O senso do ser

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

A ideia fundamental que é ponto de partida para todas as outras ideias de um ser inteligente é que ele existe. Seria impossível ao homem conceber qualquer ideia se não tivesse o apoio da ideia de que algo é, pois, ignorando o que é o ser, não saberia que algo é. Ser e essência ― o quid, o que a coisa é ― são, portanto, as duas primeiras concepções do intelecto, pressupostos de todas as demais ideias. O homem é, portanto, a única criatura entre as materiais ― racional e espiritual ― que, além de existir, sabe que existe, por possuir uma intuição, uma noção que é anterior até mesmo a este elementar conhecimento intelectual de si mesmo. Segundo o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “de fato há algo anterior: a matéria-prima para a noção de ser é inata.1 Ela se desperta no contato com a realidade. É um conhecimento germinativo primeiro, é o conhecimento que o ser tem de que ele é. E algo, que não é ele, é também. Tem a capacidade de refletir: ele se conhece e conhece a coisa, e refletindo desenvolve o primeiro conhecimento”.2 Esta noção é chamada de senso do ser. Este não exige nem mesmo o pleno uso da razão ― funciona como um hábito existencial ―, e só a partir dele será possível chegar a todos os outros conhecimentos.

Assim, quando a criança está ainda no berço, com suas primeiras percepções, investigando o que existe, com um olhar perscrutador, está no alvorecer do seu senso do ser posto já em movimento, conhecendo. Tal noção de ser é sumamente substanciosa para o homem, como alimento próprio à sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental, uma vez que se não fossem verdadeiras e reais suas apreensões, ele não poderia fazer o uso reto de sua razão. O mesmo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira chega a afirmar:

No espírito humano as regras da lógica são subconscientes. A lógica não faz senão explicitar essas regras. Um homem que não tivesse essas regras invisceradas, como coisas conaturais a seu espírito, seria louco. Um espírito pode ser extremamente primitivo e, ao mesmo tempo, inteiramente lógico. No subconsciente humano cabem tesouros de filosofia, de conhecimento, que, embora implicitamente, são condições para a sanidade mental.3

Esses estímulos iniciais e espontâneos do ser humano, enquanto racional, lhe dão segurança na busca dos objetivos aos quais foi destinado. Por exemplo, se forem dadas algumas bolinhas de cores diferentes a um bebê, para brincar, ele vai escolher a que mais lhe agrada; depois escolherá outra e assim sucessivamente. É a busca instintiva do verdadeiro, do bem e do belo que o levará a escolher uma das bolinhas como a principal, que para ele será a melhor e mais bonita. São os reflexos que antecedem a capacidade de julgar conforme princípios claros e estabelecidos.4 E a criança sabe que a bola não é ela e que uma bola não é a outra. Tem inatos os princípios de identidade e contradição: “o que é, é; o que não é, não é” e “o que é, não é o que não é”.5

Tal conhecimento já começa a manifestar-se quando o bebê abre seus olhos para a luz, distinguindo seu ser do de sua mãe; percebendo que o chocalho é real e verdadeiro, pois escuta seu barulho, que o leite é branco e lhe satisfaz a sensação de fome, sendo por isso bom, que a luz e as cores são atraentes e belas, entretendo-o e fazendo com que ele queira conhecer e aprender mais e mais. Tem ele uma intuição de que sempre há algo mais para conhecer, para além daquela realidade que vê e apreende experimentalmente, ainda sem compreender conceitualmente qualquer expressão abstrata e formal. Em nenhuma época se aprende tanto como quando se é criança, e esta não dissocia o entreter-se do compreender. “Neste nosso mundo de seres ao qual ela acaba de aportar, o ser do homem desabrocha e exclama por consonância com a verdade, bondade e beleza dos seres que observa”.6

Sem saber ainda nenhum conceito metafísico, está a criança ordenadamente conhecendo cada ente em suas propriedades transcendentais ― res, unum, aliquid, verum, bonum, pulchrum ―, seguindo a lógica de seu processo dedutivo, de modo instintivo pelo seu senso do ser. Para o Fr. Garrigou-Lagrange, OP,7 a primeira apreensão intelectual leva precisamente ao ser inteligível das coisas sensíveis. Enquanto a vista alcança o real material, a forma e a cor, a inteligência o alcança como real inteligível. Assim como o ouvido alcança o real como sonoro, e o paladar percebe o mais ou o menos gostoso, a inteligência o capta como real inteligível e verdadeiro. Tem assim, em seu primeiro contato com as coisas, uma primeira noção confusa do ser e do verdadeiro. A partir daí, a inteligência busca o que excede aos sentidos e à imaginação: as razões de ser das coisas, seu porquê, sua causa. Por exemplo: por que um relógio se movimenta, razão que nenhum animal pode perguntar-se.

