“O precioso vinho espiritual da santidade”

Ir. Daniela Chacaliaza, EP

Imaginemos que fôssemos contratados para um novo emprego e ninguém nos explicasse o que deveríamos fazer; difícil seria poder exercê-lo com competência.  Ou, então, que comprássemos um aparelho eletrônico de manuseio complicado e que, dentro da caixa, não encontrássemos o manual de instruções. Certamente, nosso desapontamento não seria pequeno, pois quão difícil seria colocá-lo em funcionamento. Que alivio se achássemos um manual!

Na  vida quotidiana, vemos, com frequência, que os homens redigem manuais para facilitar o desenvolvimento dos afazeres humanos. Se isto é assim com os homens, não seria possível que o Criador do Universo, o nosso Pai Celestial, nos privasse de modelos para podermos exercer o papel mais importante desta vida: conquistar o Céu através da luta quotidiana.

Desta maneira, o Altíssimo nos deu um manual que, quando visto e lido através dos olhos d’Ele, é um farol que nos ensina a trilhar os caminhos da vida. Este guia é a natureza. Ora, toda a Obra da Criação foi feita para, de uma ou de outra forma, servir ao homem.

Pousemos, então, nosso olhar num fruto maravilhoso da terra que Deus quis utilizar como matéria para o Sacramento mais sublime: a uva que, depois de passar por certo processo, se transforma em vinho.

Ao analisar o procedimento que se realiza para obter um saboroso vinho, vemos que as uvas devem passar, por assim dizer, por certas circunstâncias difíceis: ao ser levadas ao lagar, elas são esmagadas — pisadas, literalmente —, para produzir esta bebida. Ademais, é um fato digno de ser considerado e ressaltado que não é em todo tempo que as uvas dão seus produtos mais insignes. Existe uma época específica do ano em que a videira dá seus melhores frutos. Curiosamente, enquanto os outros alimentos que a terra produz precisam de um terreno fértil, a boa videira prefere solo seco e pedregoso. Quer dizer, para obter um vinho de boa qualidade, é preciso a videira ter nascido em condições aparentemente adversas.

Assim também é o ser humano. Para florescerem heróis, muitas vezes, Deus permite e quer que estes passem, in tempore opportuno, pelas situações mais adversas e por dores tremendas. De fato, a História nos prova quão mais valiosos são os varões ou mulheres que foram submetidos pela Providência a terríveis sofrimentos e provações. Sendo esta terra um vale de lágrimas, é preciso que os homens passem pelas cruzes para alcançar o prêmio esperado.

“E, de fato, tal como o fruto da videira necessita ‘sofrer’ e ‘esperar’ para alcançar o requinte de seu próprio sabor, assim é o ser humano: para adquirir a plenitude de sua personalidade, não requer comodidades nem prazeres, mas padecimentos e docilidade à vontade divina. O sofrimento é, pois, um valioso bem para o homem. […] Com a dor, o ser humano sai de seu egoísmo, compreende a sua contingência e se abre para o sobrenatural. […] O sofrimento bem aceito produz o precioso vinho espiritual da santidade”.[1] E assim, seguindo o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, é pela cruz que o homem chegará à luz.

[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Editorial. Dr. Plinio, São Paulo, ano 14, n. 164, nov. 2011, p. 4.

O “sensus pulchrum”: chave do relacionamento com Deus

montefuji1-horzIrmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

A emoção estética faz com que o espírito humano se abra para a transcendência. O maravilhamento ante a beleza serve, muitas vezes, como pedestal para a ação da graça, transformando repentinamente numa experiência mística sobrenatural a luz que brilha no plano natural.

Definir o que seja a beleza é uma intricada tarefa. Afinal, como diz o adágio popular, “gosto não se discute”… E se isto sempre foi difícil, mais ainda resulta hoje, num mundo globalizado que se movimenta em torno da máxima informação no mínimo de espaço e de tempo.

Com efeito, agitada por constantes e profundas renovações tecnológicas, nossa sociedade mundializou a cultura, mas à custa de tornar onipresente uma estética irrefletida, escrava dos impulsos e das sensações passageiras, vazia de significado, quando não extravagante.

