O Dom de Conselho em Maria

Ariane Heringer Tavares

Nada mais banal do que o correr das águas num rio; entretanto, nada mais emocionante e grandioso do que o momento em que as sagradas águas do Batismo caem sobre a cabeça do neófito, pois é neste momento que Deus infunde na alma as virtudes teologais e cardeais, que inclinam a vontade à realização de boas obras. Entretanto, devido à imensa fragilidade do homem após o pecado original, as virtudes não são suficientes para fazê-lo viver com toda a perfeição. Por este motivo, Deus concede também os sete dons do Espírito Santo — entendimento, sabedoria, ciência, conselho, fortaleza, piedade e temor de Deus — que são “hábitos sobrenaturais infusos, que agem sobre as virtudes, fortalecendo-as, tornando-as mais robustas e conduzindo-as a seu pleno desenvolvimento”.1

Por meio deles o cristão recebe não um convite sobrenatural comum para praticar o bem ou evitar o mal, como é próprio às virtudes, mas uma moção especial do Espírito Santo que o impele a executar aquilo que o próprio Deus deseja.2 Ou seja, requer da pessoa mais docilidade que atividade.

Como se sabe, cada um dos dons está relacionado de forma especial com a perfeição de alguma virtude: a caridade é aperfeiçoada pelo dom de sabedoria; a fé, pelos dons de ciência e entendimento; a esperança e a temperança, pelo temor; o dom de conselho aperfeiçoa a prudência, o de piedade, a justiça; o dom de fortaleza, a virtude da fortaleza. Ora, como atuam eles numa alma que já possui a plenitude de todas as virtudes, como é o caso de Maria Santíssima, a quem o Arcanjo chama “cheia de graça?” (Lc 1, 28).

Por serem hábitos sobrenaturais, os dons do Espírito Santo seguem proporcionalmente a graça, de maneira que, quanto mais perfeita é uma alma, maior é a atuação dos dons. Portanto:

“Depois de Cristo, a Mãe de Jesus, Mãe de Deus e dos homens, Mãe do Cristo total foi a alma mais dócil ao Espírito Santo. […] Cada um de seus atos conscientes procediam d’Ela e do Espírito Santo e apresentavam a modalidade deiforme das virtudes perfeitas sob o regime dos dons”.3

Existe um dom atribuído de forma especial a Maria, o qual desabrochou em uma das mais belas e recorridas invocações: Mãe do Bom Conselho. Como atua este dom em sua alma?

O dom de conselho é um hábito sobrenatural que dá à alma a capacidade de julgar pronta e seguramente, por uma espécie de intuição sobrenatural, o que convém fazer, sobretudo nos casos difíceis. O objeto próprio deste dom é a boa direção das ações particulares. É ele que permite ao cristão conciliar a simplicidade com a astúcia, a firmeza com a suavidade.

Em Nossa Senhora, este dom regia até mesmo as mais insignificantes ações. De fato, ao girar, por exemplo, a maçaneta de uma porta, Ela dava mais glória a Deus do que muitos outros santos no momento em que foram martirizados.4 Todos os seus atos se realizavam sob a inspiração do Espírito Santo, da maneira mais conveniente para a glória de Deus e cumprimento de seus divinos desígnios de salvação.5 Por isso, a Ela podem se aplicar, com toda propriedade as palavras da Escritura: “O conselho te guardará e a prudência te preservará” (Pr 2, 11).

Segundo Roschini, o dom de conselho manifestou-se de forma especial em duas ocasiões da vida de Maria Santíssima. Em sua apresentação no Templo, quando discerniu ser da vontade divina firmar, desde a infância, o voto de virgindade, e no momento da Anunciação, em que, antes de manifestar seu consentimento para a Encarnação do Verbo em seio puríssimo, quis conhecer as disposições divinas e só então, ofereceu-se totalmente ao Senhor.6 E acrescenta Alastruey ainda outra passagem do Evangelho:

Este dom de conselho brilhou no mais alto grau nas bodas de Caná; porque, não querendo seu Filho fazer o milagre que Lhe pedia, Ela, sem embargo, adverte solícita aos ministros, dizendo: Fazei o que Ele vos disser (Jo 2, 5); a respeito do que comenta Gardeil: ‘Ela ordena aos servidores que façam tudo o que disser seu Filho, e o milagre se realiza. Seu conselho prevaleceu, porque era no fundo o conselho de um amor inspirado pelo Deus da misericórdia.7

Uma vez que o bem é altamente difusivo, não poderia ser que Maria Santíssima guardasse para Si esta especial dádiva divina. Inúmeras vezes deve ter dado Ela mostras de seu conselho: o que não terá dito em sua visita a Santa Isabel, ou como aconselhou a São João Evangelista a voltar para o Senhor depois de ter fugido no momento da prisão no Horto das Oliveiras, ou ainda, como Ela orientou e sustentou a Igreja após a morte de seu Filho?

