A elevação da mente a Deus!

Ir Lays Gonçalves de Sousa, EP

Santo_Inacio_Antioquia

A multidão esperava delirante o momento do sangrento espetáculo. Vaias e escárnios ressoavam por aquele imenso edifício, o qual se tornaria túmulo e altar de glória de tantos bem-aventurados. Já se podiam contemplar os brutos animais, prontos para irromperem na arena e darem vazão aos instintos de sua voraz natureza. Porém, tais irrisões em nada perturbavam a paz de alma que acompanhava o zeloso pregador de Jesus Cristo, Santo Inácio de Antioquia. Nem o aparente fracasso diante dos homens, nem o rugir das feras famintas poderiam amedrontar ou diminuir os ardores de entusiasmo que inflamavam seu nobre coração. À agitação e ansiedade sucedeu um silêncio e grande suspense na turba pagã. As bestas avançavam velozmente, prontas para devorar o venerável ancião, quando um gesto de mão, de incomparável majestade, as deteve a meio caminho. Que teria sucedido? O homem de Deus desejava, antes de consumar seu holocausto e chegar ao termo de seus anelos, dirigir aos céus uma última e fervorosa oração. Tal era a convicção de ser atendido que estancou mesmo os leões devoradores. Embora almejasse ser triturado como trigo para ser oferecido como hóstia pura, pedia a Deus que atendesse aos rogos dos cristãos em fazer permanecer algo daquele doloroso martírio, a fim de estimular-lhes a fé. Finalmente, com gesto ainda mais decidido, o Santo deu ordem às feras, que em poucos segundos dilaceraram as carnes daquele novo Serafim.

Ao analisar o transcorrer dos séculos, quão belo é constatar a soma incalculável de almas que se destacaram como arquétipos de virtude e heroísmo! Quem não se enche de entusiasmo ao deparar-se com o garbo fogoso dos mártires, as austeridades dos anacoretas, o ímpeto evangelizador dos missionários, a sabedoria irresistível dos Doutores, a simplicidade e pureza das virgens e a astúcia e valentia daqueles que combatem pela Santa Igreja?

Realmente, não podem passar despercebidos varões e damas que ultrapassaram a fragilidade da natureza humana decaída pela culpa original, fazendo de suas vidas o alicerce onde, mais tarde, tantas almas buscariam o apoio para a prática do bem, tornando-se alvo de admiração e espetáculo tanto para os homens como para os Anjos.

“Um braço semelhante ao de Deus, e uma voz troante como a dele” (Jó 40,4): bem podemos aplicar esta passagem da Escritura ao episódio narrado acima. De fato, para submeter a ferocidade de uma natureza desprovida de inteligência e imperar sobre ela quando se deseja, é fundamental possuir uma vontade férrea intimamente unida ao Criador.

Sem Mim nada podeis fazer

No entanto, devido à tendência natural ao orgulho, somos levados a julgar que o homem possui uma vontade suficientemente vigorosa para, sozinho, galgar o píncaro da santidade. Nada, porém, nos seria possível sem um contínuo auxílio da Providência, pois, como proclamou Nosso Senhor, sem Ele, absolutamente nada de bom podemos fazer (cf. Jo 15, 5). Qual homem nunca sentiu o peso esmagador de suas misérias e infortúnios? Por mais orgulhosos que possamos ser, é impossível não admitir que tenhamos falhado na realização de nossos bons propósitos ou, ainda, de nossas simples obrigações.

Quando meditamos sobre a Santa Ceia e repassamos as palavras de Jesus: ‘Sem Mim nada podeis fazer’ (Jo 15, 5), quiçá não meçamos a extensão desse “nada”, e o sentido estrito em que deve ser entendido. […] Sob o influxo da graça, começa a secar-se o pântano do erro e tornamo-nos capazes de dirigir nossas ações conforme os critérios mais nobres, porque eles passam a nos apetecer mais que as solicitações inferiores. Nasce a força para cumprir os bons propósitos, aquietam-se as paixões, a fomes peccati deixa de ser avassaladora e se estabelece uma harmonia semelhante à que possuía nosso pai Adão no Paraíso. 1

Assim, “se tivermos a graça de praticar um ato bom, devemos imediatamente reportá-lo ao Criador, restituindo-Lhe os méritos, pois estes Lhe pertencem, e não a nós. ‘Quem se gloria, glorie-se no Senhor’ (I Cor 1, 31), adverte-nos o Apóstolo”.2

