Os nossos maiores benfeitores

Ir Clotilde Neuburger, EP

No primeiro dia da criação, Deus fez a luz. Certamente este trecho não se refere à luz material, pois esta seria criada no quarto dia. Do que se trata, então? Como ensina São Tomás de Aquino, esta seria uma outra “luz” imensamente superior: a formação da criatura espiritual, os Anjos.

Apesar de muito se ouvir falar deles, nem todos têm um exato conhecimento da finalidade para qual eles foram criados. E, com relação a nós, humanos, em que nos ajudam e favorecem?

Todas as criaturas de Deus, sejam Anjos, homens, animais ou seres inanimados, têm relação entre si, porém, mais especialmente os Anjos para com os homens. Na verdade, ao criá-los, Deus não teve em vista somente a Sua glória extrínseca. Em Sua infinita Providência, outorgou-lhes todo o governo sobre estes mesmos homens, para ajudá-los neste vale de lágrimas e guiá-los em seu percurso rumo à eternidade.

Tanto é assim que, segundo afirma Santo Agostinho, não podemos considerar duas sociedades separadas, uma dos Anjos e outra dos homens, pois se assim fosse, estes nada teriam a ver com aqueles, e vice-versa.

Anjos e homens formam uma só sociedade, que se entrelaça e se inter-relaciona. Mons João Clá Dias comenta que “os Anjos são muito mais exemplos para os homens do que os próprios homens são exemplos para outros homens.”

Mas nesta nossa relação com os Anjos, quais são os benefícios que eles nos trazem? Os teólogos costumam reduzi-los a doze:

  1. Repreendem nossas faltas.

Muitas vezes, quando sentimos uma dor de consciência por termos feito algo de errado, é um anjo que nos está admoestando.

  1. Ajudam a nos livrar do pecado.
  2. Afastam os obstáculos que atrapalham nosso progresso espiritual.

Eles nos amparam e nos dão forças para evitar certas ocasiões e más companhias que impedem nosso progresso.

  1. Fazem-nos evitar as tentações.
  2. Instruem-nos.

Eles iluminam nossa inteligência e fortalecem nossa vontade para praticarmos o bem e a virtude, afastando-nos do caminho do mal.

  1. Revelam-nos, ocasionalmente, segredos.

Por exemplo: Podemos sentir, dentro de nós, uma inspiração para rezarmos por alguém que está passando por dificuldades. É o Anjo revelando-nos que aquela pessoa está necessitando de orações.

  1. Consolam-nos.

Às vezes estamos em uma situação de grande provação e, de repente, sentimos dentro da alma uma consolação. São os Anjos.

  1. Fortalecem-nos.
  2. Guiam-nos à Pátria Celeste.
  3. Expulsam e vencem nossos inimigos.

Os Anjos, quando se aproximam de nós, fazem com que os demônios fujam espavoridos.

  1. Suavizam as tentações.
  2. Rezam por nós e apoiam as nossas orações.

Inúmeras vezes fazemos uma oração sem grande valor e obtemos um resultado enorme. Não nos enganemos! São os Anjos que se uniram às nossas orações, dando-lhes força.

Assim, chegamos à seguinte conclusão: o fato de termos recebido de Deus um Anjo da Guarda pessoal é um presente incomparável. Devemos ter para com ele uma amizade pessoal, que nos faça um só com ele. Nunca nos deixemos iludir, pensando estar sozinhos ou nos imaginando capazes de praticar qualquer ato bom, sem o auxílio da graça e dos Anjos.

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O verdadeiro amor

Ir. Rita de Kássia Carvalho Defanti da Silva, EP

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Sabe-se que todas as coisas tendem a um lugar, tanto pela lei da gravidade quanto pelo que é próprio a cada coisa. Ora, a palavra gravidade deriva de gravis que, em latim, significa pesado. Assim, o corpo tem seu peso e este não só retém como também dá o lugar de cada coisa. O fogo, por exemplo, ao ser ateado sobe, enquanto que uma pedra, ainda que atirada para o alto, cai. E a alma? Segundo Santo Agostinho, também ela tem um peso que a move e a impulsiona: o amor. “Pondus meum, amor meus — meu peso é meu amor; o que amo é o peso que inclina meu coração”.[1]

O que é o amor? São Tomás de Aquino define o amor como “o princípio do movimento do apetite racional, do querer livremente o fim amado, que é o bem.”[2] Ele é ativo e, de certa forma, impelido pela vontade, ou seja, uma reta vontade gera um bom amor; uma vontade degenerada, um mau amor. Santo Agostinho diferencia o amor de duas formas: quando se ama os homens e as coisas criadas em função de Deus, é caridade; voltar-se para si, amar o mundo e o que é do mundo, é concupiscência.[3] O amor é verdadeiro quando é fundamentado em Deus e deve ser direcionado e ordenado a Deus. Em função d’Ele, deve-se amar os homens e as coisas criadas por Ele, A esse respeito, comenta Monsenhor João: “existem dois amores: um é o amor verdadeiro; é o amor de Deus. Outro é o amor egoísta, romântico, sentimental; é o amor por interesse”.[4] O primeiro traz satisfação, gozo, alegria e paz. O outro proporciona angústia, frustração e lágrimas. Não existe um amor intermediário.

Santo Agostinho é categórico em afirmar: “Que se diz de vós? Para nada amar? Nunca! Imóveis, mortos, abomináveis, miseráveis, eis o que seríeis se não amásseis nada. Amai, mas prestai atenção ao que deve ser amado”.[5]

As ações do amor, em nós, podem ser classificadas em espirituais, racionais e sensuais. Entretanto, ao espargir sua força nestas três operações, torna-se mais extenso, porém, menos intenso, pois assemelha-se ao fogo. Imaginemos um canhão. Não é verdade que a chama, forçada a sair por uma única abertura, sai com um ímpeto muito maior do que se nele houvesse duas ou três brechas? Assim é o amor. A sua força encontra-se nas operações intelectuais, por ser a parte mais elevada da alma e na qual se constitui a essência do amor.[7]Quem deseja ter um amor não só nobre e generoso, mas também forte, vigoroso e ativo, deve procurar direcioná-lo e retê-lo às ações espirituais, para que não aconteça que, dispersando-se, enfraqueça.

O amor intelectual e cordial — diz São Francisco de Sales — que “deve dominar em nossa alma, recusa toda sorte de uniões sensuais e contenta-se com a simples benevolência”.[8] E continua: “quanto mais a causa do amor é elevada e espiritual, tanto mais as suas ações são vivas, subsistentes e permanentes, e não se poderia melhor aniquilar o amor, do que rebaixando-o às uniões vis e terrestres”.[9]

A causa de nossa união afetiva com Deus

“Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5). À primeira vista, este preceito pareceria uma exigência do Criador para que as criaturas O amassem. Entretanto, se na vida comum somos inclinados a querer aqueles que de alguma maneira nos fazem um bem, qual não deveria ser nosso sentimento em relação Àquele que nos tirou do nada, deu-nos a vida e nos mantém no ser? E mais, vela por cada um, seja um insignificante inseto, sejam gigantescos animais ou monstros marinhos, “nem um só deles passa despercebido diante de Deus” (Lc 12, 6). Se tal é o cuidado de Deus pelos animais, qual não será o desvelo pela criatura que Ele designou para ser rei do universo, fazendo-a “à sua imagem e semelhança?” (Gn 1, 26). “Até os cabelos de vossa cabeça estão contados. Não temais” (Mt 10, 31). Como pode o homem responder a esse amor de predileção?

Assegura São Bernardo: “De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e por sua vez, dar-lhe outro tanto”.[10] Deus nos escolheu entre infinitas criaturas, “pois ama tudo que existe e não odiou nada do que fez, porquanto, se houvesse odiado, não o teria criado” (Sb 11, 24). Deus não ama as coisas por serem boas; antes, ao amá-las, infunde-lhes o bem. Das criaturas racionais — Anjos e homens — espera receber o amor e para isso foram criadas: para amar e servir a Deus neste mundo e depois gozar de sua presença na eternidade. Diz o Eclesiastes: “Ama com todas as tuas forças aquele que te criou” (Eclo 7, 32). E o Apóstolo amado: “Amamos, porque Deus nos amou primeiro” (I Jo 4,19). Acrescenta ainda Monsenhor João:

Sim, nossa caridade não é mais do que uma restituição pelos favores sem conta que, de sua bondade, recebemos. Como Criador Ele nos deu o ser, nos mantém e nos manterá para sempre; como Redentor, nos salvou, encarnando-Se e sofrendo os tormentos da Paixão; como Pai, quis introduzir em nós a vida divina, “para que sejamos chamados filhos de Deus (I Jo 3,1)”. Ele é nossa bem-aventurança! É, portanto, na adesão total a Ele, pela prática deste mandamento — e não nos gostos terrenos e fragmentários — que encontraremos a plena felicidade.[11]

[1] AGOSTINHO. Santo. Confissões. Livro XIII, 9, 10
[2] OMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. I-II. q. 26. a. 1.
[3] AGOSTINHO. Santo. Comentários aos Salmos. 2ª ed. Trad. Monjas Beneditinas. São Paulo: Paulus, 2005. v. I. 31 II, 5. p. 354.
[4] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia. Mairiporã, 2006. (Arquivo IFTE).
[5] AGOSTINHO. Loc. Cit
[7] SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. 2ª ed. Trad. Pe Augusto Durão Alves. Porto: Apostolado da imprensa, 1950, p. 48.
[8] SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 50.
[9] SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 51.
[10] SÃO BERNARDO. Dos sermões sobre o Cântico dos Cânticos. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das horas. Petrópolis: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria. Vol. II, p, 1210.
[11] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. As duas asas da santidade. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV, Lumen Sapientiae, 2014, v. IV, p. 471.

Necessidade do sacrifício

Ir Mirna Gama Máximo, EP

O senhor Deus expulsou-o (Adão) do Jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra de onde tinha sido tirado. E expulsou-o; e colocou ao oriente do Jardim do Éden querubins armados de uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3,23-24).

O homem, depois de ter pecado e ter sido expulso do Paraíso, onde vivia em estado de graça, perdeu aquela pureza e inocência primevas e adquiriu uma infinita dívida diante de Deus. Sabia que merecera a morte como castigo de sua culpa e viu-se na contingência de reparar seu pecado, para que, purificado, se reconciliasse com o Criador e fosse salvo. Por este motivo, passou a oferecer-Lhe algo que de certa forma compensasse sua dívida, como por exemplo, a vida de um animal.

A ofensa feita a Deus exige uma reparação. Como honrar Deus de ora em diante, sem efetuar inicialmente alguma espécie de reparação, que apague a injúria? Já que incorremos em seus justos castigos, como não nos apressarmos em afastá-los, prioritariamente por alguma espécie de satisfação, antes de implorar seus favores? Esta é a necessidade que visa, ou procura atender, o sacrifício expiatório.1

Eis o que significava a maioria dos sacrifícios do Antigo Testamento.2 Royo Marín assim define:

O sacrifício é o ato mais importante do culto externo e público, o mais solene e excelente com que se pode honrar a Deus. […] Em sentido estrito, se define: a oblação externa de uma coisa sensível com certa mutação ou destruição da mesma […] para testemunhar seu supremo domínio e nossa completa sujeição a Ele.3

Vemos, assim, que o homem sentia uma grande necessidade de oferecer sacrifícios. E São Tomás 4 aponta três motivos para tal. Primeiramente para remir o pecado, que afasta o homem de Deus. Em segundo lugar, para que o homem possa conservar-se no estado de graça, sempre unido a Deus, no que consiste sua paz e salvação. Finalmente, para que o espírito do homem esteja perfeitamente unido a Deus, como acontecerá na glória.

sacrificio_caim_abelOs sacrifícios não eram feitos somente em função dos pecados, mas eram também uma forma de louvar a Deus e honrá-Lo. Assim, os sacrifícios podiam ser: lautréticos, de simples adoração a Deus; impetratórios, para pedir benefícios; satisfatórios, em reparação dos pecados; e eucarísticos, em ação de graças pelos benefícios recebidos.5 Portanto, não só os pecadores deveriam oferecê-lo, mas também os justos.

Para esses sacrifícios, deveriam os homens, oferecer o que possuíam de melhor, o que tinha maior valor e perfeição. Assim sendo, queimavam frutos e imolavam animais, tais como cordeiros e pombas, entre outros tipos de oferecimento.

Ora, o Salmo diz: “Vós não Vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu Vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis. Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar” (Sl 50, 18-19). Qual seria, então, a razão da importância e a necessidade de oferecer sacrifícios?

De fato, de nada adiantam as práticas meramente exteriores se não houver sinceridade de coração. O homem não é puro espírito, mas sim, um composto de corpo e alma. Portanto, suas disposições interiores devem ser exteriorizadas de alguma forma.

“Faltaria algo para oferecer a Deus se Ele fosse homenageado somente em espírito. […] A vida do espírito se apaga se não for traduzida para uma linguagem feita para nossos sentidos”.6 Assim também se exprime o Doutor Angélico: “Todo aquele que oferece um sacrifício deve dele participar, porque o sacrifício que se oferece exteriormente é sinal do sacrifício interior, pelo qual a própria pessoa se entrega a Deus”.7

O sacrifício na vida do homem

Ao deitarmos um rápido olhar sobre a História, vemos como todos os povos das mais diversas religiões e épocas ofereceram sacrifícios. Porém, quantos deles provocaram a ira e o desgosto de Deus, pois eram dirigidos a deuses inexistentes, sendo, na realidade, ocasião das piores idolatrias e de práticas abomináveis! Os babilônios e os persas, por exemplo, ofereciam sacrifícios humanos. Os príncipes fenícios imolavam o filho predileto para abrandar a cólera dos deuses. Os sacerdotes astecas, no México, exigiam vinte mil vítimas humanas por ano, das quais arrancavam o coração ainda palpitante, para o apertarem sobre os lábios do ídolo.8 Eram religiões falsas e vãs, que, assim, também invalidavam seus sacrifícios.

O povo eleito também ofereceu sacrifícios. O que dizer sobre seus sacrifícios? Instruído pelo próprio Deus, os israelitas apresentavam, de maneira distinta, os sacrifícios de louvor, de agradecimento, de reparação, de acordo com quem iria oferecê-lo: sacerdote, chefe ou homem do povo (cf. Lv 1-7). Esses sacrifícios eram agradáveis a Deus, como provam algumas passagens da Escritura, entre as quais a seguinte:

Depois do dilúvio que Deus mandou à Terra por castigo de seus pecados, Noé saiu da arca e levantou um altar, e ofereceu em holocausto. “O Senhor respirou um agradável odor” e prometeu não mais amaldiçoar a Terra, como tinha feito (cf. Gn 8, 20-21).

Porém, eram sacrifícios imperfeitos e defeituosos; não podiam apagar os pecados nem conferir a graça. Como a imolação de um animal irracional poderia reparar as ofensas contra Deus, que é infinito, puro e perfeito? Como devia ser terrível ter a alma manchada por causa dos pecados, a consciência inquieta por ter ofendido ao Deus-Justiça, Senhor dos exércitos, e, pior ainda, passar a vida inteira fazendo penitência e oferecendo sacrifícios sem ter a certeza de estar perdoado!

Mas Deus não abandonou o seu povo nas mãos da morte. “Esses sacrifícios foram apenas o grito de ignorância da humanidade que clamava por um perfeito sacrifício de expiação e reconciliação”.9 Por sua misericórdia e bondade infinitas, Ele mesmo Se tornaria sacrifício para redimir a humanidade perdida. Nem os frutos, nem os animais, nem mesmo o homem, culpado do pecado, seriam capazes de restabelecer a nossa amizade com o Senhor. Só Deus, Infinito e Santo, pode apagar a ofensa feita contra Si mesmo. Foi assim que, na plenitude dos tempos, o Verbo Se fez carne para resgatar, pela sua própria morte, os que estavam condenados à morte.

Todos os sacrifícios oferecidos até então foram meras pré-figuras deste supremo e perfeitíssimo sacrifício!

1 AA.VV. Eucharistia. Encyclopédie populaire sur l’Eucharistie. Paris: Bloud et Gay, 1947, p. 154. (tradução da autora).
2 PARSCH, Pius. Para entender a Missa. 2. ed. Rio de Janeiro: Mosteiro São Bento, 1938, v. III, p. 14.
3 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para Seglares. 2. ed. Madrid: BAC, 1961, v. I, p. 286.
4 TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. III, q. 22, a.2.
5 Cf. ROYO MARÍN. Teología Moral para seglares. Op. cit. p. 286.
6 AA.VV. Op. cit. p. 153.
7 TOMÁS DE AQUINO, Santo. S. Th. III, q.82, a. 4.
8 FIGUEIREDO, Pedro Paulo de. Adoração a Deus: o sacrifício. Arautos do Evangelho. São Paulo, n.11, nov. 2002. p. 17.
9 PARSCH, Pius. Op. cit. p.11

Um verdadeiro amigo

Ir. Rita de Kássia C. D. da Silva, EP

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Quem neste mundo não gostaria de ter um amigo que estivesse diariamente ao seu lado, pronto para atendê-lo a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer situação, mesmo nos perigos e, concomitantemente, o alegrasse, fortalecesse e estimulasse nas horas de provação e dificuldade?

Com efeito, Deus, em sua infinita bondade e misericórdia para com o gênero humano, destinou para cada homem um anjo da guarda, que, constantemente, vela por cada um individualmente. Sim, é ele nosso companheiro nesta vida e na eternidade. Entretanto, ele é um “amigo” discreto que, apesar de não se revelar, admoesta, ensina, ajuda, acode e inspira de muitas maneiras: ora, por um sopro, ora por um conselho, ora por algum fenômeno natural. Basta que estejamos atentos a suas inspirações.

Mas, como são os anjos? Os anjos são espíritos puros, inteligentes, cheios da graça divina desde o início de sua existência, na aurora da primeira manhã da criação. Distribuídos e ordenados por Deus em nove coros – Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos – constituem o exército da celeste Jerusalém e receberam a tríplice missão: de perpétuos adoradores da Santíssima Trindade, executores dos divinos desígnios e protetores do gênero humano. 1 Pertencem ao sexto plano da criação, sendo por isso superiores aos homens. Quando foram criados, Deus infundiu-lhes o conceito das coisas universais, sem o qual eles não seriam capazes de conhecer as coisas particulares. Para “ver” algum objeto, o anjo aplica sua inteligência, conferindo com aquele conceito universal que já existe em seu intelecto. Os anjos têm o seu ser por participação no Ser divino. Eles não existem desde sempre, mas em determinado momento receberam a existência, tendo sido criados do nada.2

Os anjos estão organizados em uma hierarquia escalonada verticalmente, diferentemente dos homens, na qual uns dependem dos outros. Cada anjo é uma espécie única; por isso, quanto mais elevado é o anjo, superiores são os conceitos infundidos por Deus. Contudo, isso não causa tristeza ao que é inferior, porque as capacidades, apetência e glória de cada um são plenamente satisfeitas pelo próprio Criador quando entram na Visão Beatífica. Não há sentimento de infelicidade, pois os superiores são motivo de admiração dos inferiores.3

Ensina a teologia que todo criança, no momento do nascimento, recebe de Deus um Anjo da Guarda que vela por ela desde os primeiros momentos da vida até a morte. “Desde o inicio até a morte, a vida humana é cercada por sua proteção e por sua intercessão” e São Basílio completa que “cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à Vida” (CEC 336).

Todavia, a nossa vida na terra bem pode ser definida como uma luta, pois viemos a este mundo para enfrentar uma existência tisnada pelo pecado e repleta de dificuldades. Só receberemos o prêmio da bem-aventurança eterna se soubermos corresponder às graças recebidas.4 Não há como escapar. A prova é posta no caminho de todos os seres inteligentes até mesmo os anjos. Contudo, como passar pela prova sem ser ‘reprovado’? Porque além das concupiscências, há ainda o demônio que constantemente nos atormenta com suas farsas, procurando perder as almas. Como defender-se?

Assim como na grande batalha havida no Céu, São Miguel levantou o brado de guerra — “Quem como Deus?” — e dispersou do Céu a Lúcifer e todos seus sequazes, assim também cada anjo da guarda afugenta satanás e impede que sejamos arrastados. Embora de forma invisível, ele está real e verdadeiramente presente ao nosso lado, sendo o nosso guardião nas horas de tentação ou perigos e aquele que leva as orações ao trono de Deus, como uma trombeta que amplia o som de nossas preces, purifica-as, tornando-as mais belas e agradáveis a Deus.5 Porém, ele é discreto e quer nossa colaboração e atenção à suas inspirações.

Não são raros os casos em que os anjos aparecem para livrar seus protegidos de grandes riscos ou confortar nas aflições. Conta-se que São Policarpo, discípulo de São João Evangelista, viajava para a cidade de Esmirna, da qual era bispo, juntamente com um companheiro. No caminho, foi preciso que parassem numa hospedaria a fim de descansarem da viagem. Entretanto, no silêncio da noite, o bispo é despertado por uma misteriosa voz que dizia que a casa ia desmoronar. São Policarpo, sem titubear, levantou-se rapidamente, acordou seu companheiro que não muito convencido, recusou-se a sair. Nesse momento, apareceu o santo anjo da guarda de São Policarpo ordenando que saíssem imediatamente daquele lugar. Obedeceram, e logo que os dois se encontraram fora, desabou a casa num grande estrondo!

Que tal pensamento contribua para aumentar nossa devoção aos santos anjos, esses gloriosos intercessores celestes, dos quais muitas vezes nos esquecemos, e estejamos convictos de que, em qualquer necessidade e tribulação, ali está ele para interceder por nós e levar-nos ao termo final de nossa missão.

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I. q. 108, a. 5.
2 Idem.. I, q. 50, a. 2, ad. 3.
3 GOYARD, Pe. Louis. Os anjos falam? In: Revista Arautos do Evangelho. Ano IX. n.106. São Paulo: Abril. Out 2010, p. 33.
4 Op. Cit SÃO TOMÁS DE AQUINO. I, q. 64, a.2.
5 Cf. SOARES CORREA, Carlos Alberto. O maravilhoso mundo dos anjos. In: Arautos do Evangelho. Ano II, n. 14. São Paulo: Gráfica. Fey. 2003. p. 34-37.

Bem e felicidade

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Fr. Garrigou-Lagrange afirma que a busca da própria finalidade é a tendência de tudo o que existe, “desde o grão de areia até Deus. Nossa inteligência conhece sua própria finalidade: julgar em conformidade com a natureza e com a existência das coisas e elevar-se à sua Causa primeira e a seu Fim último”. 1

Fototropismo_Essa tendência da busca de seu fim pode ser natural e inconsciente, sem sensibilidade nenhuma, como ocorre com os seres sem razão: um ser mineral, por exemplo, sempre tenderá para o centro da Terra, para sua estabilidade. Ou com sensibilidade vegetativa, como as plantas tendem para a luz e o calor do Sol; ou ainda com certo conhecimento sensível, como os animais que buscam alimento e defendem a própria vida, protegendo-se e evitando os perigos, que para eles constituem o contrário do bem ao qual tendem. Já os seres inteligentes devem querer seu fim de modo racional. Por isso, segundo São Tomás, no homem, “as coisas para as quais tem inclinação natural, a razão apreende como bens e, em consequência, como algo que deve ser buscado. E o contrário destas são como males, que devem ser evitados”. 2

Como ser racional, o homem é dono de seus atos, age pela razão e pela vontade, e estas faculdades atuam segundo seu livre-arbítrio. A busca do bem como seu fim é, portanto, o princípio do agir humano. E como o bem próprio e fim último dos seres inteligentes é a felicidade, o fim das ações humanas tem que ser a felicidade, 3 busca do homem de todos os tempos, meta moral, de caráter metafísico-antropológico, ou bem-aventurança. É esta a aquisição ou gozo do Bem Absoluto, o Sumo Bem. 4 Tal felicidade que o homem busca com desejo infinito não é senão Deus. Com razão diz o Catecismo da Igreja Católica: “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (CCE 27).

