O valor de uma crase

Ana Laura de Oliveira Bueno

Dir-se-ia que interpretar é — apreender o sentido verdadeiro de um texto. Assim, embora haja muitas maneiras de se interpretar uma frase, nem sempre as interpretações conferem com o que o texto quer dizer, podendo ser contraditórias e até mesmo absurdas. Deste ponto de vista, podemos considerar a estreita relação existente entre as interpretações corretas, o perfeito entendimento do que se lê e o bom conhecimento das áridas regras gramaticais.

Tomemos como exemplo a conhecida e belíssima frase do Gênesis que, por trás de uma crase, esconde um verdadeiro tesouro teológico: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). Considerando que imagem é aquilo que procede de um objeto real em que pode ou não haver igualdade, é manifesto que se encontra no homem certa semelhança de Deus, semelhança esta que deriva de Deus como de seu modelo. No entanto, não é uma semelhança de igualdade, uma vez que o modelo ultrapassa infinitamente o modelado. Assim, se diz que há no homem uma imagem de Deus, não perfeita, mas imperfeita.

A preposição a, com efeito, indica certa distância, isto é, o homem jamais poderia ser chamado de “a imagem de Deus” sem o acento grave, pois isto cabe única e exclusivamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, Imagem do Pai, idêntica a Ele em substância, Imagem perfeita de Deus. Do homem se diz que é à imagem por causa da imperfeição da semelhança.

Assim, aquele que desconsiderar o valor da pequenina e “insignifcante’ crase pode estar sujeito a interpretar um absurdo e deixar passar essa oportunidade de contemplar o infinito abismo existente entre o Primogênito de toda criatura, a Imagem, e as meras criaturas, feitas à sua imagem, por sua bondade.

Lembremo-nos, portanto das valiosas regras gramaticais, sempre eficazes e importantíssimas a quem quer interpretar corretamente um texto.