Corre-se o risco, afirma Bento XVI, de considerar a vida como uma mera sucessão de fatos e experiências, em detrimento da busca da verdade, do bem e da beleza, que nos proporcionam a felicidade e a alegria. Porém, os homens não podem ser vistos “como meros consumidores num mercado de possibilidades indiferenciadas, onde a escolha em si mesma se torna o bem, a novidade se contrabandeia como beleza e a experiência subjetiva suplanta a verdade”.1

Portanto, hoje mais do que nunca é oportuno perguntar: é a beleza uma simples questão de gosto? Devemos renunciar definitivamente a dar-lhe um sentido objetivo e passar a analisá-la sob o prisma de uma psicologia individualista? Até que ponto seu conceito é influenciado pela política ou pela economia, com seus peculiares interesses de mercado? Altera-se sua essência com a voragem das modas cambiantes e contraditórias, tão própria de uma sociedade de consumo? Ou há uma maior profundidade filosófica nesta questão, que envolve a existência humana e sua finalidade, e a torna objetiva?

Nossa sociedade parece ter relegado ao esquecimento os valores transcendentais2 — verdade, bem e beleza —, gravados por Deus no fundo da alma do homem. Ora, significa isso ter ele perdido definitivamente a disposição natural de admirar, de buscar a beleza? Cremos que não. Parece-nos, pelo contrário, que a saturação informativa e sensorial do nosso dia a dia torna a alma dos nossos contemporâneos mais sequiosa do que nunca desses valores.

Uma intuição do belo e do bem

Conta Mons. João Scognamiglio Clá Dias que, há alguns anos, estando em Paris, observou uma cena muito expressiva, apesar de sua aparência corriqueira: duas meninas brincavam num jardim público, correndo de um lado para outro. Era visível serem irmãs, uma maiorzinha, com seus sete anos, e outra menor, quiçá com apenas três. Em determinado momento, a menor começou a correr sobre um dos canteiros floridos, onde era proibido pisar, e sua irmã admoestou-a: “Madeleine, ce n’est pas beau!” — “Madalena, isto não é belo!”. Foi o suficiente para a pequena parar e dar meia volta, corada e desconcertada.3

O que fez essa menina, ainda sem idade para ter o pleno uso da razão, ficar envergonhada por haver realizado um ato que não era belo? Por que sua irmã não lhe disse: “Madeleine, ce n’est pas bien!” — “Madalena, isto não está bem”? Como sabe a criança que o mal é feio e errado? Por que, já desde a aurora de sua existência nesta Terra, a criatura racional relaciona o bem com a beleza? É a criança um pequeno “filósofo”, que sabe fazer uso dos conceitos transcendentais?

Tal exemplo demonstra possuir o homem intuições que fazem transparecer a riqueza de uma realidade talvez pouco notada. E descortina o amplo panorama da natureza humana, com suas capacidades e potências, tocando num ponto chave do existir do homem: sua transcendentalidade e seu relacionamento com as realidades metafísico-espirituais, ou seja, a abertura de sua alma para além da matéria visível.

Os instintos espirituais

Com efeito, existem no ser do homem — por ser este uma criatura inteligente — “instintos espirituais” que se manifestam justamente quando ele começa a ter conhecimento de que existe, pela noção de seu próprio ser e do ser de tudo aquilo com o que entra em contato.4 Esta noção, sumamente substanciosa, é como o alimento próprio de sua inteligência, pois é o que lhe permite conhecer todas as coisas, garantindo-lhe a sanidade mental. Se suas apreensões não fossem verdadeiras e reais, enlouqueceria.

