A irmã enlevada da inocência

Ana Laura de Oliveira Bueno 

 1º ano de Ciências Religiosas

Imaginemo-nos diante do encontro mais espantoso da História: o Divino Salvador e Judas, o traidor dos traidores. “É a Verdade Eterna e subsistente, encarnada, que olha para um homem falso. Nosso Senhor o fita e lhe diz: ‘Judas, é com um ósculo que trais o Filho do Homem?’ e recebe com paciência aquele beijo imundo, acompanhado provavelmente de um mau odor asqueroso, verdadeiro cheiro do inferno”.1  A austeridade delicada e divina de Nosso Senhor transparece em seu olhar que penetra  Judas até o mais profundo de sua alma.

É a dor de um Deus que se depara com o silêncio covarde ante a pungente pergunta feita a um pecador empedernido.

De fato, o que mais doeu em seu Sacratíssimo Coração não foi o pecado de traição, mas a rejeição do perdão oferecido, a negação da misericórdia infinita, que depois o levou ao delírio, até cometer o suicídio.

Assim sendo, busquemos sempre este perdão que Ele está ávido em nos conceder. Apesar da evidência das nossas próprias misérias, nunca nos desesperemos, confiando na mesma misericórdia que nos tirou do lodo do pecado.

Diante da fraqueza e debilidade, como afirma Mons João Clá Dias, o que mais agrada a Deus, é oferecer um coração contrito: “Meu Deus, eu errei, eu pequei, eu não deveria ter feito o que fiz, eu aqui, agora me entrego nessa humilhação”.2 Desse modo, o Reino de Maria será composto de almas contritas, será a vitória dos contritos junto aos inocentes. A contrição,  irmã enlevada da inocência, olha para a inocência para pedir perdão.3 E, pela intercessão do Imaculado Coração de Maria desejoso de perdoar, Deus fará transbordar a sua misericórdia.

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Obra-prima da piedade católica. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano V, n.46, jan. 2002, p. 35.

2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Conferência. São Paulo, 19 abril 1994. (Arquivo IFTE).

3 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 05 jan. 1974. (Arquivo IFTE).

A “oitava Palavra” de Jesus

Ir. Mariana Morazzani Arráiz, EP

Barrabás, famoso ladrão e assassino, o pior criminoso que Israel conhecera, encontra- se encarcerado na Torre Antônia, em Jerusalém. Era então costume entre os judeus, por ocasião da Páscoa, conceder a liberdade a algum preso, em memória da saída dos israelitas do cativeiro no Egito. O procurador romano na Judeia, Pôncio Pilatos, propõe dois nomes para o povo escolher: Barrabás ou Jesus.

Símbolo da ilegalidade, motivo de terror para todos, cujo aprisionamento constituía o alívio e a segurança da região, o maior malfeitor da época é contraposto Àquele que perdoava os pecados, curava leprosos, cegos e paralíticos, ressuscitava mortos e andara “por toda a parte, fazendo o bem” (At 10, 38)?

Ora, qual a gratidão suscitada por tantos ensinamentos, favores e milagres? O populacho, a uma voz, prefere Barrabás…

Surpresa e pânico do bandido

Podemos conjecturar a reação do chefe da prisão ao receber a ordem do magistrado romano de liberar naquele mesmo dia o terrível bandido.

— Soltar esse homem por causa de um absurdo costume judaico? Esse criminoso vai repetir suas loucuras! Vão se arrepender… Mas, enfim, cabe-me só cumprir ordens. Vamos!

Desce até o calabouço do Pretório e introduz a chave na fechadura de uma cela. Rangendo, abre-se a porta do repugnante recinto e o carcereiro chama:

— Barrabás!

Com os cabelos desalinhados, o olhar desvairado e cheio de terror, balbucia o delinquente:

— Vou ser crucificado?!

— Não! Fora daqui! — responde o guarda com rudeza e desgosto.

— Mas… o que vão fazer comigo?

— Fora!

Saindo, trêmulo, ainda indaga:

— O que aconteceu?

— Estás livre! Vá para a rua!

