O que nos torna íntimos aos santos?

Joice Silvino Santos

Ao se aproximarem do presbitério da Basílica Nossa Senhora do Rosário, os fiéis se deparam com várias relíquias de santos postas sob a mesa do altar.

Mas, se perguntássemos ao leitor por que damos culto às relíquias, a resposta seria convincente e segura? Caso não fosse, não se sinta constrangido, pois dá-la-emos agora.

A palavra relíquia vem do latim, provavelmente de relíquus (restante) ou relinquere (deixar). Portanto, “relíquia” designa aquilo que restou dos santos ou as coisas que por ele foram deixadas.

Como todos sabem, existem dois tipos de relíquias: as diretas e as indiretas. As diretas são alguma parte da carne, dos ossos ou das cinzas. As relíquias indiretas são algo que por eles foi tocado. Alguém poderia se perguntar: “Nossa! Existe uma quantidade imensa de relíquias indiretas, como um santo pôde ter tocado em tantos objetos?” Na verdade, nem todas as relíquias indiretas foram tocadas pelos santos, pois algumas foram simplesmente encostadas em suas relíquias diretas.

Quando uma pessoa toca em alguma coisa, algo dela passa para o objeto que foi tocado. Tomemos como exemplo o recipiente em que foram lavadas as mãos de Pilatos. Se alguém lhe desse de presente, o leitor aceitaria? Provavelmente não, pois, alguma coisa do ato infame de Pilatos passou para o objeto. Algo análogo acontece com as relíquias indiretas.

Já as relíquias diretas, como um pedaço de carne ou de osso são parte de uma pessoa que se encontra no Céu. Desse modo, quando o santo ressuscitar, aquele fragmento se unirá ao seu corpo e passará para o estado glorioso. Assim, a relíquia direta é, em certo sentido, a presença física de um bem-aventurado entre nós.

Portanto, as relíquias são um verdadeiro tesouro! Se por acaso o leitor possui alguma, venere-a e não a deixe guardada em alguma gaveta no meio de objetos profanos. Devemos osculá-las todos os dias pelo menos, de manhã ou à noite. E, além do mais, procurar sempre conhecer a vida do santo a que correspondem, para termos uma piedade fogosa. Lembremo-nos de que elas são uma arma para o combate.

Certos militares levavam uma relíquia incrustada na espada… É bom, nas horas de perigo, tê-las sempre junto a nós para garantirmos que, na luta contra o demônio, não batalhamos sozinhos, mas contamos com a presença de santos vitoriosos!

Convertido pela Eucaristia

Irmã María Lucilia Morazzani Arráiz, EP

Percorrer as páginas da Escritura equivale a deparar constantemente com portentos e maravilhas que nos enchem de admiração. Se nos fosse dado ver o mar Vermelho dividido em duas grandes muralhas de água para dar passagem ao povo eleito e, voltando ao seu curso normal, afogar a flor do exército do faraó com seus carros e cavalos, ou se pudéssemos contemplar Moisés, por ordem de Deus, golpeando com seu cajado a rocha para dar de beber aos filhos de Israel, seríamos levados a julgar que esses são prodígios insuperáveis, próprios do Antigo Testamento.

Entretanto, tais maravilhas não passam de manifestações humanas do poder de Deus e pálidas representações de Sua suprema grandeza, se comparadas à ação infinitamente superior operada pelo Criador nas almas de Suas criaturas, atraindo-as irresistivelmente a Si mesmo.

A graça da conversão é uma obra exclusiva de Deus, uma imposição que abarca a alma por inteiro e a leva a agir como nunca faria por suas forças naturais, pois “o homem não pode predispor-se para receber a luz da graça a não ser que um auxílio gratuito de Deus venha movê-lo interiormente”. E “o livre arbítrio não pode converter-se para Deus, a não ser que Deus o converta para Si, segundo o que diz o livro de Jeremias: ‘Convertei-me, Senhor, e eu me converterei’”. 1

Por vezes encontramos almas que, tendo levado uma vida de desvios e de pecados, foram por Deus arrebatadas dos caminhos do inferno, e agora brilham como estrelas rutilantes no firmamento da santidade, formando um longo cortejo de bem-aventurados que cantam as misericórdias do Altíssimo.

* * *

Há poucos dias, caiu-me nas mãos uma obra do abade francês Charles Sylvain que narra a inesperada conversão de um israelita, operada pelo Santíssimo Sacramento. Iniciei a leitura com certo desinteresse que se transformou, já nas primeiras páginas do fascinante relato, em verdadeira avidez. Confesso que não consegui parar, e nisso se foram meu almoço, meu descanso e outros afazeres. Devorei, isto sim, o livro, e senti-me profundamente comovida ante a infinita bondade de Jesus-Hóstia. Fiz o propósito de tornar a história conhecida, a fim de fortalecer a fé periclitante de tantas almas naufragadas nos vagalhões do mundo contemporâneo e favorecer um maior número de cristãos a se deixarem abrasar pelas chamas puríssimas que brotam do Sagrado Coração Eucarístico de Jesus, fornalha ardente de caridade.

