A pátria da dor e da misericórdia

  Ana Laura de Oliveira Bueno – 1° ano de Ciências Religiosas

Eis o lugar onde os minutos são séculos intermináveis, onde a dor e a expiação se misturam à alegria e à consolação da esperança de poder ver a Deus num face a face eterno: o caro leitor certamente já concluiu que se trata da Igreja padecente.

De fato, ninguém merece o Céu facilmente. O purgatório é a pátria da justiça rigorosa e, ao mesmo tempo, é a pátria da infinita misericórdia de Deus: pois, para nós é uma grandíssima misericórdia encontrar, após a morte, um lugar de expiação e apesar do grande rigor da justiça divina, consola-nos a ideia de que no purgatório deve haver consolações e alegrias.

Alegrias? Pode haver neste estado onde almas, inclusive santas, passam anos num fogo expiatório – semelhante ao da negra prisão do inferno – por pecados veniais alguma alegria autêntica?

São Francisco de Sales é quem nos vai dizer que as alegrias e as consolações que de fato existem no purgatório são um bálsamo suavizante para as almas. No tocante a este assunto, o Bispo e Doutor da Igreja sintetizou alguns pontos a respeito das almas padecentes:

  1. As almas do purgatório estão numa contínua união com Deus e perfeitamente submissas à vontade d’Ele. Não podem deixar esta união divina e nunca podem contradizer a divina vontade, como infelizmente acontece conosco, neste mundo;
  2. Elas se purificam com muito amor e com muito boa vontade, porque sabem que é esta a vontade de Deus. Sofrer para fazer a vontade de Deus é uma alegria para elas.
  3. Elas querem ficar à maneira que Deus quer e quanto tempo Ele quiser.
  4. Elas são impecáveis e não podem experimentar nem o mais leve movimento de impaciência, nem cometer uma imperfeição sequer.
  5. Amam a Deus mais do que a si próprias e mais que todas as coisas e com amor muito puro e desinteressado.
  6. As almas são consoladas pelos Anjos.
  7. Elas estão seguras da sua salvação e com uma segurança que não pode ser confundida.
  8. As amarguras que experimentam são muito grandes, mas numa paz profunda e perfeita.
  9. Se, pelo que padecem, estão como numa espécie de inferno, quanto à dor, é um paraíso de doçura, quanto à caridade, mais forte do que a morte.

Com efeito, há uma esperança da salvação certa, não obstante o grande sofrimento, mormente no escuro e fundo purgatório. E a nós, filhos e filhas daquele que não admite pequenas concessões e é absolutamente intransigente em relação aos pecados veniais, vale sempre a máxima: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ou seja: nossa santidade deve ser tal, que não se concebe sequer que esperemos passar por um longo purgatório! Em nossas almas não deve haver espaço para semi-fidelidades, semi-virtudes e pequenas concessões, mas antes devem ser receptáculos de um desejo radical de entrega completa ao sofrimento nesta terra de exílio e de uma cega confiança em Nossa Senhora, que abaterá todas as nossas misérias se estivermos em consonância com Ela, levando-nos ao convívio completo e eterno pelo qual tanto e tanto almejamos.

Peçamos, pois, esta graça, pela intercessão de nossos santos padroeiros e das santas almas do purgatório: retidão absoluta e santidade levada até as últimas consequências!

                            

 

O verdadeiro amor

Ir. Rita de Kássia Carvalho Defanti da Silva, EP

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Sabe-se que todas as coisas tendem a um lugar, tanto pela lei da gravidade quanto pelo que é próprio a cada coisa. Ora, a palavra gravidade deriva de gravis que, em latim, significa pesado. Assim, o corpo tem seu peso e este não só retém como também dá o lugar de cada coisa. O fogo, por exemplo, ao ser ateado sobe, enquanto que uma pedra, ainda que atirada para o alto, cai. E a alma? Segundo Santo Agostinho, também ela tem um peso que a move e a impulsiona: o amor. “Pondus meum, amor meus — meu peso é meu amor; o que amo é o peso que inclina meu coração”.[1]

O que é o amor? São Tomás de Aquino define o amor como “o princípio do movimento do apetite racional, do querer livremente o fim amado, que é o bem.”[2] Ele é ativo e, de certa forma, impelido pela vontade, ou seja, uma reta vontade gera um bom amor; uma vontade degenerada, um mau amor. Santo Agostinho diferencia o amor de duas formas: quando se ama os homens e as coisas criadas em função de Deus, é caridade; voltar-se para si, amar o mundo e o que é do mundo, é concupiscência.[3] O amor é verdadeiro quando é fundamentado em Deus e deve ser direcionado e ordenado a Deus. Em função d’Ele, deve-se amar os homens e as coisas criadas por Ele, A esse respeito, comenta Monsenhor João: “existem dois amores: um é o amor verdadeiro; é o amor de Deus. Outro é o amor egoísta, romântico, sentimental; é o amor por interesse”.[4] O primeiro traz satisfação, gozo, alegria e paz. O outro proporciona angústia, frustração e lágrimas. Não existe um amor intermediário.