Este conhecimento começa a se pôr em evidência quando a criança abre os olhos para a luz, distinguindo seu ser do ser de sua mãe, mas dela dependente; percebendo que o chocalho é real e verdadeiro, pois escuta seu ruído; que o leite lhe satisfaz a sensação de fome, sendo por isso bom; que a luz e as cores são atraentes e belas, entretendo-a e fazendo com que ela queira conhecer e aprender mais e mais. Tem ela uma intuição de que sempre há algo mais para conhecer, para além daquela realidade que vê e apreende experimentalmente, ainda sem compreender conceitualmente qualquer expressão abstrata e formal. Em nenhuma época se aprende tanto como quando se é criança, e esta não dissocia o entreter-se do compreender. “Neste nosso mundo de seres ao qual ela acaba de aportar, o ser do homem desabrocha e exclama por consonância com a verdade, bondade e beleza dos seres que observa”.5

Sendo prévio a qualquer raciocínio com princípios claros e estabelecidos, esse conhecimento do próprio ser e do ser inteligível e verdadeiro das coisas sensíveis é, todavia, uma apreensão intelectual ainda confusa, sem explicitações racionais, e se dá na inteligência espontânea, chamada habitualmente de senso comum. Ela admite verdades e princípios a respeito dos quais o homem não se equivoca, tais como o de identidade e seu corolário, o de contradição — cada ser é o que é e não pode ser outra coisa; o de causalidade — todo efeito supõe uma causa; ou o de finalidade — todo agente obra por fim, que é o seu próprio bem.

Esta intuição, chamada sindérese, é um hábito da razão com o qual os homens nascem, não o adquirem pela repetição dos atos 6 ou por um dom divinamente infuso. Ela permite conhecer estes primeiros princípios, bem como perceber as propriedades transcendentais de todos os entes. Entretanto, como os demais atos intelectuais, este hábito exige o desenvolvimento da inteligência. Poderia ser chamado de protoconsciência, como um selo de lógica, verdade, bem e beleza presente na alma humana, pois impulsiona ao bem, censurando o mal, impulsionando, por conseguinte, à verdade e à beleza, e admoestando seus contrários ou opostos.

O papel dos sentidos na percepção da beleza

São Tomás admite o argumento aristotélico de que nada existe no intelecto sem antes haver passado pelos sentidos, considerando-o apenas na ordem da natureza e não da graça, pois esta última não está subjugada às leis naturais. Deste modo, afirma ele que, sendo o homem composto de matéria e espírito, “todo conhecimento tem sua origem nos sentidos”7, pois os dados da experiência sensível tornam-se inteligíveis pela ação do intelecto, que os abstrai e eleva à condição de realidades imateriais e espirituais.

Dentre os sentidos externos, há dois que são superiores, a visão e a audição. Segundo o Angélico, é verdade que se diz sons e imagens belas, mas não perfumes, sabores ou texturas belas8. Esses dois sentidos são, portanto, os que abrem para a razão a via de acesso ao belo, que nele se deleita, pois o belo, na concepção tomista é “id quod visum placet — aquilo que, visto, agrada”9.

Não obstante, a beleza não se restringe à percepção sensorial, sendo percebida pelo homem, também, em todas as suas dimensões espirituais, uma vez que esta percepção é intrínseca a seu próprio ser. Os sentidos externos são instrumentos para a percepção sensível, porém, é o intelecto que, por assim dizer, “lê” o belo das coisas, em razão de sua verdade e bem.

Aparece claramente, então, a transcendentalidade da beleza, que tem algo em comum com a verdade e a bondade, pois manifesta a relação da coisa bela com o espírito, despertando um prazer espiritual, ainda que seja na contemplação da beleza sensível, pois só é possível captar a beleza, enquanto tal, espiritualmente. Por este motivo, não é raro, diante de algo muito belo, uma pessoa ficar sem ter o que dizer. Ela compreende e capta a mensagem, nem tendo necessidade do conceito estético. E é pela mesma razão que, em sentido oposto, a pequena Madeleine identificou uma ação de si mesma má e errada, por romper com as regras estabelecidas, como feia.

O “sensus pulchrum”

É por isso que há no ser humano uma espécie de atração, um magnetismo pela beleza, já manifesto na mais tenra infância, pelo qual a criança busca as coisas bonitas nos seus primeiros contatos com estas. É clássico o exemplo das bolinhas de cores diferentes que são apresentadas a um bebê para com elas brincar. Ele vai escolher primeiro a de cor mais viva e atraente. Só depois se interessará pelas outras. Assim, vemos que esta espécie de instinto do belo é o ponto de partida para encontrar, de modo quase subconsciente, a verdade e o bem.

