Três reis à busca do Rei

Ir.Juliane Campos, EP

Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, reinando o Rei Herodes, eis que uns Magos chegaram do Oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer? Porque nós vimos sua estrela no Oriente, e viemos adorá-lo” (Mt. 2, 1-2).

Quanta poesia encerra esta sintética narração do Evangelho! Grandes e pequenos imaginam as longínquas terras do Oriente: deserto, calor, pedras preciosas, ricos e coloridos tecidos, turbantes, camelos e até mesmo elefantes (meio de locomoção do séquito do rei proveniente da África). Uma estrela, que brilha com intensidade fulgurante, faz com que os três grandes e poderosos monarcas do Oriente, estudiosos dos astros e conhecedores das escrituras, deixem seu reino e partam em busca d’Aquele que é o Rei dos Reis, Rei de todas as nações e Sol de Justiça: um Deus feito Menino.

Enfrentando todas as adversidades do transcurso, encontram-se eles nas areias douradas do deserto e seguem juntos no caminho que os levará a Jerusalém. Não medem esforços, levam seus tesouros mais preciosos, ajudam-se. Sendo eles também monarcas, querem encontrar-se com o Rei, não só para Lhe renderem suas homenagens, mas também para adorá-Lo.

Um Rei-Menino, um Menino-Deus, nascido de uma Virgem e posto num Presépio… Que aparente contradição! No entanto eles crêem, eles buscam, eles chegam por fim a Jerusalém. Depois de um contato com o perverso, invejoso e orgulhoso Herodes, que queria encontrar o Menino para matá-Lo, pois lhe parecia um rival, partem os Magos de Jerusalém para Belém de Judá, pois, conforme as profecias, aí deveria nascer o Salvador de todos os homens. Uma vez mais contemplam a bela e rutilante estrela que lhes havia guiado desde o Oriente e se enchem de alegria pela proximidade do encontro com seu Rei.

Chegando a Belém, encontram Maria, José e o Menino, este deitado em humilde manjedoura, aquecido por palhas e pelo amor de sua Mãe. Prostrando-se, O adoram! Abrindo seus tesouros Lhe oferecem ouro, incenso e mirra. Segundo as tradições orientais, eles prostraram-se por terra por reconhecerem nesse Menino seu Rei e seu Salvador. Ninguém, no Oriente, se apresentava diante de um rei sem lhe oferecer presentes. Os Magos entregaram a Jesus os melhores tesouros do Oriente: o ouro, como a um Rei, o incenso, como a um Deus e a mirra, como a um Homem mortal, já que esta simboliza o sofrimento. De regresso, voltaram por outro caminho para sua terra, pois Deus lhes avisou em sonhos que não retornassem à presença do malvado Herodes.

Ele veio para todos…

Ir. Clara María Morazzani, EP

Sábios e iletrados, ricos e pobres, reis e pastores têm seu lugar de dileção aos pés do Menino Jesus.

Quem se aproxima, em espírito, da manjedoura na Gruta de Belém, encontra um Menino tenro, mas cheio de vida e de luz. Contemplando-O com os olhos da fé, fica-se abismado ao considerar que ali está o próprio Deus feito homem. Sim, esse mesmo Menino mais tarde estará curando leprosos, devolvendo a vista a cegos, fazendo andar paralíticos, ressuscitando mortos ou acalmando tempestades. No final de sua vida, Ele será desprezado pelas multidões, injuriado, flagelado e pregado numa cruz. Mas ressuscitará ao terceiro dia de forma gloriosa, subirá aos céus e se sentará à direita do Pai como rei triunfante supremo. É assim que Ele deverá vir, pela segunda vez, no dia do Juízo Final, para julgar os vivos e os mortos.

Veio para os pobres…

Em sua primeira vinda, quis Jesus manifestar-Se aos homens revestido de nossa fraqueza, como débil e indefesa criança, padecendo fome, sede, frio e em tudo se assemelhando à nossa humana condição.

Junto ao presépio, encontraremos os pastores. Homens rudes e humildes, ocupados apenas na guarda noturna de seus rebanhos, viram-se, de repente, circundados por uma claridade divina que os encheu de grande temor. Mas logo, animados pelas tranquilizadoras palavras do anjo, correram para aquela feliz gruta onde, com grande reverência, aproximaram-se para adorar o Menino envolto em pobres panos e reclinado sobre míseras palhas.