— Eu, livre? Eu, que já sentia as cordas nas minhas mãos e experimentava prematuramente a asfixia da crucifixão pela qual iria morrer! Eu, solto depois de tudo o que fiz? Eu, Barrabás, homicida detestado por todo o mundo?… Vou cobrir um pouco a cabeça para não ser reconhecido na rua… Preciso me disfarçar para sair, pois podem me matar. Mas… estou livre! Será possível? Eu me apalpo e vejo que… é verdade!

Sem rumo fixo, caminha aturdido pelas ruas de Jerusalém quando, de repente, escuta não muito longínquo o lúgubre rufar de tambores:

— O que é isso? O anúncio de uma crucifixão? Estão levando alguém para o suplício!

Experimentando um calafrio de pavor, suspira:

— Poderia ter sido eu… Oh, horror!

Continua em direção à turbamulta, que está quase chegando no Monte Calvário. Ao se aproximar, percebe a identidade do condenado: é Jesus de Nazaré… e vai ser crucificado!

A “oitava Palavra”

Se uma graça fulgurante de arrependimento rasgasse a sordidez de sua alma endurecida e nela penetrasse, Barrabás, cheio de compunção, ter-se-ia lançado aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, já deitado sobre o madeiro da Cruz.

Nesse momento, o Divino Redentor estaria experimentando em suas divinas mãos e adoráveis pés as inenarráveis dores ocasionadas pela perfuração dos pregos. Mas isso não O impediria de pousar seu sacratíssimo olhar na figura horrenda daquele a quem a perfídia dos homens tinha preferido a Ele, Jesus, o Filho de Deus, a Beleza Infinita.

Sob o influxo de tal graça, o criminoso, ajoelhado, diria:

— Senhor, eu deveria estar sendo crucificado e não Vós! Vós ireis morrer por mim quando sou eu, infame, merecedor desse castigo por meus pecados! Senhor, perdão por tanta maldade! Senhor, eu me arrependo, detesto meus crimes e quero me assemelhar a Vós!

E o Salvador teria pronunciado aí a primeira das Palavras, que não mais seriam sete, como registram os Evangelhos, mas oito; de seus divinos lábios brotaria esta manifestação de poder, bondade e amor infinitos:

— Meu filho, vá porque teus pecados estão perdoados! Vá porque soubeste aceitar as graças de penitência e de arrependimento que Eu mesmo para ti suscitei! Vá e não peques mais!

Somos também “barrabases”

A História não conta qual foi o destino de Barrabás uma vez fora da prisão. Ignoramos se continuou na esteira dos crimes e desvarios que o caracterizavam, enchendo novamente de sobressalto e pavor o povo que clamara por sua libertação, ou se houve uma conversão semelhante à que acabamos de imaginar.

Uma coisa é certa: a cada ano, na liturgia da Semana Santa, ao ser mencionado o nome do bandido na leitura da Paixão segundo São João, vibram os corações e ardem em desejos de vingar e reparar tamanha ignomínia.

É justo, porém, descarregarmos toda a nossa ira sobre o terrível criminoso, esquecendo que fomos nós também “barrabases” em algum momento da vida? Não ofendemos brutalmente o Coração de Jesus ao cometer um pecado ou ao apegar- -nos a um vício? E não agimos como o povo judeu escolhendo o famoso malfeitor, ao trocar a obediência aos Mandamentos por uma transgressão grave e voluntária à Lei?

Se alguma vez pecamos gravemente contra algum Mandamento da Lei de Deus, somos comparáveis a Barrabás e àqueles que o preferiram a Jesus! Deveríamos estar sendo crucificados, quando é Ele, ao contrário, que sofre por nós! Que terrível verdade: ao pecar, prefiro Barrabás como meu amigo e crucifico a Jesus em minha alma!

Em vista disso, o que farei? Formular essa pergunta é fruto de uma graça que parte de Jesus em direção a mim. Diante dela só cabe uma súplica à Mãe do perdão e da divina graça, cujos rogos me obtiveram esse benefício:

“Oh, Virgem Santíssima, minha Mãe, dai-me a convicção de que só existem dois caminhos: um é o de Barrabás e outro, o de Jesus.

“Quando vosso Divino Filho voltar no fim dos tempos para exercer o julgamento de todos os homens, reunidos no Vale de Josafá e não mais no Pretório de Pilatos, a humanidade estará dividida entre os que O quiseram crucificar e se entregaram ao pecado, e aqueles que aceitaram o convite de seu divino e arrebatador olhar, e quiseram viver sempre na sua graça e na prática da virtude.

