O “sensus pulchrum”: chave do relacionamento com Deus

montefuji1-horzIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

A emoção estética faz com que o espírito humano se abra para a transcendência. O maravilhamento ante a beleza serve, muitas vezes, como pedestal para a ação da graça, transformando repentinamente numa experiência mística sobrenatural a luz que brilha no plano natural.

Definir o que seja a beleza é uma intricada tarefa. Afinal, como diz o adágio popular, “gosto não se discute”… E se isto sempre foi difícil, mais ainda resulta hoje, num mundo globalizado que se movimenta em torno da máxima informação no mínimo de espaço e de tempo.

Com efeito, agitada por constantes e profundas renovações tecnológicas, nossa sociedade mundializou a cultura, mas à custa de tornar onipresente uma estética irrefletida, escrava dos impulsos e das sensações passageiras, vazia de significado, quando não extravagante.

Corre-se o risco, afirma Bento XVI, de considerar a vida como uma mera sucessão de fatos e experiências, em detrimento da busca da verdade, do bem e da beleza, que nos proporcionam a felicidade e a alegria. Porém, os homens não podem ser vistos “como meros consumidores num mercado de possibilidades indiferenciadas, onde a escolha em si mesma se torna o bem, a novidade se contrabandeia como beleza e a experiência subjetiva suplanta a verdade”.1

Portanto, hoje mais do que nunca é oportuno perguntar: é a beleza uma simples questão de gosto? Devemos renunciar definitivamente a dar-lhe um sentido objetivo e passar a analisá-la sob o prisma de uma psicologia individualista? Até que ponto seu conceito é influenciado pela política ou pela economia, com seus peculiares interesses de mercado? Altera-se sua essência com a voragem das modas cambiantes e contraditórias, tão própria de uma sociedade de consumo? Ou há uma maior profundidade filosófica nesta questão, que envolve a existência humana e sua finalidade, e a torna objetiva?

Nossa sociedade parece ter relegado ao esquecimento os valores transcendentais2 — verdade, bem e beleza —, gravados por Deus no fundo da alma do homem. Ora, significa isso ter ele perdido definitivamente a disposição natural de admirar, de buscar a beleza? Cremos que não. Parece-nos, pelo contrário, que a saturação informativa e sensorial do nosso dia a dia torna a alma dos nossos contemporâneos mais sequiosa do que nunca desses valores.

Uma intuição do belo e do bem

Conta Mons. João Scognamiglio Clá Dias que, há alguns anos, estando em Paris, observou uma cena muito expressiva, apesar de sua aparência corriqueira: duas meninas brincavam num jardim público, correndo de um lado para outro. Era visível serem irmãs, uma maiorzinha, com seus sete anos, e outra menor, quiçá com apenas três. Em determinado momento, a menor começou a correr sobre um dos canteiros floridos, onde era proibido pisar, e sua irmã admoestou-a: “Madeleine, ce n’est pas beau!” — “Madalena, isto não é belo!”. Foi o suficiente para a pequena parar e dar meia volta, corada e desconcertada.3

O que fez essa menina, ainda sem idade para ter o pleno uso da razão, ficar envergonhada por haver realizado um ato que não era belo? Por que sua irmã não lhe disse: “Madeleine, ce n’est pas bien!” — “Madalena, isto não está bem”? Como sabe a criança que o mal é feio e errado? Por que, já desde a aurora de sua existência nesta Terra, a criatura racional relaciona o bem com a beleza? É a criança um pequeno “filósofo”, que sabe fazer uso dos conceitos transcendentais?

Tal exemplo demonstra possuir o homem intuições que fazem transparecer a riqueza de uma realidade talvez pouco notada. E descortina o amplo panorama da natureza humana, com suas capacidades e potências, tocando num ponto chave do existir do homem: sua transcendentalidade e seu relacionamento com as realidades metafísico-espirituais, ou seja, a abertura de sua alma para além da matéria visível.

Os instintos espirituais

Com efeito, existem no ser do homem — por ser este uma criatura inteligente — “instintos espirituais” que se manifestam justamente quando ele começa a ter conhecimento de que existe, pela noção de seu próprio ser e do ser de tudo aquilo com o que entra em contato.4 Esta noção, sumamente substanciosa, é como o alimento próprio de sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental. Se suas apreensões não fossem verdadeiras e reais, enlouqueceria.

Este conhecimento começa a se pôr em evidência quando a criança abre os olhos para a luz, distinguindo seu ser do ser de sua mãe, mas dela dependente; percebendo que o chocalho é real e verdadeiro, pois escuta seu ruído; que o leite lhe satisfaz a sensação de fome, sendo por isso bom; que a luz e as cores são atraentes e belas, entretendo-a e fazendo com que ela queira conhecer e aprender mais e mais. Tem ela uma intuição de que sempre há algo mais para conhecer, para além daquela realidade que vê e apreende experimentalmente, ainda sem compreender conceitualmente qualquer expressão abstrata e formal. Em nenhuma época se aprende tanto como quando se é criança, e esta não dissocia o entreter-se do compreender. “Neste nosso mundo de seres ao qual ela acaba de aportar, o ser do homem desabrocha e exclama por consonância com a verdade, bondade e beleza dos seres que observa”.5

Sendo prévio a qualquer raciocínio com princípios claros e estabelecidos, esse conhecimento do próprio ser e do ser inteligível e verdadeiro das coisas sensíveis é, todavia, uma apreensão intelectual ainda confusa, sem explicitações racionais, e se dá na inteligência espontânea, chamada habitualmente de senso comum. Ela admite verdades e princípios a respeito dos quais o homem não se equivoca, tais como o de identidade e seu corolário, o de contradição — cada ser é o que é e não pode ser outra coisa; o de causalidade — todo efeito supõe uma causa; ou o de finalidade — todo agente obra por fim, que é o seu próprio bem.