… e para os ricos

Erroneamente, porém, poderia alguém pensar ter Ele vindo só para os simples pastores e as pessoas menos abastadas. Para desfazer essa ideia por demais simplificada e unilateral, bastaria permanecer mais alguns dias junto ao Menino e ser surpreendido por um séquito real cheio de cores, pompa e majestade.

De onde procedia aquela longa, misteriosa e rica caravana, composta de guerreiros fortes e audazes, de pajens vestidos de seda, avançando ao som de trombetas e ao rufar compassado dos tambores? O que significava essa “inundação de camelos e dromedários” (Is 60, 6) carregados de riquezas, previstos com tanta antecedência pelo profeta Isaías? Quem seriam esses três soberanos à procura do “Rei dos judeus que acabava de nascer”? (Mt 2, 2).

Chamavam-se Melquior, Gaspar e Baltazar e, segundo a tradição, representavam as três raças da família humana. O Evangelho nos conta serem eles provenientes do longínquo e enigmático Oriente, tendo viajado até a Judeia guiados por uma estrela.

E aqui nos aparece o primeiro traço do extraordinário chamado que lhes foi feito. Aos pastores se manifesta visivelmente um anjo de luz, revelando por palavras a grande alegria do nascimento do Salvador. Àqueles reis, porém, essa mesma notícia é comunicada pelo aparecimento de uma maravilhosa estrela acompanhada de uma voz interior a tocar suas almas. Assim no-lo explica São Tomás, citando o grande Papa Leão: “Além da imagem que estimulou o olhar corporal, o raio ainda mais luminoso da verdade instruiu até o fundo os seus corações no que concernia à iluminação da fé” 1.

Fé levada até o heroísmo

Bem se poderia aplicar neste caso o famoso ditado francês: noblesse oblige (a nobreza impõe obrigações). Daqueles Magos, até então mergulhados nas trevas do paganismo, a Providência exigiu um heroísmo de fé que não foi pedido aos pastores, herdeiros das promessas messiânicas do povo eleito. Quanto drama havia naquela viagem! Alertados pelo súbito fulgor de uma estrela, os Reis Magos abandonam sem hesitação a calma e o conforto de seus palácios para lançar-se em longa viagem cheia de fadigas e perigos, através de desertos e montanhas…

E tanto esforço, para quê? Para ir prostrar-se em adoração diante de um menino recém-nascido! A extrema pobreza na qual Se lhes apresentou Aquele a quem buscavam com santo afã, em nada abalou a sobrenatural certeza vincada em seus corações, de ser Ele o Rei dos reis. Afirma o Doutor Angélico: “Deve-se dizer como Crisóstomo diz: ‘Se os Magos tivessem vindo procurar um rei terrestre, teriam ficado decepcionados, por terem enfrentado sem motivo as dificuldades de um caminho tão longo’. E assim, nem O teriam adorado, nem Lhe teriam oferecido presentes. ‘Mas, porque procuravam o Rei do Céu, mesmo não vendo n’Ele nada da majestade real, O adoraram satisfeitos unicamente com o testemunho da estrela’. Viram um homem e nele reconheceram Deus. E ofereceram presentes adequados à dignidade de Cristo: ‘Ouro, como a um grande rei; incenso, utilizado nos sacrifícios divinos, como a Deus; e mirra, com a qual são embalsamados os corpos dos mortos, indicando que iria morrer pela salvação de todos’” 2.

Deste modo, os três Reis nos ensinaram quais os presentes mais agradáveis ao Menino-Deus, por ocasião da festa da Epifania: o ouro fino e puro das boas obras, praticadas com desinteresse e pureza de intenção; o incenso perfumado das orações feitas com sincera piedade e devoção; e a mirra dos sofrimentos e sacrifícios suportados ao longo de nossa vida com verdadeiro amor e alegre resignação.

