Como um toque de sino…

Ir. Adriana María Sánchez García, EP

Blém! Blém! Blém!

Toca o sino da capela do palácio. Acompanham-no outros maiores, bem como os das igrejas dos arredores. Dali a pouco, os bordões das basílicas também começam a soar. Por toda a redondeza o som se espalha, como um belo carrilhão, proclamando a grande notícia: nascera o primogênito real!

Se era assim que em muitos reinos do passado se anunciava a ricos e pobres, a grandes e pequenos, a chegada de um novo herdeiro, bem poderíamos falar, por analogia, de um sino magnífico que tocou na História marcando o fim da Antiga Lei e o começo da era da graça, ao nascer o Salvador, o Filho Unigênito de Deus! E até hoje, ao comemorarmos tão magno acontecimento, soam novas badaladas deste místico sino convidando-nos a­ ­contemplar um dos maiores mistérios da nossa Fé.

Através dos apelos da graça, Deus fala conosco a todo instante. Porém, só O ouvimos “no recolhimento, na paz e no silêncio. Sua voz é tão suave que nosso interior deve estar completamente em silêncio; é uma doce melodia. A linguagem de satanás é barulhenta: ela é agitada, impulsiva, perturbadora e abrupta”.

Se criarmos as condições para escutar sua voz, Deus nos convidará a amá-Lo mais, seja infundindo em nossos corações o desejo de praticar a virtude ao ver um bom exemplo, seja enriquecendo-nos com sentimentos de piedade ao entrarmos num ambiente sagrado, seja fazendo ecoar em nosso interior palavras de repreensão por alguma má atitude ou de advertência diante de ocasiões próximas de pecado.

Quando nos sentimos angustiados, tomados pela agitação e sem serenidade de alma, podemos ter a certeza de que não é uma voz sobrenatural que está falando conosco. A dissipação, a velocidade das máquinas e o espírito de frenesi e de competição, que dominam o mundo moderno, impedem-nos de entrar em contato com Deus. Pior, fazem com que nos esqueçamos d’Ele.

É ao oposto deste estado de espírito que o Menino Jesus nos convida no Natal. Ele nos atrai ao recolhimento, pede que deixemos de lado as atividades que d’Ele nos afastam e renovemos nossa vida espiritual. Que, como um toque de sino, o término deste ano anuncie a chegada de uma nova etapa de nossa existência, na qual fiquem para trás os momentos em que, fechados às moções da graça, nos deixamos levar por nossos impulsos e más inclinações.

Peçamos, não só ao Divino Infante, mas a todos os Anjos e Santos do Céu, que a partir deste Natal eles nos façam ouvir sua voz e adoremos com especial afeto o Redentor posto no Presépio, lembrando-nos de que este terno Menino está disposto a renascer em nosso íntimo para transformar-nos por inteiro. Ele que, enquanto Deus, nos criou a cada um de nós, sem nada termos feito para merecê-lo, e Se faz Homem na Noite Santa para nos redimir.

Comuniquemo-nos com Ele por meio da oração e estejamos atentos às suas palavras. “Oxalá que ouças hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 7-8), nos recorda o Salmo. Abramos nossa alma para que o Menino Jesus aí nasça e permaneça para sempre. Assim, também nós seremos como sinos, a ressoar o seu amor e a despertar, com nosso exemplo, bons sentimentos naqueles que nos cercam.1

UM SANTO NATAL A TODOS OS NOSSOS LEITORES!

1 Revista Arautos do Evangelho, Dezembro – 2015

Diante do Divino Mestre

Bruna Almeida Piva

1º Ano Ciências Religiosas

Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que pusesse as mãos sobre elas e orasse por elas. Os discípulos, porém, as afastavam. Disse-lhes Jesus: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham. E, depois de impor-lhes as mãos, continuou seu caminho.

Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!

Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens. Jesus disse então aos seus discípulos: Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos céus! Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. A estas palavras seus discípulos, pasmados, perguntaram: Quem poderá então salvar-se? Jesus olhou para eles e disse: Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível. (Mt 19, 13-26)

Nesta passagem do Evangelho, rica em significados, podemos notar duas interessantes disposições de alma: a das criancinhas e a do jovem rico. Aquelas aceitam e se deleitam com a divina influência do Salvador, e também Lhe dão alegria; este rejeita o convite para ser apóstolo, deixa Nosso Senhor, entristecendo-O. Nas duas ocasiões, Nosso Senhor demonstra uma bondade sem limites e um carinho comovente; porém, obtém duas reações opostas. Por quê?

Embora, aparentemente, os dois fatos nada tenham de comum entre si, analisando-os bem, vemos que decorrem de um só, mas fundamental, princípio de vida espiritual: a salvação não é fruto do esforço; não se santifica quem procura, diante de Deus, se apoiar em suas próprias obras e méritos. E é justamente esta a disposição de alma das criancinhas: “Quem é pequeno não se julga um colosso nem autossuficiente, mas dependente”.1 Tudo o que precisa, a criança pede aos pais; busca-os infalivelmente em suas dificuldades, não porque se julgue digna de ser atendida – porque não é capaz de nada sozinha –, mas porque só confia neles; não busca ser grande nem independente, mas somente amá-los, e ser por eles também amada; por mais que a castiguem, busca-os e os prefere entre todos os outros.

É o principal motivo pelo qual as criancinhas agradam tanto a Nosso Senhor: a confiança com que se aproximam d’Ele e a sua grande inocência, que as torna capazes de abandonar-se cegamente aos seus divinos cuidados.

Como terá sido o convívio do Redentor com aqueles pequeninos? Talvez Ele os tivesse abraçado, lhes imposto as mãos, concedendo saúde, força, sabedoria e graças incontáveis; e elas com sua vivacidade infantil, certamente fizeram um alvoroço em volta d’Ele…2

Eis, portanto, o que Ele nos quer dizer nesse Evangelho, quando afirma que se nos fizermos “como criancinhas” em nosso relacionamento com Deus, nosso Pai – e com Nossa Senhora, nossa Mãe –, somente assim, entraremos no Reino dos Céus.”