“Pelos méritos infinitos da Paixão, fazei que eu esteja entre estes últimos!

“E se tiver a desgraça de Vos ofender, que eu me aproxime, com toda pressa, do Sacramento da Penitência e possa, arrependido e humilhado, ouvir aquela ‘oitava Palavra’ dirigida ao hipotético Barrabás convertido: ‘Vá, meu filho, minha filha, teus pecados estão perdoados!'”.

Adaptação da palestra pronunciada por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, em 27/5/1990 – Revista Arautos do Evangelho, Março-2015

A misericórdia divina, tábua de salvação

Ir Mariana Morazzani Arráiz, EP

No Antigo Testamento, as manifestações da onipotência de Deus tinham um caráter marcadamente justiceiro, visando incutir nas almas o temor e o respeito. Assim se deu, por exemplo, quando foram entregues a Moisés as tábuas da Lei sobre o monte Sinai: “Na manhã do terceiro dia, houve um estrondo de trovões e de relâmpagos; uma espessa nuvem cobria a montanha e o som da trombeta soou com força. Toda a multidão que estava no acampamento tremia. […] Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor tinha descido sobre ele no meio de chamas; o fumo que subia do monte era como a fumaça de uma fornalha, e toda a montanha tremia com violência” (Ex 19, 16.18).

Para alcançar o perdão dos pecados, os homens deviam repará-los por meio de uma vida de penitência; e, com frequência, sentiam pesar sobre si, ao menos em parte, o duro castigo imposto por suas culpas. Tal é o caso de Moisés, o grande legislador de Israel, a quem a Escritura elogia como o mais humilde dos homens. Por uma única infidelidade, viu fecharem-se diante dele as portas da Terra Prometida e pôde apenas contemplá-la do alto do monte Nebo (cf. Dt 32, 4852). Circunstância semelhante é a do rei Davi, cuja falta acarretou-lhe, ao longo de seus últimos anos de vida, grandes dissabores oriundos do interior de sua própria família (cf. II Sm 15ss; I Rs 1). E cujo arrependimento exemplar o levou a compor os insuperáveis Salmos Penitenciais.

Jesus trouxe à Terra a era da misericórdia

De modo diverso, ao descer à Terra e encarnar-Se no seio virginal de Maria, quis o Filho de Deus atrair-nos pela bondade de Seu Coração: “Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo por Ele, seja salvo” (Jo 3, 17).

Por meio de exemplo de vida, conselhos e parábolas, instruiu os homens — habituados até então à lei de Talião — acerca do dever de perdoarem-se mutuamente as ofensas e se compadecerem dos males alheios. Com o arrebatador modelo de sua conduta, ensinou a acolher os pecadores arrependidos: “Filho, perdoados te são os pecados” (Mc 2, 5); ou então: “Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar” (Jo 8, 11b).

A sobrenatural influência que Jesus exercia sobre seus discípulos obteve a transformação radical de seus corações. Assim, por exemplo, os filhos de Zebedeu, aos quais Ele mesmo dera o nome de Boanerges, “filhos do trovão” (cf. Mc 3, 17), tornaram-se espelhos perfeitos da mansidão de seu Mestre, a ponto de João ter merecido o título de Apóstolo do Amor.

As próprias disputas com os fariseus, nas quais o Divino Mestre mostra-Se de uma forte intransigência, são outras tantas manifestações desse Seu desejo de converter todos, inclusive aquelas almas cegadas pela malícia das paixões. E suas lágrimas sobre Jerusalém, a cidade onde seria crucificado, são o eloquente testemunho da dor do Homem-Deus ao constatar a rejeição de que seria objeto por parte daquela geração e de tantas outras ao longo dos séculos. Tudo no Salvador convidava os homens à confiança e ao abandono nas mãos da Providência, na certeza de serem acolhidos com a benignidade de um Pai ou de um Amigo. O renomado teólogo dominicano Pe. Garrigou-Lagrange assim comenta: “O Evangelho inteiro é a história das misericórdias de Deus em favor das almas, por mais afastadas que estejam dEle, como a Samaritana, Madalena, Zaqueu, o bom ladrão; em favor de nós todos, por quem o Pai entregou Seu Filho como vítima de expiação”. 1

Quando “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14), começou uma nova época. Jesus fundou Sua Igreja, instituiu os sacramentos e, pela efusão de Seu Preciosíssimo Sangue, trouxe à Terra uma nova perspectiva de relações do Criador com a humanidade e dos homens entre si.