Deste modo, nossa inteligência, desde o primeiro contato com o real inteligível, compreende que o verdadeiro é o que é, e o juízo verdadeiro é aquele que é conforme com a realidade.

1) O conceito “inato” é empregado neste artigo no sentido de uma percepção intuitiva inerente ao próprio ser humano ― mesmo não tendo ainda ideias concebidas ―, supondo o pleno desenvolvimento do uso da razão para sua perfeita intelecção. De modo que, se falta a um indivíduo a sanidade mental, ser-lhe-á inteiramente impossível tomar consciência desta intuição, que se desperta no contato com as realidades e circunstâncias exteriores.
2) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O alvorecer do senso do ser. São Paulo, 4 maio 1988. Palestra. (Arquivo IFAT).
3) Id. Considerações sobre o processo humano. São Paulo, 1973. Conferência. (Arquivo IFAT).
4) Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Os dois filhos da parábola, e os dois outros. Arautos do Evangelho, São Paulo, ano 4, n. 45, set. 2005, p. 7-8.
5) Para mais detalhes, ver: GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. El sentido común: la filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Buenos Aires: Desclée de Brouwer, 1945, p. 148-149.
6) CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O primeiro olhar da inteligência. Lumen Veritatis, São Paulo, ano 3, n. 12, jul./set. 2010, p. 14.
7) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE. Op. cit. p. 330-332.

Lumen Veritatis – Vol. 6 – Nº 22 – Janeiro a Março – 2013

Humildade: o que é?

Ir. Ariane da Silva Santos, EP

Imaginemos uma bela catedral, cujos alicerces estão fundados em rocha sólida. No topo de sua cúpula, há uma pedra angular que sustenta toda a construção. Por um efeito extraordinário qualquer, com o passar do tempo, tanto a rocha que está sob os fundamentos quanto a pedra angular se transformam em dois lindos topázios… Tal é a humildade no conjunto das virtudes: ela é o fundamento e a pedra angular da vida espiritual. Ao contrário do que se poderia julgar, não é ela uma pedra bruta, mas sim o mais precioso esteio da santidade, “a melhor garantia da graça e das demais virtudes”, 1 a joia de grande valor com a qual se compra o Reino dos Céus!

Sim, pois, conforme ensina São Tiago em sua epístola, “Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes” (Tg 4, 6). Uma vez que a graça é necessária para salvar-se, concluímos facilmente que a humildade é conditio sine qua non para obter a eterna bem-aventurança.

Mas, o que vem a ser propriamente a humildade? É a virtude que nos leva a reconhecer que a única coisa que possuímos são nossas faltas, e se algo de bom fizemos, foi por iniciativa e inspiração divina: “É Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar” (Fl 2, 13). Ela “nos inclina a coibir o desordenado desejo da própria excelência, dando-nos o conhecimento acertado de nossa pequenez e miséria principalmente em relação a Deus”. 2

A humildade nada tem de hipocrisia. Ela é “luz, conhecimento, verdade; não fingimento nem negação das boas qualidades que se recebeu de Deus. Por isso dizia admiravelmente Santa Teresa que a humildade é andar na verdade”, 3 aponta o Pe. Royo Marin. Enfim, é a humildade como uma tocha acesa que incessantemente deita seus fulgores sobre as almas, como observa Afonso Maria de Ligório: “os orgulhosos [estão] às escuras, pois mal conhecem o seu nada; a humildade é a luz que dissipa essas horríveis trevas”. 4

Quem se humilhar será exaltado

No Evangelho, encontramos narrada a célebre parábola do fariseu e do publicano. Ambos sobem ao Templo para rezar. O fariseu, inflado de orgulho, aproxima-se do altar e começa a dizer: “Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens, ladrões, injustos, e adúlteros; nem como o publicano que está ali” (Lc 18, 11). O publicano, no entanto, permanecendo à distância, batia no peito, nem sequer ousava erguer os olhos aos céus, e depositava a esperança de seu coração em Deus. 5 Bem podemos imaginar que o fariseu, no fundo de sua consciência, injuriava o publicano. Este, porém, reconhecia suas faltas e certamente rezava por aqueles que o perseguiam…

