Na origem de grandes conversões

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Não raras vezes, percorrendo as páginas da hagiografia e da História da Igreja, encontramos o bom exemplo na raiz das mais estupendas conversões. Nesses casos, o fulgor das virtudes de algum grande Santo serve a Deus como instrumento para ferir com seu dardo de amor a alma daqueles que deseja atrair inteiramente para Si.

A vida de Santo Ambrósio está coalhada de fatos magníficos, porém a “mais preciosa pedra de sua coroa de glória é a conversão de Santo Agostinho”. Repleto da sabedoria do mundo, mas longe da de Deus, Agostinho errava pelas vias do pecado e da heresia, tendo aderido à doutrina dos maniqueus. Conhecia alguns pontos da doutrina católica, mas não se deixava comover.

Mudando de Roma para Milão, ali encontrou o Bispo Ambrósio. “Tu me conduzias a ele sem eu o saber, para eu ser por ele conduzido conscientemente a Ti”,1 escreveu mais tarde em suas Confissões. As palavras de Ambrósio prendiam a atenção de Agostinho, mas seu conteúdo não o preocupava. Com o tempo, ele foi abrindo o coração aos ensinamentos do Bispo, até decidir procurar argumentos que demonstrassem a falsidade do maniqueísmo: “A fé católica não me parecia vencida, mas para mim ainda não se afigurava vencedora”.2

Entretanto, o que de fato o levou a aderir à verdadeira Religião foi o exemplo do santo Bispo de Milão: “Gostava não só de ouvir seus sermões, mas também de passar horas inteiras em seu gabinete, em silêncio, vendo esse homem de Deus trabalhar ou estudar”.3 Finalmente, declara Santo Agostinho: “Desde então comecei a preferir a doutrina católica”.4 Afirma o Papa Bento XVI: “Da vida e do exemplo do Bispo Ambrósio, Agostinho aprendeu a crer e a pregar”.5

Algo semelhante ocorreu na conversão de São Justino. Depois de percorrer em vão as escolas filosóficas mais em voga no seu tempo, em busca de conhecer a Deus, ele encontrou a verdade ao contemplar a serenidade e destemor dos mártires avançando rumo ao suplício. Este espetáculo fê-lo reconhecer a autenticidade e superioridade da Religião cristã.6 Eis o testemunho do próprio Santo: “Pelas obras e pela fortaleza que os acompanham, podem todos compreender que este – Jesus Cristo – é a Nova Lei e a Nova Aliança”.7

1 SANTO AGOSTINHO. Confissões. L.V, c.13, n.23.

2 Idem, c.14, n.24.

3 BECCARI, Luiz Francisco. Destemido defensor da Igreja. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. Ano III. N.36 (Dez., 2004); p.36.

4 SANTO AGOSTINHO, op. cit., L.VI, c.5, n.7.

5 BENTO XVI. Audiência geral, 24/10/2007.

6 Cf. RUÍZ BUENO, Daniel (Ed.). Actas de los mártires. 5.ed. Madrid: BAC, 2003, p.303.

7 SÃO JUSTINO. Diálogo com Trifón, XI, apud RUÍZ BUENO, op. cit., p.303.

Texto extraído da Revista Arautos do Evangelho dez 2015

O que é a oração?

Ir Lays Gonçalves de Sousa, EP

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Para muitos, a oração é meramente a recitação de palavras decoradas ou lidas. Entretanto, ela possui um sentido mais profundo e sobrenatural: é “o diálogo do homem com Deus”1, a “elevação da mente a Deus”2.

A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem interrupção.3

O homem pode converter um simples trabalho em oração, pois qualquer ato de virtude, quando realizado por um motivo sobrenatural, é considerado como tal.4

Não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas […] é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas nossas obras, temperadas com o sal do amor de Deus, tornar-se-ão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível. 5

“Vinde a Mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo de vossos pecados, e Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Bem sabe o Divino Mestre quais são nossos combates neste vale de lágrimas e o quanto o jugo de nossas debilidades nos fatiga e deprime. Deseja Ele que, por meio da oração, depositemos nossa confiança no seu poderoso auxílio para, assim, esmagar nossas fraquezas e edificar um templo espiritual agradável aos seus olhos.

É próprio à natureza humana alimentar-se, uma vez que, sem os nutrientes necessários, acaba por desfalecer. O mesmo ocorre com a alma, a qual, para subsistir, precisa de um alimento espiritual que a robusteça e anime. Esse nutriente divino é a oração conforme atesta Santo Agostinho: “A oração é ainda o alimento da alma, porque assim como o corpo não se pode sustentar sem alimento; sem a oração não se pode conservar a vida da alma. Como o corpo, pela comida, assim a alma do homem é conservada pela oração”.6

O que há de mais elevado no homem não é o corpo, mas a alma, visto que o corpo definha e se corrompe, e a alma, no entanto, é imortal. Hélas! Como somos zelosos em sustentar o corpo e relaxados no dever de vivificar a alma!

Se soubéssemos tomar a oração como remédio para nossa fraqueza, muito mais faríamos para a glória de Deus.

A oração é, portanto, a força dos fracos e socorro daqueles que caem no abismo do pecado, vencedora dos incrédulos, fortaleza dos Santos, verdadeiro vigor da alma. O mais forte dos guerreiros, ornado da mais preciosa armadura, será considerado como incapacitado para a guerra se não souber dobrar os joelhos e com humildade recorrer Àquele de quem procede toda vitória. Esse é o tesouro que nos “concede todas as graças pedidas, vence todas as forças do inimigo; […] transforma os cegos em iluminados, os fracos em fortes, os pecadores em santos”.7

Logo, quem não recorrerá a tão valioso dom? “Que há no mundo mais excelente que a oração? Que coisa mais útil e proveitosa? Que coisa mais doce e mais suave? Que coisa mais alta e mais sublime em toda nossa religião cristã?”8

1 SÃO JOÃO CLÍMACO. In: LOARTE, José Antonio. El tesoro de los Padres: Selección de textos de los Santos Padres para el tercer milenio. Madrid: Rialp, 1998, p. 345. (Tradução da autora).
2 SÃO JOÃO DAMASCENO, apud ROYO MARÍN, Antonio. La oración del cristiano. Madrid: BAC, 1975, p. 4. (Tradução da autora).
3 PSEUDO-CRISÓSTOMO. A oração é a luz da alma. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das horas. São Paulo: Vozes; Paulinas; Paulus; Ave Maria; 2000, v. II, p. 58.
4 Cf. ROYO MARÍN. Op. cit. p. 4.
5 PSEUDO-CRISÓSTOMO. Op. cit. 58.
6 SANTO AGOSTINHO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 22.
7 SÃO LOURENÇO JUSTINIANO, apud SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A Oração. Trad. Henrique Barros. 24. ed. São Paulo: Santuário, 2012, p. 47.
8 SANTO AGOSTINHO, apud RODRIGUES, Afonso. Exercícios de perfeição e virtudes cristãs. Trad. Pedro de Santa Clara. 4. ed. Lisboa: União Gráfica, 1947, p. 8. v. II.

O verdadeiro amor

Ir. Rita de Kássia Carvalho Defanti da Silva, EP

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Sabe-se que todas as coisas tendem a um lugar, tanto pela lei da gravidade quanto pelo que é próprio a cada coisa. Ora, a palavra gravidade deriva de gravis que, em latim, significa pesado. Assim, o corpo tem seu peso e este não só retém como também dá o lugar de cada coisa. O fogo, por exemplo, ao ser ateado sobe, enquanto que uma pedra, ainda que atirada para o alto, cai. E a alma? Segundo Santo Agostinho, também ela tem um peso que a move e a impulsiona: o amor. “Pondus meum, amor meus — meu peso é meu amor; o que amo é o peso que inclina meu coração”.[1]

O que é o amor? São Tomás de Aquino define o amor como “o princípio do movimento do apetite racional, do querer livremente o fim amado, que é o bem.”[2] Ele é ativo e, de certa forma, impelido pela vontade, ou seja, uma reta vontade gera um bom amor; uma vontade degenerada, um mau amor. Santo Agostinho diferencia o amor de duas formas: quando se ama os homens e as coisas criadas em função de Deus, é caridade; voltar-se para si, amar o mundo e o que é do mundo, é concupiscência.[3] O amor é verdadeiro quando é fundamentado em Deus e deve ser direcionado e ordenado a Deus. Em função d’Ele, deve-se amar os homens e as coisas criadas por Ele, A esse respeito, comenta Monsenhor João: “existem dois amores: um é o amor verdadeiro; é o amor de Deus. Outro é o amor egoísta, romântico, sentimental; é o amor por interesse”.[4] O primeiro traz satisfação, gozo, alegria e paz. O outro proporciona angústia, frustração e lágrimas. Não existe um amor intermediário.

Santo Agostinho é categórico em afirmar: “Que se diz de vós? Para nada amar? Nunca! Imóveis, mortos, abomináveis, miseráveis, eis o que seríeis se não amásseis nada. Amai, mas prestai atenção ao que deve ser amado”.[5]

As ações do amor, em nós, podem ser classificadas em espirituais, racionais e sensuais. Entretanto, ao espargir sua força nestas três operações, torna-se mais extenso, porém, menos intenso, pois assemelha-se ao fogo. Imaginemos um canhão. Não é verdade que a chama, forçada a sair por uma única abertura, sai com um ímpeto muito maior do que se nele houvesse duas ou três brechas? Assim é o amor. A sua força encontra-se nas operações intelectuais, por ser a parte mais elevada da alma e na qual se constitui a essência do amor.[7]Quem deseja ter um amor não só nobre e generoso, mas também forte, vigoroso e ativo, deve procurar direcioná-lo e retê-lo às ações espirituais, para que não aconteça que, dispersando-se, enfraqueça.

O amor intelectual e cordial — diz São Francisco de Sales — que “deve dominar em nossa alma, recusa toda sorte de uniões sensuais e contenta-se com a simples benevolência”.[8] E continua: “quanto mais a causa do amor é elevada e espiritual, tanto mais as suas ações são vivas, subsistentes e permanentes, e não se poderia melhor aniquilar o amor, do que rebaixando-o às uniões vis e terrestres”.[9]

A causa de nossa união afetiva com Deus

“Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5). À primeira vista, este preceito pareceria uma exigência do Criador para que as criaturas O amassem. Entretanto, se na vida comum somos inclinados a querer aqueles que de alguma maneira nos fazem um bem, qual não deveria ser nosso sentimento em relação Àquele que nos tirou do nada, deu-nos a vida e nos mantém no ser? E mais, vela por cada um, seja um insignificante inseto, sejam gigantescos animais ou monstros marinhos, “nem um só deles passa despercebido diante de Deus” (Lc 12, 6). Se tal é o cuidado de Deus pelos animais, qual não será o desvelo pela criatura que Ele designou para ser rei do universo, fazendo-a “à sua imagem e semelhança?” (Gn 1, 26). “Até os cabelos de vossa cabeça estão contados. Não temais” (Mt 10, 31). Como pode o homem responder a esse amor de predileção?

Assegura São Bernardo: “De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e por sua vez, dar-lhe outro tanto”.[10] Deus nos escolheu entre infinitas criaturas, “pois ama tudo que existe e não odiou nada do que fez, porquanto, se houvesse odiado, não o teria criado” (Sb 11, 24). Deus não ama as coisas por serem boas; antes, ao amá-las, infunde-lhes o bem. Das criaturas racionais — Anjos e homens — espera receber o amor e para isso foram criadas: para amar e servir a Deus neste mundo e depois gozar de sua presença na eternidade. Diz o Eclesiastes: “Ama com todas as tuas forças aquele que te criou” (Eclo 7, 32). E o Apóstolo amado: “Amamos, porque Deus nos amou primeiro” (I Jo 4,19). Acrescenta ainda Monsenhor João:

Sim, nossa caridade não é mais do que uma restituição pelos favores sem conta que, de sua bondade, recebemos. Como Criador Ele nos deu o ser, nos mantém e nos manterá para sempre; como Redentor, nos salvou, encarnando-Se e sofrendo os tormentos da Paixão; como Pai, quis introduzir em nós a vida divina, “para que sejamos chamados filhos de Deus (I Jo 3,1)”. Ele é nossa bem-aventurança! É, portanto, na adesão total a Ele, pela prática deste mandamento — e não nos gostos terrenos e fragmentários — que encontraremos a plena felicidade.[11]

[1] AGOSTINHO. Santo. Confissões. Livro XIII, 9, 10
[2] OMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. I-II. q. 26. a. 1.
[3] AGOSTINHO. Santo. Comentários aos Salmos. 2ª ed. Trad. Monjas Beneditinas. São Paulo: Paulus, 2005. v. I. 31 II, 5. p. 354.
[4] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia. Mairiporã, 2006. (Arquivo IFTE).
[5] AGOSTINHO. Loc. Cit
[7] SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. 2ª ed. Trad. Pe Augusto Durão Alves. Porto: Apostolado da imprensa, 1950, p. 48.
[8] SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 50.
[9] SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 51.
[10] SÃO BERNARDO. Dos sermões sobre o Cântico dos Cânticos. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das horas. Petrópolis: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria. Vol. II, p, 1210.
[11] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. As duas asas da santidade. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV, Lumen Sapientiae, 2014, v. IV, p. 471.

“Como o cervo busca a fonte das águas…”

Irmã Mary Teresa MacIsaac, EP

A misericórdia de Jesus é infinita e eterna. Seu Coração anseia que acorramos a Ele para perdoar nossas faltas, em uma medida proporcional à sua própria incomensurabilidade.

Com seu característico murmurejar, as águas de um rio desfilam em elegante correnteza, ora cobrindo as grandes pedras que encontram pelo caminho, ora acompanhando com docilidade as sinuosidades do percurso. Por vezes rápidas e borbulhantes, morosas em outras ocasiões, elas avançam infatigáveis em direção ao seu fim último: o mar.

Dir-se-ia emanar a vida deste ser inanimado em constante movimento. Às suas margens vicejam delicada vegetação e frondosas árvores. Peixes de vários tipos pululam no seu leito, enquanto aves e quadrúpedes, das mais diversas espécies, se aproximam para se beneficiar de suas águas, tanto mais cristalinas quanto mais próximas da nascente.

Tímido e desconfiado, oculto entre as plantas, podemos ver um cervo. Diferente de outros animais, não se satisfaz com as águas barrentas de rios que já passaram por vales e montes. Ele corre atrás daquelas mais puras e límpidas: uma fonte que brota do solo e esguicha sua massa líquida sobre pedras lisas, um gélido regato nascido há pouco tempo da neve derretida, ou então uma linda cortina de prata escorrendo pela encosta de uma montanha rochosa.

Quem, como o cervo, não deseja encontrar uma fonte de água refrescante e transparente? Ela devolverá o alento ao viajante fatigado, alívio ao sedento e prazer a todos os que com ela se deparem, porque a água é sempre benfazeja.

Ora, tudo isso pode ser elevado à esfera espiritual, pois, acaso não é Jesus a fonte inexaurível de água viva, para a qual corre o cervo do salmista? “Quemadmodum desiderat cervus ad fontes aquarum, ita desiderat anima mea ad te, Deus — Assim como o cervo busca a fonte das águas, minha alma suspira por Vós, ó meu Deus” (Sl 41, 2).

Os olhos interiores, diz Santo Agostinho, são capazes de ver esta fonte, e uma sede interior arde em nós, no desejo dela. Então aconselha: “Corre para a fonte, deseja a fonte. Mas não corras de qualquer modo, como qualquer animal. Corre como o cervo. Que significa ‘corre como o cervo’? Que não seja lenta a corrida; corre veloz, deseja logo a fonte”. 1

A misericórdia de Jesus é infinita e eterna, pois anseia que a Ele acorramos para perdoar nossas faltas, em uma medida proporcional à sua própria incomensurabilidade, e nos saciar com a água viva da graça, a respeito da qual disse no Evangelho: “o que beber da água que Eu lhe der jamais terá sede” (Jo 4, 14).

Certo poeta comparou nossas vidas com “os rios que desembocam no mar, que é o morrer”. 2 Quanto mais sejam elas alimentadas pela torrente impetuosa da graça divina tanto mais serão capazes de vencer os obstáculos que bloqueiam seu curso rumo à Jerusalém Celeste. A água viva de Cristo purifica as águas mais lodacentas, revigora os cursos estancados na lama, endereça os meandros da tibieza, desgasta e remove as mais duras e traiçoeiras pedras. Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente o manancial da graça que vivifica os filhos de Deus, é a correnteza do amor infinito que veio ao mundo, para que todos “tenham vida e para que a tenham em abundância” (Jo 10, 10).

1 SANTO AGOSTINHO. Enarratio in Psalmum XLI, n.2. In: Obras. Madrid: BAC, 1965, v.XX, p.6.
2 MANRIQUE, Jorge. Coplas por la muerte de mi padre, n.3. In: Obra Completa. 13.ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1979, p.116.

Revista Arautos do Evangelho · Junho 2014

A raiz de todos os males (cont)

Ir Ariane da Silva Santos, EP

No post anterior, foi analisada a figura de Lúcifer e seus sequazes que por um ato de insubmissão foram expulsos do Céu, agora consideraremos o homem.

“Sereis como deuses…”

Deus criou Adão em estado de justiça original e o introduziu no Paraíso. Enquanto permaneceu inocente, o homem viveu feliz naquele lugar de delícias, em companhia de Eva, tendo, entretanto, de obedecer à ordem que o Senhor lhes havia dado: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).

Se nossos primeiros pais tivessem sido fiéis a este preceito, Deus os confirmaria na graça e todos os seus descendentes nasceriam também em estado de justiça. Depois de concluir o curso de sua existência no Paraíso, entrariam na felicidade perfeita, na bem-aventurança eterna. Ademais, tinham eles outras prerrogativas:

Não havia para o homem a possibilidade de morte, nem de enfermidade. Devido à sujeição das forças inferiores à razão, reinava nele uma completa tranquilidade de espírito, porque a razão humana não era perturbada por nenhuma paixão desordenada. Pelo fato de sua vontade estar submissa a Deus, ele dirigia tudo para Deus, como seu fim último, e nisso consistiam sua justiça e sua inocência. 1

Contudo, Eva deixou-se enganar pelas palavras da serpente: “Oh, não! Vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal!” (Gn 3, 4-5). Como a soberba já ofuscava o espírito de Eva, ela tomou o fruto, comeu-o e ofereceu-o ao seu marido, que também o comeu. “A sedução da mulher, embora precedesse o pecado de ação, foi, entretanto, subsequente a um pecado de orgulho interior”,2 ensina São Tomás de Aquino. E nesse mesmo sentido, afirma Santo Agostinho: “Não se deve imaginar que o tentador teria conseguido vencer o homem se no espírito dele não tivesse surgido antes um sentimento de orgulho, o qual ele deveria reprimir”.3

Ainda a respeito do pecado original, o Aquinate explica:

A primeira desordem do apetite humano consistiu em desejar, de forma desordenada, algum bem espiritual. Mas não o teria desejado desordenadamente se o tivesse feito na medida estabelecida pela lei divina. Logo, o primeiro pecado foi o desejo de um bem espiritual, fora da medida conveniente. E isso é próprio da soberba. Por conseguinte, o primeiro pecado do primeiro homem foi manifestadamente a soberba. 4

“A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda” (Pr 16, 18), ressalta o livro dos Provérbios. E foi o que sucedeu ao homem: perdeu todos os dons da graça que de Deus havia recebido, e foi expulso do Paraíso para este vale de lágrimas.

