Em pleno século XX, uma profecia…

Bruna Almeida Piva

Podemos notar, ao longo de toda a História, diversos acontecimentos de suma importância que mudaram definitivamente o rumo da história.

O mais extraordinário e esperado de todos os tempos foi, indubitavelmente, a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele instaurou, na terra, a nova Era da Graça, onde a justiça cedeu lugar à misericórdia; a Lei Judaica à Lei do Amor; o Reino do Pecado ao Reino do Perdão.

Um outro acontecimento, bem mais antigo, mas também muito relevante, foi o grande dilúvio enviado por Deus à terra. Como os homens daquela época haviam abandonado o bom caminho e se pervertido em abomináveis pecados, a Providência, como justo castigo, fez com que chovesse abundantemente sobre a face da terra, inundando-a por vários dias. Entre todos os homens, somente Noé e sua família, sendo bons e justos, foram salvos em uma arca e desse modo a humanidade foi renovada.

Poderiam ser citados aqui outros exemplos, mas bastam esses para perceber que, apesar de serem diferentes e terem ocorrido em épocas distintas, há entre eles, e também entre os acontecimentos mais importantes da História, um ponto em comum: ambos foram profetizados. Apesar de avisados e alertados por Deus de que tais fatos ocorreriam, muitos homens se saíram mal por não terem acreditado nos avisos divinos. E, nos dias atuais, Deus, por meio de sua Mãe Santíssima, prometeu-nos mais um extraordinário acontecimento.

Em 1917, Nossa Senhora apareceu a três pastorinhos em Fátima, no dia 13 dos meses de maio a outubro, com o objetivo de fazer-lhes revelações e uma grande profecia. Ela pediu sacrifícios pela conversão dos pecadores, a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a devoção ao Santo Rosário, como condição para que não se iniciasse outra guerra mundial, além das revelações sobre o inferno. Entretanto, a mais importante mensagem trazida por Ela foi a seguinte: haverá “guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer e várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”.

Nota-se nessas palavras que a Santíssima Virgem anunciou um grande castigo à humanidade, uma vez que “os homens se esqueceram de Deus e dos seus Mandamentos, vivendo como se Ele não existisse”1. Com efeito, “o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho” (Hb 12, 6), Mas, como boa Mãe, que fere, mas também cuida da ferida (Cf. Jó 5, 18), Nossa Senhora também promete o triunfo final de seu Sapiencial e Imaculado Coração, que trará a vitória e a paz aos que Lhe permanecerem fieis.

Mas, como será esse triunfo de Nossa Senhora? O Professor Plinio Corrêa de oliveira, grande devoto de Maria Santíssima, comenta: “[…] quando Ela afirma que seu Coração triunfará, quer dizer que sua mentalidade triunfará. O triunfo da mentalidade da Mãe de Deus significa que virá uma época, na qual, muito mais do que na nossa, os santos vão dirigir a humanidade. Nossa Senhora governá-la-á através de seus santos; porque eles vão influenciar os Reis, os Papas, os grandes e pequenos desta Terra, e levar a todos para Deus. Será o Reino de Maria”2.

Sem sombra de dúvida, uma época em que a terra terá como rainha a própria Mãe de Deus será realmente extraordinária. Não que Nossa Senhora ainda não seja Rainha desta terra, pois é verdade de fé que, quando subiu aos Céus, Ela foi coroada por Deus como Rainha do Céu e da Terra, mas, no Reino d’Ela, todos haverão de reconhecê-La e honrá-La verdadeiramente como Rainha e Mãe – o que muitos, hoje em dia, não o fazem -, e Ela poderá fazer todo bem possível a seus amados filhos e súditos, e conduzi-los ao seu Divino Filho.

Ora, diante dessa maravilhosa promessa, resta somente uma dúvida: quando se dará essa esperada vitória?

A esse respeito, em 1982, o Santo Padre João Paulo II comentou: “O convite evangélico à penitência e à conversão, expresso com as palavras da Mãe, continua ainda atual. Mais atual mesmo do que há sessenta e cinco anos atrás. E até mais urgente”3. Também em 1950, o Papa Pio XII disse em um pronunciamento: “Já passou o tempo em que se podia duvidar de Fátima”4. Portanto, com base nessas sábias palavras papais, e considerando a crescente decadência da humanidade no pecado e o fato de que já se passaram 98 anos, ou seja, quase um século desde que essa promessa foi feita, é de se imaginar que esses grandes acontecimentos estejam muito próximos, e que a humanidade está, de fato, prestes a presenciar o nascimento de uma nova era histórica.

Portanto, “se não faltaram preocupações e sofrimentos, se ainda há motivos de apreensão pelo futuro da humanidade, conforta-nos o que a ‘Senhora vestida de branco’ prometeu aos pastorinhos: ‘Por fim, meu Imaculado Coração triunfará!’.”5

1 Voz de Fátima. Fátima, 13 de agosto de 1996.
2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. São Raimundo de Peñafort, símbolo de uma época. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.166, jan. 2012. p.15.
3 Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Libreria Editrice Vaticana, 1982, v. 2, p. 1575.
4 Pio XII. 8 de Maio de 1950.
5 Palavras do Papa Bento XVI, Regina Caeli de 14 de Maio de 2006.

A preferência pelos montes

Ir. Teresita Morazzani Arraiz, EP

Na narrativa dos Evangelhos, nunca nos deparamos com Jesus descendo a um abismo para rezar ou entrando numa gruta para falar com o Pai. Pelo contrário, sempre sobe Ele a um alto de monte ou a uma elevação para retirar-se do burburinho da vida ativa e passar a noite em contemplação. “Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha” (Mt 5, 1). “E despedido que foi o povo, retirou-se ao monte para orar” (Mc 6, 46). “Conforme o seu costume, Jesus saiu dali e dirigiu-se ao monte das Oliveiras, seguido dos seus discípulos” (Lc 22, 39). Lembremo-nos, sem embargo, que em sua condição humana Jesus possuiu, desde o primeiro instante de sua concepção no seio de Maria, a visão beatífica, como nos ensina PIO XII, em sua Encíclica Mystici Corporis Christi: “[…] pela visão beatífica de que gozou desde que concebido no seio da Deípara, […]” (D 3812). Segundo São João Damasceno, Cristo orava de dentro de sua natureza humana “ensinando-nos que na oração se manifesta a glória divina”1. Assim sendo, estando a alma dEle constantemente vendo a Deus face a face 2, não necessitava Ele retirar-se para orar ao Pai. No entanto, relata Mateus: “Seis dias depois, tomou Jesus consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha” (Mt 17, 1).