A era da Lei havia terminado. A misericórdia vencera a justiça.

Condição absoluta para a salvação da nossa alma

A misericórdia é definida por Santo Agostinho como “a compaixão do nosso coração pela miséria alheia, que nos leva a socorrê-la, se pudermos”. 2

Exercitar esta virtude não é dever apenas dos homens que desejam a perfeição. Pelo contrário, Jesus ordenou que todos a pratiquem, afirmando categoricamente: “Sede misericordiosos”, e propondo, a seguir, o supremo exemplo do Pai: “como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36). Usar de misericórdia é condição absoluta para obter o perdão dos pecados e a salvação da própria alma, como diz o Evangelho em outra passagem: “Se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará” (Mt 6, 15).

Mais ainda, ensina-nos São Tomás que “em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes, porque é próprio dela repartir-se com os outros e, o que é mais, socorrer-lhes as deficiências”. 3 Pouco adiante, afirma ele: “Toda a vida cristã se resume na misericórdia, quanto às obras externas”. 4 De outro lado, a mencionada passagem de São Lucas: “Sede misericordiosos”, São Mateus a escreve em termos diferentes, mas com idêntico sentido: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Ou seja, o cristão deve procurar ser perfeito como o é o próprio Deus, mas só atingirá este grau supremo se praticar a virtude da misericórdia.

À primeira vista, isto nos parece extremamente difícil, e até impossível. Como poderemos nós, pobres criaturas, nos assemelharmos a um Deus infinitamente superior, cujas virtudes são a própria substância de Seu Ser?

Não nos esqueçamos, porém, que o mesmo Senhor afirmou: “Meu jugo é suave e Meu fardo é leve” (Mt 11, 30). Nenhuma virtude pode ser praticada de modo estável pelo puro esforço de nossa natureza. Mas com o auxílio da graça divina tornamo-nos capazes de imitar a Deus e de sermos espelhos da perfeição que é Ele por essência.

Pela misericórdia, Deus manifesta Sua onipotência

A palavra compaixão — do latim com-passio, “padecer com” — denota certa tristeza ou sofrimento por parte daquele que se debruça sobre o miserável. Deus, porém, ao apiedar-Se de nossas misérias, não experimenta a menor tristeza, uma vez que Ele é a Suma Felicidade. Nesse sentido, afirma São Tomás: “Não convém a Deus entristecer-Se com a miséria de outro, mas Lhe convém, ao máximo, fazer cessar essa miséria, se por miséria entendemos qualquer deficiência”. 5

E em outra passagem, o Doutor Angélico ressalta que através da misericórdia o Criador patenteia o Seu poder: “Ser misericordioso é próprio de Deus, e é principalmente pela misericórdia que Ele manifesta Sua onipotência”. 6

O Salmo 102 nos oferece uma belíssima síntese das disposições de Deus em relação ao pecador penitente, muito diferentes dos sentimentos de ódio e vingança comuns às almas egoístas e arredias à graça: “O Senhor é bom e misericordioso, lento para a cólera e cheio de clemência. Ele não está sempre a repreender, nem eterno é o Seu ressentimento. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas, porque tanto os céus distam da terra quanto a Sua misericórdia é grande para aqueles que O temem; tanto o oriente dista do ocidente quanto Ele afasta de nós nossos pecados” (Sl 102, 8-12).

Deus como que necessita de nossa fragilidade e miséria

A consideração da misericórdia divina deve nos encher de confiança e de enlevo para com Deus: nossos pecados, por mais graves e numerosos que sejam, não conseguirão esgotar Sua bondade ou exaurir Sua paciência.

Pelo contrário, cometida a falta, Ele o mais das vezes não envia o castigo de imediato, mas aguarda, à semelhança do pai do Filho Pródigo, na esperança de que o infeliz transviado retome o caminho da casa paterna. E quando o avista ao longe, corre-lhe ao encontro, movido de compaixão, lança-se ao seu pescoço e beija-o com ternura, sem mesmo dar ouvidos aos protestos de penitência do faltoso (cf. Lc 15, 11-24).