Podemos, assim, constatar uma estreita semelhança entre o pecado dos anjos e o dos homens:

Bem se pode afirmar que o pecado de nossos primeiros pais foi diabólico, pois, na sua essência, foi idêntico ao dos anjos maus. E isso pode ser dito também do vício de orgulho pelo qual somos levados a amar-nos mais a nós mesmos do que a Deus.5

Como castigo, toda a humanidade nasce com a mancha original e sofre suas mazelas, tendo de comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 19).

Foi desse modo que o homem iniciou sua luta sobre a terra, tendo de enfrentar não só as adversidades da vida, mas, sobretudo, os vícios da alma. Nesta batalha, os verdadeiros heróis são aqueles que vencem seu próprio orgulho. Ao longo da História, muitos saem vitoriosos, pois sabem confiar em Deus mais do que em si mesmos. Muitos outros, entretanto, são derrotados e, em consequência, sofrem terríveis desastres.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Compendium theologiae. L.I, C. 186.
2 Id. Suma Teológica. I, q. 94, a. 4, ad 1.
3 SANTO AGOSTINHO. De Genesi ad litteram. L. XI, c. 5; ML 34, 432.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q. 163, a. 1.
5 SOLERA LACAYO, Rodrigo Alonso. Foram Adão e Eva enganados pela serpente? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. n. 131, Nov. 2012, p. 22.

O PRÍNCIPE DA PAZ

Ir. María Lucilia Paula Morazzani Arráiz, EP

“Darei paz à vossa terra, e vosso sono não será perturbado. Afastarei da terra os animais nocivos, e a espada não passará pela vossa terra.” (Lv 26,6).

Essa era a paz considerada como um dos maiores dons oferecidos por Deus ao povo eleito, no Antigo Testamento, e o que mais era por ele desejado. Conturbados pelos temíveis efeitos do castigo que lhes coube pelo pecado original; não só a morte, privações e enfermidades, mas também o próprio nomadismo impedia-lhes possuir uma existência serena. A intranquilidade se lhes apresentava como um terrível tormento. Faltava-lhes, portanto, esse elemento essencial constitutivo da paz, ou seja, a tranquilidade, pois, como define Santo Agostinho: “A paz é a tranquilidade da ordem” 1

Por isso ansiavam por esta paz, obra exclusivamente divina a seus olhos, que lhes seria concedida como prêmio à sua fidelidade: “Senhor, proporcionai-nos a paz! Pois vós nos tendes tratado segundo o nosso procedimento” (Is 26,12).

O ideal do varão justo, amado por Deus, era o do homem pacífico: “…aqueles que têm conselhos de paz, estarão na alegria” (cf. Pr 12,20), e este receberia como recompensa, a plenitude dessa paz: “Aqueles que confiam nele terão inteligência da verdade, e os que são fiéis ao seu amor, descansarão unidos a ele; porque a graça e a paz são para os seus escolhidos” (cf. Sb 3,9).

Ora, tendo o homem rompido com a justiça, a paz tinha desaparecido da face da terra e era preciso que alguém viesse devolvê-la para que, finalmente, se realizasse aquilo de que falara o rei profeta: “A misericórdia e a fidelidade se encontraram juntas, a justiça e a paz se oscularam” (Sl 84,11). O profeta Jeremias antevira esse Libertador esperado, portador da tão almejada paz messiânica, aplicando-lhe estas palavras: “Bem conheço os desígnios que mantenho para convosco – oráculo do Senhor -, desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro e uma esperança.” (Jr 29,11).

Seu nascimento não foi coberto de pompas e glória, mas nasceu pobre, numa gruta nos arredores de Belém.( cf Lc 2, 7) Não era – como sonhavam os judeus – a figura do Messias dominador que vinha arrebentar as pesadas cadeias do jugo romano e exterminar todos os seus inimigos ao fio da espada. Não. Foi um tenro menino que ocultou sob as debilidades da infância, o poder de um Deus. É verdadeiramente o “Príncipe da Paz”, prometido por Isaías ( cf Is 9,6), que veio trazer à terra um oceano de bem e de amor, capaz de transmitir a felicidade plena ao universo inteiro e a mil mundos, caso existissem. Os arautos de seu advento não foram outros que os anjos do céu, que transmitiram a boa nova cantando um hino de paz: “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14).

Ao longo de sua vida pública, Jesus foi todo amor e misericórdia e fazer o bem era o seu lema. Ele não veio para condenar, mas para perdoar, para aliviar nossas costas dos fardos, e trazer ao mundo uma economia da graça totalmente nova. Sobre a cidade de Jerusalém, Ele chorou soltando esta pungente lamentação: “Se tu conhecesses ainda o que te pode trazer a paz” (Lc 19,42). Chamou bem-aventurados os pacíficos ( Mt 5,9) e ordenou a seus discípulos: “Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa!”(Jo, 10,5), para publicar a anistia e a remissão geral de todos os pecados.

Após a última ceia, antes de partir para o Pai, quando se preparava para derramar todo o seu Sangue como preço de nossa Redenção, deixou aos seus um precioso legado que os sustentaria em meio às tribulações que se aproximavam: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!” (Jo 14,27).

A tranquilidade e o equilíbrio, que foram arrebatados ao homem depois do pecado, foram-lhe restituídos com aquela saudação: “A paz seja convosco” (Jo 20,19) empregada por Cristo, vitorioso sobre a morte, ao aparecer milagrosamente no meio de seus discípulos.

Assim, a paz entre Deus e os homens foi maravilhosamente estabelecida pela morte e ressurreição do próprio filho de Deus, o Verbo Eterno feito carne, que se submeteu, obediente ao que o Pai, em sua justiça, ordenou. Mais tarde, São Paulo tornou pública essa pacificação dizendo: “Justificados, pois, pela fé temos a paz com Deus, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 5,1).

Entretanto, percorrendo com os olhos o mundo de nossos dias, encontramo-lo no extremo oposto da paz. No interior dos corações penetrou o tédio, a apreensão, a angústia e a frustração, por não falar do verme roedor do orgulho e da sensualidade. A instituição da família tornou-se uma peça de museu. As nações se digladiam umas com as outras, sem levar em conta o direito alheio. Em síntese, não há paz individual, nem familiar, nem mundial.

Mais uma vez na história, o povo anda na escuridão e jaz nas trevas mais pavorosas. A humanidade parece andar às apalpadelas e torna-se premente a necessidade de uma luz que a ilumine e guie, qual nova estrela de Belém.

Por esta razão, nossos corações se voltam à Rainha da Paz a fim de suplicar sua poderosa intercessão para que o Divino Espírito Santo, repetindo o milagre de Pentecostes, volte a atear em todos os corações o fogo da caridade. Que Ele faça novamente florescer a virtude na terra, para que os homens procurem a Deus de toda a alma, orientem seus passos nas pegadas d’Aquele que se apresentou como sendo “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6) e tomem como fonte de conhecimento e modelo a ser imitado Àquele que disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29) Teremos assim, uma sociedade impregnada de santidade, reflexo da sublimidade de Deus. Uma sociedade onde a força e a comiseração, a majestade e a bondade, a seriedade e a suavidade andarão juntas e se oscularão. Quanta doçura! Quanta ordem! Que paz!

Realizar-se-á afinal aquela profecia de Isaías: “Ah! Se tivesses sido atento às minhas ordens! Teu bem-estar assemelhar-se-ia a um rio, e tua felicidade às ondas do mar; tua posteridade seria como a areia, e teus descendentes, como os grãos de areia; nada poderia apagar nem abolir teu nome de diante de mim.” (Is 48,18-19). E no mundo reinará, como nunca antes, a paz de Cristo no Reino de Cristo.

1SANTO AGOSTINHO. Cidade de Deus.Trad. Oscar Paes Leme. 9ª ed. Editora São Francisco. Bragança Paulista, 2006. Parte II, p.403

“Eis que estou à porta e bato”

Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Nossa morada interior é guardada pela mais robusta e impenetrável das portas. Esta, porém, tem a peculiaridade de não possuir fechadura pelo lado de fora.

Na época em que a sociedade não estava tão mecanizada e as pessoas levavam uma vida muito menos agitada do que a nossa, a chegada de visitantes a uma residência era um acontecimento. Dotadas de paredes grossas, as casas daqueles tempos fechavam-se com pesadas portas guarnecidas de travas robustas. E, ornando seu lado exterior, contavam elas com um peculiar acessório que anunciava a chegada dos forasteiros: as aldravas.

Belas peças decorativas, podiam ter a forma de um dragão ameaçador ou reproduzir, com delicado realismo, belos florões ou conchas. Grandes ou pequenas, refletiam de algum modo o bom gosto, as posses e a têmpera do proprietário. No entanto, seu som era sempre forte e categórico, como prenunciando a importância do que ia suceder: alguém se dispunha a transpor os umbrais daquele lar para ser recebido como amigo e participar do convívio familiar.

Franquear ou não a entrada de um hóspede dependia da vontade do senhor da casa. Com seu assentimento, os ferrolhos eram movidos e as portas se abriam de par em par, em sinal de hospitalidade. Às vezes, até se entregava para o visitante uma chave que lhe permitia entrar por si só. Não obstante, o dono da residência podia também manter bloqueada a entrada, negando acolhida ao visitante.

Ora, não são apenas os edifícios que possuem entradas que se abrem ou fecham. Nossa morada interior é guardada pela mais robusta e impenetrável das portas: aquela que protege o nosso coração. Esta, todavia, tem a peculiaridade de não possuir fechadura pelo lado de fora, mas apenas uma aldrava. Não há chave que permita abri-la. Para cruzá-la é preciso que nós — os “donos da casa” — autorizemos a passagem.

E quantas vezes por ela quer entrar o mais nobre dos hóspedes, desejoso de estar em nossa companhia! “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, Eu com ele e ele comigo” (Ap 3, 20), diz a Sagrada Escritura.

Com efeito, Jesus bate em inúmeras ocasiões à nossa porta: quando admiramos um belo pôr do Sol, ao recebermos um bom conselho, ao lermos uma palavra edificante, quando nos aproximamos dos Sacramentos ou estamos junto ao Sacrário, no silêncio da oração ou até mesmo quando nos visita a dor e o sofrimento. Nesses momentos está Ele ao nosso lado, querendo entrar em nosso íntimo. “Sua visita é assídua ao homem interior. Palavras mansas, agradável consolo, grande paz, maravilhosa intimidade”.1

Contudo, não raras vezes ficamos surdos a seu toque… As correrias do dia a dia, as preocupações com as coisas materiais, o egoísmo e nosso imediatismo não nos deixam ouvir a chegada de tão sublime hóspede, fazendo-nos esquecer dos autênticos valores desta vida — os tesouros que acumulamos para a eternidade — e de que já nesta Terra podemos, de alguma forma, prelibar o convívio paradisíaco para o qual Ele nos convida.

E se acontecer que, depois de tanto tocar a aldrava de nosso coração e Lhe negarmos pousada, Nosso Senhor se vá? Como nos arranjaremos? “Timeo enim Iesum transeuntem — Temo a Jesus que passa”,2 dizia Santo Agostinho…

Ele, entretanto, em sua infinita bondade nos deu uma Mãe de Misericórdia, que vem também, junto com seu Divino Filho, tocar a aldrava de nossa porta com compaixão. Mas, ao notar que esta não se abre, faz de vez em quando o papel de sacrossanta intrusa: entrando pela janela, se aproxima de nós a fim de chamar a nossa atenção e nos predispor para recebê-Lo. Feito isto, retorna para o lado de fora para, com Ele, seguir tocando.3

Peçamos a Maria Santíssima que nos ajude a abrir e manter escancarada esta porta, junto à qual Mãe e Filho tocam de forma tão comovedora, a fim de que Eles penetrem em nossa morada e nela façam a sua. E tendo sido nossos hóspedes nesta Terra, abram para nós as portas da Pátria Celestial.

1 KEMPIS, OSA, Thomas de. Imitação de Cristo. L.II, c.1, n.1.
2 SANTO AGOSTINHO. Sermo LXXXVIII, c.13, n.14. In: Obras Completas. Madrid: BAC, 1983, v.X, p.550.
3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 5 jun. 1974.

Milagres: o que são?

Ir. Maria Cecília Lins Brandão Veas, EP

“Tendo Jesus descido da montanha, uma grande multidão O seguiu. Eis que um leproso aproximou-se e prostrou-se diante d’Ele, dizendo: ‘Senhor, se queres, podes curar-me’. Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: ‘Eu quero, sê curado’. No mesmo instante, a lepra desapareceu” (Mt 8, 1-3).

Quem, ao folhear as sagradas páginas da Bíblia, deparando-se com a realidade sublime dos milagres efetuados pelo Divino Salvador, não quereria haver estado lá para, influenciado por aquela atmosfera carregada de bênçãos, ser também objeto da bondade do Homem-Deus?

Mas o que são os milagres?

“A ordem admirável do céu estrelado apregoa e canta a glória de Deus e nos manifesta a inteligência infinita do Criador. Felizes os que sabem escutá-los!”. 1 Assim como o homem utiliza-se da palavra para comunicar-se com os demais, Deus utiliza-se das criaturas para falar aos homens, fazendo destas um subsídio eficaz para atender à sede de infinito que Ele próprio imprimiu nas almas, à maneira de um instinto sobrenatural. Entretanto, é preciso estarmos atentos e sabermos escutar a voz de Deus que nos chama ao conhecimento d’Ele.

E como o homem, guiado pela razão natural, pode chegar a algum conhecimento de Deus por meio de signos e efeitos sensíveis, também “por meio de certos efeitos sobrenaturais, chamados milagres, ele será levado a um certo conhecimento sobrenatural das coisas da Fé”. 2

Assim, há uma economia de signos que nos revelam a presença de Deus entre nós. E nesta imensa constelação de manifestações divinas, o milagre não é uma manifestação de algo sem sentido ou que contrarie a natureza, mas desvela uma ação divina. 3 Na verdade, são “sinais do poder e da liberdade de Deus. Eles representam uma perfeição desejada e, em muitos casos (notadamente as curas), uma conclusão da natureza”. 4 Não que Deus resolvesse mudar a reta ordem da natureza que Ele próprio criou, uma vez que cada criatura é o que é e como deveria ser. Contudo, “o fim último e remoto do milagre não pode ser outro senão Deus mesmo. Em todas as obras exteriores que Deus realiza, é impossível ― porque seria contrário à ordem ― que Ele se proponha outro fim que não seja a sua glória, naturalmente acidental e extrínseca”. 5

Ora, não podemos imaginar que, ao realizar um milagre, Deus tivesse apenas por princípio corrigir uma lacuna na ordem dos seres criados. Seria equipará-Lo a um inábil artista, que, tendo pintado de modo imperfeito um quadro, quisesse aperfeiçoá-lo para não cair em descrédito a obra de suas mãos. Ou, ainda, como um bom compositor que quisesse constantemente mudar as melodias de acordo com o bel prazer de sua vontade. Evidentemente tais atitudes são incabíveis em Deus. 6

O milagre é o ponto onde a natureza ― por vezes imperfeita e necessitada ― encontra-se com a grandeza de uma ordem superior: a ação de Deus, que a completa e embeleza. Por este motivo, os milagres também encerram em si um fim altíssimo: a salvação eterna dos homens, pelo fato de os elevarem à consideração de seu fim sobrenatural. A Divina Providência, não contente em dar a conhecer os ensinamentos de seu amor, concede-nos ainda sinais, para que neles creiamos e A amemos ainda mais.

O pensamento antigo acerca do milagre se fundamentava em Santo Agostinho, que o definia como “todo acontecimento insólito que manifestamente ultrapassa a espera ou as capacidades daquele que o admira”. 7 E São Tomás chama milagre “o que é cheio de admiração, no sentido de que a causa fica absolutamente oculta para todos. Esta causa é Deus. Portanto, as coisas feitas por Deus fora das causas por nós conhecidas, são chamadas de milagres”. 8

1 GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Providencia y La confianza en Dios: fidelidad y abandono. 2.ed. Buenos Aires: Desclée de Browuer, 1942. p. 32. (Tradução da autora)
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO.Suma Teológica II-II, q.178, a.1.
3 Cf. LATOURELLE, René; FISICHELLA, Rino (Dir.). Diccionario de Teología Fundamental. 2.ed. Madrid: San Pablo, 1992, p. 939.
4 POULIOT, François. La doctrine du miracle chez Thomas d’Aquin. Deus in omnibus intime operatur. Paris: J. Vrin, 2005, p. 49. (Tradução da autora)
5 ODDONE, Andrea. Il sigilio divino. Milano: Vitta e pensiero, 1939, p. 13-14. (Tradução da autora)
6 Cf. Ibid. p. 14; 24.
7 SANTO AGOSTINHO. De utilitate credendi. L.I, c.16, n.34: ML 42, 90. (Tradução da autora)
8 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q.105, a.7.

Viver de amor

Raphaela Nogueira Thomás

Quando se ama, o amor como que governa a vontade, e esta se inclina ao objeto amado. Assim, toda ação do homem, indiferentemente considerada, é impulsionada pelo amor. O agir, coordenado simplesmente pelo sabor da ação, não existe. É necessário ressaltar que Santo Agostinho define que há dois amores; ou seja, ou há o amor a Deus – e às demais criaturas em função deste – ou há o amor a si, até o esquecimento de Deus. 1

Em se tratando da natureza humana, a capacidade que esta possui de amar é limitada e, pelo mesmo, estará sempre procurando o bem existente em algo, para nele repousar. Ora, não dedicando esse amor ao que realmente deveria ser o objeto dele, acaba-se por desenfrear-se nas mais absurdas e caóticas ações, procurando o que, de si, não pode trazer tranqüilidade de alma.

Há, entretanto, almas que, ricas em generosidade, entendem o fundamento do verdadeiro amor como querendo devotá-lo só e exclusivamente ao serviço de Deus, resolvendo por consagrar-se inteiramente a Ele. Um dos níveis, por assim dizer, desta consagração é o estado de virgindade, em que a alma quer de tal forma se entregar, que oferece a Deus o holocausto de seu próprio ser, nas sendas puras e intactas da via religiosa.

O Pe. Royo Marín assim correlaciona a virgindade ao amor: “Jamais alguém é casto senão por amor; e a virgindade não é aceitável nem expansiva senão ao serviço do amor”. 2

Por outro lado, o amor a Deus se concretiza no amor ao próximo e no serviço aos outros; isto é, faz com que, literalmente, vivamos por amor. É o que Santa Teresinha propriamente personificou em sua Pequena Via e, de modo particular, em um de seus poemas “Vivre d’Amour”:

Viver de amor é banir todo o temor!
Toda lembrança das faltas do passado.
De meus pecados não vejo na minha alma nenhuma marca,
Pois num instante o amor tudo apagou.
Chama divina, ó doce fornalha,
Em teu seio eu fixo minha habitação;
E em tuas labaredas canto à vontade:
Eu vivo de amor!
3

Nisso se centra retamente a virgindade e, longe de diminuir o amor aos demais, dilata-o ao infinito, com inteiro desinteresse e caridade fraterna. E da mesma forma que consideramos pura uma água saída do mais profundo das entranhas da Terra, também é puro o amor que, saído do mais profundo do coração humano, se eleva a Deus e de lá, em veio límpido e cristalino, desce, como do alto de uma montanha, sobre todas as criaturas.

1SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. A cidade de Deus, L. XIV, c.28 1998, p.298
2ROYO MARÍN, Antonio. La vida Religiosa. 2.ed. Madrid: BAC, 1965.
3TERESA DE LISIEUX apud PLINIO CORREA DE OLIVEIRA Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.111. jun. 2007.

Ricos e pobres

19 Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho fino e todos os dias se banqueteava esplendidamente. 20 Havia também um mendigo, chamado Lázaro, que, coberto de chagas, estava deitado à sua porta, 21 desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, e até os cães vinham lamber-lhe as chagas. 22 Sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico, e foi sepultado. 23 Quando estava nos tormentos do inferno[…] (Lc 16, 19-23)

Qual será o ensinamento que podemos tirar dessa parábola? Talvez que os ricos, aqueles que possuem muitos bens são todos condenados e os pobres de bens materiais são sempre bem-aventurados. Vejamos o que nos ensina Santo Agostinho:

Meus irmãos, quando digo que Deus não inclina os seus ouvidos para o rico, não deduzais que Ele não atende os que possuem ouro e prata, criados e patrimônios. Se eles nasceram nessas condições e ocupam esse lugar na sociedade, que se lembrem desta palavra do apóstolo Paulo: “Recomendo aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos” (1 Tim. 6, 17).

Aqueles que não são orgulhosos, são pobres diante de Deus, o qual inclina os seus ouvidos para os pobres e os necessitados (Sl 85, 1). Com efeito, eles sabem que a sua esperança não está no ouro ou na prata, nem nas coisas das quais gozam por algum tempo. Basta que as riquezas não os levem à perdição; se elas nada podem para os salvar, que ao menos não lhes sirvam de obstáculo. Quando um homem despreza tudo quanto alimenta o seu orgulho, então é um pobre de Deus; e Deus inclina-se para ele, porque conhece o tormento do seu coração.

Sem dúvida, irmãos, o pobre Lázaro coberto de chagas, que permanecia à porta do rico, foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão; isto lemos, e nisto acreditamos. Quanto ao rico, que se vestia de púrpura e de linho fino e se banqueteava cada dia esplendidamente, foi precipitado nos tormentos do inferno. Terá sido, realmente, o mérito da sua indigência que valeu ao pobre ter sido levado pelos Anjos? E o rico terá sido entregue aos tormentos do inferno por causa da sua opulência? É preciso reconhecer que, ao pobre, foi a humildade que o dignificou e, ao rico, foi o orgulho que o condenou.

(Santo Agostinho, Narrações, Salmo 85, §3 ).

Oração: condições para ser atendido

oração ArautosIrmã Ana Rafaela Maragno,EP

O homem, em sua debilidade, não pode, sem a graça, alcançar certos favores, mas poderá obtê-los através da oração, pois “o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).

A oração deve estar presente em todos os dias da nossa peregrinação terrena; assim jamais haverá de nos faltar o necessário quando pedirmos socorro. Pode ser que a espera se prolongue, que não haja consolações interiores, ou mesmo sensação de completo abandono, na qual o Céu parece toldado por densas nuvens escuras. Sejam quais forem essas situações, estejamos certos de que nunca devemos desanimar nem desistir. Do mesmo modo como não nos esquecemos de tomar alimento, para manter o vigor e a saúde do corpo, assim também não devemos negligenciar a oração, para que nossa alma, faminta, não venha a desfalecer.

Não obstante, existe um problema. Sabemos, pelo Espírito Santo, o que devemos pedir. Mas, como enunciar essas súplicas e quais as condições para torná-las infalíveis diante de Deus?

As condições para ser atendido

“Se permaneceis em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito” (Jo 15, 7). Nosso Senhor promete de maneira clara, em inúmeras circunstâncias de sua vida terrena a onipotência da oração. “Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate abrir-se-á” (Mt 7, 7-8). Quem colocaria em dúvida o juramento do Divino Salvador? Quem ousaria contradizê-Lo?

Alguém poderia contestar, com argumentos pouco convincentes, mostrando que, em muitas ocasiões, essa promessa não se cumpriu e inúmeros pedidos pareceram não ter chegado nunca aos ouvidos de Deus. O Apóstolo São Tiago responde a essa objeção: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal” (Tg 4, 3).

Ora, se a prece mal feita não é atendida, quais são os requisitos necessários para a infalibilidade da oração? Quatro são, segundo São Tomás, as condições para obtermos aquilo que pedimos: “por nós mesmos, pedir coisas necessárias à salvação, devotamente e com perseverança”.1

“Por nós mesmos”

Quando alguém pede algo em favor de si próprio, já possui a disposição para receber a graça, mas, se intercede por outro, nem sempre este terá a alma aberta para acolhê-la e poderá colocar obstáculos à ação de Deus, como bem expressa Royo Marín: “Deus respeita a liberdade do homem, e não costuma conceder suas graças a quem não quer recebê-las”.2 Isto não significa que rezar pelo próximo seja ineficaz, mas, sim que não teremos certeza da utilidade da oração na vontade daquele por quem pedimos, pois, “a promessa foi feita, não para os que rezam para outros, mas para os que rezam para si mesmos: Dar-se-vos-á”.3

“Coisas necessárias à salvação”

Ao solicitar de Deus a graça da eterna salvação ou dos meios que a ela conduzem, Ele nunca deixa de atender, pois deseja-a mais do que nós mesmos e é Ele mesmo quem nos inspira os anelos de santidade. Contudo, por falta de sabedoria, nem sempre pedimos o que nos convém em ordem à felicidade eterna, donde o Criador, em sua infinita Bondade, não poderá nos conceder algo que venha a prejudicar a prática da virtude, pois, como diz Santo Agostinho “o que é útil ao doente, o médico sabe melhor do que ele.4

“Se não recebes, é porque pedes uma pedra. Porque, se é certo que és filho, não basta isso para receber, antes, a qualidade de filho é obstáculo para receber se, sendo filho, pedes o que não te convém, pelo contrário, também te garante que não podes receber quando peças o que não te convém. Não peças, pois, nada mundano; pede tudo espiritual, e infalivelmente receberás. […] Porque também vós – nos diz o Senhor –, que sois pais, esperais que vossos filhos vos peçam; e, se vos pedem algo inconveniente, lho negais; assim como, naturalmente, lhes concedeis o conveniente. […] Se com este espírito te aproximas de Deus e lhe dizes: “se não recebo, não me retiro”, indefectivelmente receberás. Isto sim, com a condição de que peças o que está bem te dê Aquele a quem o pedes e que te convenha a ti, que pedes.”5

“Devotamente e com perseverança”

Explica o “Doutor da oração”6, comentando o trecho citado de São Tomás, que na palavra “devotamente” o Doutor Angélico encerrou todas as condições que se requerem por parte do sujeito que ora; isto é, humildade, confiança e perseverança, sem deixar de rezar até o instante da partida deste mundo para encontrar o Supremo Bem, objeto dos anelos nas orações fervorosas feitas nesta Terra. Outro ponto é a insistência na oração.

Vejamos separadamente cada uma destas condições.

  • Humildade
    “Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). É próprio ao presunçoso contar consigo mesmo, depositando sua segurança nas capacidades que tem, sejam elas reais ou imaginárias, e confiando em suas próprias forças. Possui uma venda nos olhos e não quer pedir para ver a luz. O humilde, pelo contrário, reconhece que toda sua energia vem de Deus e nada pode sem Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Deus, diz a Escritura, “apaga a memória dos orgulhosos” (Eclo 10, 21), mas desdobra-se sobre os humildes, em atenções e ternuras, e sempre está pronto para derramar com abundância os tesouros de sua liberalidade.

    Uma vez curvados ante a divina majestade, com o espírito despretensioso como o publicano da parábola (Cf. Lc 18, 9-14), devemos esperar com inteira confiança as graças pedidas. Ninguém, ao pedir um favor a outrem, crê não poder recebê-lo, pois, do contrário, não se atreveria a tentar conseguir o esperado. Se assim acontece entre os homens, como duvidar de Deus?

  • Confiança
    Apraz a Deus nossa fé em sua misericórdia, porque deste modo reconhecemos sua bondade, manifestada ao criar-nos e ao conceder-nos tantos dons. Abandonando-nos completamente nas mãos do Criador podemos esperar grandes coisas, pois sua indulgência é uma fonte inesgotável e nossa confiança pode ser comparada a um vaso vazio: quanto maior for este, maior será sua capacidade de receber e, em consequência, maior o número de graças de que será cumulado.7

    Essa confiança cega em Deus deverá ser conservada mesmo nas ocasiões de aridez espiritual, nas quais não parecem ser ouvidas nossas súplicas favoravelmente. Contudo, é preciso permanecer, segundo o conselho do Apóstolo, “esperando contra toda esperança” (Rm 4, 18). Assim, a oração tornar-se-á mais agradável à Divina Providência, pois nela reconhecemos nosso nada e calcamos a inclinação de auto-suficiência, inerente à natureza humana decaída, para esperar unicamente os bens que de Deus provêm.

  • Perseverança
    Esta confiança caminha sempre intimamente unida a outro valor: a insistência na súplica. Em certos casos, Deus não atende nossa prece com a rapidez que nós desejaríamos, para provar nossa fé e esperança. Dada a inconstância consequente do pecado, Deus experimenta nossas disposições, para não sermos levados por qualquer vento dos sentimentos ou arrastados pelas ondas das paixões, mas darmos frutos na perseverança (Cf. Lc 8, 15).

    Com efeito, muitas vezes, nos momentos de fervor, estamos animados por um desejo ardente, acompanhado da vontade de rezar e da certeza da obtenção da graça solicitada; entretanto, aparentemente recusado o primeiro pedido, – porque não é o momento oportuno de Deus conceder, ou mesmo porque Ele quer coroar nossa alma com o mérito da pertinácia –perdemos o entusiasmo inicial e abandonamos logo a oração.

    Ao dirigir a palavra a uma pessoa, ninguém, após tê-la chamado uma primeira vez sem obter resposta e nem mesmo a sua atenção, desiste de falar-lhe novamente. Ao contrário, repete o apelo, até esta lhe prestar ouvido. Se assim agimos nas relações humanas, porque razão não insistir na prece feita a Deus? Ele nos acolhe antes mesmo de formularmos nossa petição, e não deixará de atender com largueza.

    “Não sabemos quantas vezes quererá Deus que repitamos nossa oração para obter o que pedimos. Em todo caso, a demora mais ou menos prolongada ordena-se a nosso maior bem: para redobrar nossa confiança n’Ele, nossa fé, nossa perseverança”.8

    É preciso bater à porta divina até ela nos ser aberta. Cabe dizer que, quanto mais a demora se prolongue, maior será o dom, quando ele vier. Deus sabe dispor a ocasião adequada para derramar seus favores. “Quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância”.9

    “Deixai que Ele vos instigue a multiplicar vossas orações, não as atendendo senão depois do centésimo pedido. Ele disse que é preciso rezar sempre, deixai-o comportar-se em relação a vós de maneira a que rezeis sempre. Crede que isso vos será vantajoso”.10

    Pedir a perseverança final

    Quando devemos rezar? Sempre. Não há época, lugar e circunstâncias nas quais possamos dispensar a oração e nos abster da prática dela. Ela nos deverá acompanhar de modo contínuo até o momento de nossa morte, para o qual devemos implorar, sobretudo, a graça da perseverança final. Quantos são os pecadores arrependidos que tornaram a pecar, por não terem sido assíduos na oração! “Quem começa a orar deixa de pecar, quem deixa de orar começa a pecar”.11Salomão pediu a sabedoria e sua súplica agradou ao Senhor (Cf. 1 Re 3, 10), mas, no fim de sua vida, desviou-se seu coração e transgrediu a Lei de Deus (Cf. 1 Re 11, 4-10), porque não havia pedido a perseverança.

    A vida do homem sobre a Terra é uma constante luta! (Cf. Jó 7, 1) E ai dos que não persistem na oração! Durante todo o tempo de nosso combate é preciso ter essa poderosa arma nas mãos. Ela nos torna robustos e alcança-nos o prêmio da vitória!

    Teremos a certeza de que “se nossa oração reúne as condições que acabamos de mostrar, obterá infalivelmente, mais cedo ou mais tarde, o que nela pedimos a Deus. De fato, na prática obtemos muitíssimas coisas de Deus sem reunir todas estas condições, por um efeito superabundante da misericórdia divina. Mas, reunindo estas condições, obteríamos sempre, infalivelmente, – pela promessa divina e fidelidade de Deus em suas palavras –, inclusive aquelas graças que, como a perseverança final, ninguém pode merecer senão somente impetrar”.12

  • 1 “Ut sciliset pro se petat, necessaria ad salutem, pie et perseveranter” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. II-II, q. 83, a.15, ad 2. Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola).
    2 “Dios respeta la libertad del hombre, y no suele conceder sus gracias a quien no quiere recibirlas” (ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. 11. ed. Madrid: BAC, 2006. p.426. Tradução da autora).
    3 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. cit. p. 57.
    4“Quid enim infirmo sit utile magis novit medicus quam aegrotus” (SANTO AGOSTINHO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. S.Th. II-II, q. 83, a.15, ad 2).
    5 “Si no recibes, es porque pides una piedra. Porque, si es cierto que eres hijo, no basta eso para recibir; más bien la cualidad de hijo es obstáculo para recibir si, siendo hijo, pides lo que no te conviene, al contrario, también te garantiza que no puedes recibir cuando pidas lo que no te conviene. No pidas, pues, nada mundano; pide todo espiritual, e infaliblemente recibirás. […] Porque también vosotros – nos viene a decir el Señor –, aunque sois padres, esperáis que os pidan vuestros hijos; y, si os piden algo inconveniente, se lo negáis; así como, naturalmente, les concedéis y procuráis lo conveniente. […] Si con este espíritu te acercas a Dios y le dices: ‘Si no recibo, no me retiro’, indefectiblemente recibirás. Eso sí, a condición que pidas lo que está bien te dé Aquel a quien se lo pides y que te convenga a ti que lo pides” (SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía 23, 4. In: Obras de San Juan Crisóstomo: Homilías sobre el Evangelio de Mateo. 2. ed. Madrid: BAC, 2007. p. 479. Tradução da autora).
    6 SANTO AFONSO DE LIGÓRIO. Op. Cit. p. 63.
    7 Ibid. p. 73.
    8 “No sabemos cuántas veces querrá Dios que repitamos nuestra oración para obtener lo que pedimos. En todo caso, la dilación más o menos prolongada se ordena a nuestro mayor bien: para redoblar nuestra confianza en El, nuestra fe, nuestra perseverancia” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. 2. ed. Madrid: Palabra, 1982. p. 115. Tradução da autora).
    9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Ressurreição de Lázaro. In: Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 39, mar. 2005. p. 9.
    10 “Laissez-le donc vous pousser à multiplier vos prières, en ne les exauçant qu’après la centième demande. Il a dit qu’il faut toujours prier, laissez-le se conduire à votre égard de manière à ce que vous priiez toujours. Cela vous sera avantageux, croyez-le” (BOUCHAGE, F. Pratique des vertus. 2. ed. Paris: Gabriel Beauchesne, 1918. Vol. III. p. 380. Tradução da autora).
    11 SANTO AGOSTINHO apud SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico popular. Trad. Artur Bivar. 6. ed. Lisboa: União, 1958. p. 291.
    12 “Si nuestra oración reúne las condiciones que acabamos de señalar, obtendrá infaliblemente, más pronto o más tarde, lo que en ella pedimos a Dios. De hecho, en la práctica obtenemos muchísimas cosas de Dios sin reunir todas estas condiciones, por un efecto sobreabundante de la misericordia divina. Pero, reuniendo esas condiciones, obtendríamos siempre, infaliblemente, – por la promesa divina y fidelidad de Dios a sus palabras – incluso aquellas gracias que, como la perseverancia final, nadie absolutamente puede merecer sino solamente impetrar” (ROYO MARÍN, Antonio. Nada te turbe, nada te espante. Op. cit. p. 115. Tradução da autora).

    A excelência da obediência na vida religiosa

    obediênciaFlávia Cristina de Oliveira

    A palavra obediência, proveniente do latim, ob audire, significa estar pronto para ouvir ou escutar. Por conseguinte, a obediência constitui um elo pelo qual o inferior une sua vontade à do superior para ouvir suas ordens de forma atenta e submissa. E conforme define São Tomás “a obediência torna a vontade do homem disposta a fazer a vontade de outro, a saber, daquele que manda”.1

    A obediência é uma virtude moral e encontra-se em total dependência com a virtude cardeal da justiça, posto que dela deriva através da observância. Esta última, com efeito, tem por objeto próprio dar a cada um o que lhe corresponde.2

    Deus constituiu o Universo de forma hierárquica, de maneira que os seres de naturezas inferiores fossem governados pelos superiores, embora pertençam a naturezas diversas; o mesmo ocorre com os seres dentro de um comum gênero: de animal para animal, de homem para homem, de anjo para anjo.

    Levando isto em consideração, conclui-se que esta obediência que o inferior deve prestar ao superior é de direito natural, pois está inteiramente de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, conforme nos propõe o Doutor Angélico:

    “Como as ações das coisas naturais procedem das forças naturais, assim também as operações humanas procedem da vontade humana. Foi conveniente que, nas coisas naturais, as superiores movessem as inferiores à sua própria ação pela excelência do poder natural que Deus lhes concedeu. Portanto, nas coisas humanas, é necessário que as superiores movam por sua vontade as inferiores por força da autoridade concedida por Deus. Ora, mover pela razão e pela vontade é mandar. Por isso, como pela ordem natural instituída por Deus, nas coisas naturais, as inferiores são necessariamente submetidas à moção das superiores, assim também nas humanas, pela ordem do direito natural e do divino, as inferiores são obrigadas a obedecer às superiores”.3

    Esta autoridade exercida por aqueles que são superiores é conferida por Deus. Pois, como afirma São Paulo, “não há autoridade que não venha de Deus” (Rm 13, 1). Por isso, toda autoridade legítima é merecedora de respeito e veneração.

    Este foi o procedimento de Deus para com os homens desde o Antigo Testamento, enviando ao povo eleito, guias, “[…] patriarcas, homens de virtude excelsa e personalidade robusta, de Fé inquebrantável como Abraão, de pertinácia infatigável como Isaac”,4 e insignes profetas, como Elias, Moisés e tantos outros.

    Isto se sublimou em alto grau no Novo Testamento. O Divino Mestre formou os seus Apóstolos nesta escola, e estes, transmitiram para toda a Igreja nascente: “Por amor ao Senhor, sede submissos a toda autoridade humana, quer ao rei, como soberano, quer aos governadores, como enviados por ele, para castigo dos malfeitores e para favorecer as pessoas honestas” (1 Pd 2, 13-14).

    A submissão

    Como vimos, a prática da obediência é necessária a todos os homens, pois ela está de acordo com a ordem posta por Deus no Universo, mas com o pecado original esta necessidade tornou-se mais viva na existência do homem. Em qualquer estado em que se encontre, ele se deparará nesta ou naquela circunstância às quais deverá obedecer. Se analisarmos a vida de um homem, veremos continuamente presente a obediência, a começar pela infância, quando terá ele de submeter-se aos pais, logo depois ao entrar para o colégio deverá obediência a seus professores; e, por fim, ao atingir a maturidade e optar por uma profissão será necessário impor-se dentro de certa disciplina a fim de alcançar determinado objetivo, ou então, se esta pessoa é chamada a uma vocação religiosa mais acentuada ainda será esta exigência, pois ela estará sujeita a um superior.

