Porque muito amou… ( cont )

smargaridacortonaContinuação do post anterior sobre a vida de Santa Margarida de Cortona.

A caminho de Cortona

O passo definitivo estava dado. A graça havia tocado o mais profundo da alma de Margarida, infundindo verdadeiro arrependimento de seus pecados e fortalecendo-lhe a vontade para levantar-se de tão triste estado.

Contudo, por onde começar? Entregou à família do marquês tudo quanto dele recebera, tomou seu filho de sete anos e voltou para Laviano, a fim de buscar refúgio junto ao pai. A cruel madrasta, porém, usou de toda espécie de artimanhas para ela nem sequer entrar em casa.

Abandonada à própria sorte, sem socorro material algum, Margarida se encontrava exposta aos maiores perigos. E o maligno, temeroso de perder sua presa, não tardou em aparecer. “Volta a mim, volta às delícias da vida, dizia-lhe. Tens inteligência, beleza, mocidade; possuirás o amor, e o mundo derramar-te-á ainda na taça todas as divinas ebriedades. Não tens que censurar-te, pois que teus pais te expulsam de sua casa”.4

Com a resolução própria às almas tocadas pelo sopro do Espírito Santo, se opôs à tentação: “Não, não, Margarida, replicou ela, com um tom de sublime energia, não te entregues de novo à ignomínia e ao remorso. Já por muito tempo desonraste a teu Criador, por longos anos fizeste guerra Àquele que te resgatou ao preço do seu Sangue. É chegada a hora de expiares as revoltas e ingratidões. Que importa a miséria? É preferível mendigares o pão a voltares ao mal. Teu pai da Terra te repeliu, teu Pai do Céu te receberá”.5 Mal formulara esta resolução, Margarida ouviu nitidamente uma voz interior a lhe dizer: “Vai a Cortona e coloca-te sob a direção dos frades menores”.6

Sem titubear nem considerar os obstáculos e os quase 30 km a serem percorridos a pé, ela se levantou e pôs-se a caminho.

Prova definitiva do perdão

Chegando a Cortona, foi acolhida pela condessa de Moscari e sua nora, as quais se encarregaram da educação de seu filhinho, que mais tarde se tornou religioso franciscano, e a encaminharam aos frades menores. Ali, um prudente e sábio diretor espiritual, o padre Giunta Bevegnati, passou a assumir o cuidado de sua alma; ele foi também seu mais fidedigno biógrafo.

A misericórdia divina é infinita. “Lavai-me e me tornarei mais branco do que a neve” (Sl 50, 9), cantou Davi penitente. Se o pecador se humilha e reconhece suas culpas, o perdão de Deus chega a extremos inimagináveis, restaurando mais do que foi perdido com a queda. E às vezes isto se dá de forma miraculosamente rápida.

Assim aconteceu com Santa Margarida. O próprio Cristo passou a guiá-la por meio de dons místicos, êxtases e locuções interiores, e de tal modo ela ficou transfigurada pela graça que passou, “de um salto, dos abismos da abjeção aos cimos da beleza moral”.7

No entanto, a dúvida do pleno perdão de seus numerosos pecados afligia seu dolorido coração, pois o Divino Salvador jamais a tratava de Filha, como tanto ansiava, mas sempre de Pobrezinha.

Só depois de uma penosa Confissão geral de toda a sua vida, a qual durou oito dias, Ele passou a tratá-la da forma tão anelada. Ao se aproximar da Sagrada Mesa para receber Jesus Eucarístico, a devoção e afetuosa piedade de Margarida agradaram tanto ao Senhor que Ele a chamou de minha filha, levando-a a suavíssimo êxtase. Ao voltar a si, exclamou: “Oh, infinita e suma doçura de Deus! Oh, dia feliz prometido por Cristo! Oh, palavra cheia de toda ternura, quando Vos dignastes chamar-me vossa filha!”.8 Era a prova definitiva do perdão!