Isso porque a beleza não é senão o esplendor de todos os transcendentais reunidos. Ou, como afirma Vilela, é “o ‘splendor veri’ dos platônicos, o ‘splendor ordinis’ de Santo Agostinho; e mais: é dizer que ela é ‘splendor boni’ e ‘splendor perfectionis’. […] É o resplendor do ser, do ser que é um, através de sua perfeição, de sua verdade e de sua bondade resplandecentes, enquanto apreendido esse resplendor, pela inteligência, e enquanto essa apreensão é fonte de alegria para a vontade. E para o homem todo, já que no homem as coisas entram no espírito pelos sentidos. Daí ser a beleza tão envolvente!”10.

Von Balthasar corrobora inteiramente tal pensamento: “Nossa palavra inicial se chama beleza. A beleza, última palavra à qual pode chegar o intelecto reflexivo, já que é a auréola de resplendor indelével que rodeia a estrela da verdade e do bem e sua indissociável união”11.

Mons. João faz uma interessante analogia a tal respeito: assim como as plantas possuem o instinto da procura do sol — o heliotropismo —, a criança tem “um agudo senso do maravilhoso que a atrai ao belo, devido ao qual ela olha com indiferença aquilo que não satisfaça seu desejo neste sentido. Essa espécie de ‘kaloi-tropismo’ [atração pelo belo] indica que, ao lado dos diversos transcendentais, o pulchrum tem um papel absolutamente insubstituível para a conservação e o aperfeiçoamento do primeiro olhar sobre o ser”12.

A essa espécie de instinto espiritual da beleza chamamos de “sensus pulchrum”.

A percepção do belo como via para o relacionamento com Deus

É possível deduzir, por todo o exposto, que a beleza é conatural ao homem, assim como ele é conatural ao bem, sua finalidade última. É por esse instinto da alma — o sensus pulchrum — que ele percebe o perfeito, o proporcionado e o luminoso. E no conhecimento de todas as coisas, encontra como que “degraus” que o elevam mais nessa “escada” da busca do bem e da beleza — e também da verdade — compreendendo que deve haver um arquétipo de tudo: a Verdade, o Bem e a Beleza em substância. A cada passo, seu espírito se deleita e se aquieta na contemplação, pois, afirma São Tomás, “pertence à essência do belo que, com sua vista ou conhecimento, se aquiete o apetite”13.

Contudo, tal apetite nunca se sente plenamente satisfeito nesta Terra. Provido de inteligência e vontade, o homem tem necessidade de conhecer e amar com sede de infinito, pois, dentro do limite da matéria, seu espírito busca o ilimitado. O limite repugna ao homem; à natureza humana apetece a plenitude.

Plinio Corrêa de Oliveira recorre a uma metáfora muito interessante para explicar este fenômeno, utilizando-se da imagem do monte Fuji, no Japão, o qual se eleva de forma imponente numa paisagem encantadora. No entanto, por ser de origem vulcânica, à sua forma cônica, regular e perfeita, falta o vértice. Vendo essa imagem de cone truncado, tem-se a tendência de logo imaginar o pico que o completaria. Ele fazia a analogia desta tendência com a busca da perfeição no homem: está sempre à procura dos “cones do Fujiyama”, não só de si mesmo, mas também de todas as coisas, algo que os aperfeiçoe e assemelhe à Perfeição Absoluta, que é Deus, dando-lhe a clave da impostação de sua alma nesta vida terrena.14

Muitas vezes, entretanto, preso às realidades concretas e temporais, busca o homem nas criaturas esse vértice que lhe falta, sem êxito, encontrando apenas a frustração, pois as coisas deste mundo tão somente fazem parte de um conjunto cuja cúspide se encontra no Céu, onde está Quem lhe poderá saciar a sede de infinito. Tal é a admoestação que faz o livro da Sabedoria: “Se tomaram essas coisas por deuses, encantados por sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez estas coisas. Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte; pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor” (Sb 13, 3-5).

basilica-sao-pedro1-horzPortanto, a percepção da beleza, o encanto e o maravilhamento com algo belo levam a perceber a Deus, que não é senão o Autor de toda a beleza, sendo Ele próprio a Beleza em si mesma. Dessa maneira, na contemplação das belezas da grandeza do mar ou do silêncio das montanhas, do céu estrelado, de uma paisagem deserta ou de uma fonte, dá-se um conhecimento experimental, movendo os sentidos externos e internos, num autêntico processo estético e místico: “Não custa trabalho ver em tudo isso a caligrafia do Criador”15.