Aprofundemo-nos um pouco mais para melhor tiramos proveito para nossa vida espiritual: Qual seria essa montanha?

Afirma Maldonado que “os [comentaristas] modernos pensam que seria o monte Hermon, próximo da Cesareia onde se encontrava Jesus. Mas a Tradição do Tabor é muito antiga; o Tabor é também, por seu isolamento, muito conforme à descrição do texto, bastante alto e não tão longe de Cesareia para que em seis ou oito dias não se pudesse percorrer a distância que separa ambos os lugares” 3.

Por que essa predileção do Mestre por lugares altos?

Em primeiro lugar, fisicamente, o cume de uma elevação está mais próximo de céu do que o fundo de um precipício. “O mais das vezes a glória de Deus se faz patente nos montes, que estão mais perto do céu e mais afastados da terra, e não nos vales” 4, enuncia Maldonado. Portanto, é de se conjecturar que Jesus Homem preferisse estar com seu corpo o mais perto possível do Pai, ainda que sua alma estivesse na visão direta de Deus – como dissemos acima – e fosse Ele próprio a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Em segundo lugar, talvez escolhesse Ele os montes para simbolizar a necessidade de elevarmos nossos corações e pensamentos acima das coisas deste mundo, e entregarmo-nos, assim, mais facilmente à meditação das verdades eternas, como comenta São Remígio 5.

Ademais, geralmente os altos das montanhas são solitários e distantes do barulho do mundo. O apartar-se das criaturas é condição indispensável para se entrar em contato com Deus, e mais ainda para vê-Lo. A este respeito, o mesmo São João Damasceno nos ensina em uma homilia:

O amor, como cume de virtudes, está simbolizado na montanha sobre a qual Jesus conduziu seus apóstolos; porque quem chega ao cume da caridade, saindo de certa forma de si mesmo, pode compreender o Invisível. […] A hesychía – sugerida por Lc 9, 28 – é a mãe da oração, e a oração é a manifestação da glória de Deus; porque se fechamos as portas dos nossos sentidos e procuramos encontrar a nós mesmos e a Deus, livres das coisas que acontecem no mundo exterior veremos dentro, em nosso coração, e com toda clareza, o Reino de Deus. Porque o Reino dos céus […] está em nosso interior, como o disse o mesmo Senhor 6.

Também, de acordo com o Papa Emérito Bento XVI o monte é lugar para melhor entrar em contato com Deus:

De novo encontramos, como já no Sermão da Montanha e nas noites de oração de Jesus, o monte como o lugar da especial proximidade com Deus; de novo devemos pensar em conjunto os diversos montes da vida de Jesus: o monte da tentação; o monte de sua grande pregação; o monte da oração; o monte da transfiguração; o monte da agonia; o monte da cruz; e, finalmente, o monte do ressuscitado, no qual o Senhor – em oposição à oferta que lhe fizera Satanás do domínio sobre o mundo – declara: ‘Foi me dado todo o poder no céu e na terra’ (Mt 28, 18) 7.

E, desse modo, o mesmo Bento XVI define o simbolismo do “monte como lugar da subida – não apenas da subida exterior, mas também da interior. O monte como libertação do peso de cada dia, como respiração do ar puro da criação; o monte que oferece o panorama para a vastidão e para a beleza da criação; o monte que me dá elevação interior e me permite pressentir o Criador”.8

1 Apud AÑO CRISTIANO VIII Agosto. Coordinadores: Lamberto de Echeverría, Bernardino Llorca y José Luis Repetto Betes. Madrid: B.A.C., 2005. p.138

2 Cf Jo 3, 13 e Jo 8, 38.

3 MALDONADO, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios I Evangelio de San Mateo. Madrid: B.A.C., 1950. p. 607

4 Ibid. p.608

5 Cf AQUINO, Tomás de. Catena Áurea. Exposición de los cuatro Evangelios Vol. II San Mateo (segunda parte). Buenos Aires: Cursos de Cultura Católica, 1946. p. 90

6 Cf AÑO CRISTIANO. Op. cit. p.138 – 139

7 RATZINGER, Joseph. Bento XVI. Jesus de Nazaré. Trad. José Jacinto Ferreira de Farias. São Paulo: Editora Planeta, 2007. p. 263

8 Loc. cit.

Que os Céus façam chover o Justo!

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Se, ao longo dos séculos passados, a Redenção deu origem a tantas e tão grandes maravilhas, que novos esplendores de virtude, de santidade e de heroísmo não temos direito a esperar no futuro?

Haverá algo mais corriqueiro do que a chuva? Por vezes ouvimos soprar o vento, vemos amontoarem-se densas nuvens no horizonte e derramar-se a tempestade com violência, em meio ao fulgor dos relâmpagos e aos ribombos dos trovões, agitando os mares e fazendo transbordar os rios. Em outras ocasiões, a terra se cobre de névoa úmida e a água cai fina e contínua, ao longo dos dias e das semanas. Em muitas regiões do nosso planeta, conforme a estação do ano, ela é um episódio diário, ao qual poucos prestam atenção. Quando falta assunto numa roda de conversa, as pessoas falam de “chuva e bom tempo”, ou seja, de algo sem importância nem transcendência.

Entretanto, talvez somente aqueles que já experimentaram longas temporadas de seca — quando a terra sedenta se abre em sulcos e a vegetação perde o viço e se estiola — saibam dar à chuva o devido valor e reconhecer os benefícios incomparáveis que ela aporta para a vida na Terra. Mesmo apresentando-se sob tão variados aspectos, ela sempre conserva sua característica de fecundar e dar vitalidade.

Símbolo das bênçãos de Deus

Como a finalidade de todas as figuras da natureza criadas por Deus é refletir algo de sua essência infinita ou de sua ação, a da chuva é a de ser símbolo da abundância e eficácia das suas bênçãos.