Santo Agostinho é categórico em afirmar: “Que se diz de vós? Para nada amar? Nunca! Imóveis, mortos, abomináveis, miseráveis, eis o que seríeis se não amásseis nada. Amai, mas prestai atenção ao que deve ser amado”.[5]

As ações do amor, em nós, podem ser classificadas em espirituais, racionais e sensuais. Entretanto, ao espargir sua força nestas três operações, torna-se mais extenso, porém, menos intenso, pois assemelha-se ao fogo. Imaginemos um canhão. Não é verdade que a chama, forçada a sair por uma única abertura, sai com um ímpeto muito maior do que se nele houvesse duas ou três brechas? Assim é o amor. A sua força encontra-se nas operações intelectuais, por ser a parte mais elevada da alma e na qual se constitui a essência do amor.[7]Quem deseja ter um amor não só nobre e generoso, mas também forte, vigoroso e ativo, deve procurar direcioná-lo e retê-lo às ações espirituais, para que não aconteça que, dispersando-se, enfraqueça.

O amor intelectual e cordial — diz São Francisco de Sales — que “deve dominar em nossa alma, recusa toda sorte de uniões sensuais e contenta-se com a simples benevolência”.[8] E continua: “quanto mais a causa do amor é elevada e espiritual, tanto mais as suas ações são vivas, subsistentes e permanentes, e não se poderia melhor aniquilar o amor, do que rebaixando-o às uniões vis e terrestres”.[9]

A causa de nossa união afetiva com Deus

“Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5). À primeira vista, este preceito pareceria uma exigência do Criador para que as criaturas O amassem. Entretanto, se na vida comum somos inclinados a querer aqueles que de alguma maneira nos fazem um bem, qual não deveria ser nosso sentimento em relação Àquele que nos tirou do nada, deu-nos a vida e nos mantém no ser? E mais, vela por cada um, seja um insignificante inseto, sejam gigantescos animais ou monstros marinhos, “nem um só deles passa despercebido diante de Deus” (Lc 12, 6). Se tal é o cuidado de Deus pelos animais, qual não será o desvelo pela criatura que Ele designou para ser rei do universo, fazendo-a “à sua imagem e semelhança?” (Gn 1, 26). “Até os cabelos de vossa cabeça estão contados. Não temais” (Mt 10, 31). Como pode o homem responder a esse amor de predileção?

Assegura São Bernardo: “De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e por sua vez, dar-lhe outro tanto”.[10] Deus nos escolheu entre infinitas criaturas, “pois ama tudo que existe e não odiou nada do que fez, porquanto, se houvesse odiado, não o teria criado” (Sb 11, 24). Deus não ama as coisas por serem boas; antes, ao amá-las, infunde-lhes o bem. Das criaturas racionais — Anjos e homens — espera receber o amor e para isso foram criadas: para amar e servir a Deus neste mundo e depois gozar de sua presença na eternidade. Diz o Eclesiastes: “Ama com todas as tuas forças aquele que te criou” (Eclo 7, 32). E o Apóstolo amado: “Amamos, porque Deus nos amou primeiro” (I Jo 4,19). Acrescenta ainda Monsenhor João:

Sim, nossa caridade não é mais do que uma restituição pelos favores sem conta que, de sua bondade, recebemos. Como Criador Ele nos deu o ser, nos mantém e nos manterá para sempre; como Redentor, nos salvou, encarnando-Se e sofrendo os tormentos da Paixão; como Pai, quis introduzir em nós a vida divina, “para que sejamos chamados filhos de Deus (I Jo 3,1)”. Ele é nossa bem-aventurança! É, portanto, na adesão total a Ele, pela prática deste mandamento — e não nos gostos terrenos e fragmentários — que encontraremos a plena felicidade.[11]