O publicano não estava preocupado com o que diriam a seu respeito, muito pelo contrário: ocultamente batia no peito, pedindo perdão a Deus, consciente de que tinha andado mal. É esta uma das características da humildade, como afirma São Tomás: “A humildade reprime o apetite, para que ele não busque grandezas além da reta razão”. 6 E mais adiante: “É próprio, pois, da humildade, como norma e diretriz do apetite, conhecer as próprias deficiências”. 7

Nosso Senhor conclui a parábola dizendo que o publicano voltou para sua casa justificado. Ainda que aos olhos dos outros ele continuasse sendo um cobrador de impostos, ladrão e até mesmo corrupto, aos olhos de Deus estava livre de qualquer mancha. Quanto ao fariseu… “Pobre fariseu! Não se dava conta dos males que despencavam sobre ele, pelo fato de procurar a glória onde não existia”. 8

Assim, por mais pecador que alguém seja e que tudo pareça estar perdido, olhar para o Céu e reconhecer-se miserável é o grande passo que atrai o beneplácito de Deus, pois “o Senhor ama o seu povo, e dá aos humildes a honra da vitória” (Sl 149, 4).

1 ROYO MARÍN. Teología de la salvación. Op. cit. p. 115.
2 ROYO MARÍN, Antonio. Teologia de la perfección cristiana. 11. ed. Madrid, BAC, 2006, p. 612: “nos inclina a cohibir el desordenado apetito de la propia excelencia, dándonos el justo conocimiento de nuestra pequeñez y miseria principalmente con relación a Dios”. (Tradução da autora)
3 Ibid. p. 613: “La humildad es luz, conocimiento, verdad; no gazmoñería ni negación de las buenas cualidades que se hayan recibido de Dios. Por eso decía admirablemente Santa Teresa que la humildad es andar en verdad”. (Tradução da autora)
4 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A selva. Porto: Fonseca, 1928, p. 91.
5 Cf. CLÁ DIAS. João Scognamiglio. O pedido de perdão deve ser nosso frontispício de todas as nossas orações. Homilia. São Paulo, 21 mar. 2009 (Arquivo IFTE).
6 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q. 161,a.1,ad 3.
7 Ibid. a. 2.
8 CLÁ DIAS. Quando é inútil rezar? In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. v. VI, p. 429.

Riqueza de aspectos da Celebração Eucarística (Continuação)

Irmã Monica Erin MacDonald, EP

Microcosmos organizado de forma a elevar o espírito

O espaço em que a Celebração Eucarística se desenvolve está ordenado de modo a facilitar essa união da comunidade em Cristo.

Ao cruzar os umbrais do templo, a pessoa é envolvida por um ambiente que procura tirá-la da rotina cotidiana e fazê-la sentir-se na antessala do Paraíso. Ela entra num recinto sagrado, isolado tanto quanto possível das banalidades do mundo exterior, num microcosmos organizado de forma a elevar o espírito para os mistérios que vão ser celebrados. 10

Mas, ao mesmo tempo em que os limites entre o interior e o exterior são categoricamente definidos e separados, em sentido oposto, a fronteira entre o mundo físico e o espiritual se torna mais tênue e incerta. Porque a própria estrutura arquitetônica de um templo, independente do seu valor histórico ou artístico, está destinada a pôr o espírito face à grandeza do divino.

Assim, o lugar santo deve estar em perfeita harmonia com as palavras, gestos e atos litúrgicos que compõem a ação sagrada por excelência. A decoração, as vestimentas, os vasos sagrados podem ser ricos ou simples, mas sempre dignos e adequados à elevada função à qual se destinam.

Água, fogo, incenso

Dentre os elementos cósmicos usados na Liturgia, talvez seja o fogo o mais rico em significado.

Ele representa para o cristão a ação transformante do Espírito Santo, assim como o amor ou fervor interior. Línguas de fogo pousaram sobre Maria e os Apóstolos no dia de Pentecostes (cf. At 2, 3). Uma lâmpada de azeite se consome diante do Santíssimo, em perene adoração. E velas ardem no altar durante a Missa. No Sábado Santo, na bênção do fogo novo, o mais espiritual dos quatro elementos como que renasce junto com Cristo Ressuscitado, a Luz do Mundo, o Sol que nunca se põe. O Círio Pascal representa nosso Redentor e todas as outras velas recebem dele a sua chama.