Encontramos nas Sagradas Escrituras inúmeras referências que demonstram o quanto ela era considerada um indicativo da benevolência divina, entre os antigos, e sua ausência um sinal de castigo. No Salmo 83 lemos: “Felizes os que habitam em vossa casa, Senhor: aí eles Vos louvam para sempre. Quando atravessam o vale árido, eles o transformam em fontes, e a chuva do outono vem cobri-los de bênçãos” (5.7); e no Eclesiástico: “A misericórdia divina no tempo da tribulação é bela; é como a nuvem que esparge a chuva na época da seca” (35, 26).

Se a chuva representa a liberalidade dos dons divinos que se derramam sobre os homens, a terra estéril e ressequida assemelha-se à alma privada do frescor da graça, incapaz de praticar qualquer ato de virtude e, portanto, de conquistar méritos sobrenaturais.

Um mundo com necessidade de renovação

Houve, na História, uma longa “época de seca”, de quatro mil anos, em que a “água da misericórdia divina” era rara. Com efeito, após a queda de nossos primeiros pais e sua expulsão do Paraíso, a humanidade passou a se desenvolver sobre a Terra em meio ao trabalho, ao sofrimento e às dificuldades inerentes à sua natureza manchada pelo pecado.

Aos poucos, arrastados pela desordem de suas paixões, os homens “extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. […] Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador” (Rm 1, 21.25), fabricando para si divindades segundo os seus caprichos, que se acomodassem a seus instintos desregrados.

Por conseguinte, “da universalidade do erro saíram todos os crimes, como por uma germinação natural: idolatria, superstição, magia, apoteose de vícios incensados como divindades, injustiças, depravação da carne, crueldades abomináveis. E todos esses crimes produzindo-se, não como acidentes reprováveis na vida dos indivíduos, das famílias e das sociedades, mas como hábitos intimamente arraigados nas nações, desenvolvendo-se à vontade sob o tríplice patrocínio das leis, da opinião e da religião”.1

Este estado de coisas causava imensa frustração nas almas, e o universo pagão sentia necessidade de uma renovação. Ainda que afundados em suas crenças supersticiosas, os homens conservavam a lembrança da palavra divina dirigida a Adão e Eva: viria um Salvador para pôr fim aos males do mundo, o qual regeneraria a humanidade e apontaria os rumos do futuro.

À espera do orvalho restaurador

Em Israel, nação que Deus tornara depositária da Fé e das promessas messiânicas, o Senhor, pelos lábios dos profetas, anunciara de mil modos e sob inúmeras figuras as características do Redentor, suas ações, sua missão, sua grandeza. Tal esperança era objeto dos anelos dos patriarcas e dos justos que, ao longo dos séculos, mantinham o olhar fixo no porvir e suplicavam ao Todo-Poderoso a abreviação dos tempos.

O gemido daquele punhado de almas piedosas bem poderia ser sintetizado na passagem do profeta Isaías, tão repetida ao longo do período litúrgico do Advento: “Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover a justiça; abra-se a terra e brote a salvação e ao mesmo tempo faça germinar a justiça! Sou eu, o Senhor, que a criei” (45, 8).

As versões mais antigas da Bíblia, seguindo a Vulgata, consideravam este trecho como um dos oráculos mais claros a respeito do nome de Jesus, já que as palavras “justiça” e “salvação” eram traduzidas por “Justo” e “Salvador”, isto é, “Jesus”. Ambas as variantes estão de pleno acordo, pois, ao descer do Céu, o Salvador inaugurou uma era de justiça e santidade.

Sim, o Justo, o Messias esperado veio, de fato, não com grande pompa e aparato, como muitos imaginavam, mas revestido de um Corpo padecente como o nosso, a fim de irrigar com o batismo de seu Sangue o grande deserto deste mundo. Nem as almas mais áridas, nem os corações mais endurecidos são capazes de resistir à eficácia deste orvalho restaurador.

Abundância das bênçãos derramadas pelo Salvador

Ao considerarmos os 2000 anos da Era Cristã, constatamos o quanto a palavra e o exemplo do Homem-Deus, transmitidos pelos Apóstolos, tornou a terra boa e fecunda. O ardor dos mártires, a pureza das virgens e a sabedoria dos doutores são expressões variadas dessa única “justiça derramada das alturas”, assim como o heroísmo sublime dos religiosos, o zelo dos missionários e o amor desinteressado daqueles que se dedicam ao bem do próximo.

Dessa imensa coorte de Santos, com os quais a Igreja, Corpo Místico de Cristo, sempre se enriquece, defluem outros tantos desdobramentos magníficos, enquanto reflexos da perfeição das almas. Vemos, então, a ereção das catedrais, o requinte da Liturgia e dos paramentos, a policromia dos vitrais, a definição dos dogmas, o desabrochar das ordens religiosas, a criação das universidades, dos hospitais e dos mosteiros… e, até mesmo a cortesia no trato, a elegância nos trajes e maneiras, ou o bom gosto nas artes culinárias.

Provavelmente aqueles muitos profetas e reis que ansiaram por ver os dias do Redentor (cf. Lc 10, 24) não puderam sequer imaginar a abundância de bênçãos que seria derramada sobre seus descendentes na Fé. Contudo, com suas reiteradas preces contribuíram para preparar os caminhos do Messias e apressar a hora bendita de sua chegada.

Tempo de preparação para a vinda do Salvador

Ao longo das quatro semanas que antecedem o Natal, a Igreja, desde séculos remotos, propõe aos fiéis uma adequada preparação para a grande solenidade do nascimento de Jesus, procurando movê-los à conversão — como o recordam os paramentos roxos —, a purificar as almas de suas misérias, caprichos e mazelas.

O costume de observar tal período de penitência teve início no Ocidente e, mais tarde, penetrou nas igrejas orientais. Sabe-se que na França, no século V, jejuava-se três vezes por semana desde a festa de São Martinho (11 de novembro) até o Natal, e os Bispos entregavam-se com assiduidade à pregação. Mais tarde, a prática do jejum tornou-se obrigatória, não só na França, como também na Inglaterra, Alemanha, Itália e Espanha. Com o tempo, porém, estes jejuns foram sendo mitigados e o Advento ficou reduzido a quatro semanas apenas, como perdura até nossos dias.2

Esta preparação, no entanto, não visa apenas rememorar a milenar expectativa da humanidade pela chegada do Salvador, mas, isto sim, reviver o espírito de alegria e de esperança que distinguiu os justos do Antigo Testamento, na perspectiva de seu aparecimento.

