Não basta união, é preciso unidade

Fahima Akram Salah Spielmann

Antes de partir ao Pai, quis o Divino Salvador nos deixar uma expressiva imagem do grau de adesão que se deve ter a Ele:

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, Ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto. Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em Mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á. Se permanecerdes em Mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos. Como o Pai me ama, assim também Eu vos amo. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. (Jo 15, 1-11. Grifo da autora).

Vendo Nosso Redentor nos impelir insistentemente a permanecermos n’Ele, perguntamo-nos qual seria o motivo de tamanho desejo de incorporação?

Explica-nos o admirável Padre Garrigou-Lagrange 1que, nessa metáfora, Cristo quis deixar expresso que o único meio de comunicação da seiva, ou do influxo da vida da graça, nos vem unicamente d’Ele, asssim como a cabeça é a única que tem a potência de comunicar aos membros o influxo vital. Separar-se d’Ele é sujeitar-se à morte.

De fato, encontramos quarenta vezes o verbo “permanecer” no Evangelho do discípulo amado e vinte e três em sua primeira epístola, sempre assinalando a nossa obrigação de procurarmos a mais íntima união com Cristo.

A esse respeito, em discussão contra os pelagianos, o II Concílio de Milevitano e o Cartaginense de 418 assinalaram a absoluta dependência que possuem os cristãos em relação a Cristo, uma vez que Ele não disse “sem mim pouco podeis fazer”, mas sim “nada podeis fazer”; ou seja, desde os membros em potência até os que os são em ato, se esfriarem nas suas relações com a Cabeça, afrouxando os vínculos de união, a consequência só poderá ser uma: a infrutuosidade (D 227).

Ademais, Cristo nos atesta que não basta “fazer com”, mas é necessário permanecer n’Ele, com Ele e por Ele, para produzir realmente frutos. É o inovador princípio de íntima união trazida por Jesus, que não deve se abranger, mas sim transformar em unidade.

Como nos atesta a teologia, todos os cristãos “têm de aspirar a uma presença íntima; presença que se realiza mediante a graça, que é a seiva que os vivifica sobrenaturalmente”,2 e que os faz produzir bons frutos de santidade.

E a força e a plenitude dessa permanência, assegura Monsenhor João, somente encontraremos no amor.3

Cristo prossegue com uma increpante sentença àqueles que optarem por desligar-se da Cabeça, pois, além de perderem a vida, terão o seu castigo: “se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, como o ramo. Ele secará, e hão de ajuntá-lo e o lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á” (Jo 15, 6).

Além dessa significativa analogia, em outras duas ocasiões, encontramos o Evangelista usar uma imagem, que se não fosse da autoria de Cristo não nos seria creditada, que é a união de Cristo com a sua Igreja sob a entranhada imagem da unidade entre as Pessoas da Santíssima Trindade.4

Em uma primeira circunstância, temos o Divino Mestre ensinando o modo pelo qual, ainda nessa vida terrena, podemos levar essa união ao seu auge: “O que come minha carne, e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai que vive me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim o que me comer a Mim, esse mesmo também viverá por Mim, e de minha própria vida” (Jo 6, 55-58).

Contudo, ainda que a comunhão seja sob as espécies físicas, é através da graça, a qual usa de instrumento as espécies, que obtemos a nossa incorporação a Cristo, e assim se torna possível, mesmo depois de consumida a Eucaristia, dizer que quem come a carne de Cristo permanece n’Ele, e Ele na pessoa.

Nesse sentido, entendemos o que dizia São Paulo ao advertir alguns cristãos que participavam da Eucaristia: “Porventura o cálice da bênção, que nós benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a participação do corpo de Cristo? Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, porque participamos todos dum só e mesmo pão” (1Cor 10, 16-17).

Por esse motivo, ousam os teólogos afirmarem que o principal efeito da Eucaristia é a unitas Corporis Mystici,5 ou seja, a união da Cabeça com o corpo.

Noutra passagem, no momento solene antes de consumir seu holocausto, sabendo Jesus que deixaria os seus, quis pedir ao Pai, compondo a emocionante oração sacerdotal, rogando para seus membros máxima união à semelhança entre Eles, a ponto de se transformar em unidade: “que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós […],que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam consumados na unidade” (Jo 17, 20-23. Grifos da autora).

Sabemos que a união entre o Pai e o Filho é substancial. São os dois uma única essência, sem deixar, ao mesmo tempo, de haver distinção pessoal. Sao Pessoas sempre unidas entre si, de maneira que onde está uma Pessoa, aí também está a outra.

Do mesmo, modo através da graça, Cristo está em nós como Ele está no Pai, ainda que seja de maneira acidental e não substancial como na Santíssima Trindade. E, assim como a união entre as Divinas Pessoas não destrói sua natureza, a nossa união com Cristo não destrói a nossa personalidade, mas a enaltece.6

Enumerar as passagens onde Cristo manifesta seu desejo de união, poderíamos deixar para uma outra oportunidade; entretanto, podemos entrever que, da parte da Cabeça, não há outro anseio do que a mais perfeita união com os seus membros, baixando de sua alta dignidade e se identificando com eles (Cf. Mt 25, 45; At 9, 5).