A água, por sua vez, em oposição ao fogo, tem propriedades purificadoras e regeneradoras, e por isso o celebrante a usa para limpar as mãos antes de iniciar a Oração Eucarística. Fonte de vida no mundo material, é esse também seu simbolismo no Sacramento do Batismo. Uma pequena quantidade de água é misturada ao vinho, representando a parte humana do sacrifício, o sangue e a linfa que escorreram do lado de Cristo, a união entre Cristo e a Igreja. 11

Ligado ao fogo está, por sua vez, o incenso. A fumaça perfumada que se evola simboliza a oração e é sinal de honra para com as coisas e pessoas sagradas. Ele é usado em momentos-chave: o início da Celebração, o anúncio do Evangelho, o Ofertório e a Elevação da hóstia e do cálice após a Consagração.

Gestos e silêncio

Na Ars celebrandi, têm papel preeminente também os gestos do celebrante, reforçando poderosamente as palavras por ele pronunciadas.

Durante a Oração Eucarística, o sacerdote estende as mãos, palmas para baixo, como um sinal da invocação do Espírito Santo. Ao abrir os braços, ele simboliza Cristo pregado na Cruz. Suas mãos erguidas indicam que sua oração é dirigida a Deus pelo povo. Quando ele junta as mãos e se inclina, denota a humildade de Cristo. Na Liturgia, assim como as palavras têm a força das próprias palavras de Cristo, os gestos são os gestos d’Ele.

O silêncio na Liturgia não é um interlúdio mudo e vazio, mas é conatural com a oração, a contemplação e a abertura para o sobrenatural. Um período de silêncio marca um momento de grandeza e solenidade, conforme demonstrado na narração da Liturgia celestial do Apocalipse: “E quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, fez-se silêncio no Céu por quase meia hora” (Ap 8, 1).

No sagrado contexto da Liturgia, esses aspectos simbólicos ganham em vida e significado. “Uma vez iluminadas as inteligências e aquecidos os corações, os sinais ‘falam’”. 12

Ascensão gradual da alma rumo à união com Deus

Ora, não é só nos ritos e gestos isolados que encontramos a dimensão simbólica da Celebração Eucarística. Ela se revela também na sua própria estrutura, que os unifica num vibrante contexto.

Os passos cadenciados e solenes da procissão de entrada em direção ao Presbitério simbolizam o cortejo da Igreja na terra para a Jerusalém celestial. 13 Mas o desenvolvimento da celebração retrata a ascensão gradual da alma rumo à união com Deus. O rito penitencial corresponde ao estágio purgativo da vida espiritual, durante o qual a alma se purifica dos seus defeitos; a Celebração da Palavra, ao iluminativo; e, finalmente, o estágio da perfeita união, à presença real. 14

“A Liturgia tem uma ligação intrínseca com a beleza”

Pela Liturgia, como vimos, Cristo continua na Igreja, com ela e por ela, sua função sacerdotal. Desse modo, “a beleza de uma Celebração Eucarística não depende essencialmente da beleza da arquitetura, das imagens, dos ornatos, dos cânticos, das sagradas vestes, da coreografia e das cores, mas antes de tudo da capacidade de revelar-se o gesto de amor praticado por Jesus. Por meio dos gestos, das palavras e das orações da Liturgia devemos reproduzir e fazer transparecer os gestos, orações e palavras do Senhor Jesus”. 15

Entretanto, sendo Ele “o mais belo dos filhos dos homens” (Sl 44, 3) e a Beleza em essência enquanto Deus, a Liturgia está inseparavelmente vinculada à beleza, como clarissimamente ensina o Papa Emérito Bento XVI na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis:

“A relação entre mistério acreditado e mistério celebrado manifesta-se, de modo peculiar, no valor teológico e litúrgico da beleza. De fato, a Liturgia, como aliás a revelação cristã, tem uma ligação intrínseca com a beleza: é esplendor da verdade (veritatis splendor). Na Liturgia, brilha o mistério pascal, pelo qual o próprio Cristo nos atrai a Si e chama à comunhão. […]

“A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal. A beleza da Liturgia pertence a este mistério; é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o Céu que desce à Terra. O memorial do sacrifício redentor traz em si mesmo os traços daquela beleza de Jesus testemunhada por Pedro, Tiago e João, quando o Mestre, a caminho de Jerusalém, quis transfigurar-Se diante deles (cf. Mc 9, 2-7). Concluindo, a beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isto nos há de tornar conscientes da atenção que se deve prestar à ação litúrgica para que brilhe segundo a sua própria natureza”. 16

O poder de atração da beleza

A beleza tem uma capacidade única de atrair o espírito humano, muito mais do que as ideias ou as doutrinas. E a Celebração Eucarística, em sua resplandecente conjugação de estímulos visuais, sonoros e olfativos, é um eficaz instrumento para conduzir à beleza suprema de Deus.

