“Espírito Vivificante”: a alma do Corpo Místico

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Ao escolher a figura do corpo humano como uma imagem para seu Divino Organismo, Cristo elegeu também uma alma, que, ao contrário de outras, possui o inteiro domínio desse Corpo, além de ser seu elemento vivificador: o Espírito Santo.

A alma humana possui como característica principal ser a forma do corpo. Entretanto, ao dizermos ser o Espírito Santo a alma do Corpo Místico, usamos por apropriação essa expressão, dado que uma Pessoa Divina não pode ser a forma de nenhuma criatura.

Apesar do termo ser usado por apropriação, é inteiramente cabível ao Espírito Santo, uma vez que Ele habita e age a partir de dentro, como a alma. Nesse sentido, contestava o Apóstolo: “não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 3,16), “porventura não sabeis que os vossos membros são templos do Espírito Santo, que habita em vós” (1 Cor 6,19).

Sendo a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade a Alma do Corpo Místico, afirma-se, sobretudo, que é Ela quem anima e vivifica, analogamente como a alma humana. Encontram-se inúmeros trechos que alimentam a devoção dos fiéis, contudo, limitamos a narrar uma passagem de Santo Agostinho:

Se quereis ter o Espírito, irmãos, escutai: o espírito pelo qual vive o homem, se chama alma; nosso espírito, pelo qual vivemos cada homem se chama alma; e vede o que faz a alma com o corpo: vivifica todos os membros: com os olhos vê, com os ouvidos ouve, com as narinas olfatea, com a língua fala, com as mãos opera, com os pés anda. Está em todos os membros para que vivam; dá a vida a todos e a cada um o seu ofício […]. Os ofícios são diversos e a vida é comum. Assim sucede na Igreja: em uns santos faz milagres, a outros ensina a verdade… Cada um faz o que lhe é próprio, mas todos vivem igualmente. O que é a alma para o corpo é o Espírito Santo para Corpo de Cristo, que é a Igreja”.1

A sensibilidade e o movimento transmitido à cabeça dimanam da alma que os distribui para o corpo de maneira desigual à semelhança do Corpo de Cristo. O Espírito Santo não opera uniformemente em todos os membros, mas com graus diferentes nos bem-aventurados, nos justos, e inclusive nos que estão em estado de pecado e os que fazem parte desse Corpo somente em potência.2 A verdade é que “o Espírito Santo está em todos os que são membros de Cristo, desde os que recebem d’Ele a bem-aventurança da glória, até os que recebem a graça mais inicial e primitiva”.3

O Espírito Santo é um princípio vivo e vivificador. Operou na vinda de Cristo sobre a Terra, fecundando ativamente Maria, e interveio no nascimento da Igreja. O dia de Pentecostes foi o dia da proclamação oficial da sociedade estabelecida por Cristo”.4

Prometido por Nosso Senhor antes de sua partida: “vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias” (At 1, 5), a Igreja teve seu nascimento no batismo de Pentecostes, e, portanto, é n’Ele que somos batizados e recebemos o princípio vital da vida divina que nos faz filhos de Deus.5

De modo que dentro da diversidade dos membros se cumpre o pedido do Salvador: “que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em nós” (Jo 17, 22).

Sabemos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo comparados entre si, são distintos embora idênticos, sendo a ação que procede o Espírito Santo, a via de amor.

E elegendo o Espírito Santo para ser a alma da Igreja, o qual é denominado de “Amor”, podemos dizer que “Cristo deseja que a união que deve haver naqueles que formam o seu Corpo Místico seja o amor”.6 Assim a Igreja se unifica onde se unificam o Pai e o Filho, ou seja, no amor, na Terceira Pessoa.