[1] AGOSTINHO. Santo. Confissões. Livro XIII, 9, 10
[2] OMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. I-II. q. 26. a. 1.
[3] AGOSTINHO. Santo. Comentários aos Salmos. 2ª ed. Trad. Monjas Beneditinas. São Paulo: Paulus, 2005. v. I. 31 II, 5. p. 354.
[4] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia. Mairiporã, 2006. (Arquivo IFTE).
[5] AGOSTINHO. Loc. Cit
[7] SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. 2ª ed. Trad. Pe Augusto Durão Alves. Porto: Apostolado da imprensa, 1950, p. 48.
[8] SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 50.
[9] SÃO FRANCISCO DE SALES. Op. cit. p. 51.
[10] SÃO BERNARDO. Dos sermões sobre o Cântico dos Cânticos. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das horas. Petrópolis: Vozes, Paulinas, Paulus, Ave-Maria. Vol. II, p, 1210.
[11] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. As duas asas da santidade. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais do Tempo Comum. Ano B. Città del Vaticano – São Paulo: LEV, Lumen Sapientiae, 2014, v. IV, p. 471.

Bondade Infinita

Ir Isabel Sousa, EP
3º Ano Ciências Religiosas

Deus contemplou toda sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Poderíamos imaginar o júbilo de Deus ao contemplar as maravilhas por Ele criadas: o fulgurante céu estrelado, a elegante movimentação das ondas do mar, o colorido das aves e das flores, a força decidida das feras… “tudo era muito bom”. De fato, toda a obra da criação é boa justamente por ser um reflexo do Altíssimo e pela qual mais facilmente o homem pode transcender ao Criador.

Ensina-nos a Teologia, que Deus ao amar algo, infunde neste a bondade. Não é sem razão que um dos atributos de Deus é a Bondade Infinita que “compreende todas as bondades, sendo o bem de todos os bens”.1Inúmeras são as páginas das Sagradas Escrituras nas quais se revelam tão profundamente a Bondade de Deus,’ “O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo” (Sl 102, 8). Mesmo no Antigo Testamento, onde o Senhor todo-poderoso se revestia da armadura das vinganças e era temido como o Deus dos exércitos, a manifestação de Sua bondade estava presente: “Com quem é bondoso vos mostrais bondoso, com homem íntegro vos mostrais íntegro” (II Sm 22, 26).

Entretanto, foi no Novo Testamento que a Bondade se manifestou prodigiosamente aos homens com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo à terra. Qual coração, podendo escutar e presenciar as divinas palavras emanadas dos lábios divinos do Redentor não se comoveria com o apelo do Redentor: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado”? (Jo 13, 34). Somente uma Bondade infinita amaria os homens, tanto os santos como os pecadores, a ponto de verter todo o sangue no madeiro da Cruz. “Que glória, que triunfo, que fastígio atingira Nosso Senhor Jesus Cristo com sua Paixão! Que humilhação nos infernos, esmagados pelo erro de ignorar a força invencível do Bem!”.2 Nosso Senhor Jesus Cristo venceu o império de satanás pela Bondade suprema! Bondade esta tão vergonhosamente rejeitada pelos Anjos decaídos.

Se pensássemos que a Bondade de Deus foi manifestada somente no Sacrifício do Calvário, enganamo-nos a nós mesmos. Quis Ele depositar em nossas mãos o auxílio onipotente d’Aquela que é considerada a Aurora e Esplendor da Igreja Triunfante, o maior reflexo da bondade de Deus aos homens: Maria Santíssima !

Quantas não foram as conversões realizadas na História através de sua intercessão! O famoso judeu convertido ao catolicismo, Ratisbonne, após a magnífica aparição da Virgem, proclamava e repetia inúmeras vezes com ardor: “Como Ela é o bondosa!”. Dando a entender que, com tal intensidade de benquerença manifestada por Maria Santíssima, até mesmo pedras brutas e enraizadas no pecado se comovem e abraçam o verdadeiro e reto caminho.

Conta-se que, no século passado, um membro de uma organização anticatólica converteu-se e, poucos instantes antes de sua morte, confessou-se. Como os demais membros desconfiassem que este tivesse revelado os segredos de tal organização, encarregaram outro adepto a fim de aniquilarem o sacerdote que o havia confessado.