Bem outra, entretanto, foi a reação do moço rico ante o chamado do Divino Mestre. Vê-se que ele buscava se apoiar na prática dos Mandamentos, que dizia ter sempre observado: “Tenho observado tudo isto desde a minha infância”. Porém, isso não suficiente. Nosso Senhor queria dele algo mais, a única coisa que importa realmente: que ele Lhe entregasse o coração. A Infinita Misericórdia buscava não as boas obras somente, mas simplesmente o amor daquela alma. Algo tão natural e fácil para os pequeninos, mas que ele, tão “justo”, não soube dar.

Aquele jovem infeliz pediu a vida eterna; no fundo, achava que esta lhe seria concedida porque observava os artigos do decálogo e era, portanto, bom. Não esperava na misericórdia divina, mas em seu próprio esforço. Porém, nenhum homem pode merecer o Céu, porque “aos homens até isto é impossível.”

Não é verdade que se ele fosse como as criancinhas e dissesse; “Senhor, eu não mereço nada, mas, por compaixão, dai-me a vida eterna!”, teria certamente alcançado o Reino de Deus? Não teria ele sido incomparavelmente mais feliz escolhendo a via do amor, a via dos pequeninos?

Portanto, clara está a resposta à pergunta dos Apóstolos: “Quem poderá, então, salvar-se?” Os que se fizerem como crianças e, livres de toda a riqueza, se jogarem nos braços de Nosso Senhor, que sem dúvida é o melhor de todos os pais e nos ama infinitamente mais do que todos eles.

1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A inocência, a eterna lei… In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2014, v.IV, p.415.

2 Cf. Ibid., p.414.

O monte do príncipe dos profetas

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Do alto do Carmelo a voz de Elias parece ecoar ainda hoje, prenunciando uma era mariana que virá como chuva benfazeja para fecundar a aridez espiritual de nossos dias.

Bela e altaneira ergue-se no solo sagrado da Terra Santa uma emblemática cadeia montanhosa que evoca grandes lances do passado e aponta para um futuro de glória. Seu nome? Monte Carmelo.

Na região que circunda o imponente conjunto de rochedos há inúmeras grutas, uma das quais, conforme a tradição recolhida pelos Padres da Igreja, abrigou o grande profeta Elias, cujas “palavras queimavam como uma tocha ardente” (Eclo 48, 1).

Ele foi “um príncipe entre os profetas, verdadeiro condutor do povo de Deus. Lutou contra os erros do seu tempo, nummomento em que a nação eleita estava muito deteriorada, e salvou-a da ruína. Escolhido para dirigir o povo de Deus num momento de hecatombe, ele concentrou em si todo o espírito que o Criador queria dar à nação judia a ser ressurgida. Nesse espírito derivado da Providência Divina foi formada uma rede de eleitos, sendo o mais famoso deles Eliseu, que pediu o duplo espírito de Elias, e o obteve”.1

Dominando a planície de Esdrelon com notável presença, carregada de significado, destaca-se ao sul do Monte Carmelo uma das suas principais elevações, o El-Muhraqa. Com mais de 500 m de altitude, divisa-se daquele ponto um grandioso panorama que chega até o mar. É ali que as Sagradas Escrituras situam o famoso episódio narrado no Primeiro Livro dos Reis (cf. I Rs 18, 19-39), no qual Elias vence os falsos profetas de Baal “com uma prece simples, cheia de beleza”.2

Também a tradição nos revela ser nessa região que Elias e Eliseu se reuniam com seus discípulos. E, séculos depois, naquelas paragens se aglutinou um grupo de monges que constituiu os primórdios da Ordem do Carmo, a qual considera Elias como pai e fundador, e deu início a um filão de devoção a Nossa Senhora, algumas centenas de anos antes do nascimento da Virgem.

Muito simbolicamente, depois da seca imposta a Israel como punição por sua prevaricação, Elias vislumbrou “uma pequena nuvem do tamanho da palma da mão” (I Rs 18, 44) que subia do mar, prenúncio da caudalosa chuva que se aproximava para cessar o castigo e, segundo grande número de exegetas, pré-figura d’Aquela que traria para a humanidade as águas regeneradoras da Redenção: Maria Santíssima.

À Mãe de Deus – a Virgem e Flor do Carmelo – bem podem ser aplicadas as palavras de Isaías, o profeta da Encarnação por excelência: “O deserto e a terra árida regozijar-se-ão. A estepe vai ­alegrar-se e florir. Como o lírio ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria. A glória do Líbano lhe será dada, o esplendor do Carmelo e de Saron; será vista a glória do Senhor e a magnificência do nosso Deus” (Is 35, 1-2).

Tendo sido arrebatado em “um carro de fogo” (II Rs 2, 11), Elias “deve voltar e restabelecer todas as coisas” (Mt 17, 11). Assim, hoje como ontem, do alto do Monte Carmelo sua voz parece ecoar o prenúncio de uma era mariana que virá como chuva benfazeja, para fecundar o solo árido de nossos dias, tão afastados de Cristo e de sua Mãe Santíssima.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XII. N.136 (Jul., 2009); p.2.

2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santo Elias, Profeta. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XIII. N.148 (Jul., 2010); p.14.

Revista Arautos do Evangelho – Julho-2015

Rico ou pobre: quem se salva?

Ir. Patricia Victoria Jorge Villegas, EP

Imaginemos uma adega que contivesse os melhores vinhos do mundo, onde as garrafas não possuíssem um rótulo. Sem a pequena explicação que o rótulo nos traz a respeito da qualidade das uvas, o volume de álcool, sua proveniência, muito difícil seria distinguirmos os vinhos.

Ora, algo semelhante deu-se com a doutrina que Nosso Senhor Jesus Cristo veio trazer. Uma doutrina carregada de potência, que nossa pobre e humana inteligência, por mais elevada que seja, jamais poderia compreender. Como transmiti-la aos homens?

O Divino Pedagogo quis, assim, colocar um rótulo diante deste extraordinário vinho para nos fazer entender sua doutrina: as parábolas.

pobre_lazaroAnalisemos com cuidado uma de suas Divinas Parábolas e tiremos dela uma importante lição.

Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas.

Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. Então gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’.

Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. E, além disso, há um grande abismo entre nós; por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’. O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento’. Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!’ O rico insistiu: ‘Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter’. Mas Abraão lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos’”.
(Lc 16, 19-21)

Um dos assuntos mais polêmicos da atualidade é justamente este: ser rico ou ser pobre. Segundo a concepção de Marx, deve existir uma reivindicação e luta para que a classe mais baixa se iguale à classe alta e, desse modo, ninguém se sinta humilhado. Estaria Nosso Senhor Jesus Cristo favorecendo essa luta de classes? Como entender esta parábola?

A primeira indagação que ela nos sugere é esta: “Vai-se para o inferno pelo simples fato de ser rico? No Céu, só entram os mendigos? Toda riqueza é um mal e toda miséria, um bem?”

A este respeito explica Santo Ambrósio: “Nem toda pobreza é santa e nem todas as riquezas são pecaminosas; mas assim como a luxúria desonra as riquezas, assim a santidade recomenda a pobreza”.2 Na verdade, as riquezas de si são neutras. O problema está no bom ou no mau uso que delas se faça. “O mesmo se deve dizer da pobreza: não é ela boa, nem má. Para qualificá-la é necessário saber com que disposição interior foi aceita”.3

Nosso Senhor Jesus Cristo exalta nesta parábola aquele que, diante da pobreza material, aceita-a com resignação e, ao ver aqueles que estão em melhores condições, louva a Deus.

E o rico? Avarento, egoísta, apegado a si mesmo e ao dinheiro, preocupado com seus próprios interesses, pouco se importava com o pobre Lázaro que vivia na soleira de sua porta. Seu duro coração não sentia nenhuma compaixão. Pelo contrário, desprezava-o. De fato, explana Santo Agostinho: “A insaciável avareza dos ricos não teme a Deus, nem respeita ao homem, nem perdoa o pai, nem guarda fidelidade ao amigo; oprime a viúva e se apodera dos bens do órfão”.4

Neste estado de alma, morrem ambos: “Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado” (Lc 16, 22). O pobre que tinha sofrido todos os infortúnios nesta terra, foi premiado na outra vida. O rico, porém, que tinha todas as comodidades e os confortos neste mundo, mereceu uma eternidade de tormentos.

“Quantas e quantas vezes o rico não deve ter sentido, dentro de si, a voz da consciência recriminando-lhe o apego desregrado pelas roupas, pelos prazeres excessivos da mesa e, sobretudo, pelo dinheiro! Lázaro à sua porta era um dom de Deus, estimulando-o à prática da caridade. Mas ele preferiu os bens deste mundo a ponto de dar as costas a Deus”.5 Desta maneira, compreende-se porque fora lançado ao inferno. Esclarece ainda São João Crisóstomo: “Não era atormentado porque tinha sido rico, mas porque não tinha sido compassivo”.6

E se o pobre não estivesse resignado com sua condição, e o rico fosse virtuoso e generoso?

Para responder a essa pergunta vejamos como Mons. João Clá Dias 7, de forma magistral, imagina a parábola do pobre e do rico com os papéis das duas figuras principais invertidos:

“Imaginemos o rico cheio de compaixão por Lázaro, a ponto de contratar um médico para curar-lhe as chagas, comprar-lhe os remédios, conseguir- lhe um bom abrigo e proporcionar-lhe deliciosos alimentos. Ademais, procurando cercá-lo de afetuosas atenções, chegando a rezar várias vezes ao dia por sua saúde, como também por sua eterna salvação.

Por outro lado, suponhamos um Lázaro que teria a alma mais ulcerada do que seu corpo, pois se consumiria de inveja dos bens do rico e, revoltado contra tudo, contra todos e contra o próprio Deus, cobriria de injúrias o seu benfeitor, desejando- lhe a desgraça e até a morte. A cada ato de comiseração e estima da parte do rico, corresponderia uma reação mal-educada e ressentida de Lázaro. Este só se acalmaria quando obtivesse toda a fortuna daquele, e, para isto, estaria disposto a instigar seu ódio em muitos outros.

E concluía Mons. João: “Se, nesse estado de alma, morressem ambos, qual seria o destino eterno de cada um?”8 Certamente o rico seria levado para gozar da felicidade eterna junto com Abraão e o pobre Lázaro seria condenado às penas do inferno.

Assim, diante desta suposição, não podemos tomar a pobreza como um meio de salvação e a riqueza, de condenação. O importante é ser pobre de espírito, isto é, diante das riquezas ou da possessão de bens, nunca apegar-se. E diante das provações, rejeições e contingências da vida, aceitá-las com inteira resignação. Eis a fundamental lição desta parábola: “o bom relacionamento entre ricos e pobres, e de ambos com Deus, no uso dos bens ou na aceitação das situações constrangedoras pelas quais passem”.9

Sejamos, pois, pobre de espírito para que, quando chegar o momento supremo de nosso encontro com Deus, tenhamos a alma com as disposições de Lázaro, desapegados de todos os bens terrenos, resignados diante de qualquer infortúnio, perseverantes na oração e na prática da virtude para sermos recebidos pelos anjos na eternidade.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O pobre e o rico. Arautos do Evangelho. São Paulo: Ano XI, n.33, set. 2004, p. 10.
2 SANTO AMBROSIO, apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Buenos Aires: v. IV, p. 388.
3 Loc. cit.
4 SANTO AMBROSIO, apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. Cit. p.389
5 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. Cit. p. 9.
6 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. Cit. p. 392.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Op. Cit. p. 10.
8 Loc. Cit.
9 Ibid.p. 11

AS GRANDEZAS DA ARTE GÓTICA

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

O gótico é, antes de tudo, um vôo de espírito. Estilo caracteristicamente medieval, foi engendrado por gerações de Fé, cujo maior desejo era erigir templos à altura de sua finalidade: abrigar o Santíssimo Sacramento, celebrar diariamente a Sagrada Eucaristia, prestar homenagem à Santíssima Mãe de Deus e aos santos. Inúmeras são as construções espalhadas pela Europa que ainda hoje nos fazem conhecer a harmonia perfeita, a elegância e a leveza que a pedra trabalhada e o vidro colorido são capazes de transmitir.

Desejoso de exprimir através do belo o seu amor a Deus, o homem medieval escreveu o Evangelho em pedra e vidro, de modo que todos, grandes e pequenos, alfabetizados e analfabetos, pudessem, pelos séculos afora, conhecer melhor a Nosso Senhor.