Quis Jesus fazer conhecer sua clemência para com Margarida como um paradigma para todas as almas caídas, declarando: “Dispus que sejas como uma rede para os pecadores. Quero que o exemplo de tua conversão pregue a esperança aos pecadores desesperados. Quero que os séculos futuros se convençam de que sempre estou disposto a abrir os braços de minha misericórdia ao filho pródigo que, sincero, se volta a Mim”.9

“Venceste-me e vencer-te-ei”

Quem sabe medir a gravidade das culpas saberá estimar devidamente o valor incomensurável do perdão. Margarida se sentia inebriada de amor, ao considerar o abismo de comiseração do qual era objeto e, ao mesmo tempo, concebeu um ódio irreconciliável por tudo quanto lhe havia sido ocasião de pecado. Assim, se entregou a uma vida de penitência, a mais rigorosa possível, mostrando um verdadeiro ardor em restituir a seu Criador tudo o que recebera.

Para melhor levar a cabo esta tarefa, rogou aos frades menores para ser admitida como terciária. Foi-lhe exigida, por três anos, uma prova de perseverança, após a qual recebeu com indizível alegria o hábito da Ordem Terceira de São Francisco.

Costumava ela dizer a seu corpo: “Venceste-me e vencer-te-ei”.10 E o castigava com constantes jejuns e vigílias. Tal ímpeto de expiação a levou a encerrar-se numa estreita celinha, onde passava os dias sujeita a dura disciplina: um pedaço de pão e um pouco de água por alimento, o chão duro por leito e uma pedra por travesseiro.

Efeitos maravilhosos da graça

Recebia com frequência a visita de seu Anjo da Guarda, mas era o próprio Jesus Cristo quem falava muitas vezes com ela durante a oração, inundando-lhe a alma com a doçura de sua presença e modelando-a conforme os desejos divinos. A abundância de dons sobrenaturais por ela recebidos transbordava em favor de quantos a rodeavam. Muitos acudiam para pedir ajuda e conselho; a todos atendia, chegando a operar vários milagres.

Uma vez, em Sansepolcro, um espírito maligno apossou-se de um menino com tanta veemência, que três homens adultos não bastavam para detê-lo. Seus pais, desolados, não sabiam a quem recorrer. Decidiram levá-lo a Cortona, pois o próprio possesso dizia que seria libertado “por intercessão e pelos méritos da Irmã Margarida de Cortona”.11

Estavam a caminho, quando, apenas ao avistarem a pequena cidade do alto de um monte, o demônio se pôs em fuga, declarando estar aquele ambiente impregnado das orações e da santidade de Margarida, e isto o queimava como um fogo devorador. Os pais seguiram a viagem para pedir a bênção à Santa, mas ela, como jamais se reconhecia autora de tais prodígios, gemeu ante os agradecimentos recebidos: “Atribuí somente a Deus um milagre a que meus pecados e minhas ingratidões poderiam trazer obstáculos”.12

Com a aprovação do Bispo de Arezzo, a Bem-aventurada fundou nesta cidade o Hospital da Misericórdia, no qual, sob sua direção, formou-se uma comunidade franciscana regular de vida ativa, que tinha “a Ordem Terceira como regra, o véu por grades e o hospital por claustro”.13

A mais eficaz das penitências

Para compreender a vida de Santa Margarida é necessário, entretanto, considerar o papel transformante da caridade, a qual impregnava todos os seus atos. O amor reparador é a mais eficaz das penitências, pois nas chamas da caridade as almas se purificam de suas culpas e se elevam a perfeições insuspeitáveis.

À penitente de Cortona bem se poderiam aplicar as palavras dirigidas por Jesus, no Evangelho, à pecadora que Lhe lavou os pés com as lágrimas e os secou com os cabelos, na casa de Simão, o fariseu: “Seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor” (Lc 7, 47).

Nos albores de 1297, o Anjo da Guarda lhe revelou estar chegando ao fim sua peregrinação terrena. Com a alma transbordante de alegria, dedicou seus últimos dias a preparar-se para o supremo juízo, confiando-se acima de tudo à divina misericórdia. A cidade de Cortona se comoveu com a notícia de sua breve partida e todos queriam receber seu testamento, “eco de sua confiança no amor: ‘O caminho da salvação é fácil; basta amar’”.14

No dia 22 de fevereiro, depois de ter consumido quase a metade de sua existência numa vida de penitência amorosa, Santa Margarida expirou. Neste momento, um grande contemplativo de Città di Castello viu sua alma elevar-se ao Céu em forma de um globo de fogo, escoltada por numerosas almas que, graças às suas orações e sacrifícios, tinham sido livradas do fogo do Purgatório.