O futuro assassino, fingindo que iria confessar-se, obrigou o sacerdote a contar-lhe os segredos que lhe haviam sido revelados. O digno sacerdote, porém, sendo fiel ao seu estado, disse-lhe que não lhe contaria nada e se fosse necessário matá-lo podia fazê-lo, mas apenas pedia uns minutos para invocar o auxílio de “nossa Mãe”. Ao escutar as palavras “nossa Mãe” o perverso assassino prorrompeu em pranto, pedindo a confissão para que pudesse realmente ser considerado filho de Mãe tão santa e boa.

Se mesmo os criminosos, afastados da Igreja, são objetos da Bondade da Virgem, que se dirá daqueles que se consagram a Ela? Caminhando neste vale de lágrimas”, contemplar a bondade de Deus nos dá verdadeiro alento e alegria. Portanto, não cessemos de admirar tamanho tesouro, mas saibamos apelar a essa Bondade Suprema em todas as dificuldades que nos são oferecidas, por meio d’ Aquela que é a Auxiliadora dos Cristãos e Consoladora dos Aflitos. Se soubermos nos apresentar a Ela como verdadeiros filhos, embora fracos, Ela nos conduzirá à visão bem-aventurada da Bondade Infinita. Ela é o caminho seguro, “pois é o caminho traçado pela mão mesma de Deus”.3

Recorramos a Ela e como seus filhinhos, lancemo-nos a seus pés e aos seus braços com uma perfeita confiança, em todos os momentos e em todos os acontecimentos invoquemos a esta Mãe tão santa e boa. Imploremos o seu amor materno, tenhamos um coração de filho e esforcemo-nos por imitar as suas virtudes.4

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os gentios. Livro I c. XL. le 2.
2 CLA DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Ano C. Cittá del Vaticano! São Paulo: L.E. Vaticana/ Lumen Sapientiae, 2012, v. V, p. 263.
3 ROSCHINI, Gabriel. Instruções Marianas. Trad. José Vente São Paulo: Edições Paulinas, 1960. p.308.
4 SÃO FRANCISCO DE SALES. Filotéia ou Introdução à devota. Trad. de José de castro. 8°ed. São Paulo: Vozes, 1958. p. 116.

A era do perdão

Nascimento JesusBeatriz Alves dos Santos

Nosso Senhor quis fazer-se Homem porque, sendo “doente, nossa natureza precisava ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada. Havíamos perdido a posse do bem, era preciso no-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz; cativos, esperávamos um salvador; prisioneiros, um socorro; escravos, um libertador”.1

O Verbo se encarnou para ser nosso modelo de santidade, para que conhecêssemos o amor de Deus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12). Nosso Senhor veio trazendo uma clave completamente nova de amor ao próximo, de perdão e de caridade, como se lê no evangelho de São Mateus: “Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5, 39), e ainda “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem […], pois se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis?” (Mt 5, 44. 46).

Deus está constantemente querendo comunicar-se com o pecador para o atrair a Si e nunca lhe nega a graça suficiente. A respeito desta vontade salvífica universal de Deus, afirma Royo Marin:

[…] Deus quer seriamente – com toda a seriedade que há na face de um Deus crucificado – que todos os homens se salvem. […] É uma verdade clara e explícita na divina Revelação: isto é bom e grato a Deus, nosso Salvador, o qual quer que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade (1 Tm. 2, 3-4). Pois Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3,17).2

Este amor de Deus não exclui ninguém, pois Ele mesmo o disse na parábola da ovelha perdida: “não é vontade de vosso Pai que está nos céus que se perca nem um só destes pequenos” (Mt 18, 14). Ele também revela que veio “dar sua vida em resgate por muitos” (Mt 20, 28).

Uma condição para o perdão

Deus está pronto a perdoar a qualquer um, a todo momento, basta reconhecer que errou e pedir perdão. Esta afeição de Deus para com os homens e a beleza do perdão estão divinamente manifestadas na parábola do filho pródigo, cujo centro é o pai misericordioso que perdoa o filho. Fascinado por uma ilusória liberdade, o filho mais novo abandona a casa paterna, entra por caminhos errados, perde a herança em jogos e diversões; rebaixa-se cuidando de porcos para se sustentar e, pior, passa a disputar a ração com os porcos… Em certo momento, recebe uma graça de arrependimento, por onde ele reconhece em que abismo chegou, arrepende-se e corre de encontro ao pai; e este lhe cobre de afetos e o perdoa.

Porém, há uma condição para ser perdoado: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12).