Com base nisso, podemos entender o que nos dizia o Apóstolo “não sou eu quem vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20), pois no cristão passa a existir uma autêntica vivência de Cristo, a ponto de haver “mais semelhança entre o cristão e Cristo, do que entre o cristão e Deus”.7

Há, portanto, em Cristo o desejo de unir-se a seu Corpo da forma mais íntima possível, e apesar de haver vários membros, quer Ele que formemos uma só unidade. O problema está em sermos membros flexíveis, unidos por Ele, com Ele e n’Ele, para, dessa forma, alcançarmos a plenitude do Corpo.

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[1] GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. Op. cit. p. 142-145.
[2] “[cristianos] han de aspirar a una presencia íntima; presencia que se realiza mediante la gracia, que es la savia que los vivifica sobrenaturalmente” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 55. Tradução da autora).
[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Igreja é uma, Santa, Católica e Apostólica. Op. cit.
[4] Deve-se advertir que o sentido, ainda que seja próprio, é usado de forma análoga.
[5] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. III q. 73, a. 3, ad1.
[6] SAURAS. Emilio. Op. cit. p. 52.
[7] “Más semejanza hay entre el cristiano y Cristo que entre el cristiano y Deus” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 191. Tradução da autora).

Grande dama, grande freira, grande santa

Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

Dotada de grande personalidade, sublimada pelas mais altas ações da graça, a matriarca da Ordem Carmelitana está entre as almas tão unidas a Deus que, por assim dizer, personificam a grandeza.

Ao raiar do dia, um belo espetáculo se contempla do alto da Serra da Cantareira, a poucos quilômetros da cidade de São Paulo. As trevas cedem espaço ao diáfano azul da abóbada celeste e as nuvens, que em vão tentam cobri-la, gradualmente se tornam cor de fogo. Em instantes o vermelho se transforma em dourado e, no horizonte, lento e majestoso desponta o Sol, pintando com tons vivos a natureza. Diante de tão grandioso panorama, quase por instinto o espectador se sente tomado de admiração e impulsionado a pensar na magnificência de seu Autor.

Ora, se o esplendor de algo material é capaz de reportar de tal forma ao Criador, com maior razão uma alma divinizada pela graça, mais valiosa do que o bem natural de todo o Universo!1 Na verdade, pessoas há tão unidas a Deus que, por assim dizer, personificam a grandeza, pois nelas resplandece a luz da vida divina presente em alto grau no seu interior.

Uma destas almas se destacou no século XVI. “Possuía inteligência vasta e privilegiada, ao mesmo tempo matizada e forte, talhada para altos voos. Além disso, [era] dotada de uma vontade firme e sensibilidade controlada por inteiro. […] Era, em última análise, a grandeza da personalidade humana num de seus exemplares mais privilegiados na ordem da natureza, refulgindo com sublimidades da graça e dando uma ideia completa do que seria o tipo perfeito da religiosa matriarca”.2

Com tal perfeição e fidelidade realizou os planos traçados por Deus para ela, que a grandeza se incorporou ao seu nome: Santa Teresa, a Grande.

Enfermidade e convite para a contemplação

Nasceu Teresa de Cepeda y Ahumada em 28 de março de 1515, em Gotarrendura, província de Ávila, no seio de uma numerosa família da pequena nobreza castelhana. Desde menina se interessava por histórias da vida dos santos, e quando soube dos feitos dos primeiros mártires, pensou ser esta via uma linha reta para o Céu. Decidiu, então, fugir com o irmãozinho Rodrigo para o país dos mouros, a fim de ali entregarem suas vidas em defesa da Fé. Já estavam bem distantes das muralhas da cidade quando um tio conseguiu localizá-los e os regressou ao lar.

Havendo perdido a mãe com apenas 14 anos, Teresa entregou-se nas mãos de Nossa Senhora, tomando-A por única Mãe. Aos vinte anos, ingressou no Mosteiro Carmelita da Encarnação, de Ávila — a princípio contra a vontade do pai —, onde emitiu os votos um ano depois.

Ali viviam quase 200 religiosas sob a regra mitigada do Monte Carmelo.3 Irmã Teresa recebeu uma espaçosa cela, junto com a liberdade de atender visitas a qualquer hora e ir à cidade por qualquer motivo. Era costume passarem as freiras horas conversando no locutório, convertido em uma espécie de centro de reuniões sociais.

Sem embargo, a cruz, elemento essencial da grandeza, não tardou a se apresentar àquela alma escolhida. Pouco depois da profissão religiosa, sua saúde se debilitara de tal modo que o pai, Alonso de Cepeda, obteve permissão para levá-la ao povoado de Becedas, onde morava uma senhora cujos tratamentos médicos possuíam fama de eficazes. Na viagem, Teresa conheceu a oração mental através do livro Terceiro Alfabeto Espiritual, do padre Francisco de Osuna, sentindo-se convidada à vida de contemplação.