Constantemente devemos nos dirigir a Nosso Redentor com a mais profunda e sincera humildade, como nos ensina Mons. João Scognamiglio Clá Dias: “Ó meu Jesus, sem Vós nada posso fazer, meus méritos são nulos; minha inteligência, turva; minha vontade, enferma; meus sentimentos, enlouquecidos. […] Em união convosco sou capaz das mais ousadas virtudes, minha alma voa. Vós sois a fonte de todo bem existente em mim”. 3

Referindo-se à nossa incapacidade natural para o exercício ininterrupto da virtude, atesta São Tomás de Aquino:

No estado de corrupção, o homem falha naquilo que lhe é possível pela sua natureza, a tal ponto que ele não pode mais por suas forças naturais realizar totalmente o bem proporcionado à sua natureza. Entretanto, o pecado não corrompeu totalmente a natureza humana a ponto de privá-la de todo o bem que lhe é natural. […] Ele [o homem] parece um enfermo que pode ainda executar sozinho alguns movimentos, mas não pode mover-se perfeitamente como alguém em boa saúde, enquanto não obtiver a cura com a ajuda da medicina.4

Essa medicina, da qual todos necessitam, encontra-se no relacionamento com Deus. Adão gozava no Paraíso de altíssimos colóquios com o Criador, os quais cessaram após a terrível desobediência. Contudo, estaria este relacionamento encerrado para sempre? Teria o Divino Artífice apartado o rosto de Sua obra-prima? Não! Sendo Deus a Suma Bondade, concedeu-nos o unguento sobrenatural e infalível de estarmos constantemente amparados pela sua presença: a oração!

Estando, porém, as obras humanas tisnadas pelo pecado, nossas súplicas possuem desprezível valor. É preciso, portanto, depositá-las numa preciosa bandeja de ouro, a fim de serem oferecidas a Deus. Quem seria capaz de, apenas com um sorriso afável, conquistar a benevolência do Altíssimo entregando-lhe míseras orações e comprando-nos os favores desejados? “Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável”.5 De fato, Ela é o grampo de ouro que une Nosso Senhor Jesus Cristo a toda criação. 6

1 SEQUEIRA, Joshua Alexander. No coração do homem, a inscrição de Deus. Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 109, jan. 2011. p. 22.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O centro deve estar sempre ocupado por Deus. Arautos do Evangelho. São Paulo, n. 98, fev. 2010, p. 16.
3 Id. Via Sacra. São Paulo: Associação Nossa Senhora de Fátima, 2011, p. 6.
4 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q. 109, a. 2, resp. (Para as citações da Suma Teológica, neste trabalho será sempre utilizada a tradução das Edições Loyola
5 SÃO BERNARDO, apud SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, [S. d.] n. 85. p. 90.
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio apud CLÁ DIAS. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado.2. ed. São Paulo: Associação Católica Nossa Senhora de Fátima, 2010. v. I.p. 79.

Aquele que portava Cristo no seu coração (cont)

Continuação do post anterior

Ir. Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

“Procuro aquele que morreu por nós!”

Entretanto, se as cartas deste insigne doutor manifestam toda a riqueza de seu ensinamento teológico, uma outra ainda, aquela enviada aos romanos, deixa entrever o sublime ardor de sua alma, elevada aos píncaros da mais pura mística. Tendo-lhe chegado a notícia de que os fiéis de Roma procuravam interpor toda sua influência para afastar dele a mortal condenação, apressou-se em dirigir-lhes, desde Esmirna, uma comovedora súplica: “Tenho escrito a todas as Igrejas e a todas elas faço saber que com alegria morro por Deus, contanto que vós não mo impeçais. Suplico-vos: não demonstreis por mim uma benevolência intempestiva. Deixai-me ser alimento das feras, porque, através delas, pode-se alcançar a Deus. Sou trigo de Deus: que seja eu triturado pelos dentes das feras para tornar-me puro pão de Cristo!