São Pedro pergunta a Nosso Senhor quantas vezes devia perdoar quando um irmão pecasse contra ele. Até sete? E Jesus respondeu-lhe que não somente sete vezes, mas setenta vezes sete! (Cf. Mt 18, 21- 22) Comenta Lagrange: “Pedro sabe bem que é preciso perdoar a um irmão. Mas quais são os limites? Julga ele estar bem de acordo com o espírito de Jesus, propondo sete vezes”.3 Mas Ele contou-lhe uma parábola:

“Porque o Reino dos céus é comparado a um rei que quis fazer as contas com os seus servos. Pronto a fazer as contas, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Tendo começado a fazer as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. Como não tivesse com que pagar, mandou o seu senhor que fosse vendido ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que tinha, e se saldasse a dívida. Porém o servo, lançando-se-lhe aos pés, lhe suplicou. Tem paciência comigo, eu te pagarei tudo. E o senhor, compadecido daquele servo, deixou-o ir livre, e perdoou-lhe a dívida. Mas esse servo, tendo saído, encontrou um dos seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando-lhe a mão, o sufocava dizendo: Paga o que me deves’. O companheiro, lançando-se-lhe aos seus pés, lhe suplicou: ‘Tem paciência comigo, eu te pagarei’. Porém ele recusou e foi mandá-lo meter na prisão, até pagar a dívida. Os outros servos seus companheiros, vendo isto, ficaram muito contristados, e foram referir ao seu senhor tudo o que tinha acontecido. Então o senhor chamou-o, e disse-lhe: ‘Servo mau, eu perdoei-te a dívida toda, porque me suplicaste. Não devias tu logo compadecer-te também do teu companheiro, como eu me compadeci de ti? E o seu senhor, irado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a dívida. Assim também vos fará meu Pai celestial, se cada um não perdoar do íntimo do seu coração a seu irmão (Mt 18, 23-35)”.

Esta parábola é muito eloquente e ensina, com clareza, como se deve perdoar e amar aos outros, sempre e de coração. Santa Teresa de Jesus adverte às suas religiosas sobre a importância do perdão ao próximo, dizendo que Nosso Senhor podia ter-nos ensinado “perdoai-nos, Senhor, porque fazemos muitas penitências”, ou então “porque rezamos muito, jejuamos, deixamos tudo por Vós e muito vos amamos”. Não. Ele disse somente: “assim como nós perdoamos”.4

São Francisco de Sales também foi ousado em afirmar:

“Muitos dizem: – Amo em grande medida o meu próximo, e bem quero prestar-lhe algum serviço. – Isto está muito bem […], mas não basta; há que fazer mais. – Oh! Quanto o amo! Amo-o tanto que de boa vontade empregaria meus bens por ele. – Isto já é mais e está melhor, mas ainda não é bastante. […] Tem que ir mais longe; pois há algo mais alto nesse amor. Entregar-se até dar a vida pelo próximo não é tanto como abandonar-se ao capricho dos demais para eles ou por eles”.5

Ajuda sobrenatural

Meramente com nossas forças nada podemos ou conseguimos, entretanto, temos em nosso auxílio uma protecção sobrenatural, sobre-humana, que é a protecção de Nossa Senhora. Entre Cristo e os homens, ensina o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, há algo em comum, tão extraordinário que não se compreende profundamente: ter a mesma Mãe! Essa Mãe d’Ele, e também Mãe dos pecadores, tem misericórdia do filho mais estropiado, mais fraco, mais torto, desarranjado, e quanto mais esfarrapado e miserável, maior sua compaixão. Por isso, em diversas ocasiões, recomenda a importante necessidade de possuir uma inteira confiança em Nossa Senhora.

Quando uma alma é generosa em perdoar e suportar as misérias dos demais, por mais que tenha pecado, se pedir o auxílio da Mãe de misericórdia, Ela olhará com compaixão e indulgência e obterá o perdão de Deus.