    Será um mero acaso esta prática da obediência que vem inserida em todos os campos da vida humana?

    Bem sabemos que isso não se trata de uma casualidade, mas de um meio de nos educarmos, pois uma vida de obediência bem levada põe em ordem a nossa vontade que se tornou tão corrompida pelo pecado original e, sobretudo, nos ensina qual deve ser nossa disposição de alma em face de nosso Redentor. Eis como exclama Santa Teresa: “ó virtude de obedecer que tudo podes!”,5 e São Francisco de Sales: “bem-aventurados os obedientes, porque Deus nunca permitirá que se extraviem!”.6

    O sublime estado religioso

    E se esta disposição de alma é exigida a qualquer cristão, podemos imaginar quanto mais daquele que por um desígnio especial de Deus é chamado a uma vocação religiosa, o que supõe sempre “um grande mistério de predileção para uma determinada alma […] e um abismo de amor seletivo por parte de Deus”,7 segundo as palavras do teólogo Padre Antonio Royo Marin. Devido a este extremado amor, cabe ao religioso uma única resposta que consiste numa dedicação total, sem condições.

    Este estado de perfeição centra-se fundamentalmente na virtude da religião, em levá-la até as suas últimas consequências, nesta vida. “Nela nada há – na prática nada deve haver – que não seja total e essencialmente religioso.”8 Daí deriva este termo para aqueles que ingressam por esta via de entrega a Deus. Vejamos como nos explica São Tomás:

    “O que convém em comum a muitos, atribui-se por antonomásia àquele a que convém por excelência. Assim, o nome de fortaleza vindica-o para si aquela virtude que nos faz conservar a firmeza de alma em face dos maiores perigos; […]. Ora, a religião, como estabelecemos, é uma virtude, pela qual nos dedicamos ao serviço e ao culto de Deus. Donde o se chamarem por antonomásia religiosos os que totalmente se consagram ao serviço divino, quase oferecendo-se em holocausto a Deus. Por isso diz Gregório: “Há pessoas que nada reservam para si, mas imolam os sentidos, a língua, a vida e a substância que receberam, ao Senhor onipotente”.9

    O voto

    Este oferecimento feito pelos religiosos baseia-se, sobretudo, na prática dos conselhos evangélicos, mediante os votos de pobreza, castidade e obediência (CIC 487); por meio destes, os religiosos têm a possibilidade de consagrar toda a sua vida a Deus e atingir mais facilmente a perfeição da caridade.

    Uma vez que o holocausto significa entregar a Deus todos os bens e não reservar nada para si, nestes três votos estão contidas as três espécies de bens que o homem possui, a saber: os bens materiais que são entregues a Deus pelo voto de pobreza; o bem do próprio corpo que é consagrado a Deus pelo voto de castidade e por fim os bens da alma, que são oferecidos a Deus pelo voto de obediência. Este último constitui o mais excelente, pois se trata de oferecer a Deus a própria vontade.

    Obediência religiosa excede os demais votos

    Por isso o voto de obediência torna-se o principal dentre os outros, pois ele de si já contém os demais.

    Uma razão mais nos dá o Doutor Angélico acerca da importância deste voto: afirma ser ele o mais essencial ao estado religioso, pois a obediência se refere propriamente aos atos relacionados ao fim da vida religiosa, e é justamente esta proximidade com o fim que lhe dá maior excelência. Desta forma, ninguém poderá pretender ser religioso se não tem o voto de obediência, ainda que tenha feito os votos de pobreza e castidade.10

    A respeito desta temática, Plinio Correa de Oliveira comenta:

    “Como é belo ser virgem, mais belo ainda é ser monge!” [afirma Santo Agostinho]. […] como o monge renuncia à sua própria vontade para, dentro de um convento e dentro de uma clausura, fazer a vontade de Deus, ele fica elevado a um estado que é mais belo que o próprio estado de virgindade. De maneira que alguém que tivesse a virgindade no século, mas não fosse monge, este não teria a alma tão bela quanto alguém que fosse um bom monge, embora antes tivesse tido a desgraça de perder a virgindade. Quer dizer, existe neste ato de conformidade, neste ato de obediência, por onde a gente se enclausura, por onde a gente faz inteiramente a vontade de Nossa Senhora, e vive de acordo com um regulamento que a vocação suscitou em nós, neste ato pelo qual a gente renuncia a fazer seus caprichos, a estar correndo de um lado para o outro, toma uma diretriz dentro da vida, consagra toda a sua vida a servir Nossa Senhora. Existe nisso uma beleza tal, que é mais bela do que a própria beleza da virgindade”.11

    E [São Tomas de Aquino] diz: “A virgindade prepara o homem para cogitar as coisas de Deus; a vida monacal é mais bela do que isso, por que já é a própria cogitação das coisas de Deus”.

    A renúncia da própria vontade

    Nosso Senhor Jesus Cristo declara: “ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna” (Lc 18, 29-30). Ora esta promessa de Nosso Senhor se realiza irrevogavelmente desde que haja uma sincera renúncia, conforme Ele afirma: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34). Esta disposição de alma consolida-se, sobretudo, na obediência.

    À primeira vista, esta vida de obediência pode parecer algo impossível, pois, ao orgulho e ao desejo de ser senhor de suas vontades acrescenta-se mais um fator: “o maligno, sabendo que o caminho que leva mais depressa à suma perfeição é a obediência, põe muitos dissabores e dificuldades disfarçados de bem; […] parece sobremodo difícil (…) o contentar-nos com coisas que em tudo contradizem a nossa vontade, de acordo com o nosso natural.”12

    Para certas pessoas, a própria vida de clausura é uma espécie de cárcere, onde é obrigada a cumprir uma porção de regras. Porém, a realidade é muito diferente, trata-se de um laço que nos une mais estreitamente a Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, pois nesta via de obediência “Deus fala não mais como Senhor que manda, senão um Pai que manifesta seu desejo. Esta obediência não é mais a atitude de quem serve sob a pena de não cobrar seu salário e perder seu pão, mas é a atitude do filho que extrai de seu amor as energias necessárias para fazer de boa vontade o que seu pai deseja”.13 E como nos ensina Santa Teresa:

    “O amor, contudo, tem tamanha força, se for perfeito, que desprezamos nosso próprio contentamento para contentar aquele a quem amamos. […] Por maiores que sejam os sofrimentos, logo se tornam suaves quando sabemos que, com eles, agradamos a Deus. Quem chegou a esse ponto ama desse modo as perseguições, as desonras e as ofensas. […] O que pretendo explicar é o motivo de a obediência ser o caminho ou meio mais rápido para chegar a esse estado tão prazeroso. Como de maneira alguma somos senhores da nossa vontade, para empregá-la pura e simplesmente em Deus, enquanto não a tivermos submetido à razão, a obediência é a via régia para essa sujeição”.14

    A este respeito encontramos o testemunho de grandes santos. Por exemplo, Santa Joana de Chantal exclamava: “Com vossa divina graça resolvo, Senhor, seguir em tudo vossas ordens e vossos desejos sem buscar jamais minha própria vontade”15 ; ou então, num exemplo ainda mais próximo de nós, Santa Teresinha do Menino Jesus, em uma carta que dirige à sua superiora: “Ó minha Madre, de quantas inquietações nos livramos fazendo voto de obediência! Como são felizes as simples religiosas! Já que a vontade dos superiores constitui sua única bússola, estão sempre seguras de se encontrarem no caminho reto”.16 Santa Teresinha alcançou a obediência perfeita e seguiu as vias de uma sujeição completa à vontade de Deus; sem se preocupar em fazer grandes mortificações físicas, se limitou apenas em cumprir as prescrições de sua Regra, pois tinha pela obediência um enorme apreço e chegou a escrever: “A Obediência é minha forte couraça e o escudo do meu coração”.17

    Os frutos desta perfeita renúncia

    É de muita valia ressaltar também alguns fatores que concorrem para a excelência da obediência na vida religiosa, segundo ensina Valuy.

    a)No obséquio que se faz a Deus:

    “Não se trata mais das riquezas da terra, como no voto de pobreza; nem das satisfações corporais, como a castidade; senão que consagra a Deus o que o homem tem de mais nobre, de mais precioso e de mais íntimo: sua própria liberdade”18; […] “já que é dom supremo do amor entregar não só o que se possui- coisa bem precária- mas o que se é”.19

    b)Nos traços de semelhança que nos faz ter com Nosso Senhor Jesus Cristo:

    O religioso pode afirmar com Ele, o Obediente por excelência: “não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,30). E dizer também a respeito de si: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,34); desta maneira ele se assemelha Àquele que é o modelo da mais sublime obediência.

    c)Na dignidade e perfeição que comunica à vontade:

    “A conformidade mais real, mais íntima, mais profunda, é a que existe entre duas vontades”20, assevera Tanquerey, e é propriamente esta afinidade que Deus quer estabelecer com os homens; este Seu desejo se satisfaz especialmente com aqueles que entregam a Ele sua vontade, pelo voto de obediência. E conforme atesta Santa Teresa, o nosso intelecto e a nossa vontade se enobrecem quando, esquecendo-se de si, tratam com Deus.21 Logo, “[…] pelo voto de obediência o religioso une seu entendimento e sua vontade ao entendimento e à vontade de Deus; faz-se um mesmo espírito com Deus e pode, com razão, lisonjear-se de pensar e de querer como Deus, de fazer o que Deus quer, como quer e porque quer”.22

    d)Na influência que exerce sobre todas as virtudes:

    “Se desejais enriquecer-vos pronta e facilmente de todas as demais virtudes, não abandoneis jamais o salutar exercício da obediência”23 , assegura Santa Maria Madalena de Pazzi. E continua Valuy: “Ela as planta, as rega e as faz frutificar; conserva-as, sustenta sintetiza e supre. Dá-lhes forma e mérito, valor e vida”.24

    e)No sinal de predestinação que nela se encontra:

    “Não sendo outra coisa o pecado, senão uma desobediência à lei divina, o que consagra a sua vida à obediência se coloca em certa impossibilidade de pecar; e, se o único obstáculo para a salvação está no pecado, ele toma o caminho mais seguro, curto e fácil para alcançar a salvação eterna. Que abundância de graças durante a vida, que consolos na hora da morte, que glória e que destino não concede Deus na eternidade, ao religioso que por seu amor sacrificou tudo e até a sua própria pessoa!”25

    Desta maneira, o religioso ao passar desta vida para a eternidade, poderá com toda alegria exclamar:

    “Senhor, eu também estive crucificado convosco, como Vós e por Vós. Meus pés e minhas mãos, minha língua e todos os meus sentidos, minha inteligência, minha liberdade, minha vontade, meu ser todo inteiro foi crucificado, […]. A obediência foi meus cravos e minha cruz. E agora, Senhor, posto que Vos segui até o Calvário, mandai-me entrar convosco na glória”.26

    Por fim, cabe-nos reconhecer a grandeza desta virtude, para nos empenharmos em praticá-la e nela nos refugiarmos. A obediência nos dá uma felicidade insubstituível posto que ela nos faz renunciar o que há de mais precioso para nós: a nossa própria vontade.27

    O fato de existir almas que amam e desejam praticar a virtude da obediência é uma proclamação da autêntica liberdade dos verdadeiros filhos da luz no meio das trevas desse mundo que se gloria da libertinagem das paixões e da total independência a qualquer forma de hierarquia e autoridade.

    1 “obedientiam reddit promptam hominis voluntatem ad implendam voluntatem alterius, scilicet praecipientis” (Ibid. II-II, q. 104, a 2 ad. 3).
    2 ROYO MARÍN, Antonio. La vida religiosa. 2. ed. Madrid: BAC, 1965. p. 325.
    3 “Respondeo dicendum quod sicut actiones rerum naturalium procedunt ex potentiis naturalibus, ita etiam operationes humanae procedunt ex humana voluntate. Oportuit autemin rebús naturalibus ut superiora moverent inferiora ad suas actiones, per excellentiam naturalis virtutes collatae divinitus. Unde etiam oportet in rebús humanis quod superiores moveant inferiores per suam voluntatem, ex vi auctoritatia divinitus ordinatae. Movere autem per rationem te voluntatem est praecipere. Et ideo, sicut ex ipso ordine naturali divinitus instituto inferiora in rebús naturalibus necesse habent subdi motioni superiorum, ita etiam in rebús humanis, ex ordine iuris naturalis et divini, tenentur inferiores suis superioribus obedire” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 104, a.1).
    4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Imagem Sacra pode expressar muito mais do que a palavra. Op. cit. p.10
    5 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 115.
    6 “Bienaventurados los obedientes, porque Dios nunca permitirá que se extravíen” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 153. Tradução da autora).
    7 “[…] un gran misterio de predilección hacia una determinada alma […] un abismo de amor selectivo por parte de Dios” (ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 145.Tradução da autora).
    8 “Nada hay- en la práctica nada debe haber- en ella que no sea total y esencialmente religioso” (Ibid. p. 135. Tradução da autora).
    9 “Id quod communiter multis convenit, antonomastice attribuitur ei cui per excellentiam convenit: sicut nomen fortitudinis vindicat sibi illa virtus quae circa difficillima firmitatem animi servat;[…]. Religio autem, ut supra habitum est, est quaedam virtus, per quam aliquis ad Dei servitium et cultum aliquid exhibet. Et ideo antonomastice religiosi dicuntur illi qui se totaliter mancipant divino servitio, quasi holocaustum Deo offerentes. Unde Gregorius dicti, super Ezech. (Homil. XX): Sunt quidam qui nihil sibimetipsis reservant; sed sensum, linguam, vitam atque substantiam, quam perceperunt omnipotenti Domino immolant” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 186, a.1).
    10 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.186, a. 8.
    11 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Este êremo é a obra-prima de Nossa Senhora: Palestra. São Paulo, 13 set. 1971. (Arquivo IFTE).
    12 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 616.
    13 “[…] nos fala Dios, no ya como Señor que manda, sino como Padre que manifiesta un deseo. Esta obediencia no es ya el acto del que sirve bajo pena de no cobrar su salario y perder su pan, sino el acto del hijo que saca de su amor energías para hacer lo que su padre desea de su buena voluntad” (MAUCOURANT, F. Op. cit. p. 61. Tradução da autora).
    14 SANTA TERESA DE JESUS. Fundações. Op. cit. p. .
    15 “Con vuestra divina gracia resuelvo, Señor, seguir en todo as vuestras ordenes y vuestros deseos sin buscar jamás mi proprio gusto” (MAUCOURANT, F. Op. Cit. p.56. Tradução da autora).
    16 SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Caminhando para Deus. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1997. p. 254.
    17 Ibid. p. 257.
    18 “no es ya la fortuna de la tierra, como la pobreza; ni las satisfacciones corporales, como la castidad; sino que consagra a Dios lo que tiene el hombre de más noble, de más precioso y de más intimo: su misma libertad” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op. cit. p. 333. Tradução da autora).
    19 “ya que es don supremo del amor entregar no sólo lo que se posee -cosa bien minguada-, sino lo que uno es” (VALUY, Tratado breve del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 331. Tradução da autora).
    20 TANQUEREY, Adolfe. Compêndio de Teologia ascética e mística. 6. ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1961, p. 238.
    21 SANTA TERESA DE JESUS. Castelo interior. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 449.
    22 “[…] por el voto de obediencia une el religioso su entendimiento y su voluntad al entendimiento y voluntad de Dios; se hace un mismo espíritu con Dios y puede, con razón, lisonjearse de pensar y de querer como Dios quiere, como lo quiere y porque quiere” (VALUY, Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. Op.cit. p. 334. Tradução da autora).
    23 “Si deseáis enriqueceros pronta y fácilmente de todas las virtudes, no abandonéis jamás el salutable ejercicio de la obediencia” (SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI apud MAUCOURANT, F. Op. cit. p.141. Tradução da autora).
    24 “Ella las planta, las riega y las hace fructificar; las conserva, las sostiene, las compendia y las suple; les da forma y mérito, precio y vida” (Id. Las virtudes del religioso, apud ROYO MARIN, Antonio. La vida religiosa. p. 334).
    25 “No siendo otra cosa el pecado que una desobediencia a la ley divina, el que consagra su vida a la obediencia se pone en cierta imposibilidad de pecar; y, por cuanto el único obstáculo para salvación está en el pecado, toma el más seguro, el más corto y el más fácil camino para la salvación. ¡Qué abundancia de gracias durante la vida, qué consuelos en la hora de la muerte, qué gloria y que dicha no concede Dios en eternidad al religioso que por su amor lo ha sacrificado todo, y se ha sacrificado a si mismo!” (Loc. Cit. Tradução da autora).
    26 “yo también, Señor, he estado crucificado con Vos, como Vos e por Vos. Mis pies y mis manos, mi lengua, todos mis sentidos, mi inteligencia, mi libertad, mi voluntad, mi ser todo entero ha sido crucificado, […]. La obediencia ha sido mis clavos y mi cruz. Y ahora, Señor, puesto que os he seguido al Calvario, mandadme entrar con Vos en la gloria” (Loc. Cit. Tradução da autora).
    27 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Obedecer sempre e com alegria: Homilia. São Paulo, 18 jan. 2010. (Arquivo IFTE).

    “Espírito Vivificante”: a alma do Corpo Místico

    Pomba-300x224FAHIMA AKRAM SALAH SPIELMANN

    Ao escolher a figura do corpo humano como uma imagem para seu Divino Organismo, Cristo elegeu também uma alma, que, ao contrário de outras, possui o inteiro domínio desse Corpo, além de ser seu elemento vivificador: o Espírito Santo.

    A alma humana possui como característica principal ser a forma do corpo. Entretanto, ao dizermos ser o Espírito Santo a alma do Corpo Místico, usamos por apropriação essa expressão, dado que uma Pessoa Divina não pode ser a forma de nenhuma criatura.

    Apesar do termo ser usado por apropriação, é inteiramente cabível ao Espírito Santo, uma vez que Ele habita e age a partir de dentro, como a alma. Nesse sentido, contestava o Apóstolo: “não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 3,16), “porventura não sabeis que os vossos membros são templos do Espírito Santo, que habita em vós” (1 Cor 6,19).