Infinitamente superior àquele bom pai, Deus não só usa de generosidade, retardando uma intervenção definitiva de Sua justiça, mas cria Ele mesmo as graças necessárias para estimular as consciências e converter os pecadores mais empedernidos. “Quem tão longânime — exclama Santo Agostinho —, quem tão abundante em misericórdias? Pecamos e vivemos; aumentam os pecados e vai-se prolongando a nossa vida; blasfema-se todos os dias, e o sol continua nascendo sobre bons e maus. Por todos os lados convida-nos à correção, por todas as partes, à penitência, falando-nos por meio dos benefícios das criaturas, concedendo-nos tempo para viver, chamando-nos pela palavra do pregador, por nossos pensamentos íntimos, pelo açoite dos castigos, pela misericórdia do consolo”. 7

Para usar uma linguagem analógica, dir-se-ia que Deus necessita de nossa fragilidade e miséria para dar vazão aos transbordamentos de bondade que brotam de suas “entranhas de misericórdia” (Lc 1, 78). Se todos os homens fossem fiéis à graça e exímios cumpridores dos Mandamentos, sem jamais se desviar ou cair, os tesouros da misericórdia divina ficariam para sempre recolhidos nos esplendores do Padre Eterno, desconhecidos dos Anjos, ignorados pelos justos, e este aspecto tão essencial de Sua glória deixaria de brilhar na ordem da criação.

Continua no próximo post

1 GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. Les perfections divines, extrait de l’ouvrage « Dieu, son existence et sa nature ». 4 ed. Paris: Gabriel Beauchesne, 1936, p. 176.
2 Suma Teológica II-II, q. 30, a. 1.
3 Idem, II-II, q. 30, a. 4. Resp.
4 Idem, II-II, q. 30, a. 4. ad 2.
5 Idem, I, q. 21 a. 3.
6 Cf. Suma Teológica II-II, q. 30, a. 4. Resp.
7 AUGUSTINUS, Sanctus. Enarrationes in Psalmos. Ps. 102, 16 (PL 36, 1330).

“Como o cervo busca a fonte das águas…”

Irmã Mary Teresa MacIsaac, EP

A misericórdia de Jesus é infinita e eterna. Seu Coração anseia que acorramos a Ele para perdoar nossas faltas, em uma medida proporcional à sua própria incomensurabilidade.

Com seu característico murmurejar, as águas de um rio desfilam em elegante correnteza, ora cobrindo as grandes pedras que encontram pelo caminho, ora acompanhando com docilidade as sinuosidades do percurso. Por vezes rápidas e borbulhantes, morosas em outras ocasiões, elas avançam infatigáveis em direção ao seu fim último: o mar.

Dir-se-ia emanar a vida deste ser inanimado em constante movimento. Às suas margens vicejam delicada vegetação e frondosas árvores. Peixes de vários tipos pululam no seu leito, enquanto aves e quadrúpedes, das mais diversas espécies, se aproximam para se beneficiar de suas águas, tanto mais cristalinas quanto mais próximas da nascente.

Tímido e desconfiado, oculto entre as plantas, podemos ver um cervo. Diferente de outros animais, não se satisfaz com as águas barrentas de rios que já passaram por vales e montes. Ele corre atrás daquelas mais puras e límpidas: uma fonte que brota do solo e esguicha sua massa líquida sobre pedras lisas, um gélido regato nascido há pouco tempo da neve derretida, ou então uma linda cortina de prata escorrendo pela encosta de uma montanha rochosa.

Quem, como o cervo, não deseja encontrar uma fonte de água refrescante e transparente? Ela devolverá o alento ao viajante fatigado, alívio ao sedento e prazer a todos os que com ela se deparem, porque a água é sempre benfazeja.

Ora, tudo isso pode ser elevado à esfera espiritual, pois, acaso não é Jesus a fonte inexaurível de água viva, para a qual corre o cervo do salmista? “Quemadmodum desiderat cervus ad fontes aquarum, ita desiderat anima mea ad te, Deus — Assim como o cervo busca a fonte das águas, minha alma suspira por Vós, ó meu Deus” (Sl 41, 2).