Quer dizer, inesgotável, clementíssima, pacientíssima, pronta a perdoar a qualquer momento, de modo inimaginável, sem nunca um suspiro de cansaço, de extenuação, de agastamento. […] Dispensada essa misericórdia, se ela for mal correspondida, vem uma misericórdia maior. E, por assim dizer, nossos abismos de ingratidão vão atraindo a luz para o fundo, quanto mais fugimos d’Ela, mais as suas graças se prolongam e se iluminam em nossa direção.6

Nos momentos de dificuldade, de aflição e necessidade deve-se correr para Eles e jamais fugir d’Eles, como fez o filho da perdição, Judas. Entretanto, se depois de ter vendido Nosso Senhor por trinta dinheiros tivesse tido um movimento de devoção a Nossa Senhora, rezado a Ela, certamente obteria uma ajuda. Se ele A procurasse e dissesse: “Eu não sou digno de chegar próximo de Vós, de Vos olhar, de me dirigir a Vós, sou Judas, o imundo… mas, Vós sois minha Mãe, tende pena de mim”, Ela o teria acolhido e tratado com benevolência sem par, aquele cujo nome é sinônimo de horror: Judas Iscariotes.7

Se a Virgem Santíssima é tão indulgente com o pecador, não se deve imitá-La, uma vez que Ela é louvada pelo título de Mãe dos pecadores? Os homens, portanto, têm o dever de amar o próximo, pois é na disposição de perdoar que a pessoa manifesta a verdadeira grandeza de alma. “Se pagar o bem com o mal é diabólico, e pagar o bem com o bem é mera obrigação, contudo, pagar o mal com o bem é divino”.8

Essa retribuição de bondade, mesmo recebendo somente o mal, foi a nota marcante da vida de Nosso Senhor. A qualquer um que lhe pedisse algo, a cura, o perdão, tanto os bens do corpo como também os da alma, o Divino Mestre a tudo atendia com superabundância divina.

Crucifixão entre 2 ladrões-horzUma das mais tocantes provas dessa misericórdia infinita deu-se no último lance da Paixão, quando no alto da cruz um dos ladrões lhe pediu perdão e Jesus disse-lhe: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23 , 43), ou seja, Ele perdoou o bandido e transformou-o em santo.

Assim deve ser a confiança do homem no perdão de Deus; por pior que seja a situação em que se encontre, deve ele rezar a Nosso Senhor e dizer: “Se Vós para tantos homens sois misericordioso e os mantendes, então também a mim, criatura humana que sou, perdoai-me. Não mereço vossa indulgência, mas a misericórdia é para os que não a merecem!”. Assim, Ele mesmo nos concederá o perdão, Ele mesmo nos receberá de volta, Ele mesmo curará os nossos males produzidos pelas nossas faltas.

1SÃO GREGÓRIO DE NISSA. Oratio catechetica, 15, apud CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11. ed. São Paulo: Loyola, 2001. p. 129.
2“Dios quiere seriamente – con toda seriedad que hay en la cara de un Dios crucificado – que todos los hombres se salven. […] Es una verdad clara y explícitamente contenida en la divina Revelación: esto es bueno y grato ante Dios nuestro Salvador, el cual quiere que todos los hombres sean salvos y vengan al conocimiento de la verdad (I Tim. I, 15). Pues Dios no ha enviado a su Hijo al mundo para que juzgue al mundo, sino para que el mundo sea salvo por El (Io. 3, 17)” (ROYO MARÍN, Antonio. Teologia de la Salvacion. 4. ed. Madrid: BAC, 1997. p. 26-27).
3LAGRANGE, Marie-Joseph apud CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Devo perdoar uma só vez? Op. cit. p.13.
4SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de perfeição. C. 36, n. 7. São Paulo: Loyola, 1995. p. 410-412.
5“Muchos dicen: – Amo en gran manera a mi prójimo, y bien quisiera prestarle algún servicio. – Eso está muy bien […], pero no basta; hay que seguir más adelante. ¡Oh, cuanto le amo! Le amo tanto que de buena gana quisiera emplear todos mis bienes por él. – Esto es ya más y está mejor, pero no es bastante todavía. […] Hay que ir más lejos; pues hay algo más alto en este amor. Entregarse hasta dar la vida por el prójimo no es tanto como abandonarse al capricho de los demás para ellos o por ellos” (SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras Selectas. Madrid: BAC, 1953. Vol. I. p. 327. Tradução da autora).
6CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Num olhar de Maria, a imensidade de suas virtudes. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n.13, abr. 1999. p. 27.
7Id. Nossa Senhora Auxiliadora: bondade e misericórdia incansáveis. In: Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 98, maio, 2006, p.26.
8CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Devo perdoar uma só vez? Op. cit. p.16.