É por isso, diz ainda o Fr. Garrigou-Lagrange, 5 que quando a criança chega ao uso da razão, tem a intuição simples do primeiro princípio da lei moral: “É preciso fazer o bem e evitar o mal”, pois este é o oposto de seu anseio primeiro, a felicidade. Ele faz uso das próprias palavras de São Tomás:

Assim como o primeiro olhar da inteligência especulativa leva ao ser, a do entendimento prático leva ao bem. Pois todo agente obra por um fim, que é um bem. E, portanto, o primeiro princípio da razão prática está fundado na noção de bem. E se expressa assim: é preciso fazer o bem e evitar o mal; este é o primeiro preceito da lei natural, sobre o qual se fundamentam todos os demais. 6

coracao_Jesus_arautosTão elevada ideia tem São Tomás deste primeiro olhar da inteligência sobre o bem, que, segundo ele, fica justificada a criança não batizada, educada entre os pagãos se, ao chegar ao pleno uso da razão, ama um bem honesto em si superior, mais do que a ela mesma, afirma Fr. Garrigou-Lagrange. 7 Por quê? Porque assim ama a Deus, autor da natureza e soberano Bem, confusamente conhecido; amor eficaz, que em estado de queda não é possível senão pela graça que eleva e cura. 8 E vai mais além, ainda, com uma audácia admirável: “Quando começa a ter o uso da razão, o primeiro que o homem deve fazer é deliberar sobre si mesmo. E, se ordena sua vida ao devido fim, ao verdadeiro bem (amando eficazmente o bem honesto mais que a si mesmo), recebe pela graça a remissão do pecado original”.9 Esta é uma das formas do batismo de desejo, porque manifesta uma misteriosa luz sobrenatural, suficiente para um ato de fé sobrenatural e para a infusão da graça santificante e da caridade, sem as quais não seria perdoada a culpa original.10

Estes princípios todos são chamados de primeiros e são indeléveis, não podem ser apagados do ser do homem. Contudo, os desejos desordenados e as paixões desequilibradas da natureza humana podem aplicá-los mal ou fazer mau uso deles. Mas é preciso uma racionalização ― ou seja, dar uma justificativa racional ―, para permitir que a transgressão seja aceita pela própria inteligência. Por isso é impossível ao homem fazer o mal pelo mal. Sempre precisa dar-lhe uma aparência de bem, para que todo o seu ser se lance, como a realização e o encontro com seu próprio fim. E, mesmo assim, no caso de uma transgressão racionalizada, esta noção genérica e verdadeira de bem ainda permanecerá em uma espécie de “câmara obscura” da alma. De maneira que, aos poucos, pode-se trabalhar esta ideia esquecida, por exemplo, no contato com alguém virtuoso, em quem se encontra o bem “encarnado”. Nesse contato, o transgressor pode sentir a necessidade, então, de ir à la recherche d’une notion perdue. É por onde, muitas vezes, pessoas entregues ao vício podem vir a regenerar-se, revertendo o processo. 11

1) GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El realismo del principio de finalidad. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1947, p. 11.
2) TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica, I-II, q. 94, a. 2. Do ser ao Ser: um encontro com Deus
3) A esse respeito, ver: Id. Suma Teológica, I-II, q. 1, a. 1; Suma contra os Gentios, lib. I, c. 100, n. 2-3.
4) Cf. Id. Suma Teológica. I-II, q. 3, a. 1; ad 2.
5) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Op. cit. p. 336-338.
6) TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica, I-II, q. 94, a. 2.
7) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Op. cit. p. 338.
8) Cf. TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica, I-II, q. 109, a. 3, co.
9) Ibid. q. 89, a. 6.
10) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Op. cit. p. 339.
11) Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Primeiro olhar e inocência. São Paulo, 29 maio 1974. Palestra. (Arquivo IFAT).

Texto extraído da revista Lumen Veritatis – Vol. 6 – Nº 22 – Janeiro a Março – 2013

A misericórdia atraiu o maior milagre da História

Ir. Mariana de Oliveira, EP

Após o pecado original, a humanidade havia contraído uma dívida com o Criador. Normalmente, quando alguém deve determinada quantia a outrem, paga-lhe exatamente o débito ou, às vezes, devolve-lhe com juros. Porém, como poderia o homem, finito como é, satisfazer o Infinito? Só mesmo alguém Infinito poderia oferecer, com idêntica dignidade, a paga ao Deus infinito, em lugar dos homens finitos: este foi precisamente o motivo da Encarnação de Jesus Cristo. 1

Entretanto, consideremos um pouco a amplitude de tal satisfação, que manifesta um grande amor de Deus para conosco e um reflexo tão alto do poder divino que escapa completamente tanto à cogitação humana quanto à angélica, 2 pois, “[…] ao Se encarnar no seio puríssimo de Maria, Nosso Senhor fez o milagre negativo de assumir um corpo padecente”. 3 Eis o mistério que pasma toda criatura: Ele veio à nossa humanidade, sem deixar a divindade, para ser imolado no Sagrado Madeiro e, assim, comprar e reatar nossa amizade com Deus!

De fato, milagre é aquilo que faz Deus, cuja causa nos é oculta. 4 Muitas vezes, é a transformação de algo pequeno, ou até insignificante, em obra de grande valor. Por exemplo, ninguém prestava muita atenção no coxo que ficava à Porta Formosa do Templo pedindo esmolas (cf. At 3, 1-2). Supomos que as pessoas deviam, de vez em quando, se compadecer e dar-lhe algum óbolo. Mas, poucos anos depois de sua morte, quem se lembraria dele? Decerto, a História não conheceria jamais sua existência se um dia não tivesse sido alvo do retumbante milagre de voltar a andar, pela virtude do nome de Jesus (cf. At 3, 6-9). Digamos ter sido este um milagre “positivo”. Mas que seria fazer um milagre “negativo”? Seria como se o mesmo coxo fosse um homem atlético, ativo e de muito bom porte físico e, certo dia, um dos Apóstolos, olhando bem para ele, ordenasse o “milagre” de instantaneamente ficar deficiente. Chamaríamos isto de desgraça, pois é algo negativo, e nunca de prodígio.

Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo quis assumir sobre Si, por sua misericórdia infinita, as deficiências corporais da natureza humana 5 e assim lavar-nos da infelicidade do pecado. Paradoxo maior não há, por ser Ele o Inocente! É o que a Deus aprouve fazer por nós: “Se encarnou pela nossa salvação” (Dz 40), “realizando um milagre contra Si mesmo, pois preferiu tomar um corpo padecente”, 6 Aquele que pela sua vida na glória não podia padecer!

O que a misericórdia do Todo-Poderoso não é capaz de fazer! Quanto poder! Muitos milagres na História já houve, sempre para melhor; porém, para o ínfimo, e não para com outros, mas para consigo mesmo, só Um teve coragem de fazer, com o fim de resgatar os que Ele ama.

A humildade foi assumida pela Majestade, a fraqueza, pela Força, a mortalidade, pela Eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. […] Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência de sua misericórdia, não uma falha do seu poder. […] Entrou, portanto, o Filho neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido; existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte. […] Contudo, nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. 7

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica III, q. 1, a.2, ad 2.
2 Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A fé de Pedro, fundamento do Papado. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. II, p. 291.
3 Ibid. p. 292.
4 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q.105, a.7.
5 Cf. Ibid. III, q.5, a.3
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O triunfo, a cruz e a glória. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. I, p. 259.
7 SÃO LEÃO MAGNO. Cartas. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Op. cit. v. II, p. 1506-1507.

A raiz de todos os males (cont)

Ir Ariane da Silva Santos, EP

No post anterior, foi analisada a figura de Lúcifer e seus sequazes que por um ato de insubmissão foram expulsos do Céu, agora consideraremos o homem.

“Sereis como deuses…”

Deus criou Adão em estado de justiça original e o introduziu no Paraíso. Enquanto permaneceu inocente, o homem viveu feliz naquele lugar de delícias, em companhia de Eva, tendo, entretanto, de obedecer à ordem que o Senhor lhes havia dado: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Se nossos primeiros pais tivessem sido fiéis a este preceito, Deus os confirmaria na graça e todos os seus descendentes nasceriam também em estado de justiça. Depois de concluir o curso de sua existência no Paraíso, entrariam na felicidade perfeita, na bem-aventurança eterna. Ademais, tinham eles outras prerrogativas:

Não havia para o homem a possibilidade de morte, nem de enfermidade. Devido à sujeição das forças inferiores à razão, reinava nele uma completa tranquilidade de espírito, porque a razão humana não era perturbada por nenhuma paixão desordenada. Pelo fato de sua vontade estar submissa a Deus, ele dirigia tudo para Deus, como seu fim último, e nisso consistiam sua justiça e sua inocência. 1

Contudo, Eva deixou-se enganar pelas palavras da serpente: “Oh, não! Vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal!” (Gn 3, 4-5). Como a soberba já ofuscava o espírito de Eva, ela tomou o fruto, comeu-o e ofereceu-o ao seu marido, que também o comeu. “A sedução da mulher, embora precedesse o pecado de ação, foi, entretanto, subsequente a um pecado de orgulho interior”,2 ensina São Tomás de Aquino. E nesse mesmo sentido, afirma Santo Agostinho: “Não se deve imaginar que o tentador teria conseguido vencer o homem se no espírito dele não tivesse surgido antes um sentimento de orgulho, o qual ele deveria reprimir”.3

Ainda a respeito do pecado original, o Aquinate explica:

A primeira desordem do apetite humano consistiu em desejar, de forma desordenada, algum bem espiritual. Mas não o teria desejado desordenadamente se o tivesse feito na medida estabelecida pela lei divina. Logo, o primeiro pecado foi o desejo de um bem espiritual, fora da medida conveniente. E isso é próprio da soberba. Por conseguinte, o primeiro pecado do primeiro homem foi manifestadamente a soberba. 4

“A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda” (Pr 16, 18), ressalta o livro dos Provérbios. E foi o que sucedeu ao homem: perdeu todos os dons da graça que de Deus havia recebido, e foi expulso do Paraíso para este vale de lágrimas.

Podemos, assim, constatar uma estreita semelhança entre o pecado dos anjos e o dos homens:

Bem se pode afirmar que o pecado de nossos primeiros pais foi diabólico, pois, na sua essência, foi idêntico ao dos anjos maus. E isso pode ser dito também do vício de orgulho pelo qual somos levados a amar-nos mais a nós mesmos do que a Deus.5

Como castigo, toda a humanidade nasce com a mancha original e sofre suas mazelas, tendo de comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 19).

Foi desse modo que o homem iniciou sua luta sobre a terra, tendo de enfrentar não só as adversidades da vida, mas, sobretudo, os vícios da alma. Nesta batalha, os verdadeiros heróis são aqueles que vencem seu próprio orgulho. Ao longo da História, muitos saem vitoriosos, pois sabem confiar em Deus mais do que em si mesmos. Muitos outros, entretanto, são derrotados e, em consequência, sofrem terríveis desastres.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Compendium theologiae. L.I, C. 186.
2 Id. Suma Teológica. I, q. 94, a. 4, ad 1.
3 SANTO AGOSTINHO. De Genesi ad litteram. L. XI, c. 5; ML 34, 432.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q. 163, a. 1.
5 SOLERA LACAYO, Rodrigo Alonso. Foram Adão e Eva enganados pela serpente? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. n. 131, Nov. 2012, p. 22.

Viver na presença de Deus

Ir Cíntia Louback, EP

2º Ciências Religiosas

Quando alguém nos faz uma pergunta, tentamos transmitir ao máximo o que sabemos. Entretanto, há algo que muitas vezes nos deixa com dúvidas e com dificuldade de explicitar: falar a respeito de Deus. Quanto mais nos aprofundamos sobre o assunto, mais interrogações surgem.

Recorrendo as Sagradas Escrituras, onde está contida toda palavra revelada pelo próprio Deus, encontramos o episódio da sarça ardente em que Deus se revela a Moisés dizendo: “Eu sou aquele que Sou” (Ex. 3, 4). Contudo, esta resposta do próprio Deus nos deixa pensativos. Apelando aos doutores da Igreja, encontramos o que nos ensina Santo Tomás a respeito dessa frase: que Deus sempre foi, é e sempre será.

No entanto, nossa natureza humana não se contenta somente com essa explicação e e tenta aprofundar um pouco mais. De fato, quando tomamos conhecimento que algo existe, sentimos uma lógica curiosidade em saber quem é ou o que é. Todavia, bem sabemos que Deus é um Ser infinito, ao qual não conseguimos atribuir nenhuma qualidade, e que, para conhecê-lo, podemos fazê-la de duas formas: uma pela via negativa, ou seja, dizendo tudo aquilo que Ele não é, e pela via das afirmações, atribuindo-Lhe as perfeições das criaturas. E da posse de todos os bens, resultam os atributos de Deus que Santo Tomás expõe na Suma Teológica:

Pode-se demonstrar como Deus não é, afastando dele o que não lhe pode convir, como: ser composto, estar em movimento, etc., Assim, pergunte-se primeiro sobre a simplicidade de Deus, pela dele se exclui a composição. Como, por exemplo, nas coisas corporais, as simples são as menos perfeitas e fazem parte das outras, pergunte-se em segundo, sobre sua perfeição; em terceiro, sobre sua infinidade; em quarto, sobre sua imutabilidade; e em quinto, sobre sua unidade.1

Estando agora um pouco mais entrosados no assunto, detenhamos-nos em um de seus atributos, que é a imensidade divina.

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Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito

Yolaynet Encarnación Cuevas

No Concílio Vaticano I, a Igreja declarou como dogma de fé que Deus pode ser conhecido pela luz natural da razão humana, através das coisas criadas (cf. DH 3026). É neste sentido que Tomás de Aquino apresenta cinco vias com que se pode chegar ao conhecimento de Deus. Na quarta via, o Doutor Angélico recomenda analisar os graus de perfeição.1 Na criação observam-se os minerais, plantas e animais,com as belezas e perfeições próprias a cada grau. Assim, contemplar uma construção gótica, um nascer do sol ou escutar o suave cântico dos pássaros ajudam a elevar a mente ao Criador.

Da mesma forma, explica Plinio Corrêa de Oliveira, baseando-se em São Tomás, que há nobres e plebeus, grandes e pequenos, ricos e pobres, mais inteligentes e menos para o benefício não só dos superiores, mas também dos inferiores já que o menor ao receber auxílio do maior, vê neste uma imagem de Deus Altíssimo, e a dedicação do menor tem algo de devotamento ao próprio Deus. Deste modo, foi dado a cada criatura humana o dom de refletir algumas das infinitas perfeições divinas.2

Por conseguinte, São Tomás de Aquino assevera que toda a bondade e perfeição, parcialmente distribuídas nas criaturas, está em Deus unificado de modo pleno e universal.3 Igualmente, São Paulo pregou aos Hebreus: “Enquanto a lei elevava ao sacerdócio homens sujeitos às fraquezas; o juramento, que sucedeu à lei, constitui o Filho, que é eternamente perfeito. “(Hb 7, 28).

O Aquinate usa os termos ato e potência para provar que Deus é a Perfeição absoluta.4 Ele explica que algo é perfeito enquanto está em ato. O homem encontra-se em ato em certos aspectos e em outros em potência. Por exemplo, um jovem pode ser aluno em ato e professor em potência, pois está estudando sobre alguma ciência que logo poderá ensinar. Sem embargo, Deus é diferente, porque ele não pode crescer em conhecimento, pois sabe tudo; não pode se tornar mais forte, uma vez que já é perfeitíssimo. Portanto, Deus é ato puro, é a Perfeição infinita. Com efeito, em uma das aparições à Santa Maria Faustina Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou: “Eu sou santo, três vezes santo e sinto aversão ao menor pecado”.5

Para propagar os ensinamentos do divino Mestre ao mundo contemporâneo, Paulo VI declara que todos nós somos chamados à santidade (cf. LG 40). Plínio Correa de Oliveira explica que a perfeição moral é a santidade. E esta é a prática em grau heroico das três virtudes teologais — Fé, Esperança e Caridade —, das quatro cardeais e bem como os mandamentos, que são as virtudes aplicadas a cada circunstância concreta.6

Ao unir essas ideias, podemos chegar à conclusão de que Nosso Senhor quer que O imitemos, fazendo-nos um convite: ” sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt 5, 48). Portanto, busquemos sempre realizar todas as nossas ações, seja para o nosso bem ou para o dos outros, com a maior perfeição e façamos o firme propósito de nunca ofendê-Lo e, com a ajuda da graça, cumprir a vontade divina.

1TOMÁS DE AQUINO, São. Suma Teológica I, q.2 a. 3, ad 2.
2 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Um reflexo da perfeição divina. Dr. Plinio, São Paulo, ano 12, n. 98, mai 2006, p. 23,.
3TOMÁS DE AQUINO, São. Suma Contra os Gentios I, c. 28.
4TOMÁS DE AQUINO, São. Op. cit., I, q. 4, a. 1.
5MARIA FAUSTINA, Santa. Diario de Santa María Faustina Kowaiska. Stockbrigde: Manan Press, 2010, p. 607.
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A perfeição no homem, nas nações. Dr. Plinio, São Paulo, ano 7, n. 73, abr. 2004, p. 13.

Salmos: penhor da salvação

Ir. Maria Cecilia Lins Brandão Veas, EP

Narra o Gênesis que Deus descia todas as tardes, na brisa do fim do crepúsculo, para conversar com Adão. Sucedia, então, um diálogo sublime. De Adão emanavam cânticos e hinos de louvor a Deus, e de Deus um convite a Adão para que desejasse o nec plus ultra, “inebriando-o dia a dia, num processo magnífico, na visão disso, daquilo, daquilo outro, de maneira a Adão ficar sem saber o que dizer”.1 Deparamo-nos, assim, com “o aspecto mais sublime da dignidade humana: a vocação do homem à comunhão com Deus. Este convite que Deus dirige ao homem de dialogar com Ele, começa com a existência humana,” (CEC 27) e não é senão o seu cerne. Partindo desse pressuposto, melhor compreenderemos o papel dos salmos, enquanto verdadeiras orações.

Santa teresinha afirmava que “a oração é um impulso do coração, um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e de amor no meio da provação ou no meio da alegria.” 2 Desse modo, é através da oração que o homem se comunica com o seu Criador, uma vez que no coração humano está vincado o desejo natural de tender ao Absoluto, como corolário do inestimável dom de haver sido criado “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 26). Já no Antigo Testamento, encontramos várias formas de orações, como por exemplo os salmos caracterizados por hinos que expressavam louvores, gratidões, lamentos e pedidos de perdão ao Criador inspirados pelo Divino Espírito Santo, “que intercede em nosso favor com gemidos inefáveis.” (Rm 8, 26)

Veremos a seguir que os salmos cumprem, no seu conjunto, com os cinco requisitos mais importantes expostos por São Tomás 3 para uma perfeita oração: ser confiante, humilde, devota, reta e ordenada.

“Só a confiança, ó Senhor, nos obtém a vossa comiseração.”4 De fato, para maior impetração no atendimento da súplica, deve-se ter uma confiança tão amorosa e humilde que excite a misericórdia de Deus, como está dito: “ele me invocará, e lhe darei resposta.” (Sl 91,15) Por isso, “os que se cansam depois de haver rogado durante um tempo, carecem de humildade ou de confiança; e deste modo não merecem ser escutados. Parece como se pretendêsseis que se vos obedeça no momento vossa oração como se fosse um mandato; não sabeis que Deus resiste aos soberbos e que se compraz nos humildes? Acaso vosso orgulho não vos permite sofrer que vos façam voltar mais de uma vez para a mesma coisa? E ter pouca confiança na bondade de Deus, o desesperar tão pronto, o tomar as menores demoras por desprezos absolutos.”5

Modelos preclaros de constância humilde e confiante são os salmos, nos quais se entrevê a esperança que clama e se eleva aos céus para implorar o auxílio do Todo-Poderoso, por piores que sejam as circunstâncias que rodeiam a alma. Eis porque canta o profeta David: “Piedade de mim, Senhor, pois estou angustiado; definham de tristeza minha vista, meu corpo e minha alma. Pois minha vida se consome entre aflições e meus anos entre gemidos, decaiu pela miséria minha força, meus ossos se consomem (…) mas, eu em Ti espero, Senhor, repito és Tu o meu Deus.’ (Sl 31, 10-11 15) O que haveria de mais belo e atraente aos olhos do Senhor, quanto um coração de um filho cuja confiança é a fina ponta daquela esperança que crepita dentro de si. “É essa confiança que dá forças às nossas almas de caminhar para frente.”6 Ora, assim como a humildade incita a confiança, a confiança proporciona a devoção.

“Correrei pelo caminho de vossos mandamentos, quando dilatareis meu coração.” (Sl 119, 32) Por esta simples forma, canta o salmista o orvalho com o qual o homem experimenta um pedaço do céu: a virtude da devoção. Por ela somos ateados no fogo do amor divino, é apagada a chama da concupiscência e recebe-se um novo alento para agir de acordo com as vias do sobrenatural, como assegura São Tomás: “faz o homem pronto e hábil para toda virtude e o desperta e facilita para bem obrar.” 7

Uma vez possuidora de tão grande benefício, a alma não duvida em pedir o que lhe seja conveniente. Pede-se, na verdade, apenas aquilo que é lícito desejar. Por isso, a oração será retíssima quando se pede ao Senhor as coisas que Ele mesmo incita a pedir. 8 E o que estimula Ele? O desejo de santidade e de união íntima com Ele, de que às coisas terrenas, escolha-se as que dizem respeito às coisas celestes. Assim, vemos claramente expresso no salmo 41. “Assim com a corça suspira pelas águas correntes, suspira minha alma por vós, ó Meu Deus.” (SI 41, 1) Assim como o cervo vai para a fonte das águas, assim, ó Deus, a alma deseja a Ti.

“Que bonita essa comparação: uma fonte que brota; e Deus, que fez brotar tudo do nada! Como isso é majestoso! A fonte é um sinal de Deus. Assim como o cervo que corre velozmente, encontra uma fonte e pára para se dessedentar, assim nossa alma, correndo pelos caminhos da vida, tem sede de Deus. E nossa alma pára diante de Deus e bebe.”9

Desse modo, inspirados pelo Espírito Santo, os salmos são escrínios e depositários da Revelação, contendo o resumo da realidade e da experiência religiosa do povo israelita no Antigo Testamento, e que dignamente merecem ser perpetuados na Igreja. Eles são também o cerne de nossa vida, posto que essas eloquentes preces elevadas até Deus são antes de tudo o apoio de cada dia para nunca perdermos de vista nosso destino eterno.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Adão homem dos homens, no qual existia a raiz de todos os homens Palestra. São Paulo, 8 jul. 1987. (Arquivo IFTE).
2 Santa Teresa do Menino Jesus. Manuscritos autobiográficos. C 25r, apud CATECISMO da Igreja Católica. 11. ed. São Paulo: Loyola, 2001, p. 658.
3 Cf. SAO TOMÁS DE AQUINO. A luz da fé. Lisboa: Verbo, 2002, p.87.
4 SÃO BERNARDO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGORIO. A oração: o grande meio para alcançarmos de Deus a salvação. São Paulo: Santuário, 1987, p. 71.
5 São Cláudio de la Colombière. El abandono confiado a la Divina Providencia.
6 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A Europa vista pelo prisma de um menino inocente. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano II, n. 17, ago. 1999, p. 2.
7 AQUINO, Tomás de, In: São Pedro de Alcântara. Tratado da oração e da meditação. Rio de Janeiro: Vozes, 2008, p.1 13.
8 Cf SÃO TOMÁS, opus cit. p. 88.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. As realidades visíveis, sinais de realidades invisíveis. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano V, n. 49, abr. 2002, p. 25.

