Se conhecesses o dom de Deus

Ir Nágela Shayenne da Silva Pinheiro, EP

Certa vez, o grande pintor e escultor Michelangelo esculpiu uma estátua que representava Moisés. A imagem era de tamanho e espessura naturais e o olhar, idêntico ao do modelo. Tão real parecia que, ao contemplá-la, não se conteve e bradou: “Parla! Perché non parli?” (Fala! Por que não falas?) Ele foi capaz de fazer uma escultura perfeita, mas nela não conseguiu injetar a vida. [1]

Valendo-nos da metáfora acima, poderíamos dizer que todo homem, ao nascer, é uma estátua de Deus, pois não passa de mera criatura dotada de vida racional. Entretanto, “Deus, por sua infinita bondade, ordenou o homem a um fim sobrenatural, isto é, a participar dos bens divinos que sobrepujam totalmente a inteligência da mente humana, pois, em verdade, ‘nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem provou o que Deus preparou para os que O amam.” (1 Cor 2, 9) (Dz 1789).

Este fim sobrenatural dado por Deus àqueles que Ele criou como “sua imagem e semelhança” (Gn 1, 26) é a participação do homem na sua vida divina.

Infinitamente superior a este escultor, é Deus que deseja comunicar sua própria vida aos homens, criados livremente por Ele, para fazê-los, no seu Filho único, filhos adotivos (cf. CCE 54).

Mas, infelizmente o homem não permaneceu fiel às exigências impostas por sua elevação gratuita à ordem sobrenatural. Nosso primeiro pai, Adão, constituído “em santidade e justiça” (Dz 788), possuía a ciência infusa e o dom da integridade, pelo qual nenhum sofrimento o afetaria e passaria desta vida à eternidade sem passar pela morte. Ademais, tinha em altíssimo grau as virtudes e os dons do Espírito Santo.

Contudo, o varão predileto recebeu de Eva o fruto proibido e o comeu. Estava consumado o pecado original. No mesmo instante, foi ele despojado de todos os privilégios paradisíacos e abriu-se uma era de pobreza, de cativeiro, de cegueira e de opressão para todos os seus descendentes. Fecharam-se as portas do Céu para a humanidade, restando apenas dois destinos: limbo ou inferno.[2]ida

Todavia, séculos depois:

Deus enviou o seu anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. O Anjo disse-lhe: “Eis que conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus”. Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois eu não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: ‘O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Então, disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1, 26-28.31.34-35.37)

Neste mesmo instante, o Filho de Deus, por obra do Espírito Santo, encarnou-Se nas puríssimas entranhas desta Virgem Santíssima, sem deixar de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A divina justiça exigia uma reparação; por isso, tendo Se encarnado, quis Ele assumir sobre Si os crimes e misérias de toda a humanidade. Iniciou-se, deste modo, a redenção do gênero humano.[3]

A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14) para que todos pudessem ter vida, e não uma vida meramente natural, mas sim a sobrenatural, a graça. Deus quis nos divinizar, conforme afirma São Tomás.[4]

Explica Monsenhor João Clá Dias que isso se dá não à maneira de um reboco em uma parede, que não a modifica no seu interior, mas como se alguém injetasse ouro nos tijolos, a ponto de se poder dizer “parede de ouro”. Esta figura, segundo o referido autor, é pobre para exprimir o que se passa em uma alma quando lhe é infundida a vida divina.[5]

E é através da instituição dos Sacramentos feita pelo Divino Redentor que o homem pode usufruir dos benefícios que Deus lhe reservou desde toda a eternidade.

Atualmente postos em uma crise de decadência moral e dos costumes, os cristãos desconhecem os sacramentos – batismo, crisma, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio –, julgando muitas vezes serem práticas familiares, ou até mesmo supersticiosas, não compreendendo os benefícios, as graças que por meio deles são dispensadas e os auxílios que eles proporcionam para os combates espirituais que todo batizado trava ao longo de sua vida.

Vive-se em um  mundo ávido de paz exterior, mas que não orienta e direciona as almas para um píncaro de perfeição que traria consigo a solução de muitos problemas.

 [1] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Eternidade feliz. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano A. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. I. p. 111.

[2] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Jesus prega em Nazaré. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos dominicais. Domingos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum – Ano C. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. VI. p. 43.

[3] Cf. SÃO PIO X. Catecismo Maior. Goiás: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2005, p. 325.

[4] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 112, a.1.