Se é Ele quem governa e move aos membros do Corpo Místico de Cristo, quem os unifica, quem os vivifica; e se faz tudo isso a partir de dentro, inabitando em cada membro e em todo corpo, temos que terminar dizendo que desempenha autênticas funções de alma”.7

1“Si queréis tener el Espíritu, hermanos, escuchad: el espíritu por el que vive el hombre se llama alma; nuestro espíritu, por el que vivamos cada hombre, se llama alma; y vede qué hace el alma en el cuerpo: vivifica todos los miembros: con los ojos ve, con los oídos oye, con las narinas olfatea, con la lengua habla, con las manos opera, con los pies anda. Está en todos los miembros para que viva; da la vida a todos, y a cada uno su oficio. […] Los oficios son diversos y la vida es común. Así sucede en la Iglesia: en unos santo hace milagros, en otros enseña la verdad… Cada uno hace lo suyo propio, pero todos viven igualmente. Lo que es el alma al cuerpo del hombre es el Espíritu Santo al cuerpo de Cristo, que es la Iglesia” (SANTO AGOSTINHO, apud SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 760. Tradução da autora).
2Convém esclarecer que a estes o Espírito Santo será a alma enquanto preparação para receber os princípios que dispõem ao sujeito para a perfeição dessa vivificação.
3“El Espírito Santo está en todos cuantos son miembros de Cristo, desde que reciben de El la bienaventuranza de la gloria, hasta los que reciben la gracia más inicial y primitiva” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 739. Tradução da autora).
4“El Espírito es un principio vivo y vivificador. Intervino en la aparición de Cristo sobre la tierra, fecundando activamente a María, e interviene en el nacimiento da la Iglesia. El día de Pentecostés fue el de la proclamación oficial de la sociedad establecida por Cristo, y ese día aparecen en el nacimiento oficial de esta sociedad María y el Espírito Santo, como en el nacimiento de Cristo” (Ibid. p.766. Tradução da autora).
5Cf. Cabe relembrar o que diz São Paulo aos Romanos: “Ora, se Cristo está em vós, o corpo, em verdade, está morto pelo pecado, mas o Espírito vive pela justificação. Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós. Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Abbá! Oh Pai! O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rm 8, 10-16).
6“Cristo desea que la unión que debe haber en quienes forman su Cuerpo Místico sea unión de amor” (SAURAS, Emilio. Op. cit. p. 767. Tradução da autora.).
7“Si Él es quien gobierna y mueve a los miembros del cuerpo místico de Cristo, quien los unifica, quien los vivifica; my se hace todo eso desde dentro, inhabitando en cada miembro y en todo cuerpo, hemos que terminar diciendo que desempeña autenticas funciones de alma” (Ibid. p.768. Tradução da autora).

Deus habita na alma que está em graça

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Há um efeito da graça santificante que excede infinitamente a própria graça: a inabitação da Santíssima Trindade na alma do justo.

É uma das verdades mais claramente manifestas no Novo Testamento:

“ Se alguém me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e nele faremos nossa morada”(Jo 14,23).

“Deus é caridade, e o que vive em caridade permanece em Deus, e Deus nele” (1 Jo,4,16).

“Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado – e isto sois vós”(1 Cor3,16-17).

Como se vê, a Sagrada Escritura emprega várias fórmulas para exprimir a mesma verdade: Deus habita na alma que está em graça. Essa inabitação é atribuída ao Espírito Santo que é o Amor essencial no seio da Santíssima Trindade.

Com muita clareza o grande teólogo Pe. Antonio Royo Marín, OP, resume a essência dessa inabitação da Santíssima Trindade na alma do justo: “No cristão, a inabitação equivale à união hipostática na pessoa de Cristo, se bem que não seja ela, mas sim a graça santificante, a que nos constitui formalmente filhos adotivos de Deus. A graça santificante penetra e embebe formalmente nossa alma, divinizando-a. Mas a divina inabitação é como a encarnação em nossas almas do absolutamente divino: do próprio ser de Deus tal como é em si mesmo, uno em essência e trino em pessoas”(Fr. Antônio Royo Marín OP, Somos hijos de Dios, BAC, Madrid, 1977, p. 48).