Os tratamentos, entretanto, não produziram o resultado esperado: “No fim de dois meses, à força de remédios, minha vida se acabava”.4 De regresso à casa paterna, uma contração muscular fortíssima deixou-a sem sentidos por quase quatro dias. Tê-la-iam enterrado se o pai não tivesse se oposto. Ao despertar, seu estado era lamentável: “fiquei encolhida, como que enovelada. Parecia morta, incapaz de mover braços, pés, mãos e cabeça”.5

Mesmo nessas condições, Teresa desejava retornar logo ao convento. Sua alma, como a de Jó (cf. 2, 10), encontrava-se em excelentes disposições: “Estava muito conformada com a vontade de Deus, ainda mesmo que me deixasse sempre naquele estado. Se desejava sarar, era unicamente para ter solidão, como antes, e fazer oração”.6

Após três anos de paralisia, suas orações a São José lhe obtiveram a cura e, a partir daquele momento, a devoção ao Santo Patriarca se tornou primordial em sua vida.

Luta interior e paz de alma

Com a saúde um tanto débil, Teresa retomou a vida comunitária, na Encarnação. Contudo, ali ficava dissipada, descuidando-se da oração interior na qual tanto progredira durante sua enfermidade. Aquele mosteiro havia perdido o primeiro fervor da vocação e se afastado do espírito carmelita. No locutório, aberto as senhoras da sociedade, conversava-se com frequência sobre frivolidades e vaidades mundanas, e tudo isso acabou tendo uma influência negativa sobre a vida espiritual da Santa.

Passado algum tempo, a conselho do Frei Vicente Varrón, sacerdote dominicano, retomou o hábito de rezar mentalmente, embora isso lhe significasse, no início, travar uma verdadeira luta contra si mesma: “na verdade, para não ir à oração, era tão insuportável a violência que o demônio me fazia — ou o meu mau costume — e tal a tristeza que me dava ao entrar no oratório, que para me vencer precisava valer-me de todo o meu ânimo, que, dizem, não é pequeno. Com efeito, tem-se visto que Deus me deu coragem superior a das mulheres, mas a tenho empregado mal. Por fim, ajudava-me o Senhor”.7

Certo dia, rezando em seu oratório, ao perceber como suas conversas fúteis haviam aumentado as dores de Cristo, sentiu tão vivamente pesar por suas faltas, que se jogou aos pés de uma imagem de Nosso Senhor chagado prometendo não se levantar dali enquanto Ele não a fortalecesse para não ofendê-Lo mais. “Porfié y valióme 8 — Insisti e Ele me valeu”, diria mais tarde, contando o episódio.

“Minha alma” — conta ela no Livro da Vida, sua autobiografia — “recebeu grandes forças da divina Majestade, que deve ter ouvido meus clamores, compadecendo-se de tantas lágrimas. Começou a crescer em mim o gosto de estar mais tempo com o Senhor”.9 E acrescenta: “Quando interiormente me figurava estar junto de Cristo, […] ocorria-me de repente tal sentimento da presença de Deus, que de modo algum podia duvidar que o Senhor estivesse dentro de mim, e eu, toda mergulhada n’Ele”.10

Deus a faz passar pelo cadinho das provações

Crescia na intimidade com Deus a Santa carmelita por meio desta prática da oração, quando as tentações começaram a aparecer. Queria o Altíssimo fazê-la passar pelo cadinho das provações. Mas, se a investida das ondas encapeladas engrandece com seus golpes o rochedo que se eleva altaneiro à beira do mar, também os vagalhões da provação, quando enfrentados com confiança e ufania, fazem as grandes almas crescerem ainda mais.

“Como naquela época verificavam-se nas mulheres grandes ilusões e enganos do demônio, comecei a temer, pois era tão grande a felicidade e doçura, muitas vezes sem o poder evitar”.11 Falaram-lhe, então, do padre Gaspar Daza — quem mais tarde muito a ajudou e apoiou na reforma carmelitana — como o homem que poderia ajudá-la a discernir a origem dessa alegria. Era ele um teólogo de fama, “espelho de virtude para toda a cidade, como pessoa enviada por Deus para a salvação e aproveitamento de muitas almas”.12 Conheceu-o por meio de Francisco Salcedo, santo e virtuoso fidalgo, em algo aparentado com ela.

