Arma sem a qual não há vitória

Ir. Lays Gonçalves de Sousa, EP

A vida do homem sobre a Terra é uma constante luta” (Jó 7, 1). Não há um só homem que, em meio às circunstâncias da vida, não encontre batalhas tenebrosas e inimigos vorazes a enfrentar.

No entanto, é realmente impossível entrar numa guerra sem conhecer as táticas desta; não se estaria à altura de um verdadeiro cavaleiro. Foi, sem dúvida, em vista disso que quis Nosso Senhor instituir o Sacramento da Confirmação que nos faz verdadeiros soldados de Cristo.

 Assim, a Santa Mãe Igreja, neste Sacramento, reunindo todas as tradições antigas, envia seu representante para armar, numa magnífica cerimônia, o jovem cavaleiro de Jesus Cristo.

Meu filho, vós deveis ser um soldado vencedor; vossa carreira deve ser uma longa seguidilha de vitórias. Eis aqui vossos inimigos: o demônio, a carne e o mundo. Eis aqui vossas armas: a vigilância, a mortificação e a fé. Atleta de Deus, filho de tantos heróis, é sob o olhar de todos estes nobres vencedores, sob o olhar dos Anjos e de vossa Mãe que vós ides combater. Sede digno do nome que vós levais”. [1]

Uma vez feito combatente, fortalecido e robustecido pelo inapreciável dom do Espírito Santo, mas conhecedor dos riscos pelos quais passará durante os conflitos de sua peregrinação terrena, o homem depositará sua confiança na arma que lhe é oferecida pelo Supremo General. Qual é esta arma?

 “Orai sem cessar” (I Ts 5, 17), eis a ordem de comando para se obter o triunfo final. “A oração, que move de certo modo a própria vontade de Deus a fim de nos conceder suas graças, é uma força incomparavelmente mais formidável que todas as máquinas de guerra que se tenha inventado ou possa inventar o homem”. [2]

Possuindo essa artilharia tão possante e valiosa, que poderá temer a milícia de Cristo? Se queremos ser fiéis soldados de Cristo e não quisermos sucumbir durante a batalha e, quiçá, sairmos dela vergonhosamente derrotados, recorramos ininterruptamente a essa milagrosa “metralhadora” de graças, a qual nos concede a vitória nessa vida passageira e, em consequência, na eternidade. “A oração […] é a mais poderosa arma para nos defendermos dos nossos inimigos. Quem não se serve dela está perdido”. [3]

[1] GAUME, apud MORRAZZANI ARRAIZ, Teresita. Aula de Teologia Sacramental no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica – IFTE. Caieiras, [s.d.]. (Apostila).

[2] ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la Caridad. 2.ed. Madrid: BAC, 1963, p. 16. (Tradução da autora).

[3] SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A Oração. Trad. Henrique Barros. 24. ed. São Paulo: Santuário, 2012. p. 22.

Silêncio: somente para os religiosos?

Ir. Denise Maria Paschoal Rocha

2º ano de Ciências Religiosas

Em determinado mosteiro, duas freiras eram muito amigas uma da outra, mas… não eram muito amigas da perfeição: sempre quebravam o silêncio durante o Oficio. Seguindo o costume do convento, cada irmã possuía um lugar fixo nas estalas do coro. As duas religiosas sentavam-se próximas uma da outra e, pelo menor pretexto, começavam a falar…

Certo dia, uma delas morreu. Quando foram cantar o Ofício na manhã seguinte, depois do enterro, qual não foi a surpresa da amiga ao ver que o lugar da falecida não estava vazio, mas ocupado pela própria defunta! Assustada, foi contar à Madre. Esta lhe ordenou que, se visse a tal irmã outra vez, lhe perguntasse se estava precisando de orações ou de alguma outra coisa.

No dia seguinte, a alma da irmã falecida novamente apareceu na hora do Oficio, e a amiga lhe perguntou o que fazia ali. Ela lhe respondeu: “Estou aqui para purgar os meus pecados. Nós conversávamos durante o Oficio, quebrando o silêncio e perturbando o cerimonial. Eu deveria ter empregado esse tempo para conversar com Nossa Senhora!”

E nós, quantas e quantas vezes não conservamos um recolhido silêncio nas igrejas e capelas? Lembremo-nos: cumprir os momentos de silêncio é uma forma de educar a alma, além de nos abrir o coração para as grandes conversas com Deus.