    Sendo a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade a Alma do Corpo Místico, afirma-se, sobretudo, que é Ela quem anima e vivifica, analogamente como a alma humana. Encontram-se inúmeros trechos que alimentam a devoção dos fiéis, contudo, limitamos a narrar uma passagem de Santo Agostinho:

    Se quereis ter o Espírito, irmãos, escutai: o espírito pelo qual vive o homem, se chama alma; nosso espírito, pelo qual vivemos cada homem se chama alma; e vede o que faz a alma com o corpo: vivifica todos os membros: com os olhos vê, com os ouvidos ouve, com as narinas olfatea, com a língua fala, com as mãos opera, com os pés anda. Está em todos os membros para que vivam; dá a vida a todos e a cada um o seu ofício […]. Os ofícios são diversos e a vida é comum. Assim sucede na Igreja: em uns santos faz milagres, a outros ensina a verdade… Cada um faz o que lhe é próprio, mas todos vivem igualmente. O que é a alma para o corpo é o Espírito Santo para Corpo de Cristo, que é a Igreja”.1

    A sensibilidade e o movimento transmitido à cabeça dimanam da alma que os distribui para o corpo de maneira desigual à semelhança do Corpo de Cristo. O Espírito Santo não opera uniformemente em todos os membros, mas com graus diferentes nos bem-aventurados, nos justos, e inclusive nos que estão em estado de pecado e os que fazem parte desse Corpo somente em potência.2 A verdade é que “o Espírito Santo está em todos os que são membros de Cristo, desde os que recebem d’Ele a bem-aventurança da glória, até os que recebem a graça mais inicial e primitiva”.3

    O Espírito Santo é um princípio vivo e vivificador. Operou na vinda de Cristo sobre a Terra, fecundando ativamente Maria, e interveio no nascimento da Igreja. O dia de Pentecostes foi o dia da proclamação oficial da sociedade estabelecida por Cristo”.4

    Prometido por Nosso Senhor antes de sua partida: “vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias” (At 1, 5), a Igreja teve seu nascimento no batismo de Pentecostes, e, portanto, é n’Ele que somos batizados e recebemos o princípio vital da vida divina que nos faz filhos de Deus.5

    De modo que dentro da diversidade dos membros se cumpre o pedido do Salvador: “que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em nós” (Jo 17, 22).

    Sabemos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo comparados entre si, são distintos embora idênticos, sendo a ação que procede o Espírito Santo, a via de amor.

    E elegendo o Espírito Santo para ser a alma da Igreja, o qual é denominado de “Amor”, podemos dizer que “Cristo deseja que a união que deve haver naqueles que formam o seu Corpo Místico seja o amor”.6 Assim a Igreja se unifica onde se unificam o Pai e o Filho, ou seja, no amor, na Terceira Pessoa.

    Se é Ele quem governa e move aos membros do Corpo Místico de Cristo, quem os unifica, quem os vivifica; e se faz tudo isso a partir de dentro, inabitando em cada membro e em todo corpo, temos que terminar dizendo que desempenha autênticas funções de alma”.7

    1“Si queréis tener el Espíritu, hermanos, escuchad: el espíritu por el que vive el hombre se llama alma; nuestro espíritu, por el que vivamos cada hombre, se llama alma; y vede qué hace el alma en el cuerpo: vivifica todos los miembros: con los ojos ve, con los oídos oye, con las narinas olfatea, con la lengua habla, con las manos opera, con los pies anda. Está en todos los miembros para que viva; da la vida a todos, y a cada uno su oficio. […] Los oficios son diversos y la vida es común. Así sucede en la Iglesia: en unos santo hace milagros, en otros enseña la verdad… Cada uno hace lo suyo propio, pero todos viven igualmente. Lo que es el alma al cuerpo del hombre es el Espíritu Santo al cuerpo de Cristo, que es la Iglesia” (SANTO AGOSTINHO, apud SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 760. Tradução da autora).
    2Convém esclarecer que a estes o Espírito Santo será a alma enquanto preparação para receber os princípios que dispõem ao sujeito para a perfeição dessa vivificação.
    3“El Espírito Santo está en todos cuantos son miembros de Cristo, desde que reciben de El la bienaventuranza de la gloria, hasta los que reciben la gracia más inicial y primitiva” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 739. Tradução da autora).
    4“El Espírito es un principio vivo y vivificador. Intervino en la aparición de Cristo sobre la tierra, fecundando activamente a María, e interviene en el nacimiento da la Iglesia. El día de Pentecostés fue el de la proclamación oficial de la sociedad establecida por Cristo, y ese día aparecen en el nacimiento oficial de esta sociedad María y el Espírito Santo, como en el nacimiento de Cristo” (Ibid. p.766. Tradução da autora).
    5Cf. Cabe relembrar o que diz São Paulo aos Romanos: “Ora, se Cristo está em vós, o corpo, em verdade, está morto pelo pecado, mas o Espírito vive pela justificação. Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós. Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Abbá! Oh Pai! O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rm 8, 10-16).
    6“Cristo desea que la unión que debe haber en quienes forman su Cuerpo Místico sea unión de amor” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 767. Tradução da autora.).
    7“Si Él es quien gobierna y mueve a los miembros del cuerpo místico de Cristo, quien los unifica, quien los vivifica; my se hace todo eso desde dentro, inhabitando en cada miembro y en todo cuerpo, hemos que terminar diciendo que desempeña autenticas funciones de alma” (Ibid. p.768. Tradução da autora).

    Beleza: o eco da voz de Deus

    Santo AgostinhoIrmã Carmela Werner Ferreira, EP

    Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei! Estavas dentro e eu fora Te procurava. Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas formosas que fizeste. Estavas comigo, contigo eu não estava. As criaturas retinham-se longe de Ti, aquelas que não existiriam se não estivessem em Ti. Chamaste e gritaste e rompeste a minha surdez. Cintilaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume, aspirei-o e anseio por Ti. Provei, tenho fome e tenho sede. Tocaste-me e abrasei-me no desejo de tua paz” (Santo Agostinho, Confissões X).

    Quis Deus, em sua sabedoria eterna, estabelecer para as criaturas racionais um estado de prova. Anjos e homens deveriam ser submetidos a uma situação por onde escolhessem a Deus por si próprios antes de O gozarem definitivamente.

    Rejeitando a supremacia do ser que os tirara do nada, eles ambicionaram o cetro do universo e atraíram sobre si o rigor da justiça divina. Assim se explica a expulsão de nossos primeiros pais do Paraíso, que de modo bem diverso ao dos anjos, ainda receberam a promessa da redenção. Era preciso que transcorressem os séculos e os milênios a fim de que os “degredados filhos de Eva” compreendessem profundamente as consequências do primeiro pecado e de seus pecados atuais para enfim restituírem ao Senhor a glória e supremacia que Lhe é devida.

    Aqui caberia uma indagação. Tendo Deus castigado a humanidade pecadora com os sofrimentos da vida presente, e condicionado sua salvação à fé que viesse a manifestar, não se esperaria d’Ele alguma manifestação que confirmasse seus servos obedientes nas vias que abraçaram?

    A resposta de Santo Agostinho, neste trecho de Confissões, é clara. Deus Se comunica com seus filhos de diversas formas, desde o Antigo Testamento, e sobretudo depois da Encarnação. Poderíamos citar as Escrituras, os profetas, os fenômenos da natureza e os prodígios sobrenaturais como manifestações antigas da presença e vontade divinas. Já no regime da graça, temos especialmente os Sacramentos, a tradição, os carismas religiosos e os Papas, que se afiguram como eficazes manifestações da ação divina no mundo e na História.

    Entretanto, para os homens de nossa sociedade pós-moderna, profundamente ateia e anticatólica, estas formas significam pouco ou quase nada. Não se interessam pelas ciências sagradas, não reconhecem a missão salvífica da Igreja e nem sequer a divindade de Cristo. Como Deus poderia se comunicar com eles?

    Da mesma forma pela qual atuou na alma do Doutor da Graça: a beleza! Através de perfeições eminentemente superiores às humanas — as sobrenaturais — porém, traduzidas em tipos humanos, em cerimônias, em formas litúrgicas e em obras de arte, a humanidade contemporânea pode ouvir os ecos da voz de Deus. Se corresponder a este chamado, ela exclamará qual o Bispo de Hipona: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei!”

    O “sensus pulchrum”: chave do relacionamento com Deus

    montefuji1-horzIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

    A emoção estética faz com que o espírito humano se abra para a transcendência. O maravilhamento ante a beleza serve, muitas vezes, como pedestal para a ação da graça, transformando repentinamente numa experiência mística sobrenatural a luz que brilha no plano natural.

    Definir o que seja a beleza é uma intricada tarefa. Afinal, como diz o adágio popular, “gosto não se discute”… E se isto sempre foi difícil, mais ainda resulta hoje, num mundo globalizado que se movimenta em torno da máxima informação no mínimo de espaço e de tempo.

    Com efeito, agitada por constantes e profundas renovações tecnológicas, nossa sociedade mundializou a cultura, mas à custa de tornar onipresente uma estética irrefletida, escrava dos impulsos e das sensações passageiras, vazia de significado, quando não extravagante.

    Corre-se o risco, afirma Bento XVI, de considerar a vida como uma mera sucessão de fatos e experiências, em detrimento da busca da verdade, do bem e da beleza, que nos proporcionam a felicidade e a alegria. Porém, os homens não podem ser vistos “como meros consumidores num mercado de possibilidades indiferenciadas, onde a escolha em si mesma se torna o bem, a novidade se contrabandeia como beleza e a experiência subjetiva suplanta a verdade”.1

    Portanto, hoje mais do que nunca é oportuno perguntar: é a beleza uma simples questão de gosto? Devemos renunciar definitivamente a dar-lhe um sentido objetivo e passar a analisá-la sob o prisma de uma psicologia individualista? Até que ponto seu conceito é influenciado pela política ou pela economia, com seus peculiares interesses de mercado? Altera-se sua essência com a voragem das modas cambiantes e contraditórias, tão própria de uma sociedade de consumo? Ou há uma maior profundidade filosófica nesta questão, que envolve a existência humana e sua finalidade, e a torna objetiva?

    Nossa sociedade parece ter relegado ao esquecimento os valores transcendentais2 — verdade, bem e beleza —, gravados por Deus no fundo da alma do homem. Ora, significa isso ter ele perdido definitivamente a disposição natural de admirar, de buscar a beleza? Cremos que não. Parece-nos, pelo contrário, que a saturação informativa e sensorial do nosso dia a dia torna a alma dos nossos contemporâneos mais sequiosa do que nunca desses valores.

    Uma intuição do belo e do bem

    Conta Mons. João Scognamiglio Clá Dias que, há alguns anos, estando em Paris, observou uma cena muito expressiva, apesar de sua aparência corriqueira: duas meninas brincavam num jardim público, correndo de um lado para outro. Era visível serem irmãs, uma maiorzinha, com seus sete anos, e outra menor, quiçá com apenas três. Em determinado momento, a menor começou a correr sobre um dos canteiros floridos, onde era proibido pisar, e sua irmã admoestou-a: “Madeleine, ce n’est pas beau!” — “Madalena, isto não é belo!”. Foi o suficiente para a pequena parar e dar meia volta, corada e desconcertada.3

    O que fez essa menina, ainda sem idade para ter o pleno uso da razão, ficar envergonhada por haver realizado um ato que não era belo? Por que sua irmã não lhe disse: “Madeleine, ce n’est pas bien!” — “Madalena, isto não está bem”? Como sabe a criança que o mal é feio e errado? Por que, já desde a aurora de sua existência nesta Terra, a criatura racional relaciona o bem com a beleza? É a criança um pequeno “filósofo”, que sabe fazer uso dos conceitos transcendentais?

    Tal exemplo demonstra possuir o homem intuições que fazem transparecer a riqueza de uma realidade talvez pouco notada. E descortina o amplo panorama da natureza humana, com suas capacidades e potências, tocando num ponto chave do existir do homem: sua transcendentalidade e seu relacionamento com as realidades metafísico-espirituais, ou seja, a abertura de sua alma para além da matéria visível.

    Os instintos espirituais

    Com efeito, existem no ser do homem — por ser este uma criatura inteligente — “instintos espirituais” que se manifestam justamente quando ele começa a ter conhecimento de que existe, pela noção de seu próprio ser e do ser de tudo aquilo com o que entra em contato.4 Esta noção, sumamente substanciosa, é como o alimento próprio de sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental. Se suas apreensões não fossem verdadeiras e reais, enlouqueceria.

    Este conhecimento começa a se pôr em evidência quando a criança abre os olhos para a luz, distinguindo seu ser do ser de sua mãe, mas dela dependente; percebendo que o chocalho é real e verdadeiro, pois escuta seu ruído; que o leite lhe satisfaz a sensação de fome, sendo por isso bom; que a luz e as cores são atraentes e belas, entretendo-a e fazendo com que ela queira conhecer e aprender mais e mais. Tem ela uma intuição de que sempre há algo mais para conhecer, para além daquela realidade que vê e apreende experimentalmente, ainda sem compreender conceitualmente qualquer expressão abstrata e formal. Em nenhuma época se aprende tanto como quando se é criança, e esta não dissocia o entreter-se do compreender. “Neste nosso mundo de seres ao qual ela acaba de aportar, o ser do homem desabrocha e exclama por consonância com a verdade, bondade e beleza dos seres que observa”.5

    Sendo prévio a qualquer raciocínio com princípios claros e estabelecidos, esse conhecimento do próprio ser e do ser inteligível e verdadeiro das coisas sensíveis é, todavia, uma apreensão intelectual ainda confusa, sem explicitações racionais, e se dá na inteligência espontânea, chamada habitualmente de senso comum. Ela admite verdades e princípios a respeito dos quais o homem não se equivoca, tais como o de identidade e seu corolário, o de contradição — cada ser é o que é e não pode ser outra coisa; o de causalidade — todo efeito supõe uma causa; ou o de finalidade — todo agente obra por fim, que é o seu próprio bem.

    Esta intuição, chamada sindérese, é um hábito da razão com o qual os homens nascem, não o adquirem pela repetição dos atos 6 ou por um dom divinamente infuso. Ela permite conhecer estes primeiros princípios, bem como perceber as propriedades transcendentais de todos os entes. Entretanto, como os demais atos intelectuais, este hábito exige o desenvolvimento da inteligência. Poderia ser chamado de protoconsciência, como um selo de lógica, verdade, bem e beleza presente na alma humana, pois impulsiona ao bem, censurando o mal, impulsionando, por conseguinte, à verdade e à beleza, e admoestando seus contrários ou opostos.

    O papel dos sentidos na percepção da beleza

    São Tomás admite o argumento aristotélico de que nada existe no intelecto sem antes haver passado pelos sentidos, considerando-o apenas na ordem da natureza e não da graça, pois esta última não está subjugada às leis naturais. Deste modo, afirma ele que, sendo o homem composto de matéria e espírito, “todo conhecimento tem sua origem nos sentidos”7, pois os dados da experiência sensível tornam-se inteligíveis pela ação do intelecto, que os abstrai e eleva à condição de realidades imateriais e espirituais.

    Dentre os sentidos externos, há dois que são superiores, a visão e a audição. Segundo o Angélico, é verdade que se diz sons e imagens belas, mas não perfumes, sabores ou texturas belas8. Esses dois sentidos são, portanto, os que abrem para a razão a via de acesso ao belo, que nele se deleita, pois o belo, na concepção tomista é “id quod visum placet — aquilo que, visto, agrada”9.

    Não obstante, a beleza não se restringe à percepção sensorial, sendo percebida pelo homem, também, em todas as suas dimensões espirituais, uma vez que esta percepção é intrínseca a seu próprio ser. Os sentidos externos são instrumentos para a percepção sensível, porém, é o intelecto que, por assim dizer, “lê” o belo das coisas, em razão de sua verdade e bem.

    Aparece claramente, então, a transcendentalidade da beleza, que tem algo em comum com a verdade e a bondade, pois manifesta a relação da coisa bela com o espírito, despertando um prazer espiritual, ainda que seja na contemplação da beleza sensível, pois só é possível captar a beleza, enquanto tal, espiritualmente. Por este motivo, não é raro, diante de algo muito belo, uma pessoa ficar sem ter o que dizer. Ela compreende e capta a mensagem, nem tendo necessidade do conceito estético. E é pela mesma razão que, em sentido oposto, a pequena Madeleine identificou uma ação de si mesma má e errada, por romper com as regras estabelecidas, como feia.

    O “sensus pulchrum”

    É por isso que há no ser humano uma espécie de atração, um magnetismo pela beleza, já manifesto na mais tenra infância, pelo qual a criança busca as coisas bonitas nos seus primeiros contatos com estas. É clássico o exemplo das bolinhas de cores diferentes que são apresentadas a um bebê para com elas brincar. Ele vai escolher primeiro a de cor mais viva e atraente. Só depois se interessará pelas outras. Assim, vemos que esta espécie de instinto do belo é o ponto de partida para encontrar, de modo quase subconsciente, a verdade e o bem.

    Isso porque a beleza não é senão o esplendor de todos os transcendentais reunidos. Ou, como afirma Vilela, é “o ‘splendor veri’ dos platônicos, o ‘splendor ordinis’ de Santo Agostinho; e mais: é dizer que ela é ‘splendor boni’ e ‘splendor perfectionis’. […] É o resplendor do ser, do ser que é um, através de sua perfeição, de sua verdade e de sua bondade resplandecentes, enquanto apreendido esse resplendor, pela inteligência, e enquanto essa apreensão é fonte de alegria para a vontade. E para o homem todo, já que no homem as coisas entram no espírito pelos sentidos. Daí ser a beleza tão envolvente!”10.

    Von Balthasar corrobora inteiramente tal pensamento: “Nossa palavra inicial se chama beleza. A beleza, última palavra à qual pode chegar o intelecto reflexivo, já que é a auréola de resplendor indelével que rodeia a estrela da verdade e do bem e sua indissociável união”11.

    Mons. João faz uma interessante analogia a tal respeito: assim como as plantas possuem o instinto da procura do sol — o heliotropismo —, a criança tem “um agudo senso do maravilhoso que a atrai ao belo, devido ao qual ela olha com indiferença aquilo que não satisfaça seu desejo neste sentido. Essa espécie de ‘kaloi-tropismo’ [atração pelo belo] indica que, ao lado dos diversos transcendentais, o pulchrum tem um papel absolutamente insubstituível para a conservação e o aperfeiçoamento do primeiro olhar sobre o ser”12.

    A essa espécie de instinto espiritual da beleza chamamos de “sensus pulchrum”.

    A percepção do belo como via para o relacionamento com Deus

    É possível deduzir, por todo o exposto, que a beleza é conatural ao homem, assim como ele é conatural ao bem, sua finalidade última. É por esse instinto da alma — o sensus pulchrum — que ele percebe o perfeito, o proporcionado e o luminoso. E no conhecimento de todas as coisas, encontra como que “degraus” que o elevam mais nessa “escada” da busca do bem e da beleza — e também da verdade — compreendendo que deve haver um arquétipo de tudo: a Verdade, o Bem e a Beleza em substância. A cada passo, seu espírito se deleita e se aquieta na contemplação, pois, afirma São Tomás, “pertence à essência do belo que, com sua vista ou conhecimento, se aquiete o apetite”13.

    Contudo, tal apetite nunca se sente plenamente satisfeito nesta Terra. Provido de inteligência e vontade, o homem tem necessidade de conhecer e amar com sede de infinito, pois, dentro do limite da matéria, seu espírito busca o ilimitado. O limite repugna ao homem; à natureza humana apetece a plenitude.