Esta intuição, chamada sindérese, é um hábito da razão com o qual os homens nascem, não o adquirem pela repetição dos atos 6 ou por um dom divinamente infuso. Ela permite conhecer estes primeiros princípios, bem como perceber as propriedades transcendentais de todos os entes. Entretanto, como os demais atos intelectuais, este hábito exige o desenvolvimento da inteligência. Poderia ser chamado de protoconsciência, como um selo de lógica, verdade, bem e beleza presente na alma humana, pois impulsiona ao bem, censurando o mal, impulsionando, por conseguinte, à verdade e à beleza, e admoestando seus contrários ou opostos.

O papel dos sentidos na percepção da beleza

São Tomás admite o argumento aristotélico de que nada existe no intelecto sem antes haver passado pelos sentidos, considerando-o apenas na ordem da natureza e não da graça, pois esta última não está subjugada às leis naturais. Deste modo, afirma ele que, sendo o homem composto de matéria e espírito, “todo conhecimento tem sua origem nos sentidos”7, pois os dados da experiência sensível tornam-se inteligíveis pela ação do intelecto, que os abstrai e eleva à condição de realidades imateriais e espirituais.

Dentre os sentidos externos, há dois que são superiores, a visão e a audição. Segundo o Angélico, é verdade que se diz sons e imagens belas, mas não perfumes, sabores ou texturas belas8. Esses dois sentidos são, portanto, os que abrem para a razão a via de acesso ao belo, que nele se deleita, pois o belo, na concepção tomista é “id quod visum placet — aquilo que, visto, agrada”9.

Não obstante, a beleza não se restringe à percepção sensorial, sendo percebida pelo homem, também, em todas as suas dimensões espirituais, uma vez que esta percepção é intrínseca a seu próprio ser. Os sentidos externos são instrumentos para a percepção sensível, porém, é o intelecto que, por assim dizer, “lê” o belo das coisas, em razão de sua verdade e bem.

Aparece claramente, então, a transcendentalidade da beleza, que tem algo em comum com a verdade e a bondade, pois manifesta a relação da coisa bela com o espírito, despertando um prazer espiritual, ainda que seja na contemplação da beleza sensível, pois só é possível captar a beleza, enquanto tal, espiritualmente. Por este motivo, não é raro, diante de algo muito belo, uma pessoa ficar sem ter o que dizer. Ela compreende e capta a mensagem, nem tendo necessidade do conceito estético. E é pela mesma razão que, em sentido oposto, a pequena Madeleine identificou uma ação de si mesma má e errada, por romper com as regras estabelecidas, como feia.

O “sensus pulchrum”

É por isso que há no ser humano uma espécie de atração, um magnetismo pela beleza, já manifesto na mais tenra infância, pelo qual a criança busca as coisas bonitas nos seus primeiros contatos com estas. É clássico o exemplo das bolinhas de cores diferentes que são apresentadas a um bebê para com elas brincar. Ele vai escolher primeiro a de cor mais viva e atraente. Só depois se interessará pelas outras. Assim, vemos que esta espécie de instinto do belo é o ponto de partida para encontrar, de modo quase subconsciente, a verdade e o bem.

Isso porque a beleza não é senão o esplendor de todos os transcendentais reunidos. Ou, como afirma Vilela, é “o ‘splendor veri’ dos platônicos, o ‘splendor ordinis’ de Santo Agostinho; e mais: é dizer que ela é ‘splendor boni’ e ‘splendor perfectionis’. […] É o resplendor do ser, do ser que é um, através de sua perfeição, de sua verdade e de sua bondade resplandecentes, enquanto apreendido esse resplendor, pela inteligência, e enquanto essa apreensão é fonte de alegria para a vontade. E para o homem todo, já que no homem as coisas entram no espírito pelos sentidos. Daí ser a beleza tão envolvente!”10.

Von Balthasar corrobora inteiramente tal pensamento: “Nossa palavra inicial se chama beleza. A beleza, última palavra à qual pode chegar o intelecto reflexivo, já que é a auréola de resplendor indelével que rodeia a estrela da verdade e do bem e sua indissociável união”11.

Mons. João faz uma interessante analogia a tal respeito: assim como as plantas possuem o instinto da procura do sol — o heliotropismo —, a criança tem “um agudo senso do maravilhoso que a atrai ao belo, devido ao qual ela olha com indiferença aquilo que não satisfaça seu desejo neste sentido. Essa espécie de ‘kaloi-tropismo’ [atração pelo belo] indica que, ao lado dos diversos transcendentais, o pulchrum tem um papel absolutamente insubstituível para a conservação e o aperfeiçoamento do primeiro olhar sobre o ser”12.

A essa espécie de instinto espiritual da beleza chamamos de “sensus pulchrum”.