Ela cria um terreno fértil para engajar a pessoa inteira, “espírito e coração, inteligência e razão, capacidade criativa e imaginação”. A via da beleza descerra horizontes infinitos que impelem o ser humano a “abrir-se ao Transcendente e ao Mistério, a desejar, como fim último de seu desejo de felicidade e de sua nostalgia de absoluto, essa Beleza original que é o próprio Deus”. 17

A importância da beleza na Liturgia, enquanto possante fator de conduzir as almas à beleza suprema de Deus, pode ser facilmente notada no empenho do Papa Bento XVI em que se tenha o máximo de cuidado na celebração dos atos litúrgicos: “Sem dúvida, a beleza dos ritos nunca será bastante procurada, nem suficientemente cuidada nem assaz elaborada, porque nada é demasiado belo para Deus, que é a Beleza infinita. As nossas liturgias terrestres não poderão ser senão um pálido reflexo da liturgia que se celebra na Jerusalém do Céu, ponto de chegada da nossa peregrinação na Terra. Possam, porém, as nossas celebrações aproximar-se o mais possível dela, permitindo-nos antegozá-la!”. 18

Importância do esplendor e perfeição dos ritos no mundo de hoje

Embora submetidas a alterações quanto à forma ao longo dos séculos, as celebrações litúrgicas, em especial a da Eucaristia, constituem o cerne da experiência do transcendente. Mesmo sem considerar os efeitos sobrenaturais produzidos pelo seu caráter sacramental, a beleza, o simbolismo e a estrutura do culto divino outorgam-lhe um papel fundamental na experiência humana, saciando o anseio da alma pela verdade e pelo bem.

Ora, nesta época de pragmatismo, mecanização e globalização, o esplendor e a perfeição na realização dos ritos litúrgicos adquirem uma importância cada vez maior. Neles o homem contemporâneo encontra como que um oásis de verum, bonum e pulcrum num mundo tão desprovido de beleza. Na Liturgia da Santa Igreja, além das graças necessárias ao progresso da alma na virtude, o espírito humano encontra incomparável alimento para o seu inato desejo do Absoluto, porque no centro da beleza e misticismo atemporais da Liturgia, dando-lhe estrutura e sentido, encontra-se a Beleza Eterna, Divina e Infinita. O próprio Deus.

10 Cf. PASTRO, Cláudio. O Deus da beleza: a educação através da beleza. São Paulo: Paulinas, 2008, p.69.
11 GARRIDO BONAÑO, OSB, Manuel. Curso de Liturgia Romana. Madrid: BAC, 1961, p.326327.
12 JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Mane nobiscum Domine, n.14.
13 Cf. ELLIOT, Peter. Guía práctica de la liturgia. 4.ed. Pamplona: EUNSA, 2004, p.72.
14 Cf. ARBOLEDA MORA, Carlos. Los alcances de la fe en la posmodernidad. In: Revista Lasallista de Investigación. Corporación Universitaria Lasallista – Colombia. v.V. N.2 (jul.dez., 2008); p.140.
15 MARINI, Piero. Liturgia e Bellezza – Nobilis Pulchritudo. Cidade do Vaticano: LEC, 2005, p.79.
16 BENTO XVI. Sacramentum caritatis, n.35.
17 PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A CULTURA. A “Via pulchritudinis”. Documento final da Assembleia Plenária, 2006, II.3.
18 BENTO XVI. Homilia na celebração das vésperas na Catedral de Notre Dame. Paris, 12/9/2008.

Maria Santíssima: O arco-íris da esperança

arco_iris2Maria Teresa Pinheiro Lisboa Miranda

Após uma forte chuva numa pequena cidade do interior, onde não havia arranha-céus para encobrir o horizonte, deparei-me com um lindo arco-íris. Maravilhada, lembrei-me da história de Noé e da surpreendente afirmação que ouvi em idos tempos numa aula de catecismo: o arco-íris surgido no céu após o dilúvio foi uma pré-figura de Nossa Senhora. Recordemos um pouco a história narrada pelo Gênesis, para melhor compreendermos tão belo simbolismo.

