Fonte de riqueza para a Igreja

Ir. Michelle Sangy,EP

Conta-se um fato curioso da vida de São Francisco Xavier que, encontrando-se nas longínquas terras das Índias, recém-chegado de Portugal, iniciou sua missão apostólica entre este povo completamente desconhecido para ele. À medida que o tempo passava, São Francisco descobria a mentalidade e o modo de ser dos orientais, encontrando neles grandes habilidades que muito poderiam contribuir para a glorificação e expansão do Cristianismo naquelas paragens.

Em uma de suas atividades apostólicas, deparou-se pela primeira vez com um grupo de pessoas provindas do Japão, encantando-se , sobretudo, com a grande sabedoria desta gente. Nesta ocasião, São Francisco, como um bom filho de Santo Inácio, não tardou a usar sua esperteza para tentar, através destes japoneses, expandir, de alguma forma, o seu apostolado. Suplicou então a eles que fizessem chegar ao Rei um pedido de sua parte: uma autorização para evangelizar o Japão.

Ora, a realização de sua ideia não foi tão fácil quanto pensara. Após várias tentativas de um encontro com o monarca, que resultaram frustradas, cogitou o seguinte: conhecendo a apetência dos japoneses por tudo o que há de beleza, tentaria, de alguma maneira, apresentar-se diante do Rei, vestindo as suntuosas vestes daquela nação. Desta forma, poderia conseguir mais facilmente a estima do monarca, reluzindo aos seus olhos como alguém de valor.

De fato, assim foi feito! Em uma das cerimônias realizadas no palácio real, São Francisco conseguiu se apresentar diante do monarca, levando consigo mais vinte e nove portugueses, todos vestidos com trajes de gala.

Chegando ao palácio, São Francisco organizou uma entrada em cortejo com um quadro de Nossa Senhora, desejando que a Virgem Santíssima, com suas graças, começasse naquele instante a tocar as almas. Em poucos minutos, São Francisco estava diante do monarca pagão. Ele e seus companheiros o saudaram com grandes vênias e,em seguida, o apóstolo pronunciou um discurso, espargindo o bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo perante todos. Diante de tanta beleza, pompa e, sobretudo, vendo de perto a magnificência do espírito católico naqueles trinta ocidentais, o monarca comoveu-se e tornou realidade o sonho de São Francisco de evangelizar e converter o Japão.

Este fato, acontecido no Japão do séc. XVI, bem pode representar a atuação do cerimonial na História. Deus criou os homens com uma natureza que constantemente O busca na Criação. Tal como os japoneses conhecidos por São Francisco, frequentemente, o ser humano cria símbolos, ritos e cerimônias para transpor, de forma material, aquela sede do Divino posta em sua alma.

Assim, por disposição divina, a humanidade foi chamada a refletir o próprio Deus na esfera temporal, seja nos seus atos, seja em suas obras, em qualquer época da História, procurando sobretudo em Deus o seu modelo perfeito. De fato, a glória de Deus é o fim último de todas as coisas, e, compete sobretudo aos seres inteligentes, mediante o reto uso de seu livre-arbítrio, oferecer um louvor voluntário ao seu Criador.

Entretanto, ao longo dos séculos os homens voltaram-se para si, esqueceram-se de seu Criador e decaíram tanto a ponto de se tornarem os neopagãos do século XXI.

Mas Deus não abandona os seus filhos e, para trazê-los novamente a Si, suscita, na Igreja, instituições que, através da beleza, sobretudo presente nas cerimônias, despertam neles ― como já havia feito com os de outrora ― o senso do maravilhoso adormecido em suas almas, inclusive convidando muitos deles a servirem de forma especial como instrumentos para a implantação do Reino do Imaculado Coração de Maria, que não é senão o próprio Reino de Cristo, na Terra.

Deixa-te banhar por esta luz!

Ir. Letícia Gonçalves de Souza, EP

Muitas vezes, quando os Anjos querem ensinar algo aos homens, delineiam no céu um sublime pôr do sol, graduando cores, matizando a luz do Astro-rei, excedendo em pulcritude a imaginação humana a fim de que, ao apreciá-lo, os homens se elevem a Deus, que é a Beleza infinita.

