O que importa é glorificar

Ir Ariane da Silva Santos, EP

“Não a nós, ó Senhor, não a nós, ao vosso nome, porém, toda a glória” (Sl 113, 9), canta o Salmista, sintetizando, em poucas palavras, o desejo que anima o coração dos justos. Nenhum outro sinal é tão revelador da santidade de alguém quanto esse infatigável anseio de direcionar a Deus os louvores recebidos, e de procurar a máxima glória d’Ele em todas as coisas.

Com efeito, se até mesmo os seres inanimados glorificam a Deus pelo fato de existirem — “os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 18, 3) — muito mais deveriam glorificá-lo os homens, criados à sua imagem e semelhança, e “realmente filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 17) pelo Batismo ! Contudo, enquanto as outras criaturas invariavelmente louvam a Deus, os homens nem sempre querem cumprir com essa obrigação, por causa do orgulho. E muitas vezes trocam “a sua glória pela estátua de um touro que come feno”… (Sl 105, 20).

São João Batista é um modelo exímio da prática da restituição, virtude que resume em si a humildade, a gratidão e o desejo de servir a Deus. Sua vida não foi senão um desdobramento de fidelidades, restituindo em grau supremo tudo aquilo que recebeu de Deus, desde o primeiro contato com Ele através da voz de Maria, ainda no claustro materno. Comentam alguns teólogos que, nesse momento, pela excelência arrebatadora da voz de Nossa Senhora, a vida divina foi transmitida a São João Batista. O fato de ele ter saltado no ventre de Santa Isabel significa que lhe foi apagada a mancha do pecado original, como se ele tivesse sido batizado.[1] A partir de então, inúmeras outras graças lhe foram sendo concedidas em função dessa graça primeira, como comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

Vê-se que Nossa Senhora comunicou aí, misteriosamente, o espírito d’Ela a São João Batista. E tudo quanto ele fez na vida dele era uma decorrência dessa graça inicial, e que pelos rogos d’Ela foi constantemente intensificada, até chegar ao auge, quando ele morreu. E aí nós podemos ver São João Batista enquanto asceta austero, enquanto pregador do Cordeiro de Deus que viria e, depois, como herói que enfrenta Herodes e morre como mártir sublime de grandeza e de serenidade.1

Foi ele um “um facho ardente de amor a Deus”, que só viveu para a realização de sua missão, tendo somente “Deus diante dos olhos”.2

Não buscava os vestidos preciosos do mundo quem havia desprezado o próprio mundo; nem esperava uma comida opulenta quem pisoteava as delícias do mundo. Que necessidade tinha dos preciosos trajes do mundo a quem estava revestido com a veste da justiça? Que alimentos delicados da terra poderia desejar quem se banqueteava com as palavras divinas, aquele para quem o verdadeiro alimento era a lei de Cristo?3

E, de correspondência em correspondência, de entrega em entrega, quis diminuir para que crescesse a glória d’Aquele a quem os céus e a terra não puderam conter.

Com toda certeza, São João Batista diminuiu em vida, mas cresceu para a eternidade e para todas as eras vindouras, tornando-se o arquétipo de humildade cuja luz brilha diante dos homens e os leva a glorificar a Deus! (cf. Mt 5, 16)

Aprendamos com ele a estar constantemente indicando aos outros a verdadeira Luz, para, no final de nossa vida, proclamarmos com todas as fimbrias de nossa alma:

Eu sou vosso, Senhor, nem devo pertencer senão a Vós; a minha alma é vossa, e não deve viver senão para Vós; a minha vontade é vossa, e não deve amar a ninguém senão por vosso amor; o meu amor é vosso, e não deve visar senão a Vós. Devo amar-vos como meu primeiro princípio, porque vim de Vós; devo amar-vos como meu fim supremo e meu repouso, porque fui criado para Vós; devo amar-vos mais do que ao meu ser, porque este ser subsiste por Vós; devo amar-vos mais do que a mim próprio, porque vos pertenço e resido em Vós.4

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 11 set. 1967. (Arquivo IFTE).
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 17 nov. 1972.
3 CROMACIO DE AQUILEYA. Comentarios al Evangelio de San Mateo, apud LA BIBLIA COMENTADA POR LOS PADRES DE LA IGLESIA. Madrid: Ciudad Nueva, 2004, p. 84: “No buscaba los vestidos preciosos del mundo quien había despreciado el mismo mundo; ni aguardaba una comida opulenta quien pisoteaba las delicias del mundo?¿Que necesidad tenía de los preciosos trajes del mundo quien estaba ataviado con la vestidura de la justicia? ¿O que alimentos delicados de la tierra podía desear quien se apacentaba con las palabras divinas, aquel para quien el verdadero alimento era la ley de Cristo?” (Tradução da autora)
4 SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. 3 ed. Porto: Apostolado da Imprensa, 1958.