Se tantos foram seus conselhos durante a vida nesta Terra, com que profusão não se derramarão agora sobre seus filhos? “Nossa senhora como nossa Mãe […], tem o movimento próprio d’Ela a nos aconselhar. […] Ela nos torna presente que em todas as ocasiões difíceis de nossa vida nós devemos nos voltar para Ela e pedir esse tesouro que é o bom conselho”.8

É feliz, diz Maria, quem ouve meus conselhos e está continuamente junto às portas de minha misericórdia, invocando minha intercessão e socorro”.9 Saibamos, pois, recorrer a este Bom Conselho.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Conduzidos pelo fogo do Espírito Divino. In: Arautos do Evangelho, São Paulo, ano XII, n.137, maio 2013, p. 15.
2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. La Virgen María. Madrid: BAC, 1998, p.306.
3 PHILIPON, Marie-Michel, apud ROYO MARÍN. Op. cit. p.308. (Tradução da autora)
4 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNON DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. ed. 34. Petrópolis: Vozes. n. 222.
5 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Op. cit. p. 319.
6 ROSCHINI, Gabriel, apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2011, v. II, p. 230.
7 ALASTRUEY, Gregorio. Tratado de La Virgen Santissima. 3.ed. Madrid: BAC, 1952, p.335. (Tradução da autora)
8 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Importância e valor do conselho: Conferência. São Paulo, 26 abr. 1971. (Arquivo IFTE). Matéria extraída de exposição verbal adaptada para linguagem escrita.
9 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Obras asceticas de Santo Alfonso Maria de Ligório. Madrid: BAC, 1952, p. 601. (Tradução da autora)

A intuição do divino

NennolinaMaria Teresa Ribeiro Matos

Querido Deus Pai, vós que sois tão bom, perdoai e fazei que logo possa receber vosso filho Jesus. Querido Jesus, vos quero tanto, tanto, querido Jesus, vós quando nascestes na gruta em Belém sofríeis tanto também e tínheis tanto frio. Querido Jesus, eu quero remediar estas vossas dores. Querido Espírito Santo, vós que sois o amor do Pai e do Filho, iluminai meu coração e minha alma e abençoai-me“.
Essas frases não saíram da pluma de um renomado teólogo, nem de uma venerável religiosa, mas das mãos de uma criança de seis anos.

Na cidade eterna, próximo à Basílica de Santa Croce in Gerusalemme, no ano de mil novecentos e trinta e seis, a pequena Antonietta Meo, apelidada de Nennolina, teve sua perna amputada devido ao diagnóstico de osteossarcoma, um tumor maligno. A menina, então, começou a escrever uma série de cartas até o dia de sua morte. Os destinatários destas missivas não eram pobres mortais, mas a Virgem Santíssima, o Menino Jesus, o Espírito Santo e a Santíssima Trindade. Com simplicidade e tão ardente amor penetrava nesses altos mistérios de nossa fé.

“Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos” (Mt 11, 25).

Deus muitas vezes não age conforme os critérios humanos. “Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos” (Is 55, 8-9). O Altíssimo opera maravilhas através de pessoas que aos olhos do mundo não tem nenhuma importância. Ele escolhe os que são considerados fracos para assim confundir os fortes, e os que são considerados estultos para confundir os entendidos (I Cor 1, 27). A estes ele pode dar a conhecer verdades que cientistas e filósofos abandonados a seus próprios esforços não atinam.

Acima da natureza humana criada por Deus, está outra criatura, a graça, que aperfeiçoa a natureza e é distribuída a todos em medida determinada unicamente por Ele. Essa vida da graça infundida em nossa alma pelo batismo, se desenvolve através das virtudes e dons do Espírito Santo. Entre eles destacamos , o dom da inteligência, que nos dá penetrante intuição das coisas reveladas e naturais em ordem ao fim último sobrenatural.

O Espírito Santo punha em movimento este dom, de maneira peculiar, na alma de Nennolina, como ela mesma lho pedia freqüentemente: “Querido Jesus, diga ao Espírito Santo que me ilumine de amor e me cumule de seus sete dons”. Possuía um tão ardente amor a Jesus Eucarístico que mesmo antes de fazer a primeira comunhão, escrevia-Lhe inúmeras cartas, obtendo a graça de recebê-lo na noite de Natal de mil novecentos e trinta e seis, quando permaneceu quase uma hora de joelhos em ação de graças, apesar dos graves incômodos que dessa posição lhe resultava pelo uso da perna ortopédica. Durante os últimos dias de sua existência a Eucaristia era-lhe levada todos os dias, sendo a última recebida no dia dois de julho de mil novecentos e trinta e sete, um dia antes de sua morte.

Assim, Antonietta, que teve uma curta existência terrena, deixou testemunho de uma densa e penetrante intuição sobrenatural adquirida através do dom de inteligência, instrumento direto e imediato do Divino Paráclito.