Se na sua primeira vinda Cristo veio como chuva suave, espalhando-se por toda a extensão da Terra, a fim de chamar os homens e comunicar-lhes sua graça — “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10) —, sabemos que Ele voltará um dia com grande esplendor e glória para julgar os vivos e os mortos, como professamos no Credo e Ele mesmo anunciou: “Como o relâmpago parte do Oriente e ilumina até o Ocidente, assim será a volta do Filho do Homem. […] Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os Anjos com Ele, sentar-Se-á no seu trono glorioso” (Mt 24, 27; 25, 31).

Aceitemos o doce convite do Menino Jesus

No Advento contemplamos ainda a vinda intermediária de Cristo, que se realiza sem cessar de modo místico e misterioso em todas as épocas, como ensinaram muitos teólogos, em especial o grande São Bernardo: “Conhecemos, pois, três adventos seus: aos homens, nos homens, contra os homens. […] Mas, visto que o primeiro e o terceiro, por serem manifestos, são bastante conhecidos, acerca do segundo, que é oculto e espiritual, escuta o próprio Senhor que diz: ‘Se alguém Me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos nossa morada’ (Jo 14, 23). Bem-aventurado aquele no qual fazes tua morada, Senhor Jesus. Bem-aventurado aquele no qual a sabedoria edifica sua casa, elevando sete colunas. Bem-aventurada a alma que é receptáculo da sabedoria. Quem é esta? A alma do justo”.3

O mundo de hoje está imerso numa grande “desertização espiritual”, no qual “é o vazio que se espalhou”,4 como afirmou o Papa Bento XVI na abertura do Ano da Fé. Com efeito, à semelhança da situação na qual se encontravam antes de o Filho de Deus descer das alturas, os homens hodiernos acham-se afundados no pecado e facilmente se voltam para os ídolos, não mais aqueles de ouro, prata, pedra ou madeira, mas para as divindades de nossos dias, quiçá mais numerosas do que as da Antiguidade pagã.

Faz-se necessário, portanto, mais do que nunca, que os homens dilatem suas almas para esta vinda cotidiana de Cristo, que se realiza por meio da graça. Estejamos vigilantes e aceitemos tão doce convite, permitindo ao Justo que tome inteira conta e posse de nosso interior, e nele estabeleça sua morada.

Se a Redenção trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo em sua primeira vinda deu origem a tantas e tão grandes maravilhas, o que não teríamos direito de esperar se a humanidade abrisse suas portas neste Natal para o Menino Jesus que misticamente nos visita? Que esplendores, que frutos de virtude, de santidade e de heroísmo não poderiam assim germinar?

1 MONSABRÉ, OP, Jacques-Marie-Louis. Dimanches et Fêtes de l’Avent. 3.ed. Paris: P. Lethielleux, 1902, p.102-103.
2 Cf. GUÉRANGER, OSB, Prosper. L’année liturgique. L’Avent. 20.ed. Tours: Alfred Mame et Fils, 1920, p.1-8.
3 SÃO BERNARDO. Sermones de Tiempo. En el Adviento del Señor. Sermón III. In: Obras Completas. Madrid: BAC, 1953, v.I, p.169.
4 BENTO XVI. Homilia na Missa solene de abertura do Ano da Fé, de 11/10/2012.
5 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Prière embrasée, n.20. In: Œuvres complètes. Paris: Du Seuil, 1966, p.683.

A paz de Cristo: um objetivo inatingível?

Irmã Maria Angélica Iamasaki, EP

Paz! Paz! Poucas palavras são tão repetidas quanto esta em nossos dias, ante a inclemência de guerras, revoluções, discórdias políticas, violência urbana, desunião familiar e atrocidades provocadas pelo acirramento de ódios étnicos.

Todos a desejam, dela muito se fala e se escreve, por toda parte se propõem meios para alcançá-la, mas… quem sabe dizer precisamente o que é paz? Para uns, ela consiste na ausência de qualquer confronto, físico ou ideológico, mesmo se obtida à custa da renúncia a princípios morais ou a importantes parcelas das próprias convicções. Para outros, viver em paz supõe fugir da realidade em busca de um utópico equilíbrio de espírito, alheio ao que se passa a seu redor. Não faltam também aqueles que a identificam com valores parciais, embora nobres, como o silêncio, a segurança ou o respeito à natureza.

A maior ou menor relação desses conceitos com a paz é inegável. Contudo, todos eles se desviam da essência desse bem fundamental para a sociedade, restringindo seu escopo e profundidade à realização de algum legítimo desejo pessoal.

Ora, “quem não sabe o que procura, não sabe o que encontra”, diz bem a propósito a sabedoria popular.

O que é a paz?

Para o cristão, a paz representa muito mais do que a simples inexistência de luta armada. Ela “não é ausência de guerra, nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica”, 1 lembra o Concílio Vaticano II.

Com razão afirmou Santo Agostinho ser ela um bem tão nobre que, ainda quando considerada apenas sob o ponto de vista terreno, “habitualmente nada se ouve com maior complacência, nada se deseja de mais atraente, enfim, nada se consegue de mais belo”. 2

Não existe paz sem o Criador, pois, ela “comporta uma exigência moral; além disso, tem relação com Deus: é de ordem transcendental e de ordem teologal”

No clássico ensinamento desse insigne Padre da Igreja, que marcou a teologia ocidental e vem ecoando na Cristandade por mais de quinze séculos, encontramos que a paz é a tranquilidade da ordem: “A paz do corpo é a ordenada complexão de suas partes; a da alma irracional, a ordenada calma de suas apetências. A paz da alma racional é a ordenada harmonia entre o conhecimento e a ação. […] A paz dos homens entre si, sua ordenada concórdia. A paz de casa é a ordenada concórdia entre os que nela mandam e os que obedecem; a paz da cidade, a ordenada concórdia entre governantes e governados. […] A paz de todas as coisas, a tranquilidade da ordem”. 3

Uma bela imagem de ordem — o principal elemento da definição agostiniana — é-nos oferecida pela harmonia sideral. Os astros, quais incontáveis joias refulgentes, preenchem a vastidão do firmamento de maneira singularmente ordenada e bela, dando a impressão de que na gigantesca abóbada celeste impera uma soberana paz. E não podia ser de outra forma, pois Deus “criou os céus com sabedoria” (Sl 135, 5).

