Silêncio: somente para os religiosos?

Ir. Denise Maria Paschoal Rocha

2º ano de Ciências Religiosas

Em determinado mosteiro, duas freiras eram muito amigas uma da outra, mas… não eram muito amigas da perfeição: sempre quebravam o silêncio durante o Oficio. Seguindo o costume do convento, cada irmã possuía um lugar fixo nas estalas do coro. As duas religiosas sentavam-se próximas uma da outra e, pelo menor pretexto, começavam a falar…

Certo dia, uma delas morreu. Quando foram cantar o Ofício na manhã seguinte, depois do enterro, qual não foi a surpresa da amiga ao ver que o lugar da falecida não estava vazio, mas ocupado pela própria defunta! Assustada, foi contar à Madre. Esta lhe ordenou que, se visse a tal irmã outra vez, lhe perguntasse se estava precisando de orações ou de alguma outra coisa.

No dia seguinte, a alma da irmã falecida novamente apareceu na hora do Oficio, e a amiga lhe perguntou o que fazia ali. Ela lhe respondeu: “Estou aqui para purgar os meus pecados. Nós conversávamos durante o Oficio, quebrando o silêncio e perturbando o cerimonial. Eu deveria ter empregado esse tempo para conversar com Nossa Senhora!”

E nós, quantas e quantas vezes não conservamos um recolhido silêncio nas igrejas e capelas? Lembremo-nos: cumprir os momentos de silêncio é uma forma de educar a alma, além de nos abrir o coração para as grandes conversas com Deus.

Como nos ensinou Plinio Corrêa de Oliveira: “O silêncio é uma espécie de câmara obscura, na qual se vai procurar as joias daquilo que se pensou, daquilo que se sentiu, para depois dizer a palavra acertada, a palavra que tem carga, que tem amor, tem afeto e entusiasmo”.

O silêncio: o grande conselheiro

Ir. Gabriela Victoria Silva Tejada

É noite e, no cume da montanha, reina a mais negra escuridão, apenas cortada pelos pálidos reflexos da lua que, por entre espessas camadas de nuvens, rasgam por alguns momentos as trevas. É noite escura, as estrelas quase não brilham, parecem mudas no firmamento à espera de grandiosos acontecimentos que lhes anunciem a vitória. No alto da montanha, uma altiva e imponente construção parece desafiar a noite com suas torres e ameias belamente talhadas na pedra. É um magnífico castelo, uma fortaleza antiquíssima, uma relíquia da Cristandade.

Apesar de ser meia-noite, uma luz brilha com intensidade incomum no recinto sagrado do castelo; no altar-mor seis velas iluminam um riquíssimo crucifixo de mármore encrustado de pedras preciosas e os brilhos multicolores que destas se espargem à luz das velas são refletidas com particular beleza na prateada lâmina de uma espada, que honrosamente repousa em cima do altar. Ao seu lado, a imagem da Virgem das Batalhas olha com predileção a uma figura, que de joelhos, passa horas desta noite escura em silêncio e oração.

É um cavaleiro, ou melhor , será ” armado cavaleiro” se passar com heroica piedade a noite de vigília de armas. Reina o mais profundo silêncio no Castelo, na montanha e quase se poderia dizer que em toda a face da Terra. O mundo inteiro parece conter a respiração para assim admirar, no mais profundo silêncio, este intrépido penitente. Sua oração, embora silenciosa, comove os Anjos que ali o observam e o protegem, afugentando os demônios que parecem não suportar tanta quietude. E é na negrura da noite que este mesmo silêncio começa a falar ao coração do jovem cavaleiro.

Sem ainda compreendê-lo completamente, o cavaleiro levanta ao céu uma fervorosa oração e agradece, com filial afeto, ao Pai do Céu por lhe conceder conhecer os mistérios da cavalaria, não em um campo de batalha, mas no profundo silêncio de uma noite de oração. Seu espírito, antes ávido de glórias passageiras e mundanas, acaba de ser iluminado pela fé e busca não mais a sua própria glória, mas a de Deus; não mais os efêmeros aplausos da nobreza, mas sim, os méritos com que são coroadas as virtudes; não a conquista de praças e fortalezas, mas a coroa da gloriosa santidade que só os verdadeiros soldados de Cristo conquistam.