Os olhos interiores, diz Santo Agostinho, são capazes de ver esta fonte, e uma sede interior arde em nós, no desejo dela. Então aconselha: “Corre para a fonte, deseja a fonte. Mas não corras de qualquer modo, como qualquer animal. Corre como o cervo. Que significa ‘corre como o cervo’? Que não seja lenta a corrida; corre veloz, deseja logo a fonte”. 1

A misericórdia de Jesus é infinita e eterna, pois anseia que a Ele acorramos para perdoar nossas faltas, em uma medida proporcional à sua própria incomensurabilidade, e nos saciar com a água viva da graça, a respeito da qual disse no Evangelho: “o que beber da água que Eu lhe der jamais terá sede” (Jo 4, 14).

Certo poeta comparou nossas vidas com “os rios que desembocam no mar, que é o morrer”. 2 Quanto mais sejam elas alimentadas pela torrente impetuosa da graça divina tanto mais serão capazes de vencer os obstáculos que bloqueiam seu curso rumo à Jerusalém Celeste. A água viva de Cristo purifica as águas mais lodacentas, revigora os cursos estancados na lama, endereça os meandros da tibieza, desgasta e remove as mais duras e traiçoeiras pedras. Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente o manancial da graça que vivifica os filhos de Deus, é a correnteza do amor infinito que veio ao mundo, para que todos “tenham vida e para que a tenham em abundância” (Jo 10, 10).

1 SANTO AGOSTINHO. Enarratio in Psalmum XLI, n.2. In: Obras. Madrid: BAC, 1965, v.XX, p.6.
2 MANRIQUE, Jorge. Coplas por la muerte de mi padre, n.3. In: Obra Completa. 13.ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1979, p.116.

Revista Arautos do Evangelho · Junho 2014

O cetro da misericórdia

Emelly Tainara Schnorr

Tempo houve em que, conforme narram as Sagradas Escrituras, o povo judeu recebeu a ameaça de ser exterminado pelo Rei Assuero. Nesse momento crucial da sua história, entrou em cena a rainha Ester intercedendo junto ao monarca pelos seus e obtendo-lhes a salvação (cf. Est 3 – 7). Recordemos como isso se deu.

Segundo as leis em vigor naquela época, era proibido o acesso de qualquer pessoa ao átrio interno do palácio real sem ter sido convocada. Quem ali ousasse entrar por própria iniciativa seria imediatamente condenado à pena capital, a não ser que o soberano levantasse seu cetro de ouro em direção ao intruso, como sinal de assentimento. Havia um mês que Ester não era chamada à presença de Assuero, quando Mardoqueu alertou-a sobre a trama do infame Amã. Confiando, porém, no Deus verdadeiro e nas orações feitas pelos seus, a rainha dirigiu-se aos aposentos reais. O anseio por obter a salvação do seu povo vencia em seu espírito o medo da morte. Ao vê-la, o monarca se alegrou e lhe estendeu o temido bastão de comando, cuja ponta ela se apressou a tocar em sinal de submissão. “Que queres rainha Ester?”, perguntou-lhe o soberano. “Ainda que pedisses a metade do meu reino ela te seria concedida” (Est 5, 3). A ameaça fora vencida.

Esta admirável cena da História Sagrada prefigura uma realidade mais elevada e comovente para nós, cristãos. Expulso do Paraíso e tornado inimigo de Deus por causa do pecado, o homem do Antigo Testamento estava subjugado ao domínio do demônio, muito mais cruel e tirânico do que os de Assuero ou Amã. Como podia fazer para entrar novamente no Palácio Celeste e recuperar as boas graças do Criador? Quem ousaria comparecer diante do Rei da Justiça para interceder pela humanidade revoltada contra seu boníssimo Deus e Senhor?

Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus” (Lc 1, 30). As singelas palavras do Anjo Gabriel deixam entrever o inefável amor do Altíssimo para com uma criatura, a mais santa e nobre entre todas. Desde o momento de sua Imaculada Conceição, Deus A inundara de graças e favores. E bastou, por assim dizer, que Ela tocasse a ponta do divino cetro onipotente, advogando pela vinda do Salvador, para ser imediatamente atendida.

