Resgate da metafísica e volta da transcendência: saudades do Absoluto?

Cristo Rey val_4Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Ainda que não queira, o homem não deixou de ser homem e continua tendo, no fundo de seu ser racional, aquela noção simpliciter, naturalmente incerta, de sua causa e fundamento: um Ser Absoluto. É um conhecimento que pode ser comparado ao de uma pessoa que sabe que alguém vem, mas não conhece a este que vem. E a questão do homem de hoje é que não lhe é manifesta, pela inteligência, a percepção de que alguém está vindo. Porém, a ideia deste Absoluto ― Deus, que não é objeto só da inteligência, senão que de outras dimensões do ser humano, não a excluindo, mas envolvendo a numa forma distinta de especulação1 ―, permanece latente em seu ser. É a “brasa que ainda fumega” na mente desordenada do homem hodierno. E quando este se desperta para buscar e conhecer o fundamento último para toda sua experiência real e possível, e quer ir atrás e mais além de qualquer dessas experiências, torna a ser um metafísico.

Analisando a história da civilização ocidental ― para restringir o campo de observação ―, é fato evidente e objetivo que os homens ambicionaram tal conhecimento por mais de vinte e cinco séculos. E ainda quando, supostamente, demonstraram que não o deveriam procurar mais e se comprometeram a não voltar a fazê-lo, se encontram buscando-o novamente2, numa acepção autenticamente tomista, que considerava o conhecimento de Deus como a sabedoria por excelência (S.T. I, q.1, a.6): “merece o título de sábio aquele cujas especulações versam acerca da causa suprema do Universo, quer dizer, de Deus”3. É um resgate da metafísica ou um “tomismo”, meio subconsciente, que começa a reviver nas mentes, antes mesmo que na filosofia, o que ocorreu em meados do século antepassado.

A modernidade saturou o homem de razão, que passou a sentir falta da Fé e da moral. Havendo-se fartado de ideologias materialistas, racionais e subjetivas, em que o Absoluto é um “Acaso” que forja circunstâncias para esmagar o destino que supostamente escolheu com liberdade, através de fatos fortuitos e imprevisíveis4, o homem começa a ter nostalgia da transcendência que lhe proporcionava a Fé. Porém, quem se estabelece firme na Fé, não vê inconveniente em compreender racionalmente o que crê5, e sua nostalgia é desta união. Este é o eixo do pensamento tomista, que distingue a Fé e a Razão, unindo-as harmonicamente.
Maritain6 reconhece que a modernidade, amando a inteligência e tendo abusado dela, só poderia agora ser curada por ela; porém não por ela sozinha. E sendo São Tomás o santo da inteligência, mas que conduz toda a Razão à luz da Fé ― “luz que ilumina racionalmente o homem que vem do mundo e luz que ilumina sobrenaturalmente o homem regenerado na fé”, com sua filosofia de existências e não de essências, que vem das intuições naturais da experiência sensível e da inteligência ―, coloca esta mesma Fé em relações vitais e orgânicas com o mundo da afetividade, instintividade e emoção, bem como o da vontade ou do suprarracional, numa concepção humanista cristã que respeita verdadeiramente a grandeza original do homem, descendo às raízes do ser humano, num ascenso metafísico ao Ser Absoluto: a via metafísica por excelência7.

Na realidade, ao afirmar que o conhecimento natural de Deus se faz a partir do mundo sensível, em que os efeitos remontam à causa ― “Deus naturali cognitione cognoscitur per phantasmata effectus sui” ― São Tomás reconhece que a causalidade é débil, pois um efeito finito é desproporcionado a uma Causa infinita, mas encontra sua força na analogia, a única ponte por onde se pode passar do mundo a Deus8. Ao contrário, como foi visto, rompendo esta linha de pensamento que vinha desde os gregos, passando por São Tomás e chegando até Descartes ou Newton, que reconheciam o princípio supremo de inteligibilidade da natureza como sendo Deus, Kant afirma, em seu criticismo, que uma vez que Deus não é objeto apreendido nas formas apriorísticas da sensibilidade ― espaço e tempo ―, não é possível referir-Lhe senão como categoria de causalidade, pois não é objeto do conhecimento humano. E o homem estabeleceu sua existência apenas pelas exigências da razão prática9.

Ora, abandonar tal questão por considerá-la imprópria na ordem dos conhecimentos positivos é cortar a raiz da especulação referente à natureza e existência de Deus, produzindo uma postura radicalmente nova do homem com relação à verdade, que é a do princípio de imanência, oposto à transcendência10. Portanto, segundo Gilson, a questão se decide entre Kant e São Tomás, pois todas as demais posições que o seguiram são somente “hospedarias ou paradas no caminho que leva ao agnosticismo religioso total ou à teologia natural da metafísica cristã”11.