Manso e humilde de coração

SFranciscoSalesIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos,EP

Stress… Palavra talismânica criada aparentemente para justificar todos os males que acometem os homens de nosso tempo. Quem não dorme bem é porque está com stress; quem fica nervoso no trabalho, está stressado. Problemas familiares? Ora, a culpa também é do stress. Até mesmo o mau gênio, como é popularmente conhecido o temperamento colérico, encontra justificativa no stress. Embora a vida agitada e insegura de hoje realmente provoque stress, este não pode ser o escudo atrás do qual se esconde quem não quer combater seus defeitos temperamentais.

Vejamos o exemplo de um homem de temperamento, o qual, com o auxílio da graça, soube dominar-se a ponto de ficar conhecido e venerado por todos como o santo da doçura e da amabilidade: São Francisco de Sales.

A infância de um menino inocente

Primogênito do Barão de Boisy, nasceu Francisco em 1567 no castelo de Sales, na Sabóia, naquele tempo um país independente que abarcava territórios hoje pertencentes à França, Itália e Suíça. Sua mãe, Dona Francisca de Boisy, senhora muito virtuosa, soube incutir-lhe desde a mais tenra infância o amor a Jesus e Maria. Quiçá também dela tenha recebido a salutar influência que lhe permitiu adquirir uma das virtudes que mais o caracterizaram: nunca perder a calma, nunca inquietar-se, ter inteiramente a alma nas mãos.

Sua mãe ensinava-lhe o catecismo e narrava-lhe belos exemplos da vida dos santos. Isto fez nascer na alma do pequeno Francisco o desejo da santidade e o zelo pelas coisas de Deus.

Desde criança sempre foi muito ativo e cheio de vida. Um fato pitoresco de sua infância denota seu carácter combativo, mas irascível. Bem pequeno ainda, ouvira falar dos calvinistas que haviam dominado a Suíça e boa parte da França. Um dia, soube que um desses hereges estava de visita no castelo de seus pais. Como não podia entrar na sala para protestar, pegou um pedaço de pau e, cheio de indignação, entrou no galinheiro e lançando-se contra as galinhas a pauladas gritava: “Fora com os hereges! Não queremos hereges!”As pobres galinhas fugiam cacarejando ante seu inesperado atacante. Foram salvas pelos criados que conseguiram tirar o menino dali a tempo.

Francisco chegará a ter um génio tão doce e bondoso que fez São Vicente de Paulo exclamar, quando teve a oportunidade de conviver com ele: “Ó meu Deus, se Francisco de Sales é tão amável, como sereis Vós?””

As batalhas da juventude

Na juventude nasceu-lhe um grande desejo de consagrar-se inteiramente a Deus. Mas seu pai tinha outros planos. Foi mandado a Paris para estudar no colégio dos jesuítas, onde conheceu o bom Pe. Déage, que foi seu diretor espiritual. Mais tarde mudou-se para Pádua a fim de estudar Direito Civil, como queria seu pai, e Direito Canônico, como desejava o ardor religioso de seu coração. Também praticava esgrima, equitação e frequentava bailes.

Viver na graça de Deus naqueles ambientes não era nada fácil, mas Francisco soube fugir das ocasiões perigosas e de toda amizade que pudesse ofender a Deus. Na Universidade, alguns estudantes perversos, para humilhá-lo por ser tão piedoso, atacaram-no. Francisco, que era perito na arte da esgrima, tirou sua espada e derrotou a todos. Vendo-os desarmados e impotentes, retirou-se, dizendo: “E agradeçam a Deus em quem creio, pois é por isso que não lhes faço mal”.

Quando, devido ao seu temperamento, o sangue lhe subia ante humilhações e burlas, ele se continha de tal maneira que muitos pensavam que nunca se encolerizava. O demônio, vendo ser impossível vencê-lo com as tentações mais comuns, atacou-o com violência num ponto muito sensível e difícil: a terrível tentação do desespero da salvação.

Tinha 20 anos quando isso aconteceu.

Conhecera a doutrina de Calvino sobre a predestinação, e não conseguia tirar da cabeça a ideia fixa de que ia se condenar. Perdeu o apetite e o sono. Sempre dizia a Nosso Senhor que, se por sua infinita justiça o condenasse ao inferno, concedesse-lhe a graça de continuar amando-O nesse lugar de tormentos. Essa oração lhe devolvia a paz de alma em parte, mas a tentação sempre voltava. O remédio definitivo veio quando, entrando numa igreja em Paris e ajoelhando-se diante de uma imagem da Santíssima Virgem, rezou a conhecidíssima oração de São Bernardo: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria…” Ao terminar, os pensamentos de tristeza e desespero o abandonaram para sempre e veio-lhe a segurança de que “Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo. 3, 17).