Vemos, pois, que quando cada elemento de um conjunto encontra-se em seu devido lugar, cumprindo sua finalidade específica e proporcionando às demais criaturas o melhor de si, origina-se uma harmoniosa tranquilidade, fruto da reta disposição das coisas segundo sua natureza e de acordo com um determinado fim.

Não é qualquer tranquilidade, portanto, que merece ser chamada de paz, mas apenas aquela resultante da ordem. A pseudopaz instaurada com base em alguma situação desordenada, cedo ou tarde ruirá. A partir do momento em que os seres — quaisquer que sejam eles — deixam de agir conforme as regras da ordem, a paz esvanece.
São Tomás de Aquino, na questão da Suma dedicada à paz, mostra como ela está relacionada com o desejo do bem, uma vez que a ordenação interior do homem tende com veemência àquilo que lhe traz felicidade: “A verdadeira paz não pode existir senão com o desejo de um bem verdadeiro, porque todo mal, mesmo sob a aparência de bem pela qual satisfaz parcialmente o apetite, encerra muitas deficiências, e por causa delas o apetite permanece inquieto e perturbado. A verdadeira paz, portanto, só pode existir no bem e entre os bons. Logo, a paz dos maus é aparente e não verdadeira”. 4

Sendo Deus o único Ser capaz de saciar a apetência de infinito do homem, e uma vez que a ordem da criação foi instituída por Ele, podemos concluir não existir paz sem o Criador, pois ela “comporta uma exigência moral; além disso, tem relação com Deus: é de ordem transcendental e de ordem teologal”. 5

A santidade, meio mais eficaz de instaurar a paz

A filial submissão aos desígnios de Deus torna o homem de tal modo equilibrado e fortalecido na virtude, que ele, em consequência, pacifica tudo a seu redor. Onde está um santo, ali há grande paz, porque ele ordena todas as coisas de acordo com o estado de seu interior. Com efeito, a santidade possui mais eficácia na instauração da paz do que os tratados diplomáticos, quase sempre todos condicionados a uma política volúvel, instável e nem sempre ordenada. E os justos desejam ser pacíficos pelo mais elevado motivo: o de serem chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 9).

Em seu livro Jesus de Nazaré, o Papa Bento XVI ressalta que “a inimizade com Deus é o ponto de partida de toda corrupção do homem; superá-la é o pressuposto fundamental para a paz no mundo. Só o homem reconciliado com Deus pode estar reconciliado e em harmonia também consigo mesmo; e somente o homem reconciliado com Deus e consigo mesmo pode difundir paz em seu redor e em todo o mundo”. 6

Na base do ensinamento do atual Pontífice está a repulsa ao pecado, o qual exclui qualquer forma de paz. Nesse sentido, a explicação oferecida pelo Doutor Angélico mostra como uma falsa paz pode enganar o homem, se ele não goza da perfeita união com Deus: “Ninguém é privado da graça santificante a não ser em razão do pecado, razão pela qual o homem se afasta do verdadeiro fim e estabelece o fim em algo não verdadeiro. Assim sendo, seu apetite não adere principalmente ao verdadeiro bem final, mas a um bem aparente. Por esta razão, sem a graça santificante não pode haver verdadeira paz, mas somente uma paz aparente”.7

Portanto, o empenho de estar em ordem com o Criador é condição essencial de qualquer forma de paz. Sem isso, prevalecem os interesses pessoais e os egoísmos, fonte das disputas.

A paz na terra é consequência da paz com Deus

Na Santa Ceia, Nosso Senhor deu-nos como herança um dom precioso: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14,27).

A paz na Terra é consequência natural da paz com Deus, como deixou consignado o Beato João XXIII: “Em última análise, só haverá paz na sociedade humana se essa estiver presente em cada um dos membros, se em cada um se instaurar a ordem querida por Deus. Assim interroga Santo Agostinho ao homem: ‘Quer a tua alma vencer tuas paixões? Submeta-se a quem está no alto e vencerá o que está embaixo. E haverá paz em ti, paz verdadeira, segura, ordenadíssima. Qual é a ordem dessa paz? Deus comandando a alma, a alma comandando o corpo’”. 8

E o Papa Bento XVI, após ressalvar a relevância dos fatores de ordem cultural, política e econômica para se obter a paz, acrescenta: “Mas, em primeiro lugar a paz deve ser construída nos corações. De fato é neles que se desenvolvem sentimentos que podem alimentá-la ou, ao contrário, ameaçá-la, enfraquecê-la, sufocá-la. Aliás, o coração do homem é o lugar das intervenções de Deus. Portanto, ao lado da dimensão ‘horizontal’ das relações com os outros homens, revela-se de importância fundamental, nesta matéria, a dimensão ‘vertical’ da relação de cada um com Deus, no qual tudo tem o seu fundamento”. 9

Ensina-nos o Doutor Angélico que há no ser humano três classes de ordem: consigo mesmo, com Deus e com o próximo. 10 Donde decorrem três tipos de paz: do homem consigo mesmo, ou paz interior; do homem com Deus, decorrente de sua inteira submissão à vontade divina; e do homem com os seus semelhantes, que consiste em viver em concórdia com todos. A paz numa coletividade será a resultante da concórdia entre os indivíduos que a compõem; a concórdia entre as várias colectividades de uma nação equivale à sua paz interna. E, por fim, a concórdia entre as nações corresponde à tão sonhada paz internacional.