Inquietudes religiosas

Nascido na cidade de Hamburgo em 1820, no seio de uma família judia da tribo de Levi, Hermann Cohen recebeu desde a mais tenra idade uma esmerada educação, condizente com a fortuna de seu pai, um opulento negociante. Não tardaram os parentes em perceber as extraordinárias disposições do menino para a música, e encaminharam o pequeno prodígio para seguir a carreira de artista.

Nos primeiros anos de sua vida, Hermann sentia uma misteriosa apetência pelas cerimônias religiosas e um grande pendor para a oração, chegando a experimentar profundas emoções ao invocar o Deus Santo de Israel. Estas impressões, porém, foram afogadas pelo vertiginoso desenvolver do germe da vaidade em sua alma. Tudo quanto ele fazia era coroado de êxito; o incenso, os elogios e os aplausos inflamavam seu fogoso coração que já não procurava senão sua própria glória e a plena satisfação de seus mínimos caprichos.

Em vão buscava a felicidade

Em pouco tempo o nome do pianista Hermann, menino genial, ressoava nos meios mais ilustres das principais capitais européias, e seu prestígio aumentava a cada dia.

Conduzido por sua mãe a Paris, privava com grandes personalidades de seu tempo, entre as quais o célebre Franz Liszt, de quem foi inseparável aluno por longos anos.

Êxitos, honrarias, celebridade, os prazeres em que os artistas passam parte de seu tempo, as viagens, as aventuras, tudo aparecia com cores róseas na minha imaginação, extraordinariamente desenvolvida para minha idade2.

Más companhias e funestas influências acabaram por corromper e desviar completamente o jovem, tornando-o escravo de suas paixões e incapaz de negar qualquer coisa a si mesmo. Ele caiu numa lamentável situação, afundou-se nos vícios mais indesculpáveis, abraçou as ideias mais liberais e desvairadas da época e lançou-se numa corrida desenfreada à procura de tudo aquilo que pudesse alimentar seus delírios e fantasias.

A felicidade! Eu a busquei, e para achá-la, percorri as cidades, atravessei os reinos, cruzei os mares. A felicidade! […] Onde não a procurei?3.

Sim, em vão tentava ele saciar a sede de felicidade que o atormentava, e quanto mais se afanava em buscá-la, tanto mais ela lhe escapava das mãos e lhe dava as costas. Com efeito, a taça de todos os prazeres parecia estar envenenada, pois nela seus lábios não encontravam mais que insatisfação, fastio e amargura. Era a mão da Providência que secreta e misteriosamente o preparava para Si.

Seduzido pela Eucaristia

Nessas condições se encontrava quando, em maio de 1847, um amigo seu, o Príncipe de Moscowa, solicitou-lhe que o substituísse na regência de um coral na igreja de Santa Valéria, em Paris, ao que Hermann aquiesceu.

Celebravam-se então as festividades do mês de Maria. No momento em que, após a Missa, o sacerdote deu a bênção com o Santíssimo Sacramento, Hermann experimentou “uma singular emoção, como remorsos de ter parte nessa bênção na qual ele não tinha direito algum de estar incluído”. 4Era uma consolação doce e forte que lhe proporcionou um “alívio desconhecido”.

Nas sucessivas vezes em que Hermann retornou à igreja, sentia sempre idêntica e inexplicável impressão quando o sacerdote dava a bênção com o ostensório. Terminadas as solenidades de maio, e arrastado por um forte impulso, o jovem passou a frequentar as missas dominicais na mesma paróquia de Santa Valéria.

Apesar dos diversos escolhos postos pelo inimigo de nossa salvação — furioso por perder sua presa — Hermann entrou em contato com um piedoso sacerdote, o Pe. Legrand, que lhe deu uma boa orientação doutrinária e alentadores conselhos.

A conversão

Obrigado a partir para Ems, na Alemanha, para dar um concerto, assim que lá chegou, apressou-se em buscar uma igreja. Queria ele participar da Celebração Eucarística, sem manifestar nenhum respeito humano diante de seus amigos. Deixemos à própria pena de Hermann a narração do que lhe ocorreu naquele inesquecível dia.

Pouco a pouco os cânticos, as orações, a presença — embora invisível, sentida por mim — de um poder sobre-humano, começam a agitar-me, a perturbar-me, a me fazer tremer; em uma palavra, a graça divina se apraz em derramar-se sobre mim com todas as forças.

Subitamente, no momento da elevação, sinto brotar através de minhas pálpebras um dilúvio de lágrimas que não cessa de derramar-se em abundância sobre minha face em chamas… Ó momento para sempre memorável para a saúde de minha alma! Eu te tenho presente em meu espírito com todas as sensações celestes que me trazias do alto! […] Experimentei então o que sem dúvida Santo Agostinho deve ter sentido no jardim de Casicíaco ao ouvir o famoso ‘Tolle, lege’. […]

Lembro-me de ter chorado algumas vezes na minha infância, mas jamais tinha conhecido semelhantes lágrimas. Enquanto elas me inundavam, senti surgir no mais fundo da alma dilacerada por minha consciência, os mais lancinantes remorsos por toda a minha vida passada.