Multidões acudiram para visitar os restos mortais da Santa, e qual não foi a surpresa geral ao ver seu rosto, tão castigado pela penitência, recobrar algo da beleza juvenil, e o leve sorriso nos lábios dava aos presentes a ideia de sua alma haver alcançado a bem-aventurança eterna.

Em 16 de maio de 1728, nas palavras pronunciadas na Missa em que promulgou o decreto de canonização da Santa, Bento XIII traçou um paralelo entre a Madalena do Evangelho e a da Ordem Seráfica: “A mesma queda e as mesmas desordens; iguais os prodígios da graça que atrai uma e outra aos pés do Salvador, as mesmas lágrimas de amor e a mesma sentença de perdão”.15

1 CHÉRANCÉ, Léopold de. Santa Margarida de Cortona. Salvador: S. Francisco, 1928, p.14.
2 MARÍA DE SAN PEDRO DE ALCÁNTARA, MR. Santa Margarita de Cortona. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, SJ, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2003, v.II, p.470.
3 CHÉRANCÉ, op. cit., p.21.
4 Idem, p.25.
5 Idem, p.25-26.
6 Idem, p.26.
7 Idem, p.39.
8 MARCHESE, Francesco. Vita di Santa Margarita da Cortona. Napoli: Andrea Festa, 1854, v.I, p.41.
9 MARÍA DE SAN PEDRO DE ALCÁNTARA, op. cit., p.472.
10 CHÉRANCÉ, op. cit., p.35.
11 Idem, p.81.
12 Idem, ibidem.
13 Idem, p.76.
14 MARÍA DE SAN PEDRO DE ALCÁNTARA, op. cit., p.474.
15 BENTO XIII, apud CHÉRANCÉ, op. cit., p.172.

Porque muito amou…

Ir. Ana Lucía Castañeda Ocano, EP

Como Maria Madalena, Margarida também caiu. Mas os mesmos prodígios da graça e as mesmas lágrimas de amor atraíram para ela uma sentença de perdão.

Quem, tendo a oportunidade de ir a lugares ermos, desprovidos de iluminação elétrica, não terá apreciado o maravilhoso espetáculo das estrelas cintilando ao entardecer? Mal se oculta o Sol no horizonte, o céu começa a se revestir de astros coruscantes, com tamanho, intensidade e matizes de cores diferentes, belamente conjugados segundo a magnífica harmonia celeste.

Muito mais digno de admiração é, porém, o vastíssimo firmamento da Igreja triunfante. Nele encontramos a luz clara e forte dos Patriarcas e Profetas, o áureo fulgor dos Apóstolos, o delicado esplendor das Virgens, o rubro reluzir dos Mártires, o chamejar dos Doutores e o brilho incomparável de uma multidão incontável de Santos a resplandecer como sóis por toda a eternidade.

No entanto, esta magnífica sinfonia não estaria completa sem a discreta luminosidade das almas penitentes, como Santa Margarida de Cortona.

Dramática perda da mãe em plena infância

Na segunda metade do século XIII, vivia em Laviano, pequena aldeia da Itália central, a piedosa e modesta família que, em 1247, viu nascer Margarida. Levada à pia batismal bem cedo, a menina logo aprendeu a pronunciar os santos nomes de Jesus e Maria, e aos pés de um Crucifixo repetia esta singela oração aprendida dos lábios maternos: “Senhor Jesus, rogo-Vos pela salvação de todos aqueles por quem desejais ser rogado”.1

Os dias de alegria primaveril, todavia, foram breves. A morte da mãe, tendo ela apenas sete anos de idade, marcou-a profundamente.