O teólogo analisou seu caso e mandou-lhe dizer que o convívio que dizia ter com Deus na oração mental não passava de imaginação e obra do maligno. Ademais, a fama da religiosa carmelita se havia espalhado pela cidade e, em pouco tempo, muitos eram da opinião de estar a beata da Encarnação endemoniada. Teresa mantinha no fundo da alma “a convicção de que [aquilo] era obra de Deus, sobretudo quando estava em oração”, pois nessas ocasiões sempre se sentia “melhor e mais forte”.13 Não obstante, seu coração se inquietava: “Grande é, não há dúvida, a aflição que se passa. Torna-se necessário usar de prudência, especialmente tratando-se de mulheres. É muita a sua fraqueza, e poderia causar grande mal dizer-lhes, positivamente, que estão sob a ação do demônio”.14

Aconselhada pelo próprio padre Daza, buscou apoio nos jesuítas, aos quais tomou por confessores, pois compreendiam bem a linguagem da via espiritual que lhe havia sido traçado pela Providência. Alentaram-na nesse terrível período os conselhos de São Francisco de Borja e, mais adiante, do franciscano São Pedro de Alcântara.

Cristo parecia andar sempre a seu lado

“Já não quero que fales com os homens, senão com os Anjos”,15 foram as palavras ouvidas por Teresa no primeiro êxtase que lhe concedeu a graça divina. “Desde aquele dia, fiquei tão animada a deixar tudo por Deus, como se naquele exato momento — que não me parece ter sido mais — Ele tivesse querido transformar a sua serva”.16 A par das provações, agora Cristo continuava a falar-lhe com frequência e parecia andar sempre a seu lado: “Não havia ocasião em que me recolhesse um pouco, ou não estivesse muito distraída, que não O sentisse junto de mim”.17

Não era raro, nessas intimidades com Jesus, sentir na alma o fogo do amor divino. Mais de uma vez chegou a ter seu coração transverberado por um Anjo, deixando-lhe as marcas físicas de uma perfuração: “Aprouve o Senhor favorecer-me algumas vezes com esta visão. Via um Anjo perto de mim […]. Via-lhe nas mãos um comprido dardo de ouro. Na ponta de ferro julguei haver um pouco de fogo. Parecia algumas vezes metê-lo pelo meu coração adentro, de modo que chegava às entranhas. Ao tirá-lo tinha eu a impressão de que as levava consigo, deixando-me toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que me fazia dar os gemidos de que falei. Essa dor imensa produz tão excessiva suavidade, que não se deseja o seu fim, nem a alma se contenta com menos do que com Deus”.18

Não é tempo de tratar com Deus assuntos de pouca importância…

Depois de uma visão do inferno, por volta de 1560, se desvendou em sua alma a grande missão que lhe estava reservada. Ao conhecer os assombrosos tormentos dos precitos, sentiu ela imensa compaixão por ver o grande número de almas que se condenavam. Penalizava-a sobremaneira a situação da Santa Igreja, pois lhe chegavam notícias dos danos causados naquela época pelas seitas que começavam a se disseminar pela Europa. Via com amargura quanta gente se afastava de Deus e quão poucos eram os seus amigos.

Passou a se perguntar, então, o que poderia fazer para ser útil à Igreja nessa terrível encruzilhada: “convenci-me de que a primeira coisa era seguir o que Sua Majestade tivera em vista quando me chamou à vida religiosa, e guardar minha Regra com a maior perfeição possível”.19 E aconselhava às suas irmãs de vocação: “ocupadas todas em orações pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse ao nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizera tanto bem”.20

A partir desta resolução, sua vida foi marcada por um crescente amor à sua Ordem Religiosa, não pensando em seu proveito espiritual, mas em servir ao Corpo Místico de Cristo, por cuja causa seu coração consumia-se de zelo. “Olhai, Deus meu, para os meus desejos e para as lágrimas com que Vos faço esta súplica! […] Lastimai tantas almas que se perdem e favorecei a vossa Igreja! Não permitais semelhantes danos na Cristandade, Senhor!”.21

Via, sobretudo, a necessidade de reformar o Carmelo e sentia o apelo da Providência para realizar essa missão. Desejava comunidades que não fossem meros refúgios de almas contemplativas, preocupadas em fruir e gozar do convívio divino, mas verdadeiras tochas de amor ocupadas em reparar o mal que era feito à Igreja. “O mundo está pegando fogo. Querem, por assim dizer, de novo sentenciar a Cristo, levantam-lhe mil testemunhos falsos. Pretendem lançar por terra a sua Igreja. […] Não, irmãs, não é tempo de tratar com Deus assuntos de pouca importância!”.22

Fundação de São José e início da Reforma do Carmelo

Esse desejo de fundar casas religiosas de estrita observância à Regra carmelitana primitiva logo foi confirmado e encorajado por Nosso Senhor. “Um dia, depois da comunhão, Sua Majestade me mandou expressamente que trabalhasse nessa empresa com todas as minhas forças. Fez grandes promessas de que não se deixaria de fundar o mosteiro, no qual Ele seria muito bem servido. Disse-me que devia ser dedicado a São José. Este glorioso Santo nos guardaria a uma porta, Nossa Senhora à outra, e Cristo andaria conosco. A nova casa se tornaria uma estrela da qual se irradiaria grande esplendor. […] Disse-me ainda que refletisse no que seria o mundo se não houvesse religiosos”.23

Não recebeu, todavia, o mesmo apoio da parte de seus superiores, de suas irmãs de hábito e da sociedade de Ávila… Foi só com muita prudência e o apoio de vários homens de Deus — entre eles São Pedro de Alcântara, São Luís Beltrão, o Bispo de Ávila, o padre Gaspar Daza, entre outros — que pôde superar as oposições levantadas e levar a cabo as reformas necessárias.