Então, espontaneamente, como por intuição, comecei a manifestar a Deus uma confissão geral, interior e rápida de todas as enormes faltas cometidas desde minha infância. […] Sentia, ao mesmo tempo, por uma calma desconhecida que invadiu minha alma como bálsamo consolador, que o Deus de misericórdia me perdoaria, desviaria Seu olhar de meus crimes, teria piedade de minha sincera contrição e de minha amarga dor… Sim, senti que me concedia Sua graça, e que, ao me perdoar, aceitava como expiação minha firme resolução de amá-Lo sobre todas as coisas, e desde aquele momento me converti a Ele.

Ao sair dessa igreja de Ems, já era cristão. Sim, tão cristão quanto é possível sê-lo antes de receber o Santo Batismo…”. 5

Árduos combates

Seguiu-se um curto período de admirável fervor e duros combates, em que nosso jovem, fugindo dos ruídos do mundo, dedicou-se com empenho ao estudo da doutrina católica, cujas práticas observava como se já estivesse batizado.

O demônio, porém, quis impedir a qualquer preço que aquela alma escolhida lhe fosse arrancada para sempre. Isto valeu a Hermann uma terrível e derradeira batalha, na noite que precedeu o seu Batismo: “Enviou-lhe um sonho de representações sedutoras e renovou-lhe vivas imagens que considerava para sempre banidas de sua memória” 6.

Oprimido por essa visão aterradora, Hermann se atirou aos pés do crucifixo e, com os olhos cheios de lágrimas, implorou-Lhe socorro, pela mediação da Virgem Santíssima. Imediatamente fugiu a tentação e ele levantou-se fortificado e vitorioso, disposto a todas as lutas que de sua nova condição iriam resultar.

O batismo

Com grande entusiasmo recebeu o santo batismo no dia 28 de agosto de 1847, festa de Santo Agostinho, cujo nome adotou. Em carta dirigida ao Pe. Afonso Maria Ratisbonne, judeu converso como ele, o jovem neófito descreveu o desenrolar da cerimônia e o que experimentou no momento em que a água, derramando-se sobre sua fronte, lhe conferia a vida divina:

Meu corpo estremeceu, e senti uma comoção tão viva, tão forte, que não saberia compará-la a não ser com o choque de uma máquina elétrica. Os olhos de meu corpo se fecharam ao mesmo tempo em que os da alma se abriram para uma luz sobrenatural e divina. Encontrei-me como mergulhado num êxtase de amor, e, tal como a meu santo padroeiro, pareceu-me participar, por um impulso do coração, dos gozos do Paraíso e beber a torrente de delícias com as quais o Senhor inunda seus eleitos na terra dos vivos…7.

Após a conversão, a vida e os costumes de Hermann sofreram uma completa transformação. Entregou-se com ardor a todas as obras de zelo e piedade, e sua natureza fogosa, apaixonada e enérgica, passou a agir unicamente sob o influxo da graça.

Esperavam-no ainda alguns anos de tormento, pois, apesar de seu vivo desejo de se tornar religioso, diversas circunstâncias o obrigaram a permanecer no mundo por certo tempo. A prática da oração foi seu sustento, e a Sagrada Eucaristia sua vida. Instituiu, em companhia de Mons. de la Bouillerie, então Vigário Geral de Paris, a adoração noturna que logo se espalhou por mais de cinquenta dioceses da Europa.

Vida religiosa

Aos vinte e oito anos de idade, em outubro de 1849, foi admitido na Ordem dos Carmelitas Descalços, recém-reformada na França, com o nome de Frei Agostinho Maria do Santíssimo Sacramento. No ano seguinte fez sua profissão religiosa, e em 1851 foi ordenado sacerdote. Uma carta dirigida a um amigo, poucos dias antes de sua ordenação, é prova da profunda seriedade com que recebeu esse sacramento:

Serei sacerdote no Sábado Santo e cantarei a Missa no Domingo de Páscoa. Nem você nem eu, querido filho, conheceremos jamais nesta vida terrena o que encerra de grandeza e majestade o temível mistério dos altares, ao qual os anjos assistem tremendo” 8.

A vida religiosa do Pe. Hermann transcorreu em profunda humildade, sofrimentos de toda ordem e graças místicas impressionantes. Apesar de ser uma alma intensamente contemplativa, foi impelido pela vontade divina a uma grande atividade evangelizadora: contínuas viagens, fundações de vários mosteiros, pregações que reuniam multidões de fiéis e direções espirituais interrompidas apenas por curtos períodos de absoluto recolhimento.

Seu amor a Jesus era tão forte que, apesar da debilidade de sua saúde, não poupava esforços para atrair a Ele o maior número possível de almas, e fez voto de mencionar a Eucaristia em todos os seus sermões. Ao seu incansável zelo, à eloquência de sua palavra e ao estímulo de seus exemplos, devem-se incontáveis conversões, entre elas as de dez membros de sua família e de vários outros judeus.

Seu talento musical, que outrora o tinha levado à perdição, ele agora o empregava em louvor do Santíssimo Sacramento e da Virgem Maria, compondo belíssimos cânticos a Eles devotados.

Manteve laços de amizade com grandes figuras católicas da época, como o Santo Cura d’Ars, São Pedro Julião Eymard, Santa Bernadette Soubirous, o Cardeal Wiseman.