Instigai, ao contrário, os animais para que neles encontre o meu sepulcro e nada reste de meu corpo para não ser pesado a ninguém, depois de adormecer. Então serei verdadeiro discípulo de Cristo, quando o mundo não mais vir sequer o meu corpo. Suplicai a Deus por mim, que por este meio me torne uma hóstia para Deus. […]

Que nada, tanto das coisas visíveis quanto das invisíveis, segure o meu espírito, a fim de que eu possa alcançar a Jesus Cristo. Que o fogo, a cruz, um bando de feras, os dilaceramentos, os cortes, a deslocação dos ossos, o esquartejamento, as feridas pelo corpo todo, os duros tormentos do diabo venham sobre mim para que eu ganhe unicamente a Jesus Cristo! […]

Procuro aquele que morreu por nós: quero aquele que por nós ressuscitou. Meu nascimento está iminente. Perdoai-me, irmãos! Não me impeçais de viver, não desejeis que eu morra, pois desejo ser de Deus. […]

Vivo, vos escrevo, desejando morrer. Meu amor está crucificado. Não há em mim um fogo que busque alimentarse da matéria, apenas uma água viva e murmurante dentro de mim, dizendo-me em segredo: ‘Vem para o Pai!’ […]

Se for martirizado, vós me quisestes bem. Se for rejeitado, vós me odiastes.” 7

Expressões de tão heroica caridade só poderiam brotar de um coração tomado pela graça do martírio de maneira superabundante. Com efeito, assim nos explica São Tomás de Aquino: “Entre todos os atos de virtude, o martírio é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa, quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais ‘até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis’, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo a palavra da Escritura: ‘Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos.’”. 8

Um lutador resignado só pode ser traidor

Esta excelência da caridade que pervadia o interior de nosso santo, só tendia a crescer à medida em que se sucediam as etapas da viagem que o aproximavam da tão almejada meta. Embarcando no porto de Dirraquio — sempre sob o olhar vigilante dos guardas, os quais ele mesmo chamava de “dez leopardos”, a causa dos maus tratos que lhe infligiam — enfrentou uma longa travessia, bordejando o sul da Itália e, por fim, desembarcou em Óstia, a 20 de dezembro do ano 107, último dia das festas públicas que se celebravam em Roma.

Na orgulhosa metrópole dos imperadores comemorava-se ainda o triunfo de Trajano sobre os dácios. Durante 123 dias haviam-se prolongado os espetáculos nos quais morreram 10.000 gladiadores e 12.000 feras. O bispo Inácio era esperado com ansiedade pela turba pagã, pois as vítimas ilustres e de aspecto venerável exerciam maior atração nos jogos circenses. Por isso, os soldados para lá conduziram-no sem demora. Os cristãos receberam-no às portas da cidade, com manifestações de sincera admiração e respeito. Alegravam-se ao vê-lo, mas lamentavam, ao mesmo tempo, que lhes fosse arrebatado tão cedo. Rogaram-lhe, então, que obtivesse de Deus o favor de que algumas relíquias suas lhes fossem deixadas após o martírio. Embora contra sua vontade — pois ele desejava ser devorado por inteiro — o santo varão acedeu bondosamente em fazer-se cargo de pedido tão filial.

Arrastando suas cadeias, Inácio atravessou as ruas pavimentadas da capital do império: ao longe podia divisar os imponentes muros do Coliseu dominando o vale, circundado pelos montes Palatino, Esquilino e Célio. Aquele edifício representava para ele o termo de seus anelos, a realização de suas esperanças mais íntimas, a consumação de seu holocausto. Caminhava apressadamente, não com a resignação de um condenado, mas impelido pelos ardores de entusiasmo que não mais cabiam dentro de sua alma, convicto de que o lutador resignado é traidor. Aquele edifício servir-lhe-ia de túmulo e de altar, ao passo que seria o pedestal de onde seu espírito voaria ao céu.

“Desejaria ser triturado como o trigo”

Uma numerosa multidão acorrera ao Coliseu para presenciar o sangrento espetáculo e se deliciar com o destroçamento do corpo do mártir. Este, sereno e alegre, não manifestou a menor vacilação quando as grades foram abertas e entrou no vasto anfiteatro, à espera do trágico momento em que as bestas ferozes fossem soltas. As vaias e os escárnios daqueles pagãos para ele nada significavam. Pelo contrário, eram-lhe uma razão a mais para crer na invisível coorte de bem-aventurados a esperá-lo com uma palma e uma coroa.

Ouve-se um hurra na turbamulta, sucedido por silêncio e um grande suspense: os famintos leões irromperam na arena e, impetuosos, avançaram sobre a pura e inocente vítima para devorá-la. Entretanto, com a majestade e império que possuem as almas tomadas pelo Espírito Santo, o mártir estancou-as a meio caminho, com um simples gesto de mão. Num movimento solene, ajoelhou-se e, elevando os braços ao céu, clamou em alta voz: “Senhor, aqueles que me acompanharam e que são também vossos filhos, pediram-me que rezasse a fim de que algo lhes sobre deste martírio, para estímulo de sua fé. Eu, porém, desejaria ser triturado como o trigo para vos ser oferecido como hóstia pura. Senhor, fazei a vontade deles e também a minha, eu vos peço”.