A vida religiosa e a conquista dos calvinistas

De volta à casa paterna, aos 24 anos, recusou um casamento brilhante e um posto no Senado do Reino. Embora contra a vontade de seu pai, assumiu o cargo de deão da Catedral de Chambéry – por influência de seu tio, Luís de Sales, cônego da Catedral de Genebra, que obteve tal nomeação do Papa e pouco tempo depois foi ordenado sacerdote.

Pregou em Annecy e outras cidades. Embora dotado de grande cultura, suas práticas eram simples, atraindo enormemente todos os que o ouviam.

Mas sua dura batalha começou quando se ofereceu para reconquistar Chablais, na costa sul do lago de Genebra. Esta região estava totalmente dominada pelos calvinistas, cujo exército não deixava os habitantes católicos viverem em paz.

Em 14 de setembro de 1594, dia da exaltação da Santa Cruz, com a autorização do bispo Cláudio de Granier, partiu Francisco de Sales a pé para a grande missão. Provações não lhe faltaram. Muitas vezes teve de dormir ao relento. Em uma ocasião refugiou-se no alto de uma árvore durante toda a noite para escapar ao risco de ser devorado pelos lobos. Na manhã seguinte, foi salvo por um casal de camponeses calvinistas que adquiriram grande simpatia por ele.

Posteriormente esses camponeses se converteram, dando início à grande transformação religiosa da região. A cada noite, São Francisco e seus companheiros católicos passavam de casa em casa, jogando debaixo das portas folhetos escritos à mão, nos quais eram refutados os falsos argumentos da heresia calvinista. Esse fato lhe valeu o título de patrono dos escritores e jornalistas católicos. Esses escritos foram posteriormente reunidos e publicados sob o nome de Controvérsias.

Poucos anos mais tarde, depois de duras lutas e perseguições, Chablais se converteu totalmente, e o Pe. Francisco foi nomeado bispo coadjutor de Genebra. Para receber a sagração episcopal, dirigiu-se a Roma, onde o próprio Papa Clemente VIII o interrogou sobre 35 pontos difíceis de Teologia, em presença do Colégio cardinalício. “Ninguém dos que examinamos mereceu nossa aprovação de maneira tão completa!”– exclamou o Papa ao descer de seu trono para abraçá-lo.

Bispo príncipe de Genebra

Com a morte de D. Garnier, São Francisco de Sales assumiu o cargo vacante. A generosidade e a caridade, a humildade e a clemência do santo eram inesgotáveis. Em seu trato com as almas foi sempre bondoso, sem cair na debilidade; sabia ser firme quando necessário.

StaJoanaChantalFundou a Ordem da Visitação com sua dirigida espiritual, Santa Joana de Chantal, em 1604. Entre as obras por ele escritas destacam-se o Tratado do Amor de Deus, que lhe valeu o título de Doutor da Igreja, e Introdução à vida devota – Filotéia, nascida das anotações enviadas à sua prima, Senhora de Chamoisy.

A medida de amar a Deus

A medida de amar a Deus consiste em amá-Lo sem medida.” Este ensinamento de São Francisco de Sales talvez possa resumir toda a sua existência, pois ele não foi senão um exemplo vivo de tudo o que ensinava.

Estando ele ainda vivo, havia já pessoas devotas que guardavam como relíquias os objetos por ele usados.

Vítima de uma paralisia, perdeu a palavra e algo da sua lucidez, porém, recuperou-as em breve tempo. Os esforços médicos feitos para salvá-lo de nada adiantaram. Em seu leito repetia: “Pus toda a minha esperança no Senhor; Ele escutou minha súplica e me tirou do fosso da miséria e do pântano da iniquidade”.”

Faleceu aos 56 anos de idade, na festa dos Santos Inocentes, em 28 de dezembro de 1622. Seu fígado, devido ao constante esforço para controlar seus ímpetos de cólera, havia-se transformado em pedra. Seu corpo foi encontrado incorrupto 10 anos após seu falecimento.

Ele soube viver inteiramente o conselho de Nosso Senhor no Evangelho: “Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para vossas almas” (Mt. 11, 29).

São João Bosco de tal modo o admirou que o escolheu para patrono da sua congregação. E Santa Joana de Chantal dele dizia: “Era uma imagem viva do Filho de Deus, porque verdadeiramente a ordem e a economia dessa santa alma era toda sobrenatural e divina”.