A percepção do belo como via para o relacionamento com Deus

É possível deduzir, por todo o exposto, que a beleza é conatural ao homem, assim como ele é conatural ao bem, sua finalidade última. É por esse instinto da alma — o sensus pulchrum — que ele percebe o perfeito, o proporcionado e o luminoso. E no conhecimento de todas as coisas, encontra como que “degraus” que o elevam mais nessa “escada” da busca do bem e da beleza — e também da verdade — compreendendo que deve haver um arquétipo de tudo: a Verdade, o Bem e a Beleza em substância. A cada passo, seu espírito se deleita e se aquieta na contemplação, pois, afirma São Tomás, “pertence à essência do belo que, com sua vista ou conhecimento, se aquiete o apetite”13.

Contudo, tal apetite nunca se sente plenamente satisfeito nesta Terra. Provido de inteligência e vontade, o homem tem necessidade de conhecer e amar com sede de infinito, pois, dentro do limite da matéria, seu espírito busca o ilimitado. O limite repugna ao homem; à natureza humana apetece a plenitude.

Plinio Corrêa de Oliveira recorre a uma metáfora muito interessante para explicar este fenômeno, utilizando-se da imagem do monte Fuji, no Japão, o qual se eleva de forma imponente numa paisagem encantadora. No entanto, por ser de origem vulcânica, à sua forma cônica, regular e perfeita, falta o vértice. Vendo essa imagem de cone truncado, tem-se a tendência de logo imaginar o pico que o completaria. Ele fazia a analogia desta tendência com a busca da perfeição no homem: está sempre à procura dos “cones do Fujiyama”, não só de si mesmo, mas também de todas as coisas, algo que os aperfeiçoe e assemelhe à Perfeição Absoluta, que é Deus, dando-lhe a clave da impostação de sua alma nesta vida terrena.14

Muitas vezes, entretanto, preso às realidades concretas e temporais, busca o homem nas criaturas esse vértice que lhe falta, sem êxito, encontrando apenas a frustração, pois as coisas deste mundo tão somente fazem parte de um conjunto cuja cúspide se encontra no Céu, onde está Quem lhe poderá saciar a sede de infinito. Tal é a admoestação que faz o livro da Sabedoria: “Se tomaram essas coisas por deuses, encantados por sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez estas coisas. Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte; pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor” (Sb 13, 3-5).

basilica-sao-pedro1-horzPortanto, a percepção da beleza, o encanto e o maravilhamento com algo belo levam a perceber a Deus, que não é senão o Autor de toda a beleza, sendo Ele próprio a Beleza em si mesma. Dessa maneira, na contemplação das belezas da grandeza do mar ou do silêncio das montanhas, do céu estrelado, de uma paisagem deserta ou de uma fonte, dá-se um conhecimento experimental, movendo os sentidos externos e internos, num autêntico processo estético e místico: “Não custa trabalho ver em tudo isso a caligrafia do Criador”15.

Santo Agostinho, o grande cantor da beleza, também afirma falarem as coisas criadas, em si mesmas, de Deus: a beleza das coisas as transcende e revela o Criador, pois, se são belas as coisas que fez, quanto mais belo será quem as fez16. E esta é uma das principais inquietudes dos homens: pela “obra de arte” conhecer o “Artista”. De grau em grau, pela admiração e maravilhamento, a razão vai galgando a montanha do concreto em direção a seu “cone”, o imponderável, seguindo as pegadas desse Artista, para tentar penetrar em seus mistérios e com Ele relacionar-se.

Maravilhar-se: um ato de religião

Desse modo, podemos afirmar com Soto Posada que o “gozo estético não é meramente sensível ou inteligível, mas tem um plano moral e religioso”17. O agrado — o placet que São Tomás afirma provocar no ser do homem o conhecimento da beleza — se dá porque “como todo ser participa do ser de Deus, gozar de sua beleza é gozar de Deus: a experiência estética se faz fruição teológica e mística”18. A experiência estética, a admiração, o assombro diante da beleza que placet torna-se, então, uma ponte para a espiritualidade, pois a sede de infinito do homem só será saciada no encontro com Deus. Maravilhar-se é, pois, um ato de religião. Nas imortais e belas palavras de Santo Agostinho: “Tu nos fizeste para Ti, Senhor, e irrequieto está nosso coração enquanto em Ti não repousar”19.

Esta concepção se fez sentir de modo especial nas artes medievais, que eram feitas de maneira a maravilhar o homem e ajudá-lo a entrar em contato com Deus. Umberto Eco, analisando a arte e a estética na Idade Média — na qual foram desenvolvidos os problemas estéticos a partir da Antiguidade Clássica, sob um prisma cristão —, é da opinião de que esse significado novo dado ao tema do belo só se tornou possível porque esta concepção de beleza cristã foi introduzida no sentimento do homem, do mundo e da divindade. O filósofo medieval não falava de todos esses conceitos de modo abstrato, mas o remetia a coisas concretas e seu campo de interesse estético era muito mais amplo que o dos dias atuais, porque estava estimulado pela consciência da beleza como dado metafísico. O homem moderno superestima as artes plásticas, porque perdeu esse sentido de beleza inteligível. Para os medievais, a beleza inteligível constituía uma realidade moral e psicológica, e a cultura da época ficaria insuficientemente iluminada se não tomasse em conta este fator.20

A consequência de tal mentalidade medieval foi que se degustava o belo com a finalidade de amar a Deus, por isso havia uma inclinação — secundária, no sentido de que era em função desse amor —, um “amor ornamenti, às igrejas suntuosas, ao belo canto e à bela música”21 , sem desprezar a beleza moral, também “sensível”, presente nos ascetas e místicos.