Santo Agostinho, o grande cantor da beleza, também afirma falarem as coisas criadas, em si mesmas, de Deus: a beleza das coisas as transcende e revela o Criador, pois, se são belas as coisas que fez, quanto mais belo será quem as fez16. E esta é uma das principais inquietudes dos homens: pela “obra de arte” conhecer o “Artista”. De grau em grau, pela admiração e maravilhamento, a razão vai galgando a montanha do concreto em direção a seu “cone”, o imponderável, seguindo as pegadas desse Artista, para tentar penetrar em seus mistérios e com Ele relacionar-se.

Maravilhar-se: um ato de religião

Desse modo, podemos afirmar com Soto Posada que o “gozo estético não é meramente sensível ou inteligível, mas tem um plano moral e religioso”17. O agrado — o placet que São Tomás afirma provocar no ser do homem o conhecimento da beleza — se dá porque “como todo ser participa do ser de Deus, gozar de sua beleza é gozar de Deus: a experiência estética se faz fruição teológica e mística”18. A experiência estética, a admiração, o assombro diante da beleza que placet torna-se, então, uma ponte para a espiritualidade, pois a sede de infinito do homem só será saciada no encontro com Deus. Maravilhar-se é, pois, um ato de religião. Nas imortais e belas palavras de Santo Agostinho: “Tu nos fizeste para Ti, Senhor, e irrequieto está nosso coração enquanto em Ti não repousar”19.

Esta concepção se fez sentir de modo especial nas artes medievais, que eram feitas de maneira a maravilhar o homem e ajudá-lo a entrar em contato com Deus. Umberto Eco, analisando a arte e a estética na Idade Média — na qual foram desenvolvidos os problemas estéticos a partir da Antiguidade Clássica, sob um prisma cristão —, é da opinião de que esse significado novo dado ao tema do belo só se tornou possível porque esta concepção de beleza cristã foi introduzida no sentimento do homem, do mundo e da divindade. O filósofo medieval não falava de todos esses conceitos de modo abstrato, mas o remetia a coisas concretas e seu campo de interesse estético era muito mais amplo que o dos dias atuais, porque estava estimulado pela consciência da beleza como dado metafísico. O homem moderno superestima as artes plásticas, porque perdeu esse sentido de beleza inteligível. Para os medievais, a beleza inteligível constituía uma realidade moral e psicológica, e a cultura da época ficaria insuficientemente iluminada se não tomasse em conta este fator.20

A consequência de tal mentalidade medieval foi que se degustava o belo com a finalidade de amar a Deus, por isso havia uma inclinação — secundária, no sentido de que era em função desse amor —, um “amor ornamenti, às igrejas suntuosas, ao belo canto e à bela música”21 , sem desprezar a beleza moral, também “sensível”, presente nos ascetas e místicos.

O flash: clave para alcançar a santidade

Não cabe dúvida, então, de que a emoção estética, a admiração — o sensus pulchrum em ação — abre o espírito humano para a luz da transcendência. Por isso, muitas vezes, esse maravilhamento pode ser uma espécie de pedestal para a ação de uma graça, uma luz que brilha repentinamente, e a alma sai do plano natural para ter uma experiência mística sobrenatural.

É ainda Plinio Corrêa de Oliveira quem definia essa contemplação ou experiência mística como sendo um flash, uma graça que parte do Espírito Santo, iluminando a alma, como um maravilhamento, à semelhança da emoção estética22. O motivo da escolha da palavra flash, segundo ele, é porque “assim como na hora de tirar uma fotografia é produzida pela máquina uma luz intensa e rápida, cujo repentino clarão permite fixar a imagem e sem o qual ela não se fixaria, assim também essa graça atua à maneira de um flash, emitindo uma luz intensa. Essa luz faz a ‘objetiva’ de nossa alma ver e gravar aspectos que normalmente não veria ou não gravaria. Essa figura, tirada de um aspecto técnico da vida contemporânea, ilustra didaticamente este fenômeno sobrenatural”23.