Com razão escreveu São Tomás: “A justiça produz a paz indiretamente, removendo-lhe os obstáculos. Mas a caridade a produz diretamente, porque ela é, por sua própria razão, causa da paz”.11 E a Constituição pastoral Gaudium et spes nos oferece este belo ensinamento: “A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, Príncipe da Paz, reconciliou com Deus, pela Cruz, todos os homens; restabelecendo a unidade de todos num só povo e num só corpo, extinguiu o ódio e, exaltado na Ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor”. 12

A paz de Cristo no reino de Cristo

Em sua Encíclica Ubi arcano, o Papa Pio XI valeu-se de uma fórmula em extremo acertada, a qual permanece até nossos dias como o paradigma a ser atingido não só pelos cristãos, mas por toda a humanidade: “A paz de Cristo no reino de Cristo”. 13

Quando, na Santa Ceia, o Senhor transmitiu os últimos ensinamentos aos Apóstolos, deu-nos como herança um dom precioso: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14, 27). Mais tarde, ao aparecer no Cenáculo e encontrar os discípulos amedrontados e pusilânimes, suas primeiras palavras foram: “A paz esteja convosco!” (Jo 20, 19). Ainda outras vezes falou Jesus sobre a paz, mas sempre com uma nota muito peculiar: a sua paz, e não outra qualquer.

Distinta das fruições do mundo, caracterizadas pela agitação que imprimem na alma, a paz de Cristo aquieta as paixões desordenadas e conduz ao “gozo perfeito do bem supremo, que une e pacifica todos os anseios”. 14 Ela “reside nas profundezas da alma”, 15 incita a praticar a justiça unida à caridade e ensina a paciência. Quem possui essa paz ama o direito e a autoridade. Ela não se alimenta de bens perecíveis, mas de realidades sobrenaturais, nem se perturba com as maiores desgraças, porque está fundada sobre a rocha firme da fé.

Dizemos com propriedade ser essa a paz de Cristo porque, antes d’Ele, o mundo vivia nas trevas do paganismo em que vigoravam atrocidades de todos os tipos, prevalecendo a máxima: homo homini lupus — o homem é lobo do homem. Por isso, Santo Efrém de Nisibi pôde afirmar que “no nascimento e na morte de Jesus de Nazaré, o Céu e a Terra se fundem num abraço de paz”. 16

Quanto ao reino messiânico instituído pelo Divino Mestre, este se distingue substancialmente de todos os reinos terrenos, porque jamais existiu um soberano dotado da capacidade de governar o interior de seus súditos. Tal privilégio pertence ao Homem-Deus, que não deseja imperar apenas no exterior, mas sim renovar o âmago de suas criaturas: “Dentro de vós meterei meu espírito, fazendo com que obedeçais às minhas leis e sigais e observeis os meus preceitos” (Ez 36, 27).

Se fecharmos as portas da alma ao suave jugo de Jesus, e deixarmos nela penetrar o pecado, abandonaremos a paz de Cristo e o reino de Cristo. É por se terem “miseravelmente separado de Deus e de Jesus Cristo” que os homens caíram no abismo de males da I Guerra Mundial, acentuou em sua encíclica Ubi arcano o Papa Pio XI. E acrescentou: “Já que foram renegados os preceitos da Sabedoria cristã, não há motivo para admirar-se de que os germes da discórdia — semeados por toda parte como em solo bem preparado — tenham produzido esse execrável fruto de uma guerra que, longe de enfraquecer pelo cansaço os ódios internacionais e sociais, alimentou-os mais abundantemente pela violência e pelo sangue”. 17

A Igreja é a grande propulsora da paz

Tocante é o relato do Evangelista São Lucas sobre a comoção de Nosso Senhor no Domingo de Ramos, quando Se aproximou da Cidade Santa e chorou sobre ela, dizendo: “Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!… Mas não, isso está oculto aos teus olhos” (Lc 19, 42). Ele, o “Príncipe da paz” (Is 9, 5), que viera a este mundo para salvar, é recusado até pelos seus. Portador de divinas soluções para todas as desordens da humanidade, é desprezado por não dar assentimento ao pecado dominante nos corações orgulhosos de uma geração má e perversa.

A nós, porém, filhos da Santa Igreja, a paz de Cristo não é um objetivo inalcançável, porque não está velado aos nossos olhos Quem a pode comunicar. Embora tenha ascendido gloriosamente aos Céus, Ele está presente em seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica, defensora intrépida do direito, da vida, da justiça e da caridade. Ou ainda, como a qualificou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “a depositária da Verdade, e Arca dos Sacramentos, inestimável obra-prima de Deus”. 18

Convicto de ser a Igreja a grande propulsora da paz, comenta esse eminente líder católico: “Só as virtudes que a Igreja ensina, e por meio dos Sacramentos ajuda a praticar, é que são realmente o fundamento da paz. E, assim, a virtude só vencerá onde vencer a Santa Igreja de Deus. Em outros termos, não haverá verdadeira paz senão na medida em que houver um triunfo da Santa Igreja. […] A exaltação da Santa Igreja, isto é, que a Igreja seja reconhecida por todos os povos no reinado universal que de direito lhe cabe sobre o mundo inteiro, é este o grande anelo que deve estar indissoluvelmente ligado a todos os nossos anseios de paz”. 19

Que a humanidade tenha, portanto, os olhos fixos na Igreja e ponha amorosamente em prática seus sapienciais ensinamentos, eis o meio seguro de extirpar todas as desordens, individuais e sociais, que campeiam pelo mundo afora e são causa das discórdias, guerras, violências e tantos outros males que afligem o mundo atual. À Santa Igreja se aplica com propriedade a profecia de Isaías: “Eis o que diz o Senhor: vou fazer a paz correr para ela como um rio” (Is 66, 12).

1CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et spes, n.78.
2SANTO AGOSTINHO. A cidade de Deus. l.19, c.11.
3Idem, 1.19, c.13.
4SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.2, ad.3.
5HENRY, OP, Antonin-Marcel. Introdução e notas ao Tratado da Caridade. In: Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2004, v.V, p.406, nota a.
6RATZINGER, Joseph. Gesù di Nazaret. Città del Vaticano: Libreria Vaticana, 2007, p.110.
7SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., II-II, q.29, a.3, ad.1.
8JOÃO XXIII. Pacem in terris, n.164.
9BENTO XVI. Mensagem no 20º aniversário do Encontro Interreligioso de oração pela paz, convocado por João Paulo II, 20/9/2066.
10Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Evangelium Ioannis, c.14, lect.7.
11Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.3.
12CONCÍLIO VATICANO II, op.cit., ibidem.
13PIO XI. Ubi arcano, 23/12/1922.
14Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q.29, a.2, ad.4.
15PIO XI, op. cit., ibidem.
16SANTO EFRÉM DE NISIBI, apud ODEN, Thomas C. (Ed.). La Biblia comentada por los padres de la Iglesia y otros autores de la época patrística. Evangelio según San Lucas. Madrid: Ciudad Nueva, 2006, v.III, p.82.
17PIO XI, op. cit., ibidem.
18CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Opus justitiæ pax. In: O Legionário. São Paulo. N.434. (5/1/1941); p.2
19CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Justitia et pax. In: O Legionário. São Paulo. N.517. (9/8/1942); p.2.