O flash: clave para alcançar a santidade

Não cabe dúvida, então, de que a emoção estética, a admiração — o sensus pulchrum em ação — abre o espírito humano para a luz da transcendência. Por isso, muitas vezes, esse maravilhamento pode ser uma espécie de pedestal para a ação de uma graça, uma luz que brilha repentinamente, e a alma sai do plano natural para ter uma experiência mística sobrenatural.

É ainda Plinio Corrêa de Oliveira quem definia essa contemplação ou experiência mística como sendo um flash, uma graça que parte do Espírito Santo, iluminando a alma, como um maravilhamento, à semelhança da emoção estética22. O motivo da escolha da palavra flash, segundo ele, é porque “assim como na hora de tirar uma fotografia é produzida pela máquina uma luz intensa e rápida, cujo repentino clarão permite fixar a imagem e sem o qual ela não se fixaria, assim também essa graça atua à maneira de um flash, emitindo uma luz intensa. Essa luz faz a ‘objetiva’ de nossa alma ver e gravar aspectos que normalmente não veria ou não gravaria. Essa figura, tirada de um aspecto técnico da vida contemporânea, ilustra didaticamente este fenômeno sobrenatural”23.

Pode-se dizer, analogamente, que a percepção estética também seria como um flash que ilumina a sensibilidade e a inteligência, maravilhando, agradando — “id quod visum placet” — e aquietando o apetite instintivo do ser humano. O sensus pulchrum, sendo o motor deste assombro, do maravilhamento, do flash, torna-se a chave para abrir as portas do ser do homem para seu encontro e relacionamento com Deus, a quem o homem busca por instinto espiritual e conaturalidade, uma vez que busca a Verdade, o Bem e a Beleza na plenitude, encontrando a santidade.

A beleza salvará o mundo?

Tem a beleza, portanto, a capacidade de abrir a mente e o coração do homem para o encontro com Deus, sua salvação, a quem procura quiçá sem saber. A partir da experiência do encontro com o belo, por meio desse assombro, desse maravilhamento, desse flash, abre-se para a humanidade uma Via Pulchritudinis, a qual “não se pode reduzir a um confronto filosófico. Porém, a observação do metafísico ajuda a compreender por que a beleza é uma via real para conduzir a Deus”24. É uma forma superior de conhecimento, que “desperta o homem para a real estatura da verdade”, a verdade bela, “a verdade que redime”, que em Cristo iluminou “o mundo de beleza criado pela fé”, e na face dos santos “sua própria luz se torna visível”25, pois a famosa beleza que salva, de Dostoievski, não é outra senão a beleza redentora do Salvador.

Apesar dessa linguagem atualmente apresentar um esteticismo globalizado e afastado da verdadeira ideia de beleza — como vimos no início destas linhas —, o sensus pulchrum continua latente nos corações dos homens e é através dele que se abre a possibilidade de seu resgate e de sua salvação, para por meio dele encontrar-se com Deus.

Com palavras cheias de esperança, assegura Mons. João: “O homem de hoje não perdeu a capacidade de admirar, por mais que a sociedade lhe faça muitos outros convites. É preciso proporcionar-lhe ocasiões para, maravilhando-se, discernir nas coisas aquilo que elas têm de belo, de bom e de verdadeiro, ou sua ausência, e com isto poder voltar-se para o essencial: Deus”26.

Fica, portanto, aqui um convite aos nossos leitores: que eles possam ser testemunhos vivos de toda a explanação doutrinária aqui desenvolvida, e não façam calar seu sensus pulchrum, maravilhando-se e abrindo-se para esta transcendência e para o flash — pois só a espiritualidade da beleza, chamada kalós pelos gregos, pode fazer o homem reencontrar-se com a presença da Beleza Divina —, tornando-se teokalófaros, na feliz expressão de Arboleda Mora. Diz este que quem porta algo é porque possui esse algo. Assim, “alguns dos primeiros monges da Igreja antiga eram conhecidos pela santidade de sua vida e por isso o povo os denominava teóforos — portadores de Deus. Quem expressa através de sua vida a beleza de Deus, bem pode ser chamado teokalóforo — portador da beleza de Deus”27. Quem encontra e ama, possui o que ama, e deve ser, portanto, portador do que possui.

É neste sentido que podemos definitivamente terminar com Dostoievski, com toda propriedade: “a beleza salvará o mundo”! Pois, se “a alma maravilhável é uma alma maravilhosa, capaz de fazer maravilhas”28, com almas maravilháveis e maravilhosas, que se relacionam e se unem a Deus, reconhecendo a maravilha da criação e da redenção, maravilhas podem ser feitas neste mundo e a face da Terra pode ser renovada.