Ajudada por alguns amigos adquiriu, na própria cidade de Ávila, uma minúscula casa em precárias condições destinada a ser o novo mosteiro. Abraçado o empreendimento, começaram as provas: uma parede que estava sendo refeita caiu sobre seu sobrinho pequeno; seu cunhado, que dirigia os trabalhos, ficou enfermo; a bula papal aprovando aquela fundação chegou incompleta de Roma… E quando, no momento decisivo, amanheceu desabada mais uma parede da casa, construída com os últimos ducados que a irmã Teresa conseguira, a tentação de desânimo ameaçou a todos. Ela, porém, olhando para os destroços, disse: “Se caiu, tornemos a levantar”.24

Por fim, com as autorizações necessárias, em 24 de agosto de 1562, celebrou-se a primeira Missa no Mosteiro de São José, de Ávila, o primogênito dentre os Carmelos reformados. Na mais estrita pobreza e clausura, Teresa pôs-se a formar suas freiras, mostrando-lhes a força da vida comunitária bem levada, na obediência e na alegria. Lembrava-lhes sempre o principal motivo pelo qual haviam consagrado suas vidas: “Se para isto tivermos valimento junto de Deus, enclausuradas, pelejemos por Ele. Darei por muito bem empregados os sofrimentos pelos quais passei para fazer este cantinho, onde desejava que se guardasse com a perfeição primitiva a Regra de nossa Imperatriz e Senhora”.25

A grande Teresa, ontem e hoje

Esse modo radical de viver logo atraiu muitas novas vocações. Quando Santa Teresa entrou na eternidade, em 1582, deixou fundados mais de 20 mosteiros do ramo reformado, femininos e masculinos. No entanto, como sempre acontece com aqueles muito chamados, a árvore por ela plantada continuou, após sua morte, dando inestimáveis frutos para a Igreja nos cinco continentes.

Passados 450 anos da fundação do primeiro desses mosteiros, o Papa Bento XVI achou conveniente lembrar a conjuntura na qual viveu a Santa mística e o quanto aquela situação nos parece familiar. Para o Santo Padre, a reflexão da santa carmelita permanece atualíssima, luminosa e interpeladora. “Também hoje, como no século XVI, e entre rápidas transformações, é preciso que a oração confiante seja a alma do apostolado, para que ressoe com clareza evidente e dinamismo pujante a mensagem redentora de Jesus Cristo. É urgente que a Palavra de vida vibre nas almas de forma harmoniosa, com notas sonoras e atraentes. […] Seguindo os passos de Teresa de Jesus, permiti-me dizer a quantos têm o futuro à sua frente: aspirai também vós a ser totalmente de Jesus, só de Jesus e sempre de Jesus. Não tenhais medo de o dizer a Nosso Senhor, como ela fez: ‘Sou vossa, para Vós nasci; o que quereis fazer de mim?’ (Poesia 2)”.26

Atendendo ao apelo divino, soube Santa Teresa identificar com galhardia os objetivos de sua vida com os de Deus, passando para a História como “uma grande dama, uma grande mulher, uma grande freira e grande santa”. 27Por isso, canta com propriedade o introito da Missa em seu louvor: “Deu-lhe o Senhor sabedoria e prudência em abundância, e a grandeza do coração como as areias das praias do mar”.28

1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.113, a.9, ad 2.
2 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Santa Teresa de Jesus. Alma de rara grandeza. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano IX. N.103 (Out., 2006); p.24.
3 A regra carmelitana fora abrandada pela Bula de Mitigação promulgada por Eugênio IV, em 1432 (Cf. SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. São Paulo: Paulinas, 1983, p.267, nota 2).
4 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. C.V, n.7.
5 Idem, c.VI, n.1.
6 Idem, n.2.
7 Idem, c.VIII, n.7.
8 EFRÉN DE LA MADRE DE DIOS, OCD; STEGGINK, OCarm, Otger. Tiempo y vida de Santa Teresa. Madrid: BAC, 1968, p.99.
9 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. C.IX, n.9.
10 Idem, c.X, n.1.
11 Idem, c.XXIII, n.2.
12 Idem, c.XXXII, n.18.
13 Idem, c. XXIII, n.2.
14 Idem, n.13.
15 Idem, c.XXIV, n.6.
16 Idem, n.7.
17 Idem, c.XXVII, n.2.
18 Idem, c.XXIX, n.13.
19 Idem, c.XXXII, n.9.
20 SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de Perfeição. C.I, n.2.
21 Idem, c.III, n.9.
22 Idem, c.I, n.5.
23 SANTA TERESA DE JESUS. Livro da vida. C.XXXII, n.11.
24 EFRÉN; STEGGINK, op. cit., p.147.
25 SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de Perfeição. C.III, n.5.
26 BENTO XVI. Mensagem ao Bispo de Ávila por ocasião da celebração do 450º aniversário de fundação do Mosteiro Carmelita de Ávila e da Reforma da Regra carmelitana, de 16/7/2012, n.3-5.
27 CORRÊA DE OLIVEIRA, op. cit., p.24.
28 MISSÆ VOTIVÆ FESTA DE S. TERESIA DE ÁVILA. Ant. ad introitum. In: PROPRIUM MISSARUM Fratrum Discalceatorum Ordinis B. Mae Mariæ Virginis de Monte Carmelo. Editio Typica. Roma: Curiam Generalem OCD, 1973, p.52.