Infinitude de Deus

Ir. Rita de Kássia C. D. da Silva, EP.
3º Ano de Ciências Religiosas

Certo dia, após a missa, uma religiosa foi abordada por uma criança que lhe indagou:
– Quantos anos Deus têm?
Ao deparar-se com uma pergunta tão inusitada, não teve tempo para responder, pois a própria menina a interrompeu:
– Ah, já sei. Ele é infinito, não é?
Concordando, a outra procurou explicar-lhe que Deus é sempre o mesmo, sem começo nem fim.
– Mas, como, Ele não nasceu? – interrogou novamente a pequena.
– Não. Deus não nasceu – continuou a religiosa – Ele sempre existiu. Deus não pode ser posto no tempo. Não teve começo nem terá fim.

De fato, perguntas como essas povoam nossa inteligência quando pensamos em Deus. Ao contemplarmos, em uma noite de verão, o sol que deita seus últimos raios, pintando e colorindo as montanhas, e aos poucos, dando lugar a abóbada celeste, carregada de miríades de estrelas, planetas e astros que vão se acendendo aqui, lá e acolá, podemos, também, questionar: quem os criou? Ou ainda, estando na praia, vendo o número incalculável de grãos de areia e a imensidade do mar, com suas ondas, ora calmas ora revoltas, que não ultrapassa seus limites, a não ser em casos excepcionais, – como em tsunamis ou maremotos, – numa verdadeira disciplina, pensar que sendo o universo tão ordenado, tão imenso e quase sem limites tem de haver um Ser superior a tudo isso, o qual criou, mantém, governa e tem tudo debaixo de seu olhar. Como é Ele?

O salmo nos responde: “Antes que se formassem as montanhas, a terra e o universo, desde toda eternidade vós sois Deus” (Sl 89, 2). “Vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim” (Sl 101, 28). É Aquele que subsiste por si, – Ipsum esse subsistem – o que é, era e sempre será, que não teve começo nem terá fim, Aquele o qual o universo não pode conter: Deus infinito.

Com efeito, bem nos explica São Tomás que todas as coisas criadas são de natureza finita, pois são determinadas pela essência de algum gênero. Se compararmos uma coisa branca, ela pode ser mais ou menos branca, uma grandeza segue a outra e pode ser mais perfeita. Ao contrário, em Deus, a essência e existência se confundem, sendo uma e única, e Ele não pertence a nenhum gênero, antes, a Sua perfeição contém as perfeições de todos os gêneros; daí ser Deus infinito.1

E, assim como o sol que durante o dia brilha e ilumina todos os lugares em que incide sobre a terra, assim Deus está em toda parte, nos espaços vazios, no interior de cada ser. Ele está presente em tudo e tudo está dentro d’Ele. Deus, que não tem corpo, não tem tamanho, é incomensurável e sem fim.

O infinito não pode ser compreendido por nossa razão limitada. Como diz um provérbio alemão: “Nunca entenderás o que é Deus, a não ser que sejas Deus.”2 Pois como afirma o Doutor Angélico, o efeito não pode ir além da sua causa. Como nossa inteligência vem de Deus que é a primeira causa de todas as coisas, nosso intelecto, sendo finito não poderia pensar em algo maior que Deus.3

Cresçamos no desejo de encontrar-nos com nosso Criador, Benfeitor e Redentor e preparemo-nos para conhecer todas as maravilhas que Ele, em seu imenso amor, nos tem preparado. “ Grande é o Senhor, e muito digno de louvor, e a sua Grandeza não tem limites”. ( Sl 144,3)

1SÃO TOMÁS DE AQUINO. Cont. Gent. I. c.XLIII, 1
2 FRANCISCO SPIRAGO. Catecismo en exemplos. Trad. Dr. D. Carlos Cardó. 2 ed. Barcelona: Políglota 1993, p. 104-105
3 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Cont. Gent. I. c.XLIII, 9.

Desde sempre Vós sois Deus… (Sl 89)

Ir. Michelle Sangy, EP

Ensina-nos a Sagrada Escritura que Deus existe antes da Criação do mundo e jamais deixará de existir: “Tudo se acaba pelo uso como um traje […]. Mas Vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim” (Sl 101, 27-28). Ora, o que vem a ser a eternidade de Deus? Pode o homem chegar a compreendê-la?

Como vivemos no tempo, é-nos dificil conceber a eternidade de Deus uma vez que tendemos a imaginá-la como uma existência larguíssima e interminável, sem começo e nem fim. Entretanto, a eternidade de Deus é muito mais do que isso, como veremos adiante.

Ao tratar sobre a eternidade, os teólogos utilizam uma definição clássica cunhada por Boécio: “eternidade é a possessão total, simultânea e completa de uma vida interminável” 1 e ainda: “o instante que corre faz o tempo, o instante que permanece faz a eternidade”. 2

Com efeito, explica São Tomás 3 com sua habitual e sapiencial clareza que da mesma maneira que o conceito de tempo deriva do movimento delimitado pela origem e pelo fim, o de eternidade procede da imutabilidade de Deus – o mesmo ontem, hoje e eternamente. É Ele o único Ser que não teve começo e não terá fim, conforme atesta as declarações dogmáticas: “Eterno é o Pai, eterno é o Filho, eterno é o Espírito Santo, e, no entanto, não são três eternos, mas somente um,” 4 e em outro lugar: “Firmemente cremos e simplesmente confessamos que um só é o verdadeiro Deus, eterno e imenso.” 5 É o Altíssimo a Causa primeira de todas as coisas criadas, é Ele o Ser eterno que existiu antes que o mundo, assim como existe o arquiteto antes do edificio ou o relojoeiro antes do relógio.

Desta forma compreende-se que só em Deus há eternidade, pois apenas Ele é absolutamente o seu ser uniformemente e a sua própria essência.

Vejamos uma analogia que nos ajuda a levantar um pouco mais o véu da eternidade de Deus. Um autor comenta que dentre as maravilhas da natureza criada destaca-se o mar pela sua imensidade e pulcritude que bem pode simbolizar a grandeza do Autor sublime do Universo. Além de sua magnitude, não pequena é a força que possui em seu incessante movimentar, chegando a formar incontáveis ondas que embelezam ainda mais o panorama. O que dizer de sua força quando se encontra diante de uma rocha ou fortaleza, por exemplo, lança-se com tal energia como para perfurá-la, mas, no entanto deparando-se com a força de sua perenidade ousa somente encobri-la com a alva espuma de suas águas e retornar, por fim, ao seu curso normal.

Este mar arrebatador do qual falamos e cujas ondas estão em uma contínua oscilação, bem pode ser comparado ao nosso tempo que em semelhante movimento traz-nos uma sucessão de acontecimentos. Entretanto, pelo contrário, a rocha cujas ondas batem é como a eternidade que permanece perene e inalterável em meio às ondas dos acontecimentos presentes. 6

Assim, ao deslumbrar cada vez mais as maravilhas de Deus, na medida em que o nosso conhecimento alcance tal mistério, é certo que estaremos preparando também a nossa eternidade, quiçá junto daquele que prometeu ser Ele mesmo nossa recompensa demasiadamente grande (cf. Gn. 15, 1).

1BOÉCIO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. I, q. 10, a. 2.
2 Loc. cit.
3 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. Cit.
4 DENSIGNER, apud ANTONIO ROYO MARIN. Dios y su obra. Madrid: Católica. 1963, p. 92. (Traduçao da autora).
5 Ibid. p. 93
6 Cf. MONTESERRAT. Cipriano. Exemplário Catequístico. Barcelona: Lumen, p. 23.

Milagres: o que são?

Ir. Maria Cecília Lins Brandão Veas, EP

“Tendo Jesus descido da montanha, uma grande multidão O seguiu. Eis que um leproso aproximou-se e prostrou-se diante d’Ele, dizendo: ‘Senhor, se queres, podes curar-me’. Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: ‘Eu quero, sê curado’. No mesmo instante, a lepra desapareceu” (Mt 8, 1-3).

Quem, ao folhear as sagradas páginas da Bíblia, deparando-se com a realidade sublime dos milagres efetuados pelo Divino Salvador, não quereria haver estado lá para, influenciado por aquela atmosfera carregada de bênçãos, ser também objeto da bondade do Homem-Deus?

Mas o que são os milagres?

“A ordem admirável do céu estrelado apregoa e canta a glória de Deus e nos manifesta a inteligência infinita do Criador. Felizes os que sabem escutá-los!”. 1 Assim como o homem utiliza-se da palavra para comunicar-se com os demais, Deus utiliza-se das criaturas para falar aos homens, fazendo destas um subsídio eficaz para atender à sede de infinito que Ele próprio imprimiu nas almas, à maneira de um instinto sobrenatural. Entretanto, é preciso estarmos atentos e sabermos escutar a voz de Deus que nos chama ao conhecimento d’Ele.

E como o homem, guiado pela razão natural, pode chegar a algum conhecimento de Deus por meio de signos e efeitos sensíveis, também “por meio de certos efeitos sobrenaturais, chamados milagres, ele será levado a um certo conhecimento sobrenatural das coisas da Fé”. 2

Assim, há uma economia de signos que nos revelam a presença de Deus entre nós. E nesta imensa constelação de manifestações divinas, o milagre não é uma manifestação de algo sem sentido ou que contrarie a natureza, mas desvela uma ação divina. 3 Na verdade, são “sinais do poder e da liberdade de Deus. Eles representam uma perfeição desejada e, em muitos casos (notadamente as curas), uma conclusão da natureza”. 4 Não que Deus resolvesse mudar a reta ordem da natureza que Ele próprio criou, uma vez que cada criatura é o que é e como deveria ser. Contudo, “o fim último e remoto do milagre não pode ser outro senão Deus mesmo. Em todas as obras exteriores que Deus realiza, é impossível ― porque seria contrário à ordem ― que Ele se proponha outro fim que não seja a sua glória, naturalmente acidental e extrínseca”. 5

Ora, não podemos imaginar que, ao realizar um milagre, Deus tivesse apenas por princípio corrigir uma lacuna na ordem dos seres criados. Seria equipará-Lo a um inábil artista, que, tendo pintado de modo imperfeito um quadro, quisesse aperfeiçoá-lo para não cair em descrédito a obra de suas mãos. Ou, ainda, como um bom compositor que quisesse constantemente mudar as melodias de acordo com o bel prazer de sua vontade. Evidentemente tais atitudes são incabíveis em Deus. 6

O milagre é o ponto onde a natureza ― por vezes imperfeita e necessitada ― encontra-se com a grandeza de uma ordem superior: a ação de Deus, que a completa e embeleza. Por este motivo, os milagres também encerram em si um fim altíssimo: a salvação eterna dos homens, pelo fato de os elevarem à consideração de seu fim sobrenatural. A Divina Providência, não contente em dar a conhecer os ensinamentos de seu amor, concede-nos ainda sinais, para que neles creiamos e A amemos ainda mais.

O pensamento antigo acerca do milagre se fundamentava em Santo Agostinho, que o definia como “todo acontecimento insólito que manifestamente ultrapassa a espera ou as capacidades daquele que o admira”. 7 E São Tomás chama milagre “o que é cheio de admiração, no sentido de que a causa fica absolutamente oculta para todos. Esta causa é Deus. Portanto, as coisas feitas por Deus fora das causas por nós conhecidas, são chamadas de milagres”. 8

1 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Providencia y La confianza en Dios: fidelidad y abandono. 2.ed. Buenos Aires: Desclée de Browuer, 1942. p. 32. (Tradução da autora)
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO.Suma Teológica II-II, q.178, a.1.
3 Cf. LATOURELLE, René; FISICHELLA, Rino (Dir.). Diccionario de Teología Fundamental. 2.ed. Madrid: San Pablo, 1992, p. 939.
4 POULIOT, François. La doctrine du miracle chez Thomas d’Aquin. Deus in omnibus intime operatur. Paris: J. Vrin, 2005, p. 49. (Tradução da autora)
5 ODDONE, Andrea. Il sigilio divino. Milano: Vitta e pensiero, 1939, p. 13-14. (Tradução da autora)
6 Cf. Ibid. p. 14; 24.
7 SANTO AGOSTINHO. De utilitate credendi. L.I, c.16, n.34: ML 42, 90. (Tradução da autora)
8 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q.105, a.7.

A palavra de Deus em música – conclusão

Irmã Kyla Mary Anne MacDonald, EP

Os beneditinos e os ouvidos do coração

Já nos primórdios da Igreja, então, o cântico sempre fez parte do culto, nas mais diversas ocasiões, onde quer que os fiéis se reunissem (cf. I Cor 14, 26). No entanto, como a era dos mártires deu lugar à era dos monges, a arte do canto litúrgico encontrou o local ideal para seu cultivo: os mosteiros. São João Cassiano, o eremita do Egito que introduziu o ideal do monaquismo na Gália, com o estabelecimento da Abadia de São Vitor, em Marselha, ensinava: “Nós, com frequência cantamos os salmos, de maneira que podemos continuamente crescer em compunção”. 19

O monaquismo que proliferou inicialmente na Europa Ocidental imitou de perto o monaquismo do deserto, do Oriente. Contudo, encontrou sua própria nota distintiva com a fundação dos beneditinos, em Subiaco, no século VI, e, por esta razão, São Bento é aclamado Pai do monaquismo ocidental.

Exerceu ele — de quem se pode dizer ter aplicado o dom romano do direito e da ordem às instituições monásticas — a mesma influência aperfeiçoadora sobre o canto sacro. O próprio São Gregório tinha sido monge antes de ocupar o sólio pontifício, e foi sua afinidade pessoal com os beneditinos que lhe deu um conhecimento completo dos modos do canto litúrgico, os quais serviram como matéria-prima do canto gregoriano. Os sábios beneditinos, por sua vez, historicamente tomariam a liderança na sua interpretação, preservação e restauração.

Para os beneditinos, assim como o trabalho era realizado em comum, era natural que sua tarefa primeira, o “trabalho de Deus” — como São Bento chama o Ofício Divino —, também devesse ser partilhado em comunidade, e era a clave de sua espiritualidade e de sua vida diária. Em sua regra, São Bento admoesta: “estejamos sempre atentos ao que diz o profeta: ‘Servi ao Senhor com temor’; e também: ‘Cantai sabiamente’ e ‘Na presença dos anjos, cantarei a Vós’. Portanto, consideremos como devemos nos comportar na presença de Deus e de seus anjos e, desta forma, participemos do ofício de maneira que a mente esteja de acordo com a voz”. 20

É curioso o fato de o canto sacro ter florescido e adquirido sua forma mais perfeita em um ambiente onde, para favorecer a contemplação, os monges “deveriam ser zelosos em manter sempre o silêncio”. 21 O canto, que preenchia a maioria das horas de vigília, evidentemente não quebrava o silêncio interior dos monges, mas era consonante com ele e, de fato, fruto dele.

Ausculta, o fili […] et inclina aurem cordis tui22 — “Ouve, filho, e inclina os ouvidos de teu coração” é a exortação de abertura da regra beneditina. Silêncio que abre os ouvidos do coração para a voz não pronunciada da graça e torna a alma mais perceptiva para os significados mais profundos das palavras. Comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que os aspectos imponderáveis existentes no som musical ajudam a revelar este aspecto imponderável da palavra e “põem em foco uma porção de coisas que o sentido literal da palavra não diz”. 23

A palavra de Deus em música

Ao atingir o século XII, os beneditinos, em seu aperfeiçoamento do canto sacro, tiveram grandes discernimentos sobre a “oculta afinidade” entre palavra, música e alma, considerada por Santo Agostinho, como foi visto. Santa Hildegarda de Bingen via a palavra e a música como uma representação mística da união da natureza humana e divina, na Encarnação: “a palavra designa o corpo, mas a música manifesta o espírito. Porque a harmonia do paraíso proclama a divindade do Filho de Deus, e a palavra faz conhecer sua humanidade”. 24

São Bernardo mostra como os ouvidos corporais estão relacionados aos ouvidos do coração, ensinando dever o canto “agradar o ouvido a fim de mover o coração”. 25 O Doutor Melífluo — ele próprio autor de grande número de hinos em estilo gregoriano — afirma que os cânticos devem ser, acima de tudo, resplandecentes com a verdade, de maneira que a melodia “não deve obscurecer o significado do texto, mais propriamente, deve fazê-lo frutífero”. 26

No século XIII, São Tomás de Aquino combinaria suas habilidades musicais — as quais ele desenvolveu durante sua formação juvenil com os beneditinos de Monte Cassino — com sua extraordinária capacidade dominicana de ensinar, para compor, ambas, as melodias e as palavras de alguns dos mais valiosos hinos eucarísticos da Igreja. Para ele, “um hino é o louvor a Deus com cântico; um cântico é uma exultação da mente habitando nas coisas eternas, irrompendo na voz”. 27 Sua obra prima, Lauda Sion Salvatorem, melodicamente encerra toda a doutrina da Igreja relativa à Eucaristia.

O canto gregoriano, então, consistindo tão somente de palavras com uma única linha melódica, “traz o ‘ouvido do coração’ muito perto da palavra divina, com a finalidade de ouvi-la diretamente”. 28

Pio XII elogia esta qualidade do canto gregoriano: “Pela íntima aderência das melodias às palavras do texto sagrado, esse canto não só se enquadra a este plenamente, mas parece quase interpretar-lhe a força e a eficácia, instilando doçura na alma de quem o escuta; e isso por meios musicais simples e fáceis, entretanto, permeados de tão sublime e santa arte, que em todos suscitam sentimentos de sincera admiração”. 29

O componente musical do canto gregoriano possui ricos instrumentos de expressão a fim de colocar o texto em alto relevo, quase se tornando um com as palavras, como demonstra D. Dominic Johner: “A música gregoriana, todavia, não é meramente uma música de ornamento; ela não descreve o texto como uma guirlanda cinge uma coluna, sem conexão íntima com ela. O canto pode também tornar o texto interpretativo, expressivo e explanativo. Com frequência traz suas graduações até o ponto exato em que uma interpretação declamatória do texto cresce em calor e enfatiza aquela palavra que marca seu clímax. […] Tornar-se-á evidente que o canto une de modo perfeito o texto e a melodia, e que há uma íntima relação, uma união de espírito, entre eles”. 30

Um dos meios pelos quais o canto gregoriano revela o significado textual é através do uso da ordem das notas, ascensões, descidas e intervalos, cada um dos quais desempenha um determinado papel na interpretação do tema cantado. D. Johner ainda esclarece que os intervalos maiores e ascendentes denotam maior envolvimento da sensibilidade do que os intervalos menores e descendentes. Deste modo, uma frase melódica composta principalmente de segundas e terças — padrão predominante na maioria dos cantos — estabelece um ambiente de moderação e serenidade, com uma grande capacidade para a expressão de reverência e terna confiança. Em contraste, um intervalo de quarta cria um impacto mais forte; ascendendo, é portentoso, festivo. Para o intervalo de quinta é reservada a expressão das mais profundas experiências do espírito, seja tristeza, serena felicidade ou fé profunda e admiração. 31

Em momentos fugazes, a linha melódica do canto parece até mesmo interromper a dimensão verbal e levantar voo em puro jubilus, uma expressão musical de uma alegria além das palavras, que tipicamente ornamenta uma palavra como Alleluia. Esta forma de vocalização livre é, na pena de Santo Agostinho, “a voz do coração irrompendo em alegria, e procurando também expressar sentimentos cujo significado talvez nem compreenda. […] Quando somos jubilosos? Quando glorificamos algo que não pode ser expresso”. 32

Expressão do sobrenatural: tônico das almas

Para São Gregório Magno, o canto sacro pode de fato preparar o coração para a ação de Deus: “Através da voz da salmódia, quando é entoada com a força do coração, um caminho está preparado para o Senhor onipotente, de modo que Ele possa derramar na mente atenta os mistérios da profecia ou a graça da compunção. […] Quando Lhe cantamos, abrimos um sendeiro para que Ele possa vir à nossa alma e inflamar-nos, pela graça de seu amor”. 33 O primeiro monge Papa também compreendeu que certos sons musicais podem favorecer este encontro, em uma natureza humana tão inclinada a ater-se aos aspectos temporais e materiais da existência.

Por exemplo, uma peça musical convencional termina na nota tônica, dando um sentido de conclusão. A melodia do canto gregoriano, em contraste, quase sempre não faz esta resolução final na última nota, evocando um sentido do infinito, de eternidade. Ademais, pela extrema leveza de seu movimento, o canto gregoriano é interpretado da maneira a mais espiritual possível, embora permaneça dentro do domínio dos sentidos, pois, como comenta D. Mocquereau, ele “toma emprestado o mínimo possível do mundo material e se move, invisivelmente; ele avança, porém, imponderavelmente”. 34

Estas sugestões de imaterialidade e eternidade ecoam no canto gregoriano, e, quando assimilado ao longo do tempo pela alma, podem ajudar na formação de um estado de espírito correspondente e salutar. Para o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, ouvir canto gregoriano “lembra o aspecto penitencial, adverte contra o vazio das coisas terrenas, contra o mentiroso dos élans excessivos do próprio homem. Assim é o gregoriano. Das alegrias exultantes do Te Deum aos recolhimentos solenes do Tantum ergo, é a música que tem essa qualidade incomparável de exprimir a atitude perfeita, o exato grau de luz da alma reta e verdadeiramente inocente quando se coloca diante de Deus”. 35

Depois de haver feito o leitor passear pelos panoramas do canto gregoriano, o qual coloca a alma na dimensão do sagrado tão distinto do mundo em que vivemos, ao terminar queremos deixar-lhe um conselho: “Procure ter seu temperamento no estado do espírito do canto gregoriano, e terá encontrado uma via certa para a sua santificação”. 36

19 SÃO JOÃO CASSIANO. Collationum. Coll.I, c.17: ML 49, 507
20 SÃO BENTO. Regula. C.XIX: ML 66, 475-476.
21 Idem, c.XLII, 669.
22 Idem, Prol., 215.
23 CORRÊA DE OLIVEIRA, Palestra, op.cit.
24 SANTA HILDEGARDA DE BINGEN. Scivias sive Visionum ac Revationum. L.III, v.13: ML 197, 735-736.
25 SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Epistolæ. Ep.CCCXCVIII, n.2: ML 182, 610.
26 Idem, 611.
27 SÃO TOMÁS DE AQUINO. In Psalmos Davidis expositio. Proemium.
28 HERBERT, Rembert. Entrances: Gregorian chant in Daily Life. New York: Church, 1999, p.11.
29 PIO XII. Musicæ sacræ, 25/12/1955, n.3.
30 JOHNER, OSB, Dominic. The Chants of the Vatican Gradual. Collegeville (MS): St. John’s Abbey, 1940, p.10.
31 Cf. JOHNER, OSB, Dominic. A New School of Gregorian Chant. New York, Cincinnati: F. Pustet, 1925, p.252; 256; 294.
32 SANTO AGOSTINHO. Enarrationes in Psalmos. In Psalmo XCIX, n.4-5: ML 36, 1272.
33 SÃO GREGÓRIO I. Homiliæ in Hiezechihelem Prophetam. L.I, hom.1, n.15: ML 76, 793.
34 MOCQUEREAU, OSB, André. Le Nombre Musical Grégorien. Tournai: Desclée, 1932, v.I, p.112.
35 CORRÊA DE OLIVEIRA, Cântico da alma inocente, op. cit., p.3435.
36 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Dístico. In: Liber Cantualis: Hymni et cantica sacra. São Paulo: Artpress, 1989, s.p.

Os homens são filhos de Deus?