Como nos ensinou Plinio Corrêa de Oliveira: “O silêncio é uma espécie de câmara obscura, na qual se vai procurar as joias daquilo que se pensou, daquilo que se sentiu, para depois dizer a palavra acertada, a palavra que tem carga, que tem amor, tem afeto e entusiasmo”.

À espera de um pedido

Ir. Ana Rafaela Maragno, EP

Apesar de tão numerosos favores concedidos pela Providência, Adão, enganado pela astuta serpente pecou acarretando para si a perda de todos os privilégios sobrenaturais com os quais Deus o havia cumulado. Expulso de seu reino e arrancada de sua fronte a coroa dos dons preternaturais, passou a viver na contingência de sua natureza formada do barro. Ecoava-lhe ainda aos ouvidos a sentença divina:

[…] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto até que voltes à terra da qual foste tirado; porque és pó, e ao pó te hás de tornar (Gn 3, 17-19).

Iniciou-se uma nova fase para Adão, caracterizada pela experiência das suas debilidades e fraquezas, consequência do seu pecado. E, agora, se encontravam irremediavelmente fechadas para ele as portas daquele jardim de delícias do qual fora expulso. Será que o relacionamento com seu Criador estava cortado para todo o sempre? Não haveria um meio de encontrar-se com Ele e de falar-lhe?

Esse grande meio Deus lho proporcionou através da oração. “Ela é o diálogo do homem com Deus” 1 . Por meio dela Adão e os seus filhos supririam em si aquelas saudades imensas do paraíso, diminuiriam a distância entre Criador e criatura, proporcionando a possibilidade de se aproximar, de falar e de conviver com Deus e conquistariam o Céu que lhes fora prometido.

A oração tem o poder de abrir os tesouros de Deus e atrair sobre o orante as chuvas das bênçãos divinas. Tanto agrada a Deus a prece sincera e confiante que, por vezes, Ele tarda em atender, a fim de que a alma, crescendo no desejo, redobre a insistência de seus pedidos e seja coroada de méritos.

Tendo o Filho de Deus vindo ao mundo, ensinou ao homem a importância da oração e incutiu-lhe a confiança nela, quer por meio de parábolas, quer, sobretudo, através de seu Divino exemplo, desdobrando-se em solicitude, desvelo e amor sobre todos aqueles que d’Ele requereram algum favor. Não houve ninguém que saísse de sua presença com as mãos vazias…

Esse mesmo Jesus que a todos atendeu com solicitude, não partiu para o Céu de maneira definitiva e irremediável, mas quis permanecer na Terra, convivendo entre os homens. “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo!” (Mt 28, 20).

Ele encontra-Se em todos os sacrários do mundo, sob o véu das espécies eucarísticas, à espera de nossa visita, pronto para ouvir nossas súplicas. Feito Homem como nós e tendo experimentado a nossa fraqueza, conhece tudo aquilo de que carecemos e sabe compadecer-se de nossas misérias.

Como outrora pelas estradas da Galiléia ou sob os pórticos do Templo de Jerusalém, Jesus detém-se ante o triste espetáculo da lepra espiritual que corrói as almas ou da cegueira que as mantêm longe de seu amor. Contudo, seu olhar misericordioso abrange a todos num infinito desejo de perdoar, inclinando-se sobre cada um de seus filhos, com ternura de pai e benquerença de irmão, para cumulá-los de dons e atendê-los em seus anseios. Está apenas à espera de um pedido, de uma súplica, de um simples suspiro a Ele dirigido, para cumprir sua irrevogável promessa: “Qualquer coisa que me pedirdes em Meu nome, vo-lo farei” (Jo 14, 14).

1“Es el dialogo del hombre con Dios” (SÃO JOÃO CLÍMACO. In: LOARTE, José Antonio. El tesoro de los Padres: Selección de textos de los Santos Padres para el Cristiano del tercer milenio. Madrid: Rialp, 1998. p. 345.