Revista Arautos do Evangelho n. 130. outubro 2012

Santificador e guia da Igreja Católica

Elen Coelho

Inquietava-se a Santa Carmelita de Lisieux ao sentir que sua alma aspirava a outras vocações que transpunham os claustros de seu Carmelo. Almejava por todas as vocações: queria morrer em um campo de batalha em defesa da fé como um guerreiro ou um Zuavo Pontifício, ardia em desejo de derramar todo o seu sangue sofrendo os piores tormentos como um mártir dos primeiros tempos do cristianismo, desejava ser sacerdote para poder consagrar e distribuir o Santíssimo Corpo de seu divino Esposo, queria sair por toda a terra para apregoar as glórias de seu Bem-amado como os apóstolos, os profetas e os doutores.

Confessara então, que todos esses seus desejos lhe eram um verdadeiro martírio até que procurando uma resposta aos seus anseios, abriu as Cartas de São Paulo e encontrou um trecho no qual diz o Apostolo que nem todos podem ser tudo ao mesmo tempo: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos”( 1 Cor 12, 29-31).

A resposta lhe pareceu clara, porém não satisfizera seus objetivos. Perseverou na leitura e deparou-se com outro versículo onde explicava o Apóstolo que todas as vocações não são nada sem o amor. Desta forma, compreendera afinal sua vocação e em um transporte de entusiasmo exclamou: “Ó Jesus, meu amor, minha vocação encontrei-a afinal: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja […]. No coração da Igreja, minha Mãe, serei o amor… Assim, serei tudo… O meu sonho se realizará”.1

O que ardentemente procurava Santa Teresinha do Menino Jesus era algo que pudesse unificar e realizar todas as aspirações de sua alma identificando-se em todos os carismas que compõe o Corpo Místico de Cristo.

Contudo, essa busca nos põe diante de outro panorama, se uma alma ante seus díspares anseios pode harmonizá-los ao abrir-se à caridade, muito mais todos os carismas existentes dentro da Santa Igreja encontram sua unificação Naquele que é designado dentro da Trindade como o Amor.

Deus Pai ao se contemplar em sua natureza e divindade, imediatamente gera outra Pessoa Divina: o Filho, que é o Seu Pensamento o Seu Verbo. E o Pai e o Filho ao se contemplaram mutuamente e se verem inteiramente idênticos, “o Pai ama o Filho, e O quer por inteiro e é um amor infinito, é um amor tão forte, tão forte, que encontra um eco no Filho, […] não tem o que pôr nem tirar, a tal ponto que é um amor só. Esse amor o que é? Tão forte que é uma Pessoa.2 É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade que, pelo amor, faz com que a união entre os membros da Esposa Mística de Cristo seja parecida com a que se desenrola no convívio Trinitário, sendo Ele a Alma da Igreja.3

Pois, assim como no princípio Deus criou um boneco de barro e inspirou-lhes nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente, (Gn 2, 7) também, quis Deus que a Sua nascente Igreja recebesse, no dia de Pentecostes, uma alma que lhe desse plena vida e ação. “Pentecostes constituiu, sem dúvida, o último ato de fundação da Igreja […] Do mesmo modo que Deus modelou o corpo do homem e, logo após lhe insuflou o espírito, Cristo formou o Corpo de sua Igreja com estrutura apostólica e, em seguida, lhe infundiu em Pentecostes o Espírito Santo em pessoa”.4

Por conseguinte, pode-se claramente afirmar: “A alma da Igreja é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Defensor prometido e enviado, que a santifica e enriquece pela ação de Sua graça e Seus dons, impedindo que Ela venha a sucumbir, ou até mesmo enlanguescer sob os reiterados ataques de seus adversários.”5

Toda a diversidade de membros que existe dentro da Santa Igreja encontra sua unificação pela ação do Espírito Santo: os que estão dentro da hierarquia eclesiástica, os religiosos e os leigos. Portanto, dentro da Igreja estão inteiramente consonantes os carismas: os franciscanos com sua específica doçura e humildade, o ardor e a lógica dos Jesuítas e a ousadia e a clareza de um Dominicano, e assim por diante.