Ir. Juliane Campos, EP

Na ordem puramente natural, Deus Criador nos comunica, através de nossos pais, o ser e a natureza específica do homem, mas não seu próprio ser e sua natureza divina. O homem foi criado à imagem de Deus, segundo o Gênesis: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn 1,27), mas não lhe foi dada a natureza divina no momento da criação. É uma simples criatura saída das mãos de Deus, ainda que muito perfeita; inferior apenas aos anjos.

Conforme explica o padre Royo Marín, “toda verdadeira filiação ― seja de que ordem for ― consiste em receber, por via de geração natural, a vida e a natureza específica do próprio pai. Não há outro procedimento possível para estabelecer a relação pai-filho ― falando propriamente e em sentido estrito ― que a via de causalidade geradora”.1

É a graça que dá ao ser humano a condição de filho de Deus. Desde o princípio Deus elevou o homem à ordem sobrenatural, constituindo-o fundamentalmente pela graça e justiça original, sem que jamais haja existido para o homem um estado de simples natureza. Desde o primeiro instante de sua existência, nosso primeiro pai, Adão, “recebeu de Deus a santidade e a justiça” (D 788) , ou seja, foi criado no estado de graça santificante. Eis o que expressa o Concílio Vaticano I: “Deus, por sua infinita bondade, ‘ordenou o homem a um fim sobrenatural’, isto é, a participar dos bens divinos que sobrepujam totalmente a inteligência da mente humana, pois, em verdade, ‘nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem provou o que Deus preparou para os que O amam’ (1 Cor 2,9; Can. 2 e 3)” (D 1786) .

De maneira clara e simples pode-se dizer, então, que a graça é, pois, um dom divino, que Deus infunde na alma humana, dando-lhe uma participação na Sua própria natureza divina, fazendo o homem semelhante a Ele em sua própria divindade. O que quer dizer, tornando-o filho, por esta participação em Sua própria natureza. Divinizando a cada um, com d minúsculo.

Um exemplo muito elucidativo, baseado em São Boaventura e apresentado em uma conferência pelo Mons. João Clá Dias, faz compreender bem o que seria a natureza em estado puro ou tomada pela graça: seria o de uma catedral, cheia de vitrais, mas à meia-noite e sem nenhuma iluminação. Tudo escuro. Entra-se às apalpadelas e vão se acostumando as vistas. Consegue-se divisar um pequeno ponto de luz vermelha bruxuleando ao fundo, e é a pequena lamparina do Santíssimo, única e tênue iluminação visível. Passa-se o tempo, começa a amanhecer o dia e a iluminar-se os vitrais.

Chega uma certa hora em que o sol bate forte nos vitrais e aquela luz toda se estende pelo chão com cores e mais cores. É uma feeria que eleva a alma e fica-se extasiado por ver os magníficos vitrais iluminados pelo sol. O que é o vitral à meia-noite? É a alma humana sem a graça. O vitral banhado pelo sol é a alma banhada pela graça. É o vitral que, sem ser luz, passa a iluminar, pela luz do sol que ele incorpora. Assim é a alma humana que, sem ser Deus, incorpora a vida divina em si mesma e vê as coisas, as compreende de dentro da vida de Deus, pela graça“.2

Mas o homem, infelizmente, não ficou fiel às exigências que lhe foram impostas por esta elevação gratuita à ordem sobrenatural. O homem transgrediu o mandamento de Deus e pecou. Esclarece Royo Marín que “pelo pecado original, nossos primeiros pais perderam, para si e para todos os seus descendentes, o imenso tesouro sobrenatural que haviam recebido de Deus, e que teriam herdado todos os seus filhos, se não o perdessem irremediavelmente pelo pecado”. 3

Todas as graças, virtudes e dons que havia recebido de Deus ficaram perdidos. A filiação divina ficou maculada, pois não pode um filho de Deus, no sentido mais exato do termo, desobedecer às leis prescritas por Ele mesmo. Ficou manchada toda a criação humana.

O Concílio de Trento definiu assim esta doutrina:

Se alguém não acredita que o primeiro homem, Adão, ao transgredir o mandamento de Deus no Paraíso, perdeu imediatamente a santidade e justiça em que havia sido constituído (…), seja anátema (D 788).

Se alguém afirma que a prevaricação de Adão só prejudicou a ele, e não à sua descendência; ou que a santidade e justiça recebida de Deus, perdida por ele, perdeu-a só para si, e não também para todos nós; ou ainda que, manchado ele pelo pecado da desobediência, transmitiu ao gênero humano somente a morte e as penas do corpo, mas não o pecado, que é a morte da alma, seja anátema, pois contradiz o Apóstolo que declara: ‘Por um só homem entrou o pecado no mundo, e, pelo pecado, a morte, porquanto todos pecaram’”. (Rom 5,12) (D 789)

O Pecado Original trouxe conseqüências desastrosas para a humanidade. O homem ficou com sua natureza desordenada, com suas paixões desenfreadas, com um egoísmo desmedido e ficou capaz de cometer muitos outros atos maus, ou seja, outros pecados pessoais.

Define-se, pois, o pecado, segundo a Suma Teológica:

O pecado, segundo foi dito, é o ato humano mau. Um ato é humano desde que seja voluntário, ou de modo elícito, como o querer e o escolher; ou de maneira imperada, como os atos exteriores da palavra ou da ação. Um ato humano é mau porque lhe falta a devida medida. Toda medida de uma coisa se toma por comparação a uma regra, da qual, se ela se afasta, será sem medida. Para a vontade humana há duas regras. Uma, bem próxima e homogênea, que é a própria razão humana. A outra, que serve de regra suprema, é a lei eterna, de certo modo a razão de Deus. Eis porque Agostinho afirmou duas coisas na definição de pecado. Uma diz respeito à substância do ato humano, e é por assim dizer o material no pecado, ao dizer: ‘dito, feito, desejado’. A outra refere-se à razão de mal, e é por assim dizer o formal no pecado ao dizer: ‘contra a lei eterna’.4

O pecado é, portanto, a violação consciente e voluntária da lei da razão, da consciência e da lei de Deus.

Perdida a vida divina sobrenatural com o pecado, o homem ficou reduzido às suas próprias forças, que de si mesmas jamais poderiam reparar a catástrofe produzida pelo pecado original ou por seus pecados pessoais, pelo abismo infinito que existe entre Deus e o homem. Era impossível cobrir esta distância pelas potências humanas, tão debilitadas pelas consequências do pecado.

Assim como a graça foi dada gratuitamente por Deus, também a reparação do pecado o foi. Diz o Apóstolo Paulo, revelando o grande mistério de nossa redenção e reconciliação com o Criador:

Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos por nossos delitos, deu-nos a vida por Cristo – gratuitamente fomos salvos – e nos ressuscitou e deu-nos assento nos céus em Cristo Jesus, a fim de mostrar nos séculos vindouros a excelsa riqueza de sua graça por sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois gratuitamente fostes salvos pela fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus (Ef 2,4-8).

Desse modo, Cristo passou a ser, depois do pecado, a única fonte da vida sobrenatural, portanto da graça. Esclarece ainda Royo Marín que “Não se concedeu, nem se concederá jamais ao gênero humano uma só graça sobrenatural a não ser por Cristo ou em atenção a Ele, pois de ‘sua plenitude recebemos, todos, graça sobre graça’ (Jo 1,16). O mesmo Cristo manifestou expressamente, com inefável amor e misericórdia, que viera ao mundo ‘para que os homens tenham vida, e a tenham em abundância’(Jo 10,10)”.5

Com a redenção, o homem não só pôde seguir sendo filho de Deus, através do batismo, recuperando a graça perdida com o pecado, mas tornou-se ainda mais semelhante a Ele na irmandade com Jesus Cristo encarnado.

1ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Salvación. 4. ed. Madrid : B.A.C., 1997. p. 3
2CLÁ DIAS, João S. Conferência. São Paulo, 25 nov. 1996.
3ROYO MARÍN, António. Op. cit. p. 10
4SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.Th. I-II, q.71, a.6
5ROYO MARÍN, António. Op. cit. p. 11.

Adorarás o Senhor teu Deus

Yolaynet Encarnación Cuevas

Lê-se no Antigo Testamento que as pessoas, ao observarem os astros do céu, a abóbada estrelada ou a água impetuosa, ficavam cativadas por sua beleza , tomando-os  por deuses (cf. Sb 13, 2-4). Devido à grandeza de cada um dos elementos da criação, o pensamento humano, ao meditá-los, se eleva. Entretanto, vários povos se extraviaram por não  terem reconhecido o Artífice a partir de suas obras (cf. Dt 4, 15). Por esta razão, Moisés proibiu os judeus de levantarem os olhos e adorarem o sol e a lua,. Isso nos mostra que ante o “Criador do céu e da terra“, como rezamos no Credo, a atitude imediata do homem é de adoração.

O Pe. Antonio Royo Marin, OP explica que a adoração é ” o ato externo da virtude da religião pelo qual se testemunha a honra e reverência merecida pela excelência infinita de Deus, e a completa submissão a Ele“.1 Este excelso nível de louvor também é conhecido como latria. Em seu sentido absoluto só pode ser oferecida a cada uma das Pessoas da Santíssima Trindade. Relativamente esse culto também é dado à Eucaristia, às partículas autênticas do Lignum Crucis (Santo Lenho) e às outras relíquias da sagrada paixão, já que essas últimas têm impregnadas o preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.2

Ao adorar a Deus, o homem reconhece sua miséria e a grandeza do Dono de tudo o que existe. Referindo-se a esse nada das criaturas, pergunta Santo Agostinho: “Que merecimentos poderiam Vos apresentar o céu e a terra para que no princípio os tivésseis criado? […] Que me digam o que eles mereceram para receber de Vós esse ser3 E depois conclui: “Nenhuma coisa diante de Vós poderia merecer o dom da criação, visto que não existia para merecê-lo“.4

Neste sentido, Tomás de Aquino enumera as razões pelas quais nunca devemos nos excluir da adoração que é devida a Deus.5 No entanto, essas também nos ajudam a entender porque o ser humano é dócil para reverenciar ao seu Senhor. Na vida comum, qualquer tipo de dignidade merece certo reconhecimento por parte da sociedade. Por esse motivo, se uma pessoa não concede ao presidente de um país o respeito que lhe é devido, é considerado um traidor. Desse modo, isso acontece com Deus, mas em um nível infinitamente maior, já que Ele é superior a todos. Assim diz o Salmo: “Deus é grande e digno de louvor” (Sl 95, 4).

Se todos os nossos bens materiais e espirituais nos vêm de Deus, conclui São Tomás de Aquino que seríamos muito ingratos se não reconhecêssemos o que d’Ele recebemos e não O adorarmos. Em relação a essa gratidão, Santo Agostinho expressa que todos nós devemos ao Sumo Bem sermos muito bons, já que é Ele quem nos quis chamar à existência.6

Por outro lado, a adoração tem um grande relacionamento com o primeiro mandamento. Esse preceito diz: “Adorarás o Senhor teu Deus e O servirás” (Dt 6, 13). Dessa maneira, Deus Pai exigiu de Moisés e do povo de Israel o que por justiça Lhe corresponde e indistintamente o exige de todas as gerações futuras. O Catecismo da Igreja Católica explica que todas as pessoas são criadas à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26), e que,por este motivo, têm a vocação de manifestar Deus pelo seu agir (cf. CCE 2085).

Em suma, devemos ser zelosos para que nosso coração e nossa reverência sejam totalmente para Aquele que merece que “se dobre todo joelho nos céus, na terra e nos abismos” (Fl 2, 10). Tomemos o excelso exemplo de Maria Santíssima que, através de suas palavras no Magnificat, nos leva a ter um verdadeiro espírito humilde e grato ante as grandes misericórdias de nosso Deus e não cessa de O adorar.

1 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para Seglares. 3. ed. Madrid: BAC, 1964, v. I, p. 284.
2 Ibid. p. 285.
3 SAN AGUSTÍN. Confissões. L. XIII, c. 2, a. 2. (Tradução da autora).4 SAN AGUSTÍN. Confissões. L. XIII, c. 2, a. 3. (Tradução da autora).
5 SANTO TOMÁS DE AQUINO. A luz da Fé. Lisboa: Verbo, 2002, p. 153.
6 SAN AGUSTÍN. Confissões. L. XIII, c. 2, a. 2.

A Vida Consagrada: um caminho para a santidade

Ir. Maria Cecília Lins Brandão Veas

O círculo e o losango são as mais perfeitas figuras geométricas segundo o conceito de São Tomás de Aquino, pois representam o movimento do efeito que retorna à sua causa. Assim, a forma mais excelente de glorificação a Deus é o homem, criado à sua imagem e semelhança, entregar-se por completo a Ele, o fim último e causa de sua existência. Esta disposição de espírito é efetuada com maior dimensão de frutos pela profissão de votos próprios aos religiosos. Estes, chamados a trilharem mais eficazmente o caminho de Nosso Senhor Jesus Cristo na prática assídua da castidade, pobreza e obediência, servem de esteios para a Santa Igreja e baluartes que anunciam a vida eterna. (cân. 573) Para melhor compreensão, exporemos brevemente alguns pontos constitutivos dos estatutos da Sociedade de Vida Apostólica Regina Virginum.

As atividades diárias iniciam com o cântico do Credo, seguido da exposição do Santíssimo Sacramento e da Liturgia das Horas recitada em conjunto, após a qual há um período de recolhimento onde pode-se cumprir os demais atos de piedade a saber: a comunhão sacramental, meia hora de adoração ao Santíssimo, o Rosário completo, leituras espirituais, a renovação da Consagração a Nossa Senhora, entre outros. (cân. 663) Tendo ordenado a vida interior, que prima sobre as coisas palpáveis e tangíveis, a religiosa estará apta para os deveres de seu estado, conforme ponderava Plinio Corrêa de Oliveira: “ O homem recolhido no pensamento é contínuo na ação”.

A prática da castidade, pobreza e obediência

Conta a tradição, que certo monge anacoreta debatia-se fortemente contra a tentação de abandonar a castidade unindo-se a uma mulher que com frequência lhe induzia ao pecado. Prescindindo dos auxílios sobrenaturais, cedeu à solicitação pecaminosa. Ao cair em si, dando-se conta do triste estado em que se encontrava, percebeu que a mulher era o próprio demônio que ria e zombava de sua fraqueza. Envergonhado de seu estado, entrou em desespero e entregou-se definitivamente aos prazeres mundanos.

Triste situação, porém não longe de nosso alcance. As concupiscências e desejos desenfreados constantemente nos solicitam ao pecado. Ora, se é verdade que padecemos da fomis peccati e das tentações do demônio, não podemos expor-nos ao perigo. Por este motivo, nas casas em que residem as religiosas, tem-se por norma vigente a clausura onde a consagrada mantém-se alheia ao mundanismo, pois a continência perfeita no celibato provém de um coração puro de apegos carnais às criaturas e de um desejo sempre mais sublime de se unir a Cristo.

Despojando-se de toda Sua Glória, quis o Verbo Eterno tornar-se réu de nossas culpas, assumindo a forma humana para nos redimir. Se assim procedeu o Criador, porque não renunciaríamos nós aos bens terrenos, infinitamente inferiores à glória de ser Deus? (cân. 600) Assim, para pôr em prática esta sobriedade, insinuam as normas, que as religiosas nada possuam sem que antes tenha sido previamente autorizado pela superiora, e que nada tenham de supérfluo.

Assinalava São Luís Maria Grignion de Monfort que “para esvaziar-nos de nós mesmos é necessário, todos os dias, morrer a nós mesmos: é preciso renunciar às operações das potências de nossa alma e dos sentidos do corpo; ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-se das coisas deste mundo como se não nos servíssemos delas”. Desse modo, uma vez desprendidas dos bens tangíveis, as consagradas estarão aptas à prática da obediência, que consiste na renúncia do que no homem há de mais íntimo: a vontade própria. (cân. 601)

Na hierarquia da criação, há homens que foram constituídos para governarem os demais, e na voz destes, reconhece-se mais facilmente a vontade de Deus. Por este motivo, as religiosas estão ao dispor do beneplácito do Superior. Se forem enviadas às missões, lá estarão; à contemplação, lá contemplarão; às atividades, lá trabalharão, utilizando sempre o dizer de Samuel: Praesto Sum!

Paciência e Mansidão

Griselda Maria Tavarez Castillo

A prática das virtudes na atitude dos santos

É natural que amiúde nos aconselham a suportar pacientemente as dificuldades que surgem no meio de nosso caminhar por esta vida, mas, será que realmente sabemos no que consiste esta virtude ou como nós podemos praticá-la? É necessário e de suma importância que saibamos no que se fundamenta essa virtude, como podemos pô-la em prática e por que devemos praticá-la.

Se consultarmos o Evangelho, verificamos que Nosso Senhor Jesus Cristo, explícita ou implicitamente, nos convida à prática desta virtude para alcançarmos a perfeição cristã, dizendo a seus discípulos: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas.“(Mt 11, 29). Então, ao analisar esta frase, surge a seguinte pergunta: Como podemos ser paciente para nos assemelharmos a Deus?

O grande Santo Tomás de Aquino sabiamente afirma: “A paciência é uma virtude que se relaciona com a virtude da fortaleza e impede o homem de se distanciar da reta razão iluminada pela fé e sucumbir às dificuldades e tristezas“.1 Portanto, paciente é aquele que sabe conservar a calma ante as mais duras provas e que, apesar dos sofrimentos e tribulações, mantém a alegria e a certeza de que não será abandonado por Deus. Em suma, possui o domínio da alma perante qualquer tormento externo que se possa experimentar.

A virtude da paciência tem uma relação estreita e direta com a virtude da fortaleza, mas não se deve confundi-las, porque ” cabe à fortaleza suportar não quaisquer males, mas aqueles que são os mais duros, ou seja, os perigos mortais. Ao passo que a paciência pode aturar males de qualquer espécie”.2 Embora sejam distintas, podem ser relacionadas, já que, para exercitar a paciência, é necessário ter fortaleza de espírito, ” é mais árduo para um soldado aguentar muito tempo sob balas em uma trincheira úmida e fria do que tomar parte em um ataque com todo o ardor do seu temperamento“.3

Esta virtude é tão rica que pode ser relacionada com muitas outras virtudes, como por exemplo a virtude da caridade. O próprio São Paulo, em uma de suas cartas aos Coríntios, assegura: “A caridade é paciente […]tudo crê, tudo espera, tudo suporta ” (I Cor 13, 4.6).

É justo que nesse “suportar todas as coisas com mansidão” se encontre o segredo da verdadeira paciência. Exemplos da prática desta virtude podem ser vistos nas atitudes dos santos, que, sofrendo desde pequenos, compreendem até o fundo a vida, que a Salve Rainha qualifica de “vale de lágrimas”. Mas, apesar desses sofrimentos, não apresentam qualquer sinal de desânimo, acidez ou amargura. Pelo contrário, acima de tudo, transparecem a doçura, a gentileza e a bondade. Eles demonstram possuir o bem-estar da virtude, da aceitação de um sofrimento vivido em paz.

Quanto à mansidão, pode-se dizer que “deve acompanhar a paciência, mas difere desta na medida em que tem como um efeito especial, não só superar as adversidades da vida, mas conter os movimentos desordenados da ira“.4 Não se deve, entretanto, confundir esta virtude com a brandura de temperamento, já que qualquer um, não importa o seu temperamento, pode praticar esta virtude, porque “a placidez de temperamento é exercida sem dificuldade para com aqueles que são de nosso agrado e com dureza para com os demais”, enquanto que,” a mansidão como virtude, evita essa amargura e dureza, em todas as circunstâncias e com todas as pessoas”.5

Atualmente, muitas pessoas interpretam mal o verdadeiro significado da paciência ao pensar que paciente é aquele que suporta todas as injustiças, não expressando sua repulsa ao pecado ou às faltas que podem ser cometidas. Isso é apenas uma falsa concepção do que é essa virtude, porque “quando é preciso usar a severidade, muitas vezes necessária, o paciente sabe fazê-la acompanhar de um amável ar de tranquilidade, como a clemência mitiga o castigo recebido”.6

Portanto, podemos concluir que, quando entendemos a mansidão e paciência desta forma, podemos pô-la em prática tanto em nossas palavras como em nossas atitudes, mas também fazê-la reinar em nossos corações, com a certeza de que ao praticá-la receberemos o prêmio que Nosso Senhor Jesus Cristo promete: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt 5, 5).

1SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.136, a.1.
2SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.136, a. 4.
3GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Las tres edades de la vida interior. Madrid: Palabra, 2003, v.II, p. 650.
4SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.157, a.1 y 2.
5GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Las tres edades de la vida interior. Madrid: Palabra, 2003, v.II, p.652-653.
6Ibid. p.653.

A paz de Cristo: um objetivo inatingível?

Irmã Maria Angélica Iamasaki, EP

Paz! Paz! Poucas palavras são tão repetidas quanto esta em nossos dias, ante a inclemência de guerras, revoluções, discórdias políticas, violência urbana, desunião familiar e atrocidades provocadas pelo acirramento de ódios étnicos.

Todos a desejam, dela muito se fala e se escreve, por toda parte se propõem meios para alcançá-la, mas… quem sabe dizer precisamente o que é paz? Para uns, ela consiste na ausência de qualquer confronto, físico ou ideológico, mesmo se obtida à custa da renúncia a princípios morais ou a importantes parcelas das próprias convicções. Para outros, viver em paz supõe fugir da realidade em busca de um utópico equilíbrio de espírito, alheio ao que se passa a seu redor. Não faltam também aqueles que a identificam com valores parciais, embora nobres, como o silêncio, a segurança ou o respeito à natureza.

A maior ou menor relação desses conceitos com a paz é inegável. Contudo, todos eles se desviam da essência desse bem fundamental para a sociedade, restringindo seu escopo e profundidade à realização de algum legítimo desejo pessoal.

Ora, “quem não sabe o que procura, não sabe o que encontra”, diz bem a propósito a sabedoria popular.

O que é a paz?

Para o cristão, a paz representa muito mais do que a simples inexistência de luta armada. Ela “não é ausência de guerra, nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica”, 1 lembra o Concílio Vaticano II.

Com razão afirmou Santo Agostinho ser ela um bem tão nobre que, ainda quando considerada apenas sob o ponto de vista terreno, “habitualmente nada se ouve com maior complacência, nada se deseja de mais atraente, enfim, nada se consegue de mais belo”. 2

Não existe paz sem o Criador, pois, ela “comporta uma exigência moral; além disso, tem relação com Deus: é de ordem transcendental e de ordem teologal”

No clássico ensinamento desse insigne Padre da Igreja, que marcou a teologia ocidental e vem ecoando na Cristandade por mais de quinze séculos, encontramos que a paz é a tranquilidade da ordem: “A paz do corpo é a ordenada complexão de suas partes; a da alma irracional, a ordenada calma de suas apetências. A paz da alma racional é a ordenada harmonia entre o conhecimento e a ação. […] A paz dos homens entre si, sua ordenada concórdia. A paz de casa é a ordenada concórdia entre os que nela mandam e os que obedecem; a paz da cidade, a ordenada concórdia entre governantes e governados. […] A paz de todas as coisas, a tranquilidade da ordem”. 3

Uma bela imagem de ordem — o principal elemento da definição agostiniana — é-nos oferecida pela harmonia sideral. Os astros, quais incontáveis joias refulgentes, preenchem a vastidão do firmamento de maneira singularmente ordenada e bela, dando a impressão de que na gigantesca abóbada celeste impera uma soberana paz. E não podia ser de outra forma, pois Deus “criou os céus com sabedoria” (Sl 135, 5).