Pode-se dizer, analogamente, que a percepção estética também seria como um flash que ilumina a sensibilidade e a inteligência, maravilhando, agradando — “id quod visum placet” — e aquietando o apetite instintivo do ser humano. O sensus pulchrum, sendo o motor deste assombro, do maravilhamento, do flash, torna-se a chave para abrir as portas do ser do homem para seu encontro e relacionamento com Deus, a quem o homem busca por instinto espiritual e conaturalidade, uma vez que busca a Verdade, o Bem e a Beleza na plenitude, encontrando a santidade.

A beleza salvará o mundo?

Tem a beleza, portanto, a capacidade de abrir a mente e o coração do homem para o encontro com Deus, sua salvação, a quem procura quiçá sem saber. A partir da experiência do encontro com o belo, por meio desse assombro, desse maravilhamento, desse flash, abre-se para a humanidade uma Via Pulchritudinis, a qual “não se pode reduzir a um confronto filosófico. Porém, a observação do metafísico ajuda a compreender por que a beleza é uma via real para conduzir a Deus”24. É uma forma superior de conhecimento, que “desperta o homem para a real estatura da verdade”, a verdade bela, “a verdade que redime”, que em Cristo iluminou “o mundo de beleza criado pela fé”, e na face dos santos “sua própria luz se torna visível”25, pois a famosa beleza que salva, de Dostoievski, não é outra senão a beleza redentora do Salvador.

Apesar dessa linguagem atualmente apresentar um esteticismo globalizado e afastado da verdadeira ideia de beleza — como vimos no início destas linhas —, o sensus pulchrum continua latente nos corações dos homens e é através dele que se abre a possibilidade de seu resgate e de sua salvação, para por meio dele encontrar-se com Deus.

Com palavras cheias de esperança, assegura Mons. João: “O homem de hoje não perdeu a capacidade de admirar, por mais que a sociedade lhe faça muitos outros convites. É preciso proporcionar-lhe ocasiões para, maravilhando-se, discernir nas coisas aquilo que elas têm de belo, de bom e de verdadeiro, ou sua ausência, e com isto poder voltar-se para o essencial: Deus”26.

Fica, portanto, aqui um convite aos nossos leitores: que eles possam ser testemunhos vivos de toda a explanação doutrinária aqui desenvolvida, e não façam calar seu sensus pulchrum, maravilhando-se e abrindo-se para esta transcendência e para o flash — pois só a espiritualidade da beleza, chamada kalós pelos gregos, pode fazer o homem reencontrar-se com a presença da Beleza Divina —, tornando-se teokalófaros, na feliz expressão de Arboleda Mora. Diz este que quem porta algo é porque possui esse algo. Assim, “alguns dos primeiros monges da Igreja antiga eram conhecidos pela santidade de sua vida e por isso o povo os denominava teóforos — portadores de Deus. Quem expressa através de sua vida a beleza de Deus, bem pode ser chamado teokalóforo — portador da beleza de Deus”27. Quem encontra e ama, possui o que ama, e deve ser, portanto, portador do que possui.

É neste sentido que podemos definitivamente terminar com Dostoievski, com toda propriedade: “a beleza salvará o mundo”! Pois, se “a alma maravilhável é uma alma maravilhosa, capaz de fazer maravilhas”28, com almas maravilháveis e maravilhosas, que se relacionam e se unem a Deus, reconhecendo a maravilha da criação e da redenção, maravilhas podem ser feitas neste mundo e a face da Terra pode ser renovada.