Necessidade da oração

adoraçãoAna Rafaela Maragno

Imaginemos a seguinte conjuntura: o entrechoque de dois exércitos inimigos. Um deles conta com soldados adestrados, tanques de guerra, munições, granadas… O outro se destaca por possuir armas poderosíssimas, superiores a quaisquer outros instrumentos bélicos. Entretanto, apesar de ter ao alcance tão precioso recurso, os seus combatentes se veem numa trágica situação: nenhum deles sabe manusear tais armas! São elas excelentes, e constituem poderoso auxílio na luta contra o adversário, mas exigem peritos que conheçam as suas funções, pois, do contrário, de nada valerá possuí-las, se não lograrem pô-las em movimento.

Tal dilema, no qual se encontram estes pobres militares, representa bem a imagem do cristão que não recorre à oração.

Após ter cometido o pecado original, o homem, outrora favorecido pela graça e por todos os dons que Deus lhe havia concedido no Paraíso, introduziu em si mesmo uma raiz de pecado e viu-se privado de todos os privilégios, à mercê de suas paixões desregradas e das misérias de sua frágil natureza. Lançado no mar impetuoso da existência neste vale de lágrimas, constantemente vê-se na contingência de enfrentar adversários poderosíssimos: ora o demônio, ora o mundo, ora as más inclinações da própria carne. Estes três inimigos possuem armas eficazes para tentar o homem e fazê-lo tropeçar ao longo do caminho. Ora, Deus, que jamais abandona os seus filhos, concede um meio infalível, ao mesmo tempo espada e escudo, para vencer tais contendores: a Oração! E o cristão que desconhece o valor e os benefícios dela, bem pode ser comparado àqueles soldados que contam com armas grande alcance, mas não sabem fazer uso delas.

Assim como para a subsistência do corpo é necessário o alimento, assim também é a oração para a vida da alma.

Para isso, é indispensável ter sempre presente o conselho dado pelo Apóstolo: “orai sem cessar” (1 Ts 5, 17). Em todas as circunstâncias da vida, em qualquer idade, em todos os lugares, que ninguém se julgue dispensado da oração, por mais virtuoso que pareça! Ademais de nos proporcionar uma aproximação com o Criador, ela também tem a finalidade de “tirar do caminho da morte as almas dos defuntos, robustecer os fracos, curar os enfermos, libertar os possessos, abrir as portas das prisões, romper os grilhões dos inocentes. Ela perdoa os pecados, afasta as tentações, faz cessar as perseguições, reconforta os de ânimo abatido, enche de alegria os generosos, conduz os peregrinos, acalma as tempestades, detém os ladrões, dá alimento aos pobres, ensina os ricos, levanta os que caíram, sustenta os que vacilam, confirma os que estão em pé”1.

capelaA oração nos ajuda a vencer todos os obstáculos e nos dá sustento e fortaleza para galgarmos a montanha da perfeição. Encontraremos neste caminho muitas pedras e borrascas: momentos de escuridão, sensações de abandono, quedas inevitáveis, trechos íngremes onde nos parece faltar o fôlego; por outro lado, teremos também as consolações e os gáudios indizíveis, nos quais nos sentiremos afagados e carregados pela Providência.

Em todas estas situações, sempre será a oração “[…] um simples olhar lançado ao Céu, um grito de reconhecimento e de amor no meio da provação ou no meio da alegria”2. Devemos, portanto, intensificar de contínuo nossas invocações e súplicas e rezar em todas as ocasiões, em união com Nosso Senhor Jesus Cristo, implorando a Ele as graças necessárias para nosso progresso na vida espiritual e nossa salvação. Como bem afirma Santo Agostinho, Ele é quem “ora por nós como nosso sacerdote; ora em nós como nossa cabeça; a recebe a nossa oração como nosso Deus. Reconheçamos nele a nossa voz, e em nós a sua voz”3.

1 TERTULIANO. Do tratado sobre a oração. In: LITURGIA DAS HORAS. São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 2001. Vol. II. p. 222.
2 “[…] c’est un simple regard jeté vers le Ciel , c’est un cri de reconnaissance et d’amour au sein de l’épreuve comme au sein de la joie” (SANTA TERESA DO MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE. Histoire d’une ame: manuscrits autobiographiques. 35. ed. Paris: Saint- Paul, 1978. p. 276. Tradução da autora)
3 SANTO AGOSTINHO. Dos Comentários sobre os Salmos. In: LITURGIA DAS HORAS. São Paulo: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria, 2000. Vol.II. p. 329.