Ora, algo análogo ocorre quando os homens, querendo assemelhar-se aos Anjos, ensinam, através de suas obras, a “linguagem” muda que proclama a grandeza do Verbo Divino.

Isto se passa ao entramos em uma catedral, idealizada e construída por mãos humanas, na qual a penumbra, a solidão e o silêncio convidam a esquecer a agitação e o desejo pelas coisas terrenas.

Em determinado momento, vemos que um raio de luz quebra essa penumbra, chamando a atenção a algo superior ao isolamento: a presença de Deus. Quão mais bela é a catedral matizada pela luz que penetra no vitral! Dir-se-ia que emana dessa claridade algo não visível aos olhos carnais. Luz que se intensifica de forma suave até tonificar o ambiente com sua presença.

As graças concedidas por Deus transcendem enormemente qualquer categoria de exemplos. Como, porém, a figura de um vitral nos recorda aquela “voz de Cristo, voz misteriosa da graça” que ressoa no silêncio dos corações e murmura “no fundo de nossas consciências palavras de doçura e de paz”! 1. Entretanto, o que é o vitral sem os raios de luz e o que somos nós sem a graça?

Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente o Sol de Justiça que penetra suavemente nos corações. Os que se deixam banhar por esta luz tornam-se um templo vivo no qual habita o Rei do Universo.

1 SAINT LAURENT, Thomas de. O Livro da Confiança. São Paulo: Artpress.

Pulchrum, o que é?

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Muitas vezes se relaciona beleza com imagem. Mas estas são distinguíveis, apesar de não separáveis totalmente: há conceitos belos e imagens feias. Pode-se dizer belamente a verdade, mas esta só termina de convencer quando é mostrada e não apenas dita. Também se pode fazer belamente o bem e dizê-lo, mas no fazer já o está mostrado iconicamente. Porque é consistente e real o ser no qual o homem crê e seu princípio também é pessoal. 1

E apesar da filosofia moderna kantiana haver reduzido a beleza a um elemento puramente subjetivo, enquanto propriedade do ser, o pulchrum está intimamente ligado aos atributos transcendentais: ao verdadeiro, porque agrada aquilo que é conhecido pelo intelecto, e ao bem porque o objeto do belo satisfaz o apetite sensível. Porém, hoje em dia nota-se que, infelizmente, tornou-se natural ao homem não mais degustar o pulchrum do verum como, por exemplo, um pensamento lógico de um São Tomás, que emite uma beleza que não é literária, senão que é a beleza inerente à ideia ou à verdade que ele põe em evidência, é a beleza do pensamento puro, do conteúdo relacionado à ideia. A beleza da ideia verdadeira é um esplendor que reflete o lado espiritual do homem, como um cristal que, absorvendo a luz, cria a ilusão de que a luz que mora nele o faz um foco de luz. Portanto, o ponto terminal do verum em plenitude, nessa consideração, é o pulchrum. Mas o belo é, também, um tipo de amor que não pode ser destacado do bonum como elemento deste amor. E é por isso que o pulchrum não é senão o splendor veritatis e o splendor bonitatis. 2

Este seria um título autônomo do amor que faz ver a bondade e a verdade das coisas, ou seja, o pulchrum dá uma facilidade especial para amar. Quando se diz que Deus repousou contemplando as suas obras, eram estas mesmas voltando-se para Ele, num ato de religião, cuja beleza é a do efeito que se volta à sua causa. Esse modo de ver o pulchrum é algo que penetra no homem ― libertando-o de seu egoísmo ―, ao qual ele se rende amorosamente, deliciosamente, como num êxtase. Sai de si mesmo, de sua pequenez e se entrega à grandeza e plenitude, como um filho que readquire seu pai, encontrando-o no Absoluto. É uma contemplação estética das mais altas, pois depois de fazer toda espécie de analogias da coisa e chegar à sua beleza, a contempla em Deus, como a Beleza em si. É uma emoção estética que termina substancialmente num ato de caráter religioso e metafísico, ainda que inconsciente. É um profundo pensamento, que através dos esplendores naturais ali contemplados, se chega ao conhecimento do amor de Deus, a uma experiência transcendental do Absoluto. 3