Após a oração, assistida com estupefação pela horda criminosa e pagã e pelas feras, com respeito, eis que ainda mais grandioso e nobre gesto permitiu a estas últimas sair de seu miraculoso encantamento e dar vazão aos instintos de sua voraz natureza.

Em poucos minutos, lá entravam os gladiadores a agrilhoar aqueles animais que acabavam de saciar seu bestial apetite com as carnes de um novo serafim. A arena vazia, o espetáculo terminado, retirou-se vagarosa e frustrada a assistência. Que demonstração de fé e de nobreza haviam presenciado!

“Põe-me como um selo em teu coração”

Os cristãos por ali ainda permaneceram à espera do cair do sol. E quando o manto da noite passou a cobrir a cidade de Roma, penetraram na arena à procura das poeiras tornadas relíquias ao serem embebidas pelo sangue daquele que agora os precedia na glória celeste.

Um milagre! Encontraram intactos um fêmur e o coração! Tomados de sobrenatural entusiasmo, caminharam sem medir distâncias, rumo às catacumbas e depois de algumas horas, constataram, à luz das lamparinas, outro milagre: num círculo, as veias e artérias do coração do santo mártir, constituíam as célebres palavras: Iesus Nazarenus, Rex iudeorum.

Inácio, o Teóforo, o portador de Deus, atestara seu nome com aquele comovedor prodígio. Seu coração amante fora subjugado e modelado pelo Amado, segundo aquele pedido do Cântico: “Põe-me como um selo em teu coração” (Ct 8, 6). Nem as tribulações, nem as correntes, nem os suplícios, nem a própria morte o haviam podido separar do amor de Cristo. Por sua santa vida, rica em pregações, em caridade e exemplos, assemelhara-se ao Divino Mestre, imitando-o enquanto verdadeiro Pastor das ovelhas. Por sua generosa entrega levada ao extremo da imolação, alcançara para sempre aquela “única coisa necessária” (Lc 10, 42): o convívio eterno com Aquele a quem só procurara na Terra, Jesus!

A este santo varão de Deus bem poderiam ser aplicadas as belas palavras de um autor medieval: “Forte é o amor, que tem poder para privarnos do dom da vida. Forte é o amor, que tem poder para restituir-nos o gozo de uma vida melhor. Forte é a morte, poderosa para despojar-nos do revestimento deste corpo. Forte é o amor, poderoso para nos roubar os despojos da morte e no-los entregar de novo.

Forte é a morte, a ela o homem não pode resistir. Forte é o amor que pode vencê-la, embotar-lhe o aguilhão, travar-lhe o ímpeto, quebrantar-lhe a vitória.” 9

E uma vez mais caiu a noite sobre a grandiosa mole do Coliseu. As areias do circo pagão, regadas pelo sangue daquele que portara a seu Redentor no peito, transformaramse de novo em campo arado e fértil, de onde germinariam muitos outros filhos da Esposa Mística de Cristo.


1)CRISTIANO, Año. BAC, Madrid, 2006, v. X, p. 426-434.
2 ) Carta aos Magnésios, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 473.
3 ) Carta a São Policarpo, ibidem. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 510.
4 ) CRISTIANO, Año. Ibidem, p. 429.
5 ) BUTLER, Alban. Vidas de los Santos de Butler. México: John W. Clute S.A. 1968, v. I, p. 220-224.
6) Carta aos Esmirnenses, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 122.
7 ) Carta aos Romanos, ibidem. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 289290,293-294.
8 ) Suma Teológica II-II q.124 a.3
9) Tratados de Balduíno da Cantuária, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 1999, v. IV, p. 59-60.
Revista Arautos do Evangelho – Outubro 2007

Aquele que portava Cristo no seu coração

Ir. Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP

Quem já teve a oportunidade de viajar para Roma e conhecer seus antiquíssimos monumentos — obras-primas da inteligência e da capacidade de nossos ancestrais — certamente terá experimentado uma forte atração ao deparar com o anfiteatro Flaviano, mais conhecido pelo nome de Coliseu.