Vemos, pois, que quando cada elemento de um conjunto encontra-se em seu devido lugar, cumprindo sua finalidade específica e proporcionando às demais criaturas o melhor de si, origina-se uma harmoniosa tranquilidade, fruto da reta disposição das coisas segundo sua natureza e de acordo com um determinado fim.

Não é qualquer tranquilidade, portanto, que merece ser chamada de paz, mas apenas aquela resultante da ordem. A pseudopaz instaurada com base em alguma situação desordenada, cedo ou tarde ruirá. A partir do momento em que os seres — quaisquer que sejam eles — deixam de agir conforme as regras da ordem, a paz esvanece.
São Tomás de Aquino, na questão da Suma dedicada à paz, mostra como ela está relacionada com o desejo do bem, uma vez que a ordenação interior do homem tende com veemência àquilo que lhe traz felicidade: “A verdadeira paz não pode existir senão com o desejo de um bem verdadeiro, porque todo mal, mesmo sob a aparência de bem pela qual satisfaz parcialmente o apetite, encerra muitas deficiências, e por causa delas o apetite permanece inquieto e perturbado. A verdadeira paz, portanto, só pode existir no bem e entre os bons. Logo, a paz dos maus é aparente e não verdadeira”. 4

Sendo Deus o único Ser capaz de saciar a apetência de infinito do homem, e uma vez que a ordem da criação foi instituída por Ele, podemos concluir não existir paz sem o Criador, pois ela “comporta uma exigência moral; além disso, tem relação com Deus: é de ordem transcendental e de ordem teologal”. 5

A santidade, meio mais eficaz de instaurar a paz

A filial submissão aos desígnios de Deus torna o homem de tal modo equilibrado e fortalecido na virtude, que ele, em consequência, pacifica tudo a seu redor. Onde está um santo, ali há grande paz, porque ele ordena todas as coisas de acordo com o estado de seu interior. Com efeito, a santidade possui mais eficácia na instauração da paz do que os tratados diplomáticos, quase sempre todos condicionados a uma política volúvel, instável e nem sempre ordenada. E os justos desejam ser pacíficos pelo mais elevado motivo: o de serem chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 9).

Em seu livro Jesus de Nazaré, o Papa Bento XVI ressalta que “a inimizade com Deus é o ponto de partida de toda corrupção do homem; superá-la é o pressuposto fundamental para a paz no mundo. Só o homem reconciliado com Deus pode estar reconciliado e em harmonia também consigo mesmo; e somente o homem reconciliado com Deus e consigo mesmo pode difundir paz em seu redor e em todo o mundo”. 6

Na base do ensinamento do atual Pontífice está a repulsa ao pecado, o qual exclui qualquer forma de paz. Nesse sentido, a explicação oferecida pelo Doutor Angélico mostra como uma falsa paz pode enganar o homem, se ele não goza da perfeita união com Deus: “Ninguém é privado da graça santificante a não ser em razão do pecado, razão pela qual o homem se afasta do verdadeiro fim e estabelece o fim em algo não verdadeiro. Assim sendo, seu apetite não adere principalmente ao verdadeiro bem final, mas a um bem aparente. Por esta razão, sem a graça santificante não pode haver verdadeira paz, mas somente uma paz aparente”.7

Portanto, o empenho de estar em ordem com o Criador é condição essencial de qualquer forma de paz. Sem isso, prevalecem os interesses pessoais e os egoísmos, fonte das disputas.

A paz na terra é consequência da paz com Deus

Na Santa Ceia, Nosso Senhor deu-nos como herança um dom precioso: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14,27).

A paz na Terra é consequência natural da paz com Deus, como deixou consignado o Beato João XXIII: “Em última análise, só haverá paz na sociedade humana se essa estiver presente em cada um dos membros, se em cada um se instaurar a ordem querida por Deus. Assim interroga Santo Agostinho ao homem: ‘Quer a tua alma vencer tuas paixões? Submeta-se a quem está no alto e vencerá o que está embaixo. E haverá paz em ti, paz verdadeira, segura, ordenadíssima. Qual é a ordem dessa paz? Deus comandando a alma, a alma comandando o corpo’”. 8

E o Papa Bento XVI, após ressalvar a relevância dos fatores de ordem cultural, política e econômica para se obter a paz, acrescenta: “Mas, em primeiro lugar a paz deve ser construída nos corações. De fato é neles que se desenvolvem sentimentos que podem alimentá-la ou, ao contrário, ameaçá-la, enfraquecê-la, sufocá-la. Aliás, o coração do homem é o lugar das intervenções de Deus. Portanto, ao lado da dimensão ‘horizontal’ das relações com os outros homens, revela-se de importância fundamental, nesta matéria, a dimensão ‘vertical’ da relação de cada um com Deus, no qual tudo tem o seu fundamento”. 9

Ensina-nos o Doutor Angélico que há no ser humano três classes de ordem: consigo mesmo, com Deus e com o próximo. 10 Donde decorrem três tipos de paz: do homem consigo mesmo, ou paz interior; do homem com Deus, decorrente de sua inteira submissão à vontade divina; e do homem com os seus semelhantes, que consiste em viver em concórdia com todos. A paz numa coletividade será a resultante da concórdia entre os indivíduos que a compõem; a concórdia entre as várias colectividades de uma nação equivale à sua paz interna. E, por fim, a concórdia entre as nações corresponde à tão sonhada paz internacional.

Com razão escreveu São Tomás: “A justiça produz a paz indiretamente, removendo-lhe os obstáculos. Mas a caridade a produz diretamente, porque ela é, por sua própria razão, causa da paz”.11 E a Constituição pastoral Gaudium et spes nos oferece este belo ensinamento: “A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, Príncipe da Paz, reconciliou com Deus, pela Cruz, todos os homens; restabelecendo a unidade de todos num só povo e num só corpo, extinguiu o ódio e, exaltado na Ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor”. 12

A paz de Cristo no reino de Cristo

Em sua Encíclica Ubi arcano, o Papa Pio XI valeu-se de uma fórmula em extremo acertada, a qual permanece até nossos dias como o paradigma a ser atingido não só pelos cristãos, mas por toda a humanidade: “A paz de Cristo no reino de Cristo”. 13

Quando, na Santa Ceia, o Senhor transmitiu os últimos ensinamentos aos Apóstolos, deu-nos como herança um dom precioso: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14, 27). Mais tarde, ao aparecer no Cenáculo e encontrar os discípulos amedrontados e pusilânimes, suas primeiras palavras foram: “A paz esteja convosco!” (Jo 20, 19). Ainda outras vezes falou Jesus sobre a paz, mas sempre com uma nota muito peculiar: a sua paz, e não outra qualquer.

Distinta das fruições do mundo, caracterizadas pela agitação que imprimem na alma, a paz de Cristo aquieta as paixões desordenadas e conduz ao “gozo perfeito do bem supremo, que une e pacifica todos os anseios”. 14 Ela “reside nas profundezas da alma”, 15 incita a praticar a justiça unida à caridade e ensina a paciência. Quem possui essa paz ama o direito e a autoridade. Ela não se alimenta de bens perecíveis, mas de realidades sobrenaturais, nem se perturba com as maiores desgraças, porque está fundada sobre a rocha firme da fé.

Dizemos com propriedade ser essa a paz de Cristo porque, antes d’Ele, o mundo vivia nas trevas do paganismo em que vigoravam atrocidades de todos os tipos, prevalecendo a máxima: homo homini lupus — o homem é lobo do homem. Por isso, Santo Efrém de Nisibi pôde afirmar que “no nascimento e na morte de Jesus de Nazaré, o Céu e a Terra se fundem num abraço de paz”. 16

Quanto ao reino messiânico instituído pelo Divino Mestre, este se distingue substancialmente de todos os reinos terrenos, porque jamais existiu um soberano dotado da capacidade de governar o interior de seus súditos. Tal privilégio pertence ao Homem-Deus, que não deseja imperar apenas no exterior, mas sim renovar o âmago de suas criaturas: “Dentro de vós meterei meu espírito, fazendo com que obedeçais às minhas leis e sigais e observeis os meus preceitos” (Ez 36, 27).

Se fecharmos as portas da alma ao suave jugo de Jesus, e deixarmos nela penetrar o pecado, abandonaremos a paz de Cristo e o reino de Cristo. É por se terem “miseravelmente separado de Deus e de Jesus Cristo” que os homens caíram no abismo de males da I Guerra Mundial, acentuou em sua encíclica Ubi arcano o Papa Pio XI. E acrescentou: “Já que foram renegados os preceitos da Sabedoria cristã, não há motivo para admirar-se de que os germes da discórdia — semeados por toda parte como em solo bem preparado — tenham produzido esse execrável fruto de uma guerra que, longe de enfraquecer pelo cansaço os ódios internacionais e sociais, alimentou-os mais abundantemente pela violência e pelo sangue”. 17

A Igreja é a grande propulsora da paz

Tocante é o relato do Evangelista São Lucas sobre a comoção de Nosso Senhor no Domingo de Ramos, quando Se aproximou da Cidade Santa e chorou sobre ela, dizendo: “Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!… Mas não, isso está oculto aos teus olhos” (Lc 19, 42). Ele, o “Príncipe da paz” (Is 9, 5), que viera a este mundo para salvar, é recusado até pelos seus. Portador de divinas soluções para todas as desordens da humanidade, é desprezado por não dar assentimento ao pecado dominante nos corações orgulhosos de uma geração má e perversa.

A nós, porém, filhos da Santa Igreja, a paz de Cristo não é um objetivo inalcançável, porque não está velado aos nossos olhos Quem a pode comunicar. Embora tenha ascendido gloriosamente aos Céus, Ele está presente em seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica, defensora intrépida do direito, da vida, da justiça e da caridade. Ou ainda, como a qualificou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “a depositária da Verdade, e Arca dos Sacramentos, inestimável obra-prima de Deus”. 18

Convicto de ser a Igreja a grande propulsora da paz, comenta esse eminente líder católico: “Só as virtudes que a Igreja ensina, e por meio dos Sacramentos ajuda a praticar, é que são realmente o fundamento da paz. E, assim, a virtude só vencerá onde vencer a Santa Igreja de Deus. Em outros termos, não haverá verdadeira paz senão na medida em que houver um triunfo da Santa Igreja. […] A exaltação da Santa Igreja, isto é, que a Igreja seja reconhecida por todos os povos no reinado universal que de direito lhe cabe sobre o mundo inteiro, é este o grande anelo que deve estar indissoluvelmente ligado a todos os nossos anseios de paz”. 19

Que a humanidade tenha, portanto, os olhos fixos na Igreja e ponha amorosamente em prática seus sapienciais ensinamentos, eis o meio seguro de extirpar todas as desordens, individuais e sociais, que campeiam pelo mundo afora e são causa das discórdias, guerras, violências e tantos outros males que afligem o mundo atual. À Santa Igreja se aplica com propriedade a profecia de Isaías: “Eis o que diz o Senhor: vou fazer a paz correr para ela como um rio” (Is 66, 12).

1CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et spes, n.78.
2SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. l.19, c.11.
3Idem, 1.19, c.13.
4SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.2, ad.3.
5HENRY, OP, Antonin-Marcel. Introdução e notas ao Tratado da Caridade. In: Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2004, v.V, p.406, nota a.
6RATZINGER, Joseph. Gesù di Nazaret. Città del Vaticano: Libreria Vaticana, 2007, p.110.
7SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., II-II, q.29, a.3, ad.1.
8JOÃO XXIII. Pacem in terris, n.164.
9BENTO XVI. Mensagem no 20º aniversário do Encontro Interreligioso de oração pela paz, convocado por João Paulo II, 20/9/2066.
10Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Evangelium Ioannis, c.14, lect.7.
11Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.3.
12CONCÍLIO VATICANO II, op.cit., ibidem.
13PIO XI. Ubi arcano, 23/12/1922.
14Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.2, ad.4.
15PIO XI, op. cit., ibidem.
16SANTO EFRÉM DE NISIBI, apud ODEN, Thomas C. (Ed.). La Biblia comentada por los padres de la Iglesia y otros autores de la época patrística. Evangelio según San Lucas. Madrid: Ciudad Nueva, 2006, v.III, p.82.
17PIO XI, op. cit., ibidem.
18CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Opus justitiæ pax. In: O Legionário. São Paulo. N.434. (5/1/1941); p.2
19CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Justitia et pax. In: O Legionário. São Paulo. N.517. (9/8/1942); p.2.

O Espírito da Alegria

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

O teólogo Marie-Michael Philipon 1 afirma que o Espírito Santo é quem nos faz encontrar, em Deus, gozo e deleite, lembrando a famosa a enumeração dos frutos do Espírito Santo dada por São Paulo aos Gálatas (Gl 5, 22-23): caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência e castidade.

Os frutos do Espírito Santo se distinguem das virtudes do mesmo modo que uma potência difere do ato. Por esta razão são chamados “frutos”, pois o fruto é aquilo que a planta produz ao atingir o auge de seu desenvolvimento e que traz em si certa suavidade e deleite.

A princípio, os atos das virtudes muitas vezes são difíceis e exigem esforço, assim como o fruto que ainda não está maduro e que deixa os dentes embotados. No entanto, quando já se está adestrado na prática da virtude, repete-se com facilidade e prontidão estes atos; estes são os frutos. Em consequência disso, nem todos os atos de virtude são merecedores do nome “fruto”, somente aqueles que são acompanhados de certo deleite espiritual.

Trata-se, contudo, de um gozo espiritual, que pode dar-se ainda em atos virtuosos que, como a paciência e a longanimidade, se exercem em situações aflitivas. É uma satisfação para o espírito não se sentir perturbado e conservar a paz e tranquilidade da alma em meio às penalidades”. 2

Uma vez que os frutos do Espírito Santo advêm da prática assídua da virtude, é correto afirmar que a alegria é um fruto do Espírito Santo, no sentido que procede da virtude. É importante esclarecer que a verdadeira alegria não consiste na virtude; esta é apenas o fundamento de um edifício muito mais excelente do que a virtude, que é o próprio Deus e n’Ele a vida da graça. “A alegria […] vem da paz de consciência. Quando eu estou em ordem com Deus, estou em ordem com os seus mandamentos, estou, portanto, dentro da graça de Deus, eu estou na alegria“, 3 explica Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

Pondera São Tomás 4 que os atos de todos os demais dons que orientam para o bem se reduzem à caridade, à alegria e à paz. A alegria figura nesta enumeração seguindo a caridade, pois, como já foi visto, aquela procede desta, de sorte que quem ama se alegra de estar unido ao amado, “a alegria é a presença e a posse daquele a quem se ama”. 5 A este respeito, parafraseando um dito famoso de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira, 6 podemos afirmar convictamente que alegrar-se é estar juntos, olhar-se e querer-se bem.

Apesar de tudo, alegre

Acabamos de ver que os frutos do Espírito Santo são exercidos até mesmo em situações aflitivas e dramáticas. São um sopro do Divino Espírito que dão paz e tranquilidade à alma em meio às dificuldades, conforme afirma São Paulo em sua primeira carta aos Tessalonicenses (I Ts 1, 6): “Vós vos tornastes imitadores nossos, e do Senhor, acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações“. Portanto, aquela ideia hipotética de bem-aventurança terrena não tem fundamento, pois a felicidade não pressupõe a ausência de sofrimento; a alegria é fruto da caridade, do Espírito Santo, mas não do bem-estar terreno. 7 Analisemos um fato narrado pelo Professor Plinio Corrêa de Oliveira na Folha de São Paulo:

“Vindo uma vez São Francisco de Perusa para Santa Maria dos Anjos com frei Leão, em tempo do inverno, e o grandíssimo frio fortemente o atormentasse, […] frei Leão perguntou-lhe: Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria. E São Francisco assim lhe respondeu: Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e disser: Quem são vocês? E nós dissermos: Somos dois dos vossos irmãos, e ele disser: Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui: e não nos abrir […] então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele […], nisso está a perfeita alegria. E se ainda, constrangidos pela fome, pelo frio e pela noite batermos mais, chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus com muitas lágrimas que ele nos abra a porta e nos deixe entrar, e se ele mais escandalizado disser: Vagabundos importunos, pagar-lhes-ei como merecem; e sair com um bastão nodoso e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater com o pau de nó em nó; se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo Bendito, os quais devemos suportar por seu amor: ó irmão Leão, escreve que aí e nisso está a perfeita alegria”
. 8

Pareceria um paradoxo considerar este testemunho partindo do princípio que a alegria deriva do encontro e da posse de um bem; como encontrar alegria em meio a tal situação, onde parece não haver bem nenhum? Do ponto de vista meramente natural, realmente seria impossível. Entretanto, não se pode olvidar que a alegria é algo inteiramente transcendente e sobrenatural.

A alegria cristã

“O homem, a mulher quando caem numa situação de penúria, de sofrimento, de angústia, de drama tem dois caminhos diante de si: um é a tristeza pela situação em que se encontra, outra é a alegria. ‘Mas, escute, alegria? Alegria numa situação dessas? Isso é sinônimo de loucura.’ É sinônimo de loucura desde que a pessoa não esteja pondo a sua alegria em Cristo Jesus. Porque se ela está sofrendo aquilo por um desígnio de Deus, e se ela está sofrendo aquilo por permissão de Deus, é sinal de que a vontade de Deus é que ela sofra“. 9

O verdadeiro cristão deve seguir o modelo do Divino Mestre na agonia do Horto das Oliveiras e no sacrifício do Calvário chegando ao auge do sofrimento com um amor incondicional ao Pai. “É misterioso, Ele está coberto de dores, mas se percebe n’Ele uma congruência, um vigor, uma coerência, uma resignação que me levam a dizer: nunca um homem foi tão invejável como o Homem-Deus no auge de sua tristeza“. 100

É por isso que nas igrejas costuma-se colocar Cristo bem no alto e na atenção de todos. Porque ali está a verdadeira alegria [em] considerar a cruz como um mérito, como um dom de Deus. […] A pessoa batizada passa por dramas, mas olhando, fixando a atenção bem no olhar […] vê-se um brilho por onde a pessoa tem uma substância, um suporte que em certo momento pousa a graça de Deus, um toque do Espírito Santo, enche a pessoa de ânimo e passa por aquela situação com outro estado de espírito“. 11

É necessário ver a vida sempre de dentro dos olhos de Deus, procurando o bem maior que Ele pretende quando permite as tribulações, seja para nos provar na fé, ou simplesmente para nos premiar com mais méritos no Céu. Precisamos considerar que todos os prazeres da vida passam com a morte e o único que levaremos desta Terra quando levantarmos voo rumo ao céu é o amor a Deus.

“O bom católico […] compreende o valor do sofrimento, do qual os pseudo-felizes tanto fogem. De fato, a dor é para a alma humana o que é o fogo para um metal que deve ser separado da ganga e purificado: sofre-se, porém com resignação e dignidade. Isso dá à alma uma tranquilidade, uma harmonia, uma força que não há prazer que pague. Oh, o bem estar da dor cristã!” 12

Esse é o verdadeiro espírito da alegria!

1PHILIPON, Marie-Michael. Los dones del Espíritu Santo. 2.ed. Madrid: Palabra, 1983, p. 59.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição: Comentado. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2011, v. II, p. 235.
3 Id. Homilia do XIV domingo do Tempo Comum. Op. cit.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I-II, q. 70, a. 3.
5 PHILIPON. Los dones del Espíritu Santo. Op. Cit. p. 59: “La alegría es la presencia y la posesión de aquél a quien se ama” (Tradução da autora).
6 “Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem” apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Dona Lucilia. São Paulo: Artpress, 1995, v. II, p. 267.
7 Claro está que este tema está sendo desenvolvido de maneira didática para a maior compreensão, mas a alegria é uma só, vista apenas de vários ângulos diferentes: um fruto da caridade, do Espírito Santo. Portanto, aquele mesmo fogo de amor a Deus que produz a alegria, nos faz passar por cima de todas as aflições sem que a elas prendamos o coração, pois para quem ama verdadeiramente a Deus, Ele é o único bem realmente lhe importa.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A perfeita alegria. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano I, n. 3, jun. 1998, p. 24-25.
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
10 CORRÊA DE OLIVEIRA. A verdadeira felicidade. Op. cit. p. 17.
11 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Aadvento. Caieiras, 14 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
12 CORRÊA DE OLIVEIRA. A verdadeira felicidade. Op. cit. p. 17.

Só Deus pode satisfazer a vontade humana

Irmã Kyla Mary Anne MacDonald, EP

É tremendo o paradoxo da nossa vontade, descrito por São Paulo aos romanos: “Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero”… Como entender essa misteriosa força dentro de nós, parecendo querer e não querer o bem, ao mesmo tempo?

Em Deus, a bondade e o querer são idênticos ao seu Ser. Assim, Ele só pode querer o bem. Já as criaturas, todas elas têm uma característica comum, refletindo esta perfeição divina: um amor ou inclinação para o bem, em cada ser, segundo a sua natureza.1 Contudo as plantas e animais, por serem irracionais, não têm senão bens finitos como objeto de seu agir; jamais atingem o Bem supremo — Deus —, pois não são capazes de conhecê-Lo. Essa possibilidade foi concedida somente ao anjo e ao homem, porque têm natureza racional.

O ser humano compreende a linguagem dos símbolos e, assim, o universo lhe fala de Deus. Ademais, vendo o bem finito dos seres, concebe a existência de um bem infinito e o deseja com toda a sua vontade. Por isso, São Tomás declara que “nenhuma coisa pode aquietar a vontade do homem, senão o bem universal. Mas este não se encontra em bem criado algum, a não ser em Deus, porque toda criatura tem bondade participada. Por isso, só Deus pode satisfazer plenamente a vontade humana”.2

Deus requer uma livre cooperação das naturezas inteligentes

É necessário ter em vista que, nesta vida, nossa natureza — e, portanto, nossa vontade — não está em sua perfeição última, mas sim em estado de prova. Deus — que na criação age para sua maior glória —, criou as coisas naturais em estado incompleto, e estas tendem a chegar à sua plenitude através de diversos processos, segundo a sua natureza. Vemos, por exemplo, brotar de uma insignificante semente uma grande sequoia.

Mas tais entes não tendem à sua finalidade livremente e por si mesmos. Deus requer somente das naturezas inteligentes uma livre cooperação para atingirem seu fim: a eterna bem-aventurança.