Dois anos depois, o pai contraiu segundas núpcias com uma mulher de temperamento ácido e colérico, que nutriu desde o começo uma verdadeira antipatia pela enteada.

Tão significativa perda, em plena infância, e a aversão manifestada pela madrasta deixaram Margarida muito vulnerável aos ataques do inimigo do gênero humano. Transformada numa jovem de beleza singular, à qual se somavam os encantos de uma personalidade viva e graciosa, começou ela a procurar em perigosos divertimentos a felicidade que lhe faltava no lar.

Nove anos de vida licenciosa

Certo dia, passeando ociosamente pelos arredores de sua casa, deparou-se com o marquês del Monte, senhor de Valiano e da vila de Palazzi, em Montepulciano, o qual, deslumbrado por sua beleza, a incitou a acompanhá-lo, oferecendo-lhe uma vida cheia de deleites, com a promessa de um casamento nunca realizado… Semelhante oferta seduziu aquela pobre aldeã de 17 anos, que o seguiu sem refletir. Afinal, a vida parecia sorrir-lhe! Em Montepulciano receberia honras e prazeres, e poderia esquecer-se das amarguras da casa paterna.

Quanto estava enganada! Durante os nove anos de vida licenciosa passados junto àquele fidalgo, seu coração não deixava de censurá-la… Encontrar um lírio branco no campo ou contemplar uma criança inocente nos braços da mãe bastava para aguilhoar-lhe a consciência… No meio dos faustos e dos adornos, sentia a alma suja.

Para abafar os remorsos, dava esmolas com generosidade. E quando os pobres lhe vinham agradecer sua oferta, dizia: “Uma pecadora como eu não merece essas manifestações de respeito”.2 Anos mais tarde, Margarida assim se referia a esta etapa de sua vida: “Em Montepulciano perdi a honra, a dignidade, a paz, perdi tudo, menos a fé”.3 E a partir da fé, tudo é passível de restauração.

Numerosas vezes ela sentiu na alma a moção da graça, convidando-a a abandonar o pecado. Mas sua adesão de vontade a esses impulsos não era suficiente para levá-la a empreender o caminho de volta. Parecia-lhe mais fácil adiar a decisão, com o pretexto de encontrar-se na flor da juventude…

Em um instante percebeu a fugacidade da vida

Um dia, estando em Palazzi, Margarida permaneceu em casa, enquanto seu desditoso companheiro saía para resolver uma questão com uns proprietários vizinhos, levando o garboso galgo que nunca o abandonava. As horas se passaram e o infeliz não voltava. Transcorridos dois dias, apareceu o fiel animal. Uivava desesperadamente, lambia a mão de sua dona e procurava arrastá-la pelo vestido, como se dissesse: “Vem comigo”.

Com um mau pressentimento, Margarida o seguiu pelo bosque de Petrignano. Ao chegarem debaixo de um carvalho, o cão se deteve, latindo lugubremente. Havia ali uns ramos arrancados e amontoados em desalinho. Afastando-os, encontrou o cadáver do marquês com feridas horríveis, já em putrefação. Decerto fora assaltado e apunhalado.

Qual terá sido a impressão da jovem, ao ver tão espantoso espetáculo? Num primeiro impulso, execrou a maldade dos assassinos, mas em seguida se lhe afigurou na mente a cena do supremo tribunal divino, no qual a misericórdia nem sempre consegue triunfar da justiça…

Em um instante percebeu a fugacidade da vida: juventude, prazeres e beleza desaparecem como o vento! A lembrança da infância lhe veio ao espírito, carregada do doce aroma da fé e da alegria brindada pela inocência. Ante a gravidade daquele fato, a mudança de vida se apresentou não mais como uma louvável alternativa, senão como uma exigência a ser atendida de imediato.

A caminho de Cortona

Continua no próximo post.