A fulgurante virtude da donzela de Nazaré conquistara de tal forma a benevolência do Criador que Ele decidiu tomá-La por Esposa Imaculada e torná-La sua Mãe Virginalíssima. E depositando em suas alvíssimas mãos o cetro que simboliza o domínio sobre todos os homens, tornou-A Rainha de Misericórdia. Pela onipotência suplicante que Deus lhe concedeu, nada pode ser negado a tão bondosa Soberana.

Como uma nova Ester, a Santíssima Virgem achou graça aos olhos do Senhor em favor de todos os homens e conseguiu a metade do seu império divino. Ela detém o cetro da misericórdia, enquanto o seu Filho continua a ser o Rei da justiça. Sim, Maria é o ministro plenipotenciário da misericórdia divina; esse é o seu ministério. Assim como nos Estados os que têm de tratar de uma questão de finanças, de marinha ou de agricultura se dirigem aos ministros respectivos, do mesmo modo é à Mãe de Deus que devem recorrer os que têm necessidade de misericórdia”.1

Nunca nos cansemos, portanto, de recorrer a Ela nos momentos de dificuldade e aflição. Do cetro que Lhe foi entregue por seu Divino Filho emanará sempre a força necessária para enfrentarmos qualquer adversidade da vida, porque, mais ainda do que Rainha e Senhora, Ela é Mãe extremosa de cada um de nós. “Sobretudo nas horas de sofrimento e de tentação, sempre poderemos contar com esse fator de paz fundamental: Nossa Senhora estará comigo, ainda que eu não esteja com Ela. Não me abandonará nunca e me ajudará em todas as circunstâncias. Virá ao meu encontro com a exuberância de sua misericórdia, concedendo-me mais do que Lhe peço e mais do que Lhe retribuo, deixando-me pasmo e desconcertado diante de tudo o que Ela faz por mim”. 2

1 TISSOT, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas. 3.ed. São Paulo: Quadrante, 2003, p.117-118.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 16 jun. 1972.

A herança espiritual de João Paulo II

Papa João Paulo IIMadre Mariana Morazzani Arráiz, EP

Terna devoção a Nossa Senhora em todos os momentos da vida e um comovedor apelo à Santidade estão no cerne da herança espiritual deixada pelo Papa João Paulo II.

O Papa do Rosário, o Papa da Eucaristia, o Papa de Nossa Senhora de Fátima, o Papa da Consagração a Maria, o Papa impulsionador da santidade, o Papa dos movimentos leigos, o Papa da oração — são alguns títulos que caberiam a João Paulo II. Tantos são os aspectos de seu rico pontificado que alguns receberam menor atenção, e aqui pretendemos lembrá-los.

Misericórdia e escapulário do Carmo

Terá sido por mera coincidência que João Paulo II faleceu após haver assistido a uma Missa da Festa da Divina Misericórdia?

Ora, foi ele um incentivador dessa devoção, canonizando santa Faustina Kowalska — a vidente polonesa falecida em 1930 — e reservando o segundo domingo da Páscoa para essa festa. Jesus pedira sua instauração nessa data, na qual perdoaria todas as culpas e penas para quem se confessasse e comungasse.

Mas esta não é a única “coincidência”. Também é digno de nota que ele tenha morrido num sábado — dia relacionado com o escapulário de Nossa Senhora do Carmo —, e por sinal primeiro sábado do mês, o que nos fala dos pedidos da Santíssima Virgem em Fátima. João Paulo II usava o escapulário, que recebera quando era ainda menino.
Bendito Rosário de Maria

Era também intimamente relacionado com as aparições de Maria aos Três Pastorinhos, chegando a atribuir sua milagrosa sobrevivência ao atentado de 1981 à proteção da Virgem de Fátima. Teve em alta consideração as palavras de Maria, classificando-as de “extraordinária mensagem”, que “continua a ressoar com toda a sua força profética, convidando todos à constante oração, à conversão interior e a um generoso empenho de reparação dos próprios pecados e daqueles de todo o mundo”. Mas não é possível falar de Fátima sem recordar a devoção de João Paulo II ao Rosário. Já as primeiras fotografias dele, difundidas nos anos iniciais de seu pontificado, mostravam-no amiúde de terço em punho. Uma de suas últimas iniciativas foi declarar o Ano do Rosário e publicar a Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae”, acrescentando os “Mistérios Luminosos” a esta devoção. Fez sua a comovente súplica do Beato Bártolo Longo: “Ó Rosário bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus, vínculo de amor que nos une aos Anjos, torre de salvação contra os assaltos do inferno, porto seguro no naufrágio geral, não te deixaremos nunca mais. Serás o nosso conforto na hora da agonia. Seja para ti o último ósculo da vida que se apaga”.