Último campo de batalha

Após anos de frutuoso apostolado na França, Inglaterra, Bélgica e Suíça, em novembro de 1870 foi enviado por seus superiores à Prússia, como capelão dos prisioneiros de guerra franceses. Ali deu mostras de infatigável dedicação, deixando-se consumir como hóstia pura ao serviço da Igreja. Em 22 de dezembro descrevia suas ocupações e alegrias com estas palavras:

Os prisioneiros me cercam desde as oito da manhã até a noite. Entreguei-me a eles, e estão me usando o quanto podem, e me usarão até me consumir9.

Com efeito, em janeiro do ano seguinte, ao ministrar os últimos sacramentos a dois soldados moribundos atacados de varíola, contraiu, ele mesmo, esta doença que o levaria à morte. Tomado por forte crise, recebeu a Unção dos Enfermos, renovou seus votos religiosos e, apesar das atrozes dores de que padecia, cantou em alta voz o Te Deum, o Magnificat, a Salve Regina e o De Profundis.

Finalmente, na noite de 19 de janeiro, tendo piorado muito, confessou-se e recebeu pela última vez aquele Jesus Eucaristia que depois de sua conversão fora o único objeto de todas as suas aspirações e desejos. Permaneceu por longo tempo absorto em ação de graças, e um pouco mais tarde seus companheiros pediram-lhe a bênção. Em seguida, extenuado, deixou-se cair novamente em seu leito, murmurando:

E agora, meu Deus, em Vossas mãos entrego o meu espírito!10.

Foram suas derradeiras palavras, depois das quais permaneceu calmo e imóvel durante toda a noite, até as dez horas da manhã, quando fez um ligeiro movimento e expirou santamente nos braços de seu amado Jesus.

1 Suma Teológica I-II, q. 109, a. 6.
2 SYLVAIN, Charles. Hermann Cohen, Apóstol de la Eucaristía. Estella: Gráficas Lizarra S.L., 1998. p.7.
3 Idem, ibidem, p. 61.
4 Idem, ibidem, p. 23. 5
5 Idem, ibidem, p. 24.
6 Idem, ibidem, p. 26.
7 Idem, ibidem, p. 27.
8 Idem, ibidem, p. 50.
9 Idem, ibidem, p. 136.
10 Idem, ibidem, p. 138.

Enviai, ó Senhor, vosso Espírito

Maria Cecília Lins Brandão Veas

Panfletos e noticiários que transmitem últimos acontecimentos os há em abundância. Mas, onde encontrarmos subsídios que nos comuniquem o fim último e a realização suprema da existência dos homens? Assim sendo, pareceu-nos oportuno tecermos, neste artigo, esta realidade oculta, mas sublime, que encerra em si a grandeza dos arcanos de Deus: a conquista do Reino dos Céus, iniciado na Terra com a inabitação da Santíssima Trindade na alma.

Tendo a serpente entrado no Paraíso, penetrou com ela o veneno de morte fatal, que Adão e Eva sorveram como a mais ordinária bebida. Insidioso, o demônio saíra vencedor, não na totalidade, mas em larga medida. E eis que as gerações procedentes, manchadas pela culpa original, lutariam desfalecidas por esta terra de exílio, à espera do Salvador. Durante séculos, a História conheceu um de seus mais lânguidos, desolados e pungentes períodos, nos quais eram constantes as penitências, jejuns e preces que, na economia da graça, se erguiam aos Céus.

No momento determinado, entretanto, a Salvação se dignou vir das alturas. O Filho Unigênito de Deus, encarna-se triunfando vitorioso sobre o príncipe da morte, sublimando a obra de suas mãos. As portas do Céu reabrem-se, e é iniciado o Reino da graça e da benção, para o qual Deus chama a cada alma, renovando o convite feito a Adão: “Meu filho, eu te dei a condição de homem, não queres ser mais? Não queres ser um príncipe na minha criação? Eu te concedo uma participação criada na minha própria vida. Eu habitarei em ti, e tu serás templo no qual Eu viverei. Far-te-ei meu herdeiro”. 1 E no momento em que as águas batismais recaíram sobre nossas cabeças, ingressamos no imenso cortejo de almas ousadas que galgam à Pátria Celeste.

Mas, as consequências do pecado original vociferam em nosso interior: concupiscências, desejos desenfreados, intemperanças, frequentemente tomam-nos por inteiro levando-nos a empregar os esforços, onde lucro algum lograremos obter: o pecado. Por isso, pensaria alguém: “Ser herdeiros do reino Céus? Haverá o que sobrepuje mais profundamente a capacidade humana?” A resposta o Salvador a deu, quando exortou aos seus discípulos: “O que é impossível aos homens é possível a Deus”. (Le 18, 27)

É indubitável o fato de a vida ser dura e repleta de dificuldades. Porém, ai dos que agravam o exílio nesta Terra, fechando as janelas de sua alma que dão para o Céu! O que, pois, deveria estar ao alcance de nossa consideração, senão o imenso amor que Deus manifesta constantemente aos homens? As Três Pessoas Divinas incorrem infalivelmente ao nosso encalço: o Pai adota-nos como filhos, no Batismo; o Filho torna nosso irmão e redime-nos; o Espírito Santo santifica-nos. “É esta a grande obra de amor de Deus ao homem, e é o Espírito Santo o Amor essencial no seio da Trindade Santíssima”. 2

A Graça Santificante infundida em nossas almas no momento do Batismo, misteriosamente eleva-nos à natureza divina, tomando-nos dela partícipes. Ora, “esta realidade criada, que é a Graça Santificante, leva sempre consigo, inseparavelmente, outra realidade absolutamente divina e menada, que não é outra coisa senão o mesmo Deus, uno e trino, que vem inabitar no fundo de nossas almas3. De fato, “aos que chamou, também os justificou”, (Rm 8, 28) unindo-Se intimamente, como Pai e como Amigo.