    Plinio Corrêa de Oliveira recorre a uma metáfora muito interessante para explicar este fenômeno, utilizando-se da imagem do monte Fuji, no Japão, o qual se eleva de forma imponente numa paisagem encantadora. No entanto, por ser de origem vulcânica, à sua forma cônica, regular e perfeita, falta o vértice. Vendo essa imagem de cone truncado, tem-se a tendência de logo imaginar o pico que o completaria. Ele fazia a analogia desta tendência com a busca da perfeição no homem: está sempre à procura dos “cones do Fujiyama”, não só de si mesmo, mas também de todas as coisas, algo que os aperfeiçoe e assemelhe à Perfeição Absoluta, que é Deus, dando-lhe a clave da impostação de sua alma nesta vida terrena.14

    Muitas vezes, entretanto, preso às realidades concretas e temporais, busca o homem nas criaturas esse vértice que lhe falta, sem êxito, encontrando apenas a frustração, pois as coisas deste mundo tão somente fazem parte de um conjunto cuja cúspide se encontra no Céu, onde está Quem lhe poderá saciar a sede de infinito. Tal é a admoestação que faz o livro da Sabedoria: “Se tomaram essas coisas por deuses, encantados por sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez estas coisas. Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte; pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor” (Sb 13, 3-5).

    basilica-sao-pedro1-horzPortanto, a percepção da beleza, o encanto e o maravilhamento com algo belo levam a perceber a Deus, que não é senão o Autor de toda a beleza, sendo Ele próprio a Beleza em si mesma. Dessa maneira, na contemplação das belezas da grandeza do mar ou do silêncio das montanhas, do céu estrelado, de uma paisagem deserta ou de uma fonte, dá-se um conhecimento experimental, movendo os sentidos externos e internos, num autêntico processo estético e místico: “Não custa trabalho ver em tudo isso a caligrafia do Criador”15.

    Santo Agostinho, o grande cantor da beleza, também afirma falarem as coisas criadas, em si mesmas, de Deus: a beleza das coisas as transcende e revela o Criador, pois, se são belas as coisas que fez, quanto mais belo será quem as fez16. E esta é uma das principais inquietudes dos homens: pela “obra de arte” conhecer o “Artista”. De grau em grau, pela admiração e maravilhamento, a razão vai galgando a montanha do concreto em direção a seu “cone”, o imponderável, seguindo as pegadas desse Artista, para tentar penetrar em seus mistérios e com Ele relacionar-se.

    Maravilhar-se: um ato de religião

    Desse modo, podemos afirmar com Soto Posada que o “gozo estético não é meramente sensível ou inteligível, mas tem um plano moral e religioso”17. O agrado — o placet que São Tomás afirma provocar no ser do homem o conhecimento da beleza — se dá porque “como todo ser participa do ser de Deus, gozar de sua beleza é gozar de Deus: a experiência estética se faz fruição teológica e mística”18. A experiência estética, a admiração, o assombro diante da beleza que placet torna-se, então, uma ponte para a espiritualidade, pois a sede de infinito do homem só será saciada no encontro com Deus. Maravilhar-se é, pois, um ato de religião. Nas imortais e belas palavras de Santo Agostinho: “Tu nos fizeste para Ti, Senhor, e irrequieto está nosso coração enquanto em Ti não repousar”19.

    Esta concepção se fez sentir de modo especial nas artes medievais, que eram feitas de maneira a maravilhar o homem e ajudá-lo a entrar em contato com Deus. Umberto Eco, analisando a arte e a estética na Idade Média — na qual foram desenvolvidos os problemas estéticos a partir da Antiguidade Clássica, sob um prisma cristão —, é da opinião de que esse significado novo dado ao tema do belo só se tornou possível porque esta concepção de beleza cristã foi introduzida no sentimento do homem, do mundo e da divindade. O filósofo medieval não falava de todos esses conceitos de modo abstrato, mas o remetia a coisas concretas e seu campo de interesse estético era muito mais amplo que o dos dias atuais, porque estava estimulado pela consciência da beleza como dado metafísico. O homem moderno superestima as artes plásticas, porque perdeu esse sentido de beleza inteligível. Para os medievais, a beleza inteligível constituía uma realidade moral e psicológica, e a cultura da época ficaria insuficientemente iluminada se não tomasse em conta este fator.20

    A consequência de tal mentalidade medieval foi que se degustava o belo com a finalidade de amar a Deus, por isso havia uma inclinação — secundária, no sentido de que era em função desse amor —, um “amor ornamenti, às igrejas suntuosas, ao belo canto e à bela música”21 , sem desprezar a beleza moral, também “sensível”, presente nos ascetas e místicos.

    O flash: clave para alcançar a santidade

    Não cabe dúvida, então, de que a emoção estética, a admiração — o sensus pulchrum em ação — abre o espírito humano para a luz da transcendência. Por isso, muitas vezes, esse maravilhamento pode ser uma espécie de pedestal para a ação de uma graça, uma luz que brilha repentinamente, e a alma sai do plano natural para ter uma experiência mística sobrenatural.

    É ainda Plinio Corrêa de Oliveira quem definia essa contemplação ou experiência mística como sendo um flash, uma graça que parte do Espírito Santo, iluminando a alma, como um maravilhamento, à semelhança da emoção estética22. O motivo da escolha da palavra flash, segundo ele, é porque “assim como na hora de tirar uma fotografia é produzida pela máquina uma luz intensa e rápida, cujo repentino clarão permite fixar a imagem e sem o qual ela não se fixaria, assim também essa graça atua à maneira de um flash, emitindo uma luz intensa. Essa luz faz a ‘objetiva’ de nossa alma ver e gravar aspectos que normalmente não veria ou não gravaria. Essa figura, tirada de um aspecto técnico da vida contemporânea, ilustra didaticamente este fenômeno sobrenatural”23.

    Pode-se dizer, analogamente, que a percepção estética também seria como um flash que ilumina a sensibilidade e a inteligência, maravilhando, agradando — “id quod visum placet” — e aquietando o apetite instintivo do ser humano. O sensus pulchrum, sendo o motor deste assombro, do maravilhamento, do flash, torna-se a chave para abrir as portas do ser do homem para seu encontro e relacionamento com Deus, a quem o homem busca por instinto espiritual e conaturalidade, uma vez que busca a Verdade, o Bem e a Beleza na plenitude, encontrando a santidade.

    A beleza salvará o mundo?

    Tem a beleza, portanto, a capacidade de abrir a mente e o coração do homem para o encontro com Deus, sua salvação, a quem procura quiçá sem saber. A partir da experiência do encontro com o belo, por meio desse assombro, desse maravilhamento, desse flash, abre-se para a humanidade uma Via Pulchritudinis, a qual “não se pode reduzir a um confronto filosófico. Porém, a observação do metafísico ajuda a compreender por que a beleza é uma via real para conduzir a Deus”24. É uma forma superior de conhecimento, que “desperta o homem para a real estatura da verdade”, a verdade bela, “a verdade que redime”, que em Cristo iluminou “o mundo de beleza criado pela fé”, e na face dos santos “sua própria luz se torna visível”25, pois a famosa beleza que salva, de Dostoievski, não é outra senão a beleza redentora do Salvador.

    Apesar dessa linguagem atualmente apresentar um esteticismo globalizado e afastado da verdadeira ideia de beleza — como vimos no início destas linhas —, o sensus pulchrum continua latente nos corações dos homens e é através dele que se abre a possibilidade de seu resgate e de sua salvação, para por meio dele encontrar-se com Deus.

    Com palavras cheias de esperança, assegura Mons. João: “O homem de hoje não perdeu a capacidade de admirar, por mais que a sociedade lhe faça muitos outros convites. É preciso proporcionar-lhe ocasiões para, maravilhando-se, discernir nas coisas aquilo que elas têm de belo, de bom e de verdadeiro, ou sua ausência, e com isto poder voltar-se para o essencial: Deus”26.

    Fica, portanto, aqui um convite aos nossos leitores: que eles possam ser testemunhos vivos de toda a explanação doutrinária aqui desenvolvida, e não façam calar seu sensus pulchrum, maravilhando-se e abrindo-se para esta transcendência e para o flash — pois só a espiritualidade da beleza, chamada kalós pelos gregos, pode fazer o homem reencontrar-se com a presença da Beleza Divina —, tornando-se teokalófaros, na feliz expressão de Arboleda Mora. Diz este que quem porta algo é porque possui esse algo. Assim, “alguns dos primeiros monges da Igreja antiga eram conhecidos pela santidade de sua vida e por isso o povo os denominava teóforos — portadores de Deus. Quem expressa através de sua vida a beleza de Deus, bem pode ser chamado teokalóforo — portador da beleza de Deus”27. Quem encontra e ama, possui o que ama, e deve ser, portanto, portador do que possui.

    É neste sentido que podemos definitivamente terminar com Dostoievski, com toda propriedade: “a beleza salvará o mundo”! Pois, se “a alma maravilhável é uma alma maravilhosa, capaz de fazer maravilhas”28, com almas maravilháveis e maravilhosas, que se relacionam e se unem a Deus, reconhecendo a maravilha da criação e da redenção, maravilhas podem ser feitas neste mundo e a face da Terra pode ser renovada.

    1BENTO XVI. Welcoming Celebration by the Young People Address of His Holiness Benedict XVI. Barangaroo, Sydney Harbour, 17/07/2008.
    2Todo ente possui algumas qualidades inerentes ao seu próprio ser, que são suas propriedades intrínsecas, as quais vão além, transcendem a ordem categorial. E, como tais, acrescentam algo ao conhecimento do ente, estando sempre presentes nele e intimamente ligadas entre si. São chamadas, por isso, de transcendentais e costuma-se reduzi-las a quatro: unum, verum, bonum, pulchrum — a unidade, a verdade, o bem e a beleza. Sobre este tema, ver FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás: Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. 2.ed. Pamplona: Fundación Gratis Date, 2005, p.66-74.
    3Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. La “primera mirada” del conocimiento y la educación: un estudio de casos. Tese de Mestrado em Psicologia. Bogotá: Universidade Católica de Colômbia (UCC). Faculdade de Psicologia, 2009, p.112.
    4Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q.5, a.2.
    5CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. O primeiro olhar da inteligência. In: Lumen Veritatis. São Paulo. Ano III. N.12 (Jul.- Set., 2010); p.14.
    6Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., I, q.79, a.12.
    7Idem, I, q.1, a.9.
    8Cf. Idem, I-II, q.27, a.1, ad.3.
    9Idem, I, q.5, a.4, ad.1.
    10VILELA. Orlando O. Alma criadora de símbolos. 2.ed. Belo Horizonte: Diálogo, 1954, p.100-101.
    11VON BALTHASAR, Hans Urs. Gloria: Una estética teológica. La percepción de la forma. Madrid: Encuentro, 1985, p.22.
    12CLÁ DIAS, La “primera mirada” del conocimiento y la educación: un estudio de casos, op. cit., p.110.
    13SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., I-II, q.27, a.1, ad.3.
    14Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Contemplar o “cone do Fujiyama” — ver as coisas na sua ordem ideal paradisíaca: Palestra. São Paulo: 10 nov. 1989.
    15VON BALTHASAR, Hans Urs. El problema de Dios en el hombre actual. 2.ed. Madrid: Castilla, 1966, p.139.
    16Cf. SANTO AGOSTINHO. Sermo CXLI, c.2, n.2: ML 38, 776; Enarratio in Psalmo CXLVIII, n.15: ML 36, 1947.
    17SOTO POSADA, Gonzalo. La estética medieval. In: Cuestiones Teológicas y Filosóficas. Medellín. UPB. N.43-44 (1989); p.171.
    18SOTO POSADA, Gonzalo. El arte y el artista en la Baja Edad Media. In: Cuestiones Teológicas. Medellín. UPB. v.XXXV, N.83 (Jan.-Jun., 2008); p.136.
    19SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.I, c.1, n.1: ML 32, 661.
    20Cf. ECO, Umberto. Arte y belleza en la estética medieval. 2.ed. Barcelona: Lumen, 1999, p.13-14.
    21Idem, p.15.
    22Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A fidelidade ao alcandorado: Palestra. São Paulo, 16 jun. 1978.
    23CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O “flash”, o que é?: Conferência. São Paulo: 15 maio 1973.
    24PONTIFÍCIO CONSELHO DA CULTURA. Concluding Document of the Plenary Assembly – 27-28 March 2006 – The Via pulchritudinis. Beauty as a Way for Evangelisation and Dialogue. 2, 2.2. In: Culture e Fede. Civitas Vaticana: Pontificium Consilium de Cultura, 2006, v.XIV/2, p.121.
    25RATZINGER, Joseph. A beleza e a verdade de Cristo. In: Communio. Revista Internacional de Teologia e Cultura. v.XXVII, N.4 (Out.-Dez., 2008); p.920; 924.
    26CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Beleza e Nova Evangelização. In: Lumen Veritatis. São Paulo. Ano IV. N.14 (Jan.-Mar., 2011); p.25.
    27ARBOLEDA MORA, Carlos Ángel. Um carisma encantador. Os Arautos do Evangelho como teokalófaros. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.99 (Mar., 2010); p.36.
    28CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A admiração é a nossa estrela de Belém: Palestra. São Paulo, 13 maio 1988.

    Liberdade ou escravidão?

    juizo fra_angelico1Madre Mariana Morazzani Arráiz, EP

    Aquele que quer ser livre eximindo-se da servidão legítima de Deus, transforma-se num escravo e, pelo contrário, aquele que se faz escravo da vontade de Deus progride infinitamente na liberdade.

    “No principio Deus criou o homem, e o entregou ao seu próprio juízo” (Eclo 15,14). A liberdade é um dom conferido por Deus exclusivamente aos seres racionais – anjos e homens.

    “A liberdade da pessoa, de fato, tem o seu fundamento na sua dignidade transcendente: uma dignidade que lhe foi doada por Deus, seu Criador, e que a orienta para o mesmo Deus. O homem, porque criado à imagem de Deus (cf. Gen. 1,27), é inseparável da liberdade, daquela liberdade que nenhuma força ou constrangimento exterior jamais poderá tirar-lhe e que constitui seu direito fundamental, quer como indivíduo, quer como membro da sociedade. O homem é livre porque possui a faculdade de se determinar em função da verdade e do bem. O homem é livre porque possui a faculdade de escolher « movido e determinado por uma convicção pessoal interior, e não simplesmente por efeito de impulsos instintivos cegos ou por mera coacção externa » (Const. past. Gaudium et Spes, n. 17). Ser livre é poder e querer escolher, é viver segundo a própria consciência”1.

    A liberdade é, portanto, um atributo da vontade humana, em virtude dela, pode-se executar uma coisa ou não, ou ainda pode-se escolher entre duas coisas opostas (libertas arbitrii, liberdade de escolher ou potestas ad opposita ou poder dos contrários)2. É ainda a faculdade de escolher os meios dentro da ordem (facultas electiva mediorum servato ordine finis)3.

    Assim, sendo a vontade uma faculdade que deve querer o que o entendimento lhe propõe como reto e conforme à ordem do ser, a liberdade não só não desaparece por seguir os ditames da razão, senão que encontra nesta a sua perfeição4. O conhecimento intelectual precede à vontade e ilumina o caminho, à maneira de uma tocha nas mãos de um viajante ou um farol a guiar a rota de um navio.

    Entretanto, ela não pode estar sujeita às paixões. Quanto mais seja a vontade independente do impulso das paixões, mais livre ela será. Quanto maiores sejam as influências alheias a ela, tanto maior desgaste sofrerá a liberdade. A dignidade do homem exige que ele proceda segundo sua livre e consciente escolha, isto é, movido e induzido pessoalmente por dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa(D 4317) .

    Se as paixões humanas, desregradas por influência exterior, como, por exemplo, o consumo de drogas, a sujeição a práticas de hipnotismo, o emprego de narco-análises, etc., chegassem a obnubilar o entendimento ou a anular a vontade, esta deixaria de ser livre.

    A falsa liberdade, ostentada por aqueles que se julgam livres, quando se negam a obedecer a lei de Deus, torna-os semelhantes aos seres brutos (animais) que obedecem somente aos próprios instintos e sob o impulso exclusivo da natureza procuram o que lhes convém e fogem daquilo que lhes é prejudicial. Eles não possuem leis que reprimam seus apetites, pois são inaptos para conhecê-las. Por isso, são incapazes de praticar a verdadeira liberdade 5.

    TERTULIANO comenta com toda propriedade a esse respeito: “Deus deu a lei ao homem não para privá-lo de sua liberdade, mas pelo contrário, para manifestar-lhe o seu apreço”6. Portanto, a razão pede a lei. Precisamente por ser livre, o homem deve estar submetido à lei.

    Convém ressaltar que, em relação a Deus, a liberdade pede o reconhecimento voluntário da dependência devida ao Criador. Assim no-lo explica a Carta Encíclica Libertas Praestantissimum, de LEÃO XIII:

    A natureza da liberdade humana, […] inclui a necessidade de obedecer a uma razão suprema e eterna, que não é outra do que a autoridade de Deus impondo seus mandamentos e preceitos. E este justíssimo domínio de Deus sobre os homens está longe de suprimir ou sequer enfraquecer a liberdade humana, mas faz precisamente todo o contrário: a defende e a aperfeiçoa; porque a perfeição verdadeira de todo ser criado consiste em tender a seu próprio fim e alcançá-lo. Ora, o fim supremo ao qual deve aspirar a liberdade humana não é outro que o próprio Deus. 7

    O contrário não é liberdade, mas libertinagem. Segundo um pensamento de SANTO AGOSTINHO, o primeiro libertino da história da humanidade foi o próprio Adão que se perdeu ao confundir liberdade com independência de Deus8. É cabível, então ponderar, ter sido Lúcifer o máximo libertino dos seres espirituais, quando ao proferir o brado de non serviam, “Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembleia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo” (Is 14, 13-14), julgou estar reafirmando sua liberdade, mas, no entanto, permanece eternamente como o maior escravo e derrotado da história.

    O Cardeal JOSEPH RATZINGER, atual Papa BENTO XVI, assim se referiu ao problema da liberdade: “[…] A ideia de que ao rejeitar o que é mau fica tolhida minha liberdade, constitui uma perversão da liberdade. Em efeito, a liberdade só encontra seu espaço criativo no âmbito do bem”9

    Deus criou o homem perfeitamente livre, e o pecado não é senão um defeito da verdadeira liberdade. O ponto vulnerável da natureza humana é esta liberdade imperfeita e caprichosa, e enquanto o homem permanece neste mundo tem o triste privilégio de poder desviar-se rumo ao pecado. Segundo TANQUEREY: “A criatura […] pode, efetivamente, desviar os olhos do bem verdadeiro para os voltar para o bem aparente, apegar-se a este último e preferi-lo ao primeiro; e é precisamente esta preferência que constitui o pecado”10

    Em consequência, pode-se afirmar que o verdadeiro uso da liberdade não inclui a faculdade de pecar. “A escolha da desobediência e do mal é um abuso da liberdade e conduz à «escravidão do pecado» (Rm 6,17)” (CIC 1733) . Assim, a possibilidade de se afastar do bem não participa da essência da liberdade. Se tal fosse, teríamos que cair na aberração de afirmar que Deus, Jesus Cristo, os anjos, os santos do céu, que carecem dessa possibilidade, não são livres ou pelo menos o são menos perfeitamente do que o homem em estado de prova.

    Deus é libérrimo, entretanto impecável porque não pode operar nada contrário a sua própria natureza. Afirma ROYO MARIN:

    É um grande erro, com efeito, acreditar que a faculdade ou poder de pecar pertença à essência da liberdade. Pelo contrario, essa defectibilidade da liberdade humana que lhe põe nas mãos o triste privilégio de poder pecar, é um grande defeito e imperfeição da mesma liberdade, que unicamente afeta às criaturas defectíveis (que podem falhar), não a Deus nem a Jesus Cristo homem que são intrínsecamente impecáveis por sua própria natureza divina 11.