Desse modo, o Divino Paráclito atende ao desejo do Salvador: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17, 21-22).

Também é função do Espírito Santo acompanhar cada fiel conferindo-lhe graças para sua perseverança e todos os auxílios para alcançar a glória eterna. Esse auxílio foi prometido por Nosso Senhor e o vemos registrado nas Sagradas Páginas do Evangelho e nas Epístolas Paulinas: “É anunciado como o Advogado que ajudará aos discípulos (Jo 14,16) habitando em seu interior como em um templo (I Cor 3,16) e unindo-os em um mesmo corpo (ICor 12,13). Ele os ensinará o anunciado por Jesus (Jo 14,26), os guiando- a verdade completa (Jo 15,13). Ele será seu defensor ante os tribunais (Mt 10,20), quem os fortalecerá no testemunho (I Cor 12,3). […] Ele fará dos cristãos moradas de Deus (Ef 2,21). E o auxílio dos cristãos em suas fraquezas (Rm 8,26) e é quem suscita no interior dos corações essa exclamação: ‘Abbá, oh Pai!’”6

Tudo o que existe na Barca de Pedro é movido e governado pelo Paráclito. Ele acompanha a cada passo. A esse respeito, teceu um belo comentário o prof. Plinio Correa de Oliveira: “Ao ver as coisas da Igreja, sentia eu uma impressão curiosa. Mais do que uma instituição, Ela me parecia uma alma imensa que se expressa através de mil aspectos, que possui movimentos, grandezas, santidades e perfeições, como se fosse uma só grande alma que se exprimiu através de todas os templos católicos do mundo, todas as liturgias, todas as imagens, todos os sons de órgão e de todos os dobrares de sinos. Essa “alma” chorou com os Réquiens, se alegrou com os bimbalhares da Páscoa e das noites de Natal; ela chora e se alegra comigo.[…] Depois vim a saber que “aquilo” que eu percebera era o Espírito Santo, a alma da Igreja”.7

Desta forma, concluímos que, mediante a assistência do Espírito Santo, a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana pode levar a cabo com toda a perfeição sua missão santificadora, o Evangelho pode ser pregado por todos os povos, os papas podem, com toda segurança, transmitir seus ensinamentos. Surgem, então, novos carismas para fazer resplandecer mais uma faceta da Esposa de Cristo e o incessante florescimento de novas almas santas tornando-A assim “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível.” (Ef 5, 27)

1SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. História de uma alma. 24. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 214.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Curso de Formação: Palestra. São Paulo, 17 set. 2002. (Arquivo IFTE).As matérias extraídas de exposições verbais — designadas neste trabalho, segundo sua índole, como “conferências”, “palestras”, “conversas” ou “homilias” — foram adaptadas para a linguagem escrita.
3ROYO MARIN, Antonio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2010.
4SAYES, José Antônio. La Iglesia de Cristo: Curso de Eclesiologia. 2. ed. Madrid: Palabra,2003 .p. 14 1-142.
5MORAZZANI ARRÁIZ, Clara Isabel. E renovareis a face da terrra… In: Arautos do Evangelho. São Paulo,n.77, maio. 2008. p.23.
6 CASERO LASANTA, Pedro Jesús, El Espírito Santo Alma de la Iglesia; Jubileu año 2000 . Salamanca: San Esteban, 2000.p.72-73. (Tradução da autora)
7CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Espírito Santo, alma da Igreja. In: Dr. Plinio. São Paulo: n.74, maio. 2004. p.4.

“Espírito Vivificante”: a alma do Corpo Místico

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Ao escolher a figura do corpo humano como uma imagem para seu Divino Organismo, Cristo elegeu também uma alma, que, ao contrário de outras, possui o inteiro domínio desse Corpo, além de ser seu elemento vivificador: o Espírito Santo.

A alma humana possui como característica principal ser a forma do corpo. Entretanto, ao dizermos ser o Espírito Santo a alma do Corpo Místico, usamos por apropriação essa expressão, dado que uma Pessoa Divina não pode ser a forma de nenhuma criatura.

Apesar do termo ser usado por apropriação, é inteiramente cabível ao Espírito Santo, uma vez que Ele habita e age a partir de dentro, como a alma. Nesse sentido, contestava o Apóstolo: “não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 3,16), “porventura não sabeis que os vossos membros são templos do Espírito Santo, que habita em vós” (1 Cor 6,19).