O que é um bom filho senão a glória do Pai, e o que é um verdadeiro amigo senão aquele que devota fidelidade? Se a meta suprema da inabitação Trinitária é fazer-nos participantes do mistério da vida divina, transformando-nos em Deus 4, por que vivemos indiferentes à essas realidades?

Cada alma constitui uma província de eleição no Reino de Deus. E a fim de levarmos a cabo essa missão, o próprio Espírito Santo auxilia-nos constantemente com o bafejo de seus dons. Neste sentido, canta a Igreja no Veni Sancte Spiritus: Doce Hóspede da Alma. “Quando o Espírito vem e possui totalmente a alma com seus conselhos, instruções e impulsos de amor, nos comunica por meio de nossos pensamentos a voz do Senhor, ilumina nossa inteligência, inflama a vontade”. 5 Eis, pois, a chave de ouro da santidade!

Nada é mais bonito na Terra do que ver diretamente nas almas a santificação delas operada pelo Espírito Santo”. 6 Com as chamas do intenso amor, o Paráclito inculca quais as veredas que a alma deve trilhar para alcançar o píncaro da santidade. Muitos são os carismas, e inúmeras as vocações. Porém, se há algo que não se extingue, indiferente do chamado, é a luta contínua para efetivar a santificação. E tomando o leme de nossas almas, o Espírito Santo como que sopra no interior de nossas almas dizendo: “Você não está lutando por si, você está lutando por Mim, e lutando por Mim, o patrão de sua luta sou Eu” 7.

Assim consignou Nosso Senhor a Santa Catarina de Siena: “O Espírito Santo é o patrão das naves fundadas à luz da santíssima fé, conhecendo por ela, que o mesmo Espirito Santo, será quem as governe”. 8 Como um navegante que se subjuga às ordens do capitão, abandonemo-nos ao sopro do Espírito Santo, para bem chegarmos ao cais da eternidade. Somente assim estaremos devidamente preparados para o grande dia de nosso encontro com Deus.

Não nos esqueçamos, porém, que qualquer falta grave expulsa implacavelmente o Guia de nossas almas. “Não sabeis que sois templos de Deus, e que o Espirito de Deus habita em vós?.” (1Cor 4, 17) Esmeremo-nos, pois, ardentemente em manter em nosso templo o Divino Espírito. Invoquemo-Lo, sobretudo quando as rajadas do infortúnio afligirem nossas almas, para que perscrute o nosso coração derramando a abundância de seus dons, de maneira a transformar-nos por completo.

Dessa necessidade vem a prece que há séculos reza a Santa Igreja: Emitte Sputum tuum, et renovabis faciem terrae.

“Ou seja, antes de tudo, a face dessa nossa “terra” interior, da nossa própria alma, pode ser renovada de um instante para outro, por uma graça do Espírito Santo. Igualmente por uma particular intervenção d’Ele, há de ser regenerada a face do mundo, através do apostolado de autênticos católicos, inspirados pela Sabedoria divina, cheios de força e valor para enfrentar os inimigos da fé, assim como para atrair e fazer o bem a todos que devam pertencer à Santa Igreja”. 9

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Harmonia: Uma criatura de Deus. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n. 137, ago. 2009, p. 20.
2 ROYO MARÍN, Antônio. El gran desconocido. Madrid: BAC, 2004, p. 71.
3 Ibid. p. 70.
4 Ibid. p. 76.
5 SAO BERNARDO. Obras Completas, y. IV. BAC: Madrid, 2006, serm. 2, 6.
6 CORREADE OLIVEIRA, Plinio. Nossa Senhora do Rosário, uma festa de glória! In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XV, n. I75, out. 2012, p. 18-19.
7 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Memórias: Palestra. São Paulo, 17 set. 1989. (Arquivo IFTE)
8 SANTA CATALINA DE SIENA. Obras de Catalina de Siena. 3. ed. Madrid: BAC, 2002. p. 406.
9 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Emite Spiritum tuum et creabuntur. In: Dr. Plinio. São Paulo: Ano XII, n.134, maio. 2009, p. 4.

Bakhita, a afortunada

Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Desde as mais remotas épocas, a escravidão era praticada entre os povos antigos, afundados na barbárie e no paganismo após o desastre da Torre de Babel. Se uma nação triunfava sobre outra na guerra, os derrotados eram levados para o cativeiro e condenados à humilhante servidão. Até no Império Romano, tão civilizado sob muitos aspectos, os escravos tinham o status jurídico de coisa (res), sobre a qual o direito conferia aos senhores poder de vida ou morte.