Fé e entusiasmo pela Eucaristia

Contudo, seu relacionamento com a Virgem tinha fundamento ainda mais sólido. Quando jovem seminarista, consagrara-se a Ela como “escravo de amor”, segundo a espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort. Ao se tornar Papa, incluiu no seu brasão o lema Totus Tuus (Sou todo Teu), para significar essa consagração.

Relacionada com a devoção marial está a devoção à Eucaristia, como João Paulo II afirmou na Carta Apostólica “Mane nobiscum Domine”. Neste documento, insistiu na importância da Adoração eucarística, durante a qual devemos reparar “as negligências, esquecimentos e até ultrajes que o nosso Salvador Se vê obrigado a suportar em tantas partes do mundo”. Em 7 de outubro de 2004, o mundo pôde contemplá-lo constantemente ajoelhado durante a Missa e a hora de Adoração, no lançamento do Ano da Eucaristia. É fácil imaginar o quanto isto custou de sofrimento a seu debilitado organismo. Entretanto, quis ele nos dar esse magnífico exemplo de entranhada devoção eucarística.

Desejava ele “alimentar a fé e o entusiasmo” pela Eucaristia, vendo-a homenageada, venerada, adorada nos espaços públicos: “A fé neste Deus que, tendo se encarnado, fez-se nosso companheiro de viagem, seja proclamada por toda parte, particularmente pelas nossas ruas e nas nossas casas, como expressão do nosso amor agradecido e fonte inexaurível de bênção”.

Ostentar sem respeito humano os sinais da Fé

Com agudo discernimento, percebeu a ação do Espírito Santo nos numerosos movimentos e associações leigas que surgiram um pouco por toda parte, trazendo novos carismas e novos métodos de apostolado para a Igreja. Para o Papa, eles constituem “uma ajuda preciosa em favor de uma vida cristã coerente com as exigências do Evangelho e de um empenhamento missionário e apostólico”. Na Encíclica “Redemptoris missio”, recomendava que esses movimentos crescessem “sobretudo entre os jovens”.

E foi especialmente aos jovens que ele dirigiu as palavras “não tenhais medo!”, bradadas na primeira Missa dominical como Papa, em 22 de outubro de 1978. Muito se escreveu sobre o real significado desse apelo, mas João Paulo II mesmo se encarregou de esclarecer seu sentido: um apelo à santidade, ao testemunho e à evangelização. Muitas vezes bradaria depois: “Não tenhais medo de ser santos!”

“Neste Ano da Eucaristia — escreveu na “Mane nobiscum, Domine” — haja um empenho, por parte dos cristãos, de testemunhar com mais vigor a presença de Deus no mundo. Não tenhamos medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé.”

Ensinou também pelo exemplo pessoal

João Paulo II nos deu o exemplo. Não teve medo de enfrentar os males de hoje, reafirmando a doutrina perene da Igreja contra o aborto, a eutanásia e o relativismo moral; defendendo os valores da família e a dignidade do ser humano; pregando a prática da castidade, como naquele memorável dia no Estádio Nakibubo, em Uganda, em 1993, quando disse aos jovens: “A pureza de costumes, disciplinadora da atividade sexual, é o único modo seguro e virtuoso para pôr fim à trágica praga da Aids, que tem ceifado tantos jovens”.

Mostrava o Papa que, apesar de toda a pressão em contrário, a castidade é uma virtude acessível a todos.

É bom saber: Uganda é o único país da África onde a batalha contra a Aids está sendo vencida. Qual a fórmula do sucesso? A prática da castidade, estimulada pelo governo, tal qual o Papa havia aconselhado.

Que aqueles que formarão o mundo do futuro não se esqueçam jamais do apelo de João Paulo II, feito a eles durante a Jornada da Juventude de 2000: “Jovens de todos os continentes, não tenhais medo de ser os santos do novo milênio!”