Naquele tempo, “o Senhor viu que a maldade dos homens era grande na Terra (…) Então Deus disse a Noé: ‘Faze para ti uma arca de madeira resinosa (…) Eis que vou fazer cair o dilúvio sobre a Terra (…) Tudo que está sobre a Terra morrerá. Mas farei aliança contigo: entrarás na arca com teus filhos, tua mulher, e as mulheres dos teus filhos. De tudo o que vive, de cada espécie de animais farás entrar na arca dois, macho e fêmea, para que vivam contigo”.

“O dilúvio caiu sobre a Terra durante quarenta dias. (…) As águas inundaram tudo com violência, e cobriram toda a Terra, e a arca flutuava na superfície das águas. (…) As águas cobriram todos os altos montes. (…) Elas cobriram a Terra pelo espaço de cento e cinquenta dias.””Depois do dilúvio, disse também Deus a Noé: “Faço esta aliança convosco: nenhuma criatura será mais destruída pelas águas do dilúvio (…) Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a Terra”.”

Decorridos alguns milênios tendo o coração dos homens se voltado novamente para o mal e chegada a hora de misericórdia prevista pelos profetas Deus enviou o seu próprio Filho para tirar a humanidade do dilúvio de iniquidade que inundava a Terra, e convidar os homens para entrar na nova arca. Não em uma arca material, construída por mãos humanas, mas sim, na arca por excelência: a Santa Igreja edificada pelo próprio Filho de Deus feito Homem. E para nos proteger e manter uma estreita aliança conosco, nos enviou também um arco-íris. Mas… que arco-íris? Não um mero fenômeno natural mostrando sete cores, mas sim um arco-íris vivo: Maria, a Mãe de Deus, Aquela na qual os sete dons do Espírito Santo refulgem com inigualável magnificência.

Eis o que, no século XIV, Nossa Senhora, dirigindo-se a Santa Brígida, afirmou:
Eu me estendo sobre o mundo em contínua oração, assim como sobre as nuvens está o arco-íris, que parece voltar-se para a Terra e tocá-la com suas extremidades. Este arco-íris, sou Eu mesma que, por minhas preces, abaixo-me e me debruço sobre os bons e os maus habitantes da Terra. Inclino-me sobre os bons para ajudá-los a permanecerem fiéis e devotos na observância dos preceitos da Igreja; e sobre os maus, para impedi-los de irem adiante na sua malícia e se tornarem piores”.”

São Bernardino de Siena, ilustrando seu discurso sobre o Santo Nome de Maria, comenta: “Maria une e concilia a Igreja Triunfante à Igreja Militante. Seu nascimento anuncia que, doravante, existirá a paz entre o Céu e a Terra. Ela é o arco-íris dado pelo Senhor a Noé em sinal de aliança, e como penhor de que o gênero humano não será mais destruído. E por quê? Porque é Ela que trouxe à luz Aquele que é nossa paz”.”

Quanta consolação, quanta esperança nos evocam essas palavras! Neste mundo, em que somos peregrinos, sofrimentos, tentações e perplexidades são inerentes à nossa vida. Contudo, em meio às dores e aflições, sempre vislumbramos a esperançosa figura de um incomparável arco-íris: Maria Santíssima! É Ela quem nos guia em nossa peregrinação rumo à Pátria Celestial, ajudando-nos em todas as nossas necessidades e envolvendo-nos com seu maternal, constante e infatigável amor.

“O arco-íris alegra a Terra e lhe proporciona uma chuva abundante e benfazeja. Do mesmo modo, Maria consola aos fracos, enchendo de júbilo os aflitos e inundando copiosamente os áridos corações dos pecadores, pela fecunda chuva de graça”, comenta o Pe. Jourdain em sua obra dedicada às grandezas de Maria.

Confiantes e extremamente gratos por tão insondável proteção, procuremos amá-La, honrá-La, invocá-La e servi-La a cada momento de nossas vidas, propagando sempre uma devoção piedosa e sincera a Ela, que é o único e verdadeiro Arco-Íris que nos une ao seu Divino Filho, o instrumento de aliança entre Deus e os homens.