Consideremos, por exemplo, a catedral de Reims, localizada na região da Champanha, na França. Está erguida no local onde foi batizado Clóvis, rei dos Francos, no final do século V, acontecimento que tornou Reims a cidade na qual os reis franceses eram coroados, além de marcar nas páginas da história o surgimento da primeira nação católica do mundo.

A construção do edifício que atualmente lá se contempla teve início em 1211, e a parte essencial da Catedral foi completada em menos de um século, o que para a época era de uma considerável rapidez. O interior foi terminado no fim do século XIII. Infelizmente, inúmeras dificuldades intervieram e o exterior não chegou a ser concluído. Faltam-lhe as torres, que cada admirador pode construir em sua própria imaginação.

Quem transpõe seus umbrais tem a impressão de sair desta terra. Arcadas e ogivas formam um conjunto de incomparável harmonia, e o colorido dos vitrais como que espalha pelo chão pedras preciosas de rara beleza. Seu interior incita-nos ao recolhimento e à meditação, ao mesmo tempo que nos invade uma alegria verdadeiramente sobrenatural. O gótico é uma arte constituída sobretudo de elevação de espírito, de Fé e de amor a Deus.

Revista Arautos do Evangelho abril 2002

QUANDO O ANTIGO É SEMPRE ATUAL

Ir. Juliane Campos, EP

Outro dia, no metrô de São Paulo, notei uma menina com um cordãozinho ao pescoço, do qual pendia, tanto no lado do peito quanto no das costas, uma plaquinha de plástico envolvendo um pedacinho de tecido de cor marrom. Com o olhar atento às páginas de uma revista infantil, ela não se dava conta de que eu a observava. Pensei: “Curioso!… saberá essa criança o significado desse objeto de piedade?”

Comecei a prestar atenção nos passageiros do metrô e, para surpresa minha, vi outros usando o “bentinho” — o diminuto escapulário de Nossa Senhora do Carmo, pois é dele que se tratava. Conheceriam todas aquelas pessoas o valor dessa devoção ou estariam usando o escapulário por um novo modismo?

De qualquer modo, sendo o mês de julho o mês de Nossa Senhora do Carmo, imaginei ser interessante oferecer aos nossos leitores algo da história dessa devoção.

Uma devoção vinda do Antigo Testamento

No poético cenário da Galiléia, num promontório sobre o Mar Mediterrâneo, destaca-se o Monte Carmelo, refúgio de homens santos que no Antigo Testamento ali se retiravam para rezar, pedindo a vinda do Divino Salvador. Dentre esses varões, um foi incomparável: Elias, cuja missão profética marcou a história de Israel. De si mesmo, dizia: “Estou devorado de zelo pelo Senhor Deus dos Exércitos” (1 Reis 19, 10).

Por volta do século IX a.C., viveram os hebreus um longo e terrível período de estiagem, imposta por Deus como consequência dos pecados desse povo. Rezava Santo Elias no Monte Carmelo, pedindo o fim do castigo, pelos futuros méritos do Redentor, quando viu uma nuvenzinha se aproximando. Crescendo enormemente em tamanho, ela fez-se chuva, trazendo a salvação. Segundo famosos exegetas, essa nuvem seria símbolo de Maria, a qual, com sua humildade e santidade, atrairia à Terra o Salvador do gênero humano. O Profeta Elias vislumbrou, assim, em sua contemplação, o papel d’Aquela destinada a ser a Mãe do Messias esperado, e se tornou seu primeiro devoto.

Elias é considerado pai espiritual de uma plêiade de religiosos que, dedicados à contemplação, começaram a viver como monges solitários nas encostas rochosas do Carmelo. Uma piedosa tradição diz ter essa descendência espiritual do profeta se prolongado ao longo dos séculos. Mas foi somente em 1226 que esses eremitas se institucionalizaram, quando sua regra, redigida por Santo Alberto, Bispo de Jerusalém, foi aprovada pelo Papa Onório III. Nascia a Ordem dos Irmãos da Bemaventurada Virgem Maria do Monte Carmelo.

São Simão Stock

Aumentando a perseguição maometana contra os cristãos no Oriente, os religiosos do Monte Carmelo transladaram-se para a Europa. A Ordem passou então por um período de decadência e chegou à beira do desaparecimento. Nesse momento, Nossa Senhora fez florescer no tronco ressequido uma flor esplêndida: São Simão Stock. Ermitão inglês de reconhecida virtude, havia sido eleito para o cargo de Geral da Ordem. Naquela aflitiva situação, passou a implorar ardentemente a Nossa Senhora não deixar desaparecer a família carmelitana.

Atendendo às suas súplicas, em 16 de julho de 1251, a Virgem Santíssima lhe apareceu e entregoulhe o escapulário, para ser usado por todos os carmelitas sobre as vestes, dizendo:

“Recebe, filho diletíssimo, o escapulário da tua Ordem, sinal de minha amizade fraterna, privilégio para ti e todos os carmelitas. Aqueles que morrerem revestidos deste escapulário não padecerão o fogo do Inferno. É um sinal de salvação, amparo e proteção nos perigos e aliança de paz para sempre.”

A partir desta misericordiosa intervenção da Mãe do Carmelo, a Ordem carmelitana tomou novo vigor, e dela nasceram muitas estrelas reluzentes para o firmamento da Igreja, como Santa Teresa, a Grande, São João da Cruz e Santa Teresinha do Menino Jesus.

Em lembrança desse feliz episódio, desde o fim do século XIV os carmelitas comemoram, no dia 16 de julho, a Festa de Nossa Senhora do Monte Carmelo, ou do Carmo, como é conhecida no Brasil.

Privilégio sabatino

Dura séculos a controvérsia entre os estudiosos sobre a real origem do chamado “privilégio sabatino”. De qualquer modo, foi ele ratificado por vários Papas, como Clemente VII, S. Pio V e Gregório XIII, e um Decreto do Santo Ofício, de 20 de janeiro de 1613, o explica e interpreta devidamente.