Sendo a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade a Alma do Corpo Místico, afirma-se, sobretudo, que é Ela quem anima e vivifica, analogamente como a alma humana. Encontram-se inúmeros trechos que alimentam a devoção dos fiéis, contudo, limitamos a narrar uma passagem de Santo Agostinho:

Se quereis ter o Espírito, irmãos, escutai: o espírito pelo qual vive o homem, se chama alma; nosso espírito, pelo qual vivemos cada homem se chama alma; e vede o que faz a alma com o corpo: vivifica todos os membros: com os olhos vê, com os ouvidos ouve, com as narinas olfatea, com a língua fala, com as mãos opera, com os pés anda. Está em todos os membros para que vivam; dá a vida a todos e a cada um o seu ofício […]. Os ofícios são diversos e a vida é comum. Assim sucede na Igreja: em uns santos faz milagres, a outros ensina a verdade… Cada um faz o que lhe é próprio, mas todos vivem igualmente. O que é a alma para o corpo é o Espírito Santo para Corpo de Cristo, que é a Igreja”.1

A sensibilidade e o movimento transmitido à cabeça dimanam da alma que os distribui para o corpo de maneira desigual à semelhança do Corpo de Cristo. O Espírito Santo não opera uniformemente em todos os membros, mas com graus diferentes nos bem-aventurados, nos justos, e inclusive nos que estão em estado de pecado e os que fazem parte desse Corpo somente em potência.2 A verdade é que “o Espírito Santo está em todos os que são membros de Cristo, desde os que recebem d’Ele a bem-aventurança da glória, até os que recebem a graça mais inicial e primitiva”.3

O Espírito Santo é um princípio vivo e vivificador. Operou na vinda de Cristo sobre a Terra, fecundando ativamente Maria, e interveio no nascimento da Igreja. O dia de Pentecostes foi o dia da proclamação oficial da sociedade estabelecida por Cristo”.4

Prometido por Nosso Senhor antes de sua partida: “vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias” (At 1, 5), a Igreja teve seu nascimento no batismo de Pentecostes, e, portanto, é n’Ele que somos batizados e recebemos o princípio vital da vida divina que nos faz filhos de Deus.5

De modo que dentro da diversidade dos membros se cumpre o pedido do Salvador: “que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em nós” (Jo 17, 22).

Sabemos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo comparados entre si, são distintos embora idênticos, sendo a ação que procede o Espírito Santo, a via de amor.

E elegendo o Espírito Santo para ser a alma da Igreja, o qual é denominado de “Amor”, podemos dizer que “Cristo deseja que a união que deve haver naqueles que formam o seu Corpo Místico seja o amor”.6 Assim a Igreja se unifica onde se unificam o Pai e o Filho, ou seja, no amor, na Terceira Pessoa.

Se é Ele quem governa e move aos membros do Corpo Místico de Cristo, quem os unifica, quem os vivifica; e se faz tudo isso a partir de dentro, inabitando em cada membro e em todo corpo, temos que terminar dizendo que desempenha autênticas funções de alma”.7

1“Si queréis tener el Espíritu, hermanos, escuchad: el espíritu por el que vive el hombre se llama alma; nuestro espíritu, por el que vivamos cada hombre, se llama alma; y vede qué hace el alma en el cuerpo: vivifica todos los miembros: con los ojos ve, con los oídos oye, con las narinas olfatea, con la lengua habla, con las manos opera, con los pies anda. Está en todos los miembros para que viva; da la vida a todos, y a cada uno su oficio. […] Los oficios son diversos y la vida es común. Así sucede en la Iglesia: en unos santo hace milagros, en otros enseña la verdad… Cada uno hace lo suyo propio, pero todos viven igualmente. Lo que es el alma al cuerpo del hombre es el Espíritu Santo al cuerpo de Cristo, que es la Iglesia” (SANTO AGOSTINHO, apud SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 760. Tradução da autora).
2Convém esclarecer que a estes o Espírito Santo será a alma enquanto preparação para receber os princípios que dispõem ao sujeito para a perfeição dessa vivificação.
3“El Espírito Santo está en todos cuantos son miembros de Cristo, desde que reciben de El la bienaventuranza de la gloria, hasta los que reciben la gracia más inicial y primitiva” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 739. Tradução da autora).
4“El Espírito es un principio vivo y vivificador. Intervino en la aparición de Cristo sobre la tierra, fecundando activamente a María, e interviene en el nacimiento da la Iglesia. El día de Pentecostés fue el de la proclamación oficial de la sociedad establecida por Cristo, y ese día aparecen en el nacimiento oficial de esta sociedad María y el Espírito Santo, como en el nacimiento de Cristo” (Ibid. p.766. Tradução da autora).
5Cf. Cabe relembrar o que diz São Paulo aos Romanos: “Ora, se Cristo está em vós, o corpo, em verdade, está morto pelo pecado, mas o Espírito vive pela justificação. Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós. Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Abbá! Oh Pai! O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rm 8, 10-16).
6“Cristo desea que la unión que debe haber en quienes forman su Cuerpo Místico sea unión de amor” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 767. Tradução da autora.).
7“Si Él es quien gobierna y mueve a los miembros del cuerpo místico de Cristo, quien los unifica, quien los vivifica; my se hace todo eso desde dentro, inhabitando en cada miembro y en todo cuerpo, hemos que terminar diciendo que desempeña autenticas funciones de alma” (Ibid. p.768. Tradução da autora).