A Igreja une a humanidade

Foi a Igreja Católica que, como mãe bondosa, suavizou aos poucos o duro jugo imposto pela crueldade, ao ensinar por todas as partes o “Amai-vos uns aos outros” (Jo 13, 34), o novo mandamento de Jesus, e conduziu as relações humanas a um equilíbrio cristão. Pregando a existência de uma alma racional e imortal, elevada à participação da vida divina pelo Batismo, a doutrina católica alça todos à dignidade a que são chamados.

Longe de abolir as desigualdades decorrentes da missão ou dos dons conferidos pelo Criador a cada alma em particular, a Igreja convida os homens a um relacionamento de mútuo respeito: os inferiores submetendo-se com alegria aos superiores, por verem neles um reflexo do próprio Deus, e estes debruçando-se sobre os primeiros com verdadeiro afeto e proteção.

Já no século I, o grande São Paulo escrevia aos Efésios uma síntese deste estado de espírito: “Servos, obedecei aos vossos senhores temporais, com temor e solicitude, de coração sincero, como a Cristo […]. Senhores, procedei também assim com os servos. Deixai as ameaças. E tende em conta que o Senhor está no Céu, Senhor tanto deles como vosso, que não faz distinção de pessoas” (Ef 6, 5.9).

Almas modelo

Entretanto, dado o orgulho do coração humano, ao longo da História, as admoestações do Apóstolo das Gentes e de tantos outros santos e pregadores, muitas vezes não foram ouvidas, quer pelos grandes, quer pelos pequenos. Daí a tirania por parte de uns e rebeliões por parte de outros, dando origem a guerras e dissensões cuja narração nos faz estremecer de horror.

Deus, porém, tem suscitado incontável número de homens e mulheres que não só ouviram Sua Palavra, mas souberam pôla em prática, constituindo assim uma coorte de modelos a serem imitados pelos demais. Todos eles, cada um a seu modo e segundo sua vocação específica, compreenderam a fundo a lei do Amor trazida pelo Divino Mestre e conformaram com ela suas existências.

Tal foi a vida da jovem escrava sudanesa Josefina Bakhita, cuja docilidade de alma foi tão grata aos olhos de Deus que a levou à honra dos altares.

Os caminhos da obediência

Dotada de um caráter fácil e submisso, com uma marcada propensão para fazer o bem aos outros, a pequena descendente da tribo dos Dagiu dava, desde a mais tenra infância, mostras de ser uma predileta de Deus.

Certa vez, estando com uma amiga nas proximidades de sua aldeia, situada na região de Darfur, no oeste do Sudão, Bakhita deparou-se com dois homens que surgiram de improviso de trás de uma cerca. Um deles pediu-lhe que fosse pegar um pacote que esquecera no bosque vizinho e disse à sua companheira que podia continuar o caminho, pois ela logo a alcançaria. “Eu não duvidava de nada, obedeci imediatamente, como sempre fazia com a minha mãe” — narrou ela. 1

Protegidos pela floresta e longe de qualquer testemunha importuna, os dois estrangeiros agarraram a menina e levaram-na à força com eles, ameaçando-a com um punhal. Sua ingenuidade, bem compreensível em seus oito anos, custara-lhe caro.

Contudo, eram essas as misteriosas vias da Providência, por meio das quais se realizariam os desígnios de Deus a seu respeito.

Se tal fato não tivesse ocorrido talvez sua vida teria continuado na normalidade do convívio familiar, em meio aos afazeres domésticos e às práticas rituais do culto animista que professavam seus parentes. Provavelmente ela jamais conheceria a Fé Católica, e permaneceria submersa nas trevas do paganismo.

Uma escravidão providencial

Empurrada violentamente por seus raptores, foi levada para uma cruel e penosa escravidão. E embora ela o ignorasse, estava dando os primeiros passos que a conduziriam, à custa de sofrimentos atrozes, rumo à verdadeira liberdade de espírito e ao encontro com o grande Senhor a Quem já amava antes de conhecer.

Sim, desde muito pequena, Bakhita deleitava-se em contemplar o Sol, a Lua, as estrelas e as belezas da natureza, perguntando-se maravilhada:

Quem é o patrão destas coisas tão bonitas? E sentia uma grande vontade de vê-lo, de conhecê-lo, de prestar-lhe homenagem”.

Ensina São Tomás de Aquino que “uma pessoa pode conseguir o efeito do Batismo pela força do Espírito Santo, sem Batismo de água e até sem Batismo de sangue, quando seu coração é movido pelo Espírito Santo a crer e amar a Deus e a arrepender-se de seus pecados”. 2 É o que se chama Batismo “de desejo”, ou “de penitência”. Apoiando-nos nessa doutrina, podemos supor que na alma admirativa da escrava sudanesa brilhava a luz da graça santificante, muito antes de ela receber o Batismo sacramental.

Para Bakhita, porém, apenas começara a terrível série de padecimentos que se prolongaria durante 10 anos. Tal foi o choque produzido em seu espírito pela violência do sequestro, que ela esqueceu-se até do próprio nome. Assim, quando foi interrogada pelos bandidos, não pôde pronunciar sequer uma palavra. Então um deles disse-lhe: “Muito bem. Chamar-te-emos Bakhita”. Em sua voz havia um acento irônico, uma vez que este nome, em árabe, significa “afortunada”.