1BENTO XVI. Welcoming Celebration by the Young People Address of His Holiness Benedict XVI. Barangaroo, Sydney Harbour, 17/07/2008.
2Todo ente possui algumas qualidades inerentes ao seu próprio ser, que são suas propriedades intrínsecas, as quais vão além, transcendem a ordem categorial. E, como tais, acrescentam algo ao conhecimento do ente, estando sempre presentes nele e intimamente ligadas entre si. São chamadas, por isso, de transcendentais e costuma-se reduzi-las a quatro: unum, verum, bonum, pulchrum — a unidade, a verdade, o bem e a beleza. Sobre este tema, ver FORMENT, Eudaldo. Id a Tomás: Principios fundamentales del pensamiento de Santo Tomás. 2.ed. Pamplona: Fundación Gratis Date, 2005, p.66-74.
3Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. La “primera mirada” del conocimiento y la educación: un estudio de casos. Tese de Mestrado em Psicologia. Bogotá: Universidade Católica de Colômbia (UCC). Faculdade de Psicologia, 2009, p.112.
4Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, q.5, a.2.
5CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. O primeiro olhar da inteligência. In: Lumen Veritatis. São Paulo. Ano III. N.12 (Jul.- Set., 2010); p.14.
6Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., I, q.79, a.12.
7Idem, I, q.1, a.9.
8Cf. Idem, I-II, q.27, a.1, ad.3.
9Idem, I, q.5, a.4, ad.1.
10VILELA. Orlando O. Alma criadora de símbolos. 2.ed. Belo Horizonte: Diálogo, 1954, p.100-101.
11VON BALTHASAR, Hans Urs. Gloria: Una estética teológica. La percepción de la forma. Madrid: Encuentro, 1985, p.22.
12CLÁ DIAS, La “primera mirada” del conocimiento y la educación: un estudio de casos, op. cit., p.110.
13SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., I-II, q.27, a.1, ad.3.
14Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Contemplar o “cone do Fujiyama” — ver as coisas na sua ordem ideal paradisíaca: Palestra. São Paulo: 10 nov. 1989.
15VON BALTHASAR, Hans Urs. El problema de Dios en el hombre actual. 2.ed. Madrid: Castilla, 1966, p.139.
16Cf. SANTO AGOSTINHO. Sermo CXLI, c.2, n.2: ML 38, 776; Enarratio in Psalmo CXLVIII, n.15: ML 36, 1947.
17SOTO POSADA, Gonzalo. La estética medieval. In: Cuestiones Teológicas y Filosóficas. Medellín. UPB. N.43-44 (1989); p.171.
18SOTO POSADA, Gonzalo. El arte y el artista en la Baja Edad Media. In: Cuestiones Teológicas. Medellín. UPB. v.XXXV, N.83 (Jan.-Jun., 2008); p.136.
19SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.I, c.1, n.1: ML 32, 661.
20Cf. ECO, Umberto. Arte y belleza en la estética medieval. 2.ed. Barcelona: Lumen, 1999, p.13-14.
21Idem, p.15.
22Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A fidelidade ao alcandorado: Palestra. São Paulo, 16 jun. 1978.
23CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O “flash”, o que é?: Conferência. São Paulo: 15 maio 1973.
24PONTIFÍCIO CONSELHO DA CULTURA. Concluding Document of the Plenary Assembly – 27-28 March 2006 – The Via pulchritudinis. Beauty as a Way for Evangelisation and Dialogue. 2, 2.2. In: Culture e Fede. Civitas Vaticana: Pontificium Consilium de Cultura, 2006, v.XIV/2, p.121.
25RATZINGER, Joseph. A beleza e a verdade de Cristo. In: Communio. Revista Internacional de Teologia e Cultura. v.XXVII, N.4 (Out.-Dez., 2008); p.920; 924.
26CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Beleza e Nova Evangelização. In: Lumen Veritatis. São Paulo. Ano IV. N.14 (Jan.-Mar., 2011); p.25.
27ARBOLEDA MORA, Carlos Ángel. Um carisma encantador. Os Arautos do Evangelho como teokalófaros. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.99 (Mar., 2010); p.36.
28CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A admiração é a nossa estrela de Belém: Palestra. São Paulo, 13 maio 1988.

Experiência Mística – exclusiva dos grandes místicos?