A aurora ainda não chegou, a escuridão da noite se recusa a dissipar-se; os pálidos raios do sol ainda não venceram a batalha do amanhecer e este jovem cavaleiro permanece ainda de joelhos diante do Tabernáculo. Os fantasmas da noite não o desanimaram, o silêncio e a obscuridade fortaleceram-no em seus propósitos de santidade, e a Virgem Imaculada, qual terna e bela mãe, protegeu seu espírito contra as frivolidades da idade.

E o que diz o silêncio? O silêncio fala de Deus e da Virgem, que certamente dali o observam com predileção. O silêncio narra as gloriosas batalhas dos mártires cujas relíquias são veneradas há séculos e, ensina-lhe o segredo de tais virtudes heroicas. O silêncio fá-lo recordar os prodigiosos feitos de seus antepassados​​, e as tremendas lutas que travaram para gloriosamente conquistar a coroa da eterna bem-aventurança. Também ele deverá se esforçar para obter a glória de seus antepassados ​​e a virtude dos santos. No silêncio da noite, o cavaleiro analisa o seu futuro na defesa da fé e da Igreja: as guerras e batalhas, os perigos e ameaças da vida de campanha, as aventuras e dificuldades enfrentadas durante as guerras, os infortúnios e derrotas que ocorrem quando se é covarde e medíocre, a tristeza e desolação que assola o inconstante e indisciplinado. As horas se passaram, mas o humilde cavaleiro persiste em sua vigília e estes e muitos outros pensamentos sussurram ao seu ouvido o silêncio …

Este cavaleiro se lembrará por toda a vida que aprendeu mais no silêncio da vigília de armas do que nas mais gloriosas e sangrentas batalhas, e que o segredo da vitória não está no meio da agitação de armas, mas sim naquela paz e, que iluminado pela graça se entrega nas mãos da Providência, para que Ela o sustente, o guie e o conduza à morada eterna …

Quiçá, quem está lendo estas poucas linhas sorri ao terminar de fazê-lo e, julgue – não sem uma forte dose de “senso comum” – que esses belos pensamentos pertencem infelizmente ao passado, e só podem figurar nas páginas de alguma ” Catena Aurea”, incapazes de fazer eco no meio do buliço da sociedade hodierna.

Para uma sociedade tecnológica como a nossa, onde como outros Baals, os ídolos da modernidade levantam seus altares em todos os lugares, arrastando a humanidade inteira – cada vez mais pragmática e ateia – para os abismos da irracionalidade, parece loucura querer falar em silêncio … Para os homens de hoje, não há tempo para pensar, meditar e muito menos para se calar. A humanidade caminha escravizada por um exército tão atrativo como perigoso, composto por agentes cada vez mais numerosos: telefones, televisores, computadores, telefones celulares, smartphones, iPods, tablets … e um sem fim de componentes tecnológicos capazes de aterrorizar a alma de qualquer pobre medieval que pudesse contemplá-los, e que têm cruelmente substituído as formas mais orgânicas de relacionamento humano.

Este exército virtual conquistou as mentes humanas, quase que imperceptivelmente, e alterou drasticamente os costumes da sociedade, relegando à “idade da pedra” as antigas e amenas tertúlias entre amigos, as acaloradas discussões nas praças, as tradicionais conversas de família, as meditações de um monge, as boas leituras de um jovem em uma tarde de inverno e até mesmo as inocentes brincadeiras de crianças, por intermináveis ​​e odiosos videogames, chats, twitters e tudo o mais que estão ainda por ser inventados, eliminando completamente os momentos plácidos e necessários de silêncio que possuía a humanidade.