A misericórdia atraiu o maior milagre da História

Ir. Mariana de Oliveira, EP

Após o pecado original, a humanidade havia contraído uma dívida com o Criador. Normalmente, quando alguém deve determinada quantia a outrem, paga-lhe exatamente o débito ou, às vezes, devolve-lhe com juros. Porém, como poderia o homem, finito como é, satisfazer o Infinito? Só mesmo alguém Infinito poderia oferecer, com idêntica dignidade, a paga ao Deus infinito, em lugar dos homens finitos: este foi precisamente o motivo da Encarnação de Jesus Cristo. 1

Entretanto, consideremos um pouco a amplitude de tal satisfação, que manifesta um grande amor de Deus para conosco e um reflexo tão alto do poder divino que escapa completamente tanto à cogitação humana quanto à angélica, 2 pois, “[…] ao Se encarnar no seio puríssimo de Maria, Nosso Senhor fez o milagre negativo de assumir um corpo padecente”. 3 Eis o mistério que pasma toda criatura: Ele veio à nossa humanidade, sem deixar a divindade, para ser imolado no Sagrado Madeiro e, assim, comprar e reatar nossa amizade com Deus!

De fato, milagre é aquilo que faz Deus, cuja causa nos é oculta. 4 Muitas vezes, é a transformação de algo pequeno, ou até insignificante, em obra de grande valor. Por exemplo, ninguém prestava muita atenção no coxo que ficava à Porta Formosa do Templo pedindo esmolas (cf. At 3, 1-2). Supomos que as pessoas deviam, de vez em quando, se compadecer e dar-lhe algum óbolo. Mas, poucos anos depois de sua morte, quem se lembraria dele? Decerto, a História não conheceria jamais sua existência se um dia não tivesse sido alvo do retumbante milagre de voltar a andar, pela virtude do nome de Jesus (cf. At 3, 6-9). Digamos ter sido este um milagre “positivo”. Mas que seria fazer um milagre “negativo”? Seria como se o mesmo coxo fosse um homem atlético, ativo e de muito bom porte físico e, certo dia, um dos Apóstolos, olhando bem para ele, ordenasse o “milagre” de instantaneamente ficar deficiente. Chamaríamos isto de desgraça, pois é algo negativo, e nunca de prodígio.

Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo quis assumir sobre Si, por sua misericórdia infinita, as deficiências corporais da natureza humana 5 e assim lavar-nos da infelicidade do pecado. Paradoxo maior não há, por ser Ele o Inocente! É o que a Deus aprouve fazer por nós: “Se encarnou pela nossa salvação” (Dz 40), “realizando um milagre contra Si mesmo, pois preferiu tomar um corpo padecente”, 6 Aquele que pela sua vida na glória não podia padecer!

O que a misericórdia do Todo-Poderoso não é capaz de fazer! Quanto poder! Muitos milagres na História já houve, sempre para melhor; porém, para o ínfimo, e não para com outros, mas para consigo mesmo, só Um teve coragem de fazer, com o fim de resgatar os que Ele ama.

A humildade foi assumida pela Majestade, a fraqueza, pela Força, a mortalidade, pela Eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. […] Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência de sua misericórdia, não uma falha do seu poder. […] Entrou, portanto, o Filho neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido; existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte. […] Contudo, nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. 7

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica III, q. 1, a.2, ad 2.
2 Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A fé de Pedro, fundamento do Papado. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. II, p. 291.
3 Ibid. p. 292.
4 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Op. cit. I, q.105, a.7.
5 Cf. Ibid. III, q.5, a.3
6 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O triunfo, a cruz e a glória. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa. Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum. Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. I, p. 259.
7 SÃO LEÃO MAGNO. Cartas. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Op. cit. v. II, p. 1506-1507.

“Ó MORTE, ONDE ESTÁ TUA VITÓRIA?”

Ir. Thaynara Ramos Siedlarczyk, EP

Nos dias conturbados em que vivemos, as ondas de violência tornam a morte um acontecimento frequente, quer seja nos lugares onde há guerras declaradas, quer seja nas zonas “pacíficas” em que “o homem é um lobo para outro homem”.1 Perante essa perspectiva, o que pensar da morte? Entre outras coisas, nela sempre podemos encontrar, ao menos, duas marcas de Deus: uma, deixada por sua infinita justiça; outra, traçada por sua inesgotável misericórdia.