O Discípulo Amado

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

Quem percorre as palpitantes páginas do Evangelho não demora muito para comprovar com quanto acerto o profeta Simeão predisse o futuro dAquele que trazia em seus braços: “Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição. Assim se descobrirão os pensamentos escondidos nos corações de muitos” (Lc 2, 34-35). De fato, a cada passagem vemo-Lo objeto do mais sincero amor e das mais declaradas antipatias; não se encontra diante dEle quem assuma uma posição de neutralidade.

Assim, ao inexprimível enlevo que conduziu os reis magos a Belém, seguiu-se a fúria ardilosa de Herodes. As entusiasmadas manifestações das multidões perante os prodígios do Homem-Deus eram simultâneas aos pérfidos conciliábulos do Sinédrio, e as mostras de gratidão e reconhecimento dadas por Maria Madalena foram acompanhadas pela inveja de Simão fariseu e a avareza de Judas Iscariotes. Essas posições bem delineadas continuarão a ser assumidas pela humanidade, ao longo da História, diante da figura adorável do Verbo Encarnado e assim será até o grande dia em que Ele vier no esplendor de Sua glória julgar os vivos e os mortos.

Entretanto, não foi por falta de amor de Jesus que muitos O rejeitaram. As sagradas narrativas da Escritura demonstram a que extremo Jesus levou a bondade e misericórdia pelas almas que se abriram à Sua pregação. E dentre as figuras que emergem no Evangelho, uma há que se destaca como o depositário das divinas afeições e prodigalidades de Jesus: é João Evangelista, o apóstolo virgem, o Discípulo Amado.

Jesus conclama os primeiros apóstolos

João foi o mais jovem dos apóstolos e teria por volta de vinte anos quando encontrou Jesus, após ter sido discípulo de João Batista. A juventude transcorria-lhe serena entre as práticas do ofício de pescador e o culto ao Deus de Israel. Seu coração preservado das inebriantes mentiras do pecado e dotado das puras inclinações inerentes à inocência fizera dele o objeto da divina predileção de Jesus.

O convite deu-se num dia de laboriosa atividade pesqueira na região de Cafarnaum. Após ter inaugurado o Colégio Apostólico chamando Pedro e André, Jesus “viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca juntamente com seu pai Zebedeu, consertando as suas redes. E chamou-os. Eles, deixando imediatamente a barca e o pai, seguiram-No” (Mt 4, 21-22).

Tem-se todos os elementos para crer que São João Evangelista fora um menino com vigorosos traços contemplativos, os quais foram a causa de sua imediata consonância com o Salvador. O mesmo Deus que o chamava naquele dia havia preparado sua alma, desde os primeiros lampejos do uso da razão, para esse supremo encontro.

Ao lado do Mestre

O Discípulo Amado gozou do convívio com Jesus durante toda a Sua vida pública, viu o alvorecer da História da Salvação desenrolar-se diante de seus olhos e abeberou-se dos ensinamentos do Mestre na mais excelente das fontes: a Sua Pessoa sagrada. Ó feliz apóstolo, que teve a alma modelada pela presença redentora de Cristo! Eis o exemplo mais puro das santas veredas do discipulado!

Na sequência das portentosas manifestações de Jesus, vemos São João constantemente a Seu lado, servindo-O muito de perto. Ele maravilhou-se com o primeiro milagre em Caná, sentiu seus braços arquearem-se sob o peso dos cestos repletos de pães que o Mestre havia multiplicado por compaixão da multidão faminta; viu os aleijados e leprosos lançarem longe suas amarras em meio a cânticos de ação de graças e esquecerem-se num só momento anos inteiros de atrozes sofrimentos. Seus olhos encontravam-se com os de Jesus após tudo isso e sua alma grata reconhecia interiormente estar diante do Messias, o Esperado das Nações.

Nos momentos de oração, quando o Salvador se retirava para o alto das montanhas, ele O admirava nos divinos colóquios com o Pai, e adentrava a indizível atmosfera de bênçãos que envolvia aquelas supremas conversações. Era-lhe impossível não amar um tão grande Deus feito homem e, sobretudo, recusar as manifestações do amor inesgotável que Jesus lhe devotava.

Lembremo-nos aqui de seu caráter veemente que lhe mereceu, com seu irmão Tiago, o cognome de Boanerghes, que significa “os filhos do trovão” (Mc 3, 17). Sem deixar de se manifestar ardoroso, ia-se acrescentando à sua personalidade aquela doçura que é propriamente o sinal indelével de um seguidor de Cristo. Como veremos, esta suavidade de espírito marcou-o profundamente, porque Jesus havia-lhe reservado, ademais, a mais benfazeja das companhias.