    A esse respeito são luminosos os ensinamentos de SÃO TOMÁS, em seus comentários ao Evangelho de São João, contidos na Carta Encíclica Libertas Praestantissimum:

    Todo ser é o que lhe compete ser por sua própria natureza. Em consequência, quando é estimulado por um agente exterior, não opera por sua própria natureza, mas por um impulso alheio, o qual é próprio de um escravo. Ora, o homem, por sua própria natureza, é um ser racional. Portanto, quando opera segundo a razão, age em virtude de um impulso próprio e de acordo com a sua natureza: nisso consiste precisamente a liberdade. Mas quando peca, age à margem da razão, atua como se fosse impelido por um outro e estivesse submetido ao domínio de outrem; por isto, quem comete o pecado, é servo do pecado 12.

    E completa SANTO AGOSTINHO:

    É esta a nossa liberdade: submetermo-nos a essa Verdade; [tal liberdade] é o nosso mesmo Deus, que nos livra da morte, ou seja da condenação do pecado. Com efeito, essa mesma Verdade, [que é] também um homem a falar com os homens, diz aos que acreditam: se permanecerdes na minha palavra sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,31). Efectivamente, de nada a alma disfrui com liberdade, a não ser o que disfrui com segurança.13

    À luz desses princípios fica evidente que deixar-se levar pelas paixões não significa exercer a própria liberdade, senão operar com uma liberdade defectiva e até mesmo inclusive cair na escravidão.

    Conclui-se que, se a liberdade é a faculdade de eleger, quanto mais numerosos sejam os obstáculos vencidos por ela, mais fica demonstrada a sua força. Deixar-se arrastar pela correnteza é fácil e, pelo contrário, a liberdade, operando segundo a razão contra as inclinações viciosas, manifesta toda sua plenitude e vigor.

    Em sentido oposto, as paixões desregradas obnubilam o entendimento e debilitam a vontade. Quem terá suficiente má fé para afirmar que nisto consiste a liberdade?

    Finalmente, aquele que se deixa levar pelas más paixões passa facilmente do ato ao costume, e portanto ao vício; do vício à abulia (inércia da vontade); da abulia ao envilecimento. Ora, isto não é escravidão?

    1Beato João Paulo II, Mensagem para o XIV Dia Mundial da Paz , 1/1/1981 {HYPERLINK “http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html”}
    2JOLIVET, Régis. Traité de Philosophie II. 5. ed. Paris: Emmanuel Vitte, 1955. p.606.
    3 HERRERA ORIA, Angel . La palavra de Cristo. 1953, VIII, p.760.
    4Ibid.p.607
    5 Cf. LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, nº3. http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l- xiii_enc_20061888_libertas_sp.html . Acessado em 22, Novembro, 2007.
    6Apud: HERRERA ORIA. vol III, p. 680. – Dios dió la ley al hombre no para privarle de su libertad, sino para manifestarle su aprecio.
    7La naturaleza de la libertad humana, (…) incluye la necesidad de obedecer a una razón suprema y eterna, que no es otra que la autoridad de Dios imponiendo sus mandamientos y prohibiciones. Y este justísimo dominio de Dios sobre los hombres está tan lejos de suprimir o debilitar siquiera la libertad humana, que lo que hace es precisamente todo lo contrario: defenderla y perfeccionarla; porque la perfección verdadera de todo ser creado consiste en tender a su propio fin y alcanzarlo. Ahora bien: el fin supremo al que debe aspirar la libertad humana no es otro que el mismo Dios.(LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, Op. cit. nº 4. Tradução do autor)
    8Apud HERRERA ORIA, vol III, p. 680.
    9BENTO XVI.HYPERLINK “http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html” (2005, p. 89).
    10TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Lisboa: Editorial Áster, 1961. p.35.
    11Es un gran error, en efecto, creer que la facultad o poder de pecar pertenezca a la esencia de la libertad. Al contrario, esa defectibilidad de la libertad humana que le pone en las manos el triste privilegio de poder pecar, es un gran defecto e imperfección de la misma libertad, que únicamente afecta a las criaturas defectibles (que pueden fallar), no a Dios ni a Jesucristo hombre que son intrínsecamente impecables por su misma naturaleza divina.( ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: B.A.C 1961, p.167, tradução do autor)
    12Todo ser es lo que le conviene ser por su propia naturaleza. Por consiguiente, cuando es movido por un agente exterior, no obra por su propia naturaleza, sino por un impulso ajeno, lo cual es propio de un esclavo. Ahora bien: el hombre, por su propia naturaleza, es un ser racional. Por tanto, cuando obra según la razón, actúa en virtud de un impulso propio y de acuerdo con su naturaleza, en lo cual consiste precisamente la libertad; pero cuando peca, obra al margen de la razón, y actúa entonces lo mismo que si fuese movido por otro y estuviese sometido al dominio ajeno; y por esto, el que comete el pecado es siervo del pecado.(LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, Op. cit. Tradução do autor)
    13 AGOSTINHO. Trad. Antônio Soares Pinheiro. O livre arbítrio. 3. ed. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia da UCP, 1988. p. 134.

    Toma e lê

    agostinho-267x300Thaynara Ramos Siedlarczyk

    Ao percorrermos a história dos santos, encontramos algumas almas “a quem o Senhor acariciou desde o berço até a sepultura, retirando de seu caminho todos os obstáculos que as impedisse de se elevar até Ele sem manchar suas vestes batismais”1, e outras maculadas, que ao receber favores tão extraordinários de Deus se convertem e trilham a via da penitência, tornando-se modelos de santidade.

    Entre essas almas encontramos o grande Santo Agostinho.

    Chamava-se Aurélio Agostinho e viveu maior parte de sua vida em Tagaste, no norte da África. Herdou de sua mãe toda ternura e inclinação para a contemplação, mas, infelizmente, não deixou de possuir o temperamento forte de seu pai Patrício, entregando-se a uma vida pecaminosa.

    Ainda jovem, ambicionando uma grande carreira, dirigiu-se a Cartago para estudar em famosas academias. Aos vinte anos interessou-se pelo maniqueísmo e adotou essa forma de pensamento para justificar sua vida moral cômoda e relativista. Nesse período, teve um filho chamado Adeodato.

    Frustrado pelas desilusões, e apesar de estar “envolvido na escuridão da carne”2, Agostinho sentiu-se impelido pela busca da verdade. E para atender essa aspiração, abandonou o maniqueísmo e aderiu ao neoplatonismo que, longe de possuir o que ele tanto buscava, consistia numa nova interpretação da doutrina de Platão, sob um prisma religioso.

    Entretanto, sua virtuosa mãe, Santa Mônica, rezava e pedia a Deus pela conversão de seu filho. Tal era a sua preocupação pela salvação eterna dele, que aflita procurou um bispo, a fim de que este intercedesse pela conversão de Agostinho. Após inúmeras insistências, o bispo lhe diz: “Vá tranquila, pois é impossível que pereça um filho tão chorado”.

    Ao inteirar-se da intenção de Agostinho de viajar para Roma, Santa Mônica correu ao porto a fim de acompanhá-lo. Porém, seu filho a enganou e partiu escondido naquela mesma noite.

    Contudo, a Providência não o abandonou e, em Milão, ele conheceu o bispo Ambrósio. Devido à sua retórica, Agostinho passou a ir às missas celebradas por ele a fim de ouvir suas pregações que tanto o deliciavam. Sua admiração pelo prelado era tal, que Agostinho permanecia horas no seu gabinete, observando-o a preparar seus sermões. Assim, aos poucos, o exemplo e os ensinamentos de Santo Ambrósio foram penetrando em sua alma, transformando-o.

    Enquanto isso, Santa Mônica não cessava de rezar e chorar pela alma de seu filho, pedindo a Deus pela sua conversão e foi reconfortada por um sonho:

    Viu-se num bosque, chorando pela perda espiritual de seu filho, quando se aproximou dela um personagem luminoso e resplandescente, que lhe disse: “ Teu filho voltará para ti”.Este sonho,reforçando em seu espírito as confortadoras palavras do bispo, deu-lhe grande ânimo na luta sem tréguas pela conversão do filho”.

    Desejosa de encontrar seu filho, partiu para Roma. Quando lá chegou, soube que Agostinho abandonara a filosofia dos maniqueus. Confiante, Santa Mônica pressentiu que sua total conversão estava próxima.

    Entretanto, “ o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 14,38). Agostinho não tinha forças suficientes para abandonar os vícios aos quais se entregara e não cessava de exclamar: “E tu Senhor, até quando? Até quando continuarás irritado? Não te lembres de nossas culpas passadas! Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora à minha indignidade?3

    Assim, ainda indeciso sobre qual rumo tomar em sua vida, se deveria ou não se entregar totalmente à fé cristã, a Providência interveio, enviando-lhe as graças necessárias para dar os passos em vista a sua completa conversão. Estando no jardim de sua casa, de repente, ouviu cânticos de criança que diziam: “toma e lê, toma e lê”. Julgando ser um sinal divino, pegou o livro das Epístolas de São Paulo e abriu-o e leu: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne” (Rm 13, 13). Não foi necessário continuar a ler… Neste momento sentiu uma luz penetrar em todas as trevas e dúvidas do seu coração.

    Convertido e exultante, foi anunciar à sua mãe o fato ocorrido, deixando-a radiante de alegria como menciona em seu livro “Confissões” (VIII-12):

    Ela rejubila. Contamos-lhe como o caso se passou. Exulta e triunfa, bendizendo-Vos, senhor, ‘ que sois poderoso para fazer todas as coisas mais superabundantemente do que pedimos ou entendemos’. Bendizia-Vos porque via que, em mim, lhe tínheis concedido muito mais do que ela costumava pedir, com tristes e lastimosos gemidos”.

    Agostinho fez um retiro e foi batizado por Santo Ambrósio. Em um arroubo de fervor, “segundo a tradição, terminada a cerimônia do Batismo, Santo Ambrósio exclamou: ‘Te Deum laudamus!’ e Santo Agostinho acrescentou: ‘Te Dominum confitemur!’; e assim, alternando suas frases um e outro, entre os dois improvisaram naquela ocasião os conceitos e palavras que compõem o cântico litúrgico do ‘Te Deum’”4.

    Logo após ser batizado, Agostinho decidiu voltar a Tagaste com sua mãe. Ao chegar em Óstia, devido ao mau tempo, não puderam embarcar logo. Neste dia, entraram em êxtase durante um colóquio sobrenatural e, no fim deste, Mônica revelou a Agostinho que não mais possuía desejo de viver.

    “Meu filho, nada mais me atrai nesta vida; não sei o que estou fazendo ainda aqui, nem porque ainda estou aqui. Já se acabou toda esperança terrena. Por um só motivo desejava prolongar minha vida nesta terra: ver-te católico antes de eu morrer5.

    Poucos dias após esse episódio, Santa Mônica adoeceu gravemente e faleceu antes de regressar a Tagaste.
    Santo Agostinho, determinado a levar uma vida cristã, voltou à sua terra natal onde fez penitência e pôs-se a escrever livros e transmitir seus conhecimentos a outros. Sua reputação espalhou-se rapidamente e, em pouco tempo, fizeram-lhe bispo de Hipona.

    Um pouco antes de sua morte, pediu que escrevessem na parede de sua cela, em tamanho grande, os sete salmos penitenciais, os quais recitava todos os dias em seu leito com muita lucidez. Entrou para a morada celeste aos 77 anos.

    Assim, deu-se a conversão de uma alma que, após uma vida devassa, atingiu a mais excelsa virtude, entregando-se com tal radicalidade às vias da perfeição, que se tornou uma das maiores riquezas da Igreja com seus escritos e ensinamentos.

    1 SANTA TERESINHA, História de uma alma. 20.ed. São Paulo Paulus,1979. p.26
    2 SGARVOSSA,Mário; GIOVANNINI, Luigi. Um santo para cada dia. 4.ed.Roma Paulus, 1978. p. 272-273
    3 SANTO AGOSTINHO, Confissões; Edições Paulinas, 2º edição – 1986, São Paulo. Pág.213
    4 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Agostinho, farol de sabedoria e de amor a Deus. In: Dr Plinio, São Paulo: Retornarei, n. 89, ago. 2005. p. 26.
    5 SANTO AGOSTINHO, Confissões; Edições Paulinas, 2º edição – 1986, São Paulo. Pág.239.

    Santa Maria Madalena – porque muito amou…

    tangere
    Thaliane Neuburger

    “Ama et quod vis fac”, ou seja, ama e faze o que quiseres. Frase ousada de Santo Agostinho, porém inteiramente teológica, por ser a caridade a virtude essencial, sem a qual, as demais virtudes carecem de valor 1 . O próprio São Paulo assim inicia seu nobre, distinto e angélico cântico sobre a rainha das virtudes: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!” (1Cor 13, 1-3).

    Diversos autores afirmam que a caridade supera em beleza, valor e essência a todas as demais virtudes, inclusive a própria Fé e Esperança pelo fato de Deus constituir-Se no seu objeto primário e principal 2 , e porque estas não ultrapassarão os umbrais da eternidade, enquanto que “a caridade jamais acabará” (1Cor 13, 8).

    Segundo São Tomás , o progresso na vida sobrenatural consiste, essencialmente, na perfeição da caridade 3 . Ela é a virtude que nos une diretamente a Deus conforme no-lo demonstra o discípulo amado: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1Jo 4, 16). Disto procede a supremacia do amor: porque as demais virtudes somente preparam e iniciam essa união, mas quem a realiza de modo pleno é a caridade 4 .

    Por outro lado, o Apóstolo São Paulo mostra-nos que “o amor de Cristo nos pressiona” (2Cor 5, 14). Mas, no que consiste esse “pressionar”? Vejamos o que nos explica o Revmo. Monsenhor João Clá:

    “É um modo de exprimir a força que tem o amor de Nosso Senhor por nós; este amor é transformante, infunde bondade e faz com que sejamos aquilo que jamais seríamos pelos nossos esforços ou natureza; é um amor que faz com que eu dê em relação ao Bem que é Ele, aquilo que eu nunca conseguiria dar por meu esforço. (..) Ele nos confisca [pois] é um amor tão superior, exuberante, rico, transbordante e incomensurável, que uma vez manifestado, torna-se impossível, de nossa parte, não vivermos para Ele” 5 .

    Estes foram os efeitos do amor do Divino Mestre em Santa Maria Madalena, “que foi cativada e transformada pela força deste amor, a tal ponto que depois de uma vida de vícios e desvarios, atingiu tão eminente grau de admiração e enlevo por Nosso Senhor Jesus Cristo e, sobretudo, foi tão amada por Ele que obteve a restauração da inocência” 6 .

    Voltemo-nos, pois, para sua vida e veremos as grandes maravilhas operadas por Deus naquela alma.

    Maria Madalena nasceu de uma família muito digna, talvez a mais rica de Israel. Possuindo, desde pequena, uma aparência privilegiada, sua mãe tinha o costume de colocá-la sentada encima de uma almofada na janela, para que todos pudessem admirar sua beleza e seu bom comportamento. As ruas daquela época eram estreitas e os que por ali transitavam viam-na, conversavam um pouco com ela e, encantados, elogiavam tão extraordinária menina. Elogios estes, que serviram para dar início a um processo que a levaria a cometer os piores pecados, porque, “quando a pessoa não sabe se defender dos elogios e restituí-los a Deus, isso produz na alma um estrago tremendo” 7 , pois, o “orgulho leva à impureza” 8 . Foi justamente o que aconteceu com a jovem Maria Madalena.

    Com a perda dos pais, deu-se a divisão da vasta herança. Coube a Lázaro — sendo o primogênito — herdar todas as terras e propriedades que possuíam em Jerusalém, assumindo com isso o encargo social e político da família. Marta, por sua vez, ficou em Betânia e viu-se obrigada a administrar as propriedades do irmão. Restou à Maria — por ser a caçula — o castelo que a família possuía em Mágdala, cidade muito mundana da época, devido à sua localização às margens do Mar da Galiléia.

    Chegando a idade das paixões que rejeitam todo freio; quando a presença de toda pessoa honesta e séria resulta-lhe pesada” e sendo Maria Madalena “muito adulada e muito bela, circundada de adoradores, desfrutando ao respirar o incenso agradável dos elogios e sobretudo o perfume embriagante do prazer, fugiu da companhia de sua irmã” 9 , aos quinze anos, para estabelecer-se em Mágdala. No entanto, em pouco tempo, “começou a levar uma vida afastada dos Mandamentos da Lei de Deus, tornando-se, assim, uma pecadora” 10 .

    Em certo momento chega a Mágdala rumores de estupefação, admiração e entusiasmo pelo grande profeta: Jesus Nazareno. Muito dada a estar de acordo com as notícias de acontecimentos mais recentes, Maria decidiu reunir uma caravana e ir ao encontro daquele, do qual todos comentavam. Quando chegaram ao lugar onde o Divino Mestre se encontrava, Ele “a viu, a olhou e a curou” 11 , e, sobretudo, infundiu em sua alma graças superabundantes, operando assim sua conversão. Abandonando tudo o que tinha e todos os antigos amigos que a levaram ao pecado, seguiu a Nosso Senhor.

    Entretanto, após passar um longo período acompanhando a Jesus juntamente com as outras Santas Mulheres, sentiu um desejo de voltar à Mágdala e à sua antiga vida. A pretexto de buscar algumas coisas, embora Marta e as outras insistissem à que não retornasse, ela decidiu ir e lá chegando retomou a sua vida de pecado.

    Um dia, estando Nosso Senhor a pregar perto de Cafarnaum, dá-se o reencontro. Aquele Divino Olhar recai sobre Maria, mas desta vez, “esse olhar do Salvador e essa palavra penetrante mudaram seu coração mais dolorido que endurecido. Em seguida, ela seguiu a Jesus e não O deixou mais” 12 .
    Algum tempo depois, o Divino Mestre é convidado para jantar em casa de um fariseu. Maria Madalena rompendo as praxes da época — as quais proibiam a entrada de mulheres durante os banquetes — foi até Jesus para assim manifestar publicamente seu arrependimento e seu amor por Aquele que a havia transformado. Ali entrando, permaneceu aos pés do Salvador, e lhe ofertou o que de mais precioso possuía: suas lágrimas que, como sinal de penitência, lavaram aqueles Sagrados Pés; em seguida enxugou-Os com seus próprios cabelos; beijou-Os e por último, Os ungiu com o mais precioso perfume. Atos simbólicos de “seu coração que ela se empenhava em lançar todo inteiro no coração do Mestre” 13 . Tal veneração e escravidão mereceu como recompensa do Salvador as seguintes palavras: “seus numerosos pecados estão perdoados, porque ela muito amou” (Lc 7, 47) e “em verdade vos digo: onde quer que for pregado em todo o mundo o Evangelho, será contado para sua memória o que ela fez” (Mc 14, 9).

    Estando o Mestre em Betânia, Maria despreocupava-se de todos os assuntos da casa e permanecia aos Seus pés, ouvindo-O e admirando-O. Tinha o pensamento unicamente posto no Salvador, já que guardava um delírio de amor a Ele e não se interessava por outra coisa, a não ser o Mestre, que para ela era tudo 14 . Por esta razão, recebeu esse elogio: “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10,42). Ou seja, desde que a pessoa se ponha a amar, o demônio não consegue tirar nada e “ninguém rouba aquilo que o amor constrói” 15 .

