Ezequiel, profeta da esperança

EzequielProfeta1Julieta Neves

Entre as eficazes e magníficas formas de Deus comunicar-se, há uma que particularmente nos atrai, é a palavra divina dirigida aos homens através de varões providenciais no decorrer das eras históricas; ademais se acompanhada por um exemplo de vida reta e justa. Para melhor delinearmos esse manifestar-se do Pai-Celeste, tomemos um profeta do antigo testamento: Ezequiel.

Ezequiel, o profeta das analogias, surge numa época terrível para o povo judeu: o exílio da Babilônia. As saudades de Jerusalém e o desejo de recuperar a vida que levava na Cidade Santa mantinham-no numa completa melancolia. “Junto aos rios da Babilônia nos sentávamos chorando, com saudades de Sião. Nos salgueiros por ali penduramos nossas harpas” (Si 136, 1-2).

A cada dia, cumpriam-se os terríveis oráculos outrora lançados pelo profeta Jeremias. Que esperança restava aos judeus?

No trigésimo ano do reinado de Joaquim, rei de Israel, no dia quinto do quarto mês, estando os deportados nas margens do rio Quebar, a palavra do Senhor é dirigida a um levita que compartilhava junto com seus irmãos a sorte do exílio. Precedido por um terrível furacão, aparecem quatro seres vivos, segurando uma enorme plataforma e, em cima, um trono esplendoroso. A glória do Senhor manifestou-se no meio deles e, entretanto, só a um foi permitido ver tão alto mistério.

Ilustre sacerdote da ordem de Melquisedec, Ezequiel é investido por Deus com uma altíssima missão profética. Para pô-la em prática, Deus lhe deu uma força extraordinária e tirou de sua alma todo e qualquer medo, como atesta o seguinte trecho de seu livro: “Tornarei o teu semblante tão endurecido quanto o deles; vou dar a teu rosto a rigidez do diamante, que é mais resistente que a rocha. Não os temas, pois, e não te deixes amedrontar por causa deles, pois são uma raça de recalcitrantes” (Ez 3, 8-9).

Ezequiel rompeu definitivamente com o passado, conclamando o povo de Israel a fazer o mesmo. Que coragem e que valentia teve este varão para animar um povo inteiro! Devia, como seu nome indica, confortar os desterrados de Jerusalém, atestando, apesar de tudo indicar o contrário, que Deus tinha feito uma nova aliança com eles: “Eu vos retirarei do meio das nações, eu vos reunirei de todos os lugares, e vos conduzirei ao vosso solo. Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas abominações. Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne.” (Ez 36,24-26)

Em certo sentido, a sua missão foi mais dura que a de Jeremias, por não contar mais com o privilégio de profetizar no Templo. Da “Cidade de Deus, a mais santa Morada do Altíssimo” (Sl 46, 5) não sobrava mais do que escombros e cinzas. Seu campo de ação teve de ser a praça pública, no meio dos idólatras e dos incircuncisos.

Entre as suas revelações, a visão do Templo (Cf Ez 43, 5) foi uma das mais importantes por tratar-se de uma prefigura da Igreja. A glória do Senhor tinha se retirado da cidade em ruínas porque não podia brilhar junto com a fraude e a idolatria. A construção de um novo Templo, desta vez no alto da montanha, a protegeria do contato com o profano.

Graças à sua pregação, os deportados compreenderam a gravidade do seu pecado e o justo castigo que Deus lhes impunha.

Ezequiel morreu antes de ver o seu ideal realizado, mas as suas profecias foram cumpridas: em breve Deus viria no meio deles e habitaria no seu Santuário para sempre.