1BENTO XVI. Welcoming Celebration by the Young People Address of His Holiness Benedict XVI. Barangaroo, Sydney Harbour, 17/07/2008.
2Todo ente possui algumas qualidades inerentes ao seu próprio ser, que são suas propriedades intrínsecas, as quais vão além, transcendem a ordem categorial. E, como tais, acrescentam algo ao conhecimento do ente, estando sempre presentes nele e intimamente ligadas entre si. São chamadas, por isso, de transcendentais e costuma-se reduzi-las a quatro: unum, verum, bonum, pulchrum — a unidade, a verdade, o bem e a beleza. Sobre este tema, ver FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás: Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. 2.ed. Pamplona: Fundación Gratis Date, 2005, p.66-74.
3Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. La “primera mirada” del conocimiento y la educación: un estudio de casos. Tese de Mestrado em Psicologia. Bogotá: Universidade Católica de Colômbia (UCC). Faculdade de Psicologia, 2009, p.112.
4Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q.5, a.2.
5CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. O primeiro olhar da inteligência. In: Lumen Veritatis. São Paulo. Ano III. N.12 (Jul.- Set., 2010); p.14.
6Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., I, q.79, a.12.
7Idem, I, q.1, a.9.
8Cf. Idem, I-II, q.27, a.1, ad.3.
9Idem, I, q.5, a.4, ad.1.
10VILELA. Orlando O. Alma criadora de símbolos. 2.ed. Belo Horizonte: Diálogo, 1954, p.100-101.
11VON BALTHASAR, Hans Urs. Gloria: Una estética teológica. La percepción de la forma. Madrid: Encuentro, 1985, p.22.
12CLÁ DIAS, La “primera mirada” del conocimiento y la educación: un estudio de casos, op. cit., p.110.
13SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., I-II, q.27, a.1, ad.3.
14Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Contemplar o “cone do Fujiyama” — ver as coisas na sua ordem ideal paradisíaca: Palestra. São Paulo: 10 nov. 1989.
15VON BALTHASAR, Hans Urs. El problema de Dios en el hombre actual. 2.ed. Madrid: Castilla, 1966, p.139.
16Cf. SANTO AGOSTINHO. Sermo CXLI, c.2, n.2: ML 38, 776; Enarratio in Psalmo CXLVIII, n.15: ML 36, 1947.
17SOTO POSADA, Gonzalo. La estética medieval. In: Cuestiones Teológicas y Filosóficas. Medellín. UPB. N.43-44 (1989); p.171.
18SOTO POSADA, Gonzalo. El arte y el artista en la Baja Edad Media. In: Cuestiones Teológicas. Medellín. UPB. v.XXXV, N.83 (Jan.-Jun., 2008); p.136.
19SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.I, c.1, n.1: ML 32, 661.
20Cf. ECO, Umberto. Arte y belleza en la estética medieval. 2.ed. Barcelona: Lumen, 1999, p.13-14.
21Idem, p.15.
22Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A fidelidade ao alcandorado: Palestra. São Paulo, 16 jun. 1978.
23CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O “flash”, o que é?: Conferência. São Paulo: 15 maio 1973.
24PONTIFÍCIO CONSELHO DA CULTURA. Concluding Document of the Plenary Assembly – 27-28 March 2006 – The Via pulchritudinis. Beauty as a Way for Evangelisation and Dialogue. 2, 2.2. In: Culture e Fede. Civitas Vaticana: Pontificium Consilium de Cultura, 2006, v.XIV/2, p.121.
25RATZINGER, Joseph. A beleza e a verdade de Cristo. In: Communio. Revista Internacional de Teologia e Cultura. v.XXVII, N.4 (Out.-Dez., 2008); p.920; 924.
26CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Beleza e Nova Evangelização. In: Lumen Veritatis. São Paulo. Ano IV. N.14 (Jan.-Mar., 2011); p.25.
27ARBOLEDA MORA, Carlos Ángel. Um carisma encantador. Os Arautos do Evangelho como teokalófaros. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.99 (Mar., 2010); p.36.
28CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A admiração é a nossa estrela de Belém: Palestra. São Paulo, 13 maio 1988.

Resgate da metafísica e volta da transcendência: saudades do Absoluto?

Cristo Rey val_4Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Ainda que não queira, o homem não deixou de ser homem e continua tendo, no fundo de seu ser racional, aquela noção simpliciter, naturalmente incerta, de sua causa e fundamento: um Ser Absoluto. É um conhecimento que pode ser comparado ao de uma pessoa que sabe que alguém vem, mas não conhece a este que vem. E a questão do homem de hoje é que não lhe é manifesta, pela inteligência, a percepção de que alguém está vindo. Porém, a ideia deste Absoluto ― Deus, que não é objeto só da inteligência, senão que de outras dimensões do ser humano, não a excluindo, mas envolvendo a numa forma distinta de especulação1 ―, permanece latente em seu ser. É a “brasa que ainda fumega” na mente desordenada do homem hodierno. E quando este se desperta para buscar e conhecer o fundamento último para toda sua experiência real e possível, e quer ir atrás e mais além de qualquer dessas experiências, torna a ser um metafísico.

Analisando a história da civilização ocidental ― para restringir o campo de observação ―, é fato evidente e objetivo que os homens ambicionaram tal conhecimento por mais de vinte e cinco séculos. E ainda quando, supostamente, demonstraram que não o deveriam procurar mais e se comprometeram a não voltar a fazê-lo, se encontram buscando-o novamente2, numa acepção autenticamente tomista, que considerava o conhecimento de Deus como a sabedoria por excelência (S.T. I, q.1, a.6): “merece o título de sábio aquele cujas especulações versam acerca da causa suprema do Universo, quer dizer, de Deus”3. É um resgate da metafísica ou um “tomismo”, meio subconsciente, que começa a reviver nas mentes, antes mesmo que na filosofia, o que ocorreu em meados do século antepassado.