Sólido e bem edificado, com suas galerias de arcos tipicamente romanos, ele atravessa os séculos, insensível ao tempo, como imagem de um passado que poucos sabem admirar. Com efeito, hoje em dia o Coliseu é objeto da incessante curiosidade dos turistas que o visitam durante todo o ano. Muitos formam intermináveis filas para nele ingressar, com o desejo de fotografá-lo e depois vangloriar-se de ter estado num dos locais mais famosos do mundo; outros percorrem-no com o mero intuito de constatar seu valor artístico e estrutural; poucos são, porém, os que para lá se dirigem na intenção de rezar.

O Coliseu, teatro de crueldades

O imperador Vespasiano, invejoso da afetuosa lembrança que o povo guardava a respeito de César Augusto e sabendo que este, antes da sua morte, prometera construir um imenso anfiteatro que excedesse em esplendor todos os edifícios do mundo, concebeu a idéia de realizar este plano e assim rivalizar em fama com aquele seu predecessor. No segundo ano após sua ascensão ao trono (72 d.C.), Vespasiano iniciou sua obra. Entretanto, também a ele não seria dado ver o objeto de suas ambições, e a morte colheu-o antes de ser completada a construção, que só seria dedicada no ano 80 d.C., por seu filho Tito. Este último teve grande parte na ereção do anfiteatro, empregando nos trabalhos aproximadamente 50 mil prisioneiros, trazidos de sua vitoriosa campanha na Judéia.

Construída especialmente para ser palco daqueles jogos de gladiadores que os romanos tanto apreciavam, a gigantesca mole estava, porém, reservada para servir de quadro a combates de fé e de heroísmo muito mais gloriosos do que desprezíveis eram aqueles espetáculos pagãos! Se os divertimentos do Coliseu deixaram uma mancha no passado por causa das horríveis cenas de crueldade ali representadas, outros fatos, sob o ponto de vista sobrenatural, constituem uma das mais belas páginas da história da Santa Igreja.

Pedestal de bem-aventurados

É com espírito de piedade que deve penetrar no Coliseu o verdadeiro peregrino católico. Bastará permanecer em silêncio por um curto tempo, para perceber os imponderáveis e inverossímeis de fé, força e coragem que habitam sob essas numerosas arcadas. É evocativo esse edifício, no qual cada pedra tem um belo fato para contar e até as gramas e os musgos mais recentes desejariam dizer uma palavra sobre aquele passado feito de sangue, dor e glória. Contemplando mais detidamente essa arena, outrora pedestal de tantos bem-aventurados, podemos ainda divisar os compartimentos onde as feras eram mantidas na fome. Vê-se também ao lado destes as celas que aprisionaram os que hoje constituem uma verdadeira legião, no gozo da visão beatífica. Essas veneráveis ruínas, nas quais refulge um misterioso brilho sobrenatural, parecem cantar, ao longo dos séculos, a célebre frase latina: sine sanguine non fit remissio; lembrando aos homens que, para ser verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, é necessário primeiro segui-Lo até as ignomínias do Calvário para depois participar do triunfo da ressurreição. Sim, foi sobre essas pedras benditas, banhadas de sangue católico, que nasceram as raízes da era em que a filosofia do Evangelho dominou sobre todos os povos.

Ouçamos, pois, atentos, um dos emocionantes feitos que esses valos, essas muralhas e arcadas têm a nos narrar.

Inácio, o Teóforo

Corria o ano 106 da era cristã. O imperador Trajano festejava sua vitória sobre Decébalo, rei da Dácia. Querendo manifestar seu reconhecimento aos deuses, a quem atribuía seu recente sucesso, Trajano organizou uma perseguição contra os cristãos que negassem a existência dessas divindades. Entre os condenados estava um venerável ancião, presa de grande valor, — pois se tratava do bispo de uma das cidades de maior importância naquela época — varão que gozava de muita estima e autoridade entre os fiéis da Ásia Menor, por ter sido discípulo do evangelista São João e designado pelo próprio São Pedro para assumir o cargo naquela Igreja: Inácio de Antioquia.

Segundo uma antiga tradição, o primeiro encontro entre o imperador e Inácio dera-se quando este último, sabendo da passagem do césar por sua diocese, fora apresentar-se voluntariamente a ele. Submetido a um interrogatório no qual Trajano tratou-o de “espírito malvado”, respondeu o santo com majestade: “Ninguém pode chamar a Teóforo de espírito malvado”. “Quem é o Teóforo ou portador de Deus?” perguntaram-lhe. “É aquele que leva a Cristo em seu peito…” Instado pelo imperador para que se explicasse mais sobre essa afirmação, o homem de Deus declarou: “Está escrito: ‘Habitarei e andarei no meio deles’” (2 Cor 6, 16). Assim, por essas palavras, ele mesmo dava testemunho de um milagre que viria a ser confirmado após o seu martírio.