Quanto à natureza angélica, o definitivo aperfeiçoamento (ou sua recusa e perdição) se deu num só ato da vontade, imediato e definitivo. Não é o que acontece com o homem. Como explica o Doutor Angélico, “o homem por sua natureza não foi feito para atingir, de imediato, sua última perfeição, como acontece ao anjo. Por isso, deve percorrer um caminho mais longo que o do anjo para merecer a bem-aventurança”.3

Outro ponto chave para levarmos em conta é ser a criatura humana, em sua composição, a mais complexa entre todas as criaturas, por causa das diversas naturezas nela contidas. “Está ela na fronteira das criaturas espirituais e corporais”, observa São Tomás, e “por isso, nela se reúnem as potências tanto de umas como de outras criaturas”.4

O mal nunca é amado senão sob razão de bem

Em estado de justiça original, no Paraíso, o homem não sofria nenhuma interferência de sua natureza composta. Antes do primeiro pecado, gozava ele do dom de integridade, pelo qual vivia em pleno equilíbrio interior — entre sua razão, vontade e sensibilidade — e em perfeita harmonia com a vontade de Deus. Cedendo à tentação do demônio e levantando sua própria vontade contra a expressa vontade de Deus, pecou. A ordem anterior foi quebrada e, por castigo, o dom de integridade, aquele equilíbrio perfeito, foi-lhe retirado. Como resultante, toda a sua descendência — mesmo sendo lavada do pecado original pelo Batismo — permanece com o efeito evidente desse pecado em sua natureza.5

São Francisco de Sales afirma haver ficado nossa vontade facilmente sujeita aos caprichos dos apetites inferiores: “o pecado enfraqueceu mais a vontade humana do que obscureceu o entendimento, e a rebelião do apetite sensual, a que chamamos de concupiscência, perturba certamente o entendimento, mas é contra a vontade, que ele excita principalmente à revolta”.6

Contudo, assevera Sertillanges, a vontade não pode deixar de querer o bem no seu sentido universal, pois é ele seu objeto próprio enquanto natureza. “A isso a vontade não pode escapar, e como toda ação não é, no fundo, mais que uma manifestação da natureza, em toda ação que é fruto da vontade, pode-se ver a marca do bem e sua influência”.7

Portanto, ainda quando o homem peca, dá ao pecado uma aparência de bem, pois “o mal nunca é amado senão sob a razão de bem, isto é, enquanto é um bem relativo apreendido como um bem absoluto”.8 E acrescenta São Tomás: “é desta maneira que o homem ama a iniquidade, enquanto que por ela alcança um certo bem, como o prazer, o dinheiro ou coisa semelhante”.9

Para que a vontade humana seja boa deve conformar-se com a divina

As plantas e animais, por não estarem dotados de razão, jamais atingem o Bem Supremo, pois não são capazes de conhecê-Lo

Pelo fato de ser esclarecido por uma inteligência ordenada ao universal, o desejo da vontade naturalmente é, de certo modo, infinito, por causa da infinitude do seu objeto. Em face de qualquer bem limitado, conforme nos elucida Garrigou-Lagrange, “a inteligência, verificando imediatamente o limite, concebe um bem superior e, naturalmente, esse bem é desejado pela vontade”.10

Ora, se a vontade não dirige o enorme ímpeto do seu querer — um amor espiritual a Deus —, acaba transferindo toda a amplitude deste aos bens sensíveis. Mas como tem desejo de infinito, passa a ser atraída por um abismo implacável: “a concupiscência que não é natural, a do homem depravado, não tem limites, porque, pela sua inteligência, ele concebe sempre novas riquezas e novos prazeres; daí vêm, por vezes, as querelas sem fim entre os indivíduos e as guerras intermináveis entre os povos. O avarento é insaciável, assim como o homem do prazer ou aquele que aspira sempre a dominar”.11

Para ser boa, diz São Tomás, a vontade humana deve atingir sua própria medida, conformando-se com a vontade divina. Isto porque “aquilo que é primeiro em qualquer gênero é a medida e a razão de tudo que é desse gênero”.12 O cerne do ideal moral consiste nessa conformidade e constitui a maior prova da nossa vontade.

“A conformidade mais real, mais íntima, mais profunda”, observa Tanquerey, “é a que existe entre duas vontades”.13 E Deus quer estabelecer conosco exatamente essa estreita afinidade. Em sua bondade, Ele também nos fornece, no Evangelho, um exemplo vivo, sublime e insuperável de como atingir esta feliz condição.

“Não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres”.

A rica variação entre os relatos dos Santos Evangelistas é, sobretudo, evidente quanto aos textos sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Evangelho de São Mateus, por exemplo, ao descrever a agonia de Cristo no Horto de Getsêmani, é o único a mencionar três súplicas distintas — embora essencialmente idênticas —, feitas por Nosso Senhor.

“Adiantou-se um pouco e, prostrando-se com a face por terra, assim rezou: ‘Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres’” (Mt 26, 39). Depois de interromper sua oração para admoestar e chamar à oração os discípulos que se encontravam dormindo, “afastou-se pela segunda vez e orou, dizendo: ‘Meu Pai, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade!’” (Mt 26, 42). A seguir, ao achar seus três companheiros novamente dormindo, “deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras” (Mt 26, 44).

Dos outros evangelistas, somente São Lucas alude a esse episódio, mas faz referência a uma única súplica, embora acrescentando o comovente detalhe do suor de sangue, tão profuso que escorreu pela terra (cf. Lc 22, 44). Dada a forçosa brevidade observada pelos evangelistas, qualquer repetição pareceria convidar o leitor a uma atenção toda especial. São João Crisóstomo chega a afirmar ser sempre uma demonstração especialíssima da verdade, uma tríplice repetição na linguagem dos Evangelhos.14 Que admirável lição quis o Divino Espírito Santo nos dar ao inspirar São Mateus a sublinhar essa tríplice renúncia de Jesus à sua própria vontade bem como a aceitação incondicional da vontade do Pai?

Com as palavras, “Não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres”, ou então, nas palavras transmitidas por São Lucas: “Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua” (Lc 22, 42), o Salvador manifesta uma atitude constante durante sua vida. Assim, lemos: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra. (Jo 4, 34); “Não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30); “Pois desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6, 38). O oferecimento no Monte das Oliveiras, então, não é senão uma culminação desta submissão contínua.

Em Cristo há duas vontades

Assegura ainda São Tomás ser preciso afirmar que, tendo o Filho de Deus assumido uma natureza humana perfeita, e pertencendo a vontade à perfeição desta, Ele assumiu também uma vontade humana. Contudo, ao assumir nossa natureza, não sofreu Ele nenhuma diminuição quanto à sua natureza divina, à qual compete ter vontade. “Por isso, é necessário dizer que em Cristo há duas vontades, uma divina e outra humana”.15

Deste modo, ao pronunciar as palavras “a minha vontade”, Jesus podia, com toda a propriedade, falar de sua vontade divina. Não obstante, Nosso Senhor falava da sua vontade humana, como fica claro pelo contexto, pois Ele “não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens” (Fl 2, 6-7).

Assim, servindo-se de sua natureza humana, sendo do nosso próprio gênero, Jesus se fez um Modelo para nós, para sermos mais prontamente movidos a segui-Lo. Se Ele — enquanto Deus igual ao Pai, e enquanto homem completamente sem culpa —, livre e amorosamente, submeteu sua vontade humana à vontade do Pai, fica impossível duvidar da necessidade de a humanidade fazer o mesmo.

Mas como adequar nossas pobres vontades com a d’Aquele que declara: “Assim como os céus se elevam acima da terra, elevam-se os meus caminhos sobre os vossos” (Is 55, 9)? Sobretudo depois da contaminação do pecado original, pois só temos a possibilidade de agir estavelmente segundo a Lei de Deus com auxílio da graça. De igual maneira, só pela influência de uma virtude especial somos capacitados a conformar as nossas vontades à do Pai, a exemplo de Jesus, movidos por amor sobrenatural.

Caridade e santo abandono ao beneplácito divino

No Batismo, junto com a graça santificante, as virtudes infusas são proporcionadas às potências humanas para aperfeiçoar a natureza. Entre essas virtudes, a caridade corresponde à vontade, e a leva ao ato sobrenatural de amor a Deus. Conforme São João da Cruz, este é o mais alto grau de união transformante: “quando as duas vontades, a da alma e a de Deus, de tal modo se unem e conformam que nada há em uma que contrarie a outra. Assim, quando a alma tirar de si, totalmente, o que repugna e não se identifica à vontade divina, será transformada em Deus por amor”.16

Desse modo, mesmo na submissão necessária à chamada vontade significada de Deus, abrangendo os preceitos expressos estabelecidos por Ele, é a caridade que nos move a renunciar ao proibido e a obedecer aos decretos divinos, de modo ideal. No entanto, na conformidade à vontade de beneplácito de Deus brilha uma generosidade e amor ainda maiores, pois a prática da lei é algo mensurável e sempre claro, mas o santo abandono ao beneplácito divino exige uma flexibilidade e confiança sem medida, porque por meio dele No Batismo, as virtudes infusas são proporcionadas às potências humanas para aperfeiçoar a natureza adere-se, por amor, ao que nem se conhece ou entende plenamente ainda; adere-se, enfim, a todo o plano de Deus a nosso respeito, simplesmente porque Ele quer, apesar da aversão espontânea que nossa natureza sensitiva possa apresentar.17

“Venha a nós o vosso Reino”

As palavras de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras refletem o mais perfeito modelo desta disposição de alma, conforme ensina Santo Agostinho, referindo-se ao Corpo Místico de Cristo: “Esta expressão da cabeça é a salvação do corpo inteiro; esta expressão instrui todos os fiéis, anima os confessores e coroa os mártires, porque, quem poderia vencer os ódios do mundo, o ímpeto das tentações e os terrores da perseguição, se Jesus Cristo não tivesse dito a seu Pai, em todos e por todos: ‘Seja feita vossa vontade’? Aprendam esta voz todos os filhos da Igreja, para que, quando venha a dureza da adversidade, vencido o temor e o espanto, suportem com resignação qualquer tipo de sofrimento”.18

Existe, então, uma solução para o problema da vontade humana, tão embaraçada pela desordem da natureza decaída com a qual nascemos e pelo mundo imerso em pecado onde habitamos, fazendo surgir a esperança da vida eterna. Pois, segundo as palavras consoladoras de São João Evangelista, “o mundo passa com as suas concupiscências, mas quem cumpre a vontade de Deus permanece eternamente” (I Jo 2, 17).

Para estimular-nos mais ainda, o Divino Mestre afirmou ter um laço de união tão forte como o de família com quem segue esse caminho: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 50). Assim, foi Ele mesmo Quem nos ensinou a preparar, ainda nesta Terra, as condições para se estabelecer o Reino de Deus, o qual não é senão uma conformidade de todas as vontades à vontade divina, tornando este mundo semelhante ao Céu: “Venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6, 10).

1Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I-II, q.1, a.2.
2 Idem, I-II, q.2, a.8.
3 Idem, I, q.62, a.5, ad.1.
4 Idem, I, q.77, a.2.
5 Cf. Idem, II-II, q.164, a.1.
6 SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do Amor de Deus. L.1, c.17.
7 SERTILLANGES, Antonin-Gilbert. S. Thomas d’Aquin. 4.ed. Madison: Alcan, 1925, v.II, p.207.
8 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I-II, q.27, a.1, ad.1.
9 Idem, ibidem.
10 GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. O homem e a eternidade. Lisboa: Aster, 1959, p.22.
11 Idem, p.17.
12 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I-II, q.19, a.9.
13 TANQUEREY, Adolfe. Compêndio de Teologia ascética e mística. 6.ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p.238.
14 Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea, v.II: São Mateus, c.XXVI, v.39-44.
15 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, III, q. 18, a.1.
16 SÃO JOÃO DA CRUZ. Subida do Monte Carmelo, L.II,c.5. In: Obras Completas. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
17 Cf. GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Providencia y la confianza en Dios. 2.ed. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1942, p.201-203.
18 SANTO AGOSTINHO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea, v.II: São Mateus, c.XXVI, v.39-44.

Amor: Fruto da Caridade

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

Todo ser busca, com afinco, o bem e deste encontro decorre a alegria. Mas, qual bem pode nos trazer alegria a ponto de saciar todo desejo e não dar margem a nenhum tipo de decepção? São Tomás esclarece que, muito além de ser uma simples paixão, a alegria é o fruto mais arrebatador do amor a Deus, pois “o amor é o primeiro movimento da potência apetitiva do qual resulta o desejo e a alegria.1

Segundo Pe. Royo Marín, O.P.2, para que um objeto seja a causa de alegria e felicidade perfeita para o homem, ele deve resumir em si quatro condições essenciais: ser o bem supremo que não compita com outro maior; excluir toda e qualquer mescla de mal; saciar por completo todas as aspirações do coração humano; e, por último, ser estável, ou seja, que uma vez obtido não possa ser perdido. Segundo este moralista, tais requisitos não são cumpridos por nenhum dos seres criados, sejam eles dinheiro, fama, glória, beleza, etc.; essa tese é confirmada taxativamente pela Santa Mãe Igreja (CCE 1723): “a verdadeira alegria não está nas riquezas ou no bem-estar, nem na glória humana ou no poder, nem em qualquer obra humana por mais útil que seja, como as ciências, a técnica e as artes, nem em outra criatura qualquer, mas apenas em Deus, fonte de todo o bem e de todo amor“.

O Pe. Royo Marín dá as razões: as riquezas, por exemplo, além de fomentarem progressivamente o desejo de mais fortunas, não excluem certos infortúnios como enfermidades e mortes, e podem ser perdidas por qualquer eventualidade. Similarmente, as honras, a fama e o poder são instáveis, pois cessam após a morte. Quem, por exemplo, se lembra hoje das personalidades que encheram os jornais de há um século? Ademais, saúde, beleza, força, enfim, dentre todos os bens corpóreos, nenhum deles são bens supremos, pois o corpo é a parte inferior do homem, além do que também findam com a morte. Neste sentido, Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias dá um interessante depoimento:

Eu conheci pessoas riquíssimas em minha vida. Viajando de lá para acolá, conheci reis de petróleo, conheci magnatas de grandes fortunas: deprimidos, cheios de tiques nervosos, […] porque a qualquer momento podia ser que acontecesse isto, acontecesse aquilo, que perdesse isso, perdesse aquilo. Eles não se davam conta que iriam perder tudo na hora da morte, porque […] passariam para a eternidade sem levar nada.3

Tampouco a ciência preenche as condições necessárias para ser a razão da alegria humana, pois esta pode ser perdida pelas doenças mentais, além de não saciar o homem, a ponto de o próprio Sócrates afirmar: “Só sei que nada sei”.

Por fim, o Pe. Royo Marín ousa dizer que nem sequer na virtude – no sentido estrito da palavra – pode consistir o gozo perfeito, posto que não pode ser completa nesta Terra, nem é estável já que pode-se perdê-la pelo ímpeto das paixões.

Definitivamente: o único que pode nos fazer felizes é Deus. É como aconselha Tomás Kempis em sua obra “Imitação de Cristo”: “Tende por vã toda consolação que venha da criatura. A alma que ama a Deus despreza tudo abaixo de Deus. Só Deus, eterno e imenso, preenche tudo, Consolação da alma e verdadeira Alegria do coração4”.

E realça L. Desiato que “não adianta procurá-la [a felicidade] dando uma volta pelo mundo, ela está dentro de nós, no sorriso de uma Presença”5 ; e é, também, o que reconhece o Bispo de Hipona: “quando busco a Vós, Deus, busco a vida bem-aventurada6” .

Quando nós colocamos um amor meramente humano, quando nós colocamos a esperança meramente humana, quando nos aferramos a qualquer coisa puramente natural, aí vem a decepção. Por quê? Porque quando nós entregamos o nosso coração, nós estamos à procura de um infinito, de um Ser absoluto, de Deus. E muitas vezes nós, por equívoco, acabamos colocando nossa esperança em algo que não é Deus, e isso não nos traz o saciar deste anseio que eu levo dentro da minha alma, que é o anseio de Deus. O único ser que apaga este fogo, este anseio de felicidade que é de felicidade infinita – eu quero esta felicidade infinita porque eu fui criado para ela –, o único ser [que a sacia] é Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo, é a Religião, é ter a graça de Deus.7

Para vermos como a alegria verdadeira só se encontra no âmbito sobrenatural, tomemos a figura de Napoleão Bonaparte.

[Ele foi] um homem que fez uma carreira brilhante, galgou imediatamente, em pouco tempo, o posto de imperador da Europa. Era cultuado por todos, aplaudido por todos… […] ele teve uma vida de triunfos magníficos. Pois bem, Napoleão Bonaparte quando perguntaram a ele qual foi o dia mais alegre, mais feliz da vida dele, ele disse que foi o dia da Primeira Comunhão.8

O que permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele(I Jo 4, 16)

Contudo, a alegria é produzida pela obtenção de um bem presente, pois, de outro modo, seria apenas um desejo; e o Catecismo da Igreja Católica (CCE1718) afirma que este, por assim dizer “instinto natural”, Deus o pôs na alma humana a fim de atrair-nos a Ele. Mas, sendo Deus infinito, como poderia o homem obter a Deus? Esta resposta, a dá, de forma magistral, o Doutor Angélico:

[A caridade] produz no homem a perfeita alegria. Com efeito, ninguém tem verdadeiro gáudio se não vive na caridade. Porque qualquer um que deseje algo, não goza nem se alegra nem descansa enquanto não o obtém. E nas coisas temporais ocorre que se apetece o que não se tem, e o que se possui se despreza e produz tédio; mas não é assim nas coisas espirituais. Pelo contrário, quem ama a Deus o possui, e por isso o ânimo de quem O ama e O deseja n’Ele descansa.9

Portanto, só a caridade nos dá a possibilidade de possuir a Deus, pois como afirma São João: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (I Jo 4, 16). A caridade dilata o nosso coração para que, já nesta Terra, possamos abarcar um pouco mais do que nossa capacidade humana conseguiria, a infinitude do Criador.

Acrescenta ainda Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias:

O modo de participarmos de Nosso Senhor Jesus Cristo e permanecermos n’Ele e na alegria d’Ele, é […] estar participando daquilo que Ele é. O que Ele é? Ele é a Alegria. Ouçam como soa mal: “Deus é a depressão. Deus é o desânimo. Deus é a tristeza”. Alguém dirá: “Você é um louco. Fora daí!” Porque se há algo que eu não posso dizer é isso. Mas eu posso dizer: “Deus é a Alegria!” E Ele, portanto, quer transferir a nós essa alegria. Como recebemos essa alegria? É permanecendo no amor d’Ele, é permanecendo n’Ele, é obedecendo as leis morais que Ele pôs.10

Ora, Deus é amor e é alegria; logo, para se ter alegria é preciso ter amor a Ele.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. II-II, q. 28, a. 4.
2 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para seglares. Madrid: BAC, 1961, v. I, p. 26.
3 CLÁ DIAS, Joã o Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
4 KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. L. II, c. 5: “Totum vanum existima, quidquid consolationis occurrit de aliqua creatura. Amans Deum anima, sub Deo despicit universa. Solus Deus æternus et immensus, implens omnia, solatium animæ et vera cordis lætitia” (Tradução da autora).
5 DESIATO, L. Storia dell’eremo. Turim: [s. n.], 1990, p. 72: “Non serve cercala in giro per il mondo, essa è dentro di noi, nel sorriso di una Presenza” (Tradução da autora). Esta afirmação é fundamentada por Leão XIII: Deus se encontra presente em todas as coisas e está nelas: por potência, enquanto estão sujeitas ao seu poder; por presença, enquanto todas estão descobertas e patentes aos seus olhos; por essência, porque se encontra em todas como causa de seu ser (S. Th. I, q. 8, a. 3). Mas na criatura racional, Deus se encontra de outra maneira; ou seja, enquanto é conhecido e amado, uma vez que é próprio da natureza amar o bem, desejá-lo e buscá-lo. Finalmente, Deus, por meio da sua graça, está na alma do justo de uma forma mais íntima e inefável, como em seu templo; e disso se segue aquele amor mútuo pelo qual a alma está intimamente presente em Deus, e está nele mais do que pode suceder entre os amigos mais queridos, goza dele com a mais regalada doçura. LEÃO XIII, Encícica Divinum illud manus, n. 10: “Dios se halla presente a todas las cosas y que está en ellas: por potencia, en cuanto se hallan sujetas a su potestad; por presencia, en cuanto todas están abiertas y patentes a sus ojos; por esencia, porque en todas se halla como causa de su ser (S. Th. I, q.8, a.3.). Mas en la criatura racional se encuentra Dios ya de otra manera; esto es, en cuanto es conocido y amado, ya que según naturaleza es amar el bien, desearlo y buscarlo. Finalmente, Dios, por medio de su gracia, está en el alma del justo en forma más íntima e inefable, como en su templo; y de ello se sigue aquel mutuo amor por el que el alma está íntimamente presente a Dios, y está en él más de lo que pueda suceder entre los amigos más queridos, y goza de él con la más regalada dulzura” (Tradução da autora).
6 SANTO AGOSTINHO. Confessionum L.X, c. 20, n. 26: ML 32, 791: “Cum enim te Deum quæro, vitam beatam quæro” (Tradução da autora).
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 14 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
Id. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
8 ANDRIA, Pedro de. Los mandamientos comentados por Santo Tomas de Aquino. 2. ed. Mexico: Tradición, 1981, p. 12: “[La caridad] produce en el hombre la perfecta alegría. En efecto, nadie posee en verdad el gozo si no vive en la caridad. Porque cualquiera que desea algo, no goza ni se alegra ni descansa mientras no lo obtenga. Y en las cosas temporales ocurre que se apetece lo que no se tiene, y lo que se posee se desprecia y produce tedio; pero no es así en las cosas espirituales. Por el contrario, quien ama a Dios lo posee, y por lo mismo el ánimo de quien lo ama y lo desea en El descansa” (Tradução da autora).
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da quinta-feira da IV semana do Tempo Pascal. Caieiras, 6 maio 2010. (Arquivo IFTE).

“Repreende o justo e ele te amará”(Pr 9,8)

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

Davi é repreendido pelo profeta Natã - Catedral de Colônia, Alemanha.

María del Pilar Perezcanto Sagone

Quem gosta de ser repreendido? O homem, naturalmente, foge da repreensão, ainda que posteriormente, ele perceba ter sido esta benéfica para sua alma. Então, surge o problema: de que maneira devemos aceitar as repreensões que recebemos para que estas nos santifiquem? Discorramos um pouco acerca deste tema tão decisivo para nossa salvação eterna.

Possivelmente, a maior dificuldade do homem concebido no pecado original apresenta-se quando sente em si uma forte e agradável atração oposta ao dever, acompanhada de uma espécie de cegueira por onde a pessoa não discerne claramente o mal encerrado naquilo que a seduz.

Ora, posto nesse estado de atração, não há nada que o homem mais deteste do que ouvir falar em virtude, em obediência aos Mandamentos e castigos.1 Entretanto, ainda que o homem não goste de ser desviado daquele caminho ao qual sua concupiscência o conduziu, deve escutar estas paternais palavras que Deus lhe dirige: “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Pr 3,11,12). É uma verdadeira prova do amor que Deus nos tem o fato de que nos repreenda, pois diz a Escritura: “Aquele que poupa a vara quer mal a seu filho; mas o que o ama corrige-o continuamente” (Pr 13,24). O que seria de nós se não tivéssemos uma mão afetuosa que nos impede de cair no abismo?

Uma das maneiras de fazer transparecer o amor do superior para com súdito é corrigir-lhe e admoestá-lo de suas faltas para que possa emendar-se. O superior que ama verdadeiramente seu filho espiritual lhe deseja o bem, agindo como verdadeiro pai. 2

São João Clímaco compara, com muita unção, a crueldade de alguém que retira o pão das mãos de um menino faminto, com a daquele que tem obrigação de corrigir e não o faz. Este último causa dano não só a seu próximo mas também a si próprio. Ver-se-á, por essa omissão, privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.3

Mas, cabe-nos perguntar: Quem tem o dever de corrigir? São Tomás nos responde: Esta obrigação é de todos para com todos, 4 mas se intensifica quando Deus põe a nosso cuidado certas almas.