Segundo tal privilégio, quem porta o escapulário com reta intenção durante a vida, conserva a castidade dentro do próprio estado e recita quotidianamente o Pequeno Ofício de Nossa Senhora, ou a oração que o substitui, definida pelo sacerdote na hora da imposição, recebe a graça da salvação eterna e será libertado do purgatório no primeiro sábado após a morte.

O escapulário ao longo dos séculos

O escapulário do Carmo era, na sua origem, um “avental” que os monges vestiam sobre o hábito para protegê-lo durante os trabalhos manuais. Com o tempo foi assumindo o significado simbólico de querer levar a cruz de cada dia. De início, era de uso exclusivo dos religiosos carmelitas. Aos poucos foi se estendendo aos benfeitores da ordem e a outros leigos atraídos pela mesma espiritualidade. Finalmente, a Igreja, como Mãe, quis estender os privilégios e benefícios espirituais desse piedoso hábito a todos os católicos, diminuindo seu tamanho e facultando a qualquer um a sua recepção.

Sinal de aliança entre Maria e os fiéis

Em pleno século XXI, quando boa parte das devoções populares são questionadas, e outras são taxadas de superstições sem base histórica, não terá o escapulário perdido seu valor, ficando reduzido a um quase amuleto, desprovido de qualquer significado mais profundo? Encontramos a resposta a essa pergunta na mensagem de São João Paulo II à Ordem do Carmo, em 25 de março de 2001. “No sinal do Escapulário”, afirma o Papa, “evidencia-se uma síntese eficaz de espiritualidade mariana, que alimenta a devoção dos fiéis, tornando-os sensíveis à presença amorosa da Virgem Mãe na sua vida. (…)

“São duas as verdades recordadas no sinal do Escapulário: por um lado, a proteção contínua da Virgem Santíssima, não só ao longo do caminho da vida, mas também no momento da passagem para a plenitude da glória eterna; por outro, a consciência de que a devoção a Ela não se pode limitar a orações e obséquios em sua honra em algumas circunstâncias, mas deve constituir um ‘hábito’, isto é, um ponto de referência permanente do seu comportamento cristão, tecido de oração e de vida interior, mediante a prática freqüente dos Sacramentos e o exercício concreto das obras de misericórdia espiritual e corporal. Desta forma o Escapulário torna-se sinal de ‘aliança’ e de comunhão recíproca entre Maria e os fiéis”.

“Também eu levo o escapulário em meu coração”

São João Paulo II foi sensível a esse “sinal de aliança”. No mesmo documento, é ele mesmo quem diz:

“Também eu levo no meu coração, desde há muito tempo, o Escapulário do Carmo! Pelo amor que nutro pela Mãe celeste de todos nós, cuja proteção experimento continuamente, desejo que este ano mariano ajude todos os religiosos e as religiosas do Carmelo e os piedosos fiéis que a veneram filialmente, a crescer no seu amor e a irradiar no mundo a presença desta Mulher do silêncio e da oração, invocada como Mãe da misericórdia, Mãe da esperança e da graça.”

De fato, em 13 de maio de 1981, dia do trágico atentado contra o Santo Padre, publicava o jornal La Repubblica:

“Quando o Pontífice entra na sala operatória, já se acha sem a batina branca. Pode-se ver o escapulário, dois pedacinhos de tecido de lã marrom, sobre o peito e sobre as costas, unidos por um cordão, com a estampa de Nossa Senhora do Carmo.”

Revista Arautos do Evangelho jul 2002

O cetro da misericórdia

Emelly Tainara Schnorr

Tempo houve em que, conforme narram as Sagradas Escrituras, o povo judeu recebeu a ameaça de ser exterminado pelo Rei Assuero. Nesse momento crucial da sua história, entrou em cena a rainha Ester intercedendo junto ao monarca pelos seus e obtendo-lhes a salvação (cf. Est 3 – 7). Recordemos como isso se deu.

Segundo as leis em vigor naquela época, era proibido o acesso de qualquer pessoa ao átrio interno do palácio real sem ter sido convocada. Quem ali ousasse entrar por própria iniciativa seria imediatamente condenado à pena capital, a não ser que o soberano levantasse seu cetro de ouro em direção ao intruso, como sinal de assentimento. Havia um mês que Ester não era chamada à presença de Assuero, quando Mardoqueu alertou-a sobre a trama do infame Amã. Confiando, porém, no Deus verdadeiro e nas orações feitas pelos seus, a rainha dirigiu-se aos aposentos reais. O anseio por obter a salvação do seu povo vencia em seu espírito o medo da morte. Ao vê-la, o monarca se alegrou e lhe estendeu o temido bastão de comando, cuja ponta ela se apressou a tocar em sinal de submissão. “Que queres rainha Ester?”, perguntou-lhe o soberano. “Ainda que pedisses a metade do meu reino ela te seria concedida” (Est 5, 3). A ameaça fora vencida.

Esta admirável cena da História Sagrada prefigura uma realidade mais elevada e comovente para nós, cristãos. Expulso do Paraíso e tornado inimigo de Deus por causa do pecado, o homem do Antigo Testamento estava subjugado ao domínio do demônio, muito mais cruel e tirânico do que os de Assuero ou Amã. Como podia fazer para entrar novamente no Palácio Celeste e recuperar as boas graças do Criador? Quem ousaria comparecer diante do Rei da Justiça para interceder pela humanidade revoltada contra seu boníssimo Deus e Senhor?

Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus” (Lc 1, 30). As singelas palavras do Anjo Gabriel deixam entrever o inefável amor do Altíssimo para com uma criatura, a mais santa e nobre entre todas. Desde o momento de sua Imaculada Conceição, Deus A inundara de graças e favores. E bastou, por assim dizer, que Ela tocasse a ponta do divino cetro onipotente, advogando pela vinda do Salvador, para ser imediatamente atendida.

A fulgurante virtude da donzela de Nazaré conquistara de tal forma a benevolência do Criador que Ele decidiu tomá-La por Esposa Imaculada e torná-La sua Mãe Virginalíssima. E depositando em suas alvíssimas mãos o cetro que simboliza o domínio sobre todos os homens, tornou-A Rainha de Misericórdia. Pela onipotência suplicante que Deus lhe concedeu, nada pode ser negado a tão bondosa Soberana.