Mas a humanidade, de modo geral, mantém o establishment em que se fixou desde os tempos modernos, pois o avanço das tecno-ciências ― as telecomunicações, a medicina, a biotecnologia e tantos ramos da ciência ―, sobretudo nos séculos XIX e XX, trouxe-lhe um enorme progresso que a deixou inebriada.

No entanto, entrados já uma década no século XXI, vemos como o progresso em mãos inescrupulosas pode transformar-se em algo terrível: o mal. Se ao progresso técnico-científico não corresponde um progresso ético-religioso do homem, não é verdadeiro progresso, mas uma ameaça para o próprio homem e para o mundo12. E é a mesma ciência, cheia de ares de confiança em si, que se encontra vulnerável, uma vez que tantos cientistas, longe de encontrar resposta para tudo, estão dispostos a admitir que sua visão do Universo está longe de ser completa e que provavelmente nunca o seja13, e se voltam para o transcendente.

“A ciência e a tecnologia encontram sua justificação no serviço que devem render ao homem e à humanidade, e a ciência racional deve estar unida com uma série de esferas do conhecimento amplamente aberto aos valores espirituais”14. O velho sonho moderno de substituir a filosofia e a teologia pela ciência fracassou. Contudo, permanece uma inquietude transcendental no homem, que é intrínseca a seu próprio ser, e nem sequer a ciência a pode tirar, pois a Razão está criada para a verdade e a Fé assalta a inteligência, porque expõe tal verdade15.

Com a razão saturada, o homem começa a dar-se conta de todos esses fracassos, e sente uma insegurança crescente diante da ameaça das forças da própria natureza, que parece disposta a desencadear-se para arrastar consigo seu incauto explorador, bem como percebe que o caminho que se havia aberto a seus olhos como sendo o da suprema liberdade, tornou-se, ao contrário, o de sua última alienação16. A inquietude em busca da verdade se reaviva, e como afirma Edith Stein: “quem procura a verdade procura a Deus, ainda que não o saiba”17.

Essa inquietude vem do instinto do infinito, da busca do Absoluto inerente à alma humana, conforme analisado no início deste artigo. E aquilo que é natural intrinsecamente, quando se rompe por um fator externo, cedo ou tarde tende a voltar com mais força do que antes, como tão bem o explicitam os franceses: Chassez le naturel, il revient au galop! ― Rompei o que é natural e ele voltará a galope!

A nostalgia de Deus habita no coração do homem. É como um espinho cravado em sua carne… Santo Agostinho começa suas Confissões com um brado que talvez sintetize todo o seu livro e muito reflete o homem hodierno, confundido em meio ao caos de sua mente, com tantas filosofias e pensamentos contraditórios ― ele mesmo quase sem pensamento, com a perda da integridade de seu lumen rationis ―, saturado de razão, deixando-se arrastar pelos acontecimentos, mas sentindo em seu ser a angústia de explicar-se a si mesmo e transcender: “Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-Vos. Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós”18.

1 1 ZUBIRI, Xavier. Introducción al problema de Dios. Em: Naturaleza, Historia, Dios. Madrid: Alianza, 1987. p.408.
2GILSON, Étienne. La unidad de la experiencia filosófica. Citado por: GONZÁLEZ, Ángel Luis. Ser y participación: estudio sobre la cuarta vía de Tomás de Aquino. 3a. ed. Pamplona: Eunsa, 2001. p.16.
3GILSON, Étienne. Dios y la filosofía. Buenos Aires: Emecé, 1945. p.92-95.
4CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O valor de uma renúncia: artigo publicado em ‘O Legionário’, no. 97, 08/05/1932, p.4. Em: Opera Omnia: Reedição de escritos, pronunciamentos e obras. São Paulo: Retornarei, 2008. p.364-365.
5GILSON, Étienne. A filosofia da Idade Média. 2a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.291-292.
6MARITAIN, De Bergson a Thomas d’Aquin, Op. Cit., p.107-111.
7GONZÁLEZ, Op. Cit., p.226.
8MANSER, G. M. La esencia del tomismo. Madrid: Selecciones Gráficas, 1953. p.535-536.
9GILSON, Dios y la filosofía, Op. Cit., p.123-127.
10FABRO, Cornelio. Santo Tomás frente al desafío del pensamiento moderno. Em: FABRO, Cornelio e outros. Tomás de Aquino, también hoy. 2a. ed. Pamplona: Eunsa, 1990. p.16.
11GILSON, Dios y la filosofía, Op. Cit., p.128.
12BENTO XVI. Spe Salvi. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 73 (Jan., 2008); p. 8.
13JOHNSON, George. Ahora la ciencia piensa en Dios. [Em linha]. Em: Clarín. Buenos Aires. No.161 (Ago., 1998). [Consulta: 26 Dez., 2008].
14JOÃO PAULO II. Discurso a los representantes de la ciencia, de la cultura y de los altos estudios en la Universidad de las Naciones Unidas. No.12 [Em linha]. [Consulta: 10 Dez., 2008].
15RATZINGER, Joseph. Dios y el mundo: creer y vivir en nuestra época. Buenos Aires: Sudamericana, 2005. p.40.
16ABRO, Santo Tomás frente al desafío del pensamiento moderno, Op. Cit., p.17-18.
17AGUILÓ, Alfonso. É razoável crer? São Paulo: Quadrante, 2006. p.8.
18SANTO AGOSTINHO. Confissões. L.I, c.1.