A modernidade saturou o homem de razão, que passou a sentir falta da Fé e da moral. Havendo-se fartado de ideologias materialistas, racionais e subjetivas, em que o Absoluto é um “Acaso” que forja circunstâncias para esmagar o destino que supostamente escolheu com liberdade, através de fatos fortuitos e imprevisíveis4, o homem começa a ter nostalgia da transcendência que lhe proporcionava a Fé. Porém, quem se estabelece firme na Fé, não vê inconveniente em compreender racionalmente o que crê5, e sua nostalgia é desta união. Este é o eixo do pensamento tomista, que distingue a Fé e a Razão, unindo-as harmonicamente.
Maritain6 reconhece que a modernidade, amando a inteligência e tendo abusado dela, só poderia agora ser curada por ela; porém não por ela sozinha. E sendo São Tomás o santo da inteligência, mas que conduz toda a Razão à luz da Fé ― “luz que ilumina racionalmente o homem que vem do mundo e luz que ilumina sobrenaturalmente o homem regenerado na fé”, com sua filosofia de existências e não de essências, que vem das intuições naturais da experiência sensível e da inteligência ―, coloca esta mesma Fé em relações vitais e orgânicas com o mundo da afetividade, instintividade e emoção, bem como o da vontade ou do suprarracional, numa concepção humanista cristã que respeita verdadeiramente a grandeza original do homem, descendo às raízes do ser humano, num ascenso metafísico ao Ser Absoluto: a via metafísica por excelência7.

Na realidade, ao afirmar que o conhecimento natural de Deus se faz a partir do mundo sensível, em que os efeitos remontam à causa ― “Deus naturali cognitione cognoscitur per phantasmata effectus sui” ― São Tomás reconhece que a causalidade é débil, pois um efeito finito é desproporcionado a uma Causa infinita, mas encontra sua força na analogia, a única ponte por onde se pode passar do mundo a Deus8. Ao contrário, como foi visto, rompendo esta linha de pensamento que vinha desde os gregos, passando por São Tomás e chegando até Descartes ou Newton, que reconheciam o princípio supremo de inteligibilidade da natureza como sendo Deus, Kant afirma, em seu criticismo, que uma vez que Deus não é objeto apreendido nas formas apriorísticas da sensibilidade ― espaço e tempo ―, não é possível referir-Lhe senão como categoria de causalidade, pois não é objeto do conhecimento humano. E o homem estabeleceu sua existência apenas pelas exigências da razão prática9.

Ora, abandonar tal questão por considerá-la imprópria na ordem dos conhecimentos positivos é cortar a raiz da especulação referente à natureza e existência de Deus, produzindo uma postura radicalmente nova do homem com relação à verdade, que é a do princípio de imanência, oposto à transcendência10. Portanto, segundo Gilson, a questão se decide entre Kant e São Tomás, pois todas as demais posições que o seguiram são somente “hospedarias ou paradas no caminho que leva ao agnosticismo religioso total ou à teologia natural da metafísica cristã”11.

Mas a humanidade, de modo geral, mantém o establishment em que se fixou desde os tempos modernos, pois o avanço das tecno-ciências ― as telecomunicações, a medicina, a biotecnologia e tantos ramos da ciência ―, sobretudo nos séculos XIX e XX, trouxe-lhe um enorme progresso que a deixou inebriada.

No entanto, entrados já uma década no século XXI, vemos como o progresso em mãos inescrupulosas pode transformar-se em algo terrível: o mal. Se ao progresso técnico-científico não corresponde um progresso ético-religioso do homem, não é verdadeiro progresso, mas uma ameaça para o próprio homem e para o mundo12. E é a mesma ciência, cheia de ares de confiança em si, que se encontra vulnerável, uma vez que tantos cientistas, longe de encontrar resposta para tudo, estão dispostos a admitir que sua visão do Universo está longe de ser completa e que provavelmente nunca o seja13, e se voltam para o transcendente.

“A ciência e a tecnologia encontram sua justificação no serviço que devem render ao homem e à humanidade, e a ciência racional deve estar unida com uma série de esferas do conhecimento amplamente aberto aos valores espirituais”14. O velho sonho moderno de substituir a filosofia e a teologia pela ciência fracassou. Contudo, permanece uma inquietude transcendental no homem, que é intrínseca a seu próprio ser, e nem sequer a ciência a pode tirar, pois a Razão está criada para a verdade e a Fé assalta a inteligência, porque expõe tal verdade15.

Com a razão saturada, o homem começa a dar-se conta de todos esses fracassos, e sente uma insegurança crescente diante da ameaça das forças da própria natureza, que parece disposta a desencadear-se para arrastar consigo seu incauto explorador, bem como percebe que o caminho que se havia aberto a seus olhos como sendo o da suprema liberdade, tornou-se, ao contrário, o de sua última alienação16. A inquietude em busca da verdade se reaviva, e como afirma Edith Stein: “quem procura a verdade procura a Deus, ainda que não o saiba”17.

Essa inquietude vem do instinto do infinito, da busca do Absoluto inerente à alma humana, conforme analisado no início deste artigo. E aquilo que é natural intrinsecamente, quando se rompe por um fator externo, cedo ou tarde tende a voltar com mais força do que antes, como tão bem o explicitam os franceses: Chassez le naturel, il revient au galop! ― Rompei o que é natural e ele voltará a galope!

A nostalgia de Deus habita no coração do homem. É como um espinho cravado em sua carne… Santo Agostinho começa suas Confissões com um brado que talvez sintetize todo o seu livro e muito reflete o homem hodierno, confundido em meio ao caos de sua mente, com tantas filosofias e pensamentos contraditórios ― ele mesmo quase sem pensamento, com a perda da integridade de seu lumen rationis ―, saturado de razão, deixando-se arrastar pelos acontecimentos, mas sentindo em seu ser a angústia de explicar-se a si mesmo e transcender: “Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-Vos. Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós”18.