    O Senhor concedeu imensos benefícios a Maria Madalena e distinguiu-a com sinais de predileção, infamou-a totalmente de amor por Ele e tornou-se íntimo dela.

    Uma das características do enlevo é fazer com que o enlevado saia de si e se fixe em algo que lhe é superior 16 , por isso, Santa Maria Madalena “se une a Ele em todos os estados pelos quais Ele faz passar sua humanidade. Ela se une a Jesus vivendo (…), a Jesus sofrendo (…) a Jesus morrendo e a Jesus morto” 17 , de tal maneira, que acompanhou o Divino Mestre até na hora suprema do “Consummatum est”, quando todos O abandonaram. Mostrando que o enlevo verdadeiro é aquele que está disposto até ao holocausto, se isso for necessário, em favor do Amado.

    Quando mataram a Nosso Senhor, ela — em contraposição aos discípulos, os quais “tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus” (Jo 20,19) — ia por todos os cantos, proclamando que haviam cometido um crime infame contra o Mestre, pois Este não tinha feito outra coisa senão o bem. Atraindo para si, o ódio de todo Sinédrio.

    Sendo “a que mais fervorosamente amava o Senhor, (…) não podia conter-se de desejo de adorar e perfumar Seu sagrado Corpo” 18 . Por isso, já na madrugada do domingo, quando uma dama não podia estar andando pelas ruas, ainda sem o sol ter nascido, com verdadeiro empressement desejava chegar o quanto antes ao túmulo, para assim venerar o Corpo Daquele que era o objeto absoluto de seu encanto. Estava de tal modo inebriada de amor, que neste ato de “imprudência” nem sequer se preocupava com os guardas, nem com a pesada laje a ser removida.

    Chegando ao túmulo, encontrou-o aberto e os soldados não estavam mais lá. Aproximou-se e não viu o Sagrado Corpo do Redentor, julgando que o tivessem roubado. Sua primeira preocupação foi a de informar aos Apóstolos, demonstrando a pureza de seu amor todo feito de sabedoria e amor à hierarquia. Saiu correndo rumo ao Cenáculo. “Com seu ardor sem medida, Madalena contagiou os Apóstolos, e estes, associando-se aos mesmos sentimentos de amor, temor e esperança, partiram cheios de ânimo” 19 . São Pedro e São João entraram na gruta, constataram que de fato o corpo não estava ali e saíram. Ela ficou, pois não possuia outro desejo a não ser o de empregar todos os meios para saber onde colocaram o Divino Corpo de seu Mestre. Estando nesta aflição, aparecem dois Anjos. Estes lhe dirigem a palavra, interrogando-a sobre o porquê de seu pranto. Ela, tomada de zêlo, afirma: “Levaram o meu senhor e não sei onde o puseram” (Jo 20, 13), declarando, com isso, sua posição de escrava e incitando-os, respeitosamente, a dizer onde é que puseram o Corpo ou a indicar onde ele pudesse estar. O amor é cheio de educação, de elegância; o amor, quando é autêntico e puro, leva a um trato elevadíssimo 20 .

    Tendo dito isto, ela se volta para trás, e sem dar-se conta vê Nosso Senhor em pé, contudo, não O reconhece. E Nosso Senhor lhe pergunta: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (Jo 20,15). Jesus disse isto para fazer aumentar ainda mais o seu amor, pois este é passível de crescimento, ou de diminuição . E quanto mais a pessoa explicita o amor que tem, mais nele cresce. Por esta razão, era conveniente que Madalena externasse seu entusiasmo e enlevo.

    Então, Jesus disse: Maria! (Jo 20, 16). Bastou que o Salvador pronunciasse seu nome para que ela O reconhecesse. Imediatamente, atira-se aos pés de Nosso Senhor. Este, porém, a impede, para que sua Fé e Caridade atingissem um grau mais eminente. Maria obedece de imediato, por se tratar de uma ordem de ‘seu Senhor’.

    Quer dizer, ela procurava o Corpo, e o que encontrou? Encontrou o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é, justamente, o fruto do amor. Quando a pessoa deseja com muito amor, devoção, enlevo, e sobretudo, com labaredas de entusiasmo, especialmente quando se trata de algo ligado a Deus, recebe mais do que aquilo que procura. O Criador sempre concede muito mais do que se pede.

    Durante as perseguições, Maria Madalena juntamente com seus irmãos foram postos em um barco à deriva que chegou em Marselha no sul da França onde pregou a doutrina de Cristo e converteu um bom número de pessoas.
    Morreu em um local solitário nas montanhas de Sainte-Baume, onde vivia em contemplação e penitência.

    Concluamos com as palavras cheias de veneração sobre Santa Maria Madalena de São Francisco de Sales : “Ainda que não a honremos como virgem, se levarmos em conta a eminentíssima pureza que guardou depois de sua conversão, deve ser chamada arqui-virgem, porque, uma vez purificada na fogueira do amor sagrado, recebeu tão excelente castidade, e tão perfeita caridade, que depois da Mãe de Deus, ela foi quem mais amou a Jesus Cristo. Amou-O com os serafins, e ao amá-Lo foi mais admirável que eles, pois os serafins obtêm o amor sem dificuldades e conservam, mas esta santa o adquiriu com grandes suores e cuidados e o conservou com temor e solicitude” 21 .

    1 Cf. ROYO MARÍN, A. Teología de la perfeccíon cristiana. Madrid: BAC, 2006.
    2 Cf. Clá Dias, João. Homilia sobre o enlevo. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 9/5/2010.
    3 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II q.184, a.1.
    4 Cf. ROYO MARÍN, op. cit., ibidem
    5 Clá Dias, João. Homilia sobre Santa Maria Madalena. Caieiras: Igreja Nossa Senhora do Rosário, 22/07/2008, p.1-2
    6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Inocência e penitência. In: Dr. Plinio. São Paulo: Agosto, N.17, p.4, 1999.
    7 CLÁ DIAS, João , op. cit., p.3
    1 CLÁ DIAS, 2006, p.5(Arquivo IFTE)
    8 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.328, 1896.
    9 CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
    10 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
    11 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v., p.329, 1896.
    12 OLLIVIER, P. Les amitiés de Marie. L’Ami du clergé. Paris: Mai, n. 20, 8v.,330, 1896.
    13 Cf.CLÁ DIAS, 2006(Arquivo IFTE)
    14 CLÁ DIAS, 2008, p.4(Arquivo IFTE)
    15 Cf. CLÁ DIAS, 2010(Arquivo IFTE)
    16 MAITRIER, J. Petit sermon pour la féte de Sainte Marie-Madeleine. L’Ami du clergé. Paris: Juillet, n.28, 4v., 433-435, 1892.
    17CLÁ DIAS, 2008, p.13(Arquivo IFTE)
    18 CLÁ DIAS, 2008, p.15(Arquivo IFTE)
    19 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
    20 Cf. CLÁ DIAS, 2008(Arquivo IFTE)
    21 SALLES, F. Obras Selectas. Madrid: BAC, 1953, 1v, p.432-433

    Fé e razão: arco do conhecimento

    agustin_2 copyLuisana Miguelina Estévez

    Deus, ao criar o homem à Sua imagem, num ato libérrimo, “deu-lhe alma, dotada de razão e de inteligência, que o tornou superior aos animais restantes, terrestres, nadadores e voadores, destituídos de mente” (SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. L.XII, c.XXIII). E também lhe deu a plena liberdade, infundindo-lhe no coração o desejo de conhecer a Verdade Absoluta, que é Ele, para que conhecendo-O e amando-O possa chegar à verdade plena e perfeita de si mesmo (JOÃO PAULO II. Fides et Ratio).

    Ora, o entendimento humano, na luta por alcançar tais verdades, depara-se, pelo caminho, com uma série de dificuldades, produto das sequelas do pecado de Adão; e estas, muitas vezes, levam-no a desistir ou a duvidar, em sua procura, ou até mesmo, em certas ocasiões, a negar aquilo que não quer admitir como verdadeiro.

    Disto resulta que muitos dos filósofos antigos, no seu interesse por querer explicar a origem de todas as coisas, caíam, na maioria dos casos, em grandes erros, posto que suas teorias eram unicamente baseadas no que o intelecto humano podia alcançar, sendo que existem verdades que não podem ser demonstradas pela razão humana. Quão equivocados estiveram estes homens “que desejaram a natureza sem a graça [e] a razão sem a fé” (CLÁ DIAS, 1996, s.p.).

    O Doutor Angélico (S.C.G., L.I, c.4) ensina que este descobrimento possui uma profundidade tal, que faz com que o entendimento humano, só depois de muito exercício, se encontre em condições para captá-lo pela via racional. Devido a estas dificuldades, o conhecimento pleno de Deus é mais acessível com o apoio da Revelação. Por isso, o apóstolo Paulo menciona e adverte que o cognoscível de Deus se compreende porque Ele mesmo o manifestou (Rm 1, 19).

    Desta maneira, se faz mister a Revelação Divina, uma vez que Deus quer que “omnes homines vult salvos fieri et ad agnitionem veritatis venire” ― todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (I Tim 2, 4). E a própria Sagrada Escritura ressalta o papel fundamental da fé nos homens, quando nos diz que “a fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1).

    Apesar de tudo isso, não se pode negar o importante papel que desempenha a razão, nem se quer estabelecer um divórcio entre uma e outra, mas o que se quer é acentuar e tonificar a união fraterna que deve existir entre ambas, já que se poderia dizer que constituem duas asas com as quais o espírito humano se eleva para a contemplação da Verdade (JUAN PABLO II, Fides et Ratio). Diz Clá Dias (2010) que a fé é um rationabile obsequium, um reforço da inteligência, já que lhe proporciona o que esta não consegue alcançar. Corrobora tal afirmação João Paulo II (Fides et Ratio, no.42) quando afirma: “a fé requer que seu objetivo seja compreendido com ajuda da razão; por sua vez a razão, no apogeu de sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé lhe apresenta”.

    Consequentemente, uma leva a outra pela mão. A fé, que diviniza os atributos humanos, e a razão que, divinizada pela fé, compreende melhor o que por si só não compreenderia.

    Esse problema da relação entre Filosofia e Teologia, ciência e fé, razão e Revelação esteve presente já em muitas das indagações dos primeiros Padres da Igreja, nos primeiros tempos do Cristianismo, como nos explica Adriano (2007, p.36): “a questão era saber se com o surgimento da fé […], a razão ainda conservaria qualquer utilidade ou se tornaria um perigo para o crente”. Enquanto uns discutiam sobre a antinomia entre ambas e seu total desacordo, outros defendiam sua completa harmonia, afirmando serem elas “duas forças noéticas que trabalham para o mesmo objetivo: a posse da verdade” (ADRIANO, 2007, p.36).

    Não pode haver uma separação entre fé e razão, posto que “formam nisto um par de gêmeas peculiares, não podendo nenhuma das duas separar-se totalmente uma da outra e, todavia, cada uma deve conservar sua própria tarefa e identidade” (BENTO XVI, 2008, apud CASTÉ, 2009, p.24), pois o mesmo Deus, que dispôs a Revelação para a salvação do homem, infundiu no espírito deste a luz da razão (PIO IX, Dei filius), para que fazendo uso dela demonstre quão certas são aquelas verdades à que se teve acesso pela fé.

    Beleza: transcendência que leva a Deus

    Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP
    Catedral de Colônia

    Ontologicamente, podemos afirmar com SãoTomás que o senso do ser relaciona-se sempre com os transcendentais, que estão em todos os seres, em qualquer nível que seja. Estas seriam as propriedades do ser enquanto tal: unum, bonum, verum, pulchrum ― unidade, bondade, verdade e beleza. Quando um ente é o que deve ser, ou seja, possui a verdade em sua essência, é também bom e, de acordo com a esfera a que pertence, é belo, santo, nobre ou útil. E sendo os transcendentais aspectos do ser, formam uma unidade com ele, considerados em sua realidade metafísica, inseparáveis entre si e a negligência de um deles seria uma catástrofe para os outros. A beleza é o esplendor dos transcendentais reunidos.

    No entanto, o homem, enquanto ser, também tem em si os transcendentais e sua vida não é uma mera sucessão de feitos e experiências. Sendo racional, sua vida é a busca da verdade, do bem e da beleza. E para esse fim, exerce sua liberdade, pois aí se encontra sua alegria. Sendo composto de corpo e alma, matéria e espírito, inseparáveis, necessita das exterioridades para através dos sentidos conhecer o mundo não só por sua inteligência, mas também pela sua vontade e sensibilidade.

    O simbolismo é, portanto, universalmente humano, comum a todas as culturas; entre os homens a linguagem figurada é o natural. Os sentidos são alcançados por essa linguagem e a audição, visão, olfato e tato, são especialmente tocados pela beleza do materializado. Inicialmente, pela beleza das coisas criadas, para depois encontrar o sentido na luz do fundamento de toda a beleza, a beleza Suprema, autora de todas as outras. Assim, do homo simbolicus,considerado pela perspectiva antropológica do Sagrado, visualiza-se o homo religiosus, porque o homem é religioso em sua natureza.

    Santo Agostinho dizia que as coisas criadas de si mesmas falam de Deus. E essa foi uma das principais preocupações dos filósofos, que pela “arte” conhece-se o “Artista”. Para ele, a beleza das coisas revelam a Deus, pois “se as coisas que fez são tão belas, quanto mais belo é Aquele que as fez”. Bento XVI, na Austrália, lembrou aos jovens da Jornada Mundial da Juventude esse pensamento e comentou que vendo a diversidade da natureza, do mar Mediterrâneo, passando pelo deserto Africano e pelas florestas asiáticas, até a vastidão do Pacífico, sentiu um reverente temor, porque à frente de tal beleza só poderia repetir as palavras do salmista: “Senhor, nosso Deus, quão admirável é o teu nome em toda a terra” (Sl 8. 2).

    Ao longo do tempo, o homem foi materializando e exteriorizando sua concepção artístico-religiosa através dos símbolos, da arte, arquitetura, música e ritos, construindo sua cultura. No Ocidente, a base desta foi o cristianismo. Não foi por mera casualidade que os povos cristãos têm sido, de longe, os mais inovadores e criativos em todos os campos da cultura.

    Assim, a realidade construída por símbolos, mostrava a arte como uma forma de conhecimento tão séria como a ciência. Mas Kant a divorciou desta, abrindo a era do racionalismo puro; o conhecimento passou a ser empírico, ajustando-se às experiências do homem, e a beleza tornou-se subjetiva. No século XVIII, com Alexander Baumgarten, surgiu o termo estética, de origem grega, significando sensação, sentimento.

    Isso gerou a estetização do mundo. No século XIX, cultura passou a significar o progresso humano contínuo e ascendente, acrescentando os conhecimentos do homem, refletidos no crescimento da filosofia, da ciência e da estética. Mas, atualmente, a cultura sofreu tantas transformações, que não se sabe bem para onde o mundo caminha, tudo depende da sensação e do mercado. A Estética separou-se completamente da cultura e da religião, perdendo a memória histórica da humanidade. Segundo Paulo VI: “o divórcio entre o evangelho e a cultura é sem dúvida o drama do nosso tempo”.

    Na concepção Tomista, beleza é o que agrada a vista enquanto harmonioso e proporcional. Os sentidos se comprazem nas coisas bem proporcionadas, estando de acordo com a razão, uma vez que beleza é o amor que faz ver a verdade e o bem de todas as coisas . É belo tudo o que realiza sua natureza ideal. Já a feiúra é a ausência de beleza, o que não está de acordo com um fim.

    A perspectiva contemporânea e subjetiva de estetização do mercado é : o que me apraz é belo e o que não me apraz é feio. Passa a existir um julgamento do gosto, mediante o qual adota-se uma atitude ante o objeto estético que não é o assentimento dado a uma verdade (lógica), nem a aprovação ou desaprovação que se faz de uma ação (ética). É uma espécie de agrado ou desagrado estético que se expressa em um julgamento: agrada-me, apetece-me, não me agrada, não me apetece.

    O caos do mundo hodierno, provocado pela confusão nas mentes, também confundiu a beleza em si com a mera estética. A globalização é uma realidade e apresenta um mundo que não é senão a estética da saturação, do excesso, da máxima informação no mínimo de espaço e de tempo. A sociedade, assim globalizada, norteada por constantes e profundas renovações tecnológicas, perdeu a crença nos mega-relatos e na racionalidade como fundamento do conhecimento. Nela se despertam a subjetividade e a emoção, a virtualidade, as sub-culturas crescentes, favorecendo uma nova percepção cosmológica da realidade .

    O homem ― crendo-se senhor de si mesmo ― se deixou enganar e passou a ser visto como mero consumidor no mercado de possibilidades indiferenciadas, onde a escolha em si mesma passou a ser o bem, a novidade aparenta ser a beleza e a experiência subjetiva suplanta a verdade.

    Assim, o belo perdeu seus fundamentos e se reduziu a bem de consumo. No grande mercado da “aldeia global” atual desapareceram os signos de beleza: a máscara da propaganda parece triunfar sobre a verdade e a beleza últimas, revelando sua aparente “morte”. Em um mundo sem beleza, o bem perde sua força de atração e a verdade sua força de conclusão lógica.

    É preciso reeducar as pessoas da “civilização da imagem”, ensinando por meio do belo a praticar a admiração e o elevar-se ao Criador, ao mesmo tempo metódica e degustativamente, partindo da figura e tendendo, por meio desta, a uma reflexão que nunca se distancia inteiramente da imagem, nem sequer no seu ponto terminal . A beleza tem um força pedagógica própria quando introduz eficazmente no caminho da verdade . É preciso descobrir o invisível a partir do visível. Este é o papel da beleza e da ordem, buscando as qualidades do Universo que impulsionam a olhar para o alto, onde está a beleza, libertando o homem das cadeias da massificação. Ela se manifesta nas multiformes maravilhas da natureza, mas também se traduz nas obras humanas, reflexos de seu espírito ― obras de arte, literatura, música, pintura e artes plásticas ―, bem como se faz apreciar, sobretudo, na conduta moral, nos bons sentimentos.

    Hoje se necessita da beleza para não cair no desespero ― já dizia Paulo VI , no final do Concilio Vaticano II ―, e este é o caminho para encontrar a verdade e a bondade, que estão no coração do Evangelho. A beleza provoca emoções, põe em movimento um dinamismo de profunda transformação interior no homem, engendrando alegria e sentimentos de plenitude, desejo de participar livremente na mesma beleza, que passa a fazer parte de seu próprio interior, integrando-a em sua existência concreta . Só a espiritualidade da beleza pode reencontrar a Beleza Suprema.

    A estética da mensagem determina a sua eficácia. “O belo que se comunica belamente chega mais rápido e mais profundamente ao receptor. A beleza comove e move o coração. A salvação para este mundo estetizado é a espiritualidade da beleza para, assim, reencontrar a beleza.

    Escreve João Paulo II em sua carta aos artistas: “Ante a sacralidade da vida e do ser humano, ante as maravilhas do universo, a única atitude apropriada é o assombro, e a beleza é o que pode provocar este assombro que entusiasma. Os homens de hoje e amanhã têm necessidade deste entusiasmo para afrontar e superar os desafios cruciais que se avistam no horizonte. Precisamente neste sentido foi dito, com profunda intuição, que a ‘beleza salvará o mundo’. A beleza é o segredo do mistério e a chamada ao transcendente”.