É verdade que, em muitos casos, a morte se apresenta com o aspecto de tragédia. A erupção de vulcões, terremotos, tsunamis, desabamentos, e tantas outras desordens da natureza que com espantosa assiduidade têm visitado o planeta nos últimos anos, disseminam a morte por onde passam e deixam a impressão de um justo castigo pelas iniquidades dos homens. Realmente, quantas dessas desgraças não aconteceriam se os homens obedecessem e amassem mais ao Criador do universo? Quantas tristezas, dores e aflições seriam poupadas aos homens, se soubessem dizer não ao pecado, o qual traz consigo não só funestas consequências espirituais, como também temporais!

Entretanto, se procurarmos nessa mesma realidade os vestígios da misericórdia de Deus, não nos será difícil encontrá-los. A começar pelo temor que tais calamidades suscitam nas consciências adormecidas, incitando-as à emenda de vida. O medo nem sempre propicia a conversão, mas quantas vezes é este o elemento usado por Deus para tocar corações que há muito se afastaram d’Ele! Ao ver a morte ceifar a vida alheia, muitos se põem o problema: e se fosse eu, estaria preparado? E inclusive entre os que são levados para a eternidade, quantos não recebem uma última graça que os leva a uma contrição perfeita e, portanto, a reatar a amizade com Deus? Que multidão de almas não se salvam nesse instante, pelo simples fato de terem rezado com fé a Ave-Maria, suplicando a intercessão da Mãe de Deus “agora e na hora da nossa morte?”

Assim sendo, até mesmo nessa época tão conturbada da História, o triunfo do Redentor sobre a morte continua a produzir gloriosos frutos de vida. E todos os que n’Ele colocam sua esperança bem podem exultar em uníssono com o Apóstolo: “Graças, porém, sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo!” (I Cor 15, 57).

1 PLAUTUS, Titus Maccius. Asinaria, II, 4, 88. In: Comedias. Madrid: Gredos, 1992, v.I, p.138.

Inicia-se uma nova era

Ir Mariana de Oliveira, EP

Com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo a este mundo, “ iniciou-se um novo regime na história do povo eleito: a era da justiça inclemente estava terminada e começava a era da misericórdia. E esta, tão mais forte do que aquela!”.1

Verdadeiramente começou o tempo da misericórdia, no qual o Salvador vai traçando a ouro as letras da Nova Lei. Por exemplo, na Nova Lei não há mais a pena de talião que obriga a “pagar com a mesma moeda” os danos que um faz contra outro (cf. Lv 24, 17-22), mas ordena ser perdoado o homem que se arrepende de uma falha cometida contra o próximo (cf. Lc 17, 3). Um outro aspecto surpreende os ouvintes: “não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2, 17). A Nova Lei extingue − de uma vez por todas − o desprezo vingativo pelo pecador, dando lugar ao perdão.

O Redentor, em várias ocasiões, dá a conhecer quanto era falsa aquela concepção humana de um Deus que repudiava, odiava e castigava de maneira irrevogável o indivíduo que houvesse cometido alguma falta, pois Ele assumira sobre Si os pecados dos homens (cf. I Pd 2, 24; II Cor 5, 19). Foi assim que surgiram as parábolas mais comoventes do Evangelho: a da ovelha perdida, a da dracma perdida e a do filho pródigo (cf. Lc 15, 4-32), nas quais Jesus deixa patente que veio para resgatar os perdidos, para curar os enfermos de coração, para perdoar os que voltam contristados por terem fugido da casa paterna. Nelas se revela “o perdão generoso que Deus concede ao pecador arrependido e a alegria que manifesta com sua conversão”.2 Eis a bondosa verdade contida nas parábolas e na vida do Divino Salvador!

