ainda que se esteja carregado de mil pecados, contanto que ela seja instante e contínua”. 1

Assim nos instruiu também o próprio Cristo. Atendendo ao pedido dos discípulos de ensinar-lhes como se devia orar, revelou-lhes o Painosso, e logo após narrou a parábola do homem que bate à porta do amigo à meia-noite pedindo pães. Nesta, o dono da casa já dormia com toda sua família; contudo, venceu os incômodos naturais a fim de dar ao outro o que pedia, por causa de sua insistência. Conclui Nosso Senhor: “Eu vos digo: no caso de não se levantar para lhe dar os pães por ser seu amigo, certamente por causa da sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães necessitar” (Lc 11, 8).

Ninguém pode querer-nos tão bem quanto o próprio Deus, pois Ele nos ama infinitamente mais do que nós possamos nos amar. Às vezes, porém, antes de nos conceder certas graças, Ele deseja ver-nos pedir com perseverança. Age como uma mãe que, querendo dar um presente muito valioso para o filho, o faz ansiá-lo antes de concedê-lo.

A nós compete não desanimarmos e pedirmos com persistência, de modo análogo às quedas da cachoeira, confiando não na pureza das águas de nossas obras, mas na insistência de nossa oração. “Pedi e vos será dado; procurai e encontrareis; batei e a porta vos será aberta. Pois todo aquele que pede recebe; quem procura encontra; e a quem bate a porta será aberta” (Lc 11, 9-10).

1Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. In Matthaeum. Hom. XXIII, n.4: MG 57, 312-313.