1 1 ZUBIRI, Xavier. Introducción al problema de Dios. Em: Naturaleza, Historia, Dios. Madrid: Alianza, 1987. p.408.
2GILSON, Étienne. La unidad de la experiencia filosófica. Citado por: GONZÁLEZ, Ángel Luis. Ser y participación: estudio sobre la cuarta vía de Tomás de Aquino. 3a. ed. Pamplona: Eunsa, 2001. p.16.
3GILSON, Étienne. Dios y la filosofía. Buenos Aires: Emecé, 1945. p.92-95.
4CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O valor de uma renúncia: artigo publicado em ‘O Legionário’, no. 97, 08/05/1932, p.4. Em: Opera Omnia: Reedição de escritos, pronunciamentos e obras. São Paulo: Retornarei, 2008. p.364-365.
5GILSON, Étienne. A filosofia da Idade Média. 2a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.291-292.
6MARITAIN, De Bergson a Thomas d’Aquin, Op. Cit., p.107-111.
7GONZÁLEZ, Op. Cit., p.226.
8MANSER, G. M. La esencia del tomismo. Madrid: Selecciones Gráficas, 1953. p.535-536.
9GILSON, Dios y la filosofía, Op. Cit., p.123-127.
10FABRO, Cornelio. Santo Tomás frente al desafío del pensamiento moderno. Em: FABRO, Cornelio e outros. Tomás de Aquino, también hoy. 2a. ed. Pamplona: Eunsa, 1990. p.16.
11GILSON, Dios y la filosofía, Op. Cit., p.128.
12BENTO XVI. Spe Salvi. Em: Revista Arautos do Evangelho. São Paulo. No. 73 (Jan., 2008); p. 8.
13JOHNSON, George. Ahora la ciencia piensa en Dios. [Em linha]. Em: Clarín. Buenos Aires. No.161 (Ago., 1998). [Consulta: 26 Dez., 2008].
14JOÃO PAULO II. Discurso a los representantes de la ciencia, de la cultura y de los altos estudios en la Universidad de las Naciones Unidas. No.12 [Em linha]. [Consulta: 10 Dez., 2008].
15RATZINGER, Joseph. Dios y el mundo: creer y vivir en nuestra época. Buenos Aires: Sudamericana, 2005. p.40.
16ABRO, Santo Tomás frente al desafío del pensamiento moderno, Op. Cit., p.17-18.
17AGUILÓ, Alfonso. É razoável crer? São Paulo: Quadrante, 2006. p.8.
18SANTO AGOSTINHO. Confissões. L.I, c.1.

Beleza: transcendência que leva a Deus

Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP
Catedral de Colônia

Ontologicamente, podemos afirmar com SãoTomás que o senso do ser relaciona-se sempre com os transcendentais, que estão em todos os seres, em qualquer nível que seja. Estas seriam as propriedades do ser enquanto tal: unum, bonum, verum, pulchrum ― unidade, bondade, verdade e beleza. Quando um ente é o que deve ser, ou seja, possui a verdade em sua essência, é também bom e, de acordo com a esfera a que pertence, é belo, santo, nobre ou útil. E sendo os transcendentais aspectos do ser, formam uma unidade com ele, considerados em sua realidade metafísica, inseparáveis entre si e a negligência de um deles seria uma catástrofe para os outros. A beleza é o esplendor dos transcendentais reunidos.

No entanto, o homem, enquanto ser, também tem em si os transcendentais e sua vida não é uma mera sucessão de feitos e experiências. Sendo racional, sua vida é a busca da verdade, do bem e da beleza. E para esse fim, exerce sua liberdade, pois aí se encontra sua alegria. Sendo composto de corpo e alma, matéria e espírito, inseparáveis, necessita das exterioridades para através dos sentidos conhecer o mundo não só por sua inteligência, mas também pela sua vontade e sensibilidade.

O simbolismo é, portanto, universalmente humano, comum a todas as culturas; entre os homens a linguagem figurada é o natural. Os sentidos são alcançados por essa linguagem e a audição, visão, olfato e tato, são especialmente tocados pela beleza do materializado. Inicialmente, pela beleza das coisas criadas, para depois encontrar o sentido na luz do fundamento de toda a beleza, a beleza Suprema, autora de todas as outras. Assim, do homo simbolicus,considerado pela perspectiva antropológica do Sagrado, visualiza-se o homo religiosus, porque o homem é religioso em sua natureza.

Santo Agostinho dizia que as coisas criadas de si mesmas falam de Deus. E essa foi uma das principais preocupações dos filósofos, que pela “arte” conhece-se o “Artista”. Para ele, a beleza das coisas revelam a Deus, pois “se as coisas que fez são tão belas, quanto mais belo é Aquele que as fez”. Bento XVI, na Austrália, lembrou aos jovens da Jornada Mundial da Juventude esse pensamento e comentou que vendo a diversidade da natureza, do mar Mediterrâneo, passando pelo deserto Africano e pelas florestas asiáticas, até a vastidão do Pacífico, sentiu um reverente temor, porque à frente de tal beleza só poderia repetir as palavras do salmista: “Senhor, nosso Deus, quão admirável é o teu nome em toda a terra” (Sl 8. 2).

Ao longo do tempo, o homem foi materializando e exteriorizando sua concepção artístico-religiosa através dos símbolos, da arte, arquitetura, música e ritos, construindo sua cultura. No Ocidente, a base desta foi o cristianismo. Não foi por mera casualidade que os povos cristãos têm sido, de longe, os mais inovadores e criativos em todos os campos da cultura.

