É necessário ser pacífico?

Bruna Corrêa

Ao percorrer as bem-aventuranças — código sublime da santidade — enunciadas pelo Divino Mestre no Sermão da Montanha, retomando as promessas feitas ao povo eleito desde Abraão, encontram-se os meios pelos quais o verdadeiro cristão pode alcançar a felicidade eterna: a visão de Deus, a participação na natureza divina, a vida eterna, o repouso em Deus.

Por ora trataremos da sétima bem-aventurança: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Em que consiste propriamente o ser pacífico, para ser chamado de filho de Deus? Pacífico é aquele que procura primeiro estabelecer a ordem em si mesmo, em seguida, nos outros e, como consequência, em todas as coisas, analisando tudo sob o prisma sobrenatural, ou seja, da visão do próprio Deus. E ser chamado filho de Deus, herdeiro de Cristo, é o supremo prêmio desta bem-aventurança.

À prática de cada bem-aventurança evangélica somos assistidos com uma virtude e um dom do Espírito Santo. Quanto à sétima, da qual estamos tratando, cabe a virtude teologal da caridade, a mais excelente, a virtude prínceps, rainha dentre todas, que ultrapassa os umbrais da eternidade, sem a qual nada se faz, como afirma o Apóstolo: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos Anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine” (cf. Cor 13, 1).

Já o dom correspondente a essa bendita máxima é o de sabedoria, através do qual a alma em graça passa a julgar todas as coisas por suas últimas e mais altas causas, numa contemplação altíssima da ordem do universo, participando, assim, da visão do Criador.

Bossuet aconselha aqueles que desejam ser “filhos de Deus” que tenham “sempre palavras de reconciliação e de paz, para dulcificar a amargura de nossos irmãos contra nós ou contra os outros; que procurem sempre amenizar as más referências, evitar as inimizades, as friezas, as indiferenças, enfim, reconciliar os que estão em desacordo. Isso é fazer a obra de Deus e mostrar-se filhos seus, imitando sua bondade”.1

Assim, podemos afirmar que a filial submissão aos desígnios de Deus torna o homem de tal modo equilibrado e fortalecido na virtude, que pacifica tudo a seu redor. Onde está um santo, ali há grande paz, porque ele ordena todas as coisas de acordo com o estado de seu interior. E os justos desejam ser pacíficos para serem chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 9).

1 BOSSUET. Meditations sur l’Évangile. Versailles: Lebel, 1821, p.18-19.