Jesus está à espera de todos nós

Apresentemos, então, com os Magos, nossas modestas ofertas aos pés do berço onde dorme sereno o pequeno Rei vindo para nos redimir. Ele está à espera de todos nós, de todos os homens de boa vontade que queiram seguir seus passos. Esta é a lição que nos deu já no começo de sua existência terrena: “A salvação que Cristo iria trazer concernia a todo tipo de homens, pois, como diz a Carta aos Colossenses: ‘Em Cristo não há mais homem e mulher, grego e judeu, escravo e homem livre’, e assim quanto às outras diferenças. E para que isto estivesse prefigurado no próprio nascimento de Cristo, Ele se manifestou a homens de todas as condições. Pois, como diz Agostinho: ‘Os pastores eram israelitas, os magos pagãos; aqueles estavam perto, estes longe; uns e outros se encontraram na pedra angular’. Havia ainda entre eles outro tipo de diversidade: Os magos eram sábios e poderosos, os pastores, ignorantes e de condição humilde” 3.

E São Leão Magno exclama: “Que todos os povos representados pelos três Magos adorem o Criador do universo; e Deus não seja conhecido apenas na Judéia mas no mundo inteiro, a fim de que por toda parte ‘o seu nome seja grande em Israel!’ (Sl 75, 2)”4.

Se contemplarmos Jesus com olhar admirativo e cheio de fé, veremos que esse é o Menino dos contrários harmônicos. Ele veio para todos: pobres humildes, reis majestosos. Ele está à disposição de toda e qualquer classe social, de toda e qualquer cultura, de toda e qualquer raça. Ele veio para salvar a todos.

1) Suma Teológica III, q. 36, a. 5.
2 ) Idem, III, q. 36, a. 8.
3 ) Idem, III, q. 36, a. 3.
4 ) São Leão Magno, Sermo 3 in Epiphania Domini.

Os Reis Magos, representantes dos povos gentios

Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos,EP

Causou sensação em Jerusalém a chegada de três importantes personagens — Gaspar, Melchior e Baltazar — acompanhados de numeroso séquito e rica equipagem.

São reis? — perguntavam-se os habitantes da grande cidade.

Sim, respondiam uns. Não, mais parecem ser sacerdotes caldeus, opinavam outros. Nada disso, são magos, homens sábios que conhecem os segredos da astronomia, sentenciavam alguns eruditos da época.

Como eram os Reis Magos?

Nos presépios e nas pinturas, são eles apresentados em geral como homens de idade madura, e até mesmo já idosos, às vezes com uma barba branca descendo até o peito, mas todos fortes e resistentes. Segundo a imaginação popular, andam devagar e com ar pensativo, cobertos de ricos mantos, portando coroas com pedras preciosas fulgurantes.

A iconografia corrente apresenta Gaspar e Melchior como sendo de raça branca. O terceiro, Baltazar, um gigante de ébano, é o mais pitoresco dos três. Tem pouca barba, olhos redondos e escuros, bem abertos, lábios rubros e dentes alvos como a neve. Sua fisionomia é a de um homem sério e compenetrado, aberto para a contemplação das coisas maravilhosas, caminho para chegar a Deus.

Os bons presépios nos mostram os Reis Magos chegando em fila, trazendo nas mãos seus presentes. O Menino Jesus, divinamente alegre, está sentado no colo de sua Mãe. Todos olham para Ele, inclusive Nossa Senhora, a qual é apresentada discretamente em segundo plano.

Eram sábios e reis

Na Catena Áurea, São Tomás afirma: “Esses magos eram reis”. E acrescenta que devia ser grande sua comitiva, pois puseram em alvoroço Herodes e Jerusalém inteira. São João Crisóstomo é de opinião de que “esses Reis Magos que vieram do Oriente adorar o Menino Jesus, são os filósofos dos caldeus, homens muito considerados em seu país. Seus reis e príncipes aconselham-se com eles, por causa da sua ciência. Assim é que foram os primeiros a tomar conhecimento do nascimento do Senhor”.

O Evangelho resume nestas curtas frases o objetivo de sua viagem:

— Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.

Segundo São Tomás, eles chegaram a Jerusalém três dias após o nascimento de Jesus, o que levanta uma curiosa questão: como fizeram em tão curto tempo a longa viagem? Antiga tradição do tempo de Moisés fala de um antepassado deles que profetizou o nascimento de uma estrela em Judá. Este era de uma nação vizinha de Israel, situada do lado oriental.

