A pátria da dor e da misericórdia

  Ana Laura de Oliveira Bueno – 1° ano de Ciências Religiosas

Eis o lugar onde os minutos são séculos intermináveis, onde a dor e a expiação se misturam à alegria e à consolação da esperança de poder ver a Deus num face a face eterno: o caro leitor certamente já concluiu que se trata da Igreja padecente.

De fato, ninguém merece o Céu facilmente. O purgatório é a pátria da justiça rigorosa e, ao mesmo tempo, é a pátria da infinita misericórdia de Deus: pois, para nós é uma grandíssima misericórdia encontrar, após a morte, um lugar de expiação e apesar do grande rigor da justiça divina, consola-nos a ideia de que no purgatório deve haver consolações e alegrias.

Alegrias? Pode haver neste estado onde almas, inclusive santas, passam anos num fogo expiatório – semelhante ao da negra prisão do inferno – por pecados veniais alguma alegria autêntica?

São Francisco de Sales é quem nos vai dizer que as alegrias e as consolações que de fato existem no purgatório são um bálsamo suavizante para as almas. No tocante a este assunto, o Bispo e Doutor da Igreja sintetizou alguns pontos a respeito das almas padecentes:

  1. As almas do purgatório estão numa contínua união com Deus e perfeitamente submissas à vontade d’Ele. Não podem deixar esta união divina e nunca podem contradizer a divina vontade, como infelizmente acontece conosco, neste mundo;
  2. Elas se purificam com muito amor e com muito boa vontade, porque sabem que é esta a vontade de Deus. Sofrer para fazer a vontade de Deus é uma alegria para elas.
  3. Elas querem ficar à maneira que Deus quer e quanto tempo Ele quiser.
  4. Elas são impecáveis e não podem experimentar nem o mais leve movimento de impaciência, nem cometer uma imperfeição sequer.
  5. Amam a Deus mais do que a si próprias e mais que todas as coisas e com amor muito puro e desinteressado.
  6. As almas são consoladas pelos Anjos.
  7. Elas estão seguras da sua salvação e com uma segurança que não pode ser confundida.
  8. As amarguras que experimentam são muito grandes, mas numa paz profunda e perfeita.
  9. Se, pelo que padecem, estão como numa espécie de inferno, quanto à dor, é um paraíso de doçura, quanto à caridade, mais forte do que a morte.

Com efeito, há uma esperança da salvação certa, não obstante o grande sofrimento, mormente no escuro e fundo purgatório. E a nós, filhos e filhas daquele que não admite pequenas concessões e é absolutamente intransigente em relação aos pecados veniais, vale sempre a máxima: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”. Ou seja: nossa santidade deve ser tal, que não se concebe sequer que esperemos passar por um longo purgatório! Em nossas almas não deve haver espaço para semi-fidelidades, semi-virtudes e pequenas concessões, mas antes devem ser receptáculos de um desejo radical de entrega completa ao sofrimento nesta terra de exílio e de uma cega confiança em Nossa Senhora, que abaterá todas as nossas misérias se estivermos em consonância com Ela, levando-nos ao convívio completo e eterno pelo qual tanto e tanto almejamos.

Peçamos, pois, esta graça, pela intercessão de nossos santos padroeiros e das santas almas do purgatório: retidão absoluta e santidade levada até as últimas consequências!

                            

 

38 horas no Purgatório? Ou 38 anos na Terra?

Ir. María José Vicmary Féliz Gómez
2º ano de Ciências Religiosas

Era 14 de abril de 1433, Páscoa da Ressurreição. Grande parte do povo de Shiedam, na Holanda, reunia-se diante da casa de uma moribunda.

– O que está acontecendo? – perguntou um viajante.

– É Ludovina. Hoje se completam trinta e oito anos de seu martírio.

– Ludovina? Eu já ouvi esse nome… Sempre achei que fosse uma lenda… Dizem que ela está sobrevivendo há sete anos só com a Sagrada Comunhão. Não consigo acreditar…

– Meu caro senhor, eu também não acreditava – respondeu com ar grave um homem que ouvira o diálogo. Há doze anos, tomei a decisão de acabar com a fama de santidade desta mulher, que eu julgava ser uma farsante. Passei dias e noites junto ao seu leito de dor, com a esperança de confirmar minhas suspeitas. No entanto, foi ela quem me confirmou na fé: agora não só acredito no poder da Eucaristia, como também confesso firmemente as virtudes heroicas de Ludovina.

– O senhor a reconhece então como uma santa? Pode explicar-me, por favor, a razão de tão ousada afirmação? – replicou o viajante.

– Até os quinze anos – começou o interlocutor – ela levou a vida comum das moças de sua idade. Porém, sofreu uma queda patinando no gelo e, como consequência, sua coluna vertebral quebrou-se, transformando sua vida inteiramente: paralisia completa, cegueira, contínuos vômitos, enxaquecas, febres, nervos inflamados e um abcesso dolorosíssimo no ombro esquerdo.

– Meu Deus! É um verdadeiro purgatório em vida! – exclamou assombrado o visitante.

O devoto continuou:

– Nós não fazemos ideia do que é o Purgatório. Ludovina tampouco o sabia e lamentava-se continuamente por Deus ter permitido tão horrível martírio. Foi assim até a noite em que Nosso Senhor lhe apareceu em sonho e fez-lhe uma proposta: “Como expiação dos teus pecados, o que preferes: trinta e oito horas no Purgatório ou trinta e oito anos sofrendo como estás?” E ela respondeu sem titubear: “Senhor, prefiro trinta e oito horas no Purgatório!”. Nessa mesma hora, Ludovina sentiu que morria, e começou a padecer os atrozes tormentos do lugar de purificação.

Sem embargo, vendo que as horas se escoavam e seu padecimento não terminava, aproveitou a passagem de um Anjo e perguntou-lhe:

– Por que Nosso Senhor não cumpriu o contrato feito comigo? Acho que já se passaram três mil e oitocentas horas…

O Anjo lhe respondeu:

– Crês que estás aqui há três mil e oitocentas horas? Não faz nem sequer cinco minutos que morreste! Teu corpo ainda está quente!

Aterrada, Ludovina implorou a Jesus: “Senhor, prefiro passar trinta e oito anos sofrendo como antes a ficar mais um instante neste lugar!” Nesse momento, ela acordou. A partir de então, nunca mais se queixou de seus sofrimentos. Ao contrário, amou tanto sua cruz que passou a repetir frequentemente: “Senhor, é tão séria a vossa justiça e eu a amo tanto que, se me bastasse rezar uma pequena oração para ficar curada, eu não a rezaria”.

Impressionado, o viajante caiu de joelhos. A luz que se encontrava acesa na casa apagou-se nesse momento, anunciando ao povo a partida de Ludovina para a eternidade. E dos lábios daquele que até há pouco fora um incrédulo, brotou este ato de fé: “Santa Ludovina, rogai por nós, para aprendermos a amar nossa cruz e, sobretudo, para crescermos no amor Àquele que por nós tudo sofreu!”.

No ano de 1890, o Papa Leão XIII oficializou o culto a Santa Ludovina, declarando-a padroeira dos patinadores e dos doentes.