Padecimentos no cativeiro

Chegando a um povoado, Bakhita foi introduzida numa cabana miserável e trancada num quarto estreito e escuro, onde permaneceu durante um mês. “Quanto eu tenha sofrido naquele lugar, não se pode dizer com as palavras”, escreveria ela mais tarde. Por fim, depois desses dias nos quais a porta não se abria senão para deixar passar um parco alimento, a prisioneira pôde sair, não para ser posta em liberdade, mas para ser entregue a um traficante de escravos que acabava de adquiri-la.

Bakhita haveria de ser vendida cinco vezes sucessivas, aos mais variados patrões, exposta nos mercados, presa pelos pés a pesadas correntes e obrigada a trabalhar sem descanso para satisfazer os caprichos de seus amos. Colocada a serviço da mãe e da esposa de um general, a jovem escrava ali enfrentou os piores anos de sua existência, como ela mesma descreve: “As chicotadas caíam em cima de nós sem misericórdia; de modo que nos três anos que estive a serviço deles, não me lembro de ter passado um só dia sem feridas, porque não havia ainda sarado dos golpes recebidos e recebia outros ainda, sem saber a causa. […] Quantos maus tratos os escravos recebem sem nenhum motivo! […] Quantas companheiras minhas de desventura morreram pelos golpes sofridos!”.

Além desses e de outros tormentos, fizeram-lhe uma tatuagem que a obrigou a permanecer imóvel sobre sua esteira por mais de um mês. Bakhita conservou até o fim da vida 144 cicatrizes sobre o corpo, além de um leve defeito ao caminhar.

Certa vez, interrogada sobre a veracidade de tudo quanto fora contado a seu respeito, ela afirmou ter omitido em suas narrativas detalhes verdadeiramente espantosos, vistos apenas por Deus e impossíveis de serem ditos ou escritos. Entretanto, a mão do Senhor não a abandonou sequer um instante. Mesmo nos piores momentos, Bakhita sentia dentro de si uma força misteriosa que a sustentava, impelindo-a a comportar-se com docilidade e obediência, sem nunca se desesperar.

Proteção amorosa de Deus

Anos mais tarde, lançando um olhar sobre seu passado, reconhecia a intervenção divina nos acontecimentos de sua vida: “Posso dizer realmente que não morri por um milagre do Senhor, que me destinava a coisas melhores”. E a Ele manifestava sua gratidão: “Se eu ficasse de joelhos a vida inteira, não diria, nunca, o bastante, toda a minha gratidão ao bom Deus”.

Prova dessa proteção amorosa de Deus, que a acompanhou desde a infância, foi a preservação de alma e de corpo na qual se manteve, mesmo em meio às torturas, sem que jamais sua castidade fosse atingida. “Eu estive sempre no meio da lama, mas não me sujei. […] Nossa Senhora me protegeu, ainda que eu não A conhecesse. […] Em várias ocasiões me senti protegida por um ser superior”.

A mudança para a Itália

Em 1882, o general que a comprara teve de retornar à Turquia, seu país, e pôs à venda seus numerosos escravos. Bakhita, fazendo jus a seu nome, logo despertou a simpatia do cônsul italiano Calixto Legnani, que se dispôs a adquiri-la. “Desta vez fui verdadeiramente afortunada, porque o novo patrão era bastante bom e começou a querer-me tanto bem”.

Embora o cônsul não pareça ter-se esforçado em iniciar nas verdades da Fé a jovem escrava, durante os anos em que esta viveu em sua casa, este período foi para ela a aurora do encontro com a Igreja. Como católico que era, Legnani tratou Bakhita com bondade. Ali não havia castigos, pancadas, nem mesmo repreensões, e ela pôde gozar da doçura característica das relações entre aqueles que procuram cumprir os mandamentos da caridade cristã.

Ante o avanço de uma revolução nacionalista no Sudão, Calixto Legnani teve de voltar para a Itália. A pedido de Bakhita, levou-a consigo. Porém, chegados a Gênova, o cônsul cedeu a jovem sudanesa a seus amigos, o casal Michieli. Assim, ela passou a morar na residência desta família, em Mirano, na região do Veneto, tendo por encargo especial o cuidado da filha, a pequena Mimina.

O encontro com seu verdadeiro Patrão e Senhor

Estando ali, Bakhita recebeu de um amável senhor, que se interessara por ela, um belo crucifixo de prata: “Explicou-me que Jesus Cristo, Filho de Deus, tinha morrido por nós. Eu não sabia quem fosse […]. Recordo que às escondidas o olhava e sentia uma coisa em mim que não sei explicar”. Pouco a pouco, a graça foi trabalhando a alma sensível da ex-escrava africana, abrindo-a para as realidades sobrenaturais que ela desconhecia.

Em sua Encíclica Spe Salvi, o Santo Padre Bento XVI assim descreve o milagre que se operou no Restos mortais de Santa Josefina Bakhita na Igreja da Sagrada Família, interior de Bakhita: em Schio, Itália “Depois de ‘patrões’ tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um ‘patrão’ totalmente diferente — no dialeto veneziano que agora tinha aprendido, chamava ‘Paron’ ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um ‘Paron’ acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo ‘Paron’ supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela ‘à direita de Deus Pai’”. 3

Uma inesperada decisão cheia de valentia

Mais sofrimentos ainda a aguardavam, embora de ordem muito diversa dos anteriormente suportados: Deus lhe pediria uma prova de sua entrega, de sua renúncia a tudo, em razão do amor a Ele, oferecida de livre e espontânea vontade.