Para compreender a divina inabitação na alma, assinalaremos as diversas formas de presenças de Deus:

1. Presença pessoal ou Hipostática
É própria e exclusiva de Jesus Cristo enquanto homem. N’Ele a pessoa divina do Verbo não reside como em um templo, mas constitui sua própria personalidade. Apesar de existir n’Ele duas naturezas, a divina e a humana, Nosso Senhor Jesus Cristo possui uma só personalidade: a divina.

2. Presença Eucarística
“No augusto Sacramento da Santa Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, está presente verdadeira, real e substancialmente, sob a aparência destas realidades sensíveis” (DS 1651).

O ubi eucarístico afetando de modo direto e imediato o corpo de Cristo, afeta também as três Pessoas da Santíssima Trindade: o Verbo, por sua união pessoal com a humanidade de Cristo, e o Pai e o Espírito Santo, em virtude da divina circunsessão ou presença mútua das três divinas Pessoas entre Si, que as faz absolutamente inseparáveis.

3. Presença da visão
Deus está presente em todas as partes por essência, presença e potência, mas não Se deixa ver. No Céu, com a visão beatífica pode considerar-se como presença especial de Deus, distinta das demais, porque Deus deixa-Se ver.

4. Presença de imensidade
Deus está realmente presente em todas as partes e em todas as coisas. Não existe um lugar ou criatura onde Deus não Se encontra, mesmo tratando-se de uma pedra ou até um demônio. Ele poderá estar presente por essência (dando o ser), por presença (permanecendo sempre ante seu divino olhar) e por potência (submetendo inteiramente a seu divino poder).

5. Presença de inabitação
É a presença íntima de Deus, uno e trino, como Pai e Amigo, na alma justificada pela graça.

Qual a diferença entre a presença de inabitação e a presença de imensidade?

Antes de tudo, a presença especial de inabitação pressupõe a presença geral de imensidade, sem a qual aquela não seria possível. Entretanto, é acrescentado a esta presença de imensidade duas coisas fundamentais: a paternidade e a amizade divinas. A primeira decorrente da graça santificante; a segunda, da caridade sobrenatural.

a) A Paternidade
Não se pode dizer que Deus seja Pai das criaturas na ordem puramente natural. Embora todas tenham saído de suas mãos criadoras – se bem que para a criação dos seres vivos, Deus tenha se servido de outras criaturas, como instrumento – Deus torna-Se Autor ou Criador mas não Pai. O artista que esculpir uma estátua em um tronco de madeira será o autor da estátua, mas de modo nenhum será o pai da estátua. Para ser pai é preciso transmitir a própria vida, isto é, a própria natureza específica a outro ser vivente da mesma espécie.

Para Deus ser nosso Pai, além de Criador, era preciso que nos transmitisse sua própria natureza divina em toda a sua plenitude (como em Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus por natureza) ou, ao menos, uma participação real ou verdadeira da mesma (é o caso da alma justificada).

Em virtude da graça santificante, que nos dá uma participação misteriosa, mas muito real e verdadeira, da natureza divina (cfr. 2 Pe1,4), a alma justificada se faz verdadeiramente filha de Deus por uma adoção intrínseca muito superior às adoções humanas, puramente jurídicas e extrínsecas. E a partir deste momento, Deus, que já residia na alma por presença geral de imensidade, começa a estar nela como Pai e a olhá-la como sua verdadeira filha.

A presença de imensidade é comum a tudo quanto existe; a de inabitação, porém, é própria e exclusiva dos filhos de Deus. Supõe sempre a graça santificante, não podendo dar-se sem ela .

b) A amizade
Juntamente com a graça santificante é infundida na alma a caridade sobrenatural. Esta estabelece uma verdadeira e mútua amizade entre Deus e os homens: é sua própria essência. Deus começa a estar nela não só como Autor, mas também como verdadeiro Amigo.

Portanto, a presença íntima de Deus, uno e trino, como Pai e Amigo, constitui a própria essência da inabitação da Santíssima Trindade na alma justificada pela graça santificante e pela caridade sobrenatural.