Liberdade ou escravidão?

juizo fra_angelico1Madre Mariana Morazzani Arráiz, EP

Aquele que quer ser livre eximindo-se da servidão legítima de Deus, transforma-se num escravo e, pelo contrário, aquele que se faz escravo da vontade de Deus progride infinitamente na liberdade.

“No principio Deus criou o homem, e o entregou ao seu próprio juízo” (Eclo 15,14). A liberdade é um dom conferido por Deus exclusivamente aos seres racionais – anjos e homens.

“A liberdade da pessoa, de fato, tem o seu fundamento na sua dignidade transcendente: uma dignidade que lhe foi doada por Deus, seu Criador, e que a orienta para o mesmo Deus. O homem, porque criado à imagem de Deus (cf. Gen. 1,27), é inseparável da liberdade, daquela liberdade que nenhuma força ou constrangimento exterior jamais poderá tirar-lhe e que constitui seu direito fundamental, quer como indivíduo, quer como membro da sociedade. O homem é livre porque possui a faculdade de se determinar em função da verdade e do bem. O homem é livre porque possui a faculdade de escolher « movido e determinado por uma convicção pessoal interior, e não simplesmente por efeito de impulsos instintivos cegos ou por mera coacção externa » (Const. past. Gaudium et Spes, n. 17). Ser livre é poder e querer escolher, é viver segundo a própria consciência”1.

A liberdade é, portanto, um atributo da vontade humana, em virtude dela, pode-se executar uma coisa ou não, ou ainda pode-se escolher entre duas coisas opostas (libertas arbitrii, liberdade de escolher ou potestas ad opposita ou poder dos contrários)2. É ainda a faculdade de escolher os meios dentro da ordem (facultas electiva mediorum servato ordine finis)3.

Assim, sendo a vontade uma faculdade que deve querer o que o entendimento lhe propõe como reto e conforme à ordem do ser, a liberdade não só não desaparece por seguir os ditames da razão, senão que encontra nesta a sua perfeição4. O conhecimento intelectual precede à vontade e ilumina o caminho, à maneira de uma tocha nas mãos de um viajante ou um farol a guiar a rota de um navio.

Entretanto, ela não pode estar sujeita às paixões. Quanto mais seja a vontade independente do impulso das paixões, mais livre ela será. Quanto maiores sejam as influências alheias a ela, tanto maior desgaste sofrerá a liberdade. A dignidade do homem exige que ele proceda segundo sua livre e consciente escolha, isto é, movido e induzido pessoalmente por dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa(D 4317) .

Se as paixões humanas, desregradas por influência exterior, como, por exemplo, o consumo de drogas, a sujeição a práticas de hipnotismo, o emprego de narco-análises, etc., chegassem a obnubilar o entendimento ou a anular a vontade, esta deixaria de ser livre.

A falsa liberdade, ostentada por aqueles que se julgam livres, quando se negam a obedecer a lei de Deus, torna-os semelhantes aos seres brutos (animais) que obedecem somente aos próprios instintos e sob o impulso exclusivo da natureza procuram o que lhes convém e fogem daquilo que lhes é prejudicial. Eles não possuem leis que reprimam seus apetites, pois são inaptos para conhecê-las. Por isso, são incapazes de praticar a verdadeira liberdade 5.

TERTULIANO comenta com toda propriedade a esse respeito: “Deus deu a lei ao homem não para privá-lo de sua liberdade, mas pelo contrário, para manifestar-lhe o seu apreço”6. Portanto, a razão pede a lei. Precisamente por ser livre, o homem deve estar submetido à lei.

Convém ressaltar que, em relação a Deus, a liberdade pede o reconhecimento voluntário da dependência devida ao Criador. Assim no-lo explica a Carta Encíclica Libertas Praestantissimum, de LEÃO XIII:

A natureza da liberdade humana, […] inclui a necessidade de obedecer a uma razão suprema e eterna, que não é outra do que a autoridade de Deus impondo seus mandamentos e preceitos. E este justíssimo domínio de Deus sobre os homens está longe de suprimir ou sequer enfraquecer a liberdade humana, mas faz precisamente todo o contrário: a defende e a aperfeiçoa; porque a perfeição verdadeira de todo ser criado consiste em tender a seu próprio fim e alcançá-lo. Ora, o fim supremo ao qual deve aspirar a liberdade humana não é outro que o próprio Deus. 7

O contrário não é liberdade, mas libertinagem. Segundo um pensamento de SANTO AGOSTINHO, o primeiro libertino da história da humanidade foi o próprio Adão que se perdeu ao confundir liberdade com independência de Deus8. É cabível, então ponderar, ter sido Lúcifer o máximo libertino dos seres espirituais, quando ao proferir o brado de non serviam, “Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembleia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo” (Is 14, 13-14), julgou estar reafirmando sua liberdade, mas, no entanto, permanece eternamente como o maior escravo e derrotado da história.

O Cardeal JOSEPH RATZINGER, atual Papa BENTO XVI, assim se referiu ao problema da liberdade: “[…] A ideia de que ao rejeitar o que é mau fica tolhida minha liberdade, constitui uma perversão da liberdade. Em efeito, a liberdade só encontra seu espaço criativo no âmbito do bem”9

Deus criou o homem perfeitamente livre, e o pecado não é senão um defeito da verdadeira liberdade. O ponto vulnerável da natureza humana é esta liberdade imperfeita e caprichosa, e enquanto o homem permanece neste mundo tem o triste privilégio de poder desviar-se rumo ao pecado. Segundo TANQUEREY: “A criatura […] pode, efetivamente, desviar os olhos do bem verdadeiro para os voltar para o bem aparente, apegar-se a este último e preferi-lo ao primeiro; e é precisamente esta preferência que constitui o pecado”10

Em consequência, pode-se afirmar que o verdadeiro uso da liberdade não inclui a faculdade de pecar. “A escolha da desobediência e do mal é um abuso da liberdade e conduz à «escravidão do pecado» (Rm 6,17)” (CIC 1733) . Assim, a possibilidade de se afastar do bem não participa da essência da liberdade. Se tal fosse, teríamos que cair na aberração de afirmar que Deus, Jesus Cristo, os anjos, os santos do céu, que carecem dessa possibilidade, não são livres ou pelo menos o são menos perfeitamente do que o homem em estado de prova.