De fato, o esplendor e fecundidade escondidos no silêncio são um precioso tesouro que a humanidade precisa redescobrir e verdadeiramente praticar para alcançar os picos mais altos da santidade. Ele é a autêntica força na formação espiritual das almas, e dá seus frutos na vida religiosa; que podem ser, perfeitamente, aplicados à vida secular dos católicos no século XXI.

É possível sentir Jesus na Comunhão?

Bruna Almeida Piva

Eucaristia

Nosso Senhor Jesus Cristo está verdadeiramente presente no Santíssimo Sacramento. Porém, não O está sensivelmente, ou seja, não O podemos ouvir, ver ou tocar, pois está oculto sob as sagradas espécies. Deus assim quis para que, pelos méritos da fé, obtivéssemos a salvação eterna.

Imaginemos se isto não fosse assim, e se Nosso Senhor Se fizesse perceptível aos nossos sentidos; se nós pudéssemos ver, por exemplo, “um pequeno movimento de sua mão divina, e observar seu pulso, considerando que ali pulsa o Sagrado Coração de Jesus, uma vez que a pulsação do Coração se reflete nas veias”[1]; ou se pudéssemos ouvir sua santa voz, grave, séria e muito suave ao mesmo tempo, nos dizendo palavras de consolação, ou mesmo de correção. Que respeito, que júbilo, que alegria não teríamos em relação a esse sublime Sacramento!

Ora, Nosso Senhor está na Hóstia; nós não O vemos, mas cremos. Ao chegar a hora da comunhão na Santa Missa quantas vezes pensamos: “Agora vou comungar, e Jesus vai estar realmente presente em mim. Será que Ele não vai me dizer nada?” Sim! No interior de nossas almas, Ele dirá: “Meu filho, quando dois estão juntos, um sente o outro. Será que quando Eu estou em ti não sentes nada? Ouve a linguagem silenciosa de minha presença, que não te fala aos ouvidos. Presta atenção em Mim! Eu estou em ti, a graça te fala. Tu não sentes nada?”[2]

Já dizia um sábio sacerdote do século XIX: “Voz de Cristo, voz misteriosa da graça que ressoais no silêncio dos corações, vós murmurais no fundo das nossas consciências palavras de doçura e de paz”.[3] É um silêncio que diz muito mais que mil palavras; “é algo que comunica luz, amor, força. E permanece em nossa alma, embora para muitos pareça ser passageiro”.[4] Apesar de não O podermos perceber através dos sentidos, Ele não deixa de nos falar à alma, e de nos enriquecer com Sua presença. A cada comunhão que, pelos rogos de Maria Santíssima, recebemos, a inteligência se torna mais perspicaz para os assuntos da fé, o amor a Deus e ao sobrenatural cresce, e nossas forças para vencer as tentações e fazer sacrifícios, assim como a vontade de lutar contra nossos pecados e más inclinações, se multiplicam por si mesmas.[5]

Nesta vida, pode nos ser uma provação o fato de não podermos ver a Nosso Senhor na Eucaristia. Porém, se ficarmos firmes na fé, e formos ardorosos devotos desse sublime Sacramento, na vida futura isso nos será motivo de grande alegria, como diz São Pedro: “Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira,mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo, e alcançará louvor, honra e glória, no dia da manifestação de Jesus Cristo. Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação”. (I Pd 1, 7-9)

Sejamos assíduos frequentadores das Santas Missas, fervorosos “ouvintes” das misteriosas vozes divinas que clamam em nós, seja em meio às consolações ou durante as provações, e, no Céu, poderemos, enfim, ver, sentir e até mesmo abraçar a Nosso Senhor Jesus Cristo durante toda a Eternidade.

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[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Eucaristia, eixo da piedade católica. Dr. Plinio, São Paulo, n. 156, mar. 2011, p. 30.
[2] Cf. Loc. cit.
[3] SAINT-LAURENT, Thomas de. O livro da Confiança. São Paulo: Teixeira, [s. d.], p. 9.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA. Op. cit., p. 30.
[5] Cf. Loc. cit.