Assim, a realidade construída por símbolos, mostrava a arte como uma forma de conhecimento tão séria como a ciência. Mas Kant a divorciou desta, abrindo a era do racionalismo puro; o conhecimento passou a ser empírico, ajustando-se às experiências do homem, e a beleza tornou-se subjetiva. No século XVIII, com Alexander Baumgarten, surgiu o termo estética, de origem grega, significando sensação, sentimento.

Isso gerou a estetização do mundo. No século XIX, cultura passou a significar o progresso humano contínuo e ascendente, acrescentando os conhecimentos do homem, refletidos no crescimento da filosofia, da ciência e da estética. Mas, atualmente, a cultura sofreu tantas transformações, que não se sabe bem para onde o mundo caminha, tudo depende da sensação e do mercado. A Estética separou-se completamente da cultura e da religião, perdendo a memória histórica da humanidade. Segundo Paulo VI: “o divórcio entre o evangelho e a cultura é sem dúvida o drama do nosso tempo”.

Na concepção Tomista, beleza é o que agrada a vista enquanto harmonioso e proporcional. Os sentidos se comprazem nas coisas bem proporcionadas, estando de acordo com a razão, uma vez que beleza é o amor que faz ver a verdade e o bem de todas as coisas . É belo tudo o que realiza sua natureza ideal. Já a feiúra é a ausência de beleza, o que não está de acordo com um fim.

A perspectiva contemporânea e subjetiva de estetização do mercado é : o que me apraz é belo e o que não me apraz é feio. Passa a existir um julgamento do gosto, mediante o qual adota-se uma atitude ante o objeto estético que não é o assentimento dado a uma verdade (lógica), nem a aprovação ou desaprovação que se faz de uma ação (ética). É uma espécie de agrado ou desagrado estético que se expressa em um julgamento: agrada-me, apetece-me, não me agrada, não me apetece.

O caos do mundo hodierno, provocado pela confusão nas mentes, também confundiu a beleza em si com a mera estética. A globalização é uma realidade e apresenta um mundo que não é senão a estética da saturação, do excesso, da máxima informação no mínimo de espaço e de tempo. A sociedade, assim globalizada, norteada por constantes e profundas renovações tecnológicas, perdeu a crença nos mega-relatos e na racionalidade como fundamento do conhecimento. Nela se despertam a subjetividade e a emoção, a virtualidade, as sub-culturas crescentes, favorecendo uma nova percepção cosmológica da realidade .

O homem ― crendo-se senhor de si mesmo ― se deixou enganar e passou a ser visto como mero consumidor no mercado de possibilidades indiferenciadas, onde a escolha em si mesma passou a ser o bem, a novidade aparenta ser a beleza e a experiência subjetiva suplanta a verdade.

Assim, o belo perdeu seus fundamentos e se reduziu a bem de consumo. No grande mercado da “aldeia global” atual desapareceram os signos de beleza: a máscara da propaganda parece triunfar sobre a verdade e a beleza últimas, revelando sua aparente “morte”. Em um mundo sem beleza, o bem perde sua força de atração e a verdade sua força de conclusão lógica.

É preciso reeducar as pessoas da “civilização da imagem”, ensinando por meio do belo a praticar a admiração e o elevar-se ao Criador, ao mesmo tempo metódica e degustativamente, partindo da figura e tendendo, por meio desta, a uma reflexão que nunca se distancia inteiramente da imagem, nem sequer no seu ponto terminal . A beleza tem um força pedagógica própria quando introduz eficazmente no caminho da verdade . É preciso descobrir o invisível a partir do visível. Este é o papel da beleza e da ordem, buscando as qualidades do Universo que impulsionam a olhar para o alto, onde está a beleza, libertando o homem das cadeias da massificação. Ela se manifesta nas multiformes maravilhas da natureza, mas também se traduz nas obras humanas, reflexos de seu espírito ― obras de arte, literatura, música, pintura e artes plásticas ―, bem como se faz apreciar, sobretudo, na conduta moral, nos bons sentimentos.

Hoje se necessita da beleza para não cair no desespero ― já dizia Paulo VI , no final do Concilio Vaticano II ―, e este é o caminho para encontrar a verdade e a bondade, que estão no coração do Evangelho. A beleza provoca emoções, põe em movimento um dinamismo de profunda transformação interior no homem, engendrando alegria e sentimentos de plenitude, desejo de participar livremente na mesma beleza, que passa a fazer parte de seu próprio interior, integrando-a em sua existência concreta . Só a espiritualidade da beleza pode reencontrar a Beleza Suprema.

A estética da mensagem determina a sua eficácia. “O belo que se comunica belamente chega mais rápido e mais profundamente ao receptor. A beleza comove e move o coração. A salvação para este mundo estetizado é a espiritualidade da beleza para, assim, reencontrar a beleza.

Escreve João Paulo II em sua carta aos artistas: “Ante a sacralidade da vida e do ser humano, ante as maravilhas do universo, a única atitude apropriada é o assombro, e a beleza é o que pode provocar este assombro que entusiasma. Os homens de hoje e amanhã têm necessidade deste entusiasmo para afrontar e superar os desafios cruciais que se avistam no horizonte. Precisamente neste sentido foi dito, com profunda intuição, que a ‘beleza salvará o mundo’. A beleza é o segredo do mistério e a chamada ao transcendente”.