Trajano ordenou, pois, que Inácio fosse acorrentado e conduzido a Roma, sob a custódia de dez soldados, para ali ser lançado às feras no anfiteatro Flaviano.

Dolorosa viagem, desfile triunfal

Grande foi a consternação dos fiéis ao conhecerem a sentença que recaíra sobre seu amado pastor. Ele, pelo contrário, regozijava-se e não deixava de dar graças a Deus por ter sido achado digno de tão grande misericórdia. Já antes da partida, embarcando no porto de Selêucia, a notícia de sua detenção espalhara-se por aquelas regiões e de todas as partes acorriam os cristãos para vê-lo passar e dar um último adeus àquele que os precederia no Reino dos Céus. A dolorosa viagem viu-se, então, transformada em verdadeiro desfile triunfal. Em Esmirna, o bispo São Policarpo, acompanhado de seu rebanho, acolheu-o com manifestações de homenagem e respeito. Também as comunidades de Éfeso, Trales e Magnésia foram-lhe ao encontro em grande multidão, desejosas de pedir sua bênção e testemunhar os padecimentos daquele atleta de Cristo. Ele, de seu lado, não esquecera a missão que o Senhor lhe confiara e continuava a exercer seu ministério, apesar de ter as mãos apertadas por grilhões. A muitos batizou pelo caminho, a outros edificou pelas suas palavras cheias de unção, e a um número incontável inflamou na caridade, arrastando-os com seu exemplo a acompanhá-lo no martírio.

Seu zelo incansável levou-o a escrever sete cartas, dirigidas àquelas mesmas Igrejas que tão fervorosamente o haviam recebido. Seus escritos, verdadeiros tesouros de doutrina e espiritualidade, podem ser considerados como “a segunda formulação doutrinária cristã”. 1

Zeloso pregador da doutrina

Uma de suas principais preocupações estava na união que os fiéis deviam manter com Jesus Cristo, através da legítima hierarquia: bispos e presbíteros. Assim, exortava ele na carta aos magnésios: “Esforçai-vos por ficar firmes na doutrina do Senhor e dos apóstolos, para que tudo quanto fizerdes tenha bom êxito na carne e no espírito, pela fé e pela caridade, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, com vosso digno bispo e a bem entretecida coroa espiritual de vosso presbitério, juntamente com os diáconos agradáveis a Deus. Sede submissos ao bispo e uns aos outros como, em sua humanidade, Jesus Cristo ao Pai, e os apóstolos a Cristo e ao Pai e ao Espírito, para que a união seja corporal e espiritual.” 2 Em outra passagem, aconselhava a seu amigo Policarpo: “Tem cuidado pela unidade, pois nada há de melhor.” 3

Ao bispo de Antioquia é devida a honra de ter dado à Santa Igreja, por primeira vez, o glorioso título de católica: “Onde estiver o bispo, ali estarão também as multidões, da mesma forma que onde estiver Jesus Cristo, ali estará a Igreja Católica”. 4

Também foi ele o defensor de um ponto que só viria a ser elevado à categoria de dogma séculos mais tarde: o parto virginal da Santa Mãe de Deus. Assim escreveu aos efésios: “ao príncipe deste mundo foi ocultada a virgindade de Maria, seu parto e também a morte do Senhor”. 5 Aos seus caros esmirnenses também afirmava: “Crendo de igual modo que verdadeiramente nasceu da Virgem, foi batizado por João ‘para que nele se cumprisse toda a justiça.’” 6

A doutrina de Inácio era clara e segura; ele a haurira dos lábios daquele discípulo a quem tantos mistérios haviam sido revelados ao repousar a cabeça sobre o peito do Verbo Encarnado e nos longos anos de convivência com Maria Santíssima.

Continua no próximo post


1)CRISTIANO, Año. BAC, Madrid, 2006, v. X, p. 426-434.
2 ) Carta aos Magnésios, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 473.
3 ) Carta a São Policarpo, ibidem. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 510.
4 ) CRISTIANO, Año. Ibidem, p. 429.
5 ) BUTLER, Alban. Vidas de los Santos de Butler. México: John W. Clute S.A. 1968, v. I, p. 220-224.
6) Carta aos Esmirnenses, in Liturgia das Horas. São Paulo: Paulus, 2000, v. III, p. 122.