Como uma nova Ester, a Santíssima Virgem achou graça aos olhos do Senhor em favor de todos os homens e conseguiu a metade do seu império divino. Ela detém o cetro da misericórdia, enquanto o seu Filho continua a ser o Rei da justiça. Sim, Maria é o ministro plenipotenciário da misericórdia divina; esse é o seu ministério. Assim como nos Estados os que têm de tratar de uma questão de finanças, de marinha ou de agricultura se dirigem aos ministros respectivos, do mesmo modo é à Mãe de Deus que devem recorrer os que têm necessidade de misericórdia”.1

Nunca nos cansemos, portanto, de recorrer a Ela nos momentos de dificuldade e aflição. Do cetro que Lhe foi entregue por seu Divino Filho emanará sempre a força necessária para enfrentarmos qualquer adversidade da vida, porque, mais ainda do que Rainha e Senhora, Ela é Mãe extremosa de cada um de nós. “Sobretudo nas horas de sofrimento e de tentação, sempre poderemos contar com esse fator de paz fundamental: Nossa Senhora estará comigo, ainda que eu não esteja com Ela. Não me abandonará nunca e me ajudará em todas as circunstâncias. Virá ao meu encontro com a exuberância de sua misericórdia, concedendo-me mais do que Lhe peço e mais do que Lhe retribuo, deixando-me pasmo e desconcertado diante de tudo o que Ela faz por mim”. 2

1 TISSOT, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas. 3.ed. São Paulo: Quadrante, 2003, p.117-118.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 16 jun. 1972.

A onipotência suplicante junto à Onipotência divina

Ir Cássia Thaís Costa Dias de Arruda, EP

Deus, sendo Onipotente, não tem necessidade de nenhum dos seres que criou. E também não precisaria ter criado Nossa Senhora para que as suas graças fossem comunicadas aos homens, salvando as almas por meio d’Ela. Como está acima de tudo, o Altíssimo poderia ter disposto as coisas de outro modo.

Entretanto, uma vez que Deus A criou por um ato libérrimo de sua vontade, e a cumulou de uma torrente de graças, que “sobrepujou não só a de cada um em particular, mas a de todos os Santos reunidos1, Deus lhe conferiu o império sobre todo o universo, de sorte que entre Ela e Deus, há “uma mediação de poder, e não apenas de graça, pela qual Deus executa todas as suas obras e realiza todas as suas vontades por intermédio de sua Mãe”. 2

Em virtude de sua maternidade divina, há entre a Santíssima Virgem e o Padre Eterno “certa unidade de parentesco e como que um consórcio jurídico”. 3 Esta íntima ligação entre Maria e a Trindade faz com que a sua súplica seja poderosa e eficaz. Ademais, Nosso Senhor Jesus Cristo, recebendo de Maria a natureza humana, dava a Ela todos os direitos maternos, “ao qual corresponde em Cristo uma como que obrigação de conceder-lhe o que Ela pede4 Por este motivo, Santo Efrém a Maria suplicava dizendo:

Em ti espero que conseguirei o que anseio […], pois em ti tens o querer e o poder, porque, ainda que de modo inexplicável, tu engendraste a um da Trindade; tens com o que persuadir e mover; mãos nas quais o levaste de maneira inefável, peitos com cujo leite virginal o alimentaste […]. 5

Recorramos aos Evangelhos para compreendermos a fundo a realidade desta questão.

Celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”. Disse, então, sua mãe aos serventes: “Fazei o que Ele vos disser”. […] Jesus ordena-lhes: “Enchei as talhas de água”. Eles encheram-nas até em cima. “Tirai agora, disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes.” E levaram. (Jo 2, 1-8).

Não havia sido comunicado a Maria que o vinho da festa acabara. Não estando Ela sentada à mesa –– fazia parte do costume judaico que, nos banquetes, as mulheres ficassem separadas dos homens, supervisionando o serviço de mesa ou preparando os alimentos 6 ––, percebeu a difícil situação na qual se encontravam os nubentes, e seu compassivo coração, não podendo presenciar embaraçosa cena, decide intervir junto ao seu Divino Filho. Julgava Ela ser esta a ocasião preparada pela Providência para Jesus finalmente revelar ao mundo o seu segredo messiânico.

Nosso Senhor, possuindo o conhecimento perfeitíssimo de todas as coisas, sabia da dificuldade pela qual aquele novo casal estava passando, mas queria servir-se da aflição deles para “instruir seus discípulos e associar Nossa Senhora à sua obra, mostrando o papel decisivo da mediação de sua Mãe”. 7 Depois de afirmar não ter ainda chegado o momento dos milagres, Cristo transforma a água em vinho e deixa marcado para a História que, “apesar de não haver chegado a hora, por uma palavra dos lábios da Mãe, Ele nos atenderá”. 8

Deus “concedeu-lhe plenos poderes a fim de nos valer”. 9 Ela é “o ponto de convergência e de espargimento de todas as graças divinas”. 10 Todos os pedidos feitos através d’Ela são agradáveis aos olhos de Deus, pois só Ela encontrou graça diante d’Ele, como declarou o Arcanjo São Gabriel no momento da Anunciação: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus” (Lc 1, 30).

Posta por Deus ao alcance de todos os homens, a Virgem Imaculada obtém do Pai tudo aquilo que só com as nossas orações jamais conseguiríamos alcançar. Invocar o socorro de Maria significa obter os favores celestes, pois assim está determinado pela Providência: tudo o que precisamos, haveremos de receber por intermédio da Auxiliadora dos Cristãos. Afinal, “quem é aquele que pediu socorro a esta doce Soberana e ela não o atendeu? […] Quem jamais solicitou vosso poderoso patrocínio e por [ela] foi desamparado? Tal caso nunca se deu e nunca se há de dar”. 11

Eia, pois, Advogada nossa”, ensina a Igreja, a todos os seus fiéis, a invocar esse auxílio. Ao advogado cabe interceder por seus clientes até que o juiz se torne favorável à sua causa. Esta é a tarefa que a Santíssima Virgem exerce por meio de suas súplicas.