Deus é libérrimo, entretanto impecável porque não pode operar nada contrário a sua própria natureza. Afirma ROYO MARIN:

É um grande erro, com efeito, acreditar que a faculdade ou poder de pecar pertença à essência da liberdade. Pelo contrario, essa defectibilidade da liberdade humana que lhe põe nas mãos o triste privilégio de poder pecar, é um grande defeito e imperfeição da mesma liberdade, que unicamente afeta às criaturas defectíveis (que podem falhar), não a Deus nem a Jesus Cristo homem que são intrínsecamente impecáveis por sua própria natureza divina 11.

A esse respeito são luminosos os ensinamentos de SÃO TOMÁS, em seus comentários ao Evangelho de São João, contidos na Carta Encíclica Libertas Praestantissimum:

Todo ser é o que lhe compete ser por sua própria natureza. Em consequência, quando é estimulado por um agente exterior, não opera por sua própria natureza, mas por um impulso alheio, o qual é próprio de um escravo. Ora, o homem, por sua própria natureza, é um ser racional. Portanto, quando opera segundo a razão, age em virtude de um impulso próprio e de acordo com a sua natureza: nisso consiste precisamente a liberdade. Mas quando peca, age à margem da razão, atua como se fosse impelido por um outro e estivesse submetido ao domínio de outrem; por isto, quem comete o pecado, é servo do pecado 12.

E completa SANTO AGOSTINHO:

É esta a nossa liberdade: submetermo-nos a essa Verdade; [tal liberdade] é o nosso mesmo Deus, que nos livra da morte, ou seja da condenação do pecado. Com efeito, essa mesma Verdade, [que é] também um homem a falar com os homens, diz aos que acreditam: se permanecerdes na minha palavra sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,31). Efectivamente, de nada a alma disfrui com liberdade, a não ser o que disfrui com segurança.13

À luz desses princípios fica evidente que deixar-se levar pelas paixões não significa exercer a própria liberdade, senão operar com uma liberdade defectiva e até mesmo inclusive cair na escravidão.

Conclui-se que, se a liberdade é a faculdade de eleger, quanto mais numerosos sejam os obstáculos vencidos por ela, mais fica demonstrada a sua força. Deixar-se arrastar pela correnteza é fácil e, pelo contrário, a liberdade, operando segundo a razão contra as inclinações viciosas, manifesta toda sua plenitude e vigor.

Em sentido oposto, as paixões desregradas obnubilam o entendimento e debilitam a vontade. Quem terá suficiente má fé para afirmar que nisto consiste a liberdade?

Finalmente, aquele que se deixa levar pelas más paixões passa facilmente do ato ao costume, e portanto ao vício; do vício à abulia (inércia da vontade); da abulia ao envilecimento. Ora, isto não é escravidão?

1Beato João Paulo II, Mensagem para o XIV Dia Mundial da Paz , 1/1/1981 {HYPERLINK “http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html”}
2JOLIVET, Régis. Traité de Philosophie II. 5. ed. Paris: Emmanuel Vitte, 1955. p.606.
3 HERRERA ORIA, Angel . La palavra de Cristo. 1953, VIII, p.760.
4Ibid.p.607
5 Cf. LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, nº3. http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l- xiii_enc_20061888_libertas_sp.html . Acessado em 22, Novembro, 2007.
6Apud: HERRERA ORIA. vol III, p. 680. – Dios dió la ley al hombre no para privarle de su libertad, sino para manifestarle su aprecio.
7La naturaleza de la libertad humana, (…) incluye la necesidad de obedecer a una razón suprema y eterna, que no es otra que la autoridad de Dios imponiendo sus mandamientos y prohibiciones. Y este justísimo dominio de Dios sobre los hombres está tan lejos de suprimir o debilitar siquiera la libertad humana, que lo que hace es precisamente todo lo contrario: defenderla y perfeccionarla; porque la perfección verdadera de todo ser creado consiste en tender a su propio fin y alcanzarlo. Ahora bien: el fin supremo al que debe aspirar la libertad humana no es otro que el mismo Dios.(LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, Op. cit. nº 4. Tradução do autor)
8Apud HERRERA ORIA, vol III, p. 680.
9BENTO XVI.HYPERLINK “http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html” (2005, p. 89).
10TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Lisboa: Editorial Áster, 1961. p.35.
11Es un gran error, en efecto, creer que la facultad o poder de pecar pertenezca a la esencia de la libertad. Al contrario, esa defectibilidad de la libertad humana que le pone en las manos el triste privilegio de poder pecar, es un gran defecto e imperfección de la misma libertad, que únicamente afecta a las criaturas defectibles (que pueden fallar), no a Dios ni a Jesucristo hombre que son intrínsecamente impecables por su misma naturaleza divina.( ROYO MARIN, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: B.A.C 1961, p.167, tradução do autor)
12Todo ser es lo que le conviene ser por su propia naturaleza. Por consiguiente, cuando es movido por un agente exterior, no obra por su propia naturaleza, sino por un impulso ajeno, lo cual es propio de un esclavo. Ahora bien: el hombre, por su propia naturaleza, es un ser racional. Por tanto, cuando obra según la razón, actúa en virtud de un impulso propio y de acuerdo con su naturaleza, en lo cual consiste precisamente la libertad; pero cuando peca, obra al margen de la razón, y actúa entonces lo mismo que si fuese movido por otro y estuviese sometido al dominio ajeno; y por esto, el que comete el pecado es siervo del pecado.(LEÃO XIII. Libertas praestantissimum, 1888, Op. cit. Tradução do autor)
13 AGOSTINHO. Trad. Antônio Soares Pinheiro. O livre arbítrio. 3. ed. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia da UCP, 1988. p. 134.