Quando Bakhita, já instruída na Religião Católica pelas Irmãs Canossianas de Veneza, preparava-se para receber o Batismo, sua patroa quis levá-la de novo ao Sudão, onde a família Michieli resolvera fixar-se definitivamente. De caráter flexível e submisso, acostumada a se considerar propriedade de seus donos, revelou ela, naquela conjuntura, uma coragem até então desconhecida mesmo pelos seus mais próximos. Temendo que aquela volta pusesse em risco sua perseverança, negou-se a seguir sua senhora.

As promessas de uma vida fácil, a perspectiva de rever sua pátria, a profunda afeição a Mimina e a gratidão a seus amos, nada disso pôde mudar sua decisão de dar-se a Jesus Cristo para sempre. Bakhita mostrara-se sempre dócil a seus superiores. Agora manifestava de outra forma essa virtude, obedecendo mais a Deus do que aos homens (cf. At 4, 19). “Era o Senhor que me infundia tanta firmeza, porque queria fazer-me toda sua”.

A entrega definitiva a Deus

Tendo saído vitoriosa dessa batalha, Bakhita foi batizada, crismada e recebeu a Eucaristia das mãos do Patriarca de Veneza, no dia 9 de janeiro de 1890. Foram-lhe postos os nomes de Josefina Margarida Afortunada. “Recebi o santo Batismo com uma alegria que só os Anjos poderiam descrever”, narraria mais tarde.

Pouco depois, querendo selar sua entrega a Deus de maneira irreversível, solicitou seu ingresso no Instituto das Filhas da Caridade, fundado por Santa Madalena de Canossa, a quem devia sua entrada na Igreja. Na festa da Imaculada Conceição, em 1896, após cumprir seu noviciado com exemplar fervor, Josefina pronunciou seus votos na Casa-Mãe do Instituto, em Verona.

A partir daí sua vida foi um constante ato de amor a Deus, um dar-se aos outros, sem restrições, nem reservas. Ora encarregada de funções humildes, como a cozinha ou a portaria, ora enviada em missão através da Itália, a santa sudanesa aceitava com verdadeira alegria tudo quanto lhe ordenavam, conquistando a simpatia daqueles que a rodeavam, sem se cansar de dizer: “Sede bons, amai o Senhor, rezai por aqueles que não O conhecem”.

Sobre o espírito missionário de Bakhita comenta Bento XVI em sua encíclica: “A libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperança, que nascera para ela e a ‘redimira’, não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos”. 4

Submissão até o fim

Por fim, após mais de 50 anos de frutuosa vida religiosa, durante os quais suas virtudes se acrisolaram no fogo da caridade, Bakhita sentiu a morte aproximar-se. Atacada por repetidas bronquites e pneumonias que foram minando sua saúde, suportou tudo com fortaleza de ânimo. Em suas últimas palavras, proferidas pouco antes de seu falecimento, deixou transparecer o gozo que lhe enchia a alma: “Quando uma pessoa ama tanto uma outra, deseja ardentemente ir para junto dela: por que, então, tanto medo da morte? A morte nos leva a Deus”.

Em 8 de fevereiro de 1947, a Irmã Josefina recebeu os últimos Sacramentos, acompanhando com atenção e piedade todas as orações. Avisada de que aquele dia era um sábado, seu semblante pareceu iluminar-se e exclamou com alegria: “Como estou contente! Nossa Senhora, Nossa Senhora!”. Foram estas suas últimas palavras antes de entregar serenamente sua alma e encontrar-se face a face com o “Paron”, que desde pequenina ansiava por conhecer.

Seu corpo, transladado para junto da igreja, foi objeto da veneração de numerosos fiéis, que durante três dias ali afluíram, desejosos de contemplar pela última vez a querida Madre Moretta, como era carinhosamente conhecida, que com tanta bondade os tratara sempre. Miraculosamente, seus membros conservaram-se flexíveis durante esse período, sendo possível mover seus braços para pôr sua mão sobre a cabeça das crianças.

Por este meio, Santa Josefina Bakhita revelava o grande segredo de sua santidade, refletido em seu próprio corpo. A via pela qual Deus a chamara fora a da submissão heroica à vontade divina e, para a posteridade, ela deixava um modelo a ser seguido. A humildade, a mansidão e a obediência transparecem em suas palavras, numa disposição verdadeiramente sublime de sua alma: “Se encontrasse aqueles negreiros que me raptaram, e mesmo aqueles que me torturaram, ajoelhar-me-ia para beijar as suas mãos; porque, se isto não tivesse acontecido, eu não seria agora cristã e religiosa”.

1Salvo indicação em contrário, todas as citações entre aspas pertencem a DAGNINO, Ir. Maria Luísa, Bakhita racconta la sua storia. Trad. Cecília Maríngolo, Canossiana. Roma: Città Nuova, 1989. p. 38.
2Cf. Suma Teológica, III, q. 66, a.11.
3BENTO XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30/11/2007, n. 3.
4BENTO XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30/11/2007, n. 3.