Deus, portanto, se manifesta como uma “fornalha”, luminosa e incandescente, como luz iluminadora, que é o Belo, e como calor vivificante, que é o Bem. Ele é simples e sua luminosidade e incandescência se identificam. “O Bem e o Belo se fundem na indivisibilidade. Então, o prazer de ver a Beleza e as alegrias que saciam de possuir o Bem se compenetram; a inteligência e o amor se liquefazem na unidade do êxtase”.4 Contemplando o Belo, o homem torna-se bom, assim como se torna belo amando o Bem.

1) LLACH ACI, María Josefina. Otra mediación: la belleza, otro lenguaje: la imagen. Em: Revista Teología. Buenos Aires. No. 92 (Abr., 2007); p. 66.
2) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Coletânea de conferências sobre o Pulchrum. São Paulo: s.n., 1966-1984. s.p.
3) Ibid., s.p.
4) DE BRUYNE, Edgar. L’Esthétique du Moyen Âge. Louvain: L’Institute Supérieur de Philosophie, 1947. p. 123.

“Pulchrum”: o encontro com a transcendência absoluta em nossos dias. Revista Lumen Veritatis. n. 14. Jan-Mar 2011

Amor: Fruto da Caridade

Mariana Iecker Xavier Quimas de Oliveira

Todo ser busca, com afinco, o bem e deste encontro decorre a alegria. Mas, qual bem pode nos trazer alegria a ponto de saciar todo desejo e não dar margem a nenhum tipo de decepção? São Tomás esclarece que, muito além de ser uma simples paixão, a alegria é o fruto mais arrebatador do amor a Deus, pois “o amor é o primeiro movimento da potência apetitiva do qual resulta o desejo e a alegria.1

Segundo Pe. Royo Marín, O.P.2, para que um objeto seja a causa de alegria e felicidade perfeita para o homem, ele deve resumir em si quatro condições essenciais: ser o bem supremo que não compita com outro maior; excluir toda e qualquer mescla de mal; saciar por completo todas as aspirações do coração humano; e, por último, ser estável, ou seja, que uma vez obtido não possa ser perdido. Segundo este moralista, tais requisitos não são cumpridos por nenhum dos seres criados, sejam eles dinheiro, fama, glória, beleza, etc.; essa tese é confirmada taxativamente pela Santa Mãe Igreja (CCE 1723): “a verdadeira alegria não está nas riquezas ou no bem-estar, nem na glória humana ou no poder, nem em qualquer obra humana por mais útil que seja, como as ciências, a técnica e as artes, nem em outra criatura qualquer, mas apenas em Deus, fonte de todo o bem e de todo amor“.

O Pe. Royo Marín dá as razões: as riquezas, por exemplo, além de fomentarem progressivamente o desejo de mais fortunas, não excluem certos infortúnios como enfermidades e mortes, e podem ser perdidas por qualquer eventualidade. Similarmente, as honras, a fama e o poder são instáveis, pois cessam após a morte. Quem, por exemplo, se lembra hoje das personalidades que encheram os jornais de há um século? Ademais, saúde, beleza, força, enfim, dentre todos os bens corpóreos, nenhum deles são bens supremos, pois o corpo é a parte inferior do homem, além do que também findam com a morte. Neste sentido, Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias dá um interessante depoimento:

Eu conheci pessoas riquíssimas em minha vida. Viajando de lá para acolá, conheci reis de petróleo, conheci magnatas de grandes fortunas: deprimidos, cheios de tiques nervosos, […] porque a qualquer momento podia ser que acontecesse isto, acontecesse aquilo, que perdesse isso, perdesse aquilo. Eles não se davam conta que iriam perder tudo na hora da morte, porque […] passariam para a eternidade sem levar nada.3

Tampouco a ciência preenche as condições necessárias para ser a razão da alegria humana, pois esta pode ser perdida pelas doenças mentais, além de não saciar o homem, a ponto de o próprio Sócrates afirmar: “Só sei que nada sei”.