Chama de vigilância e oração

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Lamparina_Arautos

Cortejo, cânticos, incenso… Termina uma cerimônia litúrgica. Os fiéis se retiram pervadidos de seriedade e alegria, como inebriados pelas graças que acabam de receber. Aos poucos o recinto sagrado se esvazia, as luzes se apagam e os homens cedem lugar aos Anjos. Agora, não mais as vozes, mas o silêncio fala. Em profunda solidão permanece ali, feito Hóstia, aquele mesmo Jesus que ensinava as multidões e curava os doentes, a quem obedeciam os ventos e as tempestades e cujo Coração não é senão uma fornalha ardente de caridade. Em sua companhia, apenas uma tênue luz permanece vigilante, numa espécie de oração contínua junto ao sacrário: a lamparina do Santíssimo Sacramento.

Na escuridão da noite, sua discreta e elegante chama bruxuleia em contínua vigilância, como se esforçando por manter seu fulgor em meio às trevas que a rodeiam. Às vezes, estala uma labareda, iluminando por um instante todo o ambiente; mais tarde, seu brilho diminui de tal maneira que parece estar a ponto de extinguir-se… Não obstante este aparente desfalecimento, ela volta a flamejar com uma intensidade ainda maior!

Este belo e simbólico objeto, que tantas vezes passa despercebido aos nossos olhos ao entrarmos numa igreja, representa bem as flutuações de nossa vida espiritual. Quando batizados, passamos a ser portadores da luz da graça santificante, que vem acompanhada das virtudes e dos dons.

Nas consolações, uma labareda de entusiasmo resplandece em nossa alma e ela parece tocar os Céus. Entretanto, este estado de espírito não costuma ser o habitual. Pelo contrário, com frequência vemo-nos imersos em tentações que nos convidam ao pecado. No meio delas, julgamos que o fogo se extinguirá, ou nos assustamos ao ver as figuras sombrias geradas pelo seu fraco bruxulear. Cabe-nos, então, fazer todo o esforço possível para manter a chama acesa, à espera do momento em que volte a cintilar com intenso fulgor.

— Como será isto possível?! — dirá alguém.

— Muito simples: rezando! — poder-se-ia retrucar.

Bem verdadeira esta resposta. Contudo, apenas a oração não basta. Lembremo-nos do conselho enunciado pelo Salvador: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação” (Mt 26, 41). Dada a fragilidade da natureza humana após o pecado original, é indispensável a virtude da vigilância, que deve ser praticada não só para enfrentar os adversários externos de nossa vida espiritual — o demônio e mundo —, mas, sobretudo, a fim de vencer as solicitações da carne, pois nossas más inclinações e paixões desordenadas costumam ser ainda mais daninhas.

Assim, quando as trevas das tentações cercarem nossas almas, ameaçando consumi-las na escuridão do pecado, a chama de nossa piedade se manterá acesa, à semelhança da lamparina, confiando que recobrará forças e ânimo ao passar a provação. Porém, se a vigilância vier a faltar, difícil será que permaneçamos constantes na oração, sem a qual não há abismo em que o homem não seja capaz de cair.

Revista Arautos do Evangelho – out 2014

A expressividade do silêncio

Gabriela Victoria Silva Tejada (1º ano de Ciências Religiosas)

Ao percorrermos as páginas das Sagradas Escrituras, deparamo-nos com inúmeras recomendações e importantíssimas afirmações dadas pelo próprio Espírito Santo a fim de nos ensinar o caminho certo para chegar à Pátria Celestial. Detenhamo-nos em um aspecto dos conselhos que nos apresentam os livros sapienciais: “Não te apresses em abrir a boca; […]que tuas palavras sejam, portanto, pouco numerosas.” (Ecl 5,1) e “ […] o homem sábio guarda silêncio” (Pv 11,12) Não obstante, o ditado popular resumiu em: “A palavra é de prata e o silêncio é de ouro”.