Quinze anos de celestial convívio com Maria

Tendo acompanhado Jesus no Monte da Transfiguração e no Horto das Oliveiras, foi durante a agonia do Senhor que as garras da tibieza vieram arranhar-lhe a fidelidade. De fraquezas indesculpáveis como a de não acompanhar Jesus por uma hora sequer em meio a Suas mortais tristezas e fugir por medo dos soldados dos pontífices e fariseus, originou-se um perdão restaurador. A vergonha de tê-Lo abandonado afligiu sua alma, antes que a todos os outros, e seu espírito contrito, no qual soprava a graça do arrependimento, o armou de santa coragem e o conduziu aos pés da Cruz.

No doloroso momento em que se consumava o deicídio, Jesus teve ainda duas alegrias: a de levar Consigo, para o Reino dos Céus, o Bom Ladrão e ver voltar com humildade o filho que, horas antes, pousara a cabeça sobre Seu peito e ouvira o pulsar do Coração abrasado de amor pelos homens.

A João, que livrava naquele momento o Colégio Apostólico da completa deserção e representava toda a humanidade, foi concedido o maior dos tesouros: “Jesus, vendo Sua mãe e, junto dEla, o discípulo que amava, disse a Sua mãe: ‘Mulher, eis o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’, E, desde aquela hora, o discípulo recebeu-a na sua casa” (Jo 19, 26-27).

É isto tudo quanto sabemos pela Revelação acerca do período bendito que a Santíssima Virgem permaneceu ainda nesta Terra. A mais sólida tradição no-lo aponta como tendo sido de quinze anos, aproximadamente. Ela esteve em Jerusalém até a dispersão dos apóstolos e depois na Ásia Menor, a região onde São João exerceu sua missão evangelizadora. É em Éfeso que o peregrino encontrará a “Casa de Maria”, uma singela construção venerada desde tempos imemoriais como a derradeira moradia da Rainha dos Céus. Se àqueles tijolos fosse dada a faculdade de falar, quantas maravilhas eles teriam a nos dizer…

Uma réplica definitiva

O Discípulo Amado já havia exercido longos anos de atividades apostólicas quando surgiu, em meio aos cristãos de seu rebanho, a heresia gnóstica. Esta foi a mais terrível inimiga da divindade de Cristo, pela qual cristãos dissimulados afirmavam ser mais importante e louvável o conhecimento adquirido que a santidade de vida. A virtude era — diziam — uma aspiração para os menos capacitados, um anelo desprezível para quem já atingiu os elevados páramos da inteligência. Como conseqüência dessa nefasta influência, ficava subentendido que cada um poderia levar a vida moral pecaminosa que quisesse, desde que evoluísse na compreensão da pura doutrina. Sobretudo, negavam a Pessoa divina de Jesus, interpretando num plano natural toda a transcendência da Revelação.

Foi de tal maneira sagaz e sorrateira a ação dos gnósticos, que para discernir o teor de sua maldade e a gravidade de seus efeitos, era preciso ter convivido longamente com aquele Deus feito homem que ressuscitou-Se a Si mesmo e a Quem os mares e o céu obedeciam.

Num período em que todos os demais apóstolos já haviam selado sua entrega a Cristo com o próprio sangue, o único dos doze que ainda pelejava era também o único que tinha autoridade para replicar: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida – porque a vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou – o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” (1 Jo 1, 1-3)

É esta peculiar circunstância histórica que torna os escritos de São João — seu Evangelho, as três Epístolas e o Apocalipse, redigidos na última década do primeiro século — a rocha firme sobre a concepção da Pessoa de Cristo destinada a fulgurar por todo o sempre.

A primazia do amor

Compreender São João Evangelista é no fundo compenetrar-se que “Deus é amor” (1 Jo 4, 8). A caridade pregada por ele é a mais perfeita fonte de santidade, a mais segura garantia contra o pecado e a mais excelente marca da filiação divina. Quando lemos no Apocalipse a admoestação feita à igreja de Éfeso: “Mas tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor” (Ap 2, 4), enchemo-nos de confusão, porque quiçá mais que para ela, essa palavra valha para nós. A humanidade, que se verga sob a dura tirania da escravidão ao pecado, esqueceu-se da insuperável felicidade da inocência batismal. No momento em que o amor materno da Santíssima Virgem nos obtiver aquela graça de compunção que restaurou a fidelidade de São João, nós também acorreremos aos pés da Cruz e gozaremos outra vez do “primeiro amor” e da sublime intimidade com o Coração de Cristo.

Revista Arautos do Evangelho – dez 2007