Por fim, o Pe. Royo Marín ousa dizer que nem sequer na virtude – no sentido estrito da palavra – pode consistir o gozo perfeito, posto que não pode ser completa nesta Terra, nem é estável já que pode-se perdê-la pelo ímpeto das paixões.

Definitivamente: o único que pode nos fazer felizes é Deus. É como aconselha Tomás Kempis em sua obra “Imitação de Cristo”: “Tende por vã toda consolação que venha da criatura. A alma que ama a Deus despreza tudo abaixo de Deus. Só Deus, eterno e imenso, preenche tudo, Consolação da alma e verdadeira Alegria do coração4”.

E realça L. Desiato que “não adianta procurá-la [a felicidade] dando uma volta pelo mundo, ela está dentro de nós, no sorriso de uma Presença”5 ; e é, também, o que reconhece o Bispo de Hipona: “quando busco a Vós, Deus, busco a vida bem-aventurada6” .

Quando nós colocamos um amor meramente humano, quando nós colocamos a esperança meramente humana, quando nos aferramos a qualquer coisa puramente natural, aí vem a decepção. Por quê? Porque quando nós entregamos o nosso coração, nós estamos à procura de um infinito, de um Ser absoluto, de Deus. E muitas vezes nós, por equívoco, acabamos colocando nossa esperança em algo que não é Deus, e isso não nos traz o saciar deste anseio que eu levo dentro da minha alma, que é o anseio de Deus. O único ser que apaga este fogo, este anseio de felicidade que é de felicidade infinita – eu quero esta felicidade infinita porque eu fui criado para ela –, o único ser [que a sacia] é Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo, é a Religião, é ter a graça de Deus.7

Para vermos como a alegria verdadeira só se encontra no âmbito sobrenatural, tomemos a figura de Napoleão Bonaparte.

[Ele foi] um homem que fez uma carreira brilhante, galgou imediatamente, em pouco tempo, o posto de imperador da Europa. Era cultuado por todos, aplaudido por todos… […] ele teve uma vida de triunfos magníficos. Pois bem, Napoleão Bonaparte quando perguntaram a ele qual foi o dia mais alegre, mais feliz da vida dele, ele disse que foi o dia da Primeira Comunhão.8

O que permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele(I Jo 4, 16)

Contudo, a alegria é produzida pela obtenção de um bem presente, pois, de outro modo, seria apenas um desejo; e o Catecismo da Igreja Católica (CCE1718) afirma que este, por assim dizer “instinto natural”, Deus o pôs na alma humana a fim de atrair-nos a Ele. Mas, sendo Deus infinito, como poderia o homem obter a Deus? Esta resposta, a dá, de forma magistral, o Doutor Angélico:

[A caridade] produz no homem a perfeita alegria. Com efeito, ninguém tem verdadeiro gáudio se não vive na caridade. Porque qualquer um que deseje algo, não goza nem se alegra nem descansa enquanto não o obtém. E nas coisas temporais ocorre que se apetece o que não se tem, e o que se possui se despreza e produz tédio; mas não é assim nas coisas espirituais. Pelo contrário, quem ama a Deus o possui, e por isso o ânimo de quem O ama e O deseja n’Ele descansa.9

Portanto, só a caridade nos dá a possibilidade de possuir a Deus, pois como afirma São João: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (I Jo 4, 16). A caridade dilata o nosso coração para que, já nesta Terra, possamos abarcar um pouco mais do que nossa capacidade humana conseguiria, a infinitude do Criador.

Acrescenta ainda Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias:

O modo de participarmos de Nosso Senhor Jesus Cristo e permanecermos n’Ele e na alegria d’Ele, é […] estar participando daquilo que Ele é. O que Ele é? Ele é a Alegria. Ouçam como soa mal: “Deus é a depressão. Deus é o desânimo. Deus é a tristeza”. Alguém dirá: “Você é um louco. Fora daí!” Porque se há algo que eu não posso dizer é isso. Mas eu posso dizer: “Deus é a Alegria!” E Ele, portanto, quer transferir a nós essa alegria. Como recebemos essa alegria? É permanecendo no amor d’Ele, é permanecendo n’Ele, é obedecendo as leis morais que Ele pôs.10

Ora, Deus é amor e é alegria; logo, para se ter alegria é preciso ter amor a Ele.

