“Já não sou eu que vivo”

Ir. Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

O confessor, que muito conhecia e admirava Catarina, não sabia o que pensar sobre o que esta dizia em sua última confissão. No princípio, achava tratar-se simplesmente de um exagero de expressão, próprio à nacionalidade de ambos, mas a santa de Siena continuava de modo sério:

— É verdade, Padre. Posso dizer que estou privada de meu coração. O Senhor me apareceu, abriu-me o peito do lado esquerdo, e o levou consigo.

Tentou então o Padre dissuadi-la, dizendo ser impossível continuar viva sem tal órgão. Ela, porém, retrucava dizendo que para Deus nada é impossível, e que estava convencida de não possuir mais o coração.

De fato, tempos antes, em um dia no qual a santa rezava com grande fervor o salmo de Davi: “Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza”, (Sl 50, 12) lhe havia parecido o Divino Mestre, e, tendo aberto o peito dela, tirou-lhe o coração. Daí fazer tal afirmação com tanta certeza.

E, assim, viveu sem o órgão vital durante certo tempo. Um dia, porém, estava ela na capela da Igreja dos frades pregadores, onde costumavam reunir-se as irmãs da Penitência de São Domingos. Terminada as orações, todas se retiraram. Catarina, contudo, ficou sozinha rezando. Quando já ia sair, uma forte luz a envolveu, e lhe apareceu o Senhor, tendo nas mãos um coração humano resplandecente. O Redentor se aproximou dela, abriu-lhe o peito e disse:

— Caríssima filha, como no outro dia tomei teu coração, dou-te pois agora o meu.

Catarina tomada de uma grande alegria sentia em seu interior as palavras de São Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl, 2, 20).

E no seu peito ficou para sempre a cicatriz da sublime ferida. 1

1 Cf. UNDSET, Sigrid. Santa Catarina de Siena. Trad. Maria Helena Amoroso Lima Senise. Rio de Janeiro: Agir, 1956, p. 91.