São João Crisóstomo é de opinião oposta, declarando ser possível que eles tenham iniciado a caminhada dois anos antes. Esta opinião encontra fundamento no texto evangélico. Pois Herodes os inquiriu sobre a época em que lhes havia aparecido a estrela e “mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos Magos” (Mt 2,16).

Informados de que Belém era a terra natal de Jesus, para lá partiram os Magos. E a mesma estrela que os havia guiado de seus países até Jerusalém apareceu-lhes novamente e os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o Menino, e ali parou.

Era mesmo uma estrela?

Santos, doutores e teólogos interessaram-se por esta pergunta, pois tudo quanto diz respeito a nosso Salvador é, de si, muito interessante.

A ser uma estrela, era diferente de todas as outras. Pois, ao contrário dos demais astros — os quais, desde a criação do universo, seguem regularmente a órbita fixada para cada um no espaço sideral —, esta percorria um roteiro reduzido e, por assim dizer, terreno. Além do mais, parava e punha-se de novo em movimento segundo as conveniências dos Magos, fazendo-se visível não só à noite, mas também durante o dia.

Isso, comenta São João Crisóstomo, é próprio de um ser inteligente, não de uma estrela comum. De onde deduz ele que “não era simplesmente uma estrela, mas uma virtude invisível tomou a forma de uma estrela”.

Segundo São Remígio, alguns crêem que essa estrela era o Espírito Santo, outros que era um Anjo, talvez o mesmo que apareceu aos pastores perto da Gruta de Belém.

Santo Agostinho opina de modo mais afirmativo: “Era um astro novo, criado para anunciar o parto da Virgem e para oferecer seu ministério, marchando diante dos Magos que procuravam a Cristo e conduzi-los ao lugar onde estava o Verbo, Menino-Deus”.

O fato indiscutível é que a estrela — corpo celeste físico ou não — cumpriu de forma exímia sua missão: levou os Reis Magos até a casa onde estava o Menino Jesus. Informados de que Belém era a terra natal de Jesus, para lá partiram os Magos. E a mesma estrela que os havia guiado de suas terras até Jerusalém apareceu-lhes novamente. Nesta reaparição da estrela, os Magos viram uma confirmação toda divina da informação que tinham recebido. A partir daí, o brilhante astro os foi precedendo até o lugar onde estava o Menino, e ali parou. Entrando na casa, encontraram o Divino Infante com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante d’Ele, o adoraram. Depois abriram seus tesouros e lhe ofereceram como presente ouro, incenso e mirra.

Ninguém procurou e encontrou mais venturosamente a Cristo, que aquele devoto e santo cortejo dos Reis do Oriente. Sumamente alegres, seguiram a estrela até Belém onde acharam o Rei, recém-nascido. Mas, com quem O acharam? Acharam o menino com Maria sua Mãe. Quereis achar Jesus, procuraiO onde estiver sua Mãe, e O achareis!” (Pe.Vieira)

Três dons simbólicos

São Tomás apresenta uma bela interpretação desse fato: “Quando se diz que ofereceram ao Menino-Deus três dons — ouro, incenso e mirra — não significa que eram apenas três, mas que neles estavam representadas todas as nações descendentes dos três filhos de Noé, que haviam de ser chamadas à Fé”.

Também Santo Agostinho tece elevados comentários na mesma linha. Epifania, ensina ele, é uma palavra grega que significa “manifestação”. Na pessoa dos Reis Magos, o Menino-Deus se revelou a todas as nações que, no futuro, seriam iluminadas pela luz da Fé. “Toda a Igreja dos Gentios quis que esse dia fosse celebrado com a máxima devoção, pois, que são os Magos senão as primícias da gentilidade?” — conclui o Bispo de Hipona.

E o Papa São Leão Magno dá esta outra interpretação do significado dos presentes dos reis: “Os Magos realizam, pois, o seu desejo, e guiados pela mesma estrela, chegam até o menino, o Senhor Jesus Cristo. Adoram o Verbo na carne, a Sabedoria na infância, a Força na fraqueza, e o Senhor de majestade na realidade de um homem. E para apresentarem uma homenagem de sua fé e de sua compreensão, testemunham, por meio de dons, aquilo que crêem em seus corações. Oferecem incenso ao Deus, mirra ao homem e ouro ao rei, venerando conscientemente na unidade a natureza divina e a natureza humana”.