Qual é a grandeza do silêncio? O que o torna superior à palavra?

Primeiramente, o silêncio não pode ser considerado somente no seu aspecto negativo – exclusão de palavras, pois o silêncio também fala. Esta verdade é oferecida pela própria experiência, pois, em inúmeras ocasiões de nossa vida, deixamos transparecer o que acontece dentro do nosso interior através, não só de palavras, mas também do silêncio. Com ele afirmamos, negamos, consentimos, reprovamos e mostramos a nossa alegria ou recriminação em relação a algo. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, na hora da crucificação, depois de dirigir aquelas extraordinárias palavras ao bom ladrão, ofereceu um frio silêncio ao mau ladrão, que teve mais expressividade do que um colossal discurso. 1

O silêncio é um extraordinário instrumento capaz de transmitir, em várias ocasiões, mais ideias do que as próprias palavras. Referindo-se ao Espírito Santo afirma o Padre Plus:2Fala sem articular palavras, e todos ouvem seu divino silêncio (…) Sem necessidade de estar atento, ouve a menor palavra dita no mais íntimo do coração.” Ou seja, o silêncio é perfeitamente interpretado por Deus, sendo um dos meios que Ele mais usa para relacionar-se com as suas criaturas e revelar-lhes maravilhas que apenas podem ser entendidas na sacralidade e tranquilidade próprias ao silêncio.

Para viver de Deus, com Ele e para Ele, as pessoas, sempre que possível, abandonam o bulício do mundo e abraçam o isolamento. 3 São Jerônimo conta que Davi, em sua infância, fugia da agitação da cidade e buscava a solidão dos desertos. E as Escrituras nos contam que Judite tinha, na parte mais elevada de sua casa, um quarto recolhido onde permanecia enclausurada com suas fiéis servas (Jt 8, 5).

Mas o que são estas maravilhas que Deus nos revela através do silêncio? O que ele diz em nossos corações? A que nos convida? Certa ocasião, Monsenhor João Clá Dias esclareceu a seus filhos espirituais:

O que diz o silêncio?[…] Escute-me porque o timbre de minha voz é grave e suave. Escute-me porque o que tenho a dizer eleva a alma, descansa e entretém. Escute-me porque minhas palavras põem em sua alma um certo refrigério, uma certa luz, uma certa paz que você havia esquecido que existe e que agora quando fala com você, o chama para maravilhosas solidões de que já havia perdido a lembrança e as saudades. À força de falar com o silêncio, você mesmo começa a ser um daqueles que, pelo silêncio, fala, o seu silêncio interior faz ouvir palavras e você começa a entender, a dizer dentro de si mesmo que não é uma recordação que isso traz, é uma esperança, são os dias vindouros que o aguardam “.4

São João da Cruz nos lembra: “Uma palavra pronunciou o Pai, que foi seu Filho, e esta fala sempre em eterno silêncio, e em silêncio há de ser ouvida pela alma5. E assim, as virtudes serão praticadas mais facilmente conforme afirma São Rafael Arnaiz:

É o silêncio que nos faz humildes, que nos faz sofridos; que, ao termos sofrimentos, nos faz contar somente a Jesus para que Ele também, no silêncio, nos cure sem que os outros saibam […] O silêncio é necessário para a oração. Com o silêncio é difícil faltar com a caridade; com ele se agradece, mais do que com palavras, o amor e carinho de um irmão […]”6

E São Bernardo declara: “É o silêncio guardião da religião, nele está nosso vigor“.7

Portanto, o silêncio é indispensável para escutar a Deus e acolher a sua comunicação. Ele nos convida a permanecer em um estado de espírito profundo, claro e elevado para que, ouvindo seus sábios conselhos, vivamos santamente em um convívio digno e sublime, não só com os homens, mas principalmente com Aquele que nos criou.