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. S. Th. II-II, q. 28, a. 4.
2 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para seglares. Madrid: BAC, 1961, v. I, p. 26.
3 CLÁ DIAS, Joã o Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
4 KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. L. II, c. 5: “Totum vanum existima, quidquid consolationis occurrit de aliqua creatura. Amans Deum anima, sub Deo despicit universa. Solus Deus æternus et immensus, implens omnia, solatium animæ et vera cordis lætitia” (Tradução da autora).
5 DESIATO, L. Storia dell’eremo. Turim: [s. n.], 1990, p. 72: “Non serve cercala in giro per il mondo, essa è dentro di noi, nel sorriso di una Presenza” (Tradução da autora). Esta afirmação é fundamentada por Leão XIII: Deus se encontra presente em todas as coisas e está nelas: por potência, enquanto estão sujeitas ao seu poder; por presença, enquanto todas estão descobertas e patentes aos seus olhos; por essência, porque se encontra em todas como causa de seu ser (S. Th. I, q. 8, a. 3). Mas na criatura racional, Deus se encontra de outra maneira; ou seja, enquanto é conhecido e amado, uma vez que é próprio da natureza amar o bem, desejá-lo e buscá-lo. Finalmente, Deus, por meio da sua graça, está na alma do justo de uma forma mais íntima e inefável, como em seu templo; e disso se segue aquele amor mútuo pelo qual a alma está intimamente presente em Deus, e está nele mais do que pode suceder entre os amigos mais queridos, goza dele com a mais regalada doçura. LEÃO XIII, Encícica Divinum illud manus, n. 10: “Dios se halla presente a todas las cosas y que está en ellas: por potencia, en cuanto se hallan sujetas a su potestad; por presencia, en cuanto todas están abiertas y patentes a sus ojos; por esencia, porque en todas se halla como causa de su ser (S. Th. I, q.8, a.3.). Mas en la criatura racional se encuentra Dios ya de otra manera; esto es, en cuanto es conocido y amado, ya que según naturaleza es amar el bien, desearlo y buscarlo. Finalmente, Dios, por medio de su gracia, está en el alma del justo en forma más íntima e inefable, como en su templo; y de ello se sigue aquel mutuo amor por el que el alma está íntimamente presente a Dios, y está en él más de lo que pueda suceder entre los amigos más queridos, y goza de él con la más regalada dulzura” (Tradução da autora).
6 SANTO AGOSTINHO. Confessionum L.X, c. 20, n. 26: ML 32, 791: “Cum enim te Deum quæro, vitam beatam quæro” (Tradução da autora).
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 14 dez. 2008. (Arquivo IFTE).
Id. Homilia do III domingo do Advento. Caieiras, 13 dez. 2009. (Arquivo IFTE).
8 ANDRIA, Pedro de. Los mandamientos comentados por Santo Tomas de Aquino. 2. ed. Mexico: Tradición, 1981, p. 12: “[La caridad] produce en el hombre la perfecta alegría. En efecto, nadie posee en verdad el gozo si no vive en la caridad. Porque cualquiera que desea algo, no goza ni se alegra ni descansa mientras no lo obtenga. Y en las cosas temporales ocurre que se apetece lo que no se tiene, y lo que se posee se desprecia y produce tedio; pero no es así en las cosas espirituales. Por el contrario, quien ama a Dios lo posee, y por lo mismo el ánimo de quien lo ama y lo desea en El descansa” (Tradução da autora).
9 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia da quinta-feira da IV semana do Tempo Pascal. Caieiras, 6 maio 2010. (Arquivo IFTE).

