O Reinado de Cristo na Terra

Ir Juliana Montanari, EP

Em nossa era, verifica-se uma preocupação constante: como alcançar uma sociedade perfeita? Fala-se muito de ordem, leis e direitos, mas a resposta não se restringe a isso. A solução encontra -se em algo muito mais profundo, régio e elevado, que bem podemos chamar de fonte da qual emanam todas as perfeições: A Santa Igreja Católica Apostólica e Romana.

A sociedade pode ser comparada a uma enorme construção. Para a edificação de um castelo, por exemplo, é necessário, mais que majestosas torres e altaneiras muralhas ou elegantes escadarias e magníficos salões, é necessário um sólido fundamento. Sem este, de nada valerá a construção, pois, na primeira tempestade, tudo desmoronará e se reduzirá a um amontoado pedras. Tendo uma base forte, o castelo atravessa os séculos, incólume a chuvas e intempéries. Estas só contribuirão para torná-lo mais belo, pois dar-lhe-ão a glória de ter resistido às piores situações. Ora, a sociedade tem como fundamento a Igreja Católica. Podemos contemplar, no passado, o esplendor e grandeza em todos os campos nos quais ela penetrou. Em contrapartida, encontramos nos dias atuais apenas os restos dessa civilização luminosa, pois ela ruiu quando seu fundamento lhe foi tirado. Tal realidade, muito esquecida na sociedade em que vivemos, merece grande importância.

Numa época como a nossa, em que as pessoas, guiadas pelo egoísmo e por falsas doutrinas, afastam-se da Religião, é difícil ter uma noção exata de como foi a Idade Média. Durante três séculos, a Igreja teve inteiro domínio sobre os povos do continente europeu e, sem dúvida, foi este “o período mais fecundo e sob muitos aspectos, mais harmonioso de todos os que a Europa conheceu até os nossos dias. Saindo das trevas invernais da época bárbara, a humanidade cristã viveu a sua primavera”.[1] A Igreja converteu aqueles bárbaros germanos em filhos de Deus e deles fez uma brilhante civilização. A sociedade era totalmente penetrada pela Fé e o Estado tinha a obrigação, antes de tudo, de prestar honra à Igreja, dar-lhe proteção e apoio.[2] Assim descreve o Papa Leão XIII a luminosa Cristandade Medieval:

Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. [3]

A hierarquia eclesiástica compunha-se de três graus: o Sumo Pontífice, os bispos e os párocos. A esta categoria, “por causa de sua condição sacral, era tida como a mais importante das classes sociais. Além de sua missão própria que é de salvar as almas, tinha sob sua responsabilidade duas atividades: a educação e a saúde pública”.[4] Desta forma, todo o povo era orientado e auxiliado pelo próprio clero. O desempenho do ensino era administrado por sacerdotes e bispos, e os nobres necessitavam de uma licença eclesiástica para lecionar, pois o ensino dizia respeito à ortodoxia e para isso era preciso estar sob a vigilância do clero.[5] Notando a importância de saber ler e escrever, não só para os trabalhos habituais mas, especialmente, para a difusão da Religião, a Igreja desenvolveu uma forma de alfabetizar a todos através das passagens bíblicas. O mito de que a Idade Média foi a era do atraso no que diz respeito aos estudos fica desmascarado, pois foi também neste período que se desenvolveu o livro, instrumento de cultura que substituiu os pergaminhos; bem como os estudos aprofundados de filosofia e teologia na Escolástica. [6] Além disso, todas as decisões eram resolvidas pelo soberano, que baseava-se na doutrina católica exposta claramente pela lógica cristã como nos explica Woods:

Se a Idade Média tivesse sido realmente um período em que as questões eram resolvidas pelo mero recurso aos argumentos de autoridade, esse rigor no estudo da lógica formal não faria sentido. O empenho com que se ministrava essa disciplina revela, pelo contrário, uma civilização que almejava compreender e persuadir. Para esse fim os professores procuravam alunos capazes de detectar as falácias lógicas e de formular argumentos logicamente sólidos. Foi a Idade da Escolástica.[7]

Quanto à saúde pública, sabe-se que a Igreja foi solícita em atender as necessidades dos enfermos, auxiliando-os não somente no campo espiritual, através dos Sacramentos, como também no campo físico, erigindo hospitais atenciosamente cuidados por religiosos, os quais dedicavam-se aos doentes com esmero e verdadeira caridade. De tal forma isto sucedeu que não somente o mundo cristão foi modificado, mas todo o comportamento global. Compreendendo que servir o próximo é servir a Deus, as ordens hospitaleiras atendiam os doentes, quem quer que fosse, de todos os lugares, sem exceção. Inclusive, foi esta “uma das razões que haviam levado os cristãos da Idade Média a chamar ‘Hospedagem de Deus’ ou ‘Casa de Deus’ não às igrejas, mas aos lugares onde se acolhiam e tratavam, gratuitamente, pobres, doentes, miseráveis”,[8] comenta a historiadora Régine Pernoud, fazendo alusão ao vocábulo francês hôtel-Dieu, hospital. No mesmo sentido, observa o Professor Plinio Corrêa de Oliveira:

Foi com os tesouros de dinheiro dados à Igreja, pela caridade, que se pôde estender, pelo continente europeu,  uma notável rede de hospitais. […] Tais frutos dependiam do fato de a Igreja estar cercada de prestígio pelo Estado e pelos poderosos de então, dando-lhe os meios de exercer uma grande ação. [9]

Encontrando o apoio do Estado, a Igreja pôde atuar em todos os campos:

impulsionou as ciências e o progresso técnico, aperfeiçoou as relações internacionais entre os estados, aboliu a escravidão, fez avançar no progresso social, elevou a condição da mulher, de tal modo que, no século XIV, a Europa havia ultrapassado de muito todos os outros continentes.[10]

Além dos deveres e direitos individuais, os medievais preocupavam-se mais com o bem comum do que com o próprio. Considerando-se ligado aos outros pela mesma Fé, o homem medieval sentia intensamente que tinha deveres para com a sociedade. Mais do que um meio indispensável para ganhar a vida, o trabalho tinha um valor altíssimo, pois criava condições para a prática das virtudes. Tanto os camponeses como o carpinteiro ou o padeiro executavam, com suas simples atividades, uma obra piedosa, pois operavam visando o bem alheio, e assim, preparavam-se para o Céu. A disposição do grupo de trabalhadores trazia a marca cristã da caridade fraterna. Havia muitas confrarias ou irmandades, ou seja, pessoas que trabalhavam juntas em convivência fraterna, como os arquitetos, os escultores, pedreiros, aparelhadores e amassadores de cal, para construir catedrais ou casas paroquiais. Joalheiros, curtidores, vendedores de peles e alfaiates reuniam-se e ofereciam à catedral um vitral que trazia embaixo uma vinheta, designando as ocupações de seu estado, feito por eles mesmos em louvor ao seu santo padroeiro ou à Virgem Mãe de Deus. Assim o trabalho, sob o olhar de Deus, se enobrecia. [11]

 “Assim na Terra como no Céu”: o Reinado de Cristo na Terra.

Sabemos que a vida nesta Terra diferencia-se profundamente da vida eterna, porém não são dois planos separados um do outro. Pelo contrário, possuem eles uma íntima relação: “Assim como a Escola Militar é o caminho para a carreira das armas, ou o noviciado é o caminho para o definitivo ingresso numa Ordem Religiosa, assim a terra é o caminho para o Céu”.[12] O anseio pela felicidade leva o homem a procurar na vida presente algum resquício do Reino que os espera no Céu. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou a pedir ao Pai Celeste: “Venha a nós o vosso Reino” (Mt 6, 10). Esta súplica, rezada todos os dias, há mais de dois mil anos Igreja Militante, roga que o Reino de Deus se estabeleça o quanto antes entre nós.

Porém, como seria isso possível tendo o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo afirmado não ser deste mundo o seu Reino? (Cf. Jo 18, 36). Será uma contradição? Ou teria ensinado a pedir algo impossível de se alcançar?

De fato, como nos explica São Tomás,[13] Nosso Senhor disse: “O meu reino não é deste mundo”, e não “o meu Reino não está neste mundo”, ou seja, está neste mundo com a humanidade regenerada pela graça e não é um reino comum aos reis da Terra, mas, um reino divino, pois o seu poder vem do Céu. “É o reino da virtude, é o reino da santidade, é o reino do Evangelho”,[14] que só se “torna efetivo na terra, individual e social, quando os homens, no íntimo de sua alma, como em suas ações, e as sociedades em suas instituições, leis, costumes, manifestações culturais e artísticas, se conformam com a lei de Cristo”. [15]

O Reino de Deus se realiza na sua plenitude no outro mundo. Mas para todos nós ele começa a se realizar em estado germinativo já neste mundo. Tal como em um noviciado, já se pratica a vida religiosa, embora em estado preparatório; e em uma escola militar um jovem se prepara para o Exército… vivendo a própria vida militar. E a Santa Igreja Católica já é neste mundo uma imagem, e mais do que isto, uma verdadeira antecipação do Céu. [16]

Para o futuro, portanto, estão reservadas maravilhas jamais verificadas na História. A este mundo controverso, violento, que parece caminhar de paroxismo em paroxismo, sucederá uma nova era na qual florescerá a verdadeira sociedade cristã, ainda mais harmoniosa e bela que a sociedade medieval, pois terá a unção do perdão divino, única solução —  mas quão eficaz! — para os desregramentos humanos. Sob a égide desse perdão e alicerçada na Igreja, a sociedade, será verdadeiro espelho da fisionomia de Cristo, em que serão reunidas “todas as coisas, as que estão nos Céus e as que estão na Terra” (Ef I, 10).

[1] DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das catedrais e das cruzadas. Trad. Emérico de Gama. São Paulo: Quadrante, 1993, p. 11.