Alguém poderia pensar que seria mais lógico pedir, de uma só vez, auxílio a todos os santos que estão no Céu, pois tendo eles já alcançado a bem-aventurança eterna, também têm o poder de rogar pelos homens junto a Deus. Um pedido feito em coro não seria mais eficaz do que o feito por uma só? Não é assim que as coisas se dão no Céu. Como afirma o Santo Padre, o Papa Pio VII, “as preces dos demais bem-aventurados se apoiam unicamente na benignidade divina; as de Maria, em certo maternal direito. Por isso, acercando-se ao trono de seu divino Filho, pede como advogada, ora como serva, impera como Mãe”. 12 A este respeito, dirige Santo Efrém uma belíssima prece à Rainha de todos os santos, que comprova como já naqueles séculos era reconhecida a suprema prelazia dos rogos de Maria. “Por isso, acudo somente a tua eficacíssima proteção, oh! Senhora, Mãe de Deus! […] Tu, como nenhum outro, tendes livre acesso para com aquele que de ti nasceu”. 13

Tão grande é, portanto, o poder de intercessão da Imaculada, que com razão Ela é exaltada pela Igreja com sendo a “Onipotência suplicante”. Todas as esperanças de reconciliação se encontram em Maria: Ela é uma “rainha onipotente, porque pode tudo junto d’Aquele que tudo pode, e que A constituiu Medianeira de todas as suas graças”. 14

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. p. 58.
2 Ibid. p. 53.
3 “seguiéndo-se de aqui entre María y el Padre celestial cierta unidad parental y como un consorcio jurídico” (ALASTRUEY, Gregório. Tratado de la Virgen Santisima. Madrid: BAC, 1956. p. 777. Tradução da autora).
4 “al cual corresponde en Cristo una como obligación de concederle lo que Ella le pide” (Loc. cit. Tradução da autora).
5 “en ti espero que conseguiré lo que ansío […], pues en ti tienes el querer y el poder, porque, aunque de modo inexplicable, tú engendraste a uno de la Trinidad; tienes con qué persuadir y mover; manos en las que le llevaste de manera inefable, pechos con cuja leche virginal le alimentaste…” (SANTO EFRÉM apud ALASTRUEY, Gregório. Op. cit. p. 767. Tradução da autora).
6 TUYA, Manuel. Bíblia comentada. Madrid: BAC, 1964, 999-1000.
7 AQUINO, Maria Teresa de Melo. Maria no Novo testamento. Aula de Mariologia no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica-IFTE. Caieiras, 2011. (Folha guia).
8 Loc. cit.
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Op. cit. p. 395.
10 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Medianeira onipotente. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 56, Nov. 2002. p. 36.
11 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Glórias de Maria. Aparecida: Santuário, 1987. p. 117.
12 “las preces de los demás bienaventurados se apoyan únicamente en la benignidad divina; las de María, en cierto maternal derecho. Por eso, acercándose al trono de su divino Hijo, pide como abogada, ora como sierva, impera como Madre” (PIO VII apud ALASTRUEY, Gregório. Op. cit. p. 770. Tradução da autora).
13“por eso acudo a tu sola eficacísima protección, ¡oh Señora, Madre de Dios!… Tú como ningún otro, tienes gran confianza (libre acceso) con aquel que de ti nació” (SANTO EFRÉM apud ALASTRUEY, Gregório. Tratado de la Virgen Santisima. Madrid: BAC, 1956. p. 770. Tradução da autora).
14 CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Medianeira onipotente. Op. cit. p. 36.

Fera ou Anjo

Irmã Isabel Cristina Lins Brandão Veas, EP

Encantadoramente vivaz, delicado e distinto em todos os seus gestos, o gato é um verdadeiro bibelô vivo. Mas conserva em seu olhar a terrível e atraente superioridade do mistério.

Apesar de tão irracionais quanto o universo inanimado, os animais realçam aos nossos olhos a grandeza e a sabedoria do Altíssimo, no insondável mistério da vida, a qual enobrece as criaturas a ponto de uma minúscula formiguinha ocupar, na ordem dos seres, posto mais elevado do que um imponente penhasco sobre o qual esteja caminhando.

Mas o mundo animal nos sugere também outras ideias. Enquanto as espécies mais elegantes e atraentes nos reportam logo à Beleza Suprema, diante daquelas disformes e repulsivas “sentimos melhor nossa dignidade natural, compreendemos a fundo a hierarquia que o Senhor pôs no universo e, amando nossa própria superioridade e a santa desigualdade da criação, elevamo-nos também até o Criador”. 1

Ademais, tal é a magnificência da fauna que, observando-a em seus detalhes, veremos como muitas espécies apresentam, em seu modo de ser, analogias com qualidades e defeitos do homem, proporcionando valiosos conhecimentos a quem as analisa. Pode-se aplicar, aqui, as palavras de Jó: “Pergunta, pois, aos animais, e eles te ensinarão, às aves do céu e elas te instruirão. Fala aos répteis da terra, e eles te responderão, e aos peixes do mar, e eles te darão lições” (Jó 12, 7-8).

Vejamos, então, que ensinamentos nos proporciona um animal de extraordinária riqueza de aspectos: o gato.

Difícil de ser definido é o seu comportamento, capaz de atingir extremos opostos. Tomando ares de pouco caso a respeito do que se passa à sua volta, o sutil felino não se desliga em nenhum momento da realidade exterior; deita de vez em quando um olhar vigilante, deixando entrever uma cautela disfarçada pela aparente despreocupação. Cautela tão acesa que ele nunca escorrega dos estreitos muros onde caminha, dando mostras de desconhecer a vertigem. E, se o derrubam, sempre cai de pé. Porém, ao mesmo tempo, por detrás dos olhos perscrutadores desse membro da família dos felídeos, se oculta um tigrezinho disposto a arranhar, morder ou quebrar tudo quanto estiver à sua frente, quando alguém ousa perturbá-lo.

Contudo, quando essa pequena fera é domesticada, sua rudeza natural desaparece e ela se transforma em um animal “encantadoramente vivaz, delicado e distinto em todos os seus gestos, expressivo em suas atitudes, carinhoso, mimoso, em suma, um verdadeiro bibelô vivo. Bibelô, entretanto, que não tem certo ar de bagatela, inseparável em geral até dos bibelôs mais finos. Porque em seu olhar, que tem algo de magnético e insondável, de reservado e enigmático, o gato conserva a terrível e atraente superioridade do mistério”. 2 Amansado pelos cuidados da civilização e acostumado ao convívio das pessoas educadas, o bichano adquire um cunho de graça e vivacidade, e quase parece ter algo de espiritual.