Beleza: transcendência que leva a Deus

Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP
Catedral de Colônia

Ontologicamente, podemos afirmar com SãoTomás que o senso do ser relaciona-se sempre com os transcendentais, que estão em todos os seres, em qualquer nível que seja. Estas seriam as propriedades do ser enquanto tal: unum, bonum, verum, pulchrum ― unidade, bondade, verdade e beleza. Quando um ente é o que deve ser, ou seja, possui a verdade em sua essência, é também bom e, de acordo com a esfera a que pertence, é belo, santo, nobre ou útil. E sendo os transcendentais aspectos do ser, formam uma unidade com ele, considerados em sua realidade metafísica, inseparáveis entre si e a negligência de um deles seria uma catástrofe para os outros. A beleza é o esplendor dos transcendentais reunidos.

No entanto, o homem, enquanto ser, também tem em si os transcendentais e sua vida não é uma mera sucessão de feitos e experiências. Sendo racional, sua vida é a busca da verdade, do bem e da beleza. E para esse fim, exerce sua liberdade, pois aí se encontra sua alegria. Sendo composto de corpo e alma, matéria e espírito, inseparáveis, necessita das exterioridades para através dos sentidos conhecer o mundo não só por sua inteligência, mas também pela sua vontade e sensibilidade.

O simbolismo é, portanto, universalmente humano, comum a todas as culturas; entre os homens a linguagem figurada é o natural. Os sentidos são alcançados por essa linguagem e a audição, visão, olfato e tato, são especialmente tocados pela beleza do materializado. Inicialmente, pela beleza das coisas criadas, para depois encontrar o sentido na luz do fundamento de toda a beleza, a beleza Suprema, autora de todas as outras. Assim, do homo simbolicus,considerado pela perspectiva antropológica do Sagrado, visualiza-se o homo religiosus, porque o homem é religioso em sua natureza.

Santo Agostinho dizia que as coisas criadas de si mesmas falam de Deus. E essa foi uma das principais preocupações dos filósofos, que pela “arte” conhece-se o “Artista”. Para ele, a beleza das coisas revelam a Deus, pois “se as coisas que fez são tão belas, quanto mais belo é Aquele que as fez”. Bento XVI, na Austrália, lembrou aos jovens da Jornada Mundial da Juventude esse pensamento e comentou que vendo a diversidade da natureza, do mar Mediterrâneo, passando pelo deserto Africano e pelas florestas asiáticas, até a vastidão do Pacífico, sentiu um reverente temor, porque à frente de tal beleza só poderia repetir as palavras do salmista: “Senhor, nosso Deus, quão admirável é o teu nome em toda a terra” (Sl 8. 2).

Ao longo do tempo, o homem foi materializando e exteriorizando sua concepção artístico-religiosa através dos símbolos, da arte, arquitetura, música e ritos, construindo sua cultura. No Ocidente, a base desta foi o cristianismo. Não foi por mera casualidade que os povos cristãos têm sido, de longe, os mais inovadores e criativos em todos os campos da cultura.

Assim, a realidade construída por símbolos, mostrava a arte como uma forma de conhecimento tão séria como a ciência. Mas Kant a divorciou desta, abrindo a era do racionalismo puro; o conhecimento passou a ser empírico, ajustando-se às experiências do homem, e a beleza tornou-se subjetiva. No século XVIII, com Alexander Baumgarten, surgiu o termo estética, de origem grega, significando sensação, sentimento.

Isso gerou a estetização do mundo. No século XIX, cultura passou a significar o progresso humano contínuo e ascendente, acrescentando os conhecimentos do homem, refletidos no crescimento da filosofia, da ciência e da estética. Mas, atualmente, a cultura sofreu tantas transformações, que não se sabe bem para onde o mundo caminha, tudo depende da sensação e do mercado. A Estética separou-se completamente da cultura e da religião, perdendo a memória histórica da humanidade. Segundo Paulo VI: “o divórcio entre o evangelho e a cultura é sem dúvida o drama do nosso tempo”.

Na concepção Tomista, beleza é o que agrada a vista enquanto harmonioso e proporcional. Os sentidos se comprazem nas coisas bem proporcionadas, estando de acordo com a razão, uma vez que beleza é o amor que faz ver a verdade e o bem de todas as coisas . É belo tudo o que realiza sua natureza ideal. Já a feiúra é a ausência de beleza, o que não está de acordo com um fim.