1 Cf. Id. Devoção ao sagrado Coração de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIV, n. 155, feb. 2011, p. 10.
2 PLUS, SJ, Raúl. Cristo en nosotros. Barcelona: L. Religiosa, 1943, p. 153.
3 Cf. Imitação de Cristo, Liv. I, c. 20, m.1.
4 CLÁ DIAS, Jõao Scognamiglio.A seriedade e o silêncio que proclamam: Retiro. São Paulo, jul. 2002.
5 Obras Completas, BAC, Madrid, 1946, p. 1200.
6 SAN RAFAEL ARNÁIZ. Hermano Rafael Arnáiz Barón Obras completo. Burgos: Monte Carmelo, 2002, p. 291.
7 Cf. SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Domenica prima post octavam Epiphaniae. Sermo 2, 7. “silentium scilicet, custos religionis, et in quo est fortitudo”

Cluny: a força suave e irresistível da santidade

Irmã Clara Isabel Morazzani, EP

Numa época de crises que dominavam a sociedade temporal e ameaçavam derrubar o edifício sagrado da sociedade espiritual, ergueu-se do silêncio contemplativo dos claustros beneditinos um sopro renovador que conquistou a Europa inteira: o movimento reformador de Cluny.
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Século de guerras e rivalidades pessoais

O alvorecer do século X despontava nebuloso e indefinível. As luzes do império carolíngio haviam-se enfraquecido, cedendo lugar a um contínuo vaivém de dissensões e guerras que minavam a estrutura e a ordenação social iniciadas sob o impulso de Carlos Magno. Senhores, barões e príncipes digladiavam-se constantemente entre si, em defesa de seus interesses pessoais ou movidos por alguma obscura rivalidade.

E havia pior: a crise espalhara-se para além das fronteiras temporais, penetrando também no âmbito religioso. Dois males atingiam de modo especial a Igreja nesse século: o tráfico de cargos e dignidades eclesiásticas, conhecido pelo nome de simonia; e o nicolaísmo, palavra pela qual se designava o relaxamento de costumes dos clérigos.

Dentro dos próprios mosteiros a situação revelava-se difícil: estes, em geral, localizavam-se em territórios pertencentes a nobres que os consideravam patrimônio seu, intervindo nos assuntos da comunidade e reservando-se o direito de nomear o abade. Ora, freqüentemente a escolha por eles feita elevava a um cargo de importância homens desprovidos de aptidão e virtude para desempenhá-lo. Pode-se deduzir a decadência da disciplina regular, bem como as catástrofes daí decorrentes. Tais abusos acarretariam mais tarde conseqüências desastrosas, desembocando na célebre Querela das Investiduras.

Um sopro de renovação que cobriu a Europa

A Divina Providência, entretanto, não tardaria em suscitar a solução para esses e outros problemas da época, fazendo surgir de dentro do próprio monaquismo decadente um sopro de renovação que cobriria a Europa inteira.

Em 910, Guilherme o Piedoso, Duque da Aquitânia, atendendo ao pedido de Bernon, abade de Baume, doou uma terra situada em seu feudo de Mâcon, para a fundação de um novo mosteiro. A propriedade, uma pequena aldeia rodeada de bosques, levava um nome destinado a marcar os céus da História: Cluny ou Cluniacum. A abadia estaria isenta de qualquer jurisdição civil e eclesiástica, diretamente ligada à Cátedra de Pedro, tendo como protetores os Apóstolos Pedro e Paulo.

Desde seus primórdios, São Bernon nela implantou uma fervorosa observância beneditina, inculcando em seus seguidores os ideais da vida monástica: oração, pobreza, silêncio. Seu intuito era estabelecer ali um centro de contemplação, separado dos tumultos mundanos, no qual se cumprisse com rigorosa fidelidade a primitiva regra de São Bento e, ao mesmo tempo, fosse capaz de influir sobre a sociedade de maneira a renová-la.