Sob tal aspecto, não será difícil ao homem encontrar nesse felino uma semelhança com sua própria natureza, pois, muito mais do que no gato, há nesta uma dualidade: “O homem, concebido em pecado original, tem em si, por assim dizer, uma fera e um anjo”.3

Com o Batismo, é dado ao homem o elemento indispensável para tornar-se semelhante aos espíritos celestes: a graça. Fiel a ela, o cristão adquire tal similitude com o mundo angélico que o Apóstolo não hesita chamá-lo de “homem espiritual” (I Cor 2, 15). E aqui cessam as analogias entre gato e homem, sob este ponto de vista. A alma santificada em nada se assemelhará a um mimoso felino, porque a graça não produz bibelôs, mas forma heróis, em sua principal e constante batalha contra a “fera” que se encontra dentro de si mesma.

1CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Não se deve tirar o pão dos filhos para lançá-lo aos cães. Ambientes, Costumes, Civilizações. In: Catolicismo. Campos dos Goytacazes. Ano VII. N.81 (Set., 1957); p.7.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Civilização e Tradição. Ambientes, Costumes, Civilizações. In: Catolicismo. Campos dos Goytacazes. Ano X. N.109 (Jan., 1960); p.7.
3 Idem, ibidem.

Paciência e Mansidão

Griselda Maria Tavarez Castillo

A prática das virtudes na atitude dos santos

É natural que amiúde nos aconselham a suportar pacientemente as dificuldades que surgem no meio de nosso caminhar por esta vida, mas, será que realmente sabemos no que consiste esta virtude ou como nós podemos praticá-la? É necessário e de suma importância que saibamos no que se fundamenta essa virtude, como podemos pô-la em prática e por que devemos praticá-la.

Se consultarmos o Evangelho, verificamos que Nosso Senhor Jesus Cristo, explícita ou implicitamente, nos convida à prática desta virtude para alcançarmos a perfeição cristã, dizendo a seus discípulos: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas.“(Mt 11, 29). Então, ao analisar esta frase, surge a seguinte pergunta: Como podemos ser paciente para nos assemelharmos a Deus?

O grande Santo Tomás de Aquino sabiamente afirma: “A paciência é uma virtude que se relaciona com a virtude da fortaleza e impede o homem de se distanciar da reta razão iluminada pela fé e sucumbir às dificuldades e tristezas“.1 Portanto, paciente é aquele que sabe conservar a calma ante as mais duras provas e que, apesar dos sofrimentos e tribulações, mantém a alegria e a certeza de que não será abandonado por Deus. Em suma, possui o domínio da alma perante qualquer tormento externo que se possa experimentar.

A virtude da paciência tem uma relação estreita e direta com a virtude da fortaleza, mas não se deve confundi-las, porque ” cabe à fortaleza suportar não quaisquer males, mas aqueles que são os mais duros, ou seja, os perigos mortais. Ao passo que a paciência pode aturar males de qualquer espécie”.2 Embora sejam distintas, podem ser relacionadas, já que, para exercitar a paciência, é necessário ter fortaleza de espírito, ” é mais árduo para um soldado aguentar muito tempo sob balas em uma trincheira úmida e fria do que tomar parte em um ataque com todo o ardor do seu temperamento“.3

Esta virtude é tão rica que pode ser relacionada com muitas outras virtudes, como por exemplo a virtude da caridade. O próprio São Paulo, em uma de suas cartas aos Coríntios, assegura: “A caridade é paciente […]tudo crê, tudo espera, tudo suporta ” (I Cor 13, 4.6).

É justo que nesse “suportar todas as coisas com mansidão” se encontre o segredo da verdadeira paciência. Exemplos da prática desta virtude podem ser vistos nas atitudes dos santos, que, sofrendo desde pequenos, compreendem até o fundo a vida, que a Salve Rainha qualifica de “vale de lágrimas”. Mas, apesar desses sofrimentos, não apresentam qualquer sinal de desânimo, acidez ou amargura. Pelo contrário, acima de tudo, transparecem a doçura, a gentileza e a bondade. Eles demonstram possuir o bem-estar da virtude, da aceitação de um sofrimento vivido em paz.

Quanto à mansidão, pode-se dizer que “deve acompanhar a paciência, mas difere desta na medida em que tem como um efeito especial, não só superar as adversidades da vida, mas conter os movimentos desordenados da ira“.4 Não se deve, entretanto, confundir esta virtude com a brandura de temperamento, já que qualquer um, não importa o seu temperamento, pode praticar esta virtude, porque “a placidez de temperamento é exercida sem dificuldade para com aqueles que são de nosso agrado e com dureza para com os demais”, enquanto que,” a mansidão como virtude, evita essa amargura e dureza, em todas as circunstâncias e com todas as pessoas”.5

Atualmente, muitas pessoas interpretam mal o verdadeiro significado da paciência ao pensar que paciente é aquele que suporta todas as injustiças, não expressando sua repulsa ao pecado ou às faltas que podem ser cometidas. Isso é apenas uma falsa concepção do que é essa virtude, porque “quando é preciso usar a severidade, muitas vezes necessária, o paciente sabe fazê-la acompanhar de um amável ar de tranquilidade, como a clemência mitiga o castigo recebido”.6

Portanto, podemos concluir que, quando entendemos a mansidão e paciência desta forma, podemos pô-la em prática tanto em nossas palavras como em nossas atitudes, mas também fazê-la reinar em nossos corações, com a certeza de que ao praticá-la receberemos o prêmio que Nosso Senhor Jesus Cristo promete: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt 5, 5).

1SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.136, a.1.
2SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.136, a. 4.
3GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Las tres edades de la vida interior. Madrid: Palabra, 2003, v.II, p. 650.
4SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.157, a.1 y 2.
5GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. Las tres edades de la vida interior. Madrid: Palabra, 2003, v.II, p.652-653.
6Ibid. p.653.