Irmã Maria Cecília Seraidarian,EP

O termo experiência, do latim experientia, tem vários significados, porém, a maioria deles possui em comum o fato de referir-se a uma apreensão imediata de uma realidade ou de “processos internos”. Filosoficamente, experiência tem dois sentidos fundamentais: como confirmação ou possibilidade de confirmação empírica de dados e como vivência de algo “dado”, antes de qualquer reflexão ou predicação. A experiência pode, portanto, designar a apreensão de “evidências” de caráter não-natural, isto é, místicas . Neste último caso, a experiência, o fato de ter “sentido”, “provado”, é fundamental para tornar crível o testemunho de quem fala do sobrenatural, de Deus . A palavra mística, do grego mystikós (o que concerne aos mistérios), por sua vez, pode ser definida como a atividade espiritual que procura efetuar a união da alma com a divindade. O contato com o divino, para o neoplatonismo, provoca uma iluminação interior que permite conhecer o ser da realidade divina . A mística é a união da alma com o seu Primeiro Princípio.

Experiência mística seria propriamente uma experiência do divino, o encontro com o divino de pessoa a pessoa; é um “sentir” a presença de Deus, um sentir-se tocado por Ele no mais íntimo. Esse “sentir” dá a certeza de que é Deus mesmo quem fala. A mística possui um extraordinário poder revelador, prefigurando a própria visão beatífica . É distintivo da experiência mística, ademais de unir o homem ao Absoluto, uma forma de conhecimento espiritual que não se deixa apreender conceitualmente nem se traduz em palavras . Outro elemento constitutivo da experiência mística é a absoluta manifestação, a absoluta iniciativa divina, que penetra no ser humano transformando-o, ampliando seus limites, fazendo-o apreender diretamente e sem mediações a presença do Infinito .

Sao_Joao_da_cruzSão João da Cruz, ao descrever as purificações da alma nas noites escuras e a posterior luz que a invade, elevando o espírito a um sentir divino, estranho e alheio a todo modo humano, assim se expressa: “a alma virá a ter um novo senso e conhecimento divino, muito abundante e saboroso, em todas as coisas divinas e humanas, que não pode ser encerrado no sentir comum e no modo de saber natural; porque então tudo verá com olhos bem diferentes de outrora, – diferença essa tão grande, como a que vai do sentido ao espírito” . Acrescenta, ainda, que esse conhecimento místico e amoroso ilumina a vontade e, ao mesmo tempo, fere e ilustra o entendimento, infundindo certo conhecimento e luz divina, com tanta delicadeza e suavidade, que a vontade se afervora extraordinariamente .

Composto de corpo e alma, matéria e espírito, inseparáveis , o ser humano necessita das exterioridades para, através de uma ação harmônica e complementar dos sentidos e da inteligência, conhecer o mundo. Ou seja, é pelos sentidos que se dá o conhecimento natural. O conhecimento sobrenatural ou místico não tem necessidade de passar pelos sentidos, é uma comunicação direta de Deus no fundo da alma. É uma espécie de iluminação que, atuando sobre a inteligência, vontade e sensibilidade, transporta o espírito humano para uma ordem metafísica e sobrenatural. A impressão causada pela experiência do divino proporciona uma clareza especial de visão, produzindo um amor que eleva a pessoa acima do seu próprio nível e a enche do desejo de dedicação, tornando-a entusiasmada e ansiosa por entregar-se .

A duração dos fenômenos místicos pode variar; geralmente eles são muito curtos, algo à maneira de um relâmpago ou flash, entretanto, deixam na alma marcas indeléveis. Nesse sentido, Santa Teresa, tratando das manifestações da “Sacratíssima Humanidade” de Jesus Cristo, afirma: “E, embora seja com tanta presteza, que a poderíamos comparar à de um relâmpago, fica tão esculpida na imaginação esta imagem gloriosíssima, que tenho por impossível que se lhe tire até que a veja onde sempre a possa gozar” . Longe de ser uma “via extraordinária”, exclusiva dos grandes místicos experimentais, a mística faz parte da experiência transcendente comum, “ordinária”. Sem “sentir” a proximidade do Ser Absoluto – causa primeira e fim último de todas as coisas –, sem “experimentar” a possibilidade de unir-se a Ele, o ser humano ficaria abalado em sua certeza axiológica e ontológica, perderia a noção do seu próprio ser.