Em pouco tempo Cluny transformou-se num mosteiro modelo para onde afluíam homens de escol que aspiravam à santidade. Os “monges negros” — assim chamados pela cor de seu hábito — adquiriram um prestígio considerável, a ponto de lhes ser confiada a fundação ou reforma de inúmeros mosteiros os quais passavam a ser afiliados à abadia de Cluny.

Na origem do sucesso, a santidade

Entretanto, o grande segredo de seu sucesso e da rápida ascensão com que se projetou pela Cristandade não repousava sobre o privilégio de sua dependência direta da Igreja de Roma, pois já muitos outros monastérios gozavam dessa prerrogativa sem haver obtido os mesmos resultados; também não podia atribuir-se unicamente à exatidão dos monges no cumprimento da estrita regra que viria a ser o ordo cluniacensis. A causa profunda da preeminência de Cluny foi a de ter à sua frente, durante dois séculos, homens excepcionais por sua têmpera, cultura e capacidade organizativa, e, sobretudo, todos animados por um mesmo espírito de perfeição, verdadeiros santos: São Bernon, Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e Santo Hugo. Cada um a seu modo, segundo seus dons pessoais, trabalhou para levar essa grandiosa obra ao píncaro do esplendor.

Foi Santo Odon quem instalou definitivamente a reforma e plasmou as características essenciais do que poderia chamar-se o “carisma cluniacense”. Seu zelo pela glória de Deus movia-o a peregrinar de mosteiro em mosteiro, montado em um jumento, à procura de monges fervorosos que o ajudassem a pôr em marcha seu plano reformador. A fama de santidade deste grande asceta abria os caminhos e derrubava os obstáculos, facilitando o crescimento da nova rede monástica.

São Maïeul seguiu fielmente a linha de seus predecessores, acrescentando, porém, uma nota especial de suavidade e encanto que lhe conquistou a simpatia e admiração dos papas e dos monarcas. Seus contemporâneos descrevem a doçura de seu olhar, a elegância de seus gestos e a eloqüência de seus discursos, de tal modo que parecia ser “o mais belo de todos os mortais”. Pode-se medir o alcance da influência que exercia sobre os religiosos uma personalidade como a sua, continuamente apontando para as pulcritudes divinas.

Seu sucessor, Santo Odilon, diferia em temperamento, mas não em vocação. Seus olhos chamejantes revelavam um caráter vivo e enérgico. Severo para consigo e bondoso para com seus filhos, mereceu o título de “Arcanjo dos monges”. Seu ardor apostólico e os portentosos milagres por ele realizados contribuíram largamente para a expansão da obra cluniacense pelo resto da Europa.

Mas foi no tempo de Santo Hugo que Cluny alcançou seu apogeu, ao iniciar a construção da imensa basílica de cinco naves e sete torres, a maior de todo o Ocidente naqueles remotos séculos, e cujo altar-mor foi consagrado pelo Papa Urbano II, também ele cluniacense, por ocasião de sua viagem à França em 1095. Hugo de Semur distinguiu-se sobretudo pela virtude da caridade. Conta-se que certa vez dois cavaleiros vieram bater à porta do mosteiro, fazendo apelo ao direito de asilo, que punha ao abrigo da justiça humana qualquer criminoso refugiado em um recinto sagrado. O porteiro reconheceu com horror os assassinos do pai e do irmão do santo abade e correu para referir-lhe a situação. “Deixe-os entrar”, foi a resposta pronunciada com mansidão. E assim os criminosos foram salvos.

Os santos cluniacenses estão na origem de várias festas e memórias que hoje figuram no Calendário Romano. Santo Odilon instituiu em 2 de novembro a comemoração dos fiéis defuntos e promoveu amplamente as preces feitas em sufrágio das almas do Purgatório.

A devoção à Santíssima Virgem recebeu um grande impulso pelo apostolado de Cluny. Santo Hugo determinou que quando não ocorresse uma festa inamovível no sábado, em todos os mosteiros dependentes de Cluny se cantasse nesse dia o Ofício e a Missa de Beata, especialmente compostos em louvor da Mãe de Deus. E Urbano II mandou acrescentar ao Ofício Divino, neste dia da semana, o Pequeno Ofício de Nossa Senhora.