O Divino Mestre manifestava de tantas maneiras sua bondade e os seus ensinamentos penetravam tão profundamente nas almas, que até os publicanos e os grandes pecadores se comprimiam em volta d’Ele para ouvi-lO. Muito longe de os afastar, Ele acolhia a todos e convertia grande número deles.3

Exemplos da vida do Redentor

É sobretudo em sua maneira de agir que Jesus mostra que o Altíssimo não quer o esmagamento dos homens, mas sim, mostra-lhes que “Deus nos criou para vivermos em íntima harmonia com a criação e para desfrutarmos da segurança que seu convívio proporciona”.4

Sentenças como “Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados” (Mt 9, 2), ao paralítico, “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e sê curada do teu mal” (Mc 5, 34), à mulher que sofria de uma doença há doze anos; ou à pecadora arrependida “perdoados estão os pecados. […] Tua fé te salvou; vai em paz” (Lc 7, 48.50), atraíam aqueles que reconheciam sua contingência e que, arrependidos, procuravam reconciliar-se com Deus.

O Redentor era repleto de clemência para com todos. Quão belo é encontrarmos no Evangelho que Ele, “movido de compaixão”, ressuscitou o filho da viúva de Naim (cf. Lc 7, 13-14); “tomado de compaixão” pela multidão abatida e sedenta de sobrenatural, rogou ao Pai que enviasse homens dignos de dar continuidade à obra de misericórdia por Ele começada, e que trabalhassem não no campo, mas nas almas (cf. Mt 9, 36); “cheio de compaixão” pelos cegos que pediram devolvesse-lhes a vista, atendeu o seu pedido (cf. Mt 20, 34)! Contudo, Ele, que não quer a morte do pecador, mas que ele volte, se converta e tenha vida (cf. Ez 18, 23), e é boníssimo para com os que se reconhecem culpados e desejam purificar-se das faltas, é Ele mesmo também pleno de santa cólera para com os empedernidos nos seus erros e, por amor a Deus, é capaz de expulsar à base de chicotadas os que têm o atrevimento de fazer da casa de seu Pai uma casa de negociantes, um covil de ladrões (cf. Jo 2, 15-17; Mt 21, 13).

O Senhor realmente “odeia o pecado” 5 e, odiando-o, almeja que o pecador rejeite a perversidade e também a abomine. “O Rei-Messias quer que o coração dos seus súditos lhe pertença totalmente”,6 e por isso Ele não repele, mas chama o pecador e, qual Bom Samaritano, sana as chagas abertas pelos ladrões – demônio, mundo e carne. Como Bom Pastor, limpa as imundícies dos rebeldes que se meteram no lodo e nos espinhais dos vícios. Enfim, como Bom Médico da humanidade, não somente cura, mas oferece o remédio que desfaz o vício e acalma a rebeldia. Ou seja, Nosso Senhor, por misericórdia, busca afastar de sua presença a iniquidade, e ao invés de coabitar com ela, Ele a arranca.

Em contrapartida, isto suscitava um ódio violento da parte dos que se tinham por necessários: “Quem é este homem que profere blasfêmias ? Quem pode perdoar pecados senão unicamente Deus?” (Lc 5, 21). Sim, eles tinham razão, unicamente Deus pode perdoar os pecados! E aquele Homem diante do qual se encontravam era Deus, capaz de perdoar as fraudes de todos eles, se lhe pedissem perdão.

Ó misericórdia, tão ausente nos corações dos homens daquele tempo! Como foi difícil a tarefa do Salvador, convencendo seus escolhidos de que Deus não era o carrasco que imaginavam, pois, se até no relacionamento social a bondade estava depauperada, e era quase nula tanto mais era difícil para eles imaginá-la no Criador!

Continua no próximo post.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Cruz, centro e ápice da História. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentário aos Evangelhos dominicais. Solenidades e festas que podem ocorrer em domingo, Quarta-Feira de Cinzas, Tríduo Pascal, outras festas e memórias. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. VII, p. 213-214.
2 FILLION, Louis-Claude. Jesus Cristo segundo os Evangelhos. Trad. Aureliano Sampaio. Porto: Civilização, 2007, p. 281.
3 Ibid. p. 281-282.
4 RATZINGER, Joseph. Dios y el mundo. Trad. Rosa Pilar Blanco. Barcelona: Galaxia Gutenberg, 2005, p. 73. (Tradução da autora).
5 ROYO MARÍN, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p. 89. (Tradução da autora).
6 FILLION. Op. cit. p. 154.