A perspectiva contemporânea e subjetiva de estetização do mercado é : o que me apraz é belo e o que não me apraz é feio. Passa a existir um julgamento do gosto, mediante o qual adota-se uma atitude ante o objeto estético que não é o assentimento dado a uma verdade (lógica), nem a aprovação ou desaprovação que se faz de uma ação (ética). É uma espécie de agrado ou desagrado estético que se expressa em um julgamento: agrada-me, apetece-me, não me agrada, não me apetece.

O caos do mundo hodierno, provocado pela confusão nas mentes, também confundiu a beleza em si com a mera estética. A globalização é uma realidade e apresenta um mundo que não é senão a estética da saturação, do excesso, da máxima informação no mínimo de espaço e de tempo. A sociedade, assim globalizada, norteada por constantes e profundas renovações tecnológicas, perdeu a crença nos mega-relatos e na racionalidade como fundamento do conhecimento. Nela se despertam a subjetividade e a emoção, a virtualidade, as sub-culturas crescentes, favorecendo uma nova percepção cosmológica da realidade .

O homem ― crendo-se senhor de si mesmo ― se deixou enganar e passou a ser visto como mero consumidor no mercado de possibilidades indiferenciadas, onde a escolha em si mesma passou a ser o bem, a novidade aparenta ser a beleza e a experiência subjetiva suplanta a verdade.

Assim, o belo perdeu seus fundamentos e se reduziu a bem de consumo. No grande mercado da “aldeia global” atual desapareceram os signos de beleza: a máscara da propaganda parece triunfar sobre a verdade e a beleza últimas, revelando sua aparente “morte”. Em um mundo sem beleza, o bem perde sua força de atração e a verdade sua força de conclusão lógica.

É preciso reeducar as pessoas da “civilização da imagem”, ensinando por meio do belo a praticar a admiração e o elevar-se ao Criador, ao mesmo tempo metódica e degustativamente, partindo da figura e tendendo, por meio desta, a uma reflexão que nunca se distancia inteiramente da imagem, nem sequer no seu ponto terminal . A beleza tem um força pedagógica própria quando introduz eficazmente no caminho da verdade . É preciso descobrir o invisível a partir do visível. Este é o papel da beleza e da ordem, buscando as qualidades do Universo que impulsionam a olhar para o alto, onde está a beleza, libertando o homem das cadeias da massificação. Ela se manifesta nas multiformes maravilhas da natureza, mas também se traduz nas obras humanas, reflexos de seu espírito ― obras de arte, literatura, música, pintura e artes plásticas ―, bem como se faz apreciar, sobretudo, na conduta moral, nos bons sentimentos.

Hoje se necessita da beleza para não cair no desespero ― já dizia Paulo VI , no final do Concilio Vaticano II ―, e este é o caminho para encontrar a verdade e a bondade, que estão no coração do Evangelho. A beleza provoca emoções, põe em movimento um dinamismo de profunda transformação interior no homem, engendrando alegria e sentimentos de plenitude, desejo de participar livremente na mesma beleza, que passa a fazer parte de seu próprio interior, integrando-a em sua existência concreta . Só a espiritualidade da beleza pode reencontrar a Beleza Suprema.

A estética da mensagem determina a sua eficácia. “O belo que se comunica belamente chega mais rápido e mais profundamente ao receptor. A beleza comove e move o coração. A salvação para este mundo estetizado é a espiritualidade da beleza para, assim, reencontrar a beleza.

Escreve João Paulo II em sua carta aos artistas: “Ante a sacralidade da vida e do ser humano, ante as maravilhas do universo, a única atitude apropriada é o assombro, e a beleza é o que pode provocar este assombro que entusiasma. Os homens de hoje e amanhã têm necessidade deste entusiasmo para afrontar e superar os desafios cruciais que se avistam no horizonte. Precisamente neste sentido foi dito, com profunda intuição, que a ‘beleza salvará o mundo’. A beleza é o segredo do mistério e a chamada ao transcendente”.