Embaixadores do Céu
0189 Cluny - Clocher de l'Eau Bénite - Tour de l'Horloge
Em Cluny a vida transcorre suave e calma. A Regra é vivida em toda a sua austeridade e simplicidade. O dia divide-se minuciosamente entre oração e trabalho manual, mas este tende a restringir-se cada vez mais, enquanto aumentam as horas dedicadas ao Ofício Divino. A espiritualidade cluniacense considera toda a magnificência, luxo ou beleza como coisas insuficientes para honrar a Deus: sua atividade organiza-se em função de uma perpétua cerimônia na qual os ornamentos do altar e do santuário, a harmonia musical e a disciplina dos ritos prefigurem as glórias da pátria celeste.

Sem esquecer as agruras e sacrifícios deste vale de lágrimas, o cluniacense procura tornar realidade a súplica tantas vezes repetida no Pai-Nosso: “Venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu”. Dessa enlevada visão do universo florescem naturalmente, como de uma fonte de água viva, as artes da pintura e da escultura, requinta-se a maravilha policromada dos vitrais e dá-se mais importância à Liturgia e ao canto gregoriano. Já desde a madrugada, os primeiros raios da aurora filtram- se através das rosáceas, inundando a igreja numa féerie de cores enquanto as vozes dos monges, unidas aos coros dos anjos, ecoam pelas altas abóbadas em louvor ao Pai das misericórdias e Deus de toda consolação.

Da mesma forma como o ambiente onde ele habita assemelha-se ao Paraíso, o monge deve buscar sempre a perfeição, procurando refletir, por meio da prudência de suas palavras e da nobreza de suas atitudes, o próprio Deus que é a Beleza Absoluta. Considerado enquanto indivíduo, o monge é nada e nada possui, mas, na sua coletividade face ao mundo exterior, tem a consciência de ser um embaixador do Céu. Voluntariamente submetido a uma obediência rígida, ele reconhece na voz de seus superiores os desígnios do Senhor e executa-os com humildade, sabendo-se servo inútil. A regra da castidade é observada com rigor, levando em conta que é na prática dessa virtude angélica que o religioso haure a seiva de sua vida espiritual. No silêncio, na contemplação e no cerimonial o monge passa os momentos mais felizes de sua existência, à espera das alegrias que gozará na eternidade.

Assim, sob o olhar sábio e vigilante dos mestres, vai-se formando uma nova milícia cristã, constituída de heróis, mais anjos que homens, cuja estrutura hierarquizada culmina na pessoa venerável do abade.

Pelo exemplo de suas vidas, eles conquistaram a Europa

A obra realizada por Cluny representa na História um papel de capital importância. Sua ascensão fulgurante e sua benéfica influência permitiram-lhe levar por toda parte o fermento evangélico que mais tarde produziu abundantes frutos de santidade. O solo do Velho Continente, calcado outrora pela marcha dos exércitos romanos, sentiu-se então sacudido por uma força irresistível que suscitou na sociedade um fenômeno contagiante, renovando todos os degraus da escala humana. Ela não impôs aos homens o pesado tributo dos césares, mas levou-lhes um convite: “Aceitem o suave jugo de Cristo”. Sem recorrer à violência das armas, os cluniacenses conquistaram o Ocidente pelo exemplo de suas vidas: penetraram nas cortes dos reis, nos palácios dos bispos, nos castelos dos nobres, nas aldeias da plebe… e mais: sobre o sólio de Pedro sentaram-se filhos dessa família espiritual, como o foram São Gregório VII e o Bem-Aventurado Urbano II.

Na raiz das solenes liturgias, das grandiosas catedrais, das harmonias do órgão, do aroma do incenso e de tudo quanto de belo nos legou o passado cristão, vemos em larga medida o trabalho feito por esses homens que só buscavam a Deus e que souberam encontrá-Lo.