[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plínio. “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados…”. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano I, n. 5, ago. 1998, p. 18.

[3] LEÃO XIII. Encíclica Imortale Dei, n. 28.

[4] CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. As três Revoluções: Conferência. São Paulo, [s.d.]. (Arquivo IFTE).

[5] Loc. cit.

[6] Cf. PERNOUD, Régine. Idade Média : o que não nos ensinaram. 2. ed. Trad. Maurício Brett Menezes. Rio de Janeiro: Agir, 1978, p. 51.

[7] WOODS, Thomas E. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. Trad. Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante, 2008, p. 54.

[8] PERNOUD. Op. cit. p. 141-142.

[9]CORRÊA DE OLIVEIRA. “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados…” Op. cit.  p. 20.

[10]CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é imaculada e indefectível. Disponível em http://arautos.org.br.  Acesso em 13 set. 2012.

[11] Cf. DANIEL-ROPS. A Igreja das catedrais e das cruzadas. Op. cit. p. 300-303.

[12] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Cruzada do século XX.  In: Catolicismo. São Paulo: Ano I,  n.1, jan. 1951, p. 1.

[13] SÃO JOÃO CRISÓSTOMO apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Áurea. Exposicion del Evangelio segun Juan. C. XVIII, v. 33-38.

[14] CLÁ DIAS. Deus nos ensina a pedir o que nos quer dar: Homilia. Op. cit.

[15] CORRÊA DE OLIVEIRA. A cruzada do século XX. Op. cit. p. 1.

[16] CORRÊA DE OLIVEIRA. A cruzada do século XX. Op. cit. p. 1.

The Middle Ages and Modernity

ReimsIrmã Margaret Louise Bassi

No historic epoch can be entirely detached from its past and an analysis of historical events is always a fruitful exercise. The philosophies that shaped the eras directly preceding the present contribute greatly to today’s thought.

Over the last five centuries, the image of the Middle Ages ― denominated as “the Dark Ages” ― was upheld as a time that contributed nothing to humanity. Rather it was said to have hindered progress and stagnated philosophical thought, most especially due to the influence it received from Christianity while Modernity came to be known as an era open to progress and thought. This partial vision of reality though, is now widely disputed.

The Middle Ages, built upon the ruins of the Roman Empire and the consequences of the Barbarian invasions, was based on the teachings of the Catholic Church. During its initial development it was not characterized by a philosophy of its own, in the sense that philosophy has now come to be understood. Christian tenets guided human life and answered the questions of medieval man. He considered eternal happiness to be goal and the cross of Christ as his path. He faced difficulties with a spirit of sacrifice in the pilgrimage toward the celestial homeland. Philosophy therefore, was intertwined with religion and this ensemble merged with the life of society, which had proceeded organically from the historical circumstance of that time. It has been said that the philosophy of the Gospel guided the peoples of medieval Western Europe.

With Saint Thomas Aquinas and Scholasticism a systemization of Christian philosophy, as a rational foundation for revealed truths, attainable by intelligence, was developed. He distinguished faith from reason and after clearing defining them he united them in a close philosophical relationship. Making use of the contributions of the ancient philosophers and thinkers in their search for truth, knowledge that had been safeguarded in the monasteries under the protection of the Church during the tumultuous epoch of wars and invasions, he strove to bring reason to an apex and to an encounter with revelation. With Scholasticism, and most especially the institution of the universities, the Western medieval world came into contact with non-Christian interpretations of man.

In this context, culture continued to develop ― principally in the fields of literature and arts with Italy among European cultural centres ― leading to the onset of the Renaissance and an aura of suspicion toward the medieval system. The initial signs of a “new spirit” appeared that would seem to substitute Christian social ideals for increasingly materialistic and mercantile values. In the cultural sphere, Humanism emerged as a super-valuation of man in detriment to the former theo-centric medieval concept. New philosophies, tantalizing to souls in search of novelties, abounded. Oftentimes faith was relegated to a secondary plane and reason was given prominence. Modernity arrived on the scene of History, severing with the past and heralding a future which claimed to give free reign to progress and thought.

Within a few centuries the fermentation of a new mentality and the transformation of the Western world was effected. Illuminism, then, appeared on the historical scene claiming to be the antidote to the so-called “darkness of ignorance”. The philosophies introduced by Renaissance and Illuminist ideas contrasted with the theological and philosophical foundations of medieval Christian thought. Where Scholastic Christian thought sought answers to human questions enlightened by Christian faith and customs, Modernity believed it was necessary to break with tradition. A large portion of Western Europe was transformed ― taking into consideration the epoch ― in a rapid, abrupt and revolutionary way.

catedral-modernaThese transformations completely altered the Western scenario and the consequences of Modernity were immediately experienced. The illusion of progress slowly waned as it became apparent that the positive sciences, which had occupied the place of philosophy and theology, were unable to provide answers to the central human questions. These effects are still felt by contemporary man who is restless and seeks to satisfy the transcendental dimension that was abandoned by rationalism and the subsequent philosophies.