[5]Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O Batismo que conquistou nosso Batismo. In: O inédito sobre os Evangelhos. Op. cit. p. 169.

Adorarás o Senhor teu Deus

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Lê-se no Antigo Testamento que as pessoas, ao observarem os astros do céu, a abóbada estrelada ou a água impetuosa, ficavam cativadas por sua beleza , tomando-os  por deuses (cf. Sb 13, 2-4). Devido à grandeza de cada um dos elementos da criação, o pensamento humano, ao meditá-los, se eleva. Entretanto, vários povos se extraviaram por não  terem reconhecido o Artífice a partir de suas obras (cf. Dt 4, 15). Por esta razão, Moisés proibiu os judeus de levantarem os olhos e adorarem o sol e a lua,. Isso nos mostra que ante o “Criador do céu e da terra“, como rezamos no Credo, a atitude imediata do homem é de adoração.

O Pe. Antonio Royo Marin, OP explica que a adoração é ” o ato externo da virtude da religião pelo qual se testemunha a honra e reverência merecida pela excelência infinita de Deus, e a completa submissão a Ele“.1 Este excelso nível de louvor também é conhecido como latria. Em seu sentido absoluto só pode ser oferecida a cada uma das Pessoas da Santíssima Trindade. Relativamente esse culto também é dado à Eucaristia, às partículas autênticas do Lignum Crucis (Santo Lenho) e às outras relíquias da sagrada paixão, já que essas últimas têm impregnadas o preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.2

Ao adorar a Deus, o homem reconhece sua miséria e a grandeza do Dono de tudo o que existe. Referindo-se a esse nada das criaturas, pergunta Santo Agostinho: “Que merecimentos poderiam Vos apresentar o céu e a terra para que no princípio os tivésseis criado? […] Que me digam o que eles mereceram para receber de Vós esse ser3 E depois conclui: “Nenhuma coisa diante de Vós poderia merecer o dom da criação, visto que não existia para merecê-lo“.4

Neste sentido, Tomás de Aquino enumera as razões pelas quais nunca devemos nos excluir da adoração que é devida a Deus.5 No entanto, essas também nos ajudam a entender porque o ser humano é dócil para reverenciar ao seu Senhor. Na vida comum, qualquer tipo de dignidade merece certo reconhecimento por parte da sociedade. Por esse motivo, se uma pessoa não concede ao presidente de um país o respeito que lhe é devido, é considerado um traidor. Desse modo, isso acontece com Deus, mas em um nível infinitamente maior, já que Ele é superior a todos. Assim diz o Salmo: “Deus é grande e digno de louvor” (Sl 95, 4).

Se todos os nossos bens materiais e espirituais nos vêm de Deus, conclui São Tomás de Aquino que seríamos muito ingratos se não reconhecêssemos o que d’Ele recebemos e não O adorarmos. Em relação a essa gratidão, Santo Agostinho expressa que todos nós devemos ao Sumo Bem sermos muito bons, já que é Ele quem nos quis chamar à existência.6

Por outro lado, a adoração tem um grande relacionamento com o primeiro mandamento. Esse preceito diz: “Adorarás o Senhor teu Deus e O servirás” (Dt 6, 13). Dessa maneira, Deus Pai exigiu de Moisés e do povo de Israel o que por justiça Lhe corresponde e indistintamente o exige de todas as gerações futuras. O Catecismo da Igreja Católica explica que todas as pessoas são criadas à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26), e que,por este motivo, têm a vocação de manifestar Deus pelo seu agir (cf. CCE 2085).

Em suma, devemos ser zelosos para que nosso coração e nossa reverência sejam totalmente para Aquele que merece que “se dobre todo joelho nos céus, na terra e nos abismos” (Fl 2, 10). Tomemos o excelso exemplo de Maria Santíssima que, através de suas palavras no Magnificat, nos leva a ter um verdadeiro espírito humilde e grato ante as grandes misericórdias de nosso Deus e não cessa de O adorar.

1 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para Seglares. 3. ed. Madrid: BAC, 1964, v. I, p. 284.
2 Ibid. p. 285.
3 SAN AGUSTÍN. Confissões. L. XIII, c. 2, a. 2. (Tradução da autora).4 SAN AGUSTÍN. Confissões. L. XIII, c. 2, a. 3. (Tradução da autora).
5 SANTO TOMÁS DE AQUINO. A luz da Fé. Lisboa: Verbo, 2002, p. 153.
6 SAN AGUSTÍN. Confissões. L. XIII, c. 2, a. 2.