A Montanha na qual Deus quis morar

Qual seria essa Montanha na qual quis Deus habitar para sempre, prevista pelo Salmista no Antigo Testamento, e que teria um lugar único na obra da Salvação da Humanidade?

Beatriz Alves dos Santos

Quem viveu em alto de montanha pôde, sem dúvida, contemplar variados espetáculos da natureza. Ora é o Sol nascendo, começando a colorir o dia com seus primeiros raios dourados, parecendo renovar todas as coisas; ora é o ocaso, no qual o astro rei cede o lugar à rainha da noite, a Lua, encerrando o dia com cores fortes e vibrantes, numa despedida que não é senão um “até amanhã”.

MontanhasOutras vezes, as nuvens cobrem ou enfeitam o céu formando desenhos que alimentam a imaginação dos observadores. Mais sugestiva situação talvez seja quando a névoa envolve o panorama como um manto, deixando descobertos apenas os picos dos montes, fazendo-nos evocar o belo trecho do Pequeno Ofício da Imaculada Conceição: “E cobri como névoa a Terra toda”.

Tem sua beleza também o céu inteiramente límpido — “céu de brigadeiro”, dizem os aviadores —, quando no horizonte infindo a terra e o céu se encontram, quiçá simbolizando um ósculo entre o tempo e a eternidade…

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Ao longo da História, Deus escolheu o alto dos montes para Se manifestar aos homens: no Sinai, entregou a Moisés as tábuas da Lei; as Bem-Aventuranças foram ensinadas pelo Divino Mestre no “Sermão da Montanha”; para transfigurar-Se ante três de seus discípulos, Cristo elegeu o Tabor; e no Calvário ofereceu-Se ao Pai como o Cordeiro sem mancha, para a Redenção do gênero humano.

E séculos antes de vir ao mundo o Homem Deus, havia já cantado o Salmista: “Monte de Deus é o monte de Basã, monte elevado é o monte de Basã. Por que tendes inveja, montes elevados, do monte que Deus escolheu para morar? O Senhor vai morar nele sempre” (Sl 68, 16-17).

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Qual seria essa montanha na qual quis Deus habitar para sempre, prevista já no Antigo Testamento?

São Luís Grignion de Montfort, na sua famosa Oração Abrasada proclama: “Qual é, Senhor Deus de verdade, essa montanha misteriosa de que nos dizeis tantas maravilhas, senão Maria, vossa diletíssima Esposa, cuja base pusestes sobre o cimo das mais altas montanhas? Fundamenta ejus in montibus sanctis” (Sl 87, 1).

É Maria, a Mãe de Deus, esse elo entre o tempo e a eternidade, entre a pequenez do ser humano e a infinitude de Deus que n’Ela Se fez homem para comunicar aos homens sua divindade. Ensina-nos a Igreja, num lindo hino da piedade católica: “Maria mons, Maria fons, Maria pons”. Maria é a montanha (mons) de todas as virtudes, a fonte (fons) da qual seu divino Filho faz jorrar todas as graças, a ponte (pons) que permite atravessar todos os abismos.

Portanto, apesar dos defeitos e lacunas inerentes à condição humana, nada devemos considerar como motivo de aflição, pois é Nossa Senhora a mais excelsa de todas as mães. A compaixão d’Ela vale mais do que os castigos merecidos por nossos delitos; e se nossos pecados constituem um abismo, sua clemência é uma verdadeira montanha.

Habitantes de um “vale de lágrimas”, galguemos essa Montanha de misericórdia na qual Deus Se compraz maravilhosamente, certos de que por intercessão d’Ela alcançaremos a Bem-Aventurança eterna.