As três rosas de inverno

Ir. Mariana de Oliveira

No gélido mês de dezembro, a cidade de Edimburgo fica coberta de floquinhos de neve; nenhuma cor na natureza, com exceção dos elegantes, altaneiros e sempre verdes pinheiros. Flores, frutos, animais? Nem pensar! Tudo nesse mês cessa para que todas as atenções se voltem para um grande acontecimento: o Natal.

A alegria já começa a tomar conta dos habitantes, os quais saem, o quanto antes, para comprar enfeites, bolas coloridas, luzes e presentes para colocá-los debaixo da árvore de Natal. Entretanto, não são todos os que sentem esse santo prazer…

Numa casa bem afastada, vivia um homem chamado Jacob Grimm, de idade perfeita, fortuna perfeita e azedume perfeito… Todos lhe tinham medo; só o aspecto melancólico de sua casa toda de ébano, já despertava um arrepio; Mr. Grimm não era feio, mas seus traços refletiam muita severidade. Não tinha amigos, não por falta de tentativa, pois muitos tentavam superar o receio e iniciavam uma conversa, mas pouco depois o assunto morria. Não sorria porque há tempos não sabia o que era se sentir feliz.

O que será que angustiava aquele coração que parecia de pedra? Há dez anos, Mr. Grimm perdera a mãe, uma santa mulher que ficara viúva quando o pequeno Jacob contava três meses e lhe ensinara tudo sobre a verdadeira Religião. Porém, a dor de perdê-la foi para o jovem, de somente vinte anos, irreparável. Desde daquele dia, Mr. Grimm nunca mais falou nada sobre Deus, sobre a Virgem e sobre o Céu. Vivia frustrado e o Natal para ele era um tormento pois lembrava-se mais de sua mãe do que propriamente do nascimento do filho de Deus. Entretanto, do Céu, sua mãe lhe preparava um Natal diferente naquele ano…

No dia 23 de dezembro, a neve foi mais clemente e deixou o Sol brilhar por quase toda manhã. Aproveitando os raios benfazejos do astro rei, Mr. Grimm sentou-se na sacada e por lá ficou acariciando seu gato, quando, subitamente, ouviu uma vozinha pueril, cantando uma alegre canção natalina, que, curiosamente, sua mãe cantava. A pequena sem titubear abriu o portão da casa de Mr. Grimm e, naquela terra dura pela neve, colocou um pequeno grãozinho e saiu. No dia seguinte, a mesma, não mais menina, agora jovem, como por magia, entrou novamente no “jardim” e depositou, sem perceber que estava sendo vigiada por Mr. Grimm, um outro grão. O proprietário não tinha forças para mandar a jovem embora, ela parecia com alguém… Quando já escurecia, no meio de uma feroz nevasca, a jovem que se tornara uma senhora luzidia, aproximou-se, e, deitando a terceira semente no gélido solo, chamou-o:

— Grimm!

Fora de si de júbilo, Mr. Grimm reconheceu a voz de sua mãe, e imediatamente exclamou:

— Mamãe!

Desceu ao jardim e, no meio da neve, três rosas lindas estavam cravadas: uma rubra, em cujas pétalas lia-se o nome de Jesus, outra dourada, com o nome de Maria, e, por fim, uma branca contendo o nome de José. Mr. Grimm emocionado procurava por sua mãe em todos os cantos, mas não via ninguém… Desesperado, observou novamente as três rosas e debaixo das mesmas descobriu um bilhete. Abriu-o e reconheceu a letra de sua querida mãe:

Se deixares que estas três rosas brotem e alegrem o teu coração, tu me verás um dia.”