O valor de uma crase

Ana Laura de Oliveira Bueno

Dir-se-ia que interpretar é — apreender o sentido verdadeiro de um texto. Assim, embora haja muitas maneiras de se interpretar uma frase, nem sempre as interpretações conferem com o que o texto quer dizer, podendo ser contraditórias e até mesmo absurdas. Deste ponto de vista, podemos considerar a estreita relação existente entre as interpretações corretas, o perfeito entendimento do que se lê e o bom conhecimento das áridas regras gramaticais.

Tomemos como exemplo a conhecida e belíssima frase do Gênesis que, por trás de uma crase, esconde um verdadeiro tesouro teológico: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). Considerando que imagem é aquilo que procede de um objeto real em que pode ou não haver igualdade, é manifesto que se encontra no homem certa semelhança de Deus, semelhança esta que deriva de Deus como de seu modelo. No entanto, não é uma semelhança de igualdade, uma vez que o modelo ultrapassa infinitamente o modelado. Assim, se diz que há no homem uma imagem de Deus, não perfeita, mas imperfeita.

A preposição a, com efeito, indica certa distância, isto é, o homem jamais poderia ser chamado de “a imagem de Deus” sem o acento grave, pois isto cabe única e exclusivamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, Imagem do Pai, idêntica a Ele em substância, Imagem perfeita de Deus. Do homem se diz que é à imagem por causa da imperfeição da semelhança.

Assim, aquele que desconsiderar o valor da pequenina e “insignifcante’ crase pode estar sujeito a interpretar um absurdo e deixar passar essa oportunidade de contemplar o infinito abismo existente entre o Primogênito de toda criatura, a Imagem, e as meras criaturas, feitas à sua imagem, por sua bondade.

Lembremo-nos, portanto das valiosas regras gramaticais, sempre eficazes e importantíssimas a quem quer interpretar corretamente um texto.

Espelho do Sol

Ir Adriana María Sánchez García, EP

Cada um de nós pode ser comparado a uma gota d’água, pequenina e insignificante, mas chamada a refletir algo infinitamente superior…

gota_dagua_arautosApós uma forte chuva, ou mesmo depois do leve orvalho da madrugada, podemos contemplar gotas d’água refletindo a luz do Sol. Semelhantes a pequenas joias, tomam elas uma beleza própria que não tinham enquanto não refletiam tal luz.

Mas o que é o Sol comparado a uma gota d’água? Ele é uma estrela de especial grandeza, que aquece e ilumina a Terra, permitindo a vida em nosso planeta. E uma gota d’água… que poderia haver de mais insignificante? Ela cai e logo se esvai, sem que se lhe dê maior importância. Em relação ao oceano é nada! No entanto, pela ação dos raios solares, aquela pequenina gota passa a ser um espelho do Sol, a participar, de certo modo, da rutilante beleza do Astro Rei.

De maneira análoga, cada um de nós é como uma gota d’água. O homem, por si mesmo, é tão pequeno dentro do universo… Contudo, está chamado a fazer resplandecer nele algo infinitamente superior: o próprio Deus! Sendo um reflexo da luz divina, enquanto criatura feita à sua imagem e semelhança, adquire um brilho superior quando as águas batismais se derramam sobre sua cabeça: é o fulgor do estado de graça. E o que há de mais belo do que uma alma em graça?

gotasDeus ilumina tudo o que vemos, sejam as maravilhas da natureza ou as virtudes das almas santas. Todas as belezas desta Terra são como espelhos, nos quais podemos admirá-Lo e crescer no anelo de vê-Lo no Céu. O vasto e tempestuoso mar, por exemplo, representa a grandeza divina; a garça branca, sua pureza; o amor de uma mãe, sua bondade.

Ensina-nos São Paulo: “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face” (I Cor 13, 12). Não obstante, como poderemos chegar a ser um perfeito espelho do Sol de Justiça, límpido e sem nenhuma mancha, para refletir sua imagem?

O amor, diz São João da Cruz,1 torna o amante semelhante ao amado. É, pois, amando muito a Deus que nos tornaremos semelhantes a Ele. Amando a Deus mais do que a nós mesmos — o que só é possível com o auxílio da graça —, desejaremos viver conforme a sua Lei e seremos a “luz do mundo” (Mt 5, 14) preconizada por Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho. Assim, poderemos realizar em nós as palavras do Apóstolo: “Refletimos como num espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor” (II Cor 3, 18).

1 Cf. SÃO JOÃO DA CRUZ. Subida del Monte Carmelo. L.I, c.4, n.3. In: Vida y Obras. 5.ed. Madrid: BAC, 1964, p.371.

Revista Arautos do Evangelho Nov 2014