O próprio Salvador nos deixou este ensinamento: “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão” (Mt 18, 15). São Tomás afirma que corrigir o próximo, desde que se presuma que será bem aceito, constitui uma verdadeira obrigação, ligada à virtude da caridade.5 Por isso, a correção fraterna é uma das maiores obras de misericórdia que podemos praticar em relação ao próximo.6 Nosso Senhor não está somente nos aconselhando, mas está nos dando um mandato: “repreende-o “. Ele deixa claro que todos têm esta obrigação moral: “O que vos mando é que vos ameis uns aos outros”. ( Jo 15, 17)

Entretanto, no cumprimento deste fundamental dever não podemos deixar que penetre nas nossas almas qualquer fimbria de orgulho, pois devemos exercê-lo por amor a Deus. Claramente no-lo diz Monsenhor João Clá Dias: “Evidentemente, na aplicação deste preceito, não se deve agir com alguma paixão, por menor que seja. A isenção de ânimo é fundamental. Toda caridade deverá ser empregada na delicadíssima tarefa da reconciliação.7

Contudo, em muitas ocasiões apesar da correção ser ouvida com ressentimento, pois atinge o amor-próprio, a consciência daquele que soube repreender corretamente fica em paz pela tranquilidade do bem realizado. Quem admoesta o próximo, não pelo exagerado gosto de corrigir — que é a mais vil das vaidades —, mas com o verdadeiro desejo de incentivar o progresso espiritual, esse sim é que ama seu irmão.8

Para mostrar melhor esta atitude, Monsenhor João a exemplifica dizendo que na vida de todos os dias, não é difícil acontecer que saiamos de casa distraidamente com algum desalinho em nossa apresentação: meias de cores diferentes, roupa mal colocada, etc. Basta que, por caridade, alguém nos advirta, para nós nos manifestarmos cheios de gratidão; se, pelo contrário, ninguém nos avisasse, ficaríamos ressentidos. Ora, com mais razão devemos agradecer a quem nos admoesta pela nossa falta de virtude, sobretudo naquilo que possa vir a constituir escândalo.9

Quem possui a Sabedoria, quando corretamente repreendido, torna-se agradecido sem jamais guardar qualquer ressentimento. Ao contrário, quem se lamenta por ser admoestado, não possui a sabedoria, pois na repreensão é que se mostra o valor do homem.10

Lembremo-nos, entretanto, de que o ato de virtude de chegar a amar àquele que nos repreende só pode ser fruto de uma graça. Saibamos pois, abrir nosso coração para toda e qualquer repreensão vinda de Deus através daqueles que nos mostram, de uma ou outra maneira, os nossos defeitos. Desta maneira alcançaremos a finalidade para a qual fomos criados: ver a Deus face a face.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Alma feita de harmonias. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano X, n. 114, set. 2007, p. 8.
2 RODRIGUEZ, Alonso. Ejercicio de Perfección y virtudes cristianas. Madrid: Testimonio, [s.d]. p. 1636.
3 CLA DIAS, João Scognamiglio. A correção fraterna, uma opção ou um dever? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. n. 81, set. 2008. p. 11. 40p. cit. q.33, a.2.
4 S. Th. II-JI, q.33, a.3.
5 Loc. cit.
6 ROYO MARIN, Antonio. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967. p. 335.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 11.
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Quem encontra um amigo fiel, descobre um tesouro! — II In. Dr. Plinio. São Paulo: Ano XIII, n. 149, ago. 2010, P. 22.
9 CLA DIAS, João Scognamiglio. Op. cit. p. 12.
10 “CORRÊA DE OLIVEIRA, Op. cit. p. 22.

“Como foi do agrado do Senhor, assim foi feito”

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

“Se alguém me ama, observará minha palavra” (Jo 14, 23) e “Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor” (Jo 15, 10) são frases que expressam bem a caridade. Então, aqueles que amam a Deus e guardam seus mandamentos são sempre premiados nesta terra e nada de mal lhes acontece? “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito.” (Jo 15, 7).

Jó- Catedral PamplonaDetenhamo-nos no relato da vida de um personagem que figurou na História muitos séculos antes de Cristo, e que por assim dizer, foi objeto da justiça de Deus: “Havia, na terra de Hus, um homem chamado Jó, íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal” (Jó 1,1). Diz São Gregório Magno1, que “afastar-se totalmente do mal é começar a não mais pecar por amor a Deus”. Jó era, na linguagem da própria Sagradas Escrituras, justo aos olhos de Deus, a ponto de ser honrado por Ele com o elogio: “Não há ninguém igual a ele na terra” (Jó 1, 8). Se seguíssemos o caminho natural da lógica, deduziríamos que esta alma santa foi cumulada de benefícios divinos merecidamente, como canta o próprio salmista: “Oh, como Deus é bom para os corações retos, e o Senhor para com aqueles que tem o coração puro!” (Si 72) Mas, prossigamos com a narração:

Ora, um dia (…) um mensageiro veio dizer a Jó: Os bois lavravam e as jumentas pastavam (…). De repente, apareceram os sabeus e levaram tudo; e passaram à espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. Estando ele ainda a falar, veio um outro e disse: O fogo de Deus caiu do céu; queimou, consumiu as ovelhas e os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. (…) Ainda este estava falando e eis que entrou outro, e disse: Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho, quando um furacão se levantou de repente do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. (…) Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça. (…) Sua mulher disse-lhe: Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre! (Jó 1, 13-16.18-19; 2,7-9)

Entretanto, muito longe de maldizer a Deus, a reação deste justo varão é bem outra: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor! Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade?” (Jó 1, 21; 2, 10) E a versão Vulgata acrescenta: “como foi do agrado do Senhor, assim foi feito”. Jó, neste então, era, no dizer de São Paulo2 aos Coríntios, um vaso de barro que “sofre no exterior as rupturas das úlceras. Por dentro, porém, continua íntegro o tesouro3”. Este justo perdera não só o que mais amava, mas perdera tudo; só lhe restara a esposa, que longe de encorajá-lo, o incitava contra Deus. Sua resposta pode ser considerada não só um ato de integridade, mais de heroicidade. Jó não disse: o Senhor me deu, o diabo tirou, como foi do agrado do demônio assim foi feito4; mas atribuiu a Deus a deserção de seus bens, à maneira do Homem-Deus que sofrendo a paixão por culpa dos judeus declarou a Pilatos: “Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado” (Jo 19, 11).

Não seria plausível que Jó se revoltasse interiormente contra Deus? Sendo ele fiel à tradição de Abraão, conservador da Fé e das virtudes dos patriarcas5, era justo que recebesse tantos males d’Aquele Deus, que segundo São João (1 Jo 4, 8), é amor? Analisando com vagar as Sagradas Escrituras, vemos que não é raro este “proceder” da Divina Providência. É o que relata o Salmista: “Então foi em vão que conservei o coração puro e na inocência lavei as minhas mãos? (…) me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens” (Sl 72).

Como se justifica este aparente paradoxo? O Professor Plinio Correa de Oliveira6 explica: “Deus permite ao demônio atormentar e tentar por todas as formas os justos, com o intuito de pôr à prova sua fidelidade”.

Não raro, ao considerarmos a trajetória de certos ímpios, vemo-los a correr, desimpedidos, na estrada do mundo, enquanto o homem que procura trilhar as vias da retidão caminha passo a passo, em meio a dificuldades de toda espécie. Por quê? Porque as sendas da perdição são espaçosas e lisas; as de Nosso Senhor são estreitas e penosas, e seu fim é o Calvário7.

A Teologia Católica afirma que por um claro princípio de justiça, Deus permite que os santos sofram na terra e os maus tenham certo sucesso; posto que não existe nem mal, nem bem absolutos, todos praticamos atos bons e ruins que devem ser premiados ou penalizados; uma vez que Deus já tem, desde o início dos tempos, a pré-ciência do destino de cada um dos mortais e, por tanto, do prêmio ou do castigo eterno de cada um, é justo que recompense aqui na terra os atos bons dos que irão se condenar e penalize as imperfeições dos justos8. O mesmo Salmista (Sl 72) compreende este mistério e ratifica:

“Reflito para compreender este problema, mui penosa me pareceu esta tarefa, até o momento em que entrei no vosso santuário e em que me dei conta da sorte que os espera. Sim, vós os colocais num terreno escorregadio, à ruína vós os conduzis. Como de um sonho ao se despertar, Senhor, levantando vos, desprezais a sombra deles. Quando eu me exasperava e se me atormentava o coração, eu ignorava, não entendia, como um animal qualquer. Vossos desígnios me conduzirão, e, por fim, na glória me acolhereis. Se vos possuo, nada mais me atrai na terra. Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus”.

Entretanto, a Jó este mistério permanece incompreensível: “Mostra-me por que razão me tratas assim. Encontras prazer em oprimir, em renegar a obra de tuas mãos, em favorecer os planos dos maus? (Jó 10, 2-3) E mesmo desconhecendo as razões de seu suplício, bendiz à Deus e proclama sua justiça com valentia diante de seus antigos amigos que dia e noite o incitam a que injurie o nome de Deus: “Ouvi-me, pois, homens sensatos: longe de Deus a injustiça! Longe do Todo-poderoso a iniquidade! Ele trata o homem conforme seus atos, dá a cada um o que merece. É claro! Deus não é injusto, e o Todo-poderoso não falseia o direito” (Jó 34, 10-12).

Se é verdade que “consideradas as coisas sob certo ângulo, o valor de uma criatura humana se mede por sua capacidade de aceitar com coragem e resignação as dores que a Providência permite em seu caminho9”, Jó foi um homem de um valor inestimável. Quem diante de tanto sofrimento, depois de ter perdido família, criados, fortuna, e sendo cumpridor das leis do Todo-Poderoso não se julgaria alvo de grande injustiça? Mas, em virtude desta heróica aceitação incondicional, Deus, agora sim, premeia a Jó por sua fé verdadeira e sua virtude inquebrantável, que não consistia apenas em uma cordial gratidão pelos grandes bens recebidos, mas que era fiel e estava fundada unicamente no Criador, independente de confortos passageiros. “O Senhor abençoou os últimos tempos de Jó mais do que os primeiros” (Jó 42, 12). Jó recebeu tudo o que tinha antes, e em dobro.

Discutem os estudiosos se a História do justo Jó é realmente verossímil ou se é apenas um conto que tem como objetivo ensinar-nos a aceitar os sofrimentos recebidos de Deus. Independente de ser veraz ou não, é certo que este justo varão é um exemplo de virtude para todos os manchados da culpa original, que carregamos o peso das atribulações. É certo também que lembrando a vida de muitos santos e pessoas que se esforçaram por fazer o bem sobre a terra apesar de terem trilhado um caminho espinhoso, estas nem sempre receberam, à primeira vista, o dobro como o recebeu Jó. Entretanto, gozam, certamente, de sua recompensa eterna na beatitude celeste, sem terem de se arrepender por alguma vez terem suspirado ou chorado nos momentos em que deveriam alegrar-se por receberem de Deus uma ocasião para merecer uma recompensa mais abundante.

Tudo isso nos faz ver que seja qual for o modo como vivamos deveríamos receber sempre toda adversidade com alegria. Contrariedade e dificuldades parecem cheias de doçura para aqueles que amam.

1Moralia. Lib. 1, e. 26, 37: PL 75, 544. Tradução da autora.
2 Cf. 2 Cr 4,7.
3 SÃO GREGÓRIO MAGNO. Moralia. Lib. 3, c. 9, 15: PL 75, 606. Tradução da autora.
4 SANTO AGOSTINHO apud LEHONEY, Vital. El santo abandono. Disponível em: http://www.abandono.com/Abandono/ Lehoney/Lehoney2o2.htm. Acesso em 16 set. 2004.
5 Cf HOLZAMMER, Juan B.; SCHUSTER, Ignacio. Historia biblica. Barcelona: Litúrgica española, 1984, y. I, p. 759.
6 A Igreja é o centro da História. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 59, fey. 2003, P. 24.
7 Id. O partito de Jesuseo partido do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 118, jan. 2008, p. 14.
8 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. 1, q. 21, a. 4, ad. 3. E também: Id. S. Th, I, q. 14, a.13.
9 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Excelências do Sagrado Coração de Jesus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 51,jun. 2002, p. 23.

Caminho áureo rumo ao Criador

Michelle Sangy

Beleza Arautos

Quando apreciamos uma bela obra de arte, intuímos que esta possui, sob certo prisma, a marca de seu autor, inconfundível com as demais; “por vezes, o mais precioso de uma obra de arte é o fato de ela nos dar a conhecer algo da própria alma do artista que a concebeu”.1 Tal como uma obra-prima, verifica-se na Criação, tão belamente adornada, reflexos de um Autor que é a matriz dessas maravilhas contidas no universo, o Modelo de todas as belezas, como nos diz São Tomás: “As coisas que procedem de Deus se parecem com Ele2, e, acrescenta o Papa Bento XVI: “Tudo o que Deus criou era muito bom”.3

Santo Agostinho, em um de seus sermões sobre a beleza das criaturas, diz: “Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar dilatado e difuso, interroga a beleza do céu, interroga o ritmo ordenado dos astros: interroga ao sol, que ilumina o dia com fulgor: interroga a lua, que suaviza com seu esplendor a obscuridade da noite que segue ao dia: interroga aos animais que se movem nas águas, que habitam a terra e que se movem no ar […] Interroga todas essas realidades. Todas elas te responderão: Olha-nos, somos belas”.4

Aquario ArautosPara ele, Bispo de Hipona, a própria beleza das coisas revela a Deus, pois “se são belas as coisas que fez, quanto mais belo será Aquele que as fez”.5 Detenhamo-nos, agora, em algo cunhado pelo Divino Autor, no qual quis Ele apresentar ao universo “à sua imagem e semelhança” (Gn 1, 26): o homem. “Entre as coisas muito boas estava também o homem, ornamentado com uma beleza muito superior a todas as coisas belas”, nos diz o Santo Padre.6

Qual deve ser o caminho percorrido pelo homem para chegar até Deus?

Sendo uma criatura inteligente, antes mesmo de formular seus primeiros critérios na infância, percebe que, de fato, ele existe e possui também uma ligação com tudo aquilo que o cerca.7Esta noção, sumamente substanciosa, é como o alimento próprio de sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental”.8 Nestes primeiros contatos com as criaturas, através dos sentidos, o homem classifica aquilo que lhe agrada e, mais ainda, procura a plenitude do objeto agradado.

Contudo, devido ao apego do ser humano às coisas materiais, nestas, busca ele algo que lhe satisfaça, encontrando, muitas vezes, apenas frustração, “pois as coisas deste mundo tão somente fazem parte de um conjunto cuja cúspide se encontra no Céu, onde está Quem lhe poderá saciar a sede de infinito”.9 É a esse respeito que nos adverte o livro da Sabedoria: “Se tomaram essas coisas por deuses, encantados por sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez essas coisas. Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte; pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor” (Sb 13, 3-5).

Desse modo, compreendemos que o homem, ao longo de sua vida terrena, capta a beleza das coisas criadas por conter no mais profundo de sua alma alguns transcendentais, provindos de Deus, e postos por Ele em sua alma.

Segundo Edualdo Forment os transcendentais, em geral, são denominados como propriedades do ser. Essas propriedades depositadas no homem, a verdade, o bem, o uno e o belo provêm do Ser Absoluto, com a diferença de não se igualarem a Ele, mas possuírem umas “facetas” deste, expressamente manifestadas naqueles que as possuem.’10 Para facilitar a compreensão, é indispensável uma explicação ilustrada de Monsenhor João Clá. Diz ele que basta aproximar-nos de um berço de uma criança e apresentarmos a ela algumas belas bolas de diferentes cores para notarmos suas reações de maravilhamento causadas por estes instintos. Certamente, ela escolherá a bola da coloração que mais lhe agrada e depois de algum tempo passará a brincar com uma outra, e, assim, sucessivamente. “Trata-se da busca instintiva do bem, do belo e do verdadeiro que acabará por levar à eleição de uma das bolas como a principal dentro daquele conjunto”.11

Igreja Arautos GranjaCom efeito, há dois transcendentais que possuem uma ligação ulterior, uma analogia entre si. Estes são o belo e o bem, como diz o Doutor Angélico: “O belo é idêntico ao bem”.12 Afirma isto, ao explicar como o belo acrescenta ao bem uma certa ordem à potência cognoscitiva, de modo que o bem se chama o que agrada, de maneira absoluta ao apetite, e belo aquilo cuja apreensão agrada.13 A esse respeito nos fala Tomás de Verceil: “[…]contemplando o belo, nos tornamos bons, assim como nos tornamos belos ao amarmos o bem”.14

Cumpre considerar, ainda, a perfeita harmonia depositada nos transcendentais, cujo “encargo” foi deixado à beleza, como nos ensina Molinário, que a profundidade da beleza consiste na sua própria harmonia com os demais transcendentais e mais ainda: “a beleza é a propriedade transcendental do ser enquanto perfeita convertibilidade da unidade como integridade, da bondade como proporção e da verdade como claridade; e que o ente é belo enquanto é uno e íntegro, bom e proporcionado, verdadeiro e claro”,15 portanto harmônico.

Assim, concluímos, que a melhor forma de se chegar ao Criador é através de uma Via Pulchritudinis, ou seja, do caminho do belo e, realizá-lo, “significa revestir de pulcritude todos os atos da existência, para mais facilmente se erguer até Deus, que é a Beleza absoluta”.16

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conhecimento de Deus através do belo. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XI, n.125, ago. 2008, p.18.
2 SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q. 3, a. 7.
3 BENTO XVI. Audiência geral, 29/08/2007. Disponível em: . Acesso em 11 jun. 2012. ,
4 SANTO AGOSTINHO, Sermão 241, 2, apud OLIVEIRA SOUZA, Dartagnan Alves de. Pulchrum Caminho para o Absoluto? In: Lumen Veritatis. São Paulo: Ano II, n.8, jul/set. 2009, p.86.
5 Id. Enarratio in psalmos. s. CXLVIII, apud REY ALTUNA, Luis. Fundamentación ontológica de la belleza.Disponível em:(http://dspaceunaves/dspacethjtstream/10171/225 I/l/O6.%2Oluis%2OREy%2OALTUNA%20F Acesso em 26 nov. 2008. (Tradução da autora).
6 Bento XVI. Op. cit.
7 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. q.5, a.2.
8 CAMPOS, Juliane Vasconcelos Almeida. A chave do relacionamento com Deus. In: Arautos do Evangelho. São Paulo: n. 122, fev. 2012, p. 20.
9 Ibid. p. 22.
10 FORMENT, Eudualdo. La sistematizacion de Santo Tomás de los trascendentales. In: Contrastes. Revista Interdisciplinar de Filosofia. Barcelona: y. I, 1996, p. 111.
11 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Os dois filhos da Parábo1a, e os dois outros. In: Arautos do Evangelho. SãoPaulo: n. 43, set 2005, p.7.
12 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. J-II, q. 27, a. 1.
13 Loc. cit.
14 apud Verceil, Tomás de . Op. cit. p. 20.
15 MOLINARIO, Aniceto. Metafisica. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p. 92.
16 ARAUTOS DO EVANGELHO. Fórmula de Admissão de Neo Arautos do Evangelho. Folheto da Cerimônia. São Paulo: 17 de jun. de 2012. (Arquivo IFTE).

Amor eucarístico: origem da festa de “Corpus Christi”

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Corpus Christi Arautos

Vários motivos conduziram a Sé Apostólica a dar um novo impulso à piedade eucarística, estendendo a toda a Igreja uma devoção que já se praticava em certas regiões da Bélgica, Alemanha e Polônia. O primeiro deles remonta à época em que Urbano IV, então membro do clero de Liège, na Bélgica, analisou de perto o conteúdo das revelações com as quais o Senhor Se dignara favorecer uma jovem religiosa do mosteiro agostiniano de Mont Cornillon, próximo a essa cidade.

Em 1208, quando contava apenas 16 anos, Juliana fora objeto de uma singular visão: um refulgente disco branco, semelhante à lua cheia, tendo um dos seus lados obscurecido por uma mancha. Após alguns anos de intensa oração, fora-lhe revelado o significado daquela luminosa “lua incompleta”: ela simbolizava a Liturgia da Igreja, à qual faltava uma solenidade em louvor ao Santíssimo Sacramento. Santa Juliana de Mont Cornillon fora por Deus escolhida para comunicar ao mundo esse desejo celeste.

Mais de vinte anos se passaram até que a piedosa monja, dominando a repugnância proveniente de sua profunda humildade, se decidisse a cumprir sua missão, relatando a mensagem que recebera. A pedido seu, foram consultados vários teólogos, entre o quais o padre Jacques Pantaléon — futuro Bispo de Verdun e Patriarca de Jerusalém —, e este mostrou-se entusiasta das revelações de Juliana.

Transcorridas algumas décadas, e já após a morte da santa vidente, quis a Divina Providência que ele fosse elevado ao Sólio Pontifício, em 1261, tomando o nome de Urbano IV.

milagre eucaristico bolsenaEncontrava-se esse Papa em Orvieto, no verão de 1264, quando chegou a notícia de que, a pouca distância dali, na cidade de Bolsena, durante uma Missa na Igreja de Santa Cristina, o celebrante — que passava por provações quanto à presença real de Cristo na Eucaristia — vira transformar-se em suas próprias mãos a Sagrada Hóstia em um pedaço de carne, que derramava abundante sangue sobre os corporais.

A notícia do milagre espalhou-se rapidamente pela região. Informado de todos os detalhes, o Papa mandou trazer as relíquias para Orvieto, com a reverência e a solenidade devidas. E ele mesmo, acompanhado de numerosos Cardeais e Bispos, saiu ao encontro da procissão formada para conduzi-las à catedral.

milagre orvietoPouco depois, em 11 de agosto do mesmo ano, Urbano IV emitia a bula Transiturus de hoc mundo, pela qual determinava a solene celebração da festa de Corpus Christi em toda a Igreja. Uma afirmação contida no texto do documento deixava entrever ainda um terceiro motivo que contribuíra para a promulgação da mencionada festa no calendário litúrgico: “Ainda que renovemos todos os dias na Missa a memória da instituição desse Sacramento, estimamos todavia, conveniente que seja celebrada mais solenemente pelo menos uma vez ao ano para confundir particularmente os hereges; pois, na Quinta-Feira Santa a Igreja ocupa-se com a reconciliação dos penitentes, a consagração do santo crisma, o lava-pés e muitas outras funções que lhe impedem de voltar-se plenamente à veneração desse mistério”.

Assim, a solenidade do Santíssimo Corpo de Cristo nascia também para contra restar a perniciosa influência de certas ideias heréticas que se alastravam entre o povo, em detrimento da verdadeira Fé.

Já no século XI, Berengário de Tours se opusera abertamente ao Mistério do Altar, negando a transubstanciação e a presença real de Jesus Cristo em Corpo, Sangue, Alma e Divindade nas sagradas espécies. Segundo ele, a Eucaristia não passava de um pão bento, dotado de um simbolismo especial. E em inícios do século XII, o heresiarca Tanquelmo espalhara seus erros em Flandres, principalmente na cidade de Antuérpia, afirmando que os Sacramentos, e sobretudo, a Santíssima Eucaristia, não possuíam valor algum.

Embora todas essas falsas doutrinas já estivessem condenadas pela Igreja, algo de seus ecos nefandos ainda se faziam sentir pela Europa cristã. Assim, Urbano IV não julgou supérfluo censurá-las publicamente, de modo a tirar-lhes todo prestígio e penetração.

A Eucaristia passa a ser o centro da vida cristã

Corria o ano de 1264. O Papa Urbano IV mandara convocar uma seleta assembleia que reunia os mais famosos mestres de Teologia daquele tempo. Entre eles encontravam-se dois varões conhecidos não só pelo brilho da inteligência e pureza da doutrina, mas, sobretudo, pela heroicidade de suas virtudes: São Tomás de Aquino e São Boaventura.

A razão da convocatória relacionava-se com a recente bula Pontifícia instituindo uma festa anual em honra do Santíssimo Corpo de Cristo. Para o máximo esplendor desta comemoração, desejava Urbano IV que fosse composto um Ofício, bem como o próprio da Missa a ser cantada naquela solenidade. Assim, solicitou de cada um daqueles doutos personagens uma composição a ser-lhe apresentada dentro de alguns dias, a fim de ser escolhida a melhor.

Célebre tornou-se o episódio ocorrido durante a sessão. O primeiro a expor foi Frei Tomás. Serena e calmamente, desenrolou um pergaminho e os circunstantes ouviram a declamação pausada da Sequência por ele composta:

Lauda Sion Salvatorem, lauda ducem et pastorem in hymnis et canticis (Louva, Sião, o Salvador, o teu guia, o teu pastor com hinos e cânticos) … Maravilhamento geral.

Frei Tomás concluiu: …tuos ibi commensales, cohæredes et sodales, fac sanctorum civium (admiti-nos no Céu, à Vossa mesa, e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a Cidade Santa).

Frei Boaventura, digno filho do Poverello, rasgou sem vacilações sua composição, e os demais o imitaram, rendendo tributo ao gênio e à piedade do Aquinate. A posteridade não conheceu as demais obras, sem dúvida sublimes também, mas imortalizou o gesto de seus autores, verdadeiro monumento de humildade e despretensão.

adoração arautosA devoção eucarística começou a desabrochar com maior vigor entre os fiéis: os hinos e antífonas compostos por São Tomás de Aquino passaram a ocupar lugar de destaque dentro do tesouro litúrgico da Igreja.

No transcurso dos séculos, sob o sopro do Espírito Santo, a piedade popular e a sabedoria do Magistério infalível aliaram-se na constituição dos costumes, usos, privilégios e honras que hoje acompanham o Serviço do Altar, formando uma rica tradição eucarística.

Ainda no século XIII, surgiram as grandes procissões conduzindo o Santíssimo Sacramento pelas ruas, primeiro dentro de uma âmbula coberta, e mais tarde exposto no ostensório. Também neste ponto o fervor e o senso artístico das várias nações esmeraram-se na elaboração de custódias que rivalizavam em beleza e esplendor, na confecção de ornamentos apropriados e na colocação de imensos tapetes florais ao longo do caminho a ser percorrido pelo cortejo.

Os Papas Martinho V (1417-1431) e Eugênio IV (1431-1447) concederam generosas indulgências a quem participasse das procissões. Mais tarde, o Concílio de Trento — no seu Decreto sobre a Eucaristia, de 1551 — sublinharia o valor dessas demonstrações de Fé: “O santo Sínodo declara que é piedoso e religioso o costume, introduzido na Igreja de Deus, de celebrar todos os anos com singular veneração e solenidade, em dia festivo e peculiar, este excelso e venerável Sacramento, levando-O em procissões por vias e locais públicos com reverência e honra”.1

O amor eucarístico do povo fiel não se restringiu, porém, a manifestações externas; pelo contrário, elas eram a expressão de um sentimento profundo posto pelo Espírito Santo nas almas, no sentido de valorizar o precioso dom da presença sacramental de Jesus entre os homens, conforme Suas próprias palavras: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). O mistério de amor de um Deus que não só Se fez semelhante a nós para resgatar-nos da morte do pecado, mas quis, num extremo de ternura, permanecer entre os Seus, ouvindo seus pedidos e fortalecendo-os em suas tribulações, passou a ser o centro da vida cristã, o alimento dos fortes, a paixão dos santos.

São Pedro Julião Eymard, ardoroso devoto e apóstolo da Eucaristia, exprimiu em termos cheios de unção esta celestial “loucura” do Salvador ao permanecer como Sacramento de vida para nós:

“Compreende-se que o Filho de Deus, levado por Seu amor ao homem, tenha-Se feito homem como ele, pois era natural que o Criador tivesse interesse na reparação da obra saída de Suas mãos. Que, por um excesso de amor, o Homem-Deus morresse sobre a Cruz, compreende-se também. Mas o que já não se compreende, aquilo que espanta os débeis na Fé e escandaliza os incrédulos, é que Jesus Cristo glorioso e triunfante, depois de ter terminado Sua missão na terra, queira ainda permanecer conosco, num estado mais humilhante e aniquilado do que em Belém e no Calvário”.2

1 DENZINGER-HÜNERMANN, n. 1644.
2 EYMARD, São Pedro Julião. Obras Eucarísticas, “Eucaristía”. 4. ed. Madrid: 1963, p. 65.

A excelência da obediência na vida religiosa

obediênciaFlávia Cristina de Oliveira

A palavra obediência, proveniente do latim, ob audire, significa estar pronto para ouvir ou escutar. Por conseguinte, a obediência constitui um elo pelo qual o inferior une sua vontade à do superior para ouvir suas ordens de forma atenta e submissa. E conforme define São Tomás “a obediência torna a vontade do homem disposta a fazer a vontade de outro, a saber, daquele que manda”.1

A obediência é uma virtude moral e encontra-se em total dependência com a virtude cardeal da justiça, posto que dela deriva através da observância. Esta última, com efeito, tem por objeto próprio dar a cada um o que lhe corresponde.2

Deus constituiu o Universo de forma hierárquica, de maneira que os seres de naturezas inferiores fossem governados pelos superiores, embora pertençam a naturezas diversas; o mesmo ocorre com os seres dentro de um comum gênero: de animal para animal, de homem para homem, de anjo para anjo.

Levando isto em consideração, conclui-se que esta obediência que o inferior deve prestar ao superior é de direito natural, pois está inteiramente de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, conforme nos propõe o Doutor Angélico:

“Como as ações das coisas naturais procedem das forças naturais, assim também as operações humanas procedem da vontade humana. Foi conveniente que, nas coisas naturais, as superiores movessem as inferiores à sua própria ação pela excelência do poder natural que Deus lhes concedeu. Portanto, nas coisas humanas, é necessário que as superiores movam por sua vontade as inferiores por força da autoridade concedida por Deus. Ora, mover pela razão e pela vontade é mandar. Por isso, como pela ordem natural instituída por Deus, nas coisas naturais, as inferiores são necessariamente submetidas à moção das superiores, assim também nas humanas, pela ordem do direito natural e do divino, as inferiores são obrigadas a obedecer às superiores”.3

Esta autoridade exercida por aqueles que são superiores é conferida por Deus. Pois, como afirma São Paulo, “não há autoridade que não venha de Deus” (Rm 13, 1). Por isso, toda autoridade legítima é merecedora de respeito e veneração.

Este foi o procedimento de Deus para com os homens desde o Antigo Testamento, enviando ao povo eleito, guias, “[…] patriarcas, homens de virtude excelsa e personalidade robusta, de Fé inquebrantável como Abraão, de pertinácia infatigável como Isaac”,4 e insignes profetas, como Elias, Moisés e tantos outros.

Isto se sublimou em alto grau no Novo Testamento. O Divino Mestre formou os seus Apóstolos nesta escola, e estes, transmitiram para toda a Igreja nascente: “Por amor ao Senhor, sede submissos a toda autoridade humana, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, como enviados por ele, para castigo dos malfeitores e para favorecer as pessoas honestas” (1 Pd 2, 13-14).

A submissão

Como vimos, a prática da obediência é necessária a todos os homens, pois ela está de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, mas com o pecado original esta necessidade tornou-se mais viva na existência do homem. Em qualquer estado em que se encontre, ele se deparará nesta ou naquela circunstância às quais deverá obedecer. Se analisarmos a vida de um homem, veremos continuamente presente a obediência, a começar pela infância, quando terá ele de submeter-se aos pais, logo depois ao entrar para o colégio deverá obediência a seus professores; e, por fim, ao atingir a maturidade e optar por uma profissão será necessário impor-se dentro de certa disciplina a fim de alcançar determinado objetivo, ou então, se esta pessoa é chamada a uma vocação religiosa mais acentuada ainda será esta exigência, pois ela estará sujeita a um superior.

Será um mero acaso esta prática da obediência que vem inserida em todos os campos da vida humana?

Bem sabemos que isso não se trata de uma casualidade, mas de um meio de nos educarmos, pois uma vida de obediência bem levada põe em ordem a nossa vontade que se tornou tão corrompida pelo pecado original e, sobretudo, nos ensina qual deve ser nossa disposição de alma em face de nosso Redentor. Eis como exclama Santa Teresa: “ó virtude de obedecer que tudo podes!”,5 e São Francisco de Sales: “bem-aventurados os obedientes, porque Deus nunca permitirá que se extraviem!”.6

O sublime estado religioso

E se esta disposição de alma é exigida a qualquer cristão, podemos imaginar quanto mais daquele que por um desígnio especial de Deus é chamado a uma vocação religiosa, o que supõe sempre “um grande mistério de predileção para uma determinada alma […] e um abismo de amor seletivo por parte de Deus”,7 segundo as palavras do teólogo Padre Antonio Royo Marin. Devido a este extremado amor, cabe ao religioso uma única resposta que consiste numa dedicação total, sem condições.

Este estado de perfeição centra-se fundamentalmente na virtude da religião, em levá-la até as suas últimas consequências, nesta vida. “Nela nada há – na prática nada deve haver – que não seja total e essencialmente religioso.”8 Daí deriva este termo para aqueles que ingressam por esta via de entrega a Deus. Vejamos como nos explica São Tomás:

“O que convém em comum a muitos, atribui-se por antonomásia àquele a que convém por excelência. Assim, o nome de fortaleza vindica-o para si aquela virtude que nos faz conservar a firmeza de alma em face dos maiores perigos; […]. Ora, a religião, como estabelecemos, é uma virtude, pela qual nos dedicamos ao serviço e ao culto de Deus. Donde o se chamarem por antonomásia religiosos os que totalmente se consagram ao serviço divino, quase oferecendo-se em holocausto a Deus. Por isso diz Gregório: “Há pessoas que nada reservam para si, mas imolam os sentidos, a língua, a vida e a substância que receberam, ao Senhor onipotente”.9

O voto

Este oferecimento feito pelos religiosos baseia-se, sobretudo, na prática dos conselhos evangélicos, mediante os votos de pobreza, castidade e obediência (CIC 487); por meio destes, os religiosos têm a possibilidade de consagrar toda a sua vida a Deus e atingir mais facilmente a perfeição da caridade.

Uma vez que o holocausto significa entregar a Deus todos os bens e não reservar nada para si, nestes três votos estão contidas as três espécies de bens que o homem possui, a saber: os bens materiais que são entregues a Deus pelo voto de pobreza; o bem do próprio corpo que é consagrado a Deus pelo voto de castidade e por fim os bens da alma, que são oferecidos a Deus pelo voto de obediência. Este último constitui o mais excelente, pois se trata de oferecer a Deus a própria vontade.

Obediência religiosa excede os demais votos

Por isso o voto de obediência torna-se o principal dentre os outros, pois ele de si já contém os demais.

Uma razão mais nos dá o Doutor Angélico acerca da importância deste voto: afirma ser ele o mais essencial ao estado religioso, pois a obediência se refere propriamente aos atos relacionados ao fim da vida religiosa, e é justamente esta proximidade com o fim que lhe dá maior excelência. Desta forma, ninguém poderá pretender ser religioso se não tem o voto de obediência, ainda que tenha feito os votos de pobreza e castidade.10

A respeito desta temática, Plinio Correa de Oliveira comenta:

“Como é belo ser virgem, mais belo ainda é ser monge!” [afirma Santo Agostinho]. […] como o monge renuncia à sua própria vontade para, dentro de um convento e dentro de uma clausura, fazer a vontade de Deus, ele fica elevado a um estado que é mais belo que o próprio estado de virgindade. De maneira que alguém que tivesse a virgindade no século, mas não fosse monge, este não teria a alma tão bela quanto alguém que fosse um bom monge, embora antes tivesse tido a desgraça de perder a virgindade. Quer dizer, existe neste ato de conformidade, neste ato de obediência, por onde a gente se enclausura, por onde a gente faz inteiramente a vontade de Nossa Senhora, e vive de acordo com um regulamento que a vocação suscitou em nós, neste ato pelo qual a gente renuncia a fazer seus caprichos, a estar correndo de um lado para o outro, toma uma diretriz dentro da vida, consagra toda a sua vida a servir Nossa Senhora. Existe nisso uma beleza tal, que é mais bela do que a própria beleza da virgindade”.11

E [São Tomas de Aquino] diz: “A virgindade prepara o homem para cogitar as coisas de Deus; a vida monacal é mais bela do que isso, por que já é a própria cogitação das coisas de Deus”.

A renúncia da própria vontade

Nosso Senhor Jesus Cristo declara: “ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna” (Lc 18, 29-30). Ora esta promessa de Nosso Senhor se realiza irrevogavelmente desde que haja uma sincera renúncia, conforme Ele afirma: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34). Esta disposição de alma consolida-se, sobretudo, na obediência.

À primeira vista, esta vida de obediência pode parecer algo impossível, pois, ao orgulho e ao desejo de ser senhor de suas vontades acrescenta-se mais um fator: “o maligno, sabendo que o caminho que leva mais depressa à suma perfeição é a obediência, põe muitos dissabores e dificuldades disfarçados de bem; […] parece sobremodo difícil (…) o contentar-nos com coisas que em tudo contradizem a nossa vontade, de acordo com o nosso natural.”12

Para certas pessoas, a própria vida de clausura é uma espécie de cárcere, onde é obrigada a cumprir uma porção de regras. Porém, a realidade é muito diferente, trata-se de um laço que nos une mais estreitamente a Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, pois nesta via de obediência “Deus fala não mais como Senhor que manda, senão um Pai que manifesta seu desejo. Esta obediência não é mais a atitude de quem serve sob a pena de não cobrar seu salário e perder seu pão, mas é a atitude do filho que extrai de seu amor as energias necessárias para fazer de boa vontade o que seu pai deseja”.13 E como nos ensina Santa Teresa:

“O amor, contudo, tem tamanha força, se for perfeito, que desprezamos nosso próprio contentamento para contentar aquele a quem amamos. […] Por maiores que sejam os sofrimentos, logo se tornam suaves quando sabemos que, com eles, agradamos a Deus. Quem chegou a esse ponto ama desse modo as perseguições, as desonras e as ofensas. […] O que pretendo explicar é o motivo de a obediência ser o caminho ou meio mais rápido para chegar a esse estado tão prazeroso. Como de maneira alguma somos senhores da nossa vontade, para empregá-la pura e simplesmente em Deus, enquanto não a tivermos submetido à razão, a obediência é a via régia para essa sujeição”.14

A este respeito encontramos o testemunho de grandes santos. Por exemplo, Santa Joana de Chantal exclamava: “Com vossa divina graça resolvo, Senhor, seguir em tudo vossas ordens e vossos desejos sem buscar jamais minha própria vontade”15 ; ou então, num exemplo ainda mais próximo de nós, Santa Teresinha do Menino Jesus, em uma carta que dirige à sua superiora: “Ó minha Madre, de quantas inquietações nos livramos fazendo voto de obediência! Como são felizes as simples religiosas! Já que a vontade dos superiores constitui sua única bússola, estão sempre seguras de se encontrarem no caminho reto”.16 Santa Teresinha alcançou a obediência perfeita e seguiu as vias de uma sujeição completa à vontade de Deus; sem se preocupar em fazer grandes mortificações físicas, se limitou apenas em cumprir as prescrições de sua Regra, pois tinha pela obediência um enorme apreço e chegou a escrever: “A Obediência é minha forte couraça e o escudo do meu coração”.17

Os frutos desta perfeita renúncia

É de muita valia ressaltar também alguns fatores que concorrem para a excelência da obediência na vida religiosa, segundo ensina Valuy.

a)No obséquio que se faz a Deus:

“Não se trata mais das riquezas da terra, como no voto de pobreza; nem das satisfações corporais, como a castidade; senão que consagra a Deus o que o homem tem de mais nobre, de mais precioso e de mais íntimo: sua própria liberdade”18; […] “já que é dom supremo do amor entregar não só o que se possui- coisa bem precária- mas o que se é”.19

b)Nos traços de semelhança que nos faz ter com Nosso Senhor Jesus Cristo:

O religioso pode afirmar com Ele, o Obediente por excelência: “não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,30). E dizer também a respeito de si: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,34); desta maneira ele se assemelha Àquele que é o modelo da mais sublime obediência.

c)Na dignidade e perfeição que comunica à vontade:

“A conformidade mais real, mais íntima, mais profunda, é a que existe entre duas vontades”20, assevera Tanquerey, e é propriamente esta afinidade que Deus quer estabelecer com os homens; este Seu desejo se satisfaz especialmente com aqueles que entregam a Ele sua vontade, pelo voto de obediência. E conforme atesta Santa Teresa, o nosso intelecto e a nossa vontade se enobrecem quando, esquecendo-se de si, tratam com Deus.21 Logo, “[…] pelo voto de obediência o religioso une seu entendimento e sua vontade ao entendimento e à vontade de Deus; faz-se um mesmo espírito com Deus e pode, com razão, lisonjear-se de pensar e de querer como Deus, de fazer o que Deus quer, como quer e porque quer”.22

d)Na influência que exerce sobre todas as virtudes:

“Se desejais enriquecer-vos pronta e facilmente de todas as demais virtudes, não abandoneis jamais o salutar exercício da obediência”23 , assegura Santa Maria Madalena de Pazzi. E continua Valuy: “Ela as planta, as rega e as faz frutificar; conserva-as, sustenta sintetiza e supre. Dá-lhes forma e mérito, valor e vida”.24

e)No sinal de predestinação que nela se encontra:

“Não sendo outra coisa o pecado, senão uma desobediência à lei divina, o que consagra a sua vida à obediência se coloca em certa impossibilidade de pecar; e, se o único obstáculo para a salvação está no pecado, ele toma o caminho mais seguro, curto e fácil para alcançar a salvação eterna. Que abundância de graças durante a vida, que consolos na hora da morte, que glória e que destino não concede Deus na eternidade, ao religioso que por seu amor sacrificou tudo e até a sua própria pessoa!”25

Desta maneira, o religioso ao passar desta vida para a eternidade, poderá com toda alegria exclamar:

“Senhor, eu também estive crucificado convosco, como Vós e por Vós. Meus pés e minhas mãos, minha língua e todos os meus sentidos, minha inteligência, minha liberdade, minha vontade, meu ser todo inteiro foi crucificado, […]. A obediência foi meus cravos e minha cruz. E agora, Senhor, posto que Vos segui até o Calvário, mandai-me entrar convosco na glória”.26

Por fim, cabe-nos reconhecer a grandeza desta virtude, para nos empenharmos em praticá-la e nela nos refugiarmos. A obediência nos dá uma felicidade insubstituível posto que ela nos faz renunciar o que há de mais precioso para nós: a nossa própria vontade.27

O fato de existir almas que amam e desejam praticar a virtude da obediência é uma proclamação da autêntica liberdade dos verdadeiros filhos da luz no meio das trevas desse mundo que se gloria da libertinagem das paixões e da total independência a qualquer forma de hierarquia e autoridade.

1 “obedientiam reddit promptam hominis voluntatem ad implendam voluntatem alterius, scilicet praecipientis” (Ibid. II-II, q. 104, a 2 ad. 3).
2 ROYO MARÍN, Antonio. La vida religiosa. 2. ed. Madrid: BAC, 1965. p. 325.
3 “Respondeo dicendum quod sicut actiones rerum naturalium procedunt ex potentiis naturalibus, ita etiam operationes humanae procedunt ex humana voluntate. Oportuit autemin rebús naturalibus ut superiora moverent inferiora ad suas actiones, per excellentiam naturalis virtutes collatae divinitus. Unde etiam oportet in rebús humanis quod superiores moveant inferiores per suam voluntatem, ex vi auctoritatia divinitus ordinatae. Movere autem per rationem te voluntatem est praecipere. Et ideo, sicut ex ipso ordine naturali divinitus instituto inferiora in rebús naturalibus necesse habent subdi motioni superiorum, ita etiam in rebús humanis, ex ordine iuris naturalis et divini, tenentur inferiores suis superioribus obedire” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 104, a.1).
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Imagem Sacra pode expressar muito mais do que a palavra. Op. cit. p.10
5 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 115.
6 “Bienaventurados los obedientes, porque Dios nunca permitirá que se extravíen” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 153. Tradução da autora).
7 “[…] un gran misterio de predilección hacia una determinada alma […] un abismo de amor selectivo por parte de Dios” (ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 145.Tradução da autora).
8 “Nada hay- en la práctica nada debe haber- en ella que no sea total y esencialmente religioso” (Ibid. p. 135. Tradução da autora).
9 “Id quod communiter multis convenit, antonomastice attribuitur ei cui per excellentiam convenit: sicut nomen fortitudinis vindicat sibi illa virtus quae circa difficillima firmitatem animi servat;[…]. Religio autem, ut supra habitum est, est quaedam virtus, per quam aliquis ad Dei servitium et cultum aliquid exhibet. Et ideo antonomastice religiosi dicuntur illi qui se totaliter mancipant divino servitio, quasi holocaustum Deo offerentes. Unde Gregorius dicti, super Ezech. (Homil. XX): Sunt quidam qui nihil sibimetipsis reservant; sed sensum, linguam, vitam atque substantiam, quam perceperunt omnipotenti Domino immolant” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 186, a.1).
10 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.186, a. 8.
11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Este êremo é a obra-prima de Nossa Senhora: Palestra. São Paulo, 13 set. 1971. (Arquivo IFTE).
12 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 616.
13 “[…] nos fala Dios, no ya como Señor que manda, sino como Padre que manifiesta un deseo. Esta obediencia no es ya el acto del que sirve bajo pena de no cobrar su salario y perder su pan, sino el acto del hijo que saca de su amor energías para hacer lo que su padre desea de su buena voluntad” (MAUCOURANT, F. Op. cit. p. 61. Tradução da autora).
14 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. Op. cit. p. .
15 “Con vuestra divina gracia resuelvo, Señor, seguir en todo as vuestras ordenes y vuestros deseos sin buscar jamás mi proprio gusto” (MAUCOURANT, F. Op. Cit. p.56. Tradução da autora).
16 SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Caminhando para Deus. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1997. p. 254.
17 Ibid. p. 257.
18 “no es ya la fortuna de la tierra, como la pobreza; ni las satisfacciones corporales, como la castidad; sino que consagra a Dios lo que tiene el hombre de más noble, de más precioso y de más intimo: su misma libertad” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op. cit. p. 333. Tradução da autora).
19 “ya que es don supremo del amor entregar no sólo lo que se posee -cosa bien minguada-, sino lo que uno es” (VALUY, Tratado breve del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 331. Tradução da autora).
20 TANQUEREY, Adolfe. Compêndio de Teologia ascética e mística. 6. ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 238.
21 SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 449.
22 “[…] por el voto de obediencia une el religioso su entendimiento y su voluntad al entendimiento y voluntad de Dios; se hace un mismo espíritu con Dios y puede, con razón, lisonjearse de pensar y de querer como Dios quiere, como lo quiere y porque quiere” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 334. Tradução da autora).
23 “Si deseáis enriqueceros pronta y fácilmente de todas las virtudes, no abandonéis jamás el salutable ejercicio de la obediencia” (SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI apud MAUCOURANT, F. Op. cit. p.141. Tradução da autora).
24 “Ella las planta, las riega y las hace fructificar; las conserva, las sostiene, las compendia y las suple; les da forma y mérito, precio y vida” (Id. Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 334).
25 “No siendo otra cosa el pecado que una desobediencia a la ley divina, el que consagra su vida a la obediencia se pone en cierta imposibilidad de pecar; y, por cuanto el único obstáculo para salvación está en el pecado, toma el más seguro, el más corto y el más fácil camino para la salvación. ¡Qué abundancia de gracias durante la vida, qué consuelos en la hora de la muerte, qué gloria y que dicha no concede Dios en eternidad al religioso que por su amor lo ha sacrificado todo, y se ha sacrificado a si mismo!” (Loc. Cit. Tradução da autora).
26 “yo también, Señor, he estado crucificado con Vos, como Vos e por Vos. Mis pies y mis manos, mi lengua, todos mis sentidos, mi inteligencia, mi libertad, mi voluntad, mi ser todo entero ha sido crucificado, […]. La obediencia ha sido mis clavos y mi cruz. Y ahora, Señor, puesto que os he seguido al Calvario, mandadme entrar con Vos en la gloria” (Loc. Cit. Tradução da autora).
27 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Obedecer sempre e com alegria: Homilia